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Posts Tagged ‘Christopher Vogler’

nelsonNão é raro alguém enxergar um escritor de fantasia como um sonhador, que tende a ver implicações metafísicas em todos os cantos. Claro que muitos autores justificam esse estereótipo, mas não é o caso de Nelson Magrini. Engenheiro Mecânico, estudioso e pesquisador em Física, com ênfase em Mecânica Quântica e Cosmologia, professor e consultor de Gestão Empresarial e Logística, exerce carreira profissional no Brasil e nos países do Mercosul. Responsável por projetos de inclusão e cidadania, agente literário, revisor, copidesque e autor de livros como Anjo a face do mal, Ceifadores – Anjo a face do mal II, e Relâmpagos de Sangue, além de participante de coletâneas de contos, é um escritor estabelecido no seu segmento. Escreve (preferencialmente) fantasia, mas, na entrevista que concedeu ao Canto dos Livros, mostra pés solidamente calcados ao chão e uma lógica que nada tem de fantasiosa. 

Canto dos Livros: Você buscou na escrita uma alternativa às consultorias que prestava como engenheiro. Dez anos depois dessa mudança profissional, é possível dizer que a estratégia compensou? Por quais motivos?

Nelson Magrini: Antes de tudo, meu agradecimento a toda equipe do Canto dos Livros por esta oportunidade. Em relação à questão, é necessário entender que essa alternativa sempre foi vista em longo prazo. Assim, treze anos depois que decidi me tornar escritor e nove anos depois de ter publicado meu primeiro livro, Anjo – a face do mal, a estratégia funcionou no sentido de ser um escritor relativamente conhecido, de fazer parte da história da literatura fantástica nacional e, mesmo, de ser um dos expoentes da fase, digamos, contemporânea ou atual, de ter contribuído para esse novo início e desenvolvimento. Contudo, em se tratando de ser um “autor de sucesso”, creio que falta me tornar ainda mais conhecido, abrangendo, desta feita, o grande público e, é claro, ser financeiramente recompensador. Apesar de todas as batalhas, lutas e triunfos dos mais diversos, o sonho de viver exclusivamente de escrever livros ainda permanece por alcançar. Mas seguramente não foi abandonado.

CL: O raciocínio lógico da engenharia influencia na escrita dos livros? 

NM: Tenho certeza que sim, muito embora possa passar despercebido para mim. Penso que até como se manifesta minha criatividade é de uma maneira lógica, embora tudo comece com um insight, normalmente uma imagem ou cena. E apesar de não gostar de traçar linhas gerais e deixar a imaginação correr solta, ainda assim vejo uma estruturação lógica por detrás de meus projetos.

CL: Você é estudioso e pesquisador em Mecânica Quântica e Cosmologia. Há um movimento que utiliza a mecânica quântica e algumas de suas particularidades para iluminar questões metafísicas, como na obra do indiano Amit Goswami e outros, que puderam ser vistos no filme Quem somos nós?. Já o americano Brian Greene enfatiza mais o estudo da mecânica quântica para aplicação em teorias científicas. Para qual lado pende os seus estudos?

NM: Eu pendo totalmente para o único lado verdadeiro da Mecânica Quântica (MQ), ou seja, o lado de Brian Greene. De fato, até existe possibilidades de se utilizar a MQ para clarear ou nortear certas questões metafísicas, mas estas se encontram no domínio da Filosofia, tipo a natureza da realidade, onde se discute muito o Realismo, o que ele significa, se é possível mantê-lo como visão de mundo, etc. Contudo, sou bastante enfático e contrário ao que Goswami e outros fazem, onde a MQ é chamada a suportar qualquer tipo de crendice sem nenhum fundamento científico. Aliás, a MQ jamais deu qualquer validade a questões espirituais e similares, embora um número bem grande de pessoas pareça necessitar que algo assim ocorra, como sustentando seus pensamentos e fé. Nesse sentido, Goswami e outros são apenas pessoas que escrevem tendo como alvo um público bastante específico, onde o intuito do lucro fácil é mais que claro. Perceba que, apesar da propaganda que os meios interessados fazem, Goswani, por exemplo, apesar de ser um físico, nunca publicou um trabalho sequer em Física de verdade e que fosse pioneiro. Apesar do marketing de que ele “calou os críticos por meio de várias publicações técnicas a respeito de suas teorias”, a pergunta é: quais publicações técnicas? Chamar seus livros de publicações técnicas é uma piada! Goswami sequer responde ao simples desafio de mostrar nas equações da MQ quais termos representam aquilo que ele afirma. Por que não o faz? Porque simplesmente os termos não representam nada do que ele prega, simples assim.

Vale lembrar que livros desse tipo, ou filmes como Quem somos nós?, são conhecidos no meio científico como charlatanices, e é uma pena que poucos físicos sérios tenham tempo para expor e denunciar esse tipo de divulgação.

CL: Como você enxerga a receptividade dos jovens para as narrativas fantásticas hoje em dia, quando a aridez do mundo adulto parece contagiá-los de forma tão prematura?

NM: Penso que a receptividade ocorra exatamente pelo fato do mundo adulto ser tão árido. Apesar do contágio prematuro, cada vez mais enfático, existe no jovem (e não só) aquela vontade de poder desligar do mundo real, mesmo que por algum tempo, onde a imaginação volta a correr solta. Possivelmente, em uma sociedade cada vez mais dura, a fuga momentânea venha a ser vista como mais um modo das pessoas combaterem o stress. Talvez, em um futuro não muito distante, pessoas com tal perfil sejam vistas como portadores de uma habilidade valiosa. Algo assim não me espantaria.

CL: É correto afirmar que sua obra é segmentada ao nicho de fantasia?

NM: De modo geral, sim, embora o termo mais abrangente seja literatura fantástica. Eu escrevo, basicamente, tramas de mistério, suspense e terror, sempre incorporando um ou mais elementos fantásticos. Contudo, embora notadamente uma literatura de entretenimento, sempre que possível e dentro do contexto, ou seja, pertinente à trama, gosto de fazer meus leitores pensarem, questionarem, e tal pode se dar em relação a temas bem mais realistas. Mas no fundo, como sempre digo, minhas histórias são para divertir, para que os leitores passem umas boas horas vivenciando o mistério e o suspense, e, se possível, que pulem de susto!

CL: O livro Anjo – a face do mal tem personagens pertencentes a diversas mitologias, inclusive do panteão afro-brasileiro. Há alguma intenção ou mensagem na utilização deles?

NM: Não necessariamente uma mensagem, mas a intenção foi exatamente utilizar uma mitologia extremamente rica e, por que não dizer, famosa no Brasil, e que nunca foi, ou é muito pouco explorada em livros de aventura e entretenimento. O mais interessante é que, ao se pesquisar ou estudar a respeito desse panteão, deparamo-nos com personagens (entidades) com personalidade própria e que podem ser muito explorados. Curiosamente, recebi alguns comentários negativos em relação ao uso desses personagens, comentários que transpareciam certo preconceito, como se fosse normal se falar em anjos ou mesmo demônios, mas que não era de bom tom tratar de “entidades” usadas em macumba! Mas foram muito poucos, e penso que a maioria dos leitores gostou da maneira como edifiquei tais personagens.

CL: O deus retratado na obra lembra muito o demiurgo de que fala a gnose e presente em alguns dos evangelhos apócrifos. Quais leituras fez antes de começar a escrever?

NM: Curiosamente, em relação a deus, nenhuma. Mesmo em relação a Lúcifer, um personagem marcante da obra, não fiz nenhuma pesquisa específica, muito embora, ao longo de anos, já havia lido muito a respeito, e até mesmo participado de um grupo de estudo sobre o assunto, De qualquer modo, antes mesmo de iniciar o projeto, eu já tinha muito bem definido as características de tais personagens, e se tais características são similares às apresentadas em determinadas doutrinas ou linhas de pensamento, isso se deve a mera coincidência.

CL: Ainda sobre Anjo – a face do mal, o protagonista da obra, Lúcifer, é apresentado de forma bastante original e guarda poucas semelhanças com a mitologia cristã. Dois autores consagrados fizeram o mesmo com o personagem: Neil Gaiman, em Sandman, e Saramago em, O Evangelho segundo Jesus Cristo. Eles o influenciaram? Quais autores o inspiram?

NM: Em se tratando de Lúcifer, eu já conhecia e admirava o personagem de Gaiman, mas não tive contato com o de Saramago. Independente disso, eu já tinha a minha visão muito bem estruturada e já sabia o que queria de meu personagem, então não penso que tive qualquer influência literária mais direta.

Já em relação a autores que me inspiram, são muitos, desde Isaac Asimov e Arthur Clark, quando lia muita ficção-científica, até mais contundentemente Stephen King e Dean Kootz, mestres do terror moderno, terreno que mais gosto de trabalhar. Mas vale lembrar que esses são apenas alguns nomes. Eu devorei tantos livros durante minha vida inteira que seguramente muitos me influenciaram, mesmo que não me recorde dos nomes hoje em dia.

CL: Como seu trabalho conta com influências de narrativas mitológicas, você chega a se inspirar na estrutura da Jornada do Herói, conceituada por Joseph Campbell e, mais adiante, remodelada por Christopher Vogler?

NM: Pode até ser que em parte sim, mas é totalmente inconsciente, ou seja, não é algo intencional. Penso que muito da Jornada do Herói já se instaurou na mente de qualquer leitor voraz, exatamente por devorar milhares de tramas onde tal característica é destacada, e seguramente, isso resgata à mente quando se compõe uma história. Mas nunca me preocupei com tal questão a ponto de estudar a respeito e aplicá-la de maneira consciente e proposital em meus textos.

CL: Que tipo de retorno tem obtido dos fãs e da crítica com respeito a seu trabalho?

NM: Os fãs, de modo geral, me trazem uma resposta muito gratificante. Críticas ou comentários negativos são bastante raros, tendo a esmagadora maioria dos leitores gostado muito de meus livros. Em relação à crítica, seja em blogs ou veículos mais especializados, também sempre foram muito positivas, o que me mostra que estou no caminho certo.

CL: Como você observa a relação entre a literatura fantástica e a crítica literária?

NM: Se considerarmos como crítica literária a chamada crítica especializada ou profissional, a relação não é nada boa, com raras exceções, principalmente se nos restringirmos aos autores nacionais. Aliás, em relação à esmagadora maioria desses últimos, nem dá para falar que os críticos falam mal; eles simplesmente os ignoram. Até entendo que ainda existe muitos autores amadores nesse segmento, mas também tem muita gente boa que já está presente há anos, têm presença no meio, inúmeros fãs e, ainda assim, é praticamente nula a atenção da crítica.

CL: O cenário de literatura de fantasia no Brasil está consolidado?

NM: Sem dúvida. É um nicho que não para de crescer em termos de leitores, bem como, onde a todo mês surgem novos nomes. Obviamente, ele necessita uma maior estruturação e atenção por partes das editoras, principalmente as chamadas grandes, com destacada penetração no mercado.

CL: Qual influência autores estrangeiros, como Anne Rice e Stephanie Meyer, exercem sobre o mercado nacional?

NM: Autores estrangeiros de sucesso seguramente influenciaram e influenciam toda uma geração, ainda mais com o aporte de marketing com que tais títulos chegam ao país. Antes mesmo de ser consumido pelos leitores, estes já são despertados para o novo Big 1 que está chegando. Uma vez que, na sua esmagadora maioria, os novos (assim como os velhos) escritores são leitores vorazes e compulsivos, é óbvio que estes terão uma influência muito grande, não só das duas escritoras citadas, mas de vários outros. Como qualquer influência, se o novo escritor não souber dosar e procurar seu próprio estilo e caminho, ela poderá vir a ser muito negativa.

CL: Indo um pouco além, na sua opinião, qual papel a fantasia tem hoje no mundo?

NM: Penso que o mesmo que sempre teve: divertir as pessoas e levá-las a um mundo de faz de conta por um tempo. Talvez, o que se vê hoje em dia seja uma maior e mais rápida disseminação de determinados universos de fantasia, que acabam virando moda, com milhares de seguidores. Nesse sentido, pode-se ter a impressão de que a fantasia tem uma maior influência na moldagem do mundo e, mesmo, de certos convívios sociais, mas creio que a maioria que curte tais aventuras saiba diferenciar entre a realidade e o imaginário. Existem extremos? Sem dúvida, mas não creio que sejam percentualmente representativos.

Como já comentei, vivenciar por um período a literatura de fantasia pode vir a ser encarada, em um futuro não tão distante, como uma forma de se combater o stress de uma sociedade cada vez mais competitiva e exigente. Por fim, vale lembrar que a indústria de entretenimento fatura bilhões de dólares por ano. Seguramente, isso diz alguma coisa sobre a natureza humana.

CL: Em entrevista ao blog Fontes da ficção você fala dos problemas que acontecem em diversos setores da cadeia editorial. Como autor, qual a melhor maneira de ajudar a solucionar esses ou parte desses problemas e alavancar as vendas de um livro?

NM: Taí uma muito boa pergunta , mas de difícil resposta. O Brasil não é diferente de outros países onde, uma editora, assim como qualquer empresa, visa e necessita obter lucro para prosperar e se manter no mercado. Contudo, aqui falta uma função que lá fora é executada em larga escala, seja através de agentes literários (refiro-me a profissionais sérios e capacitados, aquele que investe no talento, uma figura que faz extrema falta por aqui) ou dos próprios editores. No geral, o editor nacional ou não aposta no escritor brasileiro ou aposta pouco. E pior, se contenta com pouco. Se um autor vende 3 mil, 5 mil cópias de um título, e esse é seu montante constante a cada novo lançamento, está ótimo (não me refiro a autores que já se consagraram e conseguem, com o passar do tempo, vender bem acima desses números). Eles investem um tanto nesse nome e obtém um certo retorno. Vale dizer que 3 ou 5 mil exemplares de um título está extremamente acima do que a maioria vende em um lançamento, cujas tiragens variam de mil a 3 mil exemplares para editoras que não trabalham sob demanda.

Contudo, falta aquele que verá um autor com uma venda pobre, mas que vê o talento que ele possui, ou seja, que enxerga que, se (bem) trabalhando, ele venderá 10, 15, 20, 50 mil exemplares ou mais. Porém, para isso, além de se ler a obra desse autor promissor, tem-se que investir, e aí a coisa complica. O que falta aqui é esse apostador no talento, que esteja disposto, como em qualquer tipo de negócio, diga-se de passagem, a colocar dinheiro para ganhar muito mais. Um autor bom vende bem; torne-o muito mais conhecido que ele venderá muito mais. Basta um conhecimento básico de marketing para saber que essa relação não é linear. Se fosse, o mundo jamais seria o que é hoje e jamais se investiriam bilhões nesse campo.

Como eu disse, é uma pergunta bastante complexa de se responder e o descrito acima é apenas um ponto. Seguramente, existem muitos outros.

CL: Na entrevista acima citada você também diz não possuir nenhuma influência literária nacional. Continua não tendo? Por quê?

NM: Basta ver as influências que citei acima. Eu lia todos eles na minha adolescência e nos anos seguintes. Naquela época, dentro do segmento que eu adorava, ficção-científica e, depois, terror, inexistiam autores nacionais ou eram desconhecidos. Lembro-me de ter lido um ou dois contos do André Carneiro, mas nem me recordo onde. Se hoje, o autor nacional de literatura fantástica tem como divulgar seu trabalho na Internet e ficar mais conhecido do público, naquela época era praticamente impossível. Pelo menos, eu nunca ouvi falar de nomes que publicavam nessa linha. Pensando bem, imagino que tenha até lido autores brasileiros nesse segmento, mas eles (ou as editoras) publicavam com pseudônimos estrangeiros.

Então, nesse cenário, nunca me identifiquei com algum nome que viria a acompanhar, como Stephen King, por exemplo, e que seguramente iria me influenciar. E, de fato, continuo não tendo, talvez porque agora sejamos todos contemporâneos. Isso não significa que não possa aparecer algum autor nacional e que venha a exercer influência em minhas obras futuras, mas por enquanto não existe.

CL: O que é um livro de sucesso?

NM: Um livro de sucesso é aquele que apresenta uma trama instigante, daquelas que prende o leitor da primeira à última página, que o faz pensar em determinados momentos da história, que o faz sentir saudades dos personagens e lamentar o término do livro. Também precisa ser bem escrito, com um português, no mínimo, elegante, variado. Um livro de sucesso tem tudo isso, mas isso tudo, por si só, não garante sucesso algum. Ele também tem de ser bem trabalhado pela editora, o autor ser promovido, seja por esforço próprio, como pela editora, em um esquema que gere real penetração no mundo dos leitores, tornando o título conhecido, bem como seu autor. Vale lembrar que um trabalho bem feito faz a editora ser reconhecida, o que leva leitores a observar com mais cuidado os títulos de seu catálogo.

Em se conseguindo isso, o retorno é garantido.

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Edvaldo Pereira Lima é uma daquelas pessoas muito complicadas de se definir. Seu currículo, ainda que condensado, abrange páginas e mais páginas, mas vamos tentar dar uma ideia de quem ele é. Professor aposentado da Escola de Comunicação e Artes da USP, é Doutor em Ciências da Comunicação pela mesma universidade e realizou o pós-doutorado em Educação pela Universidade de Toronto, no Canadá. Também deu aulas como professor-visitante nas universidades de Florença, na Itália, e Londres, na Inglaterra. É co-fundador da Academia Brasileira de Jornalismo Literário, onde ainda ministra aulas.

Ed, como costuma ser chamado pelos conhecidos, foca boa parte de suas pesquisas nas narrativas de não-ficção, mas costuma ir além do convencional, propondo integrações multidisciplinares ao jornalismo.  Já escreveu diversos livros, dentre eles Páginas Ampliadas – o livro-reportagem como extensão do jornalismo e da literatura, O que é livro-reportagem, Colômbia Espelho América, Aytorn Senna: o guerreiro de aquário e Escrita total. Recentemente, escreveu o capítulo sobre o Brasil do livro Literary Journalism around the Globe.

Nesta conversa para o Canto dos Livros, Ed fala sobre Jornalismo Literário (ou simplesmente JL), o poder das histórias edificantes e como a falta delas afeta o ser humano, mitologia, física quântica, olhar holístico sobre o mundo e alguns outros assuntos, como uma paixão de adolescente que levou para o mundo profissional.

Canto dos Livros: É constante o aumento de livros de não ficção nas livrarias. O que isso significa? As pessoas estão perdendo o interesse pela ficção?

Edvaldo Pereira Lima: Não sei se estão perdendo o gosto pela ficção, mas é fato que os livros de não ficção conquistaram nos anos mais recentes um lugar especial na produção das editoras, nas prateleiras das livrarias e no gosto do leitor.  Talvez parte desses leitores também leia ficção, enquanto uma parcela significativa (da qual fazem parte  leitores que antes não tinham o  hábito de ler, talvez) escolhe particularmente a não ficção.  De qualquer modo, o fato demonstra a maturidade do mercado editorial de livros, pelo menos nos grandes centros urbanos do país. Esse público encontra nos livros de não ficção abordagens exclusivamente disponíveis em livros, retratando distintos aspectos da vida real, quanto linhas temáticas de algum modo tratado por outras mídias, mas sem a longa duração e – às vezes – o aprofundamento desejado.

CL: Quais as boas novidades que apareceram no Jornalismo Literário nos últimos anos?

EPL: No caso brasileiro, o que merece registro é a continuação da produção de livros-reportagem em volume respeitável, sejam traduções de obras assinadas por autores internacionais, sejam trabalhos de escritores nacionais.  Alguns desses títulos apresentam qualidade narrativa considerável.  É o caso, recentemente, de Os Últimos Soldados da Guerra Fria,  de Fernando Morais, publicado pela Companhia das Letras. Trata-se de uma saborosa e competente narrativa da história algo que tragicômica de espiões cubanos que se infiltram no movimento anti-castrista dos Estados Unidos.

CL: Recentemente foi publicado o livro Literary Journalism around the Globe, cujo capítulo sobre o Brasil é de sua autoria. O Brasil tem alcançado seus próprios traços no Jornalismo Literário? 

EPL: Sim, há  características peculiares que marcam a produção do jornalismo literário por autores brasileiros. Nem sempre a precisão é tão meticulosa como se vê na produção norte-americana, por exemplo. Em compensação, o estilo é às vezes algo mais esteticamente livre,  como nas reportagens de Eliane Brum, ou apresentam um tom descontraído, quase como uma conversa entre compadres, como se percebe em textos de José Hamilton Ribeiro, por exemplo.  Participar deste livro – lançado nos Estados Unidos em 2011 pela University of Massachusetts Press, por iniciativa da International Association for Literary Journalism Studies, foi uma honra, contribuindo para divulgar internacionalmente os trabalhos pioneiros de Euclides da Cunha e João do Rio, assim como a fase exuberante da revista Realidade e do Jornal da Tarde na década de 1960. O livro, por sinal, pode ser comprado no Brasil através dos serviços de importação de grandes livrarias, como a Cultura, ou por meio da Amazon, na Internet.

CL: Dentro do JL, o que é inspiração? Você acredita no famoso 99% de transpiração e 1% de inspiração? O que você faz para conseguir esse bendito 1%?

EPL: Esses duas marcas da produção do JL geralmente atuam juntas.  Há um movimento de esforço e trabalho duro do autor – especialmente na pesquisa, no levantamento de campo, nas entrevistas, nas observações in loco –, por um lado, e inspirações que iluminam questões essenciais de uma obra, de outro,  ou ajudam a gerar passagens narrativas de qualidade estética. Uma coisa não existe sem a outra. Colocando de outro modo, uma delas, sozinha, é geralmente insuficiente para gerar uma boa obra de JL.  Você precisa das duas abordagens.

CL: A sua pesquisa envolve muito as chamadas histórias edificantes. Quais são os traços dessas narrativas? Como dosar este teor entre o drama humano e algo que edifique o leitor?

EPL: O que move o bom JL é a procura de compreensão dos episódios reais sob uma perspectiva integral, plena, que abarca tanto os aspectos factuais quanto os conteúdos subjetivos.  Se o autor é consciente de que o eixo condutor da boa narrativa  está nos conflitos que marcam o drama humano da existência, tem condição de manter o interesse do leitor do princípio ao fim, mesmo que a história escape de um final trágico ou amargo, ou mesmo que apesar de algo dessa natureza, exista um significado edificante.  Na vida real, nós seres humanos somos criaturas conscientes até um certo ponto; inconscientes, noutra medida.  O drama motor de toda existência humana é a pressão interna para que a nossa consciência se expanda ao máximo, diminuindo tanto quanto possível nossa porção inconsciente, que nos traz sofrimentos existenciais terríveis.   Somos seres impulsionados para sairmos das sombras – as porções negativas e muitas vezes destrutivas do inconsciente –, reconhecermos o que rejeitamos em nós próprios, nos demais e no mundo, e iluminarmos essa parte indesejada da nossa realidade, transformando-a.  Toda narrativa pública transporta implicitamente uma visão de mundo, contribuindo ou para manter o grau de consciência do leitor num nível muito baixo de entendimento da realidade, ou ajudando-o a despertar para uma visão transformadora, que não termina no ângulo puramente derrotista, negativista.  A visão negativista que conduz o leitor a um beco sem saída e à construção mental de uma representação destrutiva – a imagem de que o mundo não tem saída, de que a espécie humana é mesmo esse desastre sem conserto que vemos nos infinitos casos de corrupção profundamente imoral ou nas infindáveis histórias de crueldade do homem contra o homem – não é algo gratuito, sem efeito. Ao contrário, colabora para gerar, no inconsciente coletivo, que abarca a todos nós, um funesto pessimismo e uma desvalorização perigosa da nossa identidade enquanto indivíduos e espécie. Lamentavelmente, boa parte da produção de massa, na indústria cultural, contribui para a escravização das consciências nesse baixíssimo patamar de visão reduzida, ignóbil, das coisas, como é exemplo bem recente este polêmico caso do Big Brother, da Rede Globo de Televisão, em que vemos um deprimente episódio da baixaria que domina os princípios diretrizes de um programa produzido com todo o requinte tecnológico moderno, com audiência estrondosa, mas vergonhoso patamar de valores. A que serve algo assim? A manter as pessoas como que hipnotizadas, alienadas dos aspectos mais sublimes da vida.  São como que vampirizadas na consciência.  Resulta que ao se exporem a assistir sistematicamente a esses medíocres espetáculos de baixaria, estão dando um tiro no coração de sua própria dignidade como seres humanos.

No JL, se queremos que cumpra um papel que realmente valha a pena, nobre, na sociedade, não pode se sujeitar a essas imbecilidades dos meios de comunicação de massa. Precisa transcender essa nuvem nebulosa do pão e circo que domina boa parte da mídia, procurando retratar a realidade em sua complexidade vital, onde imperam fenômenos tanto luminosos quanto escurecedores da consciência, mas onde também manifestam-se inúmeros casos de seres humanos que transcendem a banalidade doentia da maior parte do nosso mundo contemporâneo, revelando que sim, temos esperança como espécie, ainda somos capazes de grandeza e nobreza.  A descoberta dessas qualidades, sua manifestação e consolidação nas pessoas exige um esforço enorme, às vezes dramático, em busca da consciência perdida. O drama humano verdadeiramente poderoso, narrativamente, é a trajetória dessa descoberta, na qual a consciência individual atravessa as barreiras tenebrosas dos poderes – políticos, culturais, econômicos – coletivos que tentam de todas as formas impedir que o indivíduo  liberte-se das visões de mundo escravizantes que para eles é cômoda, mas que para a pessoa humana é terrível, pois achatam e sufocam sua liberdade potencial de ser integral, pleno, verdadeiramente independente.  Dramas deste tipo, das jornadas de crescimento da consciência individual rumo ao seu potencial pleno, são cheios de suspense e desafios que não deixam a desejar a nenhum bom roteiro de Hollywood. Cabe ao autor de JL o exercício da sensibilidade para captar esse drama e contá-lo com maestria, tocando o coração e a mente do leitor, tanto pela qualidade narrativa de sua história quanto pela visão de mundo transformadora inerente a histórias desse quilate.
CL: Como o conhecimento de diferentes mitologias pode auxiliar um escritor a construir um texto de ficção ou não ficção?

EPL: Mais do que o conhecimento de mitos específicos – isto é, de histórias que apresentam sentido profundo, pela simbologia que transportam –, é bastante útil a escritores de ficção e não ficção conhecerem o processo arquetípico conhecido pelo nome de Jornada do Herói, padrão estruturador de narrativas que tem se mostrado universalmente aplicável na organização da sequência e dos elementos que compõem uma boa história dramática. O processo foi sistematizado gradativamente, começando pelo clássico livro O Herói de Mil Faces, do mitólogo Joseph Campbell, e chegando à  Jornada do Escritor, de Christopher Vogler – que reúne tanto conceitos de Campbell quanto do pai da psicologia humanista, Carl Gustav Jung –, ambos trabalhos de enorme importância na construção narrativa dos filmes de Steven Spielberg, George Lucas e James Cameron, por exemplo.  Pude formatar uma adaptação dessa linha estuturadora de narrativas a matérias de JL, formato este todo como partida para a Tese de Doutorado de Monica Martinez que resultou em seu livro Jornada do Herói: A  Estutura Mítica na Construção de Histórias de Vida em Jornalismo (Annablume, 2008).  A Jornada do Herói serve como baliza decisiva, ajudando o autor a compreender a dinâmica narrativa potencial da história sobre a qual esteja trabalhando, e a organizá-la no seu texto.

CL: Você defende que um escritor tenha uma base holística. Quais pontos de vista comumente vêm sendo negligenciados por esses profissionais?

EPL: A visão holística verdadeira nada tem a ver com concepções místicas de qualidade duvidosa.  Diz respeito, sim, a uma visão de mundo  integral, sistêmica, complexa.   É uma abordagem muito diferente desse patamar raso, mecanicista, superficial, esquemático que impera na maior parte dos relatos públicos, tanto na mídia jornalística quanto mesmo em obras de ficção. A nossa sociedade está nessa situação crítica em que se encontra parcialmente por causa desse olhar míope sobre a realidade que impera na maior do sistema cultural e do sistema educacional.  Essa visão distorcida e reducionista trouxe à nossa civilização este mundo em perigoso caminho de autodestruição em que nos encontramos. É urgente uma revisão e uma transformação do nosso olhar, rumo a uma perspectiva complexa, integral – portanto holística, já que a palavra “holos” quer dizer todo –, dinâmica, processual.  Se um jornalista literário absorve os instrumentos comprovadamente eficazes do JL para construir narrativas e a isso acrescenta um modo de ver holístico, realiza um trabalho de grande importância para a transformação da consciência do leitor rumo a um patamar relevante de compreensão dinâmica da realidade.  A aquisição de um olhar holístico é possível através do estudo de propostas de vanguarda existentes em vários campos do saber e da prática em que o autor reeduca sua maneira de ver as coisas, desenvolvendo para isto não só seus potenciais mentais, intelectuais, mas também suas emoções e seus processos intuitivos, colocando-se a serviço de captação e ressignificação da realidade.

CL: O que a física quântica, um assunto cujo estudo é de seu interesse, tem a acrescentar ao jornalismo?

EPL: Muito, pois é um dos campos da ciência que nos ajuda exatamente a olhar para a realidade com uma angulação complexa, dinâmica, abrangente. Tome-se, por exemplo, o conceito de múltiplas realidades apresentado pelo grande físico téorico David Bohm, e já estaremos vendo os fatos da história imediata de nossos dias não como algo raso, superficial e mecânico, mas como um processo complexo que nos abre um horizonte muito mais vasto de entendimento orgânico, vivo, efetivo e significativo do que é, verdadeiramente, esse fenômeno extraordinariamente desafiador e belo que se chama vida.

CL: Como podemos utilizar o máximo de potencial de nossa mente na hora de contar uma história?

EPL: Conhecendo a mente, abrindo nossa percepção para descobrir como pensamos, como vemos a realidade, que fatores condicionam o modo como a percebemos.  Praticando exercícios de distintas metodologias que nos ajudam a sairmos fora do padrão reduzido de visão das coisas apenas pelo lado estreito da racionalidade reduzida. Aprendendo a usar técnicas e métodos de ativação da criatividade que ensinamos nos cursos de pós-graduação da Academia Brasileira de Jornalismo Literário, como a visualização criativa.  Exercitando alguns desses dispositivos de vanguarda que disponibilizo no meu método e livro Escrita Total de redação espontânea.  Aprendendo a meditar, como nos cursos e práticas do budismo, especialmente em suas linhagens tibetanas.  Abandonando os preconceitos da racionalidade estreita. Deixando nossa sensibilidade falar mais alto.

CL: Em todo seu tempo de carreira, qual sua maior decepção literária (um livro, um autor, algo que tenha ficado muito abaixo da sua expectativa…)? Por quê?

EPL: Não seria ético citar nomes, mas há alguns livros-reportagem decepcionantes, assinados por profissionais de renome do jornalismo, mas que nada sabem sobre a natureza real e as exigências do livro-reportagem. São pessoas famosas da mídia diária, mas que ao trabalharem um tema potencialmente rico, em livro-reportagem, levam para essa modalidade o mesmo padrão de linguagem e o mesmo caráter efêmero, superficial, do jornal do dia a dia. Metem os pés pelas mãos, produzindo um resultado pífio.

CL: Qual você julga ser o erro mais frequente de um pretendente a autor de não-ficção? E de ficção?

EPL: No primeiro caso, querer deitar verdades, como se sua leitura da realidade fosse a mais perfeita e a mais absoluta de todas. No segundo, achar que destilar pobreza de olhar o mundo a partir de seu próprio umbigo é a coisa mais esplendorosa que já aconteceu na história da literatura.

CL: Por que a opção por publicar alguns de seus livros por conta própria? Qual a vantagem, para o autor, nesse tipo de publicação?

EPL: No meu caso, não se trata propriamente de publicação por conta própria, mas sim de publicação por um sistema editorial independente e inovador.  Tenho livros publicados por editoras convencionais, mas também tenho títulos pelo Clube de Autores, iniciativa que democratiza sobremaneira a publicação de livros no país. O Clube oferece aos autores um modo de publicação instantânea, sobre a qual têm controle e domínio bastante grande do processo de edição, em si, sem custos e sem a burocracia operacional que cerca o trabalho costumeiro das editoras convencionais.

CL: Sua paixão pela aviação é amplamente reconhecida. Você trocaria tudo o que realizou dentro do jornalismo – e, mais amplamente, dentro de todo campo de narrativas de não ficção – para ter sido piloto? Por quê?

EPL: Não. O sonho de ser piloto foi uma paixão de adolescência. O que me move na aviação, mais do que tudo, é o que representa como liberdade e velocidade para unir culturas, conhecer mundos, transpor distâncias, descobrir territórios, povos e histórias dos mais variados cantos do globo. Estou feliz em unir de um jeito peculiar as duas coisas.  Parte da minha atividade profissional consiste em escrever, como jornalista, sobre aviação comercial.

CL: Um daqueles clichês, mas que todos gostam de saber a resposta: quais os seus livros e autores preferidos?

EPL: No JL, quase todos os livros de Gay Talese, com destaque para seu clássico Fama & Anonimato, assim como  para o ótimo  O Olho da Rua, de Eliane Brum. Em biografias, o bom O Mago, de Fernando Moraes, sobre Paulo Coelho.  Na ficção, o divertidíssimo Pantaleão e as Visitadoras, de Mario Vargas Llosa, assim como o extraordinário romance de ficção científica Shikasta, de Doris Lessing.  Na filosofia da ciência e suas implicações para toda a sociedade, o fabuloso Ponto de Mutação, de Fritjof Capra. Na categoria de boa narrativa por cientistas, Muito Além do Nosso Eu, de Miguel Nicolélis.   No conhecimento não convencional da realidade, os intrigantes livros assinados por Ramatís, psicografados pelo médium Hercílio Maes, com destaque para A Fisiologia da Alma. Em narrativa de viagem, o excelente Um Adivinho Me Disse, de Terziano Terzani.

CL: Está preparando alguma novidade que já possa nos contar?

EPL: Estou preparando sim, mas prefiro nada dizer, por enquanto.

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