Feeds:
Posts
Comentários

Posts Tagged ‘Alberto Nannini’

Por Alberto Nannini

o-pacto_joe-hillQuando as pessoas que você ama lhe viram as costas, e sua vida se torna um inferno, ser o diabo não é tão mau assim”. Esta é a chamada de capa do livro O pacto, de Joe Hill. Fisgou minha atenção numa livraria, e me levou a ler a sinopse e as orelhas, achando-o instigante, até finalmente comprá-lo.

Depois de já começada a leitura, meu amigo César me informou que Joe Hill é filho de Stephen King, para meu espanto. Embora não seja uma regra absoluta (vide Antonio Prata e Mário Prata, Érico Veríssimo e Luis Fernando Veríssimo, dentre outros), não utilizar o sobrenome famoso, quando se tenta o mesmo ofício que o pai bem sucedido, é um bom sinal e soa corajoso.

Uma história de chifres

O livro fala sobre um rapaz, Ignatius Perrish, o Ig, que vive um pesadelo dantesco: o amor de sua vida, Merrin, foi estuprada e assassinada, e todos acham que ele é o culpado, já que eles tinham rompido o namoro e brigado feio na noite do crime. Inocentado mais pela influência da família do que por provas, um belo dia ele acorda com chifres (que é o título original da obra – Horns). As pessoas veem os chifres, mas quase não se assustam, logo se esquecem de tê-los visto, e começam a contar a Ig seus desejos e pecados mais secretos.

Ig está se tornando o (ou um) diabo, e quer descobrir quem matou Merrin e por que, e se vingar. Parece que será uma tarefa fácil. Mas, a princípio, os chifres e seu poder de fazer as pessoas confessarem se mostram mais como um incômodo constrangedor do que uma vantagem, já que Ig descobre segredos inconfessáveis de seus parentes, amigos e até desconhecidos, e também o que eles pensam dele de verdade. Mas fica muito pior: em matéria de maldade, perto de muitos humanos, diabos são reles amadores, e a jornada do novo chifrudo será, literalmente, um inferno.

Impressões sobre o livro

A construção de personagens é talvez o ponto alto da trama. Ig, Merrin e Lee Torneau, o melhor amigo de Ig (antes do crime), são muito bem delineados, e parecem saltar das páginas para o mundo. Ficaram bem reais. Outros personagens, como Gleena, namorada de Ig após o crime, e Terry, seu irmão, também mostram, em sua caracterização e ações, perfis psicológicos consistentes. Isto é fundamental para que tramas que tenham um pé no sobrenatural fluam de maneira satisfatória. Ponto para o autor.

A divisão dos capítulos, que procura alternar o ponto de vista entre os três protagonistas, funciona muito bem. Suas motivações e o tipo de elo que os une, além das impressões que tem uns dos outros, engrenam perfeitamente.

Outro ótimo mérito é a premissa do homem se tornar o diabo. Bastante criativa, abre o leque para uma série de interpretações e considerações, que serão retomadas mais à frente.

O estilo de escrita é condizente. Há palavrões quando cabem, e não há abuso de adjetivos. A tradução parece não comprometer, embora tenha encontrado pelo menos um erro grave nela (tudo indica que foi traduzido terrific como terrível). Mas as pouco mais de 300 páginas passam bem rápido, e o livro prende, na expectativa do desfecho que explique as ações dos personagens e que mostre a trajetória do novo diabo.

Como pontos negativos, não me convenceu bem o fato de todos acharem que Ig era o culpado pelo crime de estupro e morte da namorada e grande amor de sua vida. As narrativas de sua história, que incluem episódios da infância e adolescência com Lee e Terry, e também do momento em que conheceu Merrin e sua paixão instantânea por ela, nunca demonstraram que ele seria capaz de um ato como este – já que foram namorados por seis anos até o crime, e tinham rompido naquela noite, numa briga triste mas nada fora do comum, como bem sabe qualquer um que já tenha terminado algum relacionamento.

Além disso, com todo o aparato tecnológico que existe para se apurar crimes – especialmente os de grande apelo popular, de caráter sexual e que envolva famosos ou seus parentes, como no caso – dificilmente não seria desvendado.

O surgimento dos chifres poderia ter sido melhor amarrado. Talvez eu não tenha entendido direito a origem deles (tenho algumas hipóteses que não posso revelar, porque seriam spoilers), mas o fato é que eles surgem sem explicação, cerca de um ano após o crime; Ig está vivo, conversa e convive com todos que o toleram, embora esteja reduzido à condição de pária e beberrão.

Lá pelo fim, há uma explicação da atitude de Merrin, sobre o fim do namoro; achei desnecessária. Tenta amarrar bem esta ponta, e erra a medida. Muitas outras pontas terminam soltas, como o destino final de Ig.

De qualquer forma, é um livro notável, no meu entender, tanto pelos méritos e até pelos deméritos artísticos, como pela discussão que traz à baila: a personificação do mal.

O diabo e outros males

Na minha última resenha/artigo, que falava sobre o genocídio em Ruanda, perguntei se você, leitor, acredita que o Mal seja personificado. Uma tirinha de Calvin e Haroldo (brilhante!) que ilustra o artigo lança um olhar interessante:

Calvin: Você acredita no demônio? Sabe, um ser supremo, maligno, dedicado à tentação, corrupção e destruição do homem?

Haroldo: Não sei se o homem precisa desta ajuda…

Discutindo um pouco a origem do mito, tudo remete às dicotomias, e à natureza dual do homem. Quase sempre precisamos do oposto para entender algum conceito: claro/escuro, longe/perto, bem/mal.

O Deus único é um conceito relativamente recente. Por isso, chegaram a nós bem documentadas as tradições de muitas civilizações mais antigas que cultuavam panteões de deuses, como o caso da grega, um dos pilares da civilização ocidental. E há outras que ainda são assim nos dias de hoje, como o hinduísmo e algumas religiões africanas.

Este Deus único e seus pressupostos de perfeição – Onipotência: tudo poder; Onisciência: tudo conhecer e ver e Onipresença: estar em todos os lugares – gera alguns paradoxos, como o problema da existência do mal. Tal aspecto é tão importante que, conforme já havia citado no mesmo artigo de Ruanda, o filósofo Leibniz sistematizou uma corrente de pensamentos que procura conciliar a existência dele com a existência do mal – a Teodiceia, e a cisma entre os teístas e os ateus (especialmente os modernos ateus militantes, como Richard Dawkins, Sam Harris e o falecido Christopher Hitchens) baseia-se principalmente nisto.

A solução mais comum e antiga sempre foi a personificação da maldade em um opositor – o diabo, com a origem de todos os males sendo a ele atribuída.

A face do Mal

O antagonismo ao deus único já figurava no zoroastrismo, religião monoteísta mais antiga que se tem registro. Nela, o opositor era Ahriman, ainda que não representasse propriamente uma entidade, mas sim uma manifestação de tudo o que é negativo.

Na tradição judaico-cristã, o diabo, originalmente, tinha outra atribuição, como o próprio nome dizia: acusador. Conforme se desenrolam as narrativas da Bíblia, vai mudando de função. Ele se torna a serpente, que dá o fruto da árvore do conhecimento do Bem e do Mal (só este nome é mais que significativo…) à Eva; em Jó, vira o adversário, que tem livre acesso a Deus, e O contesta, quando Ele aponta Jó como exemplo de homem íntegro. Segundo o diabo, Jó só era assim porque tinha todas as graças. Então, Deus autoriza que se tire tudo de Jó, poupando-lhe só a vida.

No novo testamento, Jesus se encontra com o diabo, que por três vezes lhe tenta a cair. Demônios são expulsos das pessoas, e depois, os apóstolos advertem para as pessoas se defenderem das artimanhas do tinhoso. No livro de apocalipse, se dá a batalha final do diabo contra as hostes angélicas, e o dia do juízo final, onde todas as pessoas, vivas e que já morreram, serão julgadas e terão que enfrentar seu derradeiro destino: subir aos céus, aonde reina Jesus, ou ser banida para o inferno, e lá sofrer por toda a eternidade.

Na cultura, o diabo é um personagem riquíssimo, e já figurou em literatura, peças, filmes e muitas outras manifestações artísticas – além deste livro.

O sermão de fogo

Aproveitá-lo em seu enredo, e reinventá-lo totalmente foi a sacada do autor em O pacto. Afinal, quem está ali é sempre Ignatius (trocadilho no nome do inglês igneous – ígneo: que é de fogo). Ele se torna um quase-diabo, mas é sempre ele por baixo dos chifres. Meio como Peter Parker se tornar o Homem Aranha.

Sem apologia ao ateísmo, Joe Hill ataca os estigmas usuais do diabo e de deus, com um jocoso “sermão de fogo”. Só isso já vale o livro. Cito apenas dois trechos dele para você apreciar ou contestar:

Há muito tempo Satanás é conhecido como o Adversário, mas Deus teme muito mais às mulheres do que ao diabo, e Ele está certo. Ela, com seu poder de trazer vidas ao mundo, é quem foi realmente feita à imagem e semelhança do criador, e não o homem.

O diabo sabe que só aqueles que têm coragem de arriscar a alma por amor merecem ter alma, mesmo que Deus não saiba.

quadrinhos carlos ruasSua interpretação diferente do papel do diabo não é nova, mas tem personalidade. Saramago, ateu declarado, reviu o papel do adversário em seu clássico O evangelho segundo Jesus Cristo (já indicado aqui no Canto dos Livros). Para ele, o diabo é muito mais próximo da humanidade do que Deus. Outro autor consagrado que inverteu o conceito da figura (Lúcifer, no caso) foi Neil Gaiman, em seu clássico Sandman (que muitos julgam ser a melhor história em quadrinhos já publicada). Seu Lúcifer é quase discreto, e está cansado de cuidar do inferno, o larga e vem viver entre os humanos.

