“Você está para fazer oitenta e dois anos. Encolheu seis centímetros, não pesa mais do que quarenta e cinco quilos e continua bela, graciosa e desejável. Já faz cinquenta e oito anos que vivemos juntos, e eu amo você mais do que nunca. De novo, carrego no fundo do meu peito um vazio devorador que somente o calor do seu corpo contra o meu é capaz de preencher.”
Dizem que uma primeira boa frase te faz querer ler o parágrafo. Um grande parágrafo, te ganha por uma página. Se a página for igualmente bem escrita, sua sede em ler o capítulo inteiro cresce. E essa é a busca incessante de todo escritor até que sua obra esteja completa. Pois foi exatamente o que o austro-francês André Gorz conseguiu. Esse trecho com o qual abri o post é, talvez, o melhor começo de livro que já pude ler na vida. E felizmente o restante de Carta a D., seu último livro, escrito em 2006, não fica atrás.
Gorz, fugindo do nazismo, fixou-se na França, onde se tornou um dos jornalistas e pensadores políticos mais influentes dos anos 1960. Seguidor de Sartre, combinou existencialismo com marxismo e tornou-se amplamente reconhecido por suas obras nas áreas da filosofia e da sociologia, bem como por sua atuação política nos acontecimentos do Maio de 68, em que foi uma das figuras mais importantes. Sua obra sempre girou em torno de sua área de atuação, sendo um crítico radical da mercantilização das relações sociais, contrário à crença no trabalho assalariado, além de ter passado a ser, já do meio pro final de sua carreira, um grande estudioso e defensor de temas ligados à ecologia.
Em Carta a D., Gorz foge de todo o trabalho que construiu em sua vida para simplesmente retratar a história de amor entre ele e sua esposa, Dorine, com quem foi casado durante 58 anos. Mas o mais atraente em tudo isso é que esse texto é tido por muitos como o prenúncio de um episódio que aconteceria meses após sua publicação.
A 24 de setembro de 2007, na porta da casa de Gorz e Dorine, um cartaz alertava: “Avisar à Polícia”. Quando chegaram ao quarto, os corpos do casal foram encontrados sem vida, lado a lado na cama matrimonial, onde se suicidaram com injeção letal dois dias antes. Ao lado da cama, mais um bilhete, escrito à mão, dessa vez para a prefeita da cidade: “Querida amiga, sempre soubemos que queríamos terminar nossa vida juntos. Perdoa a ingrata tarefa que te deixamos.”
Isso só veio a acontecer porque, anos antes, Dorine contraiu uma doença incurável e com implicações severas para sua saúde, após o líquido do contraste (usado para exames de radiografia) ter provocado uma reação negativa em seu organismo, atacando lentamente seu sistema nervoso e incapacitando-a. Aos poucos, Gorz largou o trabalho para dedicar-se exclusivamente à esposa, isolando-se junto a ela em uma casa no campo e especializando-se em uma série de tratamentos alternativos, o que o permitiu prolongar a vida dela por mais de vinte anos.
Mas, até aí, fora o episódio do suicídio (que pode despertar um interesse “mórbido” a respeito do conteúdo do texto), o livro não parece muito diferente de tantos outros sobre o mesmo assunto que circulam por aí. Além de que, à primeira vista, também poderia pesar contra ele o fato de que você já começa a história sabendo de seu desfecho. Mas nada disso consegue sequer manchar o brilhantismo de Carta a D..
Muito mais do que elucubrações sobre o amor, o que Gorz faz é se declarar para a mulher. E que baita declaração que ele faz. Mas, mais do que isso, ele consegue percorrer, através do texto, um caminho que pode ser comum a muita gente. O quanto ele demora a reconhecer a importância da mulher em sua vida (quantos de nós não damos o devido valor àqueles que estão à nossa volta?), por exemplo, é uma jornada bastante interessante partindo do ponto em que ele só se dá conta disso muitos anos após sua união, aliás, já quase no fim dela.
Gorz também faz uma consideração interessante, sobre como construiu uma carreira a despeito da esposa (que era “obrigada” a conviver com suas seguidas e intermináveis noites de estudo e trabalho), passou a trabalhar com ela (quando ela basicamente começou a nortear seus trabalhos teóricos e linhas de pesquisa), terminando, por fim, a dedicar-se exclusivamente para ela (já no fim da vida, quando largou tudo para cuidar dela e de seu tão querido jardim).
