Entre os dias 28 e 30 de outubro, aconteceu em Porto Alegre o I Encontro Internacional de Jornalismo em Quadrinhos. Estive presente no evento, mas até agora não havia tido a vergonha na cara de escrever um breve relato sobre ele aqui no blog. Pois bem, lá vai.
O encontro foi muito útil para que os participantes tivessem um panorama atual do Jornalismo em Quadrinhos. O gênero ainda engatinha e continua tendo como grande referência – e quase exclusiva em termos de sucesso inquestionável – as obras de Joe Sacco. Claro que outros exemplos existem, porém aparecem de forma muito mais experimental, principalmente por estarem inseridas em mídias já estabelecidas com o jornalismo convencional.
Aliás, essa é uma questão que deverá ser pensada com relação ao Jornalismo em Quadrinhos: como convencer editores a trocar o texto por Hqs? Por que uma história que poderia ser escrita deve ser retratada em quadrinhos? Por que os meios de comunicação devem investir nisso? Por que devem contratar desenhistas para trabalharem junto com os jornalistas, que passariam a ter que atuar como roteiristas, ou se preocupar com que parte de seus jornalistas também saiba desenhar? Enfim, por que fazer o Jornalismo em Quadrinhos?
Outro ponto levantado foi como o Jornalismo em Quadrinhos, cuja realização está muito mais atrelada à arte do que o Jornalismo convencional, se adaptaria aos prazos das publicações, como a periodicidade diária de um jornal.
Acredito que estes problemas levantados podem ser resolvidos de uma maneira simples: o Jornalismo em Quadrinhos deve ser pensado para veículos exclusivos para esse gênero. Se outras publicações abrirem espaço para a modalidade, melhor. Penso que o Jornalismo em Quadrinhos pode funcionar muito bem em livros – como Joe Sacco já provou – e em revistas mensais ou bimestrais, como vem sendo realizado na Itália pelo pessoal da Mamma:
Mais do que isso, o Jornalismo em Quadrinhos teria muito a ganhar se voltasse seus olhos a produções jornalísticas menos tradicionais e menos preocupadas com o factual, como gêneros biográficos, dentre outros presentes no Jornalismo Literário, que defendo como tendo o melhor conjunto de características para servir como base para o Jornalismo em Quadrinhos.
Além disso, outros pontos inerentes ao fazer do Jornalismo em Quadrinhos foram debatidos, como processos de apuração, onde a imersão na história é essencial, e a transformação da realidade em desenhos. E foi nesse último aspecto que surgiu aquela que tem potencial para ser a grande discussão e, talvez, o calcanhar de Aquiles do gênero: há quem defenda a criação de cenas baseadas em diversos fragmentos do real. Sou contra isso. A cena no Jornalismo em Quadrinhos, assim como no Jornalismo Literário, deve ser retratada exatamente como aconteceu. Juntar fragmentos de diversos momentos para criar uma única cena é fazer algo baseado no real, mas ainda assim fictício. E não há nenhum tipo de Jornalismo com ficção.
Enfim, o I Encontro Internacional de Jornalismo em Quadrinhos serviu para dar um impulso nas discussões sobre o tema e para nortear os assuntos que devem ser pensados com maior urgência. Acredito que os frutos do evento serão colhidos com o tempo, como o aumento na produção e no número de pesquisas sobre Jornalismo em Quadrinhos. Contudo, é preciso que uma segunda (e depois terceira, quarta…) edição do evento ocorra, para que o debate e as trocas de ideias sejam contínuos.
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