Cruzar a África de norte a sul sem tomar aviões nem ter acesso a celulares, computadores, Internet, fax ou qualquer coisa do tipo. Esse foi o desafio que Paul Theroux se impôs para escrever O Safári da Estrela Negra – uma viagem através da África. Famoso tanto pelos seus livros de ficção como pelos de não ficção, esses sobre viagens, o autor obteve uma grande história ao imergir no continente africano. E soube contá-la muito bem, eis o grande mérito.
As dificuldades que Theroux encontrou pelo caminho foram inúmeras, principalmente ao procurar informações sobre como se locomover entre cidades ou países. Em determinado momento, por exemplo, o escritor precisa checar diariamente se o barco que carece tomar sairia naquele dia, pois não havia nada programado com antecedência. Problemas burocráticos o viajante também encontrou aos montes, principalmente quando necessitou de vistos prévios para entrar em algum país.
Mas, ao mesmo tempo, Theroux se deparou com uma África muito diferente da que conhecemos daqui. Claro que toda a questão da miséria, fome e violência está presente no livro, mas há também inúmeros exemplos de um povo solidário e atencioso, sempre pronto para estender a mão. Um dos momentos mais marcantes da viagem é a passagem do escritor pela Etiópia, país devastado no começo da segunda metade do século XX, porém com uma nação altruísta e que luta pela reconstrução e reestruturação da sua terra.
Uma questão que é escancarada diversas vezes ao longo do livro é o quanto o assistencialismo emperra o desenvolvimento do continente. As ajudas humanitárias vindas de todo o mundo fazem com que boa parte dos africanos (principalmente os governantes) se acomode, fique apenas esperando a ajuda de alguém. Por outro lado, caso essa caridade cesse, em um primeiro momento as vítimas fatais seriam inúmeras. Esse parece ser o grande paradoxo dessa política de amparo constante, não apenas na África, mas em qualquer lugar que ele exista.
Ao longo da livro, Theroux cita referências literárias sobre o continente, como Coração das Trevas, de Joseph Conrad e parte da obra de Rimbaud, que se mudou para a África ainda adolescente. Também faz questão de criticar constantemente Ernest Hemingway, que, segundo o viajante, incorpora exatamente o tipo de turista que faz mal ao lugar: aquele que o vê apenas como exótico, hospeda-se em hotéis luxuosos que são ilhas em meio à miséria e ainda sai pela savana matando os maiores animais que vê pela frente, apenas para exaltar sua masculinidade.
O Safári da Estrela Negra é um ótimo livro, mas torna-se ainda melhor se comparado com outras obras do autor. A evolução da escrita e da forma como Theroux enxerga o mundo fica evidente se compararmos esse título, lançado em 2002, com O Grande Bazar Ferroviário, obra de referência para narrativas de viagem de não ficção, de 1975. Atualmente, o escritor consegue enxergar nos povos as distintas realidades existentes, sem querer traçar um paralelo com a forma de viver dos ocidentais. Antes bastante presente, o preconceito é deixado quase que totalmente de lado, e isso faz uma diferença imensa. Tal diferença pode ser notada também em Até O Fim do Mundo, uma coletânea com diversos trechos de livros de Theroux, mas se faz ainda mais presente quando percebida em uma obra completa, não apenas em fragmentos de viagens.
Excelente resenha! Faz pensar em mta coisa! No assistencialismo, q reforça a tal “história única” q temos da África: miséria e “barbárie”. Porém, como disse um amigo, isso de “não se deve dar o peixe, mas sim ensinar a pescar” não é tão simples assim.
Faz pensar ainda q há mtos q ficam, como eu, acomodados num emprego razoável, enqto há outros q fazem um safári sem nenhuma ajuda tecnológica e escrevem um livro sobre isso! PQP!!
Abs!
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