Por toda a equipe.
Vocalista e líder das Velhas Virgens, músico profissional, compositor, letrista, contrabaixista, gaitista, saxofonista, radialista pela Faap, roteirista do Domingo Legal, programa do SBT, ex-candidato à vaga no CQC e bebedor dos bons, Paulão de Carvalho sente orgulho mesmo é de ser reconhecido como o pai da Maria Julia. Depois que casou, Paulão saiu com sua esposa, a Dex, para uma trip de lua de mel passando pela Espanha, França, Inglaterra, Holanda e Itália e, da viagem, escreveu Na terra das mulheres sem bunda, livro publicado em meados de 2011 pela Panda Books. Nesta conversa com o Canto dos Livros, o agora também escritor fala sobre a sua obra (claro!), relação com a Literatura, influências literárias e alguns outros assuntos.
Canto dos Livros: Por que escrever o livro? Como foi fazê-lo? Até que ponto houve uma preocupação com o valor literário da obra?
Paulão de Carvalho: Eu gosto de escrever. Escrevo crônicas, letras, em blogs… então, resolvi compartilhar esta viagem dos sonhos à Europa com os outros. Escrevê-lo foi um trabalho diário muito louco, pois foi feito em movimento. Eu chegava no SBT, escrevia nos momentos de janela, depois mandava pro Yahoo; ia pra Band, abria, escrevia mais… e assim ia dia a dia, redigindo nos momentos de folga durante o dia de trabalho. Não sei o que você chama de valor literário. Tentei contar uma história interessante de modo divertido. Tudo que um texto não pode ser é chato.
CL: Como está sendo a aceitação do Na terra das mulheres sem bunda pelo público? E pela crítica?
PdC: Quem leu gostou, isto é muito legal. Estão curtindo minha linguagem coloquial.
CL: O livro foi publicado pela Panda Books. Como foi chegar até esta editora? Chegou a procurar por outras? Ser cantor de uma banda conhecida ajudou neste ponto?
Hum… falei com uma outra editora. Um amigo que trabalha no mercado de livros me indicou. Ser um cara mais ou menos conhecido (e não só por causa da banda, mas pelo CQC também) ajudou, mas o que definiu foi a linguagem e o tema. Eles leram e gostaram!
CL: O título do seu livro é, de certa forma, provocativo. Qual foi a intenção dele? Não temeu sofrer represálias comerciais por sermos um país conservador em muitos aspectos?
PdC: É um título com minha cara e a cara das Velhas Virgens. É para impactar, mesmo. Muita gente recusou me entrevistar e falar do livro por causa da palavra bunda. Sobre temer represálias, escrevo que acho que devo, do modo que acha correto e, sinceramente, o resto foda-se!
CL: A banda Velhas Virgens é considerada por muitos a maior banda independente do país. Ultimamente, temos um forte movimento entre os autores, que passaram a publicar independentemente suas obras, o que, de certa forma, proporciona certa independência editorial. O que você, já acostumado com essa militância, pensa sobre isso? Não cogitou esse tipo de produção independente para o livro?
PdC: Sim! Cogitei publicar na Internet. Acho que é isso mesmo, você escreve e, se puder ter mais estrutura pra imprimir, distribuir e tal, acho melhor. Se não tiver, pode fazer sozinho e ainda assim ter um bom retorno. Um dos maiores vendedores de livros deste país, meu amigo André Vianco, cresceu assim.
CL: No livro você se expõe bastante, mas fica nítido que, a todo momento, tenta preservar a Dex, sua mulher. Apesar de detalhar bastante as coisas no texto, há, no máximo, algumas pequenas pinceladas de problemas ou momentos íntimos que tiveram ao longo da viagem. Como funcionou isso? Houve algum acordo prévio entre você e ela para que a história – que os dois viveram juntos – pudesse ser contada?
PdC: Não houve acordo verbal, mas eu sabia que se abrisse demais detalhes íntimos ela me mataria. E eu gosto de viver!
CL: Você encontrou alguma semelhança na relação com a editora e o trabalho de uma gravadora, já que ambas podem interferir na obra do artista? Como foi essa experiência com o livro?
PdC: Ambas estão investindo no seu trabalho e tem parâmetros para ter sucesso, lucro. Ouvi as observações da editora Pandas e ponderei. Na verdade, ponderamos juntos. Ela tem muito mais conhecimento e experiência com este mercado de livros do que eu, então procurei aprender. O livro tinha o dobro de páginas e ela argumentou que se fosse tão grande, o custo subiria muito e dificultaria o acesso do público da banda. No fim, sinceramente, aprendi muito com ela. To pronto pra escrever outro.
CL: Se você estivesse num boteco e pudesse dar um – ou alguns poucos – livros para um cara que te pagou uma cerveja, qual(is) seria(m)? Por quê?
PdC: Hum..alguns do Vianco, a biografia do Adoniran Barbosa (do Celso Campos Junior.), a biografia do Ozzy, Bagana na chuva, do Mario Bortolotto, Cozinha Confidencial, O Veleiro de Cristal, Capitães de Areia, Grande Sertão: veredas, Macunaima, Anjo Pornográfico, do Ruy Castro e alguns do Dan Brown
CL: Há como relacionar a cerveja (principalmente as boas cervejas) com a literatura? Costuma ler ou escrever bebão? Como é a experiência?
PdC: Beber cerveja é uma experiência que merece ser feita sem outros afazeres, a não ser uns tira-gostos. Nada do que escrevo bêbado presta, com raríssimas exceções. Acho que ler, escrever e beber são prazeres maravilhosos, mas devem ser feitos em separado.
CL: Nas letras das Velhas Virgens há diversas referências literárias, como os títulos Fernando Pessoa Blues e As mulheres de Nelson Rodrigues, além da citação de um trecho do poema Versos Íntimos, de Augusto dos Anjos, em Não vale nada. Como, então, o repertório literário interfere ou o ajuda na hora de compor as letras?
PdC: Tudo que a gente lê inspira, se mistura, vai e volta, dejam crônicas, notícias de jornal, revistas pornográficas ou literatura clássica. É interessante você mostrar que a boemia que cantamos não foi inventada pela gente e citar Baudelaire, convenhamos, dá credibilidade a estes bêbados que somos nós.
CL: Você costuma trabalhar bastante com o humor. Como você vê essa questão no país, quando os autores de algumas delas sofrem represálias?
PdC: Acho que a vida real já é suficientemente dramática e triste. Fazer rir é uma benção. Coibir o riso é a primeira atitude dos ditadores. Riso é liberdade. Quem não ri é um prisioneiro da tristeza, a pior e mais inexpugnável das cadeias.
CL: E agora, depois do primeiro livro, pretende continuar escrevendo? Já tem algum projeto em vista?
PdC: Já estou escrevendo. É um livro de curiosidades do mundo do rock, vai ser curtinho, divertido. Mas há pelo menos mais quatro outros projetos na minha cabeça. Depois deste de curiosidades roqueiras, começo mais um. Escrever, como ler, vicia. E não mata!
[...] com os escritores Nazarethe Fonseca, Lehgau Z Qarvalho, Marcelo Maluf, Cristina Cezar, Ferréz, Paulão de Carvalho e Renato [...]