A mitologia do anjo caído

Toda a história criada a respeito de um arcanjo que era o mais bonito, mas que caiu em desgraça pelo pecado do orgulho, é uma mitologia muito bonita e rica. Pensando bem, não difere, em sua estrutura, daquelas que ninguém leva ao pé da letra, como as de diversos exemplos da mitologia grega – como Hades ter se tornado senhor dos infernos, e que depois sequestrou Perséfone e deu origem às estações do ano.

Indo um pouco mais a fundo na do arcanjo caído – Lúcifer, que embora se confunda com satanás e com o diabo, não é o mesmo ente – o orgulho foi a causa de sua queda. Ora, veja se este orgulho que ele teve não é tal e qual o do filho primogênito, que tem a atenção roubada pela chegada do caçula. Não parece igual? O amor confundir-se com o ciúme é algo humano, demasiado humano. E que pai expulsaria seu primogênito, por ele dizer e acreditar ser melhor e mais bonito que o filho mais novo? (O caçula de Deus, segundo a tradição, é a humanidade). O que há de fora do comum nisso? Tudo bem que a mitologia de Lúcifer diz que ele queria usurpar o posto de Deus. Este é um pecado mais grave, mas danação eterna sempre me pareceu exagero, até para o diabo, que um dia amou a deus e foi amado por ele.

Mas quais pecados são além da redenção?

Difícil responder. De qualquer forma, é de se pensar: se Deus detesta os pecadores, e o diabo os pune, ambos não estariam do mesmo lado?

Bem, Deus tem critérios misteriosos. Algumas coisas este deus não aceita, e insurgência, como bem sabem Lúcifer, Adão e Eva, parece ser o pecado mais grave aos seus olhos – tal e qual qualquer ditador.

Personalização de deus

Na minha opinião, toda esta polêmica e os furos irremediáveis da mitologia cristã se dão pela personalização excessiva de deus. Algo perfeitamente compreensível, ao se ver os atributos que tinham as antigas deidades.

Para um povo nômade e continuamente expulso, como os judeus, ter um deus senhor dos exércitos fazia bastante sentido. Já hoje, sabendo o que há numa guerra, e pensando que todos são seus filhos, é, no mínimo, um contrassenso.

Deus ter “inimigos” entre os humanos é uma desproporção. Ele tomar partido de um povo e auxiliá-lo em guerras contra outros é ingênuo. Era exatamente o que eu desejava quando era pequeno e os caras grandes na escola me batiam – torcia para Deus se vingar deles por mim (o que, felizmente, parece nunca ter acontecido).

Ou seja, a visão de deus e do diabo de muitos – até mesmo a de religiões – é muito semelhante à visão de super-heróis e super-vilões que é tão comum hoje. Deus é o super-herói supremo, e o diabo, o arquivilão. Além de ser algo incrivelmente infantil, também é uma redução de sentido totalmente disparatada. Um ser onipotente teria mais o que fazer do que se preocupar com orações bem feitas, adorações e pecados.

Pretendo retomar esta discussão em outra resenha. Há muito para se considerar sobre isso.

Pobres diabos

Joe Hill parece promissor. Seus livros tem feito sucesso e ele angariou muitos fãs. Quanto ao O pacto, li resenhas apaixonadas sobre, pessoas que o consideraram o melhor que já leram. Acho que não é para tanto. É um bom livro, uma história bem construída e contada, ainda que tenha algumas falhas, na minha opinião, que, se sanadas, resultariam em uma obra mais coesa.

De qualquer forma, se o ler, preste atenção ao “Sermão de Fogo”, uma contraposição ao Sermão da Montanha, sem contudo desrespeitá-lo ou desacreditá-lo (o que não seria possível, de qualquer forma).

Talvez o diabo esteja com os dias contados. Disse o sociólogo francês Michel Maffesoli, em seu livro A parte do diabo: “a pessoa plural num mundo policultural tende a integrar o mal como um elemento entre outros”. Ou seja, o mal personificado vai perdendo sua função, e o diabo vira um personagem literário.

Sobre a maldade dele, me assustam mais os homens em qualquer guerra, ou munidos de alguma justificativa semelhante, ou simplesmente possuídos (?) pelo ódio e pela ignorância. Pobres diabos, estes (sub)humanos. Concordo com o que cantam os Racionais MC’s, em seu clássico “Diário de um detento”:

Já ouviu falar de Lucífer? / Que veio do Inferno com moral, um dia… / No Carandiru, não… ele é só mais um. / Comendo rango azedo, e com pneumonia…

E, por último, a respeito destas e de outras crenças, o magistral Joseph Campbell:

Mitologia é o nome que damos às religiões dos outros..

Read Full Post »

19_SkreemerPor Alberto Nannini

Era o começo da década de 90, eu continuava lendo quadrinhos, mas as editoras tradicionais (Marvel e DC) começavam uma queda livre, com sagas inusitadas, argumentos infantis e desenhos absurdamente exagerados.

De repente, caiu em minhas mãos a minissérie Skreemer, e fui completamente surpreendido. Não se parecia nem remotamente com nada que eu tinha lido: uma espécie de futuro pós-apocalíptico, mas copiado da década de 30, com seus gangsteres, lei seca, destilarias clandestinas e mafiosos.

Em meio aqueles dias turbulentos, Charles Finnegan, um irlandês, tenta cuidar de sua família, sem contrariar seu senso de justiça e suas convicções. Mas seu caminho vai cruzar com o trio formado por Veto Skreemer – principal assassino dos mafiosos, temido até por eles, e seus amigos e parceiros Dutch Amsterdam e Victoria Chandler, unidos desde crianças, e que ascendem juntos na máfia. O narrador da história só é revelado nas últimas páginas, e esta é apenas uma das surpresas.

A criatividade do roteiro e o tanto de referências que ele revela ainda hoje me impressionam. Fui apresentado a James Joyce por esta obra. A discussão que ela traz sobre livre arbítrio, religião e destino é simplesmente magistral (ao ponto de eu achá-la herética na minha juventude), e o mecanismo de flashbacks vai explicando algumas atitudes e consequências, até o desfecho surpreendente.

Se fosse adaptado para o cinema e dirigido por Tarantino ou Scorsese, teria cenas e diálogos antológicos, como o dilema de Charles e as duas crianças, ou a revelação de Veto ao desfigurado Dutch.

Mas os quadrinhos são a única maneira de apreciar esta obra prima. É possível achá-la em sebos, nas seis edições originais ou em encadernados (prefira os da editora Abril, que são coloridos e melhores).

Read Full Post »

Por Alberto Nannini

sobrevivente de ruandaOutro dia, numa discussão na internet, veio à tona o genocídio em Ruanda – o massacre de cerca de 800.000 pessoas, da etnia tutsi, pelos hutus, entre 6 de abril a 4 de julho de 1994. Eu e os outros debatedores tínhamos conhecimento superficial sobre o assunto. No meu caso, retalhos de informações lidas aqui e ali, além do excelente filme Hotel Ruanda, assistido há alguns anos.

Mas sempre tive curiosidade de entender como aconteceu aquela barbárie, tão recente, num dos países mais pobres do mundo. Quais os motivos? O que aconteceu depois? O que isso nos ensina?

Súbito, de forma quase simultânea, eu tinha dois livros sobre o assunto para ler: Uma temporada de facões, do jornalista Jean Hatzfeld, e Sobrevivi para contar, de Immaculée Ilibagiza (com o jornalista Steve Erwin). O primeiro tem como base entrevistas com um grupo de hutus presos, que participaram do massacre como algozes, e o segundo, o depoimento de uma sobrevivente.

Meu plano era ler minuciosamente o primeiro livro, e utilizar a leitura do segundo como apoio. Para facilitar a leitura desta resenha, a dividi em três: a Parte I tem como base o 1º livro; a Parte II, tem como base o 2º, e a Parte III traz as conclusões sobre ambos.

Parte I – Colheita de ossosUMA_TEMPORADA_DE_FACOES

Uma temporada de facões é o segundo livro de Jean Hatzfeld sobre o tema. O 1º, Dans le nu de la vie (que aparentemente, não foi traduzido para o português), focaliza sobreviventes do genocídio em Ruanda. Uma temporada se baseia em entrevistas de um grupo de dez matadores, dentre os milhares que se tornaram assassinos, feitas na prisão, enquanto aguardavam suas sentenças.

A proposta do livro me fisgou: depoimentos dos matadores, cuja leitura talvez possibilitasse o entendimento das raízes dos problemas que descambaram num dos maiores massacres que se tem notícia, além de dar a perspectiva deles, de como foram absorvidos e/ou se deixaram absorver pela desumanidade total que o episódio comprova.

Li-o duas vezes, e é absolutamente surreal. Na primeira vez, os relatos dos assassinos e do escritor, que os entremeia com informações sobre o genocídio e sobre como planejou e conseguiu escrever a obra, me deixaram tão pasmo que foi difícil reter as informações. Na segunda vez, já familiarizado com os nomes dos entrevistados e fazendo anotações, comecei a entender a relevância desta obra. Dar a perspectiva dos matadores a torna única. Em Ruanda, naquele período sanguinário, grande parte, talvez a maioria dos homens hutus saudáveis se tornaram assassinos. E o grupo de entrevistados eram amigos antes, durante e depois do massacre.

Depois, li o livro de Immaculée. A princípio, me pareceu que ele tinha um fundo proselitista, e imaginei que deveria ter sido bancado por alguma associação religiosa. A autora dá palestras até hoje, trabalha na ONU e está a frente de iniciativas e ong’s que auxiliam vítimas de guerra. Ou seja, pensei que, apesar da história impressionante, tudo seria um pano de fundo para falar sobre a fé, pela qual ela acredita ter sido escolhida e salva, em meio a centenas de milhares de mortos.

Não está de todo errado: o livro fala sobre fé sim, porque esta é indissociável de sua autora, e talvez de sua história. Mas ele vai muito além disso.