Entretanto, se Gorz não faz tantas considerações a respeito do amor, procurando apenas relembrar sua história com a esposa, praticamente declarando-se a cada parágrafo para ela – e com uma beleza de se destacar –, em mim, o livro provocou essa reflexão. O amor sempre me despertou bastante curiosidade. Entender os mecanismos do sentimento tão maluco que essa palavrinha inventada pelo nosso sistema de significação representa, pra mim, era questão de uma exagerada “racionalidade”. Um misto explicável de atração física e psicológica, e de afinidade. Mas, com o tempo, fui percebendo (e hoje tenho até vergonha de um dia já ter pensado assim) que isso não basta para representar algo tão único quanto o amor. Acho essa uma palavra mais adequada. Se um termo pode definir o sentimento do amor, ele é “único”.
E eu não falo do amor no sentido com o qual estamos mais habituados. Em termos gerais, amor é aquele entre homem e mulher, numa relação que pregue a
família nuclear, monogâmica e heterossexual. Mas, na verdade, ele é muito mais que isso. E me é absolutamente intrigante como uma pessoa sem nenhum laço consanguíneo, nenhum vínculo afetivo ou emocional preexistentes, nenhum traço cultural, social ou de tradição que as uma obrigatoriamente, possa entregar a própria vida por uma outra (independente de sexo, cor, religião etc.). Fora tantas outras coisas loucas que todos nós, cedo ou tarde, nos pegamos fazendo por alguém que amamos.
No fundo, o amor é até explicável quando é por um familiar (geralmente, pai, mãe, irmãos e, óbvio, filhos). Essas pessoas foram meio que “impostas” a nós pela vida. Temos uma obrigação “moral” e até natural de defendê-las e sofrer por elas. Agora, alguém com o qual não temos qualquer ligação afetiva antecedente à relação despertar tamanho sentimento em nós continua a ser uma grande sacada de mestre de Deus, da Natureza, do Cosmos, do Universo, ou qualquer que seja a força que rege a vida. A explicação de que somos atraídos instintivamente – e até pelo cheiro – por alguém com o sistema imunológico bem diferente do nosso (a fim de gerar melhores descendentes no processo de reprodução), ainda que bastante sensata, continua a me ser absolutamente insuficiente também. Como isso explica alguém que passa 60 anos ao lado de outra pessoa e ainda diz que se suicidou porque “não seria possível para ele [Gorz] viver um segundo sequer nesse mundo sem a presença e a companhia dela [Dorine]”, como ele diz no livro. A explicação, qualquer que seja ela, é ou não é insuficiente?
Enfim, eu escrevi tudo isso sobre o livro e ainda não foi o bastante para retratar o quanto ele é bom, inspirador, bem escrito e mexeu comigo. Na verdade, nem precisava ter escrito tanto, bastava dizer que ele é, basicamente, obrigatório. Se encontrá-lo um dia desses num sebo por aí (as edições estão esgotadas e até em sebo é bastante difícil encontrar um), nem pergunte o preço: ponha na sacola e pague. Você não vai se arrepender.
[...] o óbvio, falou sobre assassinos em série e trocou figurinhas com Homem comum, do Philip Roth, e Carta a D, de André [...]
Gugu,
Li uma resenha sobre este livro há muito tempo, se não me engano na sessão da SuperInteressante (ótima para dar dicas de boas leituras!), fiz uma “anotação mental” para compra-lo, cheguei a procurar uma ou duas vezes… E me esqueci completamente dele.
Mas aí vem vc, com esta ótima resenha, para me lembrar que algumas leituras TÊM q ser feitas, não importa o quanto demora ou o que custe.
De algo assim, absolutamente surreal, como um amor destes, me chama mais ainda a atenção as entrelinhas: o não-relato daquilo que Gorz NÃO GOSTAVA em Dorine (devia ter alguma coisa!), que, no entanto, se diluia em meio ao amor avassalador que eles experimentaram. Acho isso mais fascinante ainda: aquelas coisas feias, chatas e desagradáveis, aquelas nossas partezinhas que escondemos muito bem, acabar aparecendo para quem nos ame, e isto não mudar o amor que sentem por nós.
Sou bastante ignorante em matéria de amor, e devia aprender mais, com urgência.
Abração!
Tem razão, Beto. Essa sessão da Super já me rendeu bons frutos também…hahhahahah.
Já quanto a isso que disse sobre o “não relato”, o Gorz trabalha isso no livro de maneira bem suave, quando vai retratando como, ao longo de sua obra, sempre “menosprezava” a importância da mulher na sua vida. Ele diz o quanto ela era fraca e dependente da relação deles dois. Contudo, esta obra final, segundo ele próprio, vem para “consertar” esse erro histórico cometido por ele. E, pra mim, essa é a grande sacada. Não é um livro pretencioso nem nada que o valha. É simplesmente uma declaração.
Abraço!