Daqui a 100 anos, todo mundo que você conhece vai estar morto, o mundo provavelmente será um local absolutamente diferente do que se possa imaginar e 99,9% das coisas que você viveu não serão sequer lembradas. E mesmo falando em um futuro distante um século, o cenário ainda assim é perturbador. Por quê?
A morte, assim como a única certeza, é também a maior intriga da vida. Sem dúvida. Por isso, religião e ciência travam uma batalha (desnecessária, é bem verdade, mas inegável) desde sempre pra tentar explicar o que se passa depois que o derradeiro dia chega. E ambas nunca obtiveram êxitos muito concretos nessa tarefa (longe de querer contestar qualquer fé que seja, o que quero dizer é que não SABEMOS o que vai acontecer conosco, apenas ACREDITAMOS).
Quando jovens, temos de lidar pouco com a morte (digo em linhas gerais). Geralmente são pessoas mais velhas, meio distantes de nós, que vão nos deixando, seguindo a ordem “natural” de renovação da vida. Às vezes, um avô, uma avó. De vez em quando, uma morte pública causa comoção e nos põe em maior proximidade com a perda. Mas é ao irmos envelhecendo que a perspectiva começa a mudar. Não dá para dizer que todos têm um momento exato em que, ao invés de se sentirem tendo mais um dia, passam a se sentir tendo menos um. Quando a proximidade com morte passa a ser tão corriqueira, esse medo começa a figurar dentro de nós também com tal proximidade.
Assim, partindo desse princípio – e desse medo –, proponho uma pergunta: você gostaria de, contrariando a primeira frase desse texto, viver para sempre? De sopetão, muitos diriam sim. Mas seria mesmo essa uma boa escolha?
Se, mesmo tendo uma vida ridiculamente curta (pra métodos comparativos, a Terra tem 4,54 bilhões de anos, enquanto um ser humano vive, em média, algo entre 70 e 80 anos) já é bem dramático envelhecer e acompanhar, aos poucos, cada uma daquelas pessoas que fazem parte da sua vida irem morrendo ao passo em que o mundo se transforma em algo muito diferente do que você conheceu, imagine o quão absurda e sem sentido começa a parecer uma vida eterna. Não importa o quão apegado você é às coisas ou às pessoas, essa perspectiva de perda deve te assustar também.
E o mais perturbador de tudo, você nunca sabe quando ou com quem vai acontecer. O senhor ranzinza, mas que sempre te dava bom dia no trabalho, a moça com sorriso bonito que atendia na padaria da esquina ou aquele velho colega de escola que você nunca foi muito com a cara. Seu pai. Sua mãe. Seu marido. Sua mulher. Seus filhos. A morte (novamente, na maioria dos casos) não dá muitos avisos. Ela não permite que você tenha tempo de se despedir. Essa é, possivelmente, uma das constatações mais assustadoras que eu já tive na vida.
Ela não tá preocupada se o livro que você está lendo vai ser interrompido na metade; se a viagem do fim do ano já está marcada, mas você ainda ta pagando a passagem; se o seu time vai ganhar um título após vários anos na fila e você já tem ingressos comprados pra final; se sua banda favorita confirmou um show na sua cidade; se você tava guardando grana pra dar entrada em um apartamento e pedir sua namorada em casamento; se você se comprometeu consigo mesmo a conhecer aquele lugar que sempre teve vontade, mas nunca tempo; ou se deixou de dizer aquelas últimas palavras que fariam tanta diferença pra alguém. Ela vem. E vem implacável.
Muitos vão chorar sua ausência, outros tantos vão sentir uma falta absurda do cara gente boa ou daquele ombro amigo com o qual podiam contar. Mas suas vidas não vão parar por isso. Alguém vai te substituir no trabalho (muitas vezes, uma máquina) e o mundo vai continuar girando. Por mais que nos sintamos importantes, essa é outra constatação dolorida. Nós não fazemos falta alguma para que as coisas continuem acontecendo. Então, nada melhor do que correr atrás e fazer agora o que você espera fazer. Você pode não ter muito tempo; ou não ter muito tempo com aqueles que você gosta.
Longe de escrever um texto de auto-ajuda, isso é algo que eu precisava compartilhar após ler o livro Homem Comum, do estadunidense Philip Roth. O livro não é brilhante tecnicamente, tampouco inovador, mas trata exatamente dos pensamentos e angústias de um homem que vai envelhecendo, adoecendo e se dando conta do quão pouco controle (ou nenhum) ele tem sobre sua vida.
Se não um primor literário, o livro te faz pensar muito nessa questão tão angustiante e da qual muitas vezes tentamos fugir. Te faz pensar sobre a imprevisibilidade da vida e sobre como você escolhe viver (muitos de nós temos essa chance, mas quantos aproveitam?). Mas, fundamentalmente, te faz pensar em como você passará a lidar com o fato de que a vida acaba, embora o que venha depois continue a ser uma grande incógnita, mas que o que vem durante depende, muitas vezes, só de você.
Ps. Ainda em tempo, outro bom livro que trata sobre esse tema, que muitas vezes é vendido como auto-ajuda, mas possui qualidades muito superiores, é o bem famoso O ano do pensamento mágico, da jornalista Joan Didion. Após perder seu marido, em um episódio em que presenciou o infarto que tirou sua vida, Joan escreve um Ensaio Pessoal sobre esse tema de morte no mais amplo sentido de perda. Também vale a leitura.

Muito boa – e necessária – reflexão! Vou procurar este livro para ler.
Abs.
Outro livro fantástico sobre a morte, e com uma proposta original em sua forma, é Os Verbos Auxiliares do Coração, do húngaro Péter Esterházy.
Gugu,
Reflexão formidável!!! Lembra o texto de David Foster Wallace – DFW – que utilizei na minha primeira postagem do blog, e que foi o texto mais marcante que já li. Até porque ele fala da angústia da morte e da vida, e termina por suicidar.
Nosso cérebro faz verdadeiros malabarismos para nos manter razoavelmente sãos com o tanto de contradições que somos obrigados a conviver. Desde crenças incongruentes à própria noção de finitude, somos abençoados E amaldiçoados pelo conhecimento da morte, e seguimos planejando, juntando reservas, adiando planos e prazeres, sem qualquer garantia que poderemos realiza-los um dia, já que o anjo negro nos espreita.
Particularmente, eu acho a morte bela… É bem difícil de explicar, e soa um tanto mórbido, mas haver para tudo um ciclo de nascimento, vida e morte, me parece um mecanismo perfeito. Não ia querer viver pra sempre, e vejo muitas dificuldades logísticas para esta hipótese
***interlúdio: pesquisas científicas indicam que, num primeiro momento, medicamentos e compostos químicos que adiarão a morte, talvez na linha de superanti-oxidantes ou nanotecnologia, custará milhões, e estará disponível só a classe AAA; previsão de chegada: coisa de uma ou duas décadas…
fim do interlúdio***
Voltando, como todos, não sei o que vem, e se vem, depois, nem mesmo tenho alguma convicção para me apegar, mas olho tudo como um feliz Acaso, e me maravilho. Quer dizer, isso qdo não estou reclamando das pequenas vicissitudes da vida, tipo… 99% do tempo… rsrsrs
Abração!
[...] incentivo à leitura, descobriu o óbvio, falou sobre assassinos em série e trocou figurinhas com Homem comum, do Philip Roth, e Carta a D, de André [...]