Destrinchando o genocídio

No dia 6 de abril de 1994, o presidente ruandês, Juvénal Habyarimana, voava em seu avião, pouco depois de ter engendrado alguns acordos com rebeldes tutsis. Mas o avião foi derrubado, matando o presidente e muitos outros do alto escalão.

O massacre iniciou neste mesmo dia, pelas forças fiéis ao presidente e pelas milícias por ele organizadas. Até aí, sem poder se imaginar o alcance que estas ações teriam, foi até meio previsível, como represálias, ante a animosidade que pairava no ar.

Mas como foi que, de repente, além das milícias e do exército, uma turba de lavradores apanharam seus facões, utilizados na roça para colheita de bananas e outros, e saíram por ali cortando, mutilando e matando seus vizinhos?

Houve um longo percurso.

No início do século XX, Ruanda era uma monarquia, na qual os tutsis governavam, com apoio dos belgas. Conta-se que foram os belgas que diferenciaram as duas etnias: mediam a largura dos narizes, e atribuíam a aqueles que tinham traços mais finos e eram mais esguios a descendência tutsi, enquanto os hutus tinham narizes mais largos e eram mais atarracados.

Estranho haver duas etnias num país que sempre compartilhou da mesma língua, crenças e antepassados.

Mas as diferenças se estabeleceram, bem como algumas particularidades – apesar destas serem difíceis de se provar, e que talvez sejam apenas circunstanciais, como o fato dos tutsis serem descritos como criadores de vacas, enquanto os hutus, essencialmente, agricultores.

De qualquer forma, em 1959, a realeza tutsi foi abolida, e a república instaurada numa revolução popular. Nesta ocasião, tutsis foram mortos em massacres, e milhares se exilaram. Em 1973, o então major hutu Juvénal Habyarimana subiu ao poder, com um golpe militar. As acusações contra os tutsis, que nunca cessaram, ganharam novo fôlego. Habyarimana instituiu cotas escolares obedecendo a proporcionalidade da população: 85% aos hutus, pouco menos de 15% aos tutsis e perto de 1% aos twas, etnia de pigmeus. E também houve confiscos de bens, proibição de casamentos “mistos”, e execuções mais ou menos esparsas.

Em 1990, tropas rebeldes tutsis, formadas a partir dos exílios forçados, entraram em guerra com o exército ruandês, a partir de bases ugandesas, ao norte do país.

Durante todo o período, a maioria hutu estigmatizava a figura do tutsi como um estorvo. Eram chamados de “baratas”, e tudo o que vinha deles era lamentado (e também invejado). Os comediantes, professores, políticos e outras figuras hutus influentes reforçavam o tempo todo um ódio que dormia subjacente em tudo o que faziam.

Estas mesmas figuras e outras lideranças já pensavam num genocídio antes da morte do presidente. Precisavam de machetes_rwanda_94um pretexto, e agora tinham (há inclusive a suspeita que os próprios hutus poderiam ter matado Habyarimana). Conta-se que foram investidos milhões de dólares, possivelmente oriundos de ajudas humanitárias, para importar fuzis, granadas, e principalmente, novos facões, que eram distribuídos aos hutus.

As rádios convocavam os homens hutus para largarem suas roças e se encontrarem com os interhamwes – milícias organizadas por Habyarimana, cujo nome significa “aqueles que atacam em conjunto” – que lhes orientariam, em companhia das tais lideranças e dos burgomestres (espécie de subprefeito), sobre as próximas ações. E eram alertados: levem seus facões.

Veja a transcrição de trecho do livro de Hatzfeld, com as palavras de um dos assassinos, Fulgence:

Dia 11 de abril, o conselheiro comunal de Kibungo mandou seus mensageiros convocarem todos os hutus lá no alto. Tinham chegado montes de interhamwe de caminhão e de ônibus. O conselheiro nos disse, a um de cada vez, que doravante não devíamos fazer mais nada a não ser matar os tutsis.

Os hútus, de modo geral, abraçaram a solução final proposta: exterminar todos os tutsis.

Uma multidão de matadores

Lavradores viraram assassinos, e mataram seus colegas, vizinhos e até parentes. Um hutu casado com uma tutsi poderia poupá-la se dedicasse especial empenho para matar os outros tutsis, começando pelos parentes por parte da mulher. Um tutsi casado com uma hutu estava além de qualquer chance de salvação.

Os tutsis, perdidos, abandonaram suas terras e posses, e muito correram até as igrejas, confiando que o solo sagrado seria respeitado.

Em apenas uma destas igrejas, mais de 5.000 foram mortos, e seus corpos, deixados ali, apodrecendo. Novo relato de um dos assassinos, Adalbert:

A primeira pessoa que matei com o facão, não me lembro dos detalhes exatos. Estava dando uma ajudazinha na igreja; ataquei com golpes largos, atingi de todos os lados(…)

***Interlúdio: se você já leu alguma resenha minha, sabe que tento dar ênfase para aquilo que me parece mais importante, com negritos, maiúsculas e repetições, para simular a forma que fazemos numa conversa, com a entonação da voz e com outros sinais de comunicação. Mas os depoimentos que selecionei para transcrever nesta resenha, dentre as dezenas que sublinhei na leitura do livro, devem ser lidos todos como destacados, de tão surreais que são. A carnificina descrita como uma atividade cotidiana entorpece os sentidos, e lemos coisas como o sujeito falar sobre “dar uma ajudinha na igreja” – auxiliar ao massacre de cerca de 5.000 pessoas, inclusive crianças, mulheres e idosos, muitos dos quais ele conhecia e tinha até amizade – como se fosse algo normal. Os relatos são quase todos assim.” Fim do interlúdio***

Nenhum lugar era respeitado ou seguro. Nos primeiros dias do genocídio, os interhamwe cercaram, além das igrejas, palco do assassinato de milhares, também a maternidade Sainte Marthe. Valérie, uma enfermeira hutu, conta que as milícias assassinas exigiram muito dinheiro para poupa-las; todas as enfermeiras, funcionárias e parturientes se reuniram e conseguiram junta-lo. Mas, no dia seguinte, a mesma exigência: uma vez mais, extraindo tudo o que tinham, conseguiram. Ou seja, elas adiaram o massacre por dois dias. No terceiro dia, ela conta:

Matavam as mulheres (tutsis) com facão ou porrete. Quando a mãe escondia debaixo de si o filho, eles primeiro a levantavam, depois cortavam a criança, e a mãe por último. Os recém-nascidos, eles nem se davam o trabalho de cortar adequadamente. Atiravam-nos contra a parede para ganhar tempo, ou os jogavam longe, vivos, sobre montes de cadáveres.       

A estrutura do livro

Hatzfeld escreveu Uma temporada de facões sob os apelos dos leitores de seu 1º livro, com os relatos dos sobreviventes. Planejou entrevistar os matadores que estavam presos por suas atuações no massacre, e, pela tentativa e erro, descobriu a maneira de viabilizar os depoimentos: falou com um grupo de amigos que já se conheciam antes do episódio, e que mantinham laços de amizade na prisão, e mais importante, logo após filtrar os primeiros relatos de negação, mentira e fantasia por eles narrados, percebeu como deveria deixar que eles falassem:

A chave do enigma chega por acaso quando, sem me dar conta, passo às vezes do “você” a “os senhores”, não por polidez, mas porque quero falar no plural. Toda vez, como que por encanto, as respostas se tornam precisas e acabo compreendendo a relação de causa e efeito.
Por exemplo, à pergunta: “Você pode detalhar suas ocupações no início da manhã?”, eles respondem: “Eu me levantava e caminhava até o meu lote para cortar o sorgo e contar as cabras…”. Mas à pergunta: “Os senhores podem detalhar suas ocupações no início da manhã?”, eles respondem: “Nós levantávamos bem cedinho, na aurora, nos reuníamos por volta das nove horas no campo de futebol… depois descíamos aos pântanos e o revistávamos, com a ajuda dos facões…”.

Desta forma, durante um longo período, selecionando um grupo coeso de presos que se dispunham a falar, após um primeiro momento de resistência, e com o apoio da direção da cadeia, além de levar notícias dos familiares e presentes e mantimentos, parecidos com os bondes que as mães de prisioneiros brasileiros levam a seus filhos, o autor conseguiu os depoimentos, que reuniu sobre temas, que intitulam os capítulos.

Assim, os dez depoentes – Fulgence, Pancrace, Élie, Adalbert, Jean-Baptiste, Ignace, Pio, Alphonse, Joseph-Désiré e Léopord – além de algumas mulheres, alguns sobreviventes e outras figuras, vão alternando seus testemunhos, para falarem sobre “A organização”, “A primeira vez (primeiro assassinato que se recordam)”, “O aprendizado (no ofício de retalhar pessoas)”, “As pilhagens”, “E Deus em tudo isso?”, dentre muitos outros.

A solução final

Após as primeiras chacinas, todos os representantes ocidentais se retiraram. Dez soldados belgas foram mortos no início, e a ONU e outras organizações praticamente evacuaram o país, retirando as pessoas brancas que puderam. Os EUA sequer reconheceram o genocídio que estava em curso. Os assassinos contaram que temiam, num primeiro momento, a represália dos muzungus, que etimologicamente, significa “aquele que tomou o lugar” – o homem branco, com seus armamentos terríveis. Ao perceberem que nada foi feito para salvar os tutsis, sentiram-se respaldados, e dedicaram-se à tarefa de erradicá-los com mais afinco e método.

Começavam as matanças pela manhã; quando os sobreviventes fugiam e se escondiam nos pântanos e florestas, a tarefa era caçá-los e exterminá-los ali. Segundo Ignace, “Nos pântanos, bastava vasculhar e matar, até o apito final.”

Recrutando a maioria dos homens hutus, bombardeados pelo ódio que as autoridades sempre demonstraram contra os tutsis, e por isso, bastantes suscetíveis à “lavagem cerebral” de que o extermínio era uma boa solução, a tarefa de dizimar os tutsis foi alcançando grande eficácia (estima-se que sobreviveram apenas um de cada seis ao massacre):

Pancrace: “Muitas pessoas não sabiam matar, mas isso não era um inconveniente, pois havia os interhamwe para ajudá-las nos primeiros passos”.

