Feeds:
Posts
Comentários

Archive for the ‘Dica de leitura’ Category

Por Alberto Nannini

vale_tudo_capaHá uma máxima que diz: “O livro é sempre melhor que o filme”. É de se pensar porque ela se confirma tanto. Talvez porque o filme te deixe muito passivo, e te desobrigue a imaginar – está (quase) tudo ali na tela. Talvez porque os livros tragam mais detalhes e ajudem a formar um panorama muito mais profundo da história, já que não são limitados por tempo nem por orçamento.

Quando se trata de biografias, aí vira covardia: um livro pode trazer muitas histórias e “causos” do retratado, e alternar o drama, a comédia e o que mais houver de maneira gradual e imperceptível. O filme precisa condensar tudo isso em cerca de duas horas. Não é uma tarefa fácil.

Sobre a biografia de um dos mais geniais músicos da história nacional – Tim Maia – não assisti ao filme que está em cartaz, mas li o livro que o inspira: Vale Tudo, de Nelson Motta, e venho indicá-lo com toda ênfase.

Nelson Motta conheceu e conviveu com o músico. Ouviu da boca dele muitas histórias que narra. Mostra um carinho por ele que só engrandece a obra. E ainda domina muito bem as técnicas narrativas. Seu livro tem ritmo (como seria de esperar, aliás, ante o retratado).

Muita coisa foi novidade para mim, na história de Tim Maia. Suas raízes, sua passagem fora do Brasil, o período que cantou com o jovem Roberto Carlos e outros ícones da música, como ele próprio se tornaria. E o imenso anedotário de esquisitices que ele tinha, e sua maneira sui generis de viver e lidar com aquelas chatices que tanto nos aborrecem: documentos em geral, certificados de posse de bens, observar as leis… impossível não simpatizar com alguém tão “fora de órbita” como Tim. Até porque, este é um atributo da genialidade – gênios têm dificuldades de viver o cotidiano. E Tim era um gênio, que conseguia musicar qualquer texto.

Lendo este livro, você vai conhecer a gênese de algumas músicas que se tornaram clássicos nacionais. Vai rir com a história do gordinho mais simpático da Tijuca, como o chama o autor. Vai poder opinar sobre o filme, caso o assista. E vai lamentar quando a leitura acabar.

(Dica: ele é de 2007, então, há boas chances de achar exemplares em bom estado em sebos ou no Estante Virtual).

Read Full Post »

 

Por Alberto Nannini

medHomensAlmasA inglesa Taylor Caldwell tem um estilo facilmente reconhecível: extremamente detalhista nas ambientações e descrições de personagens e localidades, muito precisa nas reconstruções históricas, e sempre baseando seus muitos livros no ideário cristão.

No caso do livro Médico de homens e de almas, a autora fez uma grande pesquisa para romancear a história de Lucas, a quem se atribui um dos evangelhos canônicos. Médico no seu tempo, contam algumas lendas que se atribuíam milagres e prodígios a ele antes mesmo de sua conversão ao cristianismo.

Com este mote, ela costura um romance envolvente, que conta a história do futuro santo, que sente grande compaixão pelos homens e que “não gosta” muito de Deus, ou melhor dizendo, não O sente próximo. Sua aproximação à ideologia do carpinteiro de Nazaré vai se mostrando como um arranjo perfeito, suprindo-o daquela convicção que lhe falta. Enquanto isso, Taylor Caldwell descreve costumes (chamou-me a atenção as refeições da época), localidades, vestimentas e elucida arranjos políticos no intricado panorama social vigente naqueles tempos, com os romanos buscando conter a insurgência crescente dos rebeldes judeus.

A autora, muito prolífica, escreveu também O grande amigo de Deus, romanceando a história de Paulo, o apóstolo que, bem dizer, fundamentou o cristianismo e lhe deu as bases que possibilitaram que ele reinasse soberano por milênios e que continue uma das mais influentes filosofias do mundo.

Tenho uma relação de afinidade com os livros de Taylor Caldwell – tanto que pretendia dar dica de leitura outro livro dela, mas pensei que havia tanto a falar a respeito deles que valeria uma resenha.

De qualquer forma, caso aprecie romances com fundo histórico e queira saber mais sobre os primórdios do cristianismo, a dica é ler um destes livros mencionados. Possivelmente, se ler um e gostar, vai desejar ler o outro. Foi o que aconteceu comigo.

