Por Fred Linardi e Rodrigo Casarin
Escritor, jornalista e professor, com mestrado em Jornalismo pela Universidade de São Paulo e doutorado em Letras pela Universidade Presbiteriana Mackenzie, Renato Modernell dedica boa parte de sua carreira às narrativas de viagem, gênero que ensina no próprio Mackenzie e na Academia Brasileira de Jornalismo Literário (ABJL). Autor de Viagem ao pavio da vela, Sonata da última cidade (que levou um Jabuti), Che Bandoneón e Meninos de Netuno, entre outros, publicou recentemente Em trânsito – um ensaio sobre narrativas de viagem. E é exatamente a relação de viajantes com as palavras que norteia o papo abaixo.
Canto dos Livros: O que é uma boa narrativa de viagem?
Renato Modernell: É uma narrativa que revela percursos não apenas no mundo externo, mas também na geografia da alma do viajante.
CC: O que rende uma narrativa de viagem rica? Tempo e dinheiro são barreiras a serem rompidas nesta categoria?
RM: O viajante autêntico estabelece sua própria noção de tempo, que não tem necessariamente a ver com aquele do calendário ou do relógio, mas antes com o ritmo pelo qual ele assimila as coisas que vai encontrando ao longo do caminho.
CC: No Brasil, essas narrativas ainda dependem de ações independentes dos autores para serem realizadas?
RM: Não apenas disso. Há instituições que, vez por outra, dão apoio a projetos que envolvem viagens. É o caso, por exemplo, das conhecidas aventuras marítimas de Amyr Klink. Isso depende muito do tipo de viagem e também da notoriedade da pessoa. Como regra geral, é melhor o repórter viajante tentar custear a viagem por conta própria, porque deste modo ficará mais livre e mais aberto para o que der e vier.
CC: Quais obras dessa modalidade você indica? Por quê?
RM: A última casa de ópio, de Nick Tosches, é um texto cativante e que vai muito além da viagem em si, constituindo uma bela crítica (na verdade, uma sátira) da sociedade consumista em que vivemos. Os anéis de Saturno inaugura um novo modo de observar os fatos, e creio mesmo que seu autor, W. G. Sebald, é uma figura tão importante para a literatura quanto Lars von Trier o é para o cinema. Um adivinho me disse, de Tiziano Terzani, mostra a surpreendente transformação pessoal do viajante ao longo da viagem, e tem também ingredientes romanescos bem trabalhados. Viagem à Itália, de Goethe, é um clássico escrito por um gênio da literatura, e por isso indispensável.
CC: Por que as narrativas de viagem, principalmente as de não ficção, ainda são raras de se encontrar nas livrarias?
RM: Não creio que sejam raras. Ao contrário, tenho visto muita coisa saindo por aí. Podem não ser todas de qualidade, é claro, mas isso é outro assunto. As Modismos como a peregrinação a Santiago de Compostela, por exemplo, ou mais recentemente as incursões à Patagônia, ajudam a divulgar esses lugares, o que é bom, em tese, mas ao mesmo tempo pasteurizam a forma de observá-los, nivelando por baixo, o que é ruim. Mas relatos de viagem são produzidos às pencas. As pessoas viajam e anseiam por contar o que viram, mesmo que seja aquilo que todo mundo já sabe.
CC: Ao seu ver, qual a relação entre narrativas de viagem e o jornalismo literário?
RM: A narrativa de viagem está dentro do campo do jornalismo literário, valendo-se de suas técnicas e de seus pressupostos.
CC: Como está sendo levar as narrativas de viagem para a academia? Como tem sido a aceitação dos colegas? Quais pesquisas você destaca nessa área?
RM: A cada semestre me surpreendo com o número crescente de alunos de jornalismo que se inscrevem na disciplina optativa Narrativas de Viagem, que ministro no Mackenzie. Em agosto deste ano, publiquei “Em trânsito – Um ensaio sobre narrativas de viagem”, pela Editora Mackenzie, mas não conheço outro trabalho congênere. No Brasil, há muito pouca coisa publicada sobre o assunto em termos de reflexão teórica. Mas isso pode mudar nos próximos anos, acredito.
CC: Sua produção em livros é predominantemente ficcional. Após você ter viajado por vários países do globo, a pergunta que fica é: para escrever narrativa de viagens é preciso resistir à tentação de criar um romance?
RM: Uma coisa não elimina a outra. Um certo toque romanesco é bem-vindo em tudo, até num relatório, e na narrativa de viagem mais ainda, já que o viajante, mesmo que não se dê conta disso, é levado a um estado de fabulação inerente à própria viagem. Esta é uma das teses secundárias de meu livro. Um romance, porém, é outra coisa. Trata-se de uma modalidade de escrita muito mais complexa, flexível e profunda. Não basta romancear para se fazer um romance. É preciso atender a um chamado, uma espécie de convocatória, um apelo que parte do próprio livro, ainda inexistente, à espera de um autor.

[...] Nas entrevistas, tivemos o prazer de falar com os escritores Nazarethe Fonseca, Lehgau Z Qarvalho, Marcelo Maluf, Cristina Cezar, Ferréz, Paulão de Carvalho e Renato Modernell. [...]