Léopord: “Só peguei mesmo foi o facão. Em primeiro lugar, porque possuía um em casa, e em segundo lugar, porque sabia usá-lo. Para quem é jeitoso em utilizar uma ferramenta, é fácil utiliza-la em todas as atividades; talhar nas plantações ou matar nos pântanos”.

Por aproximadamente cem dias, foi tudo o que fizeram – Alphonse: “Durante as matanças, não soubemos de nenhum casamento, nenhum batismo, nenhum jogo de futebol, nenhum ofício religioso”.

E o mais espantoso é que o principal arrependimento não é o das torturas e centenas de mortes, mas sim o de não terem conseguido levar a cabo a intenção de erradicar os tutsis. Eles acusam-se mais de negligência do que de maldade.

Dizem de si mesmos que ficaram gananciosos, relapsos. Brigavam entre si pelas terras e bens de tutsis que nem tinham acabado de serem mortos ainda. Bebiam cerveja e vinho de banana, e levavam as pilhagens para casa, como bens e até fotos de casamento dos assassinados; as preciosas folhas de zinco, com as quais se fazem os telhados; comiam as vacas dos tutsis e não queriam largar aquela “colheita”, muito mais fácil que o trabalho na lavoura – “Um trabalho menos cansativo do que plantar”.

Fim e exílio

A FPR – Frente Patriótica de Ruanda, de obediência tutsi, finalmente tomou o país, em 4 de julho de 1994, sob as ordens de Paul Kagame, que depois, se tornaria presidente. O resultado foi o exílio voluntário e ordenado de 1,5 milhão de hutus, com medo de represálias.

Alguns matadores foram presos, e, exceto se tinham posição de comando, cumpriram suas penas e foram soltos. Tentam até hoje se reintegrar, com dificuldade proporcional ao número de sobreviventes tutsis e hutus moderados (muitos dos quais também foram chacinados) tenha no lugar ao qual se dirigiram.

Alguns supostos fomentadores do genocídio, como Joséph-Desiré Bitero, entrevistado no livro, foram condenados à morte, e aguardam o cumprimento da sentença ou apelações.

Mesmo nos dias de hoje, se fala sobre o medo de um novo genocídio, talvez agora dos tutsis contra os hutus.

O painel que o livro traça, o absurdo das narrativas dos assassinos, e o caráter histórico do episódio e a proposta inovadora e singular, tornam a obra ímpar.

capa sobrevivi para contarParte II – A fé imaculada

Depois de todo o desgaste que foi ler e reler aquele livro e suas terríveis narrativas reais, li o Sobrevivi para contar, imaginado uma narrativa mais leve, porque contada por uma sobrevivente, alguém que escapou do genocídio, e também com um tom diferente, porque mais pontual que uma entrevista metódica com dez assassinos cuidadosamente selecionados.

Ante minhas predileções por relatos múltiplos, que dão mais de uma perspectiva, e também por uma dificuldade em se encarar a fé como pressupõe a autora – como algo que salva alguém dentre milhares – imaginei que este livro seria só um adendo. Em outras palavras, eu mais pareço com Hatzfeld, que planejou, trabalhou e levou a cabo um projeto para responder uma dúvida, do que com Immaculée, que encontrou forças para sobreviver de maneira inacreditável.

E, principalmente, tenho (tinha?) reservas quanto à fé como instrumento de salvação numa situação daquelas, porque imagino as 800.000 mil vítimas e suas preces fervorosas que não foram ouvidas. Aliás, há um trecho no livro de Hatzfeld que os assassinos relatam que, em determinado momento, encontraram alguns tutsis, que logo seriam retalhados, e que eles aguardavam rezando, e eram zombados por isso. Quero voltar a este ponto, um pouco mais adiante.

Continuando, Immaculée conta sua história: sua família unida, seus pais que eram lideranças tutsis (justamente a categoria mais visada quando começaram as matanças), o amor que sentiam uns pelos outros e a felicidade com a qual viviam, achando que Ruanda era o paraíso na terra.

A casa deles, modesta para padrões ocidentais, era enorme para os padrões ruandeses. Ficava num penhasco à beira do lago Kivu, que faz fronteira com o Congo, no oeste de Ruanda.

Eram em seis: O pai, Leonard, a mãe, Marie Rose (ambos professores), e quatro filhos: Aimable, Damascene, Immaculée e Vianney – 3 homens e ela.

Nos primeiros capítulos, ela conta um pouco de sua infância, projetos, estudos, e a relação harmônica com sua família, principalmente com Damascene, o irmão com quem tem mais afinidade.

A educação dada pelos pais não mencionava as segregações e cismas que havia entre hutus e tutsis, e eles tinham amizade com todos.

Hesitação fatal

Habyarimana morreu, e Leonard tentou tranquilizar a família – massacres aconteceram antes, mas as pessoas logo recobraram o juízo, e tudo ficou bem, ele pensava. Quanto à possibilidade de atravessarem o lago Kivu e ir se abrigar no Congo, até a bagunça passar, não achou necessário, nem quis largar a casa para ser pilhada pelos revoltosos.

Pela sua posição de destaque, logo havia milhares de tutsis desabrigados em frente à sua casa, em busca de orientação sobre o que fazer. Leonard foi falar com o burgomestre, Kabayi, e lhe pediu proteção – o mesmo homem que o invejava e o colocara na prisão um tempo antes, sem justificativa plausível. Um homem que era uma liderança hutu.

Enquanto isso, os massacres já aconteciam em larga escala, porque havia muitos tutsis. Os interhamwe usavam fuzis e granadas, e a tropa de ex-lavradores hutus com seus facões começavam a pegar o jeito de como matar.

Ter a vida nas mãos de outros

Immaculée, fugida, chegou à casa de um pastor amigo de seu pai, Murinzi, hutu. Ao contrário da maioria, ele aceitou ajudá-la. Em dado momento, ela, junto com outras cinco tutsis, são empurradas para um pequeno banheiro, de “aproximadamente 1,20 metro por 1,00 metro”, com uma pequena janela acima, parcialmente tampada.

Elas deviam ficar em absoluto silêncio; se por acaso precisassem utilizar o vaso sanitário, deviam atentar para quando o banheiro contíguo, que partilhava o mesmo encanamento, estivesse sendo utilizado também, e dar a descarga EXATAMENTE no mesmo momento em que a pessoa do outro banheiro desse.

A alimentação seria a base das sobras; se Murinzi comprasse mais mantimentos, reparariam; se ele cozinhasse para elas, também; e ninguém na casa dele sabia do seu gesto, que arriscava seu próprio pescoço: hutus moderados que protegiam tutsis eram igualmente retalhados.

Antes de entrar no banheiro, Immaculée pediu para Murinzi que seu irmão mais novo, Vianney, junto com um amigo, fossem escondidos também, mas ele não concordou, e ela teve que se despedir dele.

Pouco depois, alguém disse que viu tutsis entrando na casa do pastor, e assassinos alucinados começaram a revistar a casa. Immaculée narra:

Ouvi quando os assassinos chamaram meu nome.
Estavam do outro lado da parede, menos de 2,5cm de gesso e madeira nos separavam. Suas vozes eram frias, duras e decididas.
– Ela está aqui… Encontrem Immaculée.
Eram muitas as vozes, muitos os assassinos. Eu podia vê-los com os olhos da minha mente: meus antigos vizinhos e amigos, que sempre me haviam recebido com amor e bondade, andavam pela casa, munidos de lanças e facões, e chamavam meu nome.
– Já matei 399 baratas – disse um deles. – Com Immaculée, serão quatrocentas. Esse é um bom número para se matar. 

No esconderijo

O pequeno banheiro era bem disfarçado no quarto. Immaculée lembrou-se de ter estado ali antes e não ter reparado na porta. Mas os revoltosos procuravam por ela – a moça bonita com a qual eles se divertiriam muito.

Ela contou que uma inspiração divina pediu que disfarçasse a porta do banheiro com o pequeno armário que havia no quarto de Murinzi. Ele tentou resistir ao pedido, mas Immaculée suplicou, descontrolada, e ele concordou, com medo do escândalo revelá-las.

Os revoltosos voltaram muitas vezes na casa de Murinzi. Seus empregados e até um de seus filhos menores, simpatizante da causa dos hutus, eram ameaças constantes.

Um pouco mais adiante, outras duas mulheres são levadas ao banheiro minúsculo. Elas eram oito agora, no espaço que já não dava para seis. Estavam severamente desnutridas, com piolhos e escaras.

Elas passaram 91 dias ali.

Da frigideira para o fogo?

Há um burburinho sobre as tropas de Paul Kagame estarem tomando o controle do país, mas começaram pelo lado Norte, na fronteira com Uganda, e demorou muito para Murinzi achar que podia fazer alguma coisa.

E o que ele achou que podia fazer não era exatamente um alívio para as oito sobreviventes: elas tinham que sair, na calada na noite, e ir para o acampamento estrangeiro para sobreviventes tutsis, guarnecido por soldados franceses. Immaculée, que entrou no banheiro pesando 52 kg, tinha agora 29 kg, e mal podia andar.

Como ela sairia à noite, passaria por estradas infestadas de interhamwes (e com milhares e milhares de corpos) e chegaria sã e salva no acampamento? Para que sobreviver por 91 dias de absoluta penúria se ela poderia ser pega agora?

Mas ela sobreviveu para contar sua impressionante história.

Parte III – O Bem e o Mal no berço da humanidadesebastiao_salgado01

Terminei a parte da resenha que fala sobre a obra praticamente da mesma forma que minha outra resenha, que fala sobre Ishmael Beah e sua história como menino–soldado na Serra Leoa, no magnífico Muito longe de casa. Immaculée Ilibagiza agora se soma a ele, no rol dos livros extraordinários que eu li, que contam histórias decisivas para se entender os extremos do Bem e do Mal, e onde nós, como pessoas medianas, nos inserimos entre eles, e quais situações podem mudar este arranjo.

Qual equação há em comum entre estes relatos? Por que as pessoas se tornam demônios? Como raríssimas pessoas conseguiram se redimir de experiências assim?

Evidentemente, é um questionamento muito sério e amplo para um leigo como eu abordar. Mas posso tecer algumas considerações.

O problema do Mal

O que é o mal para você? É algo personificado, ou é mais difuso? Como ele age sobre os homens? Se é certo que todos podemos ser vítimas, quem são, ou podem vir a ser, os agentes, os perpetradores do mal?

calvin e haroldo demonios recortadoNão sei em que você acredita. Talvez ache que haja o mal por natureza. É provável. Há relatos de crianças assassinas e criminosas. Há diversos homens e mulheres realmente maus, que se deleitam com o sofrimento dos outros, ou que são de tal modo egoístas que pensam apenas em si mesmos, sem se importar com ninguém. Psicopatas.

De qualquer maneira, respostas prontas que carregamos desde sempre nos acostumaram a sequer falar muito sobre isso (até para “não atrair”, dizem alguns mais supersticiosos). Muitas pessoas acreditam na personificação do mal, em alguma figura do tipo diabo, ou satã. Para elas, a proteção vem de Deus e da fé que se tenha.

Este assunto é bem complicado. Parece que cada teoria tem um fundo de verdade, o que torna tudo muito confuso, já que algumas teorias incluem pressupostos extravagantes e anacrônicos. O mal personificado, por exemplo, inclui se pensar numa espécie de jogo de tabuleiro entre o diabo e Deus, sendo que os peões somos nós. Alguns são ganhos por um dos lados, enquanto outros são perdidos.

Piora ainda mais, porque a noção de um Deus de Perfeição, Onipotência e Onisciência se choca com a existência do mal entre os homens (ainda que personificado num antagonista). Esta cisma é tão importante que existe uma corrente de pensamento, sistematizada por Leibniz, para conciliar a existência do mal com a do Deus perfeito – a Teodiceia.

Mas o que realmente bagunça a noção do mal é saber que ele pode surgir de maneira avassaladora sem explicação condizente. Quando acomete só um indivíduo, ainda se procuram explicações e diagnósticos, como o da psicopatia, esquizofrenia ou outras doenças mentais, aliadas, geralmente, a infâncias péssimas e a muitos traumas. Mas como explicar o mal absoluto que acomete uma legião de pessoas?

Raízes do mal

Já citei em outros artigos alguns experimentos de psicologia que lançam alguma luz sobre como o mal se manifesta. Basicamente, qualquer pessoa comum pode se tornar um agente e fazer coisas que parecia impossível que fizesse. Stanley Milgram fez seu clássico experimento para mostrar que as pessoas agem conforme as ordens que recebem. Somos ávidos por figuras de autoridade.

Recordando, o experimento de Milgram consistia em fazer com que voluntários acreditassem que estavam dando choques numa pessoa, que era ator e que simulava dor ao recebê-los. Uma vez encorajados pela figura de autoridade, dois de cada três voluntários aplicaram o suposto choque máximo, cujas últimas escalas no aparelho que os simulava eram sinalizadas com “perigo: choque grave” e “xxx”. Este experimento tornou-se uma chave para entender a obediência em situações extremas, que vão se “normalizando” conforme o tempo passe.

Assim, eram ordens dadas a alemães que torturassem e matassem judeus e outros, e o massacre dos tutsis também. E ambos viraram rotina. Milgram concluiu: “Pessoas comuns, que estão apenas fazendo seu trabalho e não apresentam qualquer tipo de hostilidade, podem tornar-se agentes de um processo terrível e destrutivo”.

Outra influência é a do meio: Philip Zimbardo fez outra experiência clássica, onde ele simulou uma prisão, com prisioneiros e guardas sorteados dentre 24 universitários americanos que foram voluntários. A simulação saiu de controle e teve que ser encerrada em seis dias, muito antes do previsto, porque não só o próprio Zimbardo estava afetado, como os “guardas” praticaram excessos que levaram alguns prisioneiros ao colapso.

Daí, Zimbardo concluiu: “Nosso estudo revela o poder das forças sociais e institucionais para fazer homens bons praticarem atos cruéis”.

Outra pesquisa foi conduzida por Solomon Asch – dividiu voluntários em grupos, dentro dos quais alguns infiltrados sabiam qual era o real propósito: testar a capacidade de indução do grupo, que daria respostas propositalmente erradas numa série de testes, para ver se os voluntários que não sabiam do arranjo acompanhariam a decisão claramente errada do grupo ou não.

O resultado surpreendeu: quando rodeados por um grupo de pessoas que fornecia a mesma resposta errada, os participantes erravam a resposta em praticamente um terço (32%) das questões, e 75% deles responderam errado pelo menos uma questão. No estudo piloto, sem a pressão de ter que ceder a um grupo equivocado, foram cometidos apenas 3 erros em 720 testes. Isso comprovou que a tendência à conformidade pode ser mais forte do que os valores ou percepções básicos das pessoas.

Por fim, a última experiência pertinente que gostaria de abordar: Kenneth Clark queria entender quem ensina a criança a odiar e a temer um membro de outra raça. Para isso, fez o experimento da “boneca de Clark”: com crianças de três a sete anos, utilizou quatro bonecas, todas idênticas, exceto pela cor, que variava do branco ao marrom escuro. As crianças demonstraram uma consciência inegável de raça, ao identificar corretamente as bonecas pelas tonalidades de pele, além de apontar aquelas que mais pareciam com elas próprias.

Mas o mais surpreendente foi que as crianças demonstraram, na época do experimento (final da década de 30), que tinham clara preferência pelas bonecas brancas, e rejeitaram as negras, o que foi interpretado como autorrejeição.

Concluíram que bem cedo os valores da sociedade se impõem, e as crianças, obrigadas a se identificar com determinado grupo, internalizam os pensamentos segregativos. Embora seja bastante raro um pai ensinar deliberadamente aos filhos a odiar outros grupos raciais, muitos repassam e reproduzem as atitudes sociais predominantes.

Isso é bem importante para esta análise: em Ruanda, os pensamentos segregativos eram deliberadamente ensinados e encorajados.

Ensinando as crianças

Immaculée conta sobre um professor, Buhoro (que depois, ela revela como um dos mais prolíficos e cruéis assassinos), que a humilhou durante uma chamada étnica. Ele mandou “de pé, todos os tutsis”, e uns poucos levantaram; “de pé, os hútus”, e a maioria levantou. Como não sabia a que etnia pertencia, nem o que era ou qual a importância disso, Immaculée, com seus dez anos, permaneceu sentada, e foi expulsa da sala.

Desde sempre as crianças ruandesas conviviam (e convivem) com os preconceitos e cismas de seus ascendentes. A melhor amiga de Immaculée, desde crianças, uma hútu, a largou assim que começaram os massacres, e a teria denunciado se soubesse onde estava.

Outro testemunho a respeito da educação das crianças vem do livro de Hatzfeld, conforme conta Jean:

É um costume ruandês que os meninos imitem os pais e os irmãos mais velhos, pondo-se atrás deles para arremedá-los. É assim que aprendem a agricultura das sementes e dos cortes, desde pequeninos. Foi assim que a maioria começou a rondar atrás dos cães, para encontrar tutsis e denunciá-los. Foi assim que umas poucas crianças começaram a matar nos bosques dos arredores.

Por fim, narra Clémentine, uma mulher:

Vi papais ensinando os filhos a cortar. Mandavam-nos imitar os gestos do facão. Mostravam sua habilidade em pessoas mortas, ou em pessoas vivas que tinham capturado durante o dia. No mais das vezes, os meninos treinavam em crianças, por causa dos tamanhos correspondentes. Mas a maioria não queria meter as crianças nesta porcaria sangrenta, a não ser para olhar, é claro.

Tarefas impossíveis     

Entender um genocídio é impossível. Fulgence diz: “É muito difícil nos julgar, pois o que fizemos ultrapassa a imaginação humana”. O que tentei, com a leitura dos livros e a produção deste artigo, foi contextualizar, um pouco que fosse, o ocorrido em Ruanda. Enumerar as pesquisas dos psicólogos teve este mesmo intuito: explicar, um pouco que seja, o que leva homens a se transformarem no mesmo tipo de demônios que sua fé faz com que temam.

Também é impossível entender a odisséia de Immaculée. Sua fé está além da compreensão, e hoje, quem a conhece, diz que sua presença é magnética. Arrisco alguns palpites do porque ela se demonstrou inquebrantável: porque queria contar sua história; porque queria homenagear seus mortos queridos; porque se apegou à vida com uma tenacidade incomum.

Nesta mesma linha, sou capaz de aventar uma possibilidade de entendimento a aqueles que pareceram “desistir” de suas vidas. Judeus e outros prisioneiros presos nos campos de extermínio, tutsis caçados como bichos, perderam a esperança na humanidade. Desiludiram-se. Como se se dessem conta que viver num mundo onde fossem permitidos e até encorajados absurdos da ordem dos que os vitimaram, não era um bom mundo para se viver, de qualquer forma.

Para os tutsis, em sua maioria pacíficos e convivendo normalmente com seus irmãos, parentes e amigos hútus, nada fazia sentido algum, a não ser por um ódio que não inventaram e muito menos justificaram. Léopord revela:

O fato de que esperassem a morte sem gritar às vezes nos tocava terrivelmente. De noite, ficávamos refletindo todos juntos, e repetíamos: por que estas pessoas que vão morrer não protestam, por que não clamam por misericórdia?

Hatzfeld dá sua opinião, como narrador do livro: “Os tutsis não pediam nada, porque não acreditavam mais nas palavras nestes momentos fatais. Era uma tristeza todo-poderosa que os levava. Sentiam-se abandonados por tudo, até mesmo pelo que seriam capazes de dizer”.

