Por Alberto Nannini
Roteiro Básico para um roteiro básico de um filme;
1. Tenha uma história para contar;
2. Transcreva-a para a linguagem do cinema.
Depois, é só filmar e exibir.
Parece até fácil, não? Mas não deve ser, pois se fosse, não apareceriam tantos filmes sofríveis por aí. E, em todo enunciado simples, como um ditado, um axioma ou regras básicas, há as entrelinhas, e são elas que mais dizem e fazem toda a diferença.
Se levarmos em conta que a indústria de cinema é algo caro, que mexe facilmente com orçamentos de 7, 8 e até 9 (!!!$$$!!!) dígitos, parece óbvio que aquilo que é a própria raiz de um filme – a história a ser contada – recebesse o melhor tratamento possível, e que toda e qualquer entrelinha que houvesse fosse cuidadosamente decifrada.
Bem, para não dizer que não há nenhum roteirista milionário, Jon Eszterhas, escritor do clássico Instinto Selvagem, com Sharon Stone, ganhou alguns milhões para roteirizá-lo (dinheiro bem gasto, se lembrarmos a cena do interrogatório na delegacia…). Fora esta exceção, roteiristas são tratados como algo menor no processo de fazer um filme.
Isso sempre me pareceu fora de propósito. Como bom garoto meio nerd que fui (?), adoro ficção científica. Mesmo ali, fascinado pelos alienígenas e naves, já era a força do roteiro, a tensão da história que me prendia, e o que me tornou um cinéfilo razoável. Meu filme predileto, Aliens, de James Cameron, me fisgou assim: lembro de assisti-lo no limite da tensão, aos 12 anos, pensando em sair do cinema no meio da exibição, dando alguma desculpa ao meu saudoso amigo Ronney Nigro que o assistia junto comigo (só não saí porque fiquei com medo da zombaria).
Não é pedir muito um enredo razoável, mas às vezes não há nem isso: recentemente, levei minha abnegada namorada para ver um filme, chamado Skyline, cujo pôster de promoção mostrava abduções de multidões por naves do tamanho de cidades. Bem, peço desculpas para ela até hoje por isto: um dos piores filmes de todos os tempos. Ele simplesmente NÃO TINHA HISTÓRIA, era um mero pretexto para efeitos especiais.
Aliás, por conta desses, o orçamento dessa “coisa” deve ter ficado na casa das dezenas de milhões de dólares, o que daria para fazer algumas dezenas de filmes do quilate dos argentinos Um Conto Chinês e O Segredo de Seus Olhos: tocantes, premiados – incluindo o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro 2010 para o último – e praticamente sem efeitos especiais, mas com histórias poderosas e muitíssimo bem contadas.
Não é à toa a citação de dois filmes argentinos como exemplo de filmes ótimos com roteiros primorosos. Nossos hermanos vem fazendo cinema assim há algum tempo, enquanto nós, apesar de renovados pela chamada Retomada do Cinema a partir de 1995, ainda patinamos com muitos filmes rasos, com direção fora do tom, pecando entre o excesso de pretensão ou a falta absoluta desta.
Percebo uma falha no meu argumento acima, que é justamente a de amostragem: como não moro na Argentina, é possível que eu veja apenas aquilo que de melhor eles produzam. E se vier com o excelente ator Ricardo Darín, é mais uma credencial. Pode ser, mas meu ponto ainda é que los hermanos (não os barbudos) tem sido mais hábeis para contar histórias universais, que poderiam se passar em qualquer país, enquanto nós parecemos presos a um regionalismo e nacionalismo que não externamos de maneira natural nos nossos outros costumes. Como se nossos filmes servissem meio que para expurgar a Síndrome do Patinho Feio que carregamos. Donde se tira que brasileiros parecem adolescentes e são meio esquizofrênicos. Brincadeira (acho), deve ser a busca de identidade como uma nação que nos torna meio mal resolvidos.
Para [não] variar, divaguei, e retorno a linha à agulha: o roteiro é a alma do filme, e o produto final vai se ressentir se a história for fraca. Os exemplos são variados, ainda que sejam de minha escolha particular: blockbusters, como O Turista, com Angelina Jolie e Johnny Depp, um filme que simplesmente subestima sua inteligência: ao ver a [suposta] reviravolta final, você percebe que te fizeram de idiota. De imbecil também. Ah, e de retardado. Poderia contar mais, e tenho certeza que você um dia me agradeceria por ter te salvo desta bomba, mas talvez você queira conferir, há masoquistas e há gente que gosta de funk batidão. Pessoas são criaturas estranhas. Nacional, tem A Festa da Menina Morta, que tinha um forte atrativo ser a primeira direção do fabuloso ator Matheus Nachtergaele, além de ótimo elenco. Resultado: outro pedido de desculpas infinito à minha heróica namorada. Filme extremamente pretensioso, cuja projeção se arrastou por aquilo que pareceu horas intermináveis, com personagens mal dimensionados, closes e cenas despropositadas. Fuja.
Além dos dois filmes argentinos citados, quais então eu colocaria como exemplos de roteiros bem feitos?
