Por Rodrigo Casarin
Está aí o verão. Principalmente nesta época do ano, é difícil passarmos um dia sem ver na tevê, escutar no rádio ou ler em alguma revista ou site alguém falando sobre como cuidar do corpo. A ordem é clara: todos precisam estar em forma. Ser saudável não basta, é preciso ser sarado. É preciso que seu corpo esteja de acordo com os padrões de beleza atuais, nada de se achar bonito apenas por seguir critérios renascentistas. Ter uma barriga passa a quase ser um crime. Se ainda o barrigudo for flagrado se deliciando com uma bela porção de calabresa acebolada e um tonel de cerveja, aí o julgamento e a acusação são inevitáveis: precisa se cuidar mais.
E ta lá no programa das 13h20: tome suco de clorofila com jaca para diminuir a barriga; na revista semanal: corra 150km por dia e coma apenas mato para atingir o corpo perfeito; na Internet: plante a própria melancia e conquiste o corpo da mulher fruta da estação… É um policiamento constante, uma lavagem cerebral permanente.
Claro que ter um corpo saudável é importante, contudo, não é isso que pregam, não se enganem. Basta ver a quantidade de pessoas que tomam diversos tipos de substâncias maléficas ao ser humano apenas para atingir os formatos que nos empurram goela abaixo como sendo os ideais. Agora, se fingem querer que todos tenham uma saúde impecável, por que não desejam o mesmo para o cérebro?
Que interessante seria se assistíssemos na televisão, ouvíssemos nas rádios e lêssemos em qualquer canto sistematicamente coisas do tipo: “Você precisa ler mais, é importante para o seu cérebro”, “Não dê opiniões sem fundamentações básicas, estude o assunto antes de meter o bedelho”, “Ache o que quiser, mas saiba embasar os seus achismos”. Poderiam criar programas, que passariam no horário nobre, com dicas de leituras e debates sobre obras consagradas. Com o tempo, as pessoas se acostumariam com nomes como Tolstoi, Philip Roth, Gabriel Gárcia Márquez, Cristovão Tezza ou Jorge Luis Borges. Ficariam íntimas de Ryszard Kapuscinski e Charles Bukowski. Não estranhariam aquele gordo que continua comendo feito um porco, mas qualquer um que não saiba o mínimo sobre Dostoievski.
Obviamente outros programas abordariam outras manifestações artísticas. Os filmes enlatados dos Estados Unidos dariam lugar a verdadeiras obras de arte. Menos Spielberg, mais Ricardo Darín, Almodóvar e Lars Von Trier. Em seguida, discussões sobre as obras e como elas se encaixaram no contexto da época em que foram filmadas. Outras formas de se expressar também teriam seu lugar, tudo para que o cérebro de cada um seja realmente desenvolvido.
Alguns bons anos depois, teríamos muito mais pessoas cultas e verdadeiramente inteligentes por aí, com real capacidade para lidar com os problemas, com uma dimensão muito maior da realidade, que saberiam conviver muito melhor com as diversidades e respeitar o próximo. O próximo, esse sim, poderia ser gordo, magro, tanto faz, desde que saudável. Saudável de corpo e, principalmente, de mente (com o perdão do cacófato).
Nem tanto lá, nem tanto cá, meu caro. Como diria o Matanza, “o segredo do sucesso é a moderação”. Priorizar só a mente negligenciando o corpo também é tão perigoso quanto. O mais importante é achar o que te dá prazer em ambos os casos. Leia aquilo que te dá vontade, faça os exercícios que você GOSTA de fazer. Já quanto à comida, é aquela velha história. Uma hora você se dá conta que deve parar de fazer só o que quer e começar a fazer o que precisa ser feito. Goste você ou não. Uma hora o corpo grita.
Sim, por isso que eu disse que a saúde é importante.
Mas a parte da lavagem cerebral ao inverso é realmente bastante interessante. Pena que é, provavelmente, tão utópica quanto.
É uma questão de mercado: programas de TV que vão um pouco além do óbvio tem rejeição alta -> o que não interessa para os patrocinadores -> o que “inviabiliza” o programa. O deus lucro dita tudo.
Já as pessoas, gostam de tentar se adequar ao padrão vigente. Muitas vezes, a qualquer custo: há casos de africanas queimadas por substâncias “enbranquecedoras” e japonesas mutiladas por cirurgias para aumento da altura, que se faz quebrando as canelas.
Eu, particularmente, endosso a “mensagem” da crônica: se os livros fossem moda, se se informar fosse o padrão, a HUMANIDADE inteira ganharia. Mas, como no célebre conto onde o mal triunfa, e os diabinhos são pegos vez por outra fazendo alguma “bondade” às escondidas, caso houvesse um regime que enfatizasse muito a leitura e desse dicas dos clássicos, é bem possível que a revista Caras fosse “cult”… rsrs
Ditaduras são sempre sacais.
Texto muito bom!
Abs
O que realmente importa é o padrão de “beleza” atual. Para mulheres, ser peituda, bunduda e com a barriga lisa; para os homens, corpo definido, muitos músculos e barriga trincada. Saúde não tem prioridade nesse caso. Pode ter o fígado dilacerado por esteróides ou suplementos alimentares, estando sarado é o que importa. Vejo em revistas, sites e na TV, mulheres musculosas, cheias de curvas e com cara de travestis; isso não é bonito, ao menos pra mim. Sem contar que ao abrirem a boca chega a dar dó. Infelizmente, pensar não é tão importante atualmente, ninguém vai se interessar por você se estiver lendo um livro, mas tiver barriga.