Desde que me tornei um leitor mais assíduo – e lá se vão bons anos – costumeiramente penso sobre formas de incentivar a leitura em um país que não a tem como tradição primária. Mas, em contrapartida, também penso sobre alguns meios que vez ou outra surgem em larga escala, mas que são absolutamente controversos.
O batido conselho “deve-se ler tudo, não importa o tema, nem que seja bula de remédio”, ainda que soe num tom quase desesperador, não apresenta nenhuma grande surpresa, afinal, é realmente melhor que o hábito de ler comece de alguma forma, nem que pelo desenvolvimento de uma possível hipocondria.
Entretanto, uma das formas de “incentivo” que surgiu com a popularização da internet, e que me incomoda desde que comecei a usar ativamente uma conta de e-mail, é a dos textos apócrifos. Para quem não sabe, um texto apócrifo é um texto cuja autoria é duvidosa ou não pode ser verificada, ou seja, com grandes chances de ser falso – ou falsamente atribuído a alguém, claro.
Pois é, levante a mão quem aqui nunca recebeu por e-mail (por mais bem intencionado que fosse o remetente) um texto fofo e meigo, “assinado” por Carlos Drummond de Andrade, Clarice Lispector, Mario Quintana ou, o mais comum, o gaúcho Luis Fernando Verissimo. Arnaldo Jabor, Fernando Pessoa e Vinícius de Moraes também têm a “honra” de alguém lhes dar a paternidade de textos piegas, excessivamente sentimentais e, no geral, notadamente mal escritos.
Esses fatores, obviamente, evidenciam a falsidade dos textos, que geralmente fogem por completo do estilo dos autores a que são atribuídos, mas não são os únicos. Muitas vezes o descuido com a estética da escrita – é comum ver erros de grafia nas palavras, muitas vezes provocados pelo encurtamento que a escrita na Internet promoveu, como, por exemplo, em “vc” – ou até mesmo na correta reprodução do nome do autor. Luis Fernando Verissimo é comumente reproduzido como Luiz Fernando Veríssimo (sic).
A origem mais comum de tais falsas atribuições é dar uma maior dimensão a textos de autores que estão começando, que certamente não teriam se fossem assinados por eles. Muitas vezes a má fé não parte dos autores, mas fica difícil identificar onde a fraude começou. Enfim, esse fato cai diretamente na discussão proposta, vale qualquer coisa para incentivar a leitura?
Bom, a minha opinião é terminantemente contrária a essa ou qualquer outra prática que, ainda que com o objetivo de incentivar algo producente, utilize-se de métodos que firam a ética e a moral, extremamente envolvidas na questão dos direitos autorais. Eu sei, não é tão simples assim identificar, só pela leitura, se um texto é ou não do autor ao qual está sendo atribuído. Mas, claro, é uma covardia passar adiante um texto de origem duvidosa, que muitas vezes propaga de modo medíocre – tanto em forma quanto em conteúdo –, de lista em lista, ideias recheadas de lugares comuns e obviedades, e que claramente não seriam assinadas por nenhum grande escritor.
Dessa forma, ainda que a mensagem seja legal, o conteúdo motivacional, ou simplesmente o texto contenha uma história engraçadinha, passar adiante textos cuja autoria não possa ser verificada é reforçar um padrão criado por alguém sem coragem de assumir as próprias ideias – ou que também foi “fraudado” sem saber – e que as atribui à credibilidade de nomes consagrados e que nada têm a ver com o que foi escrito.
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Ainda em tempo, já que o papo é incentivar a leitura por meios honestos e legais, uma dica é um movimento literário mundial que chegou ao Brasil e felizmente cresce a cada dia, o BookCrossing. Todas as informações a respeito podem ser encontradas no site (www.bookcrossing.com.br), mas a ideia central pode ser definida em três pilares básicos: ler, registrar e libertar. Resumidamente, o objetivo é transformar o mundo todo em uma biblioteca e, para isso, basta que você pegue um livro que já leu, registre-o e deixe em um lugar público para ser encontrado e lido por outro leitor, que por sua vez deverá fazer o mesmo. Sabemos o quanto às vezes é difícil promover o desapego com livros que fizeram e fazem tanta diferença em nossa formação, mas o Canto dos Livros apoia e incentiva o BookCrossing!

Muito bacana seu texto e confesso que também recebi essas mensagens via e-mail e cheguei a passar algumas adiante. Mas concordo com você que essa não é uma prática séria, porque, como disse, a suposta autoria desses textos é bastante duvidosa. Hoje já não os repasso mais, pra falar a verdade, alguns eu até nem leio, não dá.
O incentivo à leitura deve ser uma coisa séria, como essa que você citou do Bookcrossing, que eu tive a oportunidade de conhecer por meio de uma reportagem no SPTV. Me encantei e estou ensaiando para ir a um dos postos e conferir mais de perto essa proposta. Valeu!
É por aí, Cecilia. Praticamente tudo muda em um texto falsamente atribuído. Como eu disse, a linguagem, a abordagem, o próprio “tom” – a famosa voz autoral – mudam completamente, fugindo ao estilo e talento dos autores. Novamente, não é tão fácil assim identificar, mas, quem tem o hábito de ler, aos poucos, começa a ver que textos piegas e óbvios não poderiam ter sido escritos pelos grandes autores que são usados para alavancá-los.
O Bookcrossing é demais, mas, confesso, ainda preciso promover o desapego aos meus tão queridos livros.
Ótimo texto, Gugu!
Acredito que a raiz desse problema seja a desinformação, que é exatamente o que faz proliferar os “spans” e “hoaxes”. A um leitor mais atento e melhor informado, saltará aos olhos inconsistências e falhas de estilo, comparados a textos originais dos supostos autores, como você bem disse. É incrível que muitas destas mesmas pessoas que escrevem os tais textos “engraçadinhos” os atribuem a autores consagrados, ao mesmo tempo em que se apropriam de textos de autores consagrados sem atribuir-lhes a autoria!!! Que coisa!!! Parece ser um “sede” de notoriedade, por vias escusas. Qual o mal em ser (ou tentar ser) original? Não há cáfilas (adoro este coletivo, ainda que muito inadequado aqui!) de Fernandos Pessoas ou Machados de Assises (?) às pencas por aí.
Se eu fosse professor, trabalharia em sala de aula com um texto “original” e um apócrifo, e ia querer saber dos alunos quais as diferenças mais visíveis (afinal, treinar o olhar para detectar impostores está longe de ser algo exclusivo da nossa superestimada raça de bípedes).
Quanto ao bookcrossing, não consigo fazer nestes termos, mas tenho dado alguns livros de presente a pessoas que acho que podem ser incentivadas na leitura (tá, confesso, não dei nenhum dos meus prediletos! rsrs)
Abração!
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