O papel da fé

Immaculée sobreviveu por uma conjuntura incrivelmente rara, que beira mesmo o milagre. Era possível que o banheiro – que tinha uma pequena janela para o pátio da casa do pastor – não fosse descoberto, apesar de altamente improvável. Era igualmente possível que ela conseguisse chegar ao acampamento francês – mas também absurdamente improvável.

Se alguém, lógico e racional como eu, um dia a encarasse e dissesse sobre as estatísticas e probabilidades, talvez ela sorrisse e concordasse. Se ela me falasse sobre fé e propósito, o que eu responderia?

Eu aqui, do outro lado do mundo, num país abençoado sob diversos critérios, posso escrever sobre estes acontecimentos, baseados num dos eventos mais tristes da história recente. Além de me ensinar sobre a condição precária do homem, sobre seu ódio, sobre como o mal dentro das pessoas torna o diabo um reles amador, o que mais posso aprender?

Posso me lembrar do que é ter fé.

A impossibilidade racional que eu encontro hoje para ter uma fé semelhante à de Immaculée é a perfeita noção de que ter fé não me torna especial. Milhares com muito mais fé do que eu, e temor a Deus, e vidas virtuosas, não têm a sorte que alguns ímpios têm. Por que isso é assim?

Não sei responder. Este mecanismo que balanceia os destinos escapa à nossa noção de justiça e de causalidade. Vira uma questão de fé acreditar na ginástica doutrinária criada para explicá-los, adaptados às nossas necessidades.

Mas pode ser que a miopia seja minha, e que a fé proteja, além dos efeitos medicinais comprovados.

Não tenho necessidade de ser categórico. Ao contrário, ao conhecer histórias como a de Immaculée, me dou conta da minha ignorância, e da precariedade do pensamento racional para explicar muitas coisas.

Acredito que a fé é algo inerente ao humano. Os códigos e panteões aos quais se dirigem esta fé mudam, talvez porque nós crescemos e nos aperfeiçoamos, como espécie. O que, infelizmente, não evita acontecimentos como o de Ruanda. Talvez o bem absoluto surja onde exista o mal da mesma espécie.

Só sei dizer que o simples fato de ter lido estes livros me carrega de maiores responsabilidades. De ser grato por uma vida ótima e nunca ter passado por nada parecido, de obrigação de me manter fiel a um código de conduta e de honra que não teme uma punição divina, de urgência de valorizar a vida, de necessidade de reflexão e de autoconhecimento.

No final das contas, os dois livros magníficos são essenciais. O de Hatzfeld é o testemunho da persistência do homem africa paradisiacaem tentar entender o incompreensível, para talvez estar preparado. E o de Immaculée ocupa um nicho todo especial, de livros que modificam a quem os leia, e que revelam os extremos ao que os homens podem chegar – e de como responder a quem lhe tirou quase tudo.

A África mágica, misteriosa e incompreendida, que muitos acreditam ter sido o berço da humanidade, continua nos ensinando, e pedindo um pouco mais de atenção.

Nota: Para saber mais, sugiro a leitura desta reportagem, que conta como estava Ruanda há pouco mais de três anos.

Read Full Post »

Por Alberto Nannini

capa_o-evangelho-segundo-jesus-cristo11Depois de O cordeiro, outra dica sobre a temática de Jesus, mas com enfoque diametralmente oposto: O evangelho segundo Jesus Cristo, de José Saramago.

Escrito na famosa “prosa contínua” do falecido escritor, o romance cria em cima das famosas histórias bíblicas, e lhes dá significado completamente diferente, como no caso da ressureição de Lázaro, dos 40 dias e noites no deserto, no papel do diabo e no de Judas, e na última fala, já padecendo na cruz, do carpinteiro de Nazaré que mudou o mundo.

A visão de Saramago, que foi um notório ateu, transparece durante todo o romance, sem sequer disfarçar sua voz como narrador. Ele chega a dirigir-se ao leitor, como numa discussão, talvez procurando maior autoridade para suas críticas a dogmas das religiões cristãs. Além disso, ele humaniza Jesus, falando sobre impulsos que muitos considerariam heréticos.

Para os cristãos mais empedernidos, é uma leitura proibida, já que é praticamente impossível que eles não se indignem. Mas, para os menos tradicionalistas, traz uma perspectiva muito instigante, que condiz com o Jesus histórico – um homem de seu tempo, que condensou uma mensagem de amor (que não foi entendida até hoje), e que morreu sem a menor noção do que se tornaria.

De minha parte, nenhum livro que já li teve interpretações tão diferentes em cada leitura – passou da indignação ao aceite, até chegar a uma terceira via, que não é nenhum destes extremos. Mas isso é assunto para uma outra postagem…

Read Full Post »

Por Alberto Nannini

0219-meninos-da-rua-pauloPara minha incrível sorte, o órgão público onde trabalho, além de contar com uma ótima biblioteca, fez uma iniciativa baseada no bookcrossing – aquele sistema em que você, após ler um livro, o deixa em determinado lugar para que outra pessoa o leia, e depois faça o mesmo. Batizamos o projeto de “Roda dos Livros”, e após coletar e organizar livros doados, os disponibilizamos em duas estantes, em locais diferentes. Foram mais de trezentas doações, e adivinhe quem ficou responsável pela triagem e organização delas?

Desta forma, literalmente centenas de livros foram etiquetados por mim, para ficarem disponíveis no projeto. Pude selecionar alguns em primeira mão, que, depois de lidos, voltarão às estantes. Dentre todas as doações, separei alguns que já li e provavelmente virarão resenhas. A primeira – esta – é do livro Os meninos da rua Paulo.

Clássico desconhecido

Creio ter ouvido falar dele em algum momento, sem dar maior atenção. Mas não sabia que se tratava de uma obra de 1907, escrita por um autor húngaro, Ferenc Molnár, traduzido para diversas línguas. Que se tornou um “clássico da juventude” mundial, e que sua primeira edição em português data de 1952, pela coleção Saraiva, e é um item de colecionador. A Cosac Naify contratou o mesmo tradutor, Paulo Rónai, e fez uma edição caprichada, em 2005, com prefácio dele e posfácio de Nelson Ascher (dica: não os leia antes da obra, eles contêm spoilers).

Não sabia também que a história do livro ganhou diversas adaptações para o cinema, a primeira em 1929, e que o renomado diretor Fritz Lang lançou a sua em 1934. Nem que o Ira!, banda que gosto muito, homenageou a obra em um de seus discos mais aclamados.

E não sabia que estava perdendo uma história forte e atemporal sobre honra, superação e amizade, capaz de criar identidade em qualquer lugar em que for lida.

A sociedade do betume

Um grupo de garotos de Budapeste estudam juntos, e depois das aulas se encontram num terreno baldio, que eles chamam de grund. No terreno contíguo, existe uma serralheria, e as pilhas de toras são suas bases, como pequenos “fortes apaches”. Eles jogam péla, espécie de jogo de bola da época, mantém uma sociedade semi-secreta – a “Sociedade do Betume” (que é a massa utilizada por vidraceiros para fixarem as janelas e afins) e se organizam como militares, com patentes e distinções, e registro de suas reuniões em livros-ata.

De acordo com os costumes daqueles tempos, os uniformes escolares se assemelham a pequenos ternos, com bermudas ou calças dentro de botas, completados por chapéus. Fora algumas citações, como de bondes e destas vestimentas, mal se nota a época em que se passa a aventura, por conta da minuciosa construção dos personagens e da vívida descrição dos acontecimentos. Aliás, o tradutor acredita que a história é autobiográfica, e que o autor, Ferenc (equivalente à Francisco, em húngaro), participou do grupo, já que as vezes eles se inclui na ação, utilizando a primeira pessoa do plural em algumas ações: “nós fazíamos…”, “nosso grund” etc.

Sim, é bem verdade que meninas praticamente não aparecem na obra, exceto pela irmã ou mãe de um ou outro. Mas já que a obra é mais do que centenária, e alude à guerra e exércitos, a ausência do feminino também é um retrato do período, onde a exclusão delas era regra, e onde benesses modernas, como carros, antibióticos e eletrodomésticos, só existiam em ficção científica.

Mas voltando ao enredo, a tensão é que existe um outro grupo de garotos, que não tem seu próprio grund para brincar, e que, por isso, pretendem tomar o uso do terreno da rua Paulo de seus “donos”. É o prenúncio de uma guerra.

Guerra dos meninos

O general inimigo, Chico Áts (pronuncia-se atch – a tradução lida, muito esmerada, traz até a pronúncia correta dos nomes em notas de rodapé), roubou a bandeira do grupo da rua Paulo de dentro de seu forte. É um ato de guerra. Os preparativos para a batalha vão excitando os garotos. Suas patentes militares serão utilizadas, e seu general, o nobre Boka, vai orientá-los como farão para defender seu terreno. Mas há muitos outros graduados, como capitães, tenentes e alferes, e apenas dois soldados rasos: o cachorro do vigia da serralheria, e Nemecsek (pronuncia-se nêmetchek), um garoto loirinho, o mais mirradinho de todos, mas com um grande coração.

Como único soldado, deve obedecer todas as ordens dos superiores. Sua coragem será posta a prova, assim como as características que vamos entrevendo nos outros garotos, e também nos garotos do grupo inimigo.

A guerra é combinada entre os generais, para só valerem alguns tipos de lutas e munições, e o respeito mútuo é sempre destacado. Não são propriamente inimigos, mas partes conflitantes que disputam o mesmo bem – o uso de um terreno baldio.

A batalha vai chegar, os garotos mostrarão de que são feitos. Traição e tragédia se avizinham, e suas vidas mudarão para sempre.