Se tomarmos três de nossos filmes de maior sucesso e bilheteria de todos os tempos, ficará bem claro que a história, contada no devido tom, é o segredo – afinal, nada mais constrangedor para um diretor do que, na exibição de seu filme, ouvir risadas que ele não planejava: Cidade de Deus, Tropa de Elite e Se eu Fosse Você. O primeiro teve como base um livro extraordinário, de Paulo Lins, que em sua tiragem original retratava perto de 300 personagens e entretecia suas histórias de maneira magistral. Foi preciso desenvolver um roteiro que aglutinava personagens e histórias para poder funcionar – e funcionou, magistralmente bem. O segundo encadeou uma trama eletrizante e utilizou um narrador em 1ª pessoa que não estava previsto no tratamento original do roteiro. Imortalizou um personagem e alguns bordões, consagrou um ator soberbo – Wagner Moura – e ainda deu origem a uma continuação superior. E o último, incrivelmente, fez de seus possíveis defeitos seus maiores méritos: mesmo contando com atores “globais com cara de novela das oito”, mesmo contando uma história repetida em diversos filmes anteriores, mesmo sendo absolutamente previsível, acertou o tom: liberdade para os protagonistas tarimbados, os excepcionais Tony Ramos e Glória Pires, timing perfeito de comédia ou da pontinha de drama que havia, e a pretensão de divertir, conseguida com méritos. E ainda gerou uma continuação de maior sucesso, mesmo com a história supostamente encerrada! Eu e outros 10 milhões de espectadores atestamos.
Felizmente, há muitos outros filmes menos famosos que primam pelo roteiro. De imediato, lembro d’O Cheiro do Ralo, com o excelente Selton Mello, além do recente e ainda em cartaz O Palhaço, estrelado e dirigido por ele; Meu Tio Matou um Cara e do Amanhã Nunca Mais, também ainda nos cinemas, ambos com o magnífico Lázaro Ramos, o que mostra que temos uma excelente safra de bons atores atuando, felizmente.
Poderia me alongar indefinidamente falando de filmes e de roteiros, mas, puxando esta postagem mais para o norte do blog, indico os livros e histórias originais dos filmes que citei, quando houver. Particularmente o já citado livro Cidade de Deus, de Paulo Lins. O detalhe é que as primeiras edições, antes do filme, são melhores, e mais completas. Os livros que saíram com cenas do filme na capa foram revisados. Procure também a obra de Lourenço Mutarelli, já que o filme O Cheiro do Ralo foi baseado num de seus livros mais “normais”. Seu trabalho em Quadrinhos é perturbador, e já no seu álbum de estréia, Transubstanciação, ele polemiza: aberrações circenses, tangos argentinos, sexo e desesperança em uma das obras mais inquietantes em que eu já pude por os olhos.
Para quem quiser ir mais a fundo em roteiros, indico Manual de Roteiro – ou Manuel, o primo pobre dos manuais de cinema e tv, de Leandro Saraiva e Newton Cannito, da editora Conrad. Só pelo título do 1º capítulo, dá para ver que não é um manual-de-dez-passos: “Capítulo I – QUAIS SÃO SUAS INTENÇÕES? EM BUSCA DO ROTEIRO”. Alguém devia avisar alguns produtores que este livro é barato.
E ainda falando de filmes, se torna sorte morar nos grandes centros, por conta de maiores opções (talvez para compensar trânsito, stress, violência…). É possível explorar o circuito alternativo de cinema, onde passam obras vindas dos mais diferentes países, e se garimpam algumas verdadeiras jóias.
Algumas destas jóias transcendem o rótulo de filme de arte, ou então, vem com a “grife” de algum diretor conhecido, passando por isso no grande circuito. É o caso do diretor Terrence Mallick e seu filme A Árvore da Vida, que dá mais de quilômetro de pano pra manga de discussões e interpretações, bem como da cereja do bolo deste post: um filme com a grife “Almodóvar”, cujo roteiro literalmente fabuloso me motivou a escrever sobre tudo isso: A Pele que Habito. Digo apenas que este é um filme que jamais correrá o risco que acontece com filmes menores, depois de algum tempo: a síndrome do “como-era-mesmo-aquele-filme-lá?” Porque, após tê-lo assistido, você nunca mais irá esquecê-lo.
Para terminar, citação do livro “Manuel de Roteiro”:
“Um dos mitos (…) é o da” grande ideia “. Bons filmes não são resultado de uma única boa ideia. São feitos de muitas ideias. (…) A visão que cada filme lança sobre a vida, mais ou menos profunda, é um desafio particular a cada obra. Cabe ao roteirista enfrentá-lo, solitariamente.”
PS¹: Assim como o estúdio de animação Pixar, o ator Ricardo Darín (de novo ele!) parece incapaz de fazer um filme que não seja pelo menos bom. Procure O Clube da Lua (Luna de Avellaneda), espetacular!
PS²: Qual o seu Top 5 de filmes de todos os tempos?
PS³: Ainda está aí e não foi ver A Pele em que Habito??? Jesus! Oremos… Não sei se ainda há esperanças pra você…

[...] Em sua coluna, o Beto falou de Planolândia e visitantes de uma quinta dimensão, perspectiva, resenhou o Muito longe de casa, de Ishmael Beah, racionalizou sobre Deus e relacionou Literatura com cinema. [...]
Cara… Não acredito que te achei.
Putz…. o que tem feito?
Virou cinéfilo, rs… legal…
Ainda mora na Alfredo Pujol, acho que não..rs…
abs
Anote meu e-mail!!!!
Fala, “Zô”!!!
Passou pela minha cabeça que se vc desse uma “googlada” no seu nome, apareceria este post! E aí, td blz? Como vc tá`?
Ainda tô no mmo lugar sim! rsrs Cinéfilo, confere!
Vou pedir seu email pro administrador e dono do blog!
Bom saber de notícias suas, cara!
Um abração!
Desde que li esse texto, fiquei com uma comichão para assisti ao filme do Almodóvar. E resolvi só comentá-lo após conseguir assistir ao dito. Pois bem, só uma coisa tenho a dizer: o filme é um tanto perturbador. Nem sei se isso é exatamente bom ou não, mas é a sensação que me deixou. Gostaria de ouvir vc falar mais sobre ele. O que achou realmente de filme? Vc, apesar de ser o insight para o texto, fala pouco ou nada dele por aqui.
abraço!