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Posts Tagged ‘Aliás’

Por Fred Linardi

CapaPoeiraBaixa-202x300Se alguém quiser escrever na grande imprensa usando sua criatividade e autoria, pena um bocado para ser compreendido, principalmente nos veículos mais tradicionais, ou “quadradões”. Há dez anos então, essa realidade era ainda mais inflexível. Não sei se Ivan Marsiglia sofreu para convencer no uso de sua criatividade, mas valeu a pena, como se pode ver no livro A poeira dos outros.

É certo que o espaço curto como o de uma década é pouco para grandes transformações, principalmente quando se trata de uma imprensa conservadora e medrosa como a nossa, que normalmente se recusa a ousar nos textos. Mas foi há menos de uma década que o Brasil viu surgir alguns veículos cujos escritos têm a proposta de colorir um pouco o deserto monocromático da objetividade jornalística. Apareceram revistas como a Piauí, a Brasileiros e a Rolling Stone nacional. Também assistimos ao reconhecimento de que textos mais fluidos e que lançam mão de técnicas narrativas são muito bem-vindos, e que podem entreter o leitor sem fugir dos fatos.

Enquanto espaços semelhantes ganhavam algumas revistas, outras delas já comprovavam que escrever com estilo não era uma receita nada ruim. A revista Trip, voltada para um público jovem, já mostrava que reportagens criativas ainda podiam ser feitas com seriedade, e chegavam a dar exemplo de cobertura em muitos veículos tradicionais. A própria Playboy ousava em suas matérias e foi nesta onda de renovação que outras começaram a esboçar alguma inovação.

Foi num contexto de mudança que surgiu o caderno “Aliás”, do Estado de São Paulo, que reservou desde o início sua última página para uma reportagem sobre personagens e acontecimentos marcantes escrita de maneira diferente.

Ivan traçou exatamente esse caminho, conquistando um raro espaço para escrever com o máximo de liberdade possível. A poeira dos outros conta com 20 matérias publicadas nas revistas Trip, Playboy e no caderno “Aliás”, veículos nos quais Ivan passou como repórter e em cargos de editor ou chefe de redação. Neste ponto, é evidente que a marca mais forte de sua produção é o estilo que adota para escrever sobre diversos assuntos, assim como a escolha desses temas, que em alguns casos são um tanto originais.

Leitura promissora

Não se pode deixar de perceber que de todos os textos, 17 foram tirados do Estado de São Paulo, o que implica em duas conclusões: a primeira delas é que texto bem apurado e bem escrito não depende de espaço físico do papel. E não estamos falando de assuntos rasos ou facilmente esgotáveis. Entre essas matérias, é possível ler sobre uma família que luta para continuar morando numa casa que, de acordo com todas as indicações, era usada para torturas durante o regime militar (“A memória das paredes”); ou então, com a mesma extensão de texto escreve um perfil sobre o cabeleireiro Celso Kamura (“Ele faz a cabeça da Dilma”), ou então de assuntos mais dolorosos, como o excelente texto sobre a da mulher que contraiu HIV do seu segundo marido (“Contaminada pela vida”).

A segunda conclusão é o outro gume da faca. Pela limitação de espaço, muitas vezes encerramos a leitura com o pesar de que as reportagens do jornal poderiam ter rendido muito mais. Queremos mais do que a poeira dos outros – queremos os outros por inteiro (se é que é possível). É preciso reconhecer a abertura editorial que o veículo se dispôs a reservar para esses tipos de reportagem, mas é evidente que a limitação ainda é muito grande, ao contrário do que se pode conferir nas matérias vindas de revistas. De qualquer maneira – e por isso mesmo – é notável que o jornalista aproveita bem o espaço destinado para esses textos.

Um dos destaques do livro é “Viagem ao centro da guerra”, publicada na revista Trip, contando como é uma noite no pronto-socorro no bairro periférico de Campo Limpo, em São Paulo, com um início que fisga a leitura:

“Eu tô morrendo, eu tô morrendo…”

São 20h37 de um domingo de agosto quando um rapaz de camiseta, bermuda amarela de nylon e tênis Mizuno entra no pronto-socorro (PS) do Hospital Municipal do Campo Limpo, na zona sul de São Paulo. Ele tem um tiro no rosto e três perfurações de bala espalhadas pelo corpo. Está consciente e andando com as próprias pernas. “Eu tô morrendo”, repete, com a voz empastelada pelo sangue que escorre dos cantos da boca e empapa sua camisa. Na sala de emergência, o residente de cirurgia Rodrigo Rodrigues da Costa está de plantão. Ele mal terminou a faculdade, ainda mora com os pais e completa 29 anos amanhã – mas já tem que salvar uma vida.”

E a partir daí estabelece dois mundos, entre o futuro das pessoas atendidas e o futuro do jovem médico naquele ponto em que todos se encontram, entre vítimas, bandidos e polícia num hospital naquela região. É um dos exemplos de matérias com maior espaço editorial e, por isso, que permite um mergulho maior ainda dentro da imersão de Ivan.

Várias vozes

Uma das grandes peculiaridades da escrita de Ivan está nas diferentes vozes que assume. Faz das palavras do personagem as suas próprias, como acontece no perfil de Celso Kamura, onde o jornalista escreve em tons como “Menina, não se fala em outra coisa neste salão. Bafo. Segredo? Nada. Aqui todo o mundo sabe de todo o mundo. Você ainda é cliente nova, mas eu já venho faz sete anos.”, absorvendo o dialeto comum de salões de beleza.

E vai ainda além nas matérias cujos protagonistas são a faixa a presidencial ou a uma onça sussuarana encontrada próxima à rodovia no interior de São Paulo. Com um texto leve, assume a voz dos personagens e conta em primeira pessoa como é a vida deles, num estilo que se distancia ao máximo das regras primordiais do jornalismo, mas sem perder a veracidade dos fatos. Essa liberdade não afasta o leitor da verdade, mas abre espaço para voos criativos como:

“No meu sonho, eu corria por campos sem fim, ao lado dos meus amigos preás, capivaras, veados, catetos… Quer dizer, para eles sou mesmo é amigo da onça. Mas era um sonho feliz, sim senhor, que foi virando pesadelo enquanto me carregavam para a clínica do Centro Brasileiro para Conservação de Felinos Neotropicais, da Mata Ciliar, em Jundiaí”.

Ao longo dos textos, deparamos como o uso de alguns termos um tanto óbvios, como quando a faixa presidencial reflete sobre como foi cara sua confecção “Mas queriam o quê? Que fosse na faixa?” Ou então o uso do termo “comunidade carente” referindo-se a uma periferia de São Paulo. Afinal, existem comunidades – pobres ou ricas – sem carências? De qualquer maneira, não se trata de alguém com uma visão simplista – acredito que apenas um deslize editorial –, já que o repórter demonstra um olhar sensível para tratar os diversos assuntos.

O que sobra ao leitor é a prova de que, com um pouco mais de esforço e criatividade do que se vê por aí, os veículos poderiam ousar como faz Ivan, sob o desejado sonho que os jornais têm em serem mais lidos – e também por respeito aos seus leitores, pois estes gostam de bons textos e isso tem a ver com originalidade e sabor. E A Poeira dos Outros tem para vários os gostos.

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