Muitas ruas Paulo

A identidade já mencionada que a história cria me trouxe muitas lembranças. As brincadeiras de criança, como a “Bandeira Branca”, que você deve conhecer. Minha versão consistia em dividir um terreno qualquer em dois, e deixar no final dele sua bandeira (que podia ser qualquer coisa; uma garrafa, um chinelo), protegê-la e tentar capturar a do adversário. Mas o detalhe é que qualquer um do outro time que fosse tocado fora de seu território, estava capturado, e só poderia ser salvo por um colega que se arriscasse ser pego também. Então, era necessário criar estratégias, distrações, ataques em massa, para conseguir a bandeira inimiga e ganhar o jogo.

Mas mais que as brincadeiras, com a leitura do livro me veio a lembrança da minha rua Paulo. O prédio onde nasci e cresci tinha apenas uma garagem; já o prédio vizinho, tinha um playground completo e uma quadra de futebol, que era meu sonho e de todos os garotos da minha turma. Então, invadíamos constantemente o prédio vizinho, até sermos expulsos pelo zelador ou por algum adulto. Declarávamos guerra aos meninos de lá, e brigas aconteciam.

Secretamente, invejávamos o que eles tinham – espaço para brincar e jogar bola, enquanto nós brincávamos na nossa garagem e éramos expulsos dela também pelo zelador, o sr. Jovino. Por falta de espaço, íamos para rua – e aí, acho que eles nos invejavam, já que alguns não podiam passar do portão sem pedir para a mãe primeiro.

Os garotos do meu prédio foram se mudando um a um, até que eu, o mais novo, fui crescendo e herdei o posto de capitão dos remanescentes. O garoto mais forte do prédio vizinho chamava-se Tonico, e eu já era muito amigo do irmão dele, Paulo, magrinho, dois anos mais novo, e muito atrevido – não arregava de brigas com meninos maiores, e era muito bocudo.

Mas os hormônios começavam a despertar outros instintos. Algumas garotas do prédio vizinho povoavam meus sonhos e dos outros garotos do meu grupo, e achamos por bem fazer uma aliança com os meninos do outro lado.

Poderia contar muito mais sobre esta minha história, mas temo acabar enfadando você, leitor, se já não o fiz. Apenas completo dizendo que, passados trinta anos destas lembranças, a amizade minha e do Paulo permanece, e por causa dela, outros seis homens completam um grupo de amigos – os oito irmãos – que fazem ainda tudo o que podem para estarem juntos, apesar da correria do dia a dia, filhos e compromissos. Tonico, o “general inimigo”, virou um fidelíssimo amigo, parceiro de trabalho, com quem divido muitas histórias. Alexandre, um amigo ainda mais antigo, desde molequinhos mesmo, com outro tanto de histórias vividas, permanece também. Estes e meus outros irmãos me ensinaram uma ou duas coisas sobre amizade verdadeira.

Sobre o que trata a amizadeamiguinhos abraçados

Os meninos da rua Paulo aprendem sobre amizade e sobre mudanças. Sobre como nós somos aquilo que fazemos e acreditamos. Meus amigos me ensinaram que uma amizade de verdade reúne mesmo todas aquelas pequenas coisas que recebemos em e-mails e mensagens sobre o assunto, do tipo “seu amigo de verdade te ajuda a levantar e blablabla”. Mas, além disso, aprendi que você saberá como é seu amigo se um dia já brigou feio com ele, de ficar sem se falar. Talvez esta regra valha mais para mim, por conta do meu gênio (um pouco difícil, reconheço…), mas o fato é que, se você brigar com um amigo, a reconciliação vai mostrar a ambos o que estão dispostos a fazer um pelo outro. Sobre perdoar, tolerar.

Outra coisa valiosíssima que aprendi é que um amigo de verdade descobre o que esperar do outro, e não exige muito além daquilo. Meus amigos aprenderam que podem contar com meus ouvidos e com o muito que falo (e escrevo!…), e não esperam nada muito diferente de mim. E tanto eu como eles demonstramos absoluto interesse nas vidas uns dos outros. Quando estou com um amigo, não me canso de ouvi-lo, sobre suas coisas, suas alegrias ou tristezas. A família dele é como se fosse a minha, e suas conquistas eu sinto como se fossem minhas também, e me deixam legitimamente feliz. Sobre ser cúmplices.

Do que ela é feita?

O francês Michel de Montaigne, inventor do gênero textual “ensaio”, escreveu um de seus mais famosos, “Sobre a amizade”, baseado na relação que manteve com o também filósofo La Boétie. A descrevia como “tão inteira e tão perfeita que com certeza não se poder ler sobre nenhuma igual e, hoje em dia, não há traço algum de sua ocorrência entre os homens”. Ok, Montaigne, acreditamos, até porque esta tal sensação, a de que não há o que se assemelhe, experimentamos com todo o sentimento sublime que vivemos.

Mas a amizade em si é algo bastante comum, e hoje, há até amigos virtuais. Qual a diferença que há entre estes e os amigos verdadeiros, de alma? O francês esclareceu:

“No fim das contas, o que chamamos comumente de amigos e amizade são apenas relações e familiaridades ligadas por algumas coincidências e comodidades, pela maneira que nossas almas cuidam umas das outras. Na amizade da qual falo, elas se misturam e se confundem em uma mescla tão universal que elas apagam e não encontram mais a costura que as uniu”.

Então, há entre a amizade comum e a amizade que nasce de experiências como a dos meninos da ruas paulo espalhadas pelo mundo, ou mesmo daquelas mais tardias que florescem também, diferenças significativas. Como se fossem feitas da mesma substância, mas resultassem em produtos muito diferentes. Tal como o carbono, que cria o amizade-carvão: aquela meio frágil, que deixa rastros, boa para aquecer por alguns momentos, mas que resulta em cinzas e pó – mas que cria também aquela amizade ultra resistente, não afetada pelo tempo, quase à prova de tudo, raríssima e muito valiosa: isso, como o grafeno. Achou que era diamante? Pode ser também, há amizades que são verdadeiras jóias.

Ela é o que vai te moldar

Sabemos hoje que a formação do caráter de uma pessoa tem mais influência das amizades e das companhias do que da educação recebida. As crianças e adolescentes procuram se inserir em algum grupo, serem aceitas, ou então, ter pelo menos um amigo para fortalecer suas escolhas, se estas forem diferentes da maioria.

De minha parte, confirmo tudo o que foi dito. Minhas amizades me moldaram, em larga medida, e sempre gostei de ser conhecido pelo amigo que tento ser. Mantenho muitas amizades da melhor maneira, e as especiais, de décadas, como jóias preciosas.

Ter aprendido sobre a amizade me trouxe inclusive a oportunidade de viver hoje junto com uma antiga amiga de colégio, que foi minha paixão de infância, num relacionamento que só pôde se realizar bem mais de 20 anos depois de meu coração amador de 13 anos de idade balançar por ela, que era então inatingível.

va e oito irmaosPor extensão, isto, depois de todo este tempo, me tornou amigo do irmão mais novo dela, que tem um blog de literatura, e, ante uma série de afinidades e (bons) gostos comuns, me convidou para escrever ali. E é por conta de todos estes acontecimentos magistralmente orquestrados, que você, se chegou até aqui, está lendo isso tudo. Amizade é algo mágico, e também uma força-motriz primordial.

Logo, está mais do que provado que a rua Paulo é uma rua universal. Este livro imperdível retratou há mais de um século alguns rituais daquela época, que mudam, junto com os costumes, mas não na essência: meninos e meninas se unem, brincam, descobrem, aprendem; depois, se separam, crescem e vivem suas vidas, com saudades.

Mas, para os muitos sortudos, a turma da infância, os amigos verdadeiros, não se vão. Eles permanecem, e a amizade, fortalecida por dezenas de milhares de horas compartilhadas, e por batalhas absurdas – vencidas e perdidas – continua. E até os amores de infância se tornam reais. Juro, isso existe, e pode acontecer. E permanecer. Com mais um pouco de sorte, talvez até o final dos dias.

Read Full Post »

Por Alberto Nannini

capa_ocordeiroO autor teve uma grande sacada: criar uma história em cima dos anos ocultos de Jesus (não há relatos do que ele teria feito entre 12 e 30 anos), pela ótica de seu melhor amigo – que é, claramente, um alter ego do autor, mas que poderia ser qualquer um de nós.

A pesquisa para escrever foi a fundo, e Jesus e Biff, seu melhor amigo, partem para o oriente, em busca dos três reis magos, para aprender o que devem fazer e se tornar. O Jesus adolescente é super sério, com todo o senso da enorme responsabilidade que sabe que cairá em seus ombros, enquanto Biff é bronco e atrapalhado. Maria Madalena jovem é o outro vértice de um triângulo amoroso, e eles vivem grandes aventuras.

Quando li este livro, tive que prometer a mim mesmo que leria apenas um capítulo por noite – foi o livro que eu mais quis economizar para não acabar logo, de tão divertida que foi a leitura.

Então, se gosta da temática histórica, da figura humana de Jesus e quiser dar muitas risadas, o livro a ler é este! Diversão garantida!

Read Full Post »

Por Alberto Nannini

oceano_fimAcho que o maior elogio que um escritor iniciante pode receber é quando outros leitores lhe contam que se lembraram dele e de seu estilo de escrita ao ler uma obra de autor consagrado.

O inglês Neil Gaiman é quem mais me inspira a escrever. Seu estilo lírico, supercriativo e de fino humor, aliado à precisão de suas sentenças, apuro nos diálogos e um tanto de poesia nas descrições e criações, o tornaram um dos mais prestigiados escritores da atualidade.

Autor de histórias em quadrinhos consagradas, como Sandman e Livros da magia (precursor de Harry Potter), de romances infanto-juvenis, como Coraline e Lobos atrás das paredes, com obras adaptadas para o cinema, como Stardust e Beowulf e, finalmente, de romances muito premiados e excelentes, como Deuses Americanos e Os filhos de Anansi, o inglês estava sem lançar para o público adulto desde 2005.

