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Posts Tagged ‘Bento XVI’

Rodrigo Casarin

O professorApós o lançamento de O filho eterno, em 2007, livro pelo qual recebeu os prêmios mais importantes da literatura de língua portuguesa, Cristovão Tezza continuou produzindo a um ritmo considerável. Vieram Um erro emocional (2010), Beatriz (2011), O espírito da prosa (2012) e Um operário de férias (2013). Agora, está lançando O professor, sua obra mais ambiciosa desde o título que lhe fez um escritor definitivamente conhecido do grande público. “Para esse livro, minha entrega foi maior, era para ele ser de fato mais denso”, garante o autor.

Tezza começou O professor em 2010, quando escreveu a página inicial de algo que se chamaria A homenagem. Pensou que seria apenas uma novela, contudo, após retomar os trabalho práticos, já em 2012, percebeu que a história renderia um romance. Passou, então, um ano construindo sua nova obra. Acordava todos os dias da semana às 9 da manhã e escrevia até o meio dia – não consegue criar ficção durante mais do que três horas por dia, por isso deixa as tardes para textos mais leves, como crônicas. “O único esqueleto que tinha era que o personagem se levantava, tomava banho, café e saia. O resto eu fui compondo, controlando o volume de informações, montando um mosaico da memória dele, equilibrando as partes. Na minha idade, já sei selecionar, ir direto para o que tem importância na construção do protagonista, na escolha do foco. Não era assim quando tinha 30 anos, a perspectiva da vida muda”, conta.

Disso, surgiu a história de Heli seu, um professor universitário que, ao acordar no dia que receberá uma homenagem pela sua carreira acadêmica, precisa preparar um discurso para a cerimônia, mas, ao tentar escrever algo, perde-se em suas memórias. Recorda da rigidez de seu pai, da misteriosa morte da mãe, do decadente casamento e a conturbada relação com o filho. Todas essas lembranças se intermeiam com o passado do Brasil – e questões problemáticas principalmente das décadas de 1960 e 1970 – até o dia em que a história se passa, exatamente quando o Papa renúncia a seu cargo, algo que, para o autor, beira o inacreditável. “A última vez que isso aconteceu tinha sido no século 15, pô, com isso parece que tudo pode acontecer”, lembra referindo-se às renúncias de Gregório XII e Bento XVI.

As memórias de Heliseu também alcançam o relacionamento que teve com Therèze, aluna francesa residente no Brasil e que o escolhe para ser o orientador numa tese que investiga como a ambiguidade usada pelos brasileiros na língua oral pode ser transferida para a gramática. “A tese foi pensada, queria que ela ficasse no centro do livro, pois é o eixo dele. Essa ideia nasceu há dois, três anos, num papo com um ex-professor sobre o tipo de humor do brasileiro, de perceber subtendidos em tudo”, diz o escritor. “O brasileiro está sempre com o pé atrás, ouvindo a segunda parte, isso cria eventuais ruídos de comunicação com estrangeiros, que tendem a ser mais literais. Igual esse pessoal da Copa que acreditou que as coisas iriam ficar prontas, o brasileiro já sabia que não ficaria pronto mas teria o campeonato do mesmo jeito”, argumenta Tezza, que também justifica a escolha da personagem. “Para perceber algo assim, teria que ser um estrangeiro, por isso que surge a Therèze, uma francesa judia. O Heliseu não é o professor adequado para quela tese, mas ele, com o casamento desandando, apaixona-se pela jovem e pela sua proposta. Minha preocupação foi não transformar isso numa coisa chata, especializada demais”.

O professor vem sendo apontado pela crítica como um romance proustiano, principalmente por se passar majoritariamente no imaginário de seu protagonista e se concentrar em um espaço de tempo físico bastante breve. Nele, Tezza volta a utilizar algo que já pode ser considerado uma de suas marcas: o narrador duplo, um com onisciência limitada, relativa apenas ao protagonista, e outro sendo o próprio personagem. “As passagens do ponto de vista são muito comuns em nosso dia a dia. Fazemos isso quando falamos e eu tenho muita influência da oralidade. Às vezes a língua escrita tem dificuldade em lidar com essas rupturas, mas o romance é alguém que fala, mais do que alguém que escreve”. O recurso, utilizado pelo escritor desde Breve espaço entre cor e sombra, de 1998, também foi usado em O filho eterno, no qual o artifício se fez essencial para que a história pudesse ser contada.

Como Heliseu, Cristovão Tezza também teve uma carreira de professor universitário, que durou mais de duas décadas. Foi exatamente o sucesso de “O filho eterno”, um romance com toques autobiográficos sobre a aceitação de um pai a seu filho com síndrome de Down, que possibilitou que deixasse a sala de aula para se dedicar exclusivamente à criação ficcional.

Matéria publicada originalmente no Uol.

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Por Igor Antunes Penteado

O livro O que é religião?, do psicanalista, educador e teólogo Rubem Alves, poderia ser mais um texto pretensamente doutrinador. Felizmente não é. E olha que tinha tudo para sê-lo, afinal, o autor foi, durante muitos e muitos anos, pastor presbiteriano, profundamente envolvido com os rumos que a religião tomou em nosso país à partir da segunda metade do século passado. (Rubem Alves também é um dos idealizadores da Teologia da Libertação aqui no Brasil, uma importante e polêmica corrente teológica que critica ferrenhamente a exclusão social, interpretando a pobreza como um produto de estruturas econômicas e sociais injustas, e que foi severamente combatida pelo então Cardeal Joseph Ratzinger, o atual papa Bento XVI, enquanto era chefe do tribunal da santa inquisição da Igreja Católica, que, pasmem, existe até hoje).

O que é religião? possui dois grandes méritos. O primeiro, e talvez o maior deles, é conseguir separar bem dois conceitos que são amplamente confundidos, mas que também, hoje, são essencialmente diferentes em toda essa amplitude: religião e fé. Dessa forma, através de reconstruções filosófico-sociológicas, este mineiro de Boa Esperança consegue tecer e explicar todo o contexto do mundo em que vivemos, sem cair na pieguice ou, como já disse, na mera doutrina.

Como o livro mostra ser fundamental, para entender todo esse contexto, é necessário que entendamos, também, os mecanismos sobre os quais essa estrutura de realidade foi construída. Para isso, Alves explora conceitos de vários campos do conhecimento, como o Desejo, os Símbolos, e o Determinismo, o que ajuda a compreender a realidade complexa que a cultura dos seres humanos ajudou a criar, mas que, na verdade, nada mais é do que uma realidade inventada e passada de geração em geração, como se fizesse parte da natureza.

Na verdade, isso tudo é muito mais amplo e difícil de ser explicado em poucas linhas. Mas, basicamente, a “coisa” funciona assim: ao contrário de todos os outros animais, os seres humanos precisam ser educados, precisam de um outro ser humano mais velho que lhes ensine como é o mundo, não dependendo exclusivamente de seus instintos. Dessa forma, todo bebê que nasce já encontra um mundo “pronto”, tão pronto e sólido quanto a natureza. Um mundo cultural, onde todas as coisas, desde a música, a dança, a moda, o poder instituído, até a literatura, tudo foi imaginado e criado pelo homem.

Ninguém presenciou essa estrutura toda sobre a qual está organizada a nossa sociedade sendo montada, mas as gerações mais antigas vão passando adiante, inconscientemente, toda essa qualidade artificial que rege a vida, desde as regas e leis, até o dinheiro e a propriedade, mantendo de pé um mundo frágil e superficial. Caso contrário, com esse conhecimento nas mãos – se tudo o que existe é artificial e feito sob convenções – então essa realidade pode ser desfeita e refeita de outra forma. E quantas vezes forem necessárias. Mas, óbvio, isso não é de interesse daqueles que são beneficiados pelo sistema vigente.

Nota-se que é um assunto tão polêmico quanto controverso. E que, por tomarem tanto pra si os dogmas religiosos, muitas pessoas nem se propõem ao debate. E essa é a grande sacada de Rubem Alves e seu livro. Não tentar desmerecer a fé ou a crença das pessoas, apenas elucidar como a estrutura das religiões foi formada, e como ela ajuda em toda a engrenagem que faz rodar o mundo em que vivemos.

Antes de terminar, o segundo grande mérito do livro: esclarecer que vida não é algo que possa ser definido. Como o autor diz no final do livro “o sentido da vida não é um fato”. Para ilustrar isso, nada melhor que um diálogo protagonizado por um dos maiores compositores da história, Beethoven. Certa vez, após ter executado uma de suas composições, alguém lhe perguntou o que aquilo significava, o que ele queria dizer com aquela obra. Ao passo em que ele assentou-se novamente ao piano e executou a mesma peça na íntegra.

A peça não significava coisa alguma, ela já era a própria coisa. Esse, talvez, seja o nosso maior erro. Tentar achar um significado em tudo. Uma razão para as coisas existirem. Às vezes as coisas já são as próprias coisas, não precisam significar outras. O fato é que, como diria Karl Marx, “uma religião que não invoca a transcendência deveria ser chamada de política”. Assim sendo, como disse logo no começo desse texto, a religião, hoje, se dissocia da fé – embora seja confundida propositalmente com ela. Sabendo disso, e conhecendo os mecanismos pelos quais a nossa realidade é formada, cada um tem a liberdade e o direito de seguir o próprio caminho do pensamento.

E só pra não ficar em cima do muro, eu, assim como o autor em sua última frase no livro, acredito que é “mais belo o risco ao lado da esperança que a certeza ao lado de um universo frio e sem sentido…”

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