Antes de começarmos a fazer perguntas para a entrevistada desse mês do Canto dos Livros, pedimos para que ela falasseum pouco sobre si mesma. Eis que Cristina Cezar deu um belo panorama sobre quem ela é. “Sou capixaba, tenho quarenta e três anos e moro em São Paulo desde 1991. Estudei Comunicação Social com especialização em Publicidade com Pós-graduação em Administração da Comunicação. Nasci sob o signo de Escorpião. Atuei como atriz em grupos de Teatro e sou uma fotógrafa amadora apaixonada por Cinema. Escrevo desde que me conheço como gente, mas minha primeira publicação, o romance Olho Cego No Horizonte, foi lançada em 2007 na Bienal Internacional do Livro do Rio de Janeiro e na Livraria da Vila, em São Paulo. Desde então, tenho me dedicado a escrever contos e crônicas, e venho apresentando alguns deles no meu blog pessoal, o que tem sido um bom exercício, já que sou bastante tímida para divulgar o meu trabalho”. Apresentados? Então vamos à entrevista.
CL: Quais expectativas – dentre críticas, repercussão, alcance… – que você tinha quando publicou o seu romance Olho Cego no Horizonte? O que se concretizou? O que não?
CC: Olhando para trás, vejo que muito já foi feito. Quando me vi com o livro concluído, percebi que não havia mais como ignorar o ponto em que eu havia chegado, e a publicação tornou-se um desafio inevitável e muito excitante, antes de tudo pela pura realização pessoal. Depois do livro pronto, as expectativas mudaram. Veio o lançamento e o retorno positivo dos meus primeiros leitores, e ficou claro para mim que não se publica uma obra impunemente, afinal uma caixa de livros não é feita para ficar guardada com o autor. Procurei um livreiro para divulgar o meu trabalho junto ao mercado literário e me surpreendi com o fato de não encontrar nenhum que trabalhasse diretamente com escritores. Acho isso muito louco, quando se ouve falar o tempo todo sobre a carência de novos autores no mercado. Esse é o meu novo desafio, divulgar o meu trabalho. A cada passo dado, novos desafios e expectativas vão surgindo.
CL: A própria sinopse destaca o ritmo cinematográfico do seu livro. Foi intencional? Em algum momento, esta aproximação de linguagens a influenciou enquanto você o escrevia?
CC: Eu percebo que o cinema influencia muito o meu modo de escrever, mas isso acontece de modo natural. Quando estou escrevendo, procuro manter suspensas as minhas referências para desenvolver o meu texto da forma mais instintiva possível, sem muitas intenções.
CL: Na orelha do seu livro diz que você gosta muito de teatro. Ao longo de Olho Cego no Horizonte vemos muitos diálogos. Isso é uma influência dos textos teatrais?
CC: Acho que essa influência vem do Teatro e do Cinema. Gosto de diálogos enxutos, e, particularmente, dos que vejo nos filmes de diretores David Mammet, Hal Hartley e Iñárritu, por exemplo. Nesses roteiros, vejo o limite entre a forma de escrever para cinema e para teatro simplesmente desaparecer.
CL: Um dos méritos do livro Olho Cego no Horizonte é o de flutuar sua narrativa no presente entre os principais personagens, usando bastante o ponto de vista deles, sem um narrador marcado, e também sem caracterizar um “eu feminino” como autora. Como foi que se deu esta construção?
CC: Eu quis contar uma estória em que ninguém tivesse um olhar absoluto sobre o que acontecia, e essa foi a melhor forma que encontrei. Eu tive que me desapegar do meu próprio olhar, pessoal e feminino, para depois perceber o que acontecia de sob o olhar dos personagens.
CL: Não raro, autores novos às vezes pecam pelo excesso, seja prolixidade, seja até um certo pedantismo. Você, ao contrário, utiliza uma linguagem bem enxuta, tanto no livro como em seu blog. Seu estilo é naturalmente conciso ou você o lapidou desta forma?
CC: Que bom, fico feliz por não ser tida como uma escritora prolixa e pedante, isso seria terrível!Rs. Eu concordo, são características comuns a escritores, não apenas aos novos. Acho mais desafiador e mais elegante escrever de forma sucinta, usar as palavras como pinceladas. Para mim, às vezes o texto vem corrente, pronto. Às vezes, escrevo bastante até encontrar a palavra ou a frase que procuro.
CL: Como é conciliar uma carreira no serviço público com a atividade de escritora? A escrita vira algo esporádico ou você é disciplinada? Já pensou em viver apenas da escrita?
