Sabe aquele velho ditado: “parece, mas não é”? Ta, eu sei, é lógico que você sabe. Eu deveria até ter vergonha de usá-lo, de tão batido que ele é, acontece que a frase martelou em minha cabeça enquanto eu lia O Ano do Pensamento Mágico, de Joan Didion. A obra tem cara de autoajuda, nome de autoajuda, preço de autoajuda (comprei em uma banca e paguei R$9,90 numa edição nova e que não é de bolso) e é um livro de Memórias, gênero no qual a autoajuda (ou textos neste tom) rola solta. Porém, a história está longe de ser uma autoajuda, tanto que rendeu a Joan o Prêmio National Book para livros de não-ficção dos Estados Unidos.
Publicado em novembro de 2005, a obra traz as memórias da escritora após a morte de seu marido, o também escritor John Dunne, que faleceu após um ataque cardíaco fulminante no final de 2003. Joan busca retratar todo o seu sofrimento após a perda, relata as suas reações e a incapacidade em aceitar o que aconteceu. Também fala das falhas em se recordar com precisão dos acontecimentos.
O livro é repleto de divagações, fluxos de consciência e flashbacks. Nesses retornos ao passado, quando vai ainda mais fundo em suas memórias, Joan pesca em diálogos algumas frases de seu marido que soaram um pouco banais quando ditas mas que, após sua morte, passaram a ser repletas de significado. O mérito da autora está em fazer isso sem deixar transparecer nenhuma sensação de arrependimento, peso na consciência ou qualquer coisa do tipo “ah, eu devia ter feito isso ou aquilo”.
Mas o drama de Joan não gira em torno apenas da morte de John. Quando o marido morreu, a filha do casal, Quintana Rôo Dunne, também estava internada devido a uma forte pneumonia. Os problemas de saúde da menina pioraram em pouco tempo, o que levou a autora a viver boa parte do seu luto em hospitais, acompanhando a garota durante longos períodos de internações, cirurgias e estadas em CTIs.
A única coisa que me levou a ler O Ano do Pensamento Mágico foram as referências que tive da obra durante minha pós-graduação (em Jornalismo Literário, caso alguém não saiba). Confesso que, mesmo após iniciar a leitura, ainda mantive um certo preconceito com relação ao livro. Errei feio! As memórias de Joan estão longe de resultar em um livrinho sobre superação e que serve “apenas” para deixar o leitor feliz. Elas expõem dramas humanos, mas sem ter a pretensão de dar qualquer tipo de solução para eles. Meses atrás esteve em cartaz em São Paulo uma peça de teatro baseada na obra, na época não tive vontade de ir assisti-la, hoje me arrependo disso.
Por fim, deixo um trecho do livro, que está estampado logo em sua capa, que se repete diversas vezes ao longo da narrativa e que pode ser considerado uma síntese da história: “A vida muda rápido. A vida muda num instante. Você senta para jantar e a vida que você conhecia acaba de repente”.
guarda aí que quero emprestado…
Oi Rodrigo, também li O Ano do Pensamento Mágico e gostei muito. É mais um ensaio pessoal e ajudou para que eu elaborasse o meu próprio ensaio pessoal para o curso de JL. Bjs.
[...] muitas vezes é vendido como auto-ajuda, mas possui qualidades muito superiores, é o bem famoso O ano do pensamento mágico, da jornalista Joan Didion. Após perder seu marido, em um episódio em que presenciou o infarto [...]