Por Igor Antunes Penteado
O livro O que é religião?, do psicanalista, educador e teólogo Rubem Alves, poderia ser mais um texto pretensamente doutrinador. Felizmente não é. E olha que tinha tudo para sê-lo, afinal, o autor foi, durante muitos e muitos anos, pastor presbiteriano, profundamente envolvido com os rumos que a religião tomou em nosso país à partir da segunda metade do século passado. (Rubem Alves também é um dos idealizadores da Teologia da Libertação aqui no Brasil, uma importante e polêmica corrente teológica que critica ferrenhamente a exclusão social, interpretando a pobreza como um produto de estruturas econômicas e sociais injustas, e que foi severamente combatida pelo então Cardeal Joseph Ratzinger, o atual papa Bento XVI, enquanto era chefe do tribunal da santa inquisição da Igreja Católica, que, pasmem, existe até hoje).
O que é religião? possui dois grandes méritos. O primeiro, e talvez o maior deles, é conseguir separar bem dois conceitos que são amplamente confundidos, mas que também, hoje, são essencialmente diferentes em toda essa amplitude: religião e fé. Dessa forma, através de reconstruções filosófico-sociológicas, este mineiro de Boa Esperança consegue tecer e explicar todo o contexto do mundo em que vivemos, sem cair na pieguice ou, como já disse, na mera doutrina.
Como o livro mostra ser fundamental, para entender todo esse contexto, é necessário que entendamos, também, os mecanismos sobre os quais essa estrutura de realidade foi construída. Para isso, Alves explora conceitos de vários campos do conhecimento, como o Desejo, os Símbolos, e o Determinismo, o que ajuda a compreender a realidade complexa que a cultura dos seres humanos ajudou a criar, mas que, na verdade, nada mais é do que uma realidade inventada e passada de geração em geração, como se fizesse parte da natureza.
Na verdade, isso tudo é muito mais amplo e difícil de ser explicado em poucas linhas. Mas, basicamente, a “coisa” funciona assim: ao contrário de todos os outros animais, os seres humanos precisam ser educados, precisam de um outro ser humano mais velho que lhes ensine como é o mundo, não dependendo exclusivamente de seus instintos. Dessa forma, todo bebê que nasce já encontra um mundo “pronto”, tão pronto e sólido quanto a natureza. Um mundo cultural, onde todas as coisas, desde a música, a dança, a moda, o poder instituído, até a literatura, tudo foi imaginado e criado pelo homem.
Ninguém presenciou essa estrutura toda sobre a qual está organizada a nossa sociedade sendo montada, mas as gerações mais antigas vão passando adiante, inconscientemente, toda essa qualidade artificial que rege a vida, desde as regas e leis, até o dinheiro e a propriedade, mantendo de pé um mundo frágil e superficial. Caso contrário, com esse conhecimento nas mãos – se tudo o que existe é artificial e feito sob convenções – então essa realidade pode ser desfeita e refeita de outra forma. E quantas vezes forem necessárias. Mas, óbvio, isso não é de interesse daqueles que são beneficiados pelo sistema vigente.
Nota-se que é um assunto tão polêmico quanto controverso. E que, por tomarem tanto pra si os dogmas religiosos, muitas pessoas nem se propõem ao debate. E essa é a grande sacada de Rubem Alves e seu livro. Não tentar desmerecer a fé ou a crença das pessoas, apenas elucidar como a estrutura das religiões foi formada, e como ela ajuda em toda a engrenagem que faz rodar o mundo em que vivemos.
Antes de terminar, o segundo grande mérito do livro: esclarecer que vida não é algo que possa ser definido. Como o autor diz no final do livro “o sentido da vida não é um fato”. Para ilustrar isso, nada melhor que um diálogo protagonizado por um dos maiores compositores da história, Beethoven. Certa vez, após ter executado uma de suas composições, alguém lhe perguntou o que aquilo significava, o que ele queria dizer com aquela obra. Ao passo em que ele assentou-se novamente ao piano e executou a mesma peça na íntegra.
A peça não significava coisa alguma, ela já era a própria coisa. Esse, talvez, seja o nosso maior erro. Tentar achar um significado em tudo. Uma razão para as coisas existirem. Às vezes as coisas já são as próprias coisas, não precisam significar outras. O fato é que, como diria Karl Marx, “uma religião que não invoca a transcendência deveria ser chamada de política”. Assim sendo, como disse logo no começo desse texto, a religião, hoje, se dissocia da fé – embora seja confundida propositalmente com ela. Sabendo disso, e conhecendo os mecanismos pelos quais a nossa realidade é formada, cada um tem a liberdade e o direito de seguir o próprio caminho do pensamento.
E só pra não ficar em cima do muro, eu, assim como o autor em sua última frase no livro, acredito que é “mais belo o risco ao lado da esperança que a certeza ao lado de um universo frio e sem sentido…”
Ótimo texto, Rodrigo, parabéns! Deixou-me curiosa para ler tal livro, ainda que eu tenha uma visão muito peculiar deste assunto, proveniente, como você citou, de convicções e fé. Acredito que as pessoas trazem dentro de si suas crenças e, principalmente, suas esperanças. E isto faz com que acreditem no que lhes parece mais conveniente naquele momento de suas vidas, descartadas aqui, obviamente, aquelas pessoas que optam por uma fé cega e irracional, o que desmerece em minha opinião, todos os conceitos e toda a doutrina em si, isto quando existe uma. Acho que podemos tranquilamente separar ‘fé’ de ‘religião’, uma vez que conheço ateus maravilhosamente humanos e religiosos absurdamente bárbaros. Claro que o assunto em pauta é infinitamente polêmico e controverso, e por isso mesmo interessantíssimo. A verdade é que realmente recebemos um ‘pacote pronto’ ao nascermos, muito parecido entre si, devido à própria base em que é estruturada a sociedade como a conhecemos. Outro ponto que abriria uma saudável discussão de horas e horas. Ah, e o ponto “pobreza como um produto de estruturas econômicas e sociais injustas” que o autor menciona, considero muito mais próximo da realidade do que a maioria das pessoas gostaria de acreditar. Enfim, lerei este livro tão breve quanto me for possível!
Abraço!
Oi, Andrea, Obrigado pelo comentário, porém, o texto é do Igor (vulgo Gugu)!rs Mas eu também li o livro e recomendo a leitura. Bjs.
É bem por aí, Andrea. O curioso é que, intrinsecamente, fé e religião deveriam andar juntas, né? – o que, como vc bem disse, nem sempre acontecem. Eu fico curioso em imaginar como foi quando o primeiro ser humano morreu. Acho que é a partir desse ponto que surge a religião. Que nada mais era do do que uma ou várias tentativas de explicar o porquê aquilo acontecia. Mas, aos poucos, a má fé (e é daí que vem a expressão) de alguns acabou por tornar comércio o que os outros acreditam cegamente.
Obrigado pela visita,
bjo
Pois é, depois que o Beto disse que fui ver, rsrsrs! Olhei lá em cima “por Rodrigo…”, e nem vi que tinha o nome do autor. Minhas desculpas ao Igor, parabéns pelo texto, e à você por este espaço tão bacana!
Bjs
Excelente post, Gugu!!! Ótima escolha, ótima resenha!
Lembro de ter estudado alguns artigos de Rubem Alves na faculdade, a clareza dele para tratar da educação é algo impressionante!
Este assunto é meu predileto: acho q a religião, o impulso de se “re-ligar” ao transcendente (aliás, raiz etimológica da palavra) permeia todo e qualquer gesto q fazemos. Inclusive o de se tornar ateu, pois, como vc bem disse, recebemos um mundo “pronto” qdo crianças, e neste mundo, a figura do Deus hebreu é válida para pelo menos 2 em cada 3 pessoas nascidas; logo, é necessária, em algum momento, uma reflexão, que vai determinar para cada um qual figura transcendental (e qual doutrina q a explique) será adotada, ou se esta figura não pode existir/ser aceita.
Entre os extremos do fanatismo religioso estúpido e o ateísmo prepotente (também estúpido), há uma míriade de posições possíveis, e outra vez isso me lembra matemática: entre os números 1 e 0, (ou quaisquer outros naturais), há um conjunto de números que tende ao infinito. É a mesma particularidade dos fractais: recortes tendem ao infinito, e que revelam o todo em cada fração.
Mas estou adiantando meu próximo post… rsrsrs
Abração, véio!
P.S.: A turma quer fazer uma vaquinha pra comprar seu “passe” prum churrasco, qto é? rsrs
Então, Beto. É mais ou menos o que eu acredito. Qualquer tipo de extremismo – isso é, quando ele não permite que você ao menos discuta qualquer assunto que seja – te torna menos inteligente. Digo no sentido literal da palavra. Como diria o mestre Jô Soares, o segredo de parecer que sabe de alguma coisa é estar em constante aprendizado. A história do “cantar a beleza de ser um eterno aprendiz” é batida, clichê, mas verdadeira. Se algo te impede de crescer com opiniões contrárias, com o choque de ideias, você não progride. Pelo contrário, anda pra trás. As divergências são importantes.
A ideia é discutir as coisas, ainda que sejam elas política, futebol e religião – diria, são as mlhores discussões.
Só pra encerrar, outra referência. O Winston Churchill dizia que “Se vc não foi extremista até os 20 anos, é porque vc não tem coração; se continua sendo após os 30, é porque não tem cérebro”. Gosto muito dessa frase, ela revela muitos sobre cada um e onde é possível chegar se, mesmo impulsionados por um sentimento de paixão, usarmos o cérebro pra tentarmos entender como as coisas funcionam!
Abraço!
[...] o Igor Antunes Penteado começou o ano falando sobre religião, depois procurou um limite aceitável para o incentivo à leitura, descobriu o óbvio, falou sobre [...]