CC: A literatura e o serviço público são duas atividades com as quais lido separadamente, acho que é a melhor forma de manter expectativas distintas para cada um. Quanto ao meu ritmo, eu sou meio caótica. Não costumo me sentar em frente a uma folha em branco e ficar esperando a idéia vir, é a idéia que me impulsiona. Quando ela vem, ou quando estou amadurecendo um texto, posso passar uma noite escrevendo sem me dar conta do tempo. Seria absolutamente fantástico viver só para escrever.
CL: Quais as maiores dificuldades que enfrentou para publicar seu primeiro livro?
CC: No meu caso, a fase de revisão junto à editora foi meio traumática. O meu texto foi muito remexido, e deu muito trabalho traze-lo de volta à sua forma original antes da publicação.
CL: Já entrevistamos alguns escritores oriundos de lugares fora dos principais centros econômicos do país (principalmente Eixo Rio-São Paulo), o que prova que a difusão e produção de cultura não acontece somente nos grandes centros . O que você pensa a esse respeito? Como é o acesso e produção de Literatura no Espírito Santo?
CC: Com certeza os novos meios de comunicação diluíram muito os guetos culturais e expandiram o acesso a oportunidades naquilo que se resolve através das mídias eletrônicas, mas eu não sei dizer como é o mercado de livros em papel fora desse eixo.
CL: Você diz no “Quem sou eu” do seu blog que é “fascinada pela natureza irregular e caótica do Homem – especialmente o Homem urbano”. Como você seleciona personagens que podem ou não virem a ser explorados? O que pensa sobre autores que, ao contrário de você, privilegiam personagens do campo/interior, como o Guimarães Rosa, por exemplo? Quais as principais diferenças que enxerga?
CC: Na verdade eu não enxergo uma diferença além do contexto. No fim do meu livro, um dos personagens percebe que aquele asfalto, aqueles prédios da Capital, são a sua verdadeira natureza. Aquela é a sua selva, a sua casa, o seu Sertão, e é o meu também. Nasci numa capital e me mudei para outra, morei em apartamentos a maior parte da minha vida. Esse é o mundo em que me encontro com a minha própria natureza.
CL: Muitos escritores buscam transmitir uma transcendência em suas obras. Você diz que “busca nos personagens e universos que monta, uma revelação, um espelho”. Cite alguns exemplos de como sentiu que algo que escreveu tenha te transformado. Isso já aconteceu enquanto lia obras de outros autores? Quais?
CC: Tanto em meus textos quanto nas obras que leio, sempre estou buscando alguma sensação nova, verdadeira. Há um conto do Rubem Fonseca chamado Orgulho, que, poderosamente, me fez ver esse sentimento de um ângulo totalmente diferente. Entre meus textos, há um conto em que acompanho atenta a fuga de uma lagartixa pela parede e, num certo momento, percebi que eu passei a narrar essa fuga sob o ponto de vista do animal. Quando terminei, nem sabia mais quem eu era direito. Foi uma experiência louquíssima.
CL: Uma pergunta de praxe, mas sempre importante: quais seriam (algumas de) suas principais influências para escrever?
CC: Na Literatura, Clarice Lispector, Ligia Fagundes e Rubem Fonseca.
CL: Quais seus próximos projetos na área de Literatura?
CC: Ainda não sei. O meu primeiro filho nasceu no fim de março, e ainda me sinto meio fora do ar. Vou descobrir, depois conto para vocês.
CL: Por último, o que diria para algum escritor que pretenda publicar seu primeiro livro? Quais dicas lhe daria?
CC: Ouça o seu desejo e publique! Procure uma editora que invista em escritores novos, de preferência uma com a qual você se identifique, e pague para ver. Se for preciso, mexa no texto, mude, mas publique o “seu” trabalho, com o seu jeito. Não tenha receio de trazer algo original, novo. E boa sorte!
(Mais uma) ótima entrevista! Cristina é uma escritora de mão cheia, e uma pessoa simplesmente espetacular, dona do riso mais agradável e contagiante que já ouvi! Aliás, se um dia pudéssemos reunir os entrevistados daqui do Canto para uma “mesa-redonda”, seria uma experiência sensacional e inesquecível!
O livro “Olho Cego no Horizonte” é muito bom, parece que a ação vai desfilando a sua frente, justamente como num filme. Indico-o fortemente! A propósito, nós, da equipe do Canto, talvez tenhamos uma novidade muito agradável para nossos leitores, referente a isto!
Cris, sou seu fã!
Bjs a vc, e parabéns para nós, por tê-la aqui!
[...] tivemos o prazer de falar com os escritores Nazarethe Fonseca, Lehgau Z Qarvalho, Marcelo Maluf, Cristina Cezar, Ferréz, Paulão de Carvalho e Renato [...]