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Posts Tagged ‘Antonio Prata’

Por Alberto Nannini

o-pacto_joe-hillQuando as pessoas que você ama lhe viram as costas, e sua vida se torna um inferno, ser o diabo não é tão mau assim”. Esta é a chamada de capa do livro O pacto, de Joe Hill. Fisgou minha atenção numa livraria, e me levou a ler a sinopse e as orelhas, achando-o instigante, até finalmente comprá-lo.

Depois de já começada a leitura, meu amigo César me informou que Joe Hill é filho de Stephen King, para meu espanto. Embora não seja uma regra absoluta (vide Antonio Prata e Mário Prata, Érico Veríssimo e Luis Fernando Veríssimo, dentre outros), não utilizar o sobrenome famoso, quando se tenta o mesmo ofício que o pai bem sucedido, é um bom sinal e soa corajoso.

Uma história de chifres

O livro fala sobre um rapaz, Ignatius Perrish, o Ig, que vive um pesadelo dantesco: o amor de sua vida, Merrin, foi estuprada e assassinada, e todos acham que ele é o culpado, já que eles tinham rompido o namoro e brigado feio na noite do crime. Inocentado mais pela influência da família do que por provas, um belo dia ele acorda com chifres (que é o título original da obra – Horns). As pessoas veem os chifres, mas quase não se assustam, logo se esquecem de tê-los visto, e começam a contar a Ig seus desejos e pecados mais secretos.

Ig está se tornando o (ou um) diabo, e quer descobrir quem matou Merrin e por que, e se vingar. Parece que será uma tarefa fácil. Mas, a princípio, os chifres e seu poder de fazer as pessoas confessarem se mostram mais como um incômodo constrangedor do que uma vantagem, já que Ig descobre segredos inconfessáveis de seus parentes, amigos e até desconhecidos, e também o que eles pensam dele de verdade. Mas fica muito pior: em matéria de maldade, perto de muitos humanos, diabos são reles amadores, e a jornada do novo chifrudo será, literalmente, um inferno.

Impressões sobre o livro

A construção de personagens é talvez o ponto alto da trama. Ig, Merrin e Lee Torneau, o melhor amigo de Ig (antes do crime), são muito bem delineados, e parecem saltar das páginas para o mundo. Ficaram bem reais. Outros personagens, como Gleena, namorada de Ig após o crime, e Terry, seu irmão, também mostram, em sua caracterização e ações, perfis psicológicos consistentes. Isto é fundamental para que tramas que tenham um pé no sobrenatural fluam de maneira satisfatória. Ponto para o autor.

A divisão dos capítulos, que procura alternar o ponto de vista entre os três protagonistas, funciona muito bem. Suas motivações e o tipo de elo que os une, além das impressões que tem uns dos outros, engrenam perfeitamente.

Outro ótimo mérito é a premissa do homem se tornar o diabo. Bastante criativa, abre o leque para uma série de interpretações e considerações, que serão retomadas mais à frente.

O estilo de escrita é condizente. Há palavrões quando cabem, e não há abuso de adjetivos. A tradução parece não comprometer, embora tenha encontrado pelo menos um erro grave nela (tudo indica que foi traduzido terrific como terrível). Mas as pouco mais de 300 páginas passam bem rápido, e o livro prende, na expectativa do desfecho que explique as ações dos personagens e que mostre a trajetória do novo diabo.

Como pontos negativos, não me convenceu bem o fato de todos acharem que Ig era o culpado pelo crime de estupro e morte da namorada e grande amor de sua vida. As narrativas de sua história, que incluem episódios da infância e adolescência com Lee e Terry, e também do momento em que conheceu Merrin e sua paixão instantânea por ela, nunca demonstraram que ele seria capaz de um ato como este – já que foram namorados por seis anos até o crime, e tinham rompido naquela noite, numa briga triste mas nada fora do comum, como bem sabe qualquer um que já tenha terminado algum relacionamento.

Além disso, com todo o aparato tecnológico que existe para se apurar crimes – especialmente os de grande apelo popular, de caráter sexual e que envolva famosos ou seus parentes, como no caso – dificilmente não seria desvendado.

O surgimento dos chifres poderia ter sido melhor amarrado. Talvez eu não tenha entendido direito a origem deles (tenho algumas hipóteses que não posso revelar, porque seriam spoilers), mas o fato é que eles surgem sem explicação, cerca de um ano após o crime; Ig está vivo, conversa e convive com todos que o toleram, embora esteja reduzido à condição de pária e beberrão.

Lá pelo fim, há uma explicação da atitude de Merrin, sobre o fim do namoro; achei desnecessária. Tenta amarrar bem esta ponta, e erra a medida. Muitas outras pontas terminam soltas, como o destino final de Ig.

De qualquer forma, é um livro notável, no meu entender, tanto pelos méritos e até pelos deméritos artísticos, como pela discussão que traz à baila: a personificação do mal.

O diabo e outros males

Na minha última resenha/artigo, que falava sobre o genocídio em Ruanda, perguntei se você, leitor, acredita que o Mal seja personificado. Uma tirinha de Calvin e Haroldo (brilhante!) que ilustra o artigo lança um olhar interessante:

Calvin: Você acredita no demônio? Sabe, um ser supremo, maligno, dedicado à tentação, corrupção e destruição do homem?

Haroldo: Não sei se o homem precisa desta ajuda…

Discutindo um pouco a origem do mito, tudo remete às dicotomias, e à natureza dual do homem. Quase sempre precisamos do oposto para entender algum conceito: claro/escuro, longe/perto, bem/mal.

O Deus único é um conceito relativamente recente. Por isso, chegaram a nós bem documentadas as tradições de muitas civilizações mais antigas que cultuavam panteões de deuses, como o caso da grega, um dos pilares da civilização ocidental. E há outras que ainda são assim nos dias de hoje, como o hinduísmo e algumas religiões africanas.

Este Deus único e seus pressupostos de perfeição – Onipotência: tudo poder; Onisciência: tudo conhecer e ver e Onipresença: estar em todos os lugares – gera alguns paradoxos, como o problema da existência do mal. Tal aspecto é tão importante que, conforme já havia citado no mesmo artigo de Ruanda, o filósofo Leibniz sistematizou uma corrente de pensamentos que procura conciliar a existência dele com a existência do mal – a Teodiceia, e a cisma entre os teístas e os ateus (especialmente os modernos ateus militantes, como Richard Dawkins, Sam Harris e o falecido Christopher Hitchens) baseia-se principalmente nisto.

A solução mais comum e antiga sempre foi a personificação da maldade em um opositor – o diabo, com a origem de todos os males sendo a ele atribuída.

A face do Mal

O antagonismo ao deus único já figurava no zoroastrismo, religião monoteísta mais antiga que se tem registro. Nela, o opositor era Ahriman, ainda que não representasse propriamente uma entidade, mas sim uma manifestação de tudo o que é negativo.

Na tradição judaico-cristã, o diabo, originalmente, tinha outra atribuição, como o próprio nome dizia: acusador. Conforme se desenrolam as narrativas da Bíblia, vai mudando de função. Ele se torna a serpente, que dá o fruto da árvore do conhecimento do Bem e do Mal (só este nome é mais que significativo…) à Eva; em Jó, vira o adversário, que tem livre acesso a Deus, e O contesta, quando Ele aponta Jó como exemplo de homem íntegro. Segundo o diabo, Jó só era assim porque tinha todas as graças. Então, Deus autoriza que se tire tudo de Jó, poupando-lhe só a vida.

No novo testamento, Jesus se encontra com o diabo, que por três vezes lhe tenta a cair. Demônios são expulsos das pessoas, e depois, os apóstolos advertem para as pessoas se defenderem das artimanhas do tinhoso. No livro de apocalipse, se dá a batalha final do diabo contra as hostes angélicas, e o dia do juízo final, onde todas as pessoas, vivas e que já morreram, serão julgadas e terão que enfrentar seu derradeiro destino: subir aos céus, aonde reina Jesus, ou ser banida para o inferno, e lá sofrer por toda a eternidade.

Na cultura, o diabo é um personagem riquíssimo, e já figurou em literatura, peças, filmes e muitas outras manifestações artísticas – além deste livro.

O sermão de fogo

Aproveitá-lo em seu enredo, e reinventá-lo totalmente foi a sacada do autor em O pacto. Afinal, quem está ali é sempre Ignatius (trocadilho no nome do inglês igneous – ígneo: que é de fogo). Ele se torna um quase-diabo, mas é sempre ele por baixo dos chifres. Meio como Peter Parker se tornar o Homem Aranha.

Sem apologia ao ateísmo, Joe Hill ataca os estigmas usuais do diabo e de deus, com um jocoso “sermão de fogo”. Só isso já vale o livro. Cito apenas dois trechos dele para você apreciar ou contestar:

Há muito tempo Satanás é conhecido como o Adversário, mas Deus teme muito mais às mulheres do que ao diabo, e Ele está certo. Ela, com seu poder de trazer vidas ao mundo, é quem foi realmente feita à imagem e semelhança do criador, e não o homem.

O diabo sabe que só aqueles que têm coragem de arriscar a alma por amor merecem ter alma, mesmo que Deus não saiba.

quadrinhos carlos ruasSua interpretação diferente do papel do diabo não é nova, mas tem personalidade. Saramago, ateu declarado, reviu o papel do adversário em seu clássico O evangelho segundo Jesus Cristo (já indicado aqui no Canto dos Livros). Para ele, o diabo é muito mais próximo da humanidade do que Deus. Outro autor consagrado que inverteu o conceito da figura (Lúcifer, no caso) foi Neil Gaiman, em seu clássico Sandman (que muitos julgam ser a melhor história em quadrinhos já publicada). Seu Lúcifer é quase discreto, e está cansado de cuidar do inferno, o larga e vem viver entre os humanos.

A mitologia do anjo caído

Toda a história criada a respeito de um arcanjo que era o mais bonito, mas que caiu em desgraça pelo pecado do orgulho, é uma mitologia muito bonita e rica. Pensando bem, não difere, em sua estrutura, daquelas que ninguém leva ao pé da letra, como as de diversos exemplos da mitologia grega – como Hades ter se tornado senhor dos infernos, e que depois sequestrou Perséfone e deu origem às estações do ano.

Indo um pouco mais a fundo na do arcanjo caído – Lúcifer, que embora se confunda com satanás e com o diabo, não é o mesmo ente – o orgulho foi a causa de sua queda. Ora, veja se este orgulho que ele teve não é tal e qual o do filho primogênito, que tem a atenção roubada pela chegada do caçula. Não parece igual? O amor confundir-se com o ciúme é algo humano, demasiado humano. E que pai expulsaria seu primogênito, por ele dizer e acreditar ser melhor e mais bonito que o filho mais novo? (O caçula de Deus, segundo a tradição, é a humanidade). O que há de fora do comum nisso? Tudo bem que a mitologia de Lúcifer diz que ele queria usurpar o posto de Deus. Este é um pecado mais grave, mas danação eterna sempre me pareceu exagero, até para o diabo, que um dia amou a deus e foi amado por ele.

Mas quais pecados são além da redenção?

Difícil responder. De qualquer forma, é de se pensar: se Deus detesta os pecadores, e o diabo os pune, ambos não estariam do mesmo lado?

Bem, Deus tem critérios misteriosos. Algumas coisas este deus não aceita, e insurgência, como bem sabem Lúcifer, Adão e Eva, parece ser o pecado mais grave aos seus olhos – tal e qual qualquer ditador.

Personalização de deus

Na minha opinião, toda esta polêmica e os furos irremediáveis da mitologia cristã se dão pela personalização excessiva de deus. Algo perfeitamente compreensível, ao se ver os atributos que tinham as antigas deidades.

Para um povo nômade e continuamente expulso, como os judeus, ter um deus senhor dos exércitos fazia bastante sentido. Já hoje, sabendo o que há numa guerra, e pensando que todos são seus filhos, é, no mínimo, um contrassenso.

Deus ter “inimigos” entre os humanos é uma desproporção. Ele tomar partido de um povo e auxiliá-lo em guerras contra outros é ingênuo. Era exatamente o que eu desejava quando era pequeno e os caras grandes na escola me batiam – torcia para Deus se vingar deles por mim (o que, felizmente, parece nunca ter acontecido).

Ou seja, a visão de deus e do diabo de muitos – até mesmo a de religiões – é muito semelhante à visão de super-heróis e super-vilões que é tão comum hoje. Deus é o super-herói supremo, e o diabo, o arquivilão. Além de ser algo incrivelmente infantil, também é uma redução de sentido totalmente disparatada. Um ser onipotente teria mais o que fazer do que se preocupar com orações bem feitas, adorações e pecados.

Pretendo retomar esta discussão em outra resenha. Há muito para se considerar sobre isso.

Pobres diabos

Joe Hill parece promissor. Seus livros tem feito sucesso e ele angariou muitos fãs. Quanto ao O pacto, li resenhas apaixonadas sobre, pessoas que o consideraram o melhor que já leram. Acho que não é para tanto. É um bom livro, uma história bem construída e contada, ainda que tenha algumas falhas, na minha opinião, que, se sanadas, resultariam em uma obra mais coesa.

De qualquer forma, se o ler, preste atenção ao “Sermão de Fogo”, uma contraposição ao Sermão da Montanha, sem contudo desrespeitá-lo ou desacreditá-lo (o que não seria possível, de qualquer forma).

Talvez o diabo esteja com os dias contados. Disse o sociólogo francês Michel Maffesoli, em seu livro A parte do diabo: “a pessoa plural num mundo policultural tende a integrar o mal como um elemento entre outros”. Ou seja, o mal personificado vai perdendo sua função, e o diabo vira um personagem literário.

Sobre a maldade dele, me assustam mais os homens em qualquer guerra, ou munidos de alguma justificativa semelhante, ou simplesmente possuídos (?) pelo ódio e pela ignorância. Pobres diabos, estes (sub)humanos. Concordo com o que cantam os Racionais MC’s, em seu clássico “Diário de um detento”:

Já ouviu falar de Lucífer? / Que veio do Inferno com moral, um dia… / No Carandiru, não… ele é só mais um. / Comendo rango azedo, e com pneumonia…

E, por último, a respeito destas e de outras crenças, o magistral Joseph Campbell:

Mitologia é o nome que damos às religiões dos outros..

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Por Rodrigo Casarin

_FANTASMAS_NA_BIBLIOTECA_1364484163P1.

Sou são paulino e apaixonado por futebol. Antes do preço dos ingressos me afastar da arquibancada, ia praticamente toda semana ao Morumbi, e às vezes até viajava para torcer. Como também sempre gostei muito de ler, natural que tenha um enorme interesse por livros sobre futebol e torcidas.

Em uma conversa, descobri que precisava ler Entre os vândalos, de Bill Buford, jornalista que viveu como autêntico hooligan do Manchester United e depois transformou sua experiência em livro-reportagem. Torcedor eu já era, e havia decidido cursar jornalismo. Claro que fiquei empolgado. Queria a obra imediatamente, mas mal sabia o quanto demoraria para consegui-la.

Comecei a busca quando estava no primeiro ou segundo colegial. Frustrei-me, estava esgotado. Seria exagero dizer que visitei quase todos os sebos de São Paulo, mas com certeza entrei em todos pelos que passei em frente: ninguém tinha o maldito livro. De tempos em tempos, mandava e-mail para a Companhia das Letras. Minha esperança não era que republicassem Entre os vândalos apenas por minha causa, mas que achassem um mísero exemplar perdido na editora. Não rolou.

Foi no segundo ou terceiro ano da faculdade que descobri o Estante Virtual. Finalmente uma nova chance se abria. Pelo que tinham me dito, seria impossível não achar alguma obra no site. Mentira, já não achei algumas, mas felizmente três exemplares de Entre os vândalos estavam à venda. Comprei de um sebo em Bauru, era o que estava mais próximo de São Paulo. Virou o meu livro de estimação.

Alguns anos depois, finalmente a Companhia das Letras republicou a obra. Confesso que até hoje, sempre que esbarro com algum exemplar na livraria, tenho vontade de comprá-lo. É estranho vê-lo ali, fácil, à disposição.

2.

Estávamos reunidos em umas dez pessoas. Discutíamos particularidades e rumos de um dos livros que estou escrevendo. O lugar era uma mistura de sala de estar e biblioteca. Logo interrompemos o papo para almoçar.

Nosso anfitrião é um grande colecionador. Dentre suas coleções, a de livros é uma das proeminentes. Enquanto pessoas se serviam de quiches e copos de água, aproveitei para dar uma olhada nos exemplares que estavam enfileirados nas prateleiras. Pouca coisa me chamou a atenção.

Sentamos, almoçamos, falamos amenidades e partimos para o café e a sobremesa. Ficamos todos de pé, rodando pelo espaço. Voltei às prateleiras e, enfim, um volume realmente me atraiu. Aliás, não só a mim, mas aos que me acompanhavam também. Indiscutivelmente, tínhamos ali uma preciosidade que nos maravilhava. Logo o anfitrião puxou uma mesa embutida à estante, pegou o livro e cuidadosamente abriu para que nós o admirássemos. Não tinha nome, mas o importante era sua data: 1492.

Ao vê-lo, fiquei momentaneamente paralisado, mas poderia jamais ter outra chance de me relacionar com um Matusalém daqueles. Abdiquei da compostura que a reunião pedia. Só ver o livro não bastava. Toquei, peguei, acariciei e, finalmente, levantei o livro e meti o nariz o mais próximo possível das suas páginas — precisava saber quais cheiros trazia do século 15.

Não senti grandes coisas, mas ao menos não espirrei.

Saí de lá surpreso: como uma raridade daquelas estava ali, sem proteção alguma, à mercê de uma xícara de café voadora ou de uma colher que erre a boca e derrube pavê sobre suas centenárias páginas?

3.

Sempre precisamos organizar minimamente nossos livros. Na parte de cima da minha estante ficam as obras, digamos, técnicas. Um pouco abaixo estão as de não-ficção. Já mais perto do chão, ficção, e, na mais baixa das prateleiras, livros sobre futebol — não o Entre os vândalos, que está em não-ficção —, música, livros que escrevi, enfim, um apanhado de tudo o que sobrou.

Dentro de cada uma dessas seções, eles são separados novamente de acordo com o seu gênero específico e dispostos conforme o sobrenome dos autores. Tudo isso na teoria, claro, pois na prática pouco funciona. Raramente um livro retirado da estante volta para o seu lugar de origem. Logo os espaços acabam e precisamos abrir concessões. Se não cabe mais nada na parte de biografias, é mais fácil deixar a vida de Borges provisoriamente perto de um Dostoiévski do que remanejar todas as obras até que ache algum espaço mais adequado.

Também há muitos livros que são difíceis de classificar. Onde colocar o último de David Foster Wallace (que precisei tirar da estante e já não voltará mais para o seu lugar)? Apesar da capa dizer que se trata de um livro de ensaios, a classificação não me convence. Ficando longe do fato de já estar meio que longe de tudo é muito mais um apanhado de experiências jornalísticas de DFW. E Nu, de botas, do Antonio Prata? São memórias de sua infância, mas, pela forma e pelo autor, estou propenso a colocá-lo junto de obras ficcionais, não próximo de O ano do pensamento mágico. A plena e satisfatória organização de uma estante ou de uma biblioteca é uma utopia. Gosto de utopias.

4.

Não costumo falar de mim em resenhas — se é que deste texto está saindo uma resenha —, deixo isso para quem sabe fazê-lo com maestria, como o Julián Ana (que, aliás, anda um tanto sumido aqui do Rascunho. Espero que volte logo.), mas é impossível ler Fantasmas na biblioteca — A arte de viver entre livros, do bibliófilo Jacques Bonnet, e não pensar nos momentos mais marcantes e na relação que tenho com os livros.

O livro é um ensaio — com certeza irá para esta seção — que traz diversas nuances da relação do seu autor com as obras que compõem sua vasta biblioteca. Fala da busca por exemplares raros, da estrutura requerida para abrigar tantos volumes, da necessidade de classificá-los, das formas de ler (aqui concordo plenamente com o autor, o ideal realmente é estar alongado, como se a posição permitisse ao texto descer melhor pelo corpo)… Em alguns momentos, Bonnet traz um humor sutil e uma ironia que me lembraram Vanessa Barbara — que, aliás, tem diversos textos também falando da sua relação com os livros.

Aparentemente, Fantasmas na biblioteca é despretensioso, e esse é um dos seus grandes méritos. Não é preciso ser um grande livro para ser uma obra preciosa, daquelas que se preocupam apenas com o prazer da leitura, justamente para aqueles que amam os livros. É sempre bom ver algo que amamos sendo tratado com o carinho que Bonnet aparenta tratar seus livros e as histórias que estão ao redor deles. É sempre bom quando algo nos faz lembrar vivamente das nossas próprias histórias.

Texto publicado originalmente na edição 164 do jornal literário Rascunho.

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Crédito da foto: Renato Parada

Crédito da foto: Renato Parada

Antonio Prata está em evidência. Na mesma semana do lançamento do seu novo livro, Nu, de botas, no início deste mês, envolveu-se em uma polêmica por conta do texto “Guinada à direita“, publicado na Folha de São Paulo, jornal onde é colunista. Alguns não entenderam sua suposta mudança de posição ideológica, e outros, pior, aplaudiram de pé o texto que precisou ser esmiuçado no domingo seguinte para que maus entendidos (ou entendedores?) fossem resolvidos. Autor de obras como Douglas, As pernas da tia Corália, Adulterado, Felizes quase sempre e Meio intelectual, meio de esquerda, foi um dos integrantes da edição da revista Granta com os melhores jovens escritores brasileiros e ajudou a escrever a novela Avenida Brasil. Além disso, informação importante, fabrica cervejas em sua própria casa. Falou de todos esses assuntos nesta entrevista que fizemos com ele (e de futebol também!).

Canto dos Livros: Como anda a vida depois da guinada à direita?

Antonio Prata: Muito mais tranquila. É bem mais fácil ser de extrema direita do que ser meio de esquerda. Você não precisa se preocupar com a pobreza – é culpa dos pobres – nem com a desigualdade – cada indivíduo é diferente do outro. Você pode fazer piadas racistas, machistas e homofóbicas e pagar de vanguardista. Ser de esquerda dá muito trabalho. Você está sempre sofrendo. Direita é paz de espírito. (RISOS – é sempre bom frisar…)

CdL: Ficou muito surpreso com a reação das pessoas a esse seu texto? Pensou que haveria tanta gente se identificando com o discurso e incapaz de perceber a ironia?

AP: Fiquei. Eu escrevi tantos absurdos no texto que jamais pensei que alguém pudesse levá-lo ao pé da letra.  Afirmava que José Maria Marin e Marco Feliciano eram de esquerda, que o “poderoso lobby dos antropólogos” havia transformado toda a área cultivável do Brasil em reserva indígena, que os negros estavam no poder, escanteando os brancos…

CdL: Na quarta capa de Nu, de botas está escrito que no livro “Antonio Prata revisita as passagens mais marcantes de sua infância”. Nessas revisitas você foi fiel à sua memória ou você criou histórias – ou detalhes – em cima daquilo que lembra da sua infância? Você realmente deixou de ganhar uma bicicleta do Bozo porque não sabia qual era o seu endereço?

AP: Olha, não dá pra chamar memórias de outra coisa senão de ficção, esse é um primeiro ponto. A memória é sempre uma história editada, reescrita no nosso cérebro. Às vezes (não poucas) é até inventada do zero. Memórias tão antigas, então… Eu não poria a mão no fogo por nada do que está no livro, se tivesse que testemunhar num tribunal quanto à veracidade. Ou seja, mesmo o que eu acho que aconteceu, não sei se aconteceu mesmo (ou se foi do jeito que lembro). Já certas histórias ou pedaços delas eu realmente inventei, para melhorar os enredos ou preencher brechas. A história da bicicleta eu trago na lembrança exatamente do jeito que escrevi. (Mas duvido que tenha acontecido: você acha que o Bozo ia conversar com um moleque de 5 anos depois do programa? E que ia se propor a dar uma bicicleta, do nada? Estranho.)

CdL: Como foi escrever esse livro?

AP: Foi legal. E cansativo, como sempre é a escrita.

CdL: É raro vermos crianças sendo bem retratadas na literatura e em Nu, de botas, você consegue captar bem o contraste entre a diferença de olhar, raciocínio e pensamento entre uma criança e um adulto. Como conseguiu isso? Tentativa e erro, estudos sobre a infância, convivência com crianças, boa memória dos primeiros anos de vida?

AP: Agradeço o elogio. Eu tentei criar as histórias a partir das memórias. E as memórias já tinham uma certa linguagem, um certo estilo de narrativa. O que tentei fazer foi ser fiel a esse estilo. Agora, se é assim que uma criança pensa (ou que eu pensava), já não sei. Mesmo esse elogio é o elogio de um adulto, alguém que, como eu, já não sabe mais o que passa pela cabeça das crianças. É igual filme de época. Você assiste Gladiador ou Spartacus e diz “nossa, eles recriaram direitinho a vida em Roma!”: mas quem é que sabe como era exatamente a vida em Roma?!

CdL: Ainda sobre a técnica de narrar histórias sob a perspectiva de uma criança, é uma questão da habilidade de bons escritores (como Bill Waterson e Neil Gaiman, para ficar em dois exemplos), ou há algum macete que facilite a tarefa?

AP: Pois então, são recriações, né? Pra começar, se eu quisesse ser realmente fiel ao pensamento das crianças, teria que restringir meu vocabulário a duzentas palavras, não poderia fazer frases longas nem conjugar direito os verbos. Eu tentei esse caminho quando comecei a escrever o livro, ficou ridículo. Experimentei alguns caminhos antes de chegar no que está publicado.

CdL: O Nu, de botas foi lançado junto com o Ligue os pontos, do Gregório Duvivier, em uma espécie de balada. De onde surgiu essa ideia? Como foi a experiência de aproximar dois universos tão distintos, a balada e a literatura?

 AP: A ideia foi da editora e eu achei ótima, porque sou fã do Gregório (embora não o conhecesse pessoalmente). Mais do que pela balada, o lançamento foi legal porque teve um bate-papo entre o Gregório e eu e leitura de trechos dos livros. Quanto à balada, propriamente, lamento dizer que eu tava tão exausto depois de tudo que nem consegui chegar à pista de dança. (Subir num palco e falar em público não é muito aterrorizante, pra mim. Aterrorizante são os sete dias e as vinte e quatro horas antes de subir no palco e falar em público…).

CdL: Você começou a publicar seus textos em veículos de comunicação bem jovem. De lá até hoje, como tem acompanhado as mudanças na imprensa? Como enxerga o futuro dela?

AP: Cara, quem souber responder essa pergunta ou é um gênio ou tá mentindo… 

CdL: Avenida Brasil foi uma das novelas mais elogiadas dos últimos anos, principalmente por causa de seu roteiro. Como foi fazer parte da equipe que escreveu essa novela? Como o trabalho era dividido? Quais eram as suas funções?

AP: A história é criada pelo autor principal, João Emanuel Carneiro. Todo dia ele faz uma escaleta, um resumão bem detalhado do capítulo e manda pros quatro colaboradores. Na escaleta, já vem apontado qual colaborador pegará quais cenas. A gente faz basicamente diálogos. Daí manda pra ele, ele dá um tapa final e manda pra ser filmado.

Foi demais participar dessa novela, por várias razões. Primeiro, por trabalhar com o João Emanuel, um escritor talentosíssimo e generoso, com quem aprendi muito. Também pela graça de escrever um troço que metade do país tá assistindo e comentando. Sem falar na alegria que é ver o diálogo que você escreveu sair da boca de alguns dos melhores atores do Brasil. (Em vários casos, aliás, melhorado por eles).

CdL: Ainda sobre a novela, você teve alguma participação nas hilárias cenas que o Tufão aparecia lendo A interpretação dos sonhos, de Freud (e o chamava de Fred), Mar morto, do Jorge Amado (para o Leleco dizer que nem sabia que o mar tinha vida para morrer) e O idiota, do Dostoievski (para o mesmo Leleco dizer que idiota mesmo era o Tufão)? Como foi a recepção para essas, digamos, intervenções? Como o pessoal da Globo as recebeu?

AP: Olha, quem mandava nas leituras do Tufão era o João Emanuel.

Não vejo essas citações como intervenções. Fazia sentido a Nina incentivar o Tufão a ler, como parte da “recuperação” que ela estava promovendo ali. E havia algumas piscadelas pro público, também. O primeiro livro que ela deu pra ele, se não em engano, era o Primo Basílio, que tinha não só o tema da traição como a inversão de papéis entre patroa e empregada, que se daria entre Nina e Carminha lá pelo capítulo cem. 

CdL: Seu pai, Mário Prata, o influencia como escritor?  Há ou houve alguma cobrança – sua, dele, da crítica ou dos leitores – pelo parentesco? Houve algum conflito íntimo quando você decidiu que seria escritor, como querer se diferenciar do estilo dele? 

 AP: Eu sempre digo que influência é uma palavra leve demais para definir o quanto a presença de um pai determina os caminhos de um filho. Mais do que me influenciar, ele me deu vinte e três cromossomos, me ensinou a andar, a falar, etc. Ou seja: sem dúvida “influenciou” muitíssimo minha escolha na profissão.

No começo havia a desconfiança de algumas pessoas, sim, mas com o tempo isso ficou pra trás. Ser filho de um escritor sem dúvida me abriu muito mais portas do que criou cobranças.

Não acho que eu tenha querido me diferenciar do estilo dele. Nossas disputas edípicas se deram em outros campos que não nas páginas

CdL: Como parte do time, o que você tem a dizer sobre o vexame brasileiro em Frankfurt? Perder de 9X1 não foi um pouco demais?

AP: Cara, pegue dezesseis escritores brasileiros que treinaram juntos duas vezes na vida no Playball da Barra Funda (nunca os onze do mesmo lado, só seis contra seis) e ponha pra jogar contra um time de quarenta alemães que treinam desde 2005. Ponha num campo oficial, a quatro graus, com garoa fina. Acho que 9X1 foi praticamente um empate.

CdL: Você também faz cerveja em casa. Há alguma forma de se relacionar a literatura com a cerveja caseira?

AP: Os textos dá pra consertar o tempo todo, dá pra mexer, remexer, cortar, remendar. Cerveja, se você cometer um errinho, vai tudo pro lixo. Ou melhor, pra pia.

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A Granta, uma das revistas literárias mais importantes do mundo, enfim divulgou os autores que estarão presentes na edição com os 20 melhores jovens escritores brasileiros. Eis os nomes:

Antonio Prata

Antonio Xerxenesky

Carola Saavedra

Carol Bensimon

Chico Matoso

Cristiano Aguiar

Daniel Galera

Emilio Fraia

Javier Arancibia Contreras

João Paulo Cuenca

Julián Fuks

Laura Edler

Leandro Sarmatz

Luisa Geisler

Michel Laub

Miguel del Castillo

Ricardo Lísias

Tatiana Salém Levy

Vanessa Barbara

Vinicius Jatobá

Participaram 247 escritores nascidos desde 1972 que já publicaram ao menos um texto em meio impresso. Dentre os escolhidos, já entrevistamos Vanessa Barbara e Ricardo Lísias e resenhamos Procura do romance, de Julián Fucks.

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