As autobiografias estão em alta. Não é difícil em uma livraria encontrar exemplares com a vida de Ozzy Osbourne, Keith Richards, Andre Agassi ou Lobão, por exemplo. O que há de comum entre todos estes? São pessoas com histórias conturbadas, quem fogem completamente da figura de bons moços. Contudo, nunca negaram isso. Ou melhor, nunca se importaram com isso, ao menos perante o público. Então, na hora de escreverem suas histórias, não teriam porque omitir passagens pouco elogiáveis no mundo politicamente correto e chato em que vivemos atualmente. Por isso, autobiografias de pessoas com esse tipo de perfil tendem a ser melhores, mais completas e humanas – com erros e fracassos expostos – do que as de celebridades que vendem uma imagem de certinhos, que nunca estão por baixo e, quando sofrem alguma queda, são sempre vítimas de algo.
O segredo destas autobiografias (e de qualquer autobiografia) não está apenas em seus personagens, mas na sinceridade como expõem a história. Adeus, China – o último bailarino de Mao cumpre com glórias esses pré-requisitos. Escrita pelo bailarino chinês (dã, sério!?) Li Cunxin, conta a trajetória deste homem desde que vivia em um pequeno vilarejo no interior do país asiático até se tornar um dos principais dançarinos do mundo.
Logo nas primeiras páginas Li já avisa “Esta é a minha história. Aqui estão minhas recordações daqueles anos na China de Mao. É a história da minha família. É a minha jornada, desde as lembranças mais remotas, passando pela descoberta da dança, até a vida no Ocidente. Os registros históricos podem ser outros, muita gente pode ter lembranças diferentes. Para mim, porém, os relatos são hoje tão verdadeiros como sempre foram. Neles estão os tesouros do meu coração”. Ou seja, é justo com o leitor mais desavisado, já mostra que aquela é a sua versão de tudo o que se passou. Ponto para ele! Afinal, uma mesma história pode ser vista, interpretada e contada de inúmeras maneiras, tudo depende de quem a conta.
A história em si é completamente envolvente. Mostra as dificuldades que Cunxin passava na China de Mao, como o acaso o colocou no balé, a falta de crença de que se tornaria um grande dançarino, as cobranças dos professores e a série de mais acasos e superações que o levaram ao estrelato. Questões existências são levantadas e confrontadas, como o valor da liberdade e a importância da família.
Como não podia ser diferente, muito de política é tratado, principalmente sobre o embate entre uma ditadura pobre e uma democracia rica e como as massas são manipuladas de acordo com as vontades dos governos (não se engane, isso não acontece somente em regimes totalitaristas!).
A tensão também está presente na obra – e se mistura com aspectos políticos –, principalmente quando o bailarino decide que continuará nos Estados Unidos após o prazo que o governo chinês havia lhe concedido. Neste momento, uma discussão polêmica é levantada: a questão do interesse particular contra o coletivo. Se permanecesse na terra dos Yankees, provavelmente passaria a ser muito mais difícil para qualquer outro chinês ter a oportunidade de deixar o seu país para passar uma temporada de estudos (ou qualquer outra coisa) em outra nação. Por outro lado, caso Cunxin regressasse à China, estaria agindo contra a sua vontade e, certamente, comprometeria o restante de sua carreira. Mais que isso, se por um lado as chances do ato de resistência fazer com que o país oriental se fechasse ainda mais eram grandes, a rebeldia de Cunxin, com o tempo, poderia despertar nos governantes chineses a possibilidade de uma abertura maior para as relações de seu povo com outras culturas.
Como não poderia ser diferente, o que serve de propulsor para tudo isso é a bela história de Li Cunxin. Emocionantes são as passagens do astro já consagrado, casado com uma estadunidense e ambientado ao Ocidente reencontrando sua família, seus amigos, seus mestres, seu povo, sua história em uma China que começava a se abrir para o resto do mundo.
Adeus, China é um livro surpreendente, que, em um primeiro momento pode parecer mais uma história bonitinha de um cara que se deu bem na vida. Mas não, é uma aula sobre a gratidão, respeito e coragem. E, importantíssimo, as fraquezas, os erros, os momentos de conflito e as passagens menos nobres de uma vida estão detalhadamente retratados, como acontece nas obras dos “bad boys”.
Livro: Adeus, China – o último bailarino de Mao
Autor: Li Cunxin
Tradução: a editora não colocou o nome do tradutor na obra
Editora: Fundamento
Páginas: 400
Engraçado, Rodrigo, estou querendo fazer um post no blog sobre as biografias, por causa do “boom” nas livrarias. Até pedi para o Sérgio Vilas Boas me dar uma entrevista sobre o assunto. Legal seu texto! Mais material para mim. Bjs.
Sem dúvidas é um gênero cada vez mais lido, Cecília. E o Sérgio é uma boa fonte, óbvio! Aguardo o texto no seu blog, então! Bjs
Deve ser ótimo!. Fiquei com vontade de ler.
Biografias são sempre bem vidas, desde que se tenha uma boa história pra se contar.
Não sei, tendo a ter um pé atrás com biografias. O mero relato do passado em ordem cronológica, muitas vezes, “enquadrada” o texto. Espero que não seja o caso desse aí.
Ao menos, foge ao comum a história de um bailarino por aqui!
Eu tendo a ter um pé atrás com autobiografias! Mas, como todos os gêneros, a biografia e a autobiografia precisam mesmo é de uma boa história para ser contada.
[...] e Tim Hamilton, o grande Pornopopéia, de Reinaldo Moraes, Tive uma ideia!, de Monica Martinez, Adeus, China, de Li Cunxin, O Safári da estrela negra, de Paul Theroux e O filho da mãe, de Bernardo Carvalho. [...]