O Beto, também colunista aqui no Canto, propôs, só pra variar, uma discussão interessante em seu último post, sobre a que ponto nossa natureza pode chegar se submetida e exposta a determinados tipos de situações, ainda que em ambiente controlado. Para tal, fez referência a um texto que fala um pouco sobre experimentos famosos, como os de Milgram e Zimbardo, que faço questão de linkar novamente aqui, de tão interessantes que são.
Esse é um assunto – e, de certa forma, tudo que gira em torno da “natureza humana” e determinados tipos de comportamento – que sempre despertou minha curiosidade. Às vezes, de maneira tão obsessiva que ajo como um próprio “retroalimentador” dessa questão de “até que ponto…”, tornando um tanto profundas demais certas buscas por esse conhecimento. E um dos assuntos que talvez mais me intrigue em todo esse cenário (e que obviamente se enquadra nesse questionamento do “até que ponto…”) é o da psicopatologia forense. O nome é tão feio quanto o objeto de estudo, ou seja, as mentes criminosas por trás de assassinatos e crimes hediondos.
Essa busca me levou até uma leitura bem indigesta, mas boa para aproximar a gente de situações que bastam um estopim para que aconteçam: Serial Killer – Louco ou Cruel?, da pesquisadora Ilana Casoy. Basicamente, o livro destina-se aos interessados em procurar descobrir até que ponto a mente humana é capaz de chegar, e tenham estômago forte.
Ilana também sempre foi curiosa sobre o que levava alguém a praticar atos tão bizarros como assassinatos em série e decidiu tirar um ano sabático para pesquisar o tema. A pesquisa acabou virando livro; ela, especialista no assunto (hoje, inclusive, Ilana trabalha em conjunto com a polícia para tentar desvendar crimes e prender os culpados).
Entre tantos e tantos questionamentos interessantes, a autora consegue nos levar por caminhos múltiplos nesse emaranhado que é a cabeça do ser humano, tentando compreender a fundo como uma mente pode ser tão perversa a ponto de não perceber o quão horrendos são alguns de seus atos. Como diz Percival de Souza (que assina o prefácio do livro), “Como não existem monstros, é um desfile incessante de parte da raça humana”.
É estarrecedor perceber que um episódio esporádico, de muito tempo atrás, pode dar início a uma natureza psicopata, a ponto de uma pessoa não saber sentir compaixão pelas outras, tampouco como se relacionar com elas, precisando aprender a imitar o comportamento de pessoas normais a fim de mascarar sua personalidade obscura.
Às vezes a máscara que o indivíduo cria é tão verossímil que nem ele próprio consegue se distinguir como uma única pessoa. É como se a mente perversa e doentia se separasse daquela que convive em harmonia com a sociedade (Ilana ilustra esse fato com casos bastante perturbadores ao longo do livro).
Outra questão interessante é notar que esse desvio básico na conjuntura que forma a personalidade de alguém – grosso modo, fatores biológicos, psicológicos e sociais – pode fazer um estrago irreparável, o que é sempre representado no livro por estudos interessantes sobre o comportamento, como, por exemplo, no trecho a seguir, que discorre sobre o momento em que descobrimos o quanto podemos interferir na vida do outro:
“Quando uma criança começa a provocar outra, notamos imediatamente um novo estágio em seu desenvolvimento: significa que ela já é capaz de se colocar no lugar de outra pessoa, concluir qual atitude sua vai irritá-la e então se utilizar desse raciocínio para aborrecer o outro.”
Em um mundo que cada vez mais nos submete a episódios traumáticos, de violência absurda e gratuita, Serial Killer – Louco ou Cruel?, que, como disse no começo, não é uma leitura fácil, é fundamental pra quem pretende ir além na compreensão do comportamento humano, cobrindo até as facetas mais horrendas que existem. Você certamente sairá desconcertado, mas entenderá como poucos a origem e os mecanismos da violência.
Serial Killer – Louco ou Cruel?
Igor e Beto, gostei muito das postagens, elas discorrem sobre obras literárias que abordam os limites da nossa natureza através da violência extrema ou da capacidade de transgressão, e propõem ao leitor fitar o espelho, o que é sempre um mergulho desafiador, afinal de contas não temos como descer da gangorra que oscila entre a bestialidade e a genialidade humana, entre a beleza e o horror que somos capazes de criar. Ver aquela carcaça, mesmo sendo a de Kadafi, exposta nos jornais de ontem e de hoje, foi o fim. O estado daquele corpo é a imagem do ódio mais profundo, um ódio sem dono, sem legenda, só ódio, mesmo. “The horror”, como agonizou o Kurtz, de Joseph Conrad. São tantas as nossas facetas, que haver imagem e semelhança do Homem com quem quer que seja me parece impossível. Beijos
Cristina
Excelente texto e excelente assunto, Gugu!
Também sou fascinado por “desvios de comportamento” – o que leva uma pessoa a surtar, e quebrar as convenções (algo frágeis) que sustentam nossa sociedade. Claro q há transgressões e transgressões, e neste caso, é muito além de qualquer limite.
Coincidentemente (ou não, como vc disse no meu post!), eu tinha lido há pouco um livro com este mesmo mote: “Meu Vizinho é um Psicopata”, de Martha Stout (q, aliás, é o nome de um ótimo tipo de cerveja! rsrs), e ela categoriza e exemplifica casos de psicopatia com os quais conviveu, já que é médica psiquiatra, e trata as vítimas dos psicopatas. 1 em cada 25 pessoas é um número alarmante, hein…
Aproveitando o comentário da Cris, o ódio é mesmo assustador, e vitimiza não apenas aqueles em que recai, mas também os q o sentem. Dá mesmo a impressão q, se não houvesse muito em jogo, como posição, punição, dentre outros, pessoas insuspeitas libertariam verdadeiros animais, capazes de fazer coisas que horrorizariam até o dr. Hannibal Lecter!
Ótima dica, pra variar, e seguimos!
Abração! Marca um bar do Zé com a equipe pra gte trocar ideia e arrumar desculpa pra beber! rsrs
Beto
Cristina, é exatamente isso! Muito também do que o Beto comentou. Só não vemos mais e mais casos bestiais por aí pq ainda é mal negócio trocar um crime pela sentença. Apesar que, com o enfraquecimento constante de leis e penas, cada vez mais vemos “brechas” usadas por advogados de reputação mais do que duvidosa para livrar verdadeiros assassinos sem qualquer ônus social a estes (exemplo maior são os recorrentes e cada vez mais brutais assassinatos cometidos por motoristas visivelmente fora de qualquer condição que atulham nossos jornais todo começo de semana, após as noites de farra do fim de semana da playboyzada).
Fora isso, Beto, outro dado curioso (e tão alarmante e assustador quanto) é de que essa proporção de psicopatas é infinitamente maior entre executivos ou pessoas que ocupam cargos de poder. É, inclusive, uma característica ‘desejada’ para tais posições, característica de gente que sabe e gosta de exercer controle sobre os outros, inclusive com certo sadismo. Violência e desvios comportamentais são muito mais comuns do que imaginamos, e conhecê-los mais a fundo garante que saberemos lidar melhor com eles quando nos depararmos com algo assim, o que fatalmente acaba acontecendo hora ou outr
[...] depois procurou um limite aceitável para o incentivo à leitura, descobriu o óbvio, falou sobre assassinos em série e trocou figurinhas com Homem comum, do Philip Roth, e Carta a D, de André [...]
[...] falamos sobre a hipótese da organização do mundo e da sociedade como a conhecemos ruir (aqui e aqui). Não é algo que se pense ou escreva com frequência, a não ser que você seja meio paranóico [...]