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Posts Tagged ‘Ciência’

 Por Alberto Nannini

Damos nomes às coisas, e criamos sistemas de significação para compreendermos o mundo a nossa volta. A linguagem e suas infindáveis variantes, as línguas e dialetos – segundo uma corrente de pensamento muito respeitada, justamente o que nos difere de todos os outros animais – é um desses sistemas. É por meio dela que o que descobrimos pode ser exprimido, além de outros incontáveis usos. Ela nos revela O QUE foi descoberto.

Toda a ciência, bastante elogiada nas postagens anteriores, é outro sistema. Dividida esquematicamente em áreas do conhecimento, para que seja possível ramificá-la e aprofundá-la, é uma conquista fantástica, uma ferramenta extraordinária, para nos revelar COMO o mundo é feito.

A pesquisa sistemática feita pela ciência até responde, por meio de conjecturas e teorias, muitos porquês. Mas nem sempre estas respostas satisfazem ou encerram completamente o assunto. Qualquer um que já respondeu a alguma pergunta feita por uma criança sabe que os “POR QUÊS” podem se suceder quase infinitamente. Ou seja, percebemos desde bem cedo que algumas respostas estão longe de ser suficientes: buscamos mais que respostas, buscamos significado. Há, por isso, um outro sistema de significação para suprir esta necessidade: a religião.

John GRAY, ensaísta e filósofo britânico, define:

Tanto a ciência como a religião são sistemas de símbolos que servem às necessidades humanas – no caso da ciência, à predição e ao controle. As religiões servem a muitos objetivos, mas afinal respondem a uma necessidade de significação que é mais bem suprida pelo mito do que pela explicação.”

Posto que estes sistemas têm finalidades diferentes, parece estranho que haja “briga” entre a ciência e a religião, mas há, e bastante. Geralmente, quando uma pretende dar uma resposta onde a outra é mais gabaritada. E isso sempre aconteceu… Antigamente, a ciência tinha que prestar contas à religião, nas pessoas de seus dignitários. Os lamentáveis exemplos são conhecidos: Galileu, Giordano Bruno, dentre outros. Hoje em dia, houve uma inversão: é a religião que busca a “aprovação” da ciência, para validar seus dogmas e comprovar seus mitos. Um exemplo pronto é a Teoria Criacionista.

E o que esta inversão prova? Acho que há muito a ser estudado a este respeito, mas de imediato poderia se dizer que a ciência vem bastante prestigiada, crescendo em progressão geométrica nos últimos poucos séculos, e com este avanço, tem encontrado respostas, técnicas e descobertas que incontestavelmente melhoram tanto a qualidade como a expectativa média de vida. Desta forma, ao influenciar na vida de praticamente todos, tornando-a mais fácil, longa e prazerosa, a ciência vira o “alvo” de uma admiração antes dedicada à religião.

Com este suposto assédio à ciência, estaria então a religião se “cientificando”, ou mesmo se tornando desnecessária? A resposta não parece tão simples.

Em substituição a uma instituição religiosa que se confundia com o próprio governo, riquíssima, influente e tirana, a religião hoje entende que há mais liberdade de escolha, e precisa seduzir de outras formas. Tanto que as tendências religiosas apontam para algo parecido a um “self-service”: se aceita determinada denominação, mas não implicando necessariamente em concordância com todos os dogmas desta doutrina, mas também em se utilizar procedimentos, rituais e ter crenças “emprestadas” de outras religiões. A princípio, isso parece ótimo – o fanatismo e a obediência cega nunca terminaram bem. A religião está se adaptando ao mundo de hoje, e já não pode mais submeter a ciência a seus desmandos.

O porém é que, junto com o justificado prestígio da ciência, e da liberdade que há para se aprofundá-la, há também uma certa “superestimação”, como se nela fosse possível encontrar resposta para absolutamente tudo. Isso é um claro e grande exagero.

Ainda assim, a ciência, na pessoa de alguns de seus expoentes, tem empreendido um ataque pesado à religião – preferencialmente sobre aquelas com maior número de seguidores – tanto como instituição, como em sistema de crenças, que seria, segundo eles, não apenas obsoleto, como também prejudicial e potencialmente desastroso, ao fomentar guerras, ódio, preconceitos e outras agruras. Há uma espécie de desencanto com a religião, e os ateus, agnósticos e livre pensadores, antes prudentemente escondidos, tem se revelado, com graus variados de indignação ante o “passado negro” da religião, de forma geral.

Refletindo melhor sobre este cenário, é possível encontrar muitas ligações de guerras e matanças relacionadas à religião, em praticamente todas as épocas. Porém, parece bastante razoável dizer que a religião, dada a posição e importância que sempre teve, seria apenas o meio encontrado e utilizado por alguns homens – e são sempre estes que corrompem tudo – para exercerem aquilo que procuram avidamente: o poder. Em muitos casos, é o meio preferencial, pois a crença cega coage uma pessoa de bem, parecida com qualquer um de nós, a abrir mão de tudo o que tenha por uma “causa” difusa, à base de alguma promessa no “porvir” que não tem como ser racionalmente contestada.

Uma vez que a ciência depende de algum tipo de linguagem ou código para ser inteligível, o ataque à religião é feito nestes termos. Aponta contradições, inconsistências e ingenuidades em interpretações, quase sempre literais, feitas a palavras ou textos tido como sagrados. Estas observações são válidas, e estão de acordo com o lugar que a ciência ocupa hoje: algo como uma “lanterna”, para iluminar o que estava obscuro. Mas o problema é tratar o código da religião, mitológico e transcedental, como algo passível de estrita análise científica. John GRAY diz sobre: “As religiões não se constituem de proposições que lutam para tornarem-se teorias.” Mais que isso, a confusão feita com a linguagem metafórica do mito, ao se querer analisar suas histórias e parábolas à luz da ciência, os confunde com mentiras, e ridiculariza a sabedoria milenar neles contida.

Isso é um desserviço tão grande quanto o é a credulidade irrefletida, e ambos são igualmente danosos. Por exemplo, se o nascimento virginal era uma impossibilidade científica (hoje não mais: fertilização in vitro), é possível dizer, dentre outras interpretações, que a linguagem metafórica pretendia emprestar distinção e pureza àquele nascimento específico, episódio este, aliás – nascer de uma virgem – recorrente nas mitologias antigas.

De qualquer forma, um pequeno exercício de humildade mostraria que a ciência, ainda que formidável, é como uma “lanterninha”, um pequeno facho de luz apontando para a vastidão infinita. Imagine-se na escuridão absoluta, olhando um quadro-painel desenhado por todo um muro gigantesco, a Muralha da China, digamos, munido apenas desta lanterna. Você veria “flashes” das pinturas, e teria imensa dificuldade de “montar” a figura completa, quanto mais entender seu propósito. Faria sentido se gabar que a lanterninha na sua mão é muito mais avançada e potente que as tochas que os antigos empunhavam para tentar entender o quadro-painel, ou seria mais inteligente interpretar os relatos deles e perceber que, à parte a linguagem e a ênfase que davam a alguns detalhes, eles contavam uma história muito coerente?

Há um homem dedicou sua vida inteira para interpretar e procurar os padrões do equivalente a estes relatos: Joseph CAMPBELL. E a noção de religiosidade que ele construiu é muito mais consistente e significativa que o ataque que os autores ateus, como Richard DAWKINS, Sam HARRIS e Christopher HITCHENS fazem, respectivamente, em seus livros “Deus, um Delírio”, “Carta a uma Nação Cristã” e “Deus Não é Grande”. Entender os exageros e abusos que se fazem em nome da religião é uma coisa, atacar qualquer tipo de fé como algo característico de pessoas pouco inteligentes é outra, muito diferente.

E aqui concluo a primeira parte deste meu ensaio, grifando algo que espero que tenha ficado bem balizado: a comunhão com o que há de Divino NÃO DEPENDE de intelecto ou de instrução. Até porque muito do que é mais importante está acima da linguagem, como diz a citação do início. Envolve um tanto de instinto e um tanto de sabedoria, e bem pouco saber. Para tornar mais clara esta condição, há de se pontuar algumas da diferenças fundamentais entre o “saber” e a Sabedoria: o primeiro dependente do domínio de ao menos uma língua, é cumulativo, apreendido por esforço, disponível em locais específicos, como bibliotecas, faculdades, dentre outros, enquanto a última independente até de alfabetização, não é mensurável, é apreendida por vivência e reflexão, não armazenável, mas encontrada em todos os lugares. Dito de outra forma, Sabedoria é a habilidade de se utilizar com máxima perfeição o saber que se tenha. Daí o fato de haver pessoas muito “cultas” que são bem pouco sábias, e pessoas tidas como “ignorantes” que são repletas de sabedoria.

Logo, respondendo ao título do ensaio, se afirma de maneira categórica: Não são necessárias inteligência ou instrução para se experimentar o Divino. Nem tampouco é necessário se pertencer a alguma doutrina específica ou praticar determinados rituais para isso. Ou seja, nem muita ciência nem religião irrefletida. Se ambos extremos de exigência estão errados, daí se depreende também que o embate ciência x religião é inútil e custoso.

Termino por ora com uma citação religiosa antiquíssima que não se prende a dogmas, e uma outra de um dos maiores cientistas e gênios de todos os tempos:

O caminho que pode ser expresso não é o Caminho constante

O nome que pode ser enunciado não é o Nome constante

Sem-Nome é o princípio do céu e da terra

Com-Nome é a mãe de dez mil coisas” – TAO TE CHING

 “Minha religiosidade consiste em uma humilde admiração pelo espírito infinitamente superior que se revela no pouco que nós, com nossa fraca e transitória compreensão, podemos entender da realidade.” – Albert Einstein

Para saber mais, indico:

A Anatomia de John Gray”, John GRAY, Ed. Record;

Isto és Tu”, Joseph CAMPBELL, Landy Editora;

O Mundo Assombrado por Demônios”, Carl SAGAN, Cia. das Letras

Além da “trinca” dos ateus, brilhantemente escritos, mas, felizmente, refutáveis:

Deus, um Delírio”, Richard DAWKINS, Cia. das Letras

Carta a uma Nação Cristã”, Sam HARRIS, Cia. das Letras

deus não é grande”, de Christopher HITCHENS, Ediouro

Na sequência deste ensaio, pretendo analisar brevemente o que nos separa e o que temos em comum em matéria de crenças, para, então, tentar indicar uma “terceira via”, que é aonde minhas reflexões me levaram.

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Você é curioso(a)?

Por Alberto Nannini

Não sei se você se considera muito curioso(a), mas todos temos uma curiosidade natural, está escrito em nossos genes. As crianças saem por aí aprendendo as coisas numa velocidade vertiginosa, e se maravilham com uma fileira de formigas, ou com o pairar de um beija-flor, ou com o ronco de um avião.

Suas primeiras associações, embora soem simplórias, têm sofisticação, considerando seu repertório: “Pai, o beija-flor tem um motorzinho silencioso?” Ora, se ele voa como o avião, e este faz um barulhão de motor, ele deve ter um motorzinho silencioso. Não há nada de absurdo, a princípio, nesta associação.

Mas viramos adultos e estrangulamos nossa curiosidade, ou a dirigimos para alvos irrelevantes: “Com quem a atriz da novela das 8 está namorando? Qual o último carro que o jogador Cleidimundílsson comprou?” Até há explicações para este tipo de curiosidade, mas meu ponto é que ela nos desvia daquilo que é muito mais assombroso.

E o que é muito mais assombroso nos cerca, 24 horas por dia. Olhe a sua mão: ela é um prodígio de eficiência e funcionalidade! Imagine quantas coisas são possíveis fazer com a precisão dela e de máquinas por ela construídas: inseminação artificial, operação intercraniana, projeto de arranha-céus, design de chips processadores, escrever poemas, construir armas…

Eu conversava com minha namorada, perguntando por que vamos desligando nossa curiosidade natural, se um efeito inexorável do conhecer é se dar conta que há muito mais a se descobrir. Não sei. Talvez por estarmos acostumados, desde a aurora dos tempos, que pessoas pensem e descubram por nós, e nos contem depois.

E como vamos saber se estas informações que nos chegam são verdadeiras? É difícil, e depende do que é investigado. Se for algo abstrato e/ou imaterial, dependerá de nossa crença; mas, se for algo material, dependerá de evidências.

Para este último caso, desenvolvemos, com o passar dos séculos, a mais formidável ferramenta: o método científico.

Relendo meu texto, peço desculpas pelo tom excessivamente didático (releve! sou frustrado por não ser professor! rs), e me dou conta que não preciso descrever o que é o método científico para os leitores deste blog, e passo adiante no meu raciocínio: como ficamos sabendo das inovações científicas? Geralmente, com alguma nota superficial na mídia, ou já com a aplicação a algo prático e utilizável. Assim, a miniaturização dos chips só nos interessa pela capacidade de processamento do último celular da moda.

Mas e o caminho para se descobrir isso? E todo o resto que é descoberto?

Finalmente, cheguei aonde queria: antigamente, o conhecimento científico era hermético, quase inacessível a leigos. O “cientifiquês” torna ininteligível para a pessoa comum a pesquisa que possibilitou aquele avanço. Isso não é de todo mal, seria absolutamente impossível ler toda pesquisa científica que é feita, e há as tecnicalidades que só vão importar mesmo aos iniciados naquela ciência.

Mesmo assim, poderia haver algo a ser compartilhado deste conhecimento, para poder até ser acrescentado ou corrigido, mecanismo aliás indissociável do método científico. Mas quem poderia ler aqueles tratados e torná-los “palatáveis” a nós, simples mortais? Quem teria a paciência e o conhecimento para fazê-lo?

Há alguns destes por aí. Talvez o mais conhecido deles tenha morrido já há alguns anos, mas deixou um legado impressionante: o astrônomo norte-americano Carl SAGAN. Escreveu muitos livros de divulgação científica numa linguagem simples e direta. E inspirou muitos outros a segui-lo: cientistas que não ficam apenas em seus laboratórios, dando risadas malignas assim que ouvem trovões, mas que divulgam também para os leigos seus avanços e os de seus colegas.

Eles tentam tornar acessíveis os conceitos e ciências mais difíceis, e nos dão, de bandeja, um conhecimento que será útil até o fim da vida, e que custou milhares de horas de pesquisa e esforço.

Por exemplo, Leonard MLODINOW, que torna a matemática prazerosa! (talvez eu apanhe por causa desta ironia…) E há os brasileiros também (músiquinha do Senna tocando de fundo: tã-tã-tããããmmm!!! tã-tã-tããããmmm!!!), como Marcelo GLEISER, e seus escritos de física, tornando teorias cabeludas de fácil compreensão, aplicando-as a situações corriqueiras, e Fernando REINACH, e seus conhecimentos de biologia, traduzindo pesquisas da área em descobertas inacreditáveis!

E por último, um italiano, Julian BAGGINI, que torna minha ciência predileta fácil: filosofia pronta-para-consumo!

Este post foi bem além do que eu imaginava, e vou confessar qual era meu intuito: fazer você voltar a ser criança, ou melhor, a ter a curiosidade que tinha quando era criança! