Existem coisas que misteriosamente me atraem. São Petersburgo é uma delas. Não é a Rússia, não é o comunismo, não é Moscou. É São Petersburgo, a cidade. Provavelmente isso tem alguma coisa a ver com Dostoievski.
Existem coisas que racionalmente me atraem. Desconto é uma delas. Isso não se deve apenas ao meu pão-durismo (muito mais tênue na hora de comprar livros), mas à modesta conta bancária.
Então, quando vi O filho da mãe, obra de Bernardo Carvalho que se passa em São Petersburgo, sendo vendida com 50% de desconto, fui quase que obrigado a comprá-la. Fator decisivo para a aquisição: lembrava que o livro havia sido vice-campeão da temporada 2010/ 2011 da Copa de Literatura Brasileira, ficando atrás apenas de O livro dos mandarins, de Ricardo Lísias.
O filho da mãe é uma das obras que integram a coleção Amores Expressos, da Companhia das Letras, que enviou 17 escritores brasileiros para diferentes países para que escrevessem histórias de amor. Obviamente, Bernardo Carvalho foi para a Rússia, São Petersburgo mais precisamente, e por lá ficou durante 30 dias, mesmo sem conseguir falar bulhufas em russo (aliás, o equivalente em russo para bulhufas deve ser bastante engraçado).
Após o voto de silêncio praticamente imposto pelas condições, ao menos voltou com uma bela história. O que permeia todo o livro é a guerra da Tchetchênia. As luzes estão voltadas para as pessoas que sofrem com ela – mais precisamente na relação entre as mães, os filhos e as mudanças que o conflito pode causar na vida de cada um. O livro traz histórias mais focadas nas crias – mas permeadas pelos dramas das criadoras – e que parecem independentes, mas acabam se entrelaçando com o decorrer da trama.
No geral, O filho da mãe é bastante bom, contudo, possuí alguns pontos negativos que merecem ser relatados. O mais gritante deles é o nome do livro. Parece título de novela das sete. O filho da mãe beira o jocoso e provavelmente afastou, afasta e afastará muitos possíveis leitores. Seguindo essa linha, os nomes dos capítulos também são fracos e dispensáveis, mais localizam o leitor fisicamente e temporalmente na história – algo que cabe ao texto – do que instigam ou inspiram a leitura.
Outro problema é que em muitos momentos Carvalho subestima o leitor. Dúvida que ele seja capaz de entender o que está nas entrelinhas. Algumas explicações desnecessárias (como se dissesse, “olhe, ele está sofrendo” logo depois de demonstrar o sofrimento) acabam prejudicando o texto. A repetição de ideias também incomoda, principalmente a quantidade de não dizeres, como nos trechos abaixo:
“…Nikolai abre o diário onde guarda tudo o que nunca disse à mulher nem a ninguém.” (p. 149)
“O silêncio entre os dois, separados apenas por uma parede de estuque, é a forma que encontraram para dizer um monte de coisas que estão implícitas há dias, desde que se encontraram pela primeira vez, e que não podem ser ditas.”(p. 158)
Contudo, não é preciso fazer um balanço para saber que O filho da mãe possui mais aspectos a favor do que contra. Em apenas 199 páginas, a obra traz um número significativo de personagens bastante complexos, com profundidade, contradições e dramas. Eles aparecem e somem conforme a bem elaborada história, com um foco que está sempre variando, se desenrola.
Bernardo também merece os parabéns pela maneira que trata as mães, não de forma infantil, afetiva e ingênua como é comum quando delas se falam, mas mostrando-as como fanáticas – no pior sentido da palavra - pelos seus filhos O livro também aborda com mérito conflitos familiares e, principalmente, o preconceito e a xenofobia presentes na sociedade russa.
Por fim, o fim. A cena final de O filho da mãe beira a excelência, e poderia ter atingido-a não fosse a última frase dita, que macula o momento e tira boa parte de seu brilhantismo.
Bernardo Carvalho conseguiu se inspirar na Rússia para escrever um livro que está longe de ser obrigatório, mas é uma excelente amostra de como a boa literatura vem sendo produzida atualmente no Brasil.
Excelente resenha, a melhor possível para um autor, justamente aquela que dá méritos, mas aponta as falhas! Tomara que o Bernardo Carvalho dê uma googlada no seu livro, e que apareça esta para ele!
Vai entrar na fila de livros a serem lidos (esta minha fila é pior que a do INSS, e como tal, tem alguns livros meliantes que passam na frente na maior cara-de-pau!)
Ah, em tempo: bulhufas em russo é “dostoyevsko”, derivado do tanto que entendem os leitores do famoso autor! rsrs
Abraço!
Beto
Quem sabe o Bernardo Carvalho não dá uma passada por aqui e explica o título do livro!rs
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