 

Read Full Post »

Por Fred Linardi

Montaigne-Os-ensaiosExistem clássicos da literatura de ficção, assim como há clássicos da filosofia e das várias vertentes da ciência. Quando se trata de ensaio, no entanto, o crivo parece se estreitar – apesar deste gênero ser um tanto subjetivo em sua classificação. E então, uma das obras que ocupam o topo da categoria são a coletânea Os Ensaios, de Michel de Montaigne. Ele é considerado o criador deste tipo de texto que fica entre o livre pensamento e a objetividade acadêmica ou científica. Sua obra ganhou corpo depois que ele se decidiu se retirar e dedicar seu tempo à leitura e à produção da encorpada obra que acabou por gerar. Sim, ele era um nobre de família abastada. Além de herdeiro e pai de família, chegou a ser prefeito de Bordeaux, soldado, administrador e viajante. Quando decidiu se afastar, e preocupado com sua saúde, propôs-se a escrever sobre quase tudo – e aqui está o preceito do gênero que, na verdade, já havia sido praticado por mentes bem mais antigas que haviam se arriscado em livres pensamentos, como Sêneca, Plutarco e Sei Shõnagon.

Essa seleção dos ensaios do pensador francês reúne grande parte dos três antigos volumes que têm sido lidos ao longo desses cinco séculos no mundo todo. Temas universais como o medo, a ociosidade, a idade, as orações, o verdadeiro e o falso, a consciência, a embriaguez, a crueldade, Sêneca e Plutarco (!), arrependimento, a crueldade, e assim vai… Apesar dos assuntos serem para sempre atuais, é claro que a abordagem remonta ao seu conhecimento da época, com exemplos contemporâneos a sua realidade. Da mesma forma, para o leitor de hoje pode soar um tanto rebuscado. Mas olhando mais de perto vemos a ousadia de escrever sobre esses assuntos e permitir-se vagar por algo semelhante ao fluxo de consciência que passaríamos a ver em ensaios mais modernos, de cunho pessoal. Acontece que Montaigne já se coloca em seus próprios textos, mostrando mais verdade e nos aproximando mais de seu discurso.

Se o ensaio é um texto em que o autor se arrisca por campos ainda não visitados por ele, o texto “Sobre os canibais” pode ser um exemplo disso. Ele foi construído a partir de relatos lidos dos europeus que estiveram no Brasil. O contexto ainda era em torno da selvageria indígena versus a cultura civilizatória. Mas Montaigne, que se preocupava em evitar radicalismos, acaba por questionar – afinal, quem são os selvagens?

Apesar de reflexões que continuam atuais, a leitura não deixa de ser de fôlego. Os ensaios são raramente curtos e, refletindo a base de sua educação – ele foi alfabetizado em latim –, são entremeados de citações nesta língua, seguindo pensamentos de Horácio, Virgílio e Cícero, entre outros. Este livro é tanto um convite para uma longa leitura quanto para breves consultas acerca de seus temas. 

Read Full Post »

Por Fred Linardi

A_HISTORIA_SEM_FIM_1229355292PHouve uma geração que assistiu inúmeras vezes ao filme História sem fim, que habitava a Sessão da Tarde mês sim, mês não. Para quem viajava nas cenas e terras fantásticas, o livro que deu origem ao belo filme não é uma boa pedida, é uma ordem. Até porque a história retratada na tela não passa da metade das quase 400 páginas da obra. Com sua imaginação ao extremo, o escritor alemão Michael Ende faz uma ode ao mundo fantástico e a nossa capacidade de habitá-lo sem nos perdermos em suas armadilhas. Quem lê o livro é Bastian, escondido no porão de escola, acompanhando as aventuras de Atreiú. Lemos o que Bastian lê até que ele acaba entrando no próprio livro, eis aqui o ponto de partida da história que o cinema não mostrou. A literatura de Ende não menospreza nem a criança, nem o adulto, com suas nuances filosóficas e as reflexões dos personagens.

Read Full Post »

Por Alberto Nannini

O_GENIO_DO_CRIME_1230942899PDepois das resenhas para o público principalmente infanto-juvenil que escrevi – Os meninos da rua Paulo e O enigma das estrelas, nada mais justo que uma dica de leitura do mesmo tom.

Clássico sem perder a atualidade, é excelente para presentear aquele(a) sobrinho(a), primo(a), enfim, aquele(a) jovem meio desinteressado pela leitura: é o livro O gênio do crime, de João Carlos Marinho.

Uma rápida pesquisa me informa que a obra, de mais de 40 anos, teve mais de 1 milhão de exemplares vendidos em mais de 60 edições, e é considerado uma das referências fundamentais da literatura infanto-juvenil brasileira.

A história é simples: uma turma de garotos coleciona figurinhas num álbum de futebol, que, se preenchidas, dão direito a bons prêmios. Mas alguém está falsificando as figurinhas, e o proprietário da fábrica que as produz não tem capacidade da dar todos os prêmios, e pode ir à falência. Então, uma turma de garotos – a Turma do Gordo: Edmundo, Pituca e Bolachão (depois, também Berenice) – se unem para descobrir quem está por trás daquela fraude: eles vão se deparar com um gênio do crime e precisarão de toda a astúcia para desmascará-lo e se safarem.

Nem preciso dizer que, para alcançar o sucesso que alcançou, o livro é necessariamente muito bom, mas reforço: é muito bom. Passagens dele me marcaram, apesar de ter lido há uns trinta anos. A invenção do Gordo para seguir um dos bandidos é uma sacada inteligentíssima, que fez escola. Tem até cenas de tortura, que te deixam angustiado.

Uma memória curiosa: um ex-namorado de uma das minhas irmãs, um rapaz de enorme coração, mas meio bronco, gostava muito de conversar comigo, embora eu fosse só uma criança. Eu falava empolgado dos livros que lia, e ele (provavelmente disléxico) dizia que não conseguia ler nada. Então, eu dei a ele meu exemplar de O gênio do crime, depois de fazer uma enorme propaganda, mais ou menos como esta, para que ele o lesse; e me lembro de quando eu o via, e ele vinha comentar as passagens do livro que tinha lido, e que estava gostando, e isso me deixava muito feliz.

Então, se por acaso não o conhece, procure-o em qualquer sebo; se já o leu, revisite-o, e, se conhecer alguém que não consegue se apegar à leitura, esta é uma ótima dica de presente!  

Read Full Post »

Por Alberto Nannini

ABestaPeço licença para ousar um pouco nesta dica de leitura. A dica propriamente dita é do livro A Besta, dos suecos Anders Roslund e Börge Hellström. O primeiro é um renomado jornalista, o outro, um ex-presidiário.

A sinopse da contracapa assim descreve: “Duas crianças são encontradas mortas em um porão. Quatro anos depois o assassino escapa da prisão. A polícia sabe que, se ele não for localizado rapidamente, matará de novo. Quando seus piores temores tornam-se realidade e outra criança é brutalmente assassinada nos arredores de uma pequena cidade, a situação sai totalmente de controle. Na atmosfera histérica provocada pela mídia, Fredrik Steffansson, pai da criança assassinada, decide vingar-se e sai à caça. Suas ações terão consequências devastadoras. Enquanto a raiva e a indignação espalham-se por todo o país, os dois detetives responsáveis pelo caso encontram-se em um violento quebra-cabeças. O mal, como se sabe, pode se espalhar com grande rapidez. Uma história perturbadora e profundamente chocante criada pela dupla que já é um fenômeno mundial, Roslund e Hellström, sobre o que pode ocorrer quando tomamos a justiça em nossas mãos”.

Muito bem escrito e verossímil, apela para a identidade que até os que não tem filhos conseguem imitar: a fúria protetora dos pais para com suas crias. É possível que nada cause mais ojeriza na nossa sociedade que crimes sexuais contra crianças. Só pensar nisso já nos deixa enojados, e até os próprios bandidos não suportam conviver na cadeia com estupradores, e os matam, quando têm oportunidade.

O desenlace do livro surpreende e faz refletir bastante.

Mas o inusitado desta dica é que também vou indicar, além do livro, um filme imperdível: A caça, do dinamarquês Thomas Vinterberg, com Mads Mikkelsen (o vilão do filme do 007 Cassino Royale). Neste drama extraordinário, uma criança incrimina injustamente um zelador de crianças como abusador, e a vida dele se torna um inferno.

Embora ambos tratem dos abusos infantis, são opostos em seus rumos: o livro trata de um estuprador contumaz e assassino, enquanto o filme, de um homem normal tido como abusador. Mas há desenlaces interessantes em ambos, e mostram que, quando este tipo de horror acontece, seja pela desgraça consumada, seja por erro de julgamento, nada mais fica como antes – porque o que as duas obras realmente trazem em comum é a reação dos adultos que gravitam em torno de uma história como esta, sejam eles pais ou não. A repulsa e o ódio podem leva-los a cometer atos de consequências catastróficas.

Ambos valem ser conhecidos – respectivamente, lido e assistido – porque mostram que nossas condições de cidadãos honestos e respeitadores das leis podem cair por terra, se uma tragédia destas proporções nos tocar, e fazer com que percamos tudo. Absolutamente tudo.

Read Full Post »

Por Igor Antunes Penteado

nome da morteA morte é certamente o maior enigma da vida. Isso porque, para mim, a morte faz parte da vida, não é o contrário dela. Morte é o contrário do nascimento. Até porque depois dela acontecem várias coisas que ainda fazem parte da existência (a decomposição do corpo, que permite a continuidade da vida, por exemplo). Quando nos deparamos com ela – a morte – ficamos desconcertados, na maioria das vezes. Não estamos culturalmente preparados para lidar bem com o tema. Agora imagine-se responsável pela morte de quase quinhentas pessoas. E não falo de uma bomba ou algo do tipo, é você puxando o gatilho que ceifa a vida de cada uma delas, uma a uma. Essa é a história de Júlio Santana, matador de aluguel que tem sua trajetória contada de forma muito competente por Kléster Cavalcanti no ótimo O nome da morte. Depois de matar, Júlio rezava dez ave-marias e vinte pai-nossos para pedir perdão e “esquecer” o que tinha feito. Eu, provavelmente, nunca esquecerei.

Read Full Post »

Older Posts »

%d blogueiros gostam disto: