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Posts Tagged ‘Bíblia’

Por João Dutra

jesusNo princípio, Deus criou o céu e a terra. De lá para cá, a gente também criou um monte de coisas: a roda, o chuveiro elétrico e o iPad. Mas, como li outro dia em um desses posts compartilhados no Facebook: “as melhores coisas do mundo não são coisas”. Muito do que criamos realiza muito bem os desejos do corpo – afinal, quem ousaria duvidar dos benefícios do banho quente no inverno? –, mas e os desejos da alma, para os quais a ciência e a tecnologia não têm respostas tão precisas?

É necessário buscar soluções em outras perspectivas a respeito da vida: a arte, a filosofia e a religião. Tentemos usar esses três elementos para contar a história de um homem que veio ao mundo para nos apresentar um caminho para fazer a vida valer a pena.

Amor democrático

Em “Pride (in the name of love)”, a banda irlandesa U2 nos apresenta a história do criador de uma forma inovadora de amar:

One man come in the name of love
One man come and go
One man come here to justify
One man to overthrow

Este é Cristo. Como a própria letra diz, é um homem que veio ao mundo para subverter.

O amor cristão é subversivo pois é uma reação intensa e declarada ao contexto em que se inseria no momento em que foi criado. Lembremos que o mundo greco-romano, a região civilizada, por assim dizer, da época de Cristo, era em essência aristocrático.

Os dois tipos de amor sobre os quais refletimos anteriormente aqui no Canto, o Eros platônico e o Philia aristotélico, não são nada democráticos. O desejo erótico é apenas pelo que nos falta, a beleza que nos falta, a força que nos falta, o talento que nos falta. A Philia de Aristóteles é por aqueles poucos e bons amigos e amigas que nos alegram por serem como são.

Na Bíblia, Cristo estimula os leitores a amar “o próximo”. Mas, que próximo? Quando perguntado, sua resposta veio em forma de parábola, aquela que talvez melhor represente o pensamento cristão: a do bom samaritano (“Lucas 10.25-37”).

Essa conhecida história é precedida por aquilo que Cristo relata ser o caminho para a salvação:

Amarás ao Senhor teu Deus de todo o teu coração, e de toda a tua alma, e de todas as tuas forças, e de todo o teu entendimento, e ao teu próximo como a ti mesmo.” (“Lucas 10.27”)

A palavra usada para descrever esse amor é Ágape, palavra latina de origem grega.

Amor “em” Deus

Ágape é um daqueles termos difíceis de serem traduzidos, por significar mais do que outros idiomas permitem. Há quem o traduza como “caridade”, mas certamente representa mais do que a esmola dada a um desconhecido no semáforo ou a uma ligação para o Criança Esperança.

Em Aprender a viver, o filósofo francês Luc Ferry faz uma tentativa de atribuir significado ao termo. O que Cristo nos ensina não seria a amar invariavelmente a qualquer um. A sabedoria está em amar a Deus sobre todas as coisas (incluindo a roda, o chuveiro elétrico e o iPad). Desse amor, baseado na fé – não na racionalidade, aqui o pensamento cristão se descola da filosofia – deriva o amor por todos os filhos do Criador. O próximo.

Então, Ágape seria sobre amar aos outros “em” Deus, sustentado na fé de que somos todos filhos do mesmo Pai.

Ali, nas parábolas de um homem simples e pobre, surgiu pela primeira vez a base sobre a qual se sustentaria toda a civilização dali em diante: a crença que, de alguma forma, todos somos iguais. Foi o berço das ideias de humanidade, igualdade, fraternidade, democracia.

Morte e ressureição

Não por acaso, tal subversão condenou seu idealizador à pior das penas da época, como faz referência a letra do U2:

One man caught on a barbed wire fence
One man here resist
One man washed up on an empty beach
One man betrayed with a kiss

Traído pelo beijo cruel de Judas, Cristo, depois de resistir às tentações terrenas e divinas, foi crucificado.

O professor Sir. Ken Robinson, nomeado cavaleiro pela corte britânica graças a seu trabalho em defesa da Educação, aponta no livro The element que um verdadeiro criativo deve estar preparado para resistir contra todos os que o forçarem a manter o status quo, que se incomodam com suas ideias originais. Cristo não hesitou em defender sua ideia, até as últimas consequências. Um criador. Um criativo.

Em sua canção, o U2 exalta um dos seguidores de Ágape, outro revolucionário, que morreu em nome do amor:

Early morning, april four
Shot rings out in the Memphis sky
Free at last, they took your life
They could not take your pride

Este é Martin Luther King, pastor protestante, que morreu na defesa dos direitos civis dos negros nos EUA. A manhã de 4 de abril certamente foi um momento de muita tristeza para os que acreditam que todos devemos ser tratados igualmente perante a lei.

A despeito de todos os milagres de Cristo relatados na Bíblia, imagino que o maior de todos tenha sido a capacidade de fazer com que o amor da forma em que acreditava ressurgisse em pessoas como Martin Luther King, Mandela, Madre Teresa e todos aqueles que no dia-a-dia praticam Ágape. Vida eterna para o amor.

Como diria o U2 em “Walk on”, em outra canção bastante inspiradora, amar não é nada fácil, mas no final das contas, parece ser a única coisa que vale a pena levar conosco.

Seja movido pelo Eros de Platão, por Philia de Aristóteles ou pelo Ágape de Cristo, amar é uma busca pessoal por uma fonte rica de significado. Uma criação mais valiosa que a roda, o chuveiro elétrico e o iPad. Uma maneira inspiradora de compartilhar o fato de que as melhores coisas da vida não são coisas.

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Por Rodrigo Casarin

Anotações-de-um-voyeurO que é literatura? Apesar das inúmeras pesquisas acerca desta simples pergunta, é difícil, se não impossível, acharmos uma resposta decisiva, totalmente convincente. Contudo, algumas possibilidades, ainda que vagas, baseadas em subjetividades (a arte sempre se baseia em subjetividades), parecem já agradar bastante. Em uma simplificação absurda de toda a discussão, não erraríamos se disséssemos que literatura é a arte feita por meio de palavras, palavras que buscam algo mais. Pouco adianta, no entanto; apenas cairíamos em outra discussão. Também não temos uma resposta definitiva para “o que é arte?”. Ainda bem. Caso tivéssemos, talvez a arte deixasse de existir.

Contudo, precisamos de algo para este texto. Então, usando essa premissa simplista de que literatura é a arte feita com o bom manejo das palavras, essa arte pode acontecer de diversas formas e em tamanhos completamente distintos. A meu ver, um livro pode servir de ótimo modelo para os extremos: a totalidade de Anna Kariênina, do magistral russo Liev Tolstói, é sem dúvida uma das maiores obras literárias de todos os tempos. Caso o leitor deseje ler toda a saga, se optar pela edição brasileira traduzida por Rubens Figueiredo e lançada pela Cosac Naify, terá pela frente oitocentas páginas a percorrer. Entretanto, se a obra-prima contribui muito para que Tolstói seja o que é hoje, talvez apenas a primeira frase do tijolo já justificasse todo o trabalho do escritor: “Todas as famílias felizes se parecem, cada família infeliz é infeliz à sua maneira”. Forte, taxativa, impositiva, essa primeira frase já condensa em si aquilo que entendemos por literatura. Ou seja, a literatura está nas oitocentas páginas da obra de Tolstoi, e também está apenas em sua primeira frase.

Disso, partimos para outro ponto, um tanto óbvio: uma obra literária de qualidade é composta por frases de qualidade. Para se chegar a um texto que mereça ser chamado de arte, o escritor precisa criar um corpo de frases ao menos aceitáveis, que servem de base para momentos mais brilhantes, raros porém essenciais. São frases que, mesmo isoladas, também podemos considerar literatura. Peguemos a Bíblia, por exemplo, um dos escritos mais importantes de todos os tempos. Ela pode ser lida em sua totalidade e de forma linear, mas não perde o brilho se lermos apenas fragmentos, apenas um versículo. A qualidade está ali, a cada pequeno trecho.

Pílulas literárias

Essa condensação da literatura virou até se não um gênero, um estilo próprio: o miniconto. Um dos meus preferidos é “Uma história radicalmente condensada da vida pós-industrial”, de David Foster Wallace, presente em Breves entrevistas com homens hediondos, cujo longo título faz contraponto à brevidade do texto:

Quando foram apresentados, ele fez uma piada, esperando ser apreciado. Ela riu extremamente forte, esperando ser apreciada. Depois, cada um voltou para casa sozinho em seu carro, olhando direto para frente, com a mesma contração no rosto.

O homem que apresentou os dois não gostava muito de nenhum deles, embora agisse como se gostasse, ansioso como estava para conservar boas relações a todo momento. Nunca se sabe, afinal, não é mesmo não é mesmo não é mesmo.

O legal de tratarmos de obras assim é que podemos colocá-las integralmente em nossos textos sem que comam todos os toques que temos disponíveis. E isso fica ainda mais fácil de ser feito nas condensações da condensação: o microconto, como o famosíssimo “Vende-se: sapatos de bebê, sem uso”, de Ernest Hemingway. Excelência em poucos caracteres.

Indo ainda mais além e já saindo das páginas dos livros, chego à música. Passei a adolescência discutindo se algumas letras poderiam ou não ser consideradas poesia. Ainda que ouvisse falar de versos alexandrinos, escanção, de ABAB ou ABBA, sequer sabia o que era poesia, achava que era algo que precisasse rimar — mas ainda assim discutia. Como os outros também não sabiam o que era poesia, não raro eu vencia o debate. Tempos depois, já com outra cabeça, percebi que havia sim algo de literatura em meio a letras de música. Um exemplo que me chama bastante atenção vem de “Tendo a lua”, escrita por Herbert Vianna. O trecho “O Sol de Ícaro tem mais poesia que o de Galileu” condensa muitas coisas em pouquíssimas palavras. A figura de Ícaro, sonhadora, utópica, contrasta sobremaneira com a de Galileu, um frio cientista. É o Sol sendo mirado dialeticamente pelo olhar da razão e da emoção.

Falo tudo isso para finalmente chegar ao livro que é o alvo desta resenha: Anotações de um voyeur, do misterioso Krauh Offman. A obra é composta por aproximadamente 180 pílulas literárias, textos em miniatura que não passam de quatro ou cinco pequenas linhas e raramente extrapolam os 140 toques no teclado (caberiam em um tweet). São temas diversos, tratados na maior parte das vezes de maneira bastante precisa e criativa, ainda que um ou outro apenas confabule sobre platitudes.

Anotações de um voyeur não é uma obra para ser lida em uma tacada, na seqüência. É sim um livro para estar sempre à mão, para ser aberto e curtido de maneira aleatória, a postos para um momento de desafogo, para uma prazerosa leitura de cinco segundos. Seu formato acolhedor e o cuidado gráfico inclusive convidam a isso.

Disse muito sobre a condensação da literatura exatamente para justificar a relevância literária desta obra. Não que o livro tenha potencial para se tornar um clássico, longe disso — aliás, aparentemente, sequer é essa a pretensão do autor —, mas ali há bons momentos, em que realmente a palavra é transformada em arte.

Texto publicado originalmente na edição 165 do jornal literário Rascunho.

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