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Posts Tagged ‘Adriana Armony’

Tatiana Salem LevyTatiana Salem Levy nasceu em Lisboa, ainda jovem mudou-se para o Rio de Janeiro e agora passa uma nova temporada em terras portuguesas. Estreou como escritora com A chave de casa, de 2007, que venceu o Prêmio São Paulo de Literatura na categoria “romance de estreia”, já foi publicado na Espanha, França, Itália, Portugal, Romênia e Turquia e agora está sendo vertido para o inglês. Dois rios, seu outro romance, foi publicado em 2011 – sim, ela não tem pressa para despejar novos títulos no mercado.

Além disso, Tatiana já organizou e participou de coletâneas de contos (está presente na Granta com os melhores jovens escritores brasileiros, por exemplo) e publicou ensaios que surgiram de suas pesquisas acadêmicas (a moça é doutora em estudos da literatura pela PUC-RJ). Nessa conversa com o Canto dos Livros, falou do seu moroso processo de produção, o atual momento da literatura no país e um pouco de sua obra. Confira:

Canto dos Livros: Passado mais de um ano da publicação da Granta com os melhores jovens escritores brasileiros, como você avalia a sua participação na revista? Qual a importância dela? Houve algum retorno perceptível além do estardalhaço causado no meio literário à época do lançamento? 

Tatiana Salem Levy: A Granta ter feito um número com jovens escritores brasileiros significa que há um interesse crescente pela nossa literatura, o que é positivo para todos nós, para os que estavam e para os que não estavam na revista. O mercado estrangeiro nunca se mostrou tão aberto a ler os autores brasileiros, a traduzi-los. O meu primeiro livro, por exemplo, já saiu em seis países e agora, graças à Granta, vai sair também em inglês – isso, quinze anos atrás, era impossível. Portanto, além do estardalhaço, que é chato, mas inevitável, acho que a gente só saiu ganhando com a publicação da Granta.

CdL: O escritor Luiz Antonio Assis Brasil vê como marca predominante nesta geração de jovens escritores a escrita em primeira pessoa: “É quase hegemônico de uns 15 anos para cá. É uma literatura muito confessional”, diz. Concorda com esta análise? 

TSL: Mais ou menos. Uma marca que a literatura atual não tem é a hegemonia. Há, sim, uma tendência à escrita em primeira pessoa, mas acho que também há uma tendência a se escrever em terceira, a uma prosa mais realista. Acho que há uma diversidade grande no que diz respeito à forma e aos temas. E não acho que a literatura em primeira pessoa seja necessariamente confessional, acho que há, antes, uma tendência a se jogar com isso, brincar com as fronteiras entre o biográfico e o fictício.

CdL: Dessa nova geração de escritores brasileiros, quais obras e autores você destaca? Por quê? 

TSL: Não me sinto numa posição confortável para destacar nenhuma obra nem autor da minha geração. Acho que esse papel não cabe a mim. Posso dizer que gosto muito do trabalho do Daniel Galera, do Michel Laub, da Carola Saavedra, entre outros, mas isso é meu gosto pessoal. Até porque acho que ainda é muito cedo para definir quem são os mais importantes.

CdL: A maior proximidade dos autores, com seus perfis em redes sociais, é uma realidade. Você sente esta proximidade? Em que medida isto te afeta? 

TSL: Não sinto mais nada disso, porque saí do Facebook e nunca tive Twitter. Posso apenas dizer que receber mensagens de leitores no Facebook era uma das poucas coisas boas de se estar lá.

CdL: Você não parece preocupada em lançar uma obra atrás da outra em um curto espaço de tempo. Seu processo de escrita é muito lento? Como ele funciona? 

TSL: Sim, bastante lento. É engraçado, porque cada vez que vou começar um livro, que tenho uma ideia e penso na estrutura narrativa, eu me digo: desta vez vai ser fácil, é só sentar e escrever. Mas nunca é só sentar e escrever. É como se a escrita de um livro não me ensinasse quase nada sobre o processo de escrita, como se eu tivesse que reaprender a cada livro. Num certo sentido é como partir do zero, e eu até gosto desse frescor. Mas também é difícil, porque inevitavelmente chega um momento em que eu digo: está tudo uma merda. Faz pouco tempo joguei 150 páginas fora. No fim, parece que foi fácil, mas nunca é. Eu poderia dizer que se escrevo uma página por dia posso ter um romance por ano, mas não é bem assim, porque a gente nunca conta as páginas que foram pro lixo, e a verdade é que elas são fundamentais. Além disso, tem o tempo de ruminação, eu fico ali com cada romance, cada história, ruminando, mudando pequenas coisas aos poucos, até conseguir ficar satisfeita e decidir publicá-lo.