Este jejum foi quebrado com o livro O oceano no fim do caminho, publicado aqui pela editora Intrínseca. Toda a magia de Gaiman está presente, numa fábula que resgata alguns rituais de passagem da infância e os mescla com fantasia e alusões diversas às ciências, literatura e espiritualidade.

Um oceano em um balde

Um homem de meia idade retorna a casa onde passou sua infância, em uma pequena cidade da Inglaterra, para um funeral. Andando pela vizinhança, chega a uma fazenda, onde, num repente, se recorda de ter vivido uma aventura extraordinária quando tinha sete anos, em companhia de uma garota quatro anos mais velha, chamada Lettie Hempstock.

O recurso utilizado pelo autor foi narrar a história como se a lembrança retornasse completa e subitamente, o que explica a narração que se alterna entre a perspectiva de uma criança de sete anos e do adulto que ela se tornou.

O tal oceano no fim do caminho do título é um lago que existe na fazenda das Hempstock – Lettie, a garota de 11 anos, sua mãe e a avó, que são mais do que aparentam. O garoto vai encontra-las por acaso, por conta de duas mortes que vai testemunhar. Na tal fazenda, cabem um oceano e um mundo de coisas. Suas moradoras ensinarão sobre lealdade, escolhas e poderes primitivos.

Troca desvantajosa

Neil Gaiman consegue resgatar as impressões que só na infância, experimentamos. Descrever um copo de leite fresco, ou um pudim com geleia de amora como uma criança faria. E falar sobre refúgios secretos nos jardins, e monstros no varal. Ele brinca com a linguagem e as memórias, e consegue inverter a lógica do mundo normal: não largamos as coisas da infância como fantasias, em troca do real; largamos a realidade da fantasia, trocando-a por outras verdades, cinzas e sem graça, que inventamos.

Há uma chuva de referências no romance. Vão das ideias científicas, como o Buraco de Minhoca – espécie de túnel no espaço-tempo, transformado em algo mais literal – além do Big Bang e da matéria escura, a eventos e personagens reais, como Guy Fawkes, que inspirou os quadrinhos V de Vingança, de Alan Moore (que consagrou a máscara branca com bigode e cavanhaque estilizados, usada em protestos), passando, lógico, por gatos, espécie de fixação do autor.

Tecer tudo isso num romance mágico, que é uma fábula sobre a infância e sobre aquilo que perdemos, é só um dos méritos do livro. Ele serve também como um tíquete de viagem ao passado.

A criança interior

Ao ler O oceano no fim do caminho, recordei do quanto de magia existia na minha infância. Os meus lugares secretos. A casa de meu avô, enorme e com um jardim gigantesco, virava palco de aventuras. Com minha irmã, prima e vizinhos, íamos ao quintal resolver crimes, onde um muro manchado de água era uma prova de sangue, onde chuchus esquentados numa lata era ração de sobrevivência, e onde a abertura da tampa de concreto de uma galeria pluvial era a bocona, que às vezes, engolia crianças.

Não que eu acreditasse cegamente na história da bocona. Apenas a evitava, prudentemente, quando estava sozinho, dando uma volta bem maior pelo jardim. Afinal, minha irmã e as crianças mais velhas disseram que ela engolia garotos, e elas também confiavam nisso.  Quando crianças, acreditamos nas nossas próprias mentiras. (Risos) Desculpe o humor involuntário… Quando crianças, eu disse – como se não mentíssemos a nós mesmos dez vezes mais depois de crescidos. Não há nada mais mentiroso que um adulto.

Enfim, Neil Gaiman tem a capacidade fabulosa de transportar seus leitores a um mundo paralelo. Tal como grandes contadores de histórias, como R. J. Tolkien, C. S. Lewis e os irmãos Grimm.

Há um único senão no livro, em minha opinião: Gaiman, alternando as vozes do narrador como recordação vívida de quando criança, para a atualidade, como adulto, às vezes se perde um pouco. Detalha alguns eventos além do necessário, e com isso, perde o recurso do leitor imaginar, ante a descrição infantil dos fatos, o que a criança realmente viu. Não sei se fui claro, e não quero publicar spoilers, mas um garotinho, ao ver cenas que não tem condição de entender, vai adaptá-la a seu repertório, onde há monstros, vermes vindos de outras realidades e seres que pretendem arrancar seu coração, e onde babás são seres diabólicos. Embora ele pudesse utilizar o narrador adulto para dizer o que realmente aconteceu, como fez algumas vezes, não achei necessário.

De qualquer forma, a construção da história brinca com a imaginação e a realidade, como é típico do autor. Lembra um pouco o enredo de O labirinto do fauno, filme de Guillermo Del Toro, em que uma garota vive uma fantasia com princesas, monstros e o fauno, enquanto vive dias traumáticos durante a ditadura de Franco, na Espanha. O garoto do livro também vive eventos traumáticos, que guardam nítida correspondência com eventos reais, mas que, para ele, seriam causados por seres mágicos. O que aconteceu, o que foi inventado, o que a impressão de criança fantasiou? O livro não responde isso, e aí está a mágica de sua narrativa.

Isso me fez pensar nos dias passados da infância, quando nossas conclusões são tão diferentes, e também no que fazemos à nossa criança interior. Ontem mesmo eu andava por aí pensando em coisas importantes, como cavar um buraco enorme, subir em árvores, chutar qualquer coisa remotamente parecida com uma bola, que ia de latas a pedras. Responda, se souber, como aquele garotinho que eu fui, e aquele ou aquela que você foi, deu lugar a estes adultos tão empertigados como nós, que andam por aí?

Duas vozes, dois olhares

A música “City of blinding lights”, do U2 , minha banda favorita, brada:

Time, time / Tempo, tempo

Won’t leave me as I am / Não vai me deixar do jeito que eu sou

But time won’t take the boy out of this man / Mas o tempo não vai levar o garoto que esta dentro desse homem

Sim, é inevitável: crescemos e deixamos as coisas de criança. O tempo nos muda, inexoravelmente, tanto que já somos diferentes de um dia para o outro. Mas ouvir a criança interior, sufocada sob tantas obrigações e sob a crueza da tal realidade, é uma opção, e uma luta que tem que ser travada, e que talvez passe justamente por resgatar fantasias, em leituras, filmes ou brincadeiras, e, mais do que tudo, em atitudes.

Adultos estressados, contraídos, alquebrados e infelizes, muitas vezes, tem diagnóstico parecido, segundo algumas correntes de ajuda psicológica: sufocaram sua criança interior. Não a ouvem mais, nem prestam atenção ao que ela vê.

Tamanha é a diferença entre o mesmo fato visto pelos olhos de uma criança do que visto pelos olhos de um adulto que não admira que o olhar deste último se imponha de tal forma que esquecemos que já vimos monstros em varais e debaixo das camas, portais para outros mundos dentro de armários, magia em lugares secretos inocentes, oceanos em lagos, e universos paralelos dentro de quartos de brincar.

Não se trata de ficar iludido ou ignorar o conhecimento adquirido – o conhecimento é um fardo que, uma vez obtido, não pode ser devolvido. Trata-se de manter a criança interior viva e participante.

Quando as duas vozes e os dois olhares internos conversam, o mundo fica mais poético, criativo e é possível enxergar perspectivas invisíveis a apenas um dos olhares. E uma das maiores dádivas que podemos experimentar retorna: a capacidade de se maravilhar.

A fantasia como resgate e como lente

Acredito que a função deste olhar fantasioso é possibilitar os progressos mais sérios e manter vivas as tradições e a arte. Se não por meios de metáforas, alusões, fantasias e divagações, como se elaborariam as teorias científicas, e como se inovaria, se almejaria?

A ânsia que os adultos desenvolvem por controle, ou melhor, pela ilusão de controle, acaba atropelando o espaço da fantasia na vida. Mas como esta última é uma necessidade vital, são criadas válvulas de escape, que vão aparecer de alguma forma. Por exemplo, no consumo massivo de romances fantásticos, como o próprio caso da série Harry Potter. As duas necessidades duelam por espaço, e há vantagem para a primeira.

Mas perder a lente da fantasia torna tudo sem graça, e pode se revelar algo arrogante e inesperadamente cômico. Filósofos eminentes da antiguidade acreditavam que o mundo era plano e sustentado no casco de uma tartaruga, e que todas as coisas eram compostas pelos quatro elementos essenciais: fogo, ar, terra e água. A ciência se ri disso. Mas a fantasia ri de tudo, até de si mesma, brinca com estas e com outras ideias, cria em cima delas, inventa tradições, empresta significado.

Teorias sérias da ciência caíram por terra, enquanto projeções fantásticas dos escritores de ficção científica de ontem ganham a nossa realidade: chips minúsculos inseridos em qualquer coisa, nanorrobôs, teletransporte, rede mundial de computadores.

Ou seja, a fantasia nos guia antes da ciência. E, quando seus olhares se fundem, um lago é o oceano primordial, os mundos paralelos se comunicam conosco, e, no coração e na vontade de uma pessoa, há força para mudar o mundo inteiro.

brincando-com-o-filhoAutores que mesclam estes dois olhares em suas obras, dizendo muito fazendo de conta que estão apenas contando uma historinha, nos acompanham desde sempre. Seja com as fábulas consagradas, seja com as epopeias criadas, ou com as tradições orais dos milhares de povos que já caminharam sobre a terra, eles sempre chegam até nós, compartilhando sua curiosidade em relação ao mundo e perscrutando nosso papel na ordem das coisas. Pois estas indagações são algo que nos irmana, independente da época, raça e crença.

Há oceanos a serem desbravados, às vezes, dentro das páginas de um livro inocente. Acorde sua criança interior, e, se possível, faça esta leitura junto com ela. Talvez perceba algo muito além de um romance.

Ah, e não esqueça: divirta-se! 😛

*Originalmente publicado como “Dias passados de fabulosas infâncias – resenha de ‘O oceano no fim do caminho'”

Read Full Post »

« Newer Posts - Older Posts »

%d blogueiros gostam disto: