A literatura brasileira é o berço de personagens marcantes. Autores como Machado de Assis, Monteiro Lobato e Nelson Rodrigues, entre outros tantos, são responsáveis pela construção de seres capazes de criar uma forte identificação com o público. É raro encontrarmos um leitor de livros que não tenha os seus personagens preferidos vivos em sua mente. Muitas vezes, essas referências vêm da infância, quando a empatia com as figuras é fundamental para que nos apeguemos a uma obra e não a larguemos até devorá-la toda. Adultos, tendemos a gostar de personagens de autores clássicos, que, de tão vivos, acabam íntimos e praticamente reais, a ponto de refletir em comportamentos ou análises existenciais, ao menos é o que apontam as entrevistas que veremos a seguir.
Foi a literatura a responsável por auxiliar a produtora editorial e analista de mídias sociais Juliana Vargas Ferreira a compreender melhor seus sentimentos, dúvidas e anseios. “O contato com personagens tão diversos, seus universos e suas histórias, permitia que eu visse o mundo a partir de outros pontos de vista”, diz. Em sua infância, divertia-se com Menino Maluquinho, de Ziraldo, e Raquel, de A bolsa amarela, escrito por Lygia Bojunga. Além disso, gostava de se aventurar com Magrí, integrante dos Karas, grupo de jovens aventureiros criado por Pedro Bandeira e presente em diversos livros. “Ela era inteligente, habilidosa e sabia como ser amiga dos meninos – o que, na época, não era tão fácil para mim.” Já mais velha, Juliana admirou-se com a ironia de Brás Cubas, de Machado de Assis, e com o poder de vingança de Aurélia Camargo, protagonista do livro Senhora, de José de Alencar.
Ao ler O triste fim de Policarpo Quaresma, de Lima Barreto, o jornalista Conrado Passarelli identificou no protagonista uma síntese do espírito de batalha do povo brasileiro, principalmente daqueles que passam por cima das dificuldades e mantêm-se firme em seus ideais. “Apesar de o personagem não ter sido bem-sucedido ao longo do livro, ele segue defendendo sua causa, como Dom Quixote lutando ingenuamente contra os moinhos de vento”, compara.
O escritor, músico, artista gráfico e jornalista Lehgau-Z Qarvalho, autor de A teoria das sombras, considera ingrata a tarefa de eleger as melhores figuras de uma literatura tão rica como a brasileira. Contudo, de O beijo no asfalto, de Nelson Rodrigues, cita Arandir. “Uma vítima incondicional de uma trama muito bem arquitetada.” Da mesma obra, lembra-se de Amado Ribeiro, um jornalista com valores morais questionáveis. “É aula sobre como o jornalismo não deve ser exercido”, argumenta. Lehgau também se lembra de Qorpo Santo, dramaturgo que teve sua vida ficcionalizada no livro Cães da província, de Luiz Antonio de Assis Brasil. “Ele era uma figura inquietante e irreverente. Ao retratar satiricamente o cotidiano, perturbou a sociedade provinciana de sua época.” Já na hora de escrever, Lehgau praticamente incorpora seus personagens principais. “Vivo mais de uma vida quando escrevo. Em geral, procuro viver o protagonista. Para escrever, é preciso se transmutar; ser outro por breves ou longos momentos.”
Na hora de escrever, outra técnica é a utilizada por José Roberto Torero, autor de O Chalaça e O evangelho de Barrabás, entre outros. O escritor constrói seus personagens ao longo da escrita de cada obra. “Como faço várias versões dos meus livros, eles vão engordando, ganhando novas características e algumas vão sendo reforçadas”, explica.
Ao lembrar seus personagens preferidos, Torero não foge dos clássicos. De Monteiro Lobato, cita a falastrona boneca de pano Emília. De Machado de Assis, admira Brás Cubas e de Guimarães Rosa, lembra-se de Diadorim, personagem de Grande Sertão: Veredas, símbolo da presença da mulher no sertão, cenário dominado pela figura masculina.
Mas podemos identificar algo em comum entre os grandes personagens de nossa literatura? Sim. Ao menos é o que afirma o professor da área de Estudos Comparados de Literaturas de Língua Portuguesa da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (USP), Emerson Inácio. “Em algum grau, todos trazem em si certo ‘drama de ser’. Trazem certo incômodo diante das coisas, dos espaços em que estão inseridos, diante do mundo”, explica o fã de todos os personagens de Nelson Rodrigues, em especial os presentes nas obras do ciclo chamado Tragédias Cariocas, pela sua “excessiva e desconcertante humanidade”. Também cita Macabéa, de A hora da estrela, de Clarice Lispector, em razão da “complexidade disfarçada de simplicidade” e Timóteo, de Crônica da casa assassinada, escrito por Lúcio Cardoso, que considera “o tom exato do desarranjo, da decadência daquela família, das suas mentiras, das suas incongruências”.
Já a doutora em Ciências da Comunicação pela USP Monica Martinez, especializada em Jornalismo Literário, tem um ponto de vista diferente, mas não oposto. “Destaco a grandeza que alguns escritores – Guimarães Rosa, Jorge Amado, Erico Verissimo, Machado de Assis, Euclides da Cunha e o regionalista paulista Valdomiro Silveira – veem nos homens comuns, elevando-os, com todas as suas misérias e conquistas, à condição de seres universais, como pede a boa literatura”, diz ela, que traz ótimas lembranças da infância, com férias passadas junto de Dona Benta, Visconde de Sabugosa e outros personagens de Monteiro Lobato.
A CONSTRUÇÃO DE PERSONAGENS
Algumas técnicas podem ajudar a construir grandes personagens. Uma delas é a “Jornada do Herói”, desenvolvida pelo mitólogo estadunidense Joseph Campbell, que realizou estudos comparativos entre mitos, contos e lendas de diversas culturas do mundo e identificou um padrão narrativo comum entre eles. Nele, o personagem cumpre uma trama circular, com um momento de partida, preparação, desafios e a volta ao seu próprio mundo. A pesquisa, que ganhou fama após ser aplicada a produções cinematográficas como Indiana Jones e Star Wars, está presente no livro O herói de mil faces.
Buscando utilizar a Jornada do Herói em outras áreas, existem adaptações para a obra de Campbell, tal qual a Jornada do escritor, escrita por Christopher Vogler, que utiliza a estrutura para ensinar como redigir uma boa história. Outro exemplo é de autoria de Monica Martinez, já mencionada anteriormente, cuja tese de doutorado deu origem ao livro Jornada do herói – A estrutura narrativa mítica na construção de histórias de vida em jornalismo.
Como o próprio subtítulo da obra já explicita, as pesquisas de Monica serviram para alinhar a estrutura identificada por Campbell ao jornalismo. “Como crescemos ouvindo histórias neste modelo, é como se o tivéssemos em nosso DNA. Assim, quando construímos uma história baseada nessa estrutura, o leitor experimenta uma grande consonância com o personagem”, conta a pesquisadora. Se a Jornada do Herói não é a fórmula mágica, ao menos pode servir de guia na construção de personagens memoráveis.
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* Matéria publicada originalmente na edição 42 da Revista da Cultura
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