CdL: Em uma entrevista para a Saraiva, você disse não gostar muito do termo autobiografia, prefere falar de memória. Pra você, quais as diferenças entre os dois termos (ou gêneros)? 

TSL: Já não me lembro em que contexto eu disse isso, de qualquer forma eu nunca escrevi nem uma autobiografia, nem uma memória. Talvez eu estivesse falando sobre a memória na A chave de casa, de que forma eu trabalhei com essa questão, porque a memória é um dos tópicos cruciais do romance. Mas eu não devia estar falando da minha memória ou da memória da minha família (se estava, já mudei de ideia, até porque essa entrevista tem tempo, e eu mudo de ideia constantemente), e sim do próprio trabalho da memória, do fato de ela nunca ser redonda, fechada. A chave de casa tem uma narrativa que funciona como pequenos flashes, que brinca o tempo todo com a incerteza, com as contradições, com a interpretação – tal como e a memória.

CdL: Independente do termo que usemos, sua obra está bastante atrelada ao seu passado e ao passado da sua família. Como os seus familiares costumam receber os seus livros? 

TSL: Eu não diria que a minha obra (se é que tenho uma) esteja bastante atrelada ao meu passado e ao passado da minha família. A chave de casa, sim, mas meus outros livros (meu segundo romance, o ensaio e o infantil), não. Então, só vou responder essa pergunta em relação ao primeiro livro. É verdade que houve uma expectativa da minha família em torno do romance, porque eles achavam que veriam a história da família retratada. Alguns dos meus familiares ficaram frustrados, justamente porque eu não conto nada da história dos meus antepassados. Tirando o fato de que vieram da Turquia, nada aconteceu na realidade, a história do passado do avô da personagem é completamente ficcionalizada. Mas no fundo, a questão é: que importância isso tem? Que diferença faz se eu falo de coisas que aconteceram ou não? O que vale é o leitor acreditar no que lê. Se aconteceu ou não, isso não faz diferença. O que define um romance é a forma com a qual a história é narrada, e não aquilo que é narrado.

CdL: Tendo organizado a coletânea Primos, com histórias de autores brasileiros descendentes de árabes e judeus, como você analisa a produção literária (de qualquer canto do mundo) que reflete a conturbada relação entre esses dois povos? 

TSL: Eu e a Adriana Armony quisemos organizar esse livro para mostrar como a convivência entre árabes e judeus não apenas é possível, como existiu ao longo dos séculos e ainda existe hoje em muitos lugares, tanto na diáspora quanto em Israel e na Palestina. Eu tinha acabado de fazer minha primeira viagem a Israel, e tinha voltado muito espantada (positivamente) com a semelhança entre os dois povos. São mesmo primos, em termos culturais e geográficos, mas vivem em guerra há algumas décadas.

A nossa ideia era, num certo sentido, promover uma espécie de paz literária, apontar para as semelhanças desses povos. Agora, analisar a produção literária de qualquer canto do mundo que reflita essa relação, sinceramente, não me sinto apta a isso. A nossa vontade era apenas a de mostrar para um público brasileiro o diálogo possível, e existente, entre árabes e judeus.

CdL: Você participou da coletânea 25 mulheres que estão fazendo a nova Literatura Brasileira, organizada por Luiz Ruffato. Pois bem. A desigualdade enraizada no tratamento dispensado a homens e a mulheres, quando no mesmo ofício, é um fato. Por outro lado, a boa literatura independe absolutamente do gênero de seu autor. Assim sendo, na sua opinião, iniciativas como estas, de reunir mulheres escritoras, auxiliam na quebra destes preconceitos enraizados ou apenas os reforçam?   

TSL: Movimentos como este são fundamentais. O Ruffato organizou essa antologia porque no livro Geração 90: Manuscritos do computador havia apenas uma mulher, a Cintia Moscovich. Ele quis mostrar como havia muitas outras escrevendo, daí o livro.

Antigamente, eu achava que as mulheres, no meio artístico e intelectual, já tinham conquistado o seu espaço, mas na prática fui vendo que não é bem assim. Parece que a mulher ocupa uma espécie de cota pré-definida. Quando jornais e revistas fazem um balanço, por exemplo, dos 10 melhores livros do ano ou da década, normalmente há apenas uma ou duas mulheres. Se você ver os finalistas dos prêmios mais importantes, é a mesma coisa. Eu tenho viajado muito para participar de festivais literários, e o mesmo ocorre, sempre mais homens do que mulheres. Até na Granta, são 14 homens para 6 mulheres.

Se de fato houvesse mais homens do que mulheres escrevendo, eu entenderia. Ou se a qualidade dos textos dos homens fosse superior à dos textos das mulheres, eu também entenderia. Mas não é o caso. Portanto, cheguei à conclusão de que nem mesmo no meio artístico e intelectual a luta pelo espaço da mulher chegou ao fim.

Não se trata de defender uma literatura feminina – não acredito em tal coisa –, mas sim de eliminar a desigualdade entre homens e mulheres.

CdL: Testemunhamos recentemente um engajamento de cidadãos, com participação maciça dos jovens, em manifestações de protesto pelo Brasil. O que pensa a respeito? Qual colaboração uma escritora e sua obra podem legar para este público? 

TSL: Achei maravilhoso o engajamento da população brasileira para lutar pelos seus direitos. Estou passando um tempo em Portugal e, por esse motivo, infelizmente, não pude participar das manifestações. Se estivesse no Brasil, certamente teria ido. Manifestações são um momento de explosão de vitalidade, de se sentir vivo e lutando por um mundo melhor. A nossa tradição não é muito a de ir para a rua, né? Então, acho fantástico que tanta gente tenha se manifestado, e espero que o Brasil continue a ser um país assim, que luta pelos seus ideais.

Quanto ao legado de uma escritora e sua obra para isso, nem sei se há. Na verdade não acho que exista algo como “esse público” num sentido homogêneo. O público é sempre muito variado. A literatura transforma as pessoas aos poucos e, com isso, vai transformando o mundo, mas uma coisa assim imediata, acho que os cronistas dos jornais, os antropólogos, por exemplo, têm um papel mais eficaz nesse sentido.

CdL: Como o Canto dos Livros, muitos outros blogs de literatura produzem suas resenhas e críticas às obras publicadas no Brasil. O que acha desta tendência? Poderia citar aspectos positivos e negativos dela?  

TSL: Acho esta tendência ótima. Quanto mais gente houver dando suas opiniões, escrevendo sobre literatura, melhor. Desde que os textos sejam assinados, claro. A melhor coisa da Internet é a possibilidade de divulgação dos textos de qualquer um, a abertura e a circulação da informação.  A pior é o anonimato. Uma pessoa sem nome não precisa se defender, e pode atacar usando os golpes mais baixos e rasos, sem profundidade, um ataque que vale só pelo ataque mesmo, muitas vezes velando um mero ressentimento.

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O xá dos xás

Ryszard Kapuscinski

Nos anos 1950, com o repentino aumento do preço do petróleo, o Irã embarcou em um extraordinário processo de modernização. Foram importados armamentos, carros, aviões, tudo o que para o xá era sinônimo de desenvolvimento. Em 1979, no entanto, seu projeto de “Grande Civilização” ruiu: sob o impacto de manifestações populares e a pressão dos religiosos xiitas, o reinado despótico de Mohammed Reza Pahlevi chegou ao fim.
Para narrar o processo de ascensão e queda do último xá do Irã, Kapuscinski lança mão de uma técnica mista, em que entram narrativa histórica, crônica jornalística e escrita de ficção. Sem entrevistar representantes do novo governo ou adentrar o palácio onde viveu o xá, o autor busca no homem comum o significado profundo da cultura, da religiosidade e da revolução iraniana.
Nesta brilhante cobertura, o jornalista-escritor põe em prática sua convicção de que “todos os livros sobre as revoluções […] deveriam começar com um capítulo com tons psicológicos, em que se descrevesse o momento em que um homem sofrido e apavorado repentinamente derrota o terror; o instante em que ele deixa de sentir medo”.

Farsantes & Fantasmas
Antonio Carlos Olivieri

Antonio Carlos Olivieri cria uma trama em que as questões éticas ganham uma nova dimensão. O protagonista de Farsantes & Fantasmas é um ghost writer envolvido com personagens egocêntricos e de caráteres duvidosos, entre eles um editor que vê na morte de um de seus autores a oportunidade para emplacar um best-seller.

 

1922 – A semana que não terminou

Marcos Augusto Gonçalves

Numa narrativa fluente, elegante e crítica, que mescla linguagem jornalística e relato histórico, o jornalista Marcos Augusto Gonçalves dá vida aos personagens e descreve as famosas jornadas que animaram o Teatro Municipal nos dias 13, 15 e 17 de fevereiro de 1922, durante o festival que ficou conhecido como Semana de Arte Moderna. Ao mesmo tempo em que reconstitui passo a passo o evento, o autor despe o episódio de mitos que o foram cercando ao longo do tempo: desde certas fantasias triunfalistas associadas a uma espécie de superioridade paulista na formação da cultura moderna brasileira, até as versões que, ao contrário, insistem em diminuir a importância histórica dos festivais encenados pelos rapazes modernistas e patrocinados pela elite econômica da emergente Pauliceia.
Nesse sentido, o livro incorpora críticas que têm sido feitas, desde a década de 1980, a algumas “verdades” consagradas pela historiografia e pelo senso comum. Como a ideia de que a arte e a literatura dos anos que antecederam a Semana seriam apenas acadêmicas ou passadistas, resumindo-se, quando muito, a manifestações de caráter pré-modernista.
O autor procura reavaliar a participação do Rio de Janeiro naqueles anos de formação da modernidade artística, e inscreve os jovens personagens de 1922 numa rede de relações pessoais ampla e complexa – na qual trafegam oligarcas, playboys, mecenas, mulheres fatais, imortais da Academia e poetas “passadistas”.
Com base em ampla pesquisa, extensa bibliografia e entrevistas com especialistas, o livro – que também traz fotos e reproduções – é acessível ao leitor que se inicia no assunto, mas não deixará de despertar o interesse do meio acadêmico.
O título, como explica o autor, surgiu num chiste: “É uma paródia, uma espécie de blague quase oswaldiana a partir dos títulos de dois brilhantesbest-sellers escritos pelos jornalistas Zuenir Ventura e Laurentino Gomes. Espero que me perdoem”.

Doce Gabito
Francisco Azevedo
Doce Gabito conta a fantasiosa história de Gabriela Garcia Marques, uma menina que após a morte dos pais na guerrilha do Araguaia vai para o Rio de Janeiro morar com o avô na favela Santa Marta. Numa noite de tempestade, um simpático senhor de fartos bigodes surge em seu sonho e a convence a sair do barraco que logo desaba tirando a vida do avô. Aparecendo sem avisar e com valiosos conselhos, o misterioso senhor bigodudo torna-se seu mentor e melhor amigo. Ao descobrir que seu nome é igual ao do consagrado Gabriel García Márquez e se deparar com uma foto do escritor – que ainda nasceu no mesmo dia que ela – Gabriela reconhece seu amigo bigodudo cujo apelido, para os íntimos, é Gabito. Sempre acompanhada por seu ilustre parceiro, Gabriela enfrenta com lirismo e vigor as várias reviravoltas de seu tortuoso destino. 

Outro Israel
Textos de Uri Avnery organizados por Guila Flint
Em Outro Israel, o israelense Uri Avnery, vencedor do Prêmio Nobel Alternativo de 2001, faz uma profunda análise dos entraves à paz entre judeus e palestinos, e mostra que as dificuldades passam pela intransigência dos sucessivos governos de direita à frente do Estado de Israel. Os melhores textos de Avnery foram selecionados pela jornalista Guila Flint e são agora publicados pela primeira vez no Brasil. Hoje com 88 anos, Avnery foi fundador e líder do movimento Gush Shalom (Bloco da Paz), lutou na guerra pelo nascimento de Israel e já naquela época enxergou as ameaças à paz na região. As contundentes reflexões do escritor unidas a relatos emocionantes traçam um panorama do impasse que se arrasta desde meados do século XX.

Jesus

Christiane Rancé
Jesus de Nazaré chegou ao mundo quatro ou seis anos antes da data oficial de seu nascimento – o ano zero de nossa era. Em sua vida de pouco mais de três décadas (sua morte data do ano 31), passou apenas três anos em pregações. Afirmando-se como filho de Deus, neste curto intervalo difundiu uma mensagem de amor pouco comum para a época, despertou a ira e o temor dos detentores do poder e acabou morto da maneira mais degradante­ possível. Com o cruzamento das informações disponíveis nos Evangelhos e o resgate de fatos históricos na região da Palestina há dois mil anos, vem à tona o homem Jesus, fundador de um novo modo de pensar – que mudaria para sempre a ordem do mundo ocidental.

Erma Jaguar

Alex Varenne
Alex Varenne nasceu na França, em 1939, e é considerado um ilustrador notável. Erma Jaguar é uma de suas personagens mais conhecidas, uma espécie de “madame” moderna que à noite, vestindo seu corpete preto e dirigindo seu carro, sai buscando satisfazer todas as suas fantasias. Insaciável, ela enlouquece homens e mulheres de todos os tipos – uma jovem esposa, uma mulher inspirada na “deputada” italiana Cicciolina, um sujeito que mais parece um funcionário público, uma teenager, uma dragqueen, um cego… Todos cabem nos desejos de Erma Jaguar. Todos, da dama ao caminhoneiro, são a presa de seus instintos mais libidinosos.

Vai embora da casa de teus pais
Bernardo Sorj
Em um fascinante relato que une biografia, história e reflexão, Vai embora da casa de teus pais conta as aventuras de uma juventude que acreditava na mudança radical da sociedade. As lembranças sobre a passagem por Israel e a união de jovens latino-americanos, árabes e judeus na luta pela paz aparecem ao lado de reflexões sobre o judaísmo. Outro trecho memorável é o encontro do autor com Darcy Ribeiro no Uruguai. O título do livro é uma alusão à determinação bíblica na qual Deus diz a Abraão para sair de seu lar e de sua terra natal.

Estranhos no aquário
Adriana Armony
Às vésperas da virada do milênio, o jovem Benjamin contempla, através de um retângulo de vidro, as águas ondulantes de uma piscina onde corpos inconscientes do seu olhar se atravessam, lentos como o sono que o invade, até que algo penetra inesperadamente o vidro azulado. Tudo acontece tão rápido quanto a mudança que o atingirá em seguida: ao sair precipitadamente da pousada onde está hospedado com a namorada e os amigos, sofre um acidente de carro que o deixa com sequelas de locomoção e memória. Na luta para recuperá-lo, seus pais esbarram nas lacunas de uma memória ilhada num eterno presente, mas à medida que a narrativa recua no passado, mesclando lembranças e atualidade, percebe-se que o estado de Benjamin é consequência de um outro acidente que envolve histórias e paixões mais antigas e profundas.

Dentes de leite
Ignacio Martínez de Pisón
Através da trajetória de uma família, desde a Guerra Civil Espanhola até os anos 1980, Ignacio Martínez de Pisón retrata um dos períodos mais conturbados da história da Espanha. O italiano Raffaele Cameroni chega à ao país em 1937 para lutar como voluntário das forças franquistas. Lá ele conhece Isabel, uma bela enfermeira de Saragoça, e desiste de voltar a sua pátria, dando início a uma comovente saga familiar. Ao longo de três gerações dos Cameroni, é possível testemunhar o nascimento dos três filhos do casal, o drama quando se descobre que o mais novo, Paquito, tem uma deficiência mental, e a relação de amor e ódio entre pai e filhos.

Anatomia de um desaparecimento
Hisham Matar
Em Anatomia de um desaparecimento, o escritor de origem líbia Hisham Matarconsulta as próprias memórias para criar um belo romance sobre a relação pai e filho. E sobre o vácuo de sua ausência. Em uma voz trabalhada com delicadeza e de uma beleza terna, Hisham Matar pergunta: quando uma pessoa amada desaparece, como sua ausência molda as vidas dos que são deixados? Neste romance autobiográfico, Matar traz elementos da própria história, marcada pelo desaparecimento do pai que por anos militou no exílio contra o regime de Muamar Kadafi.

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