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Posts Tagged ‘Brasil’

Por Rodrigo Casarin

primeira guerraSarajevo, 1914. Balas mortais atingem o arquiduque austríaco Francisco Ferdinando e a duquesa Sofia. Quem as dispara é Gavrilo Princip, um sérvio integrante da Mão Negra, organização que quer todos os territórios eslavos independentes do império austro-húngaro. Para alcançar o objetivo, usam a violência como principal arma. O assassinato do casal é somente mais um ato. Gavrilo não imaginava o que aqueles disparos ocasionariam.

A Europa vivia um momento delicado. As nações imperialistas tentavam a todo custo aumentar seus territórios. Disputavam espaços na África e, para se fortalecer, investiam muito dinheiro em armamentos. Com animosidade entre os impérios, o sentimento de nacionalismo se exacerbava em uma época cujas feridas causadas por conflitos no século XIX ainda incomodavam.

Após o assassinato, os austro-húngaros acusam a Sérvia de financiar a Mão Negra e logo declaram guerra ao país. É a desculpa que todos precisavam. Como garotos esperando qualquer olhar torto para iniciar uma confusão, as nações europeias vão à briga. A Rússia em defesa dos sérvios; a Alemanha, contra a França e depois contra a Rússia; a Grã Bretanha, contra a Alemanha, em defesa da Bélgica; a Itália um tanto perdida, sem saber ao certo em quem bater. Logo os Estados Unidos chegariam para dar uma força aos amigos bretões e franceses.

A briga seria superlativa. Duraria até 1918, envolveria países de todos os continentes, deixaria mais de quinze milhões de mortos e seria conhecida como a Primeira Guerra Mundial, ou A Grande Guerra.

2014 marca os cem anos do início do conflito e o mercado editorial prepara novidades sobre o assunto. A Rocco lançará Adeus à Europa, de Olivier Campagnon, um estudo que mostra o impacto da batalha nos países latino-americanos, principalmente no Brasil e na Argentina. Segundo Campagnon, a mudança na imagem europeia, outrora exemplo de civilização, levanta questões identitárias que levam a uma reformulação do nacionalismo na América Latina.

Pela Companhia das Letras, chegará às prateleiras The Sllepwalkers (ainda sem título em português), de Christopher Clark, que trata das razões que motivaram a luta armada, e The beauty and the sorrow (outro ainda sem nome em nossa língua), de Peter England, um retrato das pessoas comuns durante o combate. A Alfaguara também trará uma novidade: O bom soldado Svejk, de Jaroslav Hasek, uma comédia que flerta com o absurdo, previsto já para o primeiro semestre.

A literatura da Primeira Guerra

As editoras se aproveitam da efeméride. Contudo, ao longo desses cem anos, diversos livros já abordaram A Grande Guerra. Os dois mais comumente associados ao evento são os romances Nada de Novo no Front, de Erich Maria Remarque, e Adeus às armas, de Ernest Hemingway.

Erich Maria Remarque é o pseudônimo de Erich Paul Remark, alemão que esteve no campo de batalha. Nada de novo no front, de 1929, é protagonizado por Paul Bäumer, que se alista ao exército germânico e vai combater no oeste europeu, onde se dá conta do que é realmente a guerra: um bando de homens matando outros homens por causa de homens que jamais viram na vida. A matança é intercalada por momentos de monotonia e fome – a dificuldade em encontrar comida às vezes é grande. Quando Paul volta à cidade, surpreende-se com as pessoas que acompanham tudo de suas casas, loucas por uma triunfal vitória, bastante diferente dos soldados da linha de frente, que só querem permanecer vivos.

Hemingway também esteve no front. Recusado pelo exército de seu país, os Estados Unidos, arrumou uma vaga na Cruz Vermelha. Foi enviado à Itália, onde dirigiu ambulâncias até estilhaços de uma bomba lhe atingirem na perna, obrigando-o a retornar para casa. Da experiência nasceu Adeus às armas, que, se lançado hoje, com certeza fomentaria ainda mais a discussão sobre as metaficções. A obra, lançada no mesmo ano de Nada de novo no front, narra a história de Frederic Henry, estadunidense que vai à guerra ser piloto de ambulância e é ferido na perna, veja só. Assim como Hemingway, Frederic se apaixona em meio à barbárie. É sobre a relação do personagem com sua amada que o enredo desenrola até seu final publicado – apenas um dos 47 finais elaborados pelo escritor.

Se o cenário dessas duas obras é Primeira Guerra Mundial, em outras ela aparece de forma velada, com influência sobre o ambiente que os personagens vivem – é o caso de O grande Gatsby, clássico do estadunidense Scott Fitzgerald, lançado em 1925 e que mostra a prosperidade e o deslumbramento da elite de seu país nos anos que sucederam o conflito –, ou explicitamente, mas de maneira pontual – como em O tempo redescoberto, último volume da Em busca do tempo perdido, do francês Marcel Proust, do qual se destaca a cena do protagonista passeando por uma Paris em meio a bombardeios.

No Brasil, um dos personagens mais marcantes de nossa literatura nasceu inspirado pelo combate. Jeca Tatu, uma espécie de arquétipo caipira, apareceu primeiro em um artigo para o jornal O Estado de São Paulo em 1914, mas foi eternizado no conto “Urupês”, do livro Cidades mortas, de 1919. Quando criou o personagem, Monteiro Lobato estava revoltado com brasileiros que se preocupavam mais com a condição da Europa do que com o interior do seu próprio país.

Em Cidades mortas ainda há o conto “O espião alemão”, no qual Lobato ridiculariza quem pensava que o Brasil poderia ser alvo de exércitos estrangeiros, enquanto uma verdadeira batalha acontecia em seus rincões: a luta pela sobrevivência.

É evidente que a lista de prosas ficcionais que tratam do assunto não se esgota nesses títulos. Contudo, como se trata de um acontecimento histórico, é importante destacarmos os livros de não ficção que abordam a Grande Guerra. Com o nome nada original de A Primeira Guerra Mundial, temos obras assinadas por Michael Howard, Lawrence Sondhaus e H.P. Willmott, que trazem uma visão panorâmica do conflito. Focado no início do embate, enquanto estavam sendo decididos os rumos que influenciariam o mundo, há Canhões de agosto, de Barbara Tuchman, que alia informações históricas à narrativa literária em um trabalho que valeu o Prêmio Pulitzer de 1963 à autora.

Infelizmente, uma outra obra histórica construída em forma de narrativa ainda não foi publicada no Brasil. Trata-se de Der Kleine Frieden im Grossen Krieg (algo como Um pouco de paz na Grande Guerra), de Michael Jürgs, que refaz a trégua de quase uma semana entre soldados inimigos para celebrar o natal, enterrar seus mortos, jogar bola e até mesmo trocar alguns presentes. Fosse ficção, provavelmente soaria piegas.

Já com uma abordagem diferente, que dá luz às pessoas comuns, que vivenciaram e sofreram o período, há os relatos contidos em Vozes esquecidas da Primeira Guerra Mundial, trabalho de Max Arthur em parceria com o Museu Imperial de Guerra britânico.

A literatura na Primeira Guerra

Apesar dos exércitos, invasões, balas e mortes, novidades literárias continuavam aparecendo durante a Grande Guerra. E com um detalhe importante: o conflito, de certa forma, influenciou a que, para muitos, é a santíssima trindade literária do século XX: Franz Kafka, Marcel Proust e James Joyce, que, após uma busca de década por quem o editasse, lançou o livro de contos Dublinenses, uma de suas obras mais importantes, poucos dias antes de soarem os primeiros tiros. Nele, o escritor traça um retrato da vida dos habitantes de Dublin e apresenta sinais do estilo que radicalizaria em Ulysses. É de se imaginar que algumas pessoas deixassem os assuntos bélicos de lado e preferissem discutir as histórias do irlandês.

Outro título que deve ter sido posto em pauta entre uma opinião ou outra sobre o conflito é A metamorfose, um dos trabalhos mais representativos de Kafka, lançado em 1915. A saga do homem-inseto Samsa foi escrita após o início da Primeira Guerra Mundial, que impactou tanto na própria obra – o pessimismo da época, as questões que a modernidade trazia, a desesperança – quanto no autor tcheco, que passava por uma crise emocional agravada pelos episódios de matança.

Completando o trio sacro, já mostramos como a embate aparece no último volume de Em busca do tempo perdido, de Proust, mas faltou dizer que a publicação da septologia foi interrompida por conta da luta entre países. No caminho de Swan chega às livrarias em 1913, enquanto À sombra das raparigas em flor sai apenas em 1919. Apesar da conhecida morosidade da escrita do francês, o lapso entre publicações foi um motivo externo ao autor. A guerra também aparece de forma velada em Em busca do tempo perdido, afinal, não haveria como retratar a sociedade de sua época sem levar em conta os efeitos que ela provocou.

Apesar de distantes, não escapamos de novidades que flertam ou se agarram à confusão europeia. Lima Barreto, por exemplo, publica Numa e a ninfa e a versão em livro de O triste fim de Policarpo Quaresma durante os anos de conflito. Porém, é na poesia brasileira que o combate exerceu uma influência mais direta, em autores dos mais importantes para o movimento modernista no país.

Manuel Bandeira era tuberculoso, por isso, em 1913, mudou-se para a Suíça – iria se tratar por lá. Iria, caso não tivesse que retornar ao Brasil no ano seguinte, por conta do início das animosidades. De volta ao seu país natal, publica em 1917 A cinza das horas, sua primeira obra, que sai com uma edição de 200 exemplares custeados pelo autor. Mais evidente é a influência da Grande Guerra em Mário de Andrade, que também em 1917 publicou, sob o pseudônimo de Mario Sobral, Há uma gota de sangue em casa poema, livro inspirado pelas barbáries da batalha.

E tudo isso começou, de certa forma, com os tiros de Gavrilo Princip.

Texto publicado originalmente na edição XX suplemento literário Pernambuco.

Ps: Desculpem pelo jogo de negrito e não-negrito, mas há algum tempo venho apanhando do WordPress.

 

 

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Por toda a equipe

Recentemente, eu, Rodrigo, entrevistei o escritor Antonio Lino para uma matéria que escrevi para a Revista da Cultura. Como o texto solicitado era pequeno, tive que descartar quase tudo que o entrevistado disse, resultando na famosa e lamentável pescada de aspas. Contudo, para que o conteúdo da boa entrevista não se perca, resolvi expandi-la com a colaboração de toda a equipe aqui do blog,

Antonio Lino é um dos tipos raros que não deixa que a vontade de cair na estrada sem destino certo e nem data para voltar fique apenas nos sonhos. Sem medo de sumir um pouco do mundo onde vivia, largou São Paulo para trás e foi explorar os confins do Brasil em uma Kombi, que se transformou em sua casa. Da aventura nasceu o Encaramujado, um livro que conta parte de tudo o que o escritor viveu ao longo da viagem aos interiores – do país e de si mesmo. Cuidado, leitor, a conversa abaixo deixará você com um imenso desejo de cometer alguma semelhante saudável loucura.

Canto dos Livros: Qual foi o seu maior objetivo ao escrever o Encaramujado?

Antonio Lino: Escrevendo eu colocava alguma ordem na bagunça de sentimentos que a viagem me provocava. E ao mesmo tempo em que a viagem ia definindo o livro, o contrário também acontecia: o livro ia definindo a viagem. Esses dias, li uma frase do Sérgio Sant’Anna com a qual me identifiquei muito. Ele dizia: “Às vezes até seleciono aquilo que vou viver em função do que desejo escrever”. Sendo assim, não sei bem se foi o maior, mas creio que um dos grandes objetivos do Encaramujado, desde o começo, foi me servir como uma espécie de cajado, que me ajudou muito a firmar meus movimentos, enquanto eu vivia os abalos intensos da viagem.

CL: Como você vê a literatura de viagem no Brasil e o que te motivou a fazer algo do gênero? Foi inspirado por algum autor em particular?

AL: Para além dos relatos de aventura, a literatura de viagem é um gênero bastante amplo, e um tanto difícil de enquadrar. Talvez nem seja propriamente um gênero, mas um “transgênero”, digamos assim, pois flerta com a ficção, com o ensaio, com a crônica, com a reportagem, com a poesia… Por isso, não me arrisco a fazer uma análise da literatura de viagem no Brasil, seria muito pretensioso da minha parte. Mas tenho minhas preferências, claro. No que se refere aos relatos não ficcionais, por exemplo, já li muitos livros que me pareceram descritivos demais, uma coleção de detalhes, diários repletos de pormenores. Acho isso enfadonho. Não me interessa saber o que o cara comeu no café-da-manhã, se ele escovou os dentes depois, se parou pra abastecer o carro… Nesse sentido, em geral, prefiro os escritores que viajam aos viajantes que escrevem. E especificamente em relação ao Encaramujado, um autor que me inspirou muito foi o Julio Cortázar. Na década de 80, ele viajou numa Kombi vermelha pela França, com a sua esposa de então, a Carol Dunlop. A partir dessa experiência, juntos, os dois escreveram Os Autonautas da Cosmopista. Além da qualidade literária (e da referência à Kombi, claro), o que me fascina bastante nesse livro é a destreza poética dos autores, que transformaram uma viagem tão aparentemente ordinária (o casal passou 30 dias na mesma estrada, encostando em todos os pontos de parada que encontravam pelo acostamento) num relato incrivelmente sensível e criativo. Para mim, esse é o ponto: nos livros sobre viagem, é o olhar do viajante, mais do que a viagem em si, o que realmente me inspira e me interessa.

CL: Como você se organizou para fazer essa viagem? Estabeleceu datas, orçamentos, roteiro geográfico…?

AL: Entre a decisão de viajar e a saída, passei cerca de um ano cuidando dos preparativos. Na verdade, o mais difícil mesmo foi me desligar das relações e compromissos que me seguravam em São Paulo. O resto foi cair na estrada. Eu tinha amigos espalhados pelo país que eu queria visitar e pretendia também conhecer alguns festejos tradicionais da cultura popular brasileira. Estive por exemplo na Festa do Divino, no Maranhão, num festival do povo Yawanawa [foto], no Acre, num Encontro dos Povos do Cerrado, em Goiás… mas quando eu não ouvia nenhuma batucada por perto, geralmente os acasos é que me guiavam. Na maior parte do tempo, viajei sem lugar certo para ir nem hora marcada para voltar.

CL: Um projeto como o Encaramujado exige certo nível de desapego afetivo, não?. Por outro lado, deve proporcionar uma amplitude imensurável na capacidade de lidar e compreender gente diferente. Após a viagem, o que mudou no jeito com que você lida com as pessoas? É mais fácil ou mais difícil “se apegar” ou ter afinidade com outra pessoa? Por quê?

AL: Além do desprendimento inicial, na saída, quando é preciso se separar da família e dos amigos, durante a viagem também se pratica continuamente esse desapego afetivo em relação às pessoas que cruzam seu caminho na estrada. De tanto se separar dos outros, o viajante acaba aprendendo melhor como estar junto. Parece um paradoxo, mas as despedidas ensinam algo sobre os encontros. E o que sinto depois dessa experiência é que o desapego não precisa se confundir com uma certa frieza, ou até desdém, no trato com a vida, não é isso. Acho que o cuidado todo é para não cultivar falsas sensações de posse e controle em relação a alguém. Sem esse sentimento de “propriedade particular”, as amizades e relações amorosas tendem a ganhar uma profundidade leve, natural. Nesse sentido, sinto que o desapego afetivo, em vez de me afastar das pessoas, na verdade, pode até fortalecer as minhas relações.

CL: Como foi passar as experiências de uma viagem pelo Brasil em uma Kombi para um livro?

AL: Boa parte dos textos do Encaramujado foi manuscrita na estrada. Era uma cena muito comum me ver por aí, nos banquinhos de praça do interior, com o bloquinho de anotações na mão, escrevendo, escrevendo. De modo que o livro e a viagem foram ganhando forma e conteúdo juntos. Nesse sentido, não sei identificar muito bem quando foi que a viagem virou livro e como foi essa passagem porque, dentro de mim, o escritor e o viajante são inseparáveis, convivem como um só.

CL: Você se preocupou mais em fazer com que o leitor também viajasse e tivesse suas próprias sensações ou se sentisse em sua pele, vivendo os sentimentos que você viveu?

AL: Me fascina mais pensar que a imaginação dos leitores reinventa a minha viagem. Por isso, quando alguém me escreve para compartilhar suas impressões em relação ao Encaramujado, é como se as posições se invertessem: o leitor assume o volante da Kombi e eu vou no banco do passageiro, admirando uma viagem que já não é mais minha. Em vez da repetição da minha experiência, necessariamente pessoal e intransferível, acho que o livro oferece janelas. E cada leitor, à sua maneira, acaba reconhecendo ali suas próprias paisagens. É o que eu espero.

CL: O Brasil não é um país muito amigável quando se trata de estradas. Houve algum episódio em que você chegou a temer pela vida de sua Kombi (e sua Kombi a temer pela vida do motorista)?

AL: Na verdade, ao longo da viagem, até que fiquei com uma impressão positiva sobre a qualidade da malha rodoviária brasileira. É claro, percorri alguns trechos vergonhosos (no Piauí, por exemplo, me lembro de uma placa pintada à mão na beira da estrada, anunciando aos motoristas, ao mesmo tempo como advertência e como protesto, que viriam pela frente “86 km de desprezo e abandono”. Dali em diante, confirmando a placa, a pista se transformou numa sucessão de crateras). Me enrosquei em alguns atoleiros também, no Jalapão e na Chapada dos Guimarães (mas aí, foi mais por imprudência do motorista, que colocou a Kombi em território exclusivo a 4×4). O único episódio mais grave não teve relação com a qualidade da estrada: no Maranhão, me envolvi num acidente com dois ciclistas. A Kombi derrapou e tombou na pista. Todos ficaram bem, mas o carro teve que ser rebocado para o conserto. Nos cinco meses seguintes, continuei a viagem a pé.

CL: Se o Encaramujado tivesse sido escrito por outra pessoa, o quão diferente você acha que ele seria?

AL: Já dizia o velho Heráclito, aquela história de que um homem não se banha duas vezes no mesmo rio. Da mesma forma, um livro não se repete, nem mesmo pela pena do próprio autor, o que dirá por outra pessoa. O Encaramujado é obra de quem eu fui naquele momento. Nunca mais vai acontecer.

CL: Toda viagem pode ser uma oportunidade de autoconhecimento. Que Antonio Lino você encontrou pelos confins do Brasil?

AL: Durante a viagem, tive a oportunidade de conviver com vários Antonios. Fui agricultor, peão-de-obra, pescador, artista mambembe, alpinista, e muito mais. Essa possibilidade de me experimentar, de me descobrir plural e conhecer um pouco melhor esse monte de gente dentro de mim, foi sem dúvida um dos grandes baratos da viagem. Por isso, acabei preferindo não ficar com nenhum Antonio em especial. Na verdade, para mim, esse exercício de autoconhecimento é fascinante justamente pela contínua perdição de si mesmo. Mais do que o encontro definitivo, acho que o movimento da busca combina mais com um viajante.

CL: De tudo o que viu pelo caminho, o que você encontrou de mais diferente de você mesmo? Se tivesse de escolher, hoje, uma outra vida, qual das tantas retratadas no livro você escolheria? Por quê?

AL: Por mais interessantes e diferentes que tenham sido as experiências que vivi durante a viagem, tenho escolhido não estacionar em vida nenhuma. Isso não quer dizer viver superficialmente, à deriva, do tipo “pra onde me chamar eu vou”. É, na verdade, uma tentativa de se manter aberto, receptivo às novidades. E um cuidado também para não alimentar muita nostalgia da estrada, como se minha felicidade só fosse possível viajando. Quando começo a me sentir meio entediado, lembro de uma frase do Rilke: “Caso o seu cotidiano lhe pareça pobre, não reclame dele, reclame de si mesmo, diga para si mesmo que não é poeta o bastante para evocar suas riquezas…”. Atualmente, mesmo “parado”, morando num “imóvel”, tenho tentado seguir essa recomendação do Rilke: ao invés de escolher uma outra vida, mais poética, em algum lugar distante, no passado, procuro encontrar a poesia aqui mesmo, na vida que eu tenho hoje.

CL: Qual história inédita dos bastidores da viagem/ produção do Encaramujado poderia contar para nós?

AL: Tem uma historinha que acabou não entrando no livro, que aconteceu em São Luiz do Maranhão. Como eu disse, depois do acidente, segui viagem sem a Kombi. Depois de cinco meses a pé, rodando pela Amazônia, voltei para pegar o carro na oficina. Imagine, a Kombi parada aquele tempo todo, estava toda suja, uma poeira danada por dentro. Então estacionei em frente a uma pensãozinha em São Luiz e comecei a arrumação. Na calçada, fui organizando o que eu ia jogar fora, dentro de uma caixa de papelão. Lá pelas tantas, a caixa já cheia de cacarecos, chega um mendigo, conversa comigo e me pede pra fuçar aquele meu lixo. Deixo ele lá, mexendo no que eu havia descartado. E quando ele se despede e vai embora, o que me surpreende é que, entre tudo o que estava ali, ele escolhera justamente umas fotos de alguns amigos e da minha família, que eu havia jogado fora porque estavam já muito amassadas e molhadas e além do mais, eu tinha as cópias digitais. Aquilo me tocou profundamente. Um misto de compaixão pelo sujeito, já que aquele gesto me pareceu o cúmulo da solidão. E ao mesmo tempo, um incômodo, como se ele estivesse invadindo a minha vida ao levar aquelas fotografias. Até comecei a escrever um conto, baseado nessa história. Mas até hoje, ainda não acabei.

CL: O que fica de mais gratificante numa experiência como essa?

AL: Além de todos os aprendizados colhidos na estrada, sem dúvida, uma das maiores recompensas da viagem é essa possibilidade de compartilhar histórias com outras pessoas através do livro. Acontece de me escrevem contando das inspirações de um ou outro texto do Encaramujado, e isso me fascina, porque, de certa forma, isso quer dizer que minha Kombi nunca parou. Na imaginação de cada leitor, a viagem segue acontecendo.

CL: Como tem sido a aceitação do livro pelo público?

AL: Seis meses depois do lançamento, a primeira tiragem, de mil exemplares, já vai se esgotando, o que é um bom feito para um livro independente, dentro dos padrões do mercado editorial brasileiro. Entre algumas reportagens e entrevistas, que tem ajudado bastante na divulgação, sinto o boca-a-boca funcionando, muita gente comprando por indicação, ou que pegou o livro emprestado do amigo… Graças ao generoso empurrão dos leitores, posso dizer que o Encaramujado tem conseguido embalar bastante bem.

CL: A publicação de livros hoje, ainda que não seja acessível a qualquer um, é mais fácil do que nunca, já que existem impressões por demanda, editoras especializadas, dentre outras alternativas. O que isso implica para os autores?

AL: Mais e melhores oportunidades de ser lido, certamente. E mais responsabilidade também. Porque se começam a aparecer novas possibilidades de publicação (entre elas, a auto-publicação), o autor não pode mais se colocar naquela posição resignada, de “gênio incompreendido”, à espera de que alguma editora reconheça seu talento e venha bater à sua porta querendo publicá-lo. Me parece (como um palpite, quem pode saber?) que nós escritores precisaremos cada vez menos de qualquer tipo de chancela institucional para publicar nossos textos e estabelecer um contato direto com os leitores. Isso pode afetar profundamente as regras do mercado editorial e a forma como é comercializada a literatura. Vejo essa possibilidade com os meus melhores olhos.

CL: Você se sente “preso” ao tema de Literatura de Viagem? Quais são seus próximos projetos?

AL: Depois dessa viagem pelo Brasil que está contada no Encaramujado, eu já experimentei uma outra aventura: entre 2009 e 2010, andei dez meses pela África. Dessa vez, sem a Kombi. Fiquei dois meses num campo de refugiados em Gana e depois morei sete meses na Libéria, um pequeno país que tenta se recuperar de quatorze anos de guerra civil. Atualmente, estou trabalhando no meu próximo livro, que contará algumas das histórias que ouvi e vivi lá na África. Apesar de ser recorrente nos meus textos, não me sinto preso ao tema das viagens não, de maneira alguma. Muito pelo contrário: misturando viagens com literatura, o que eu sinto é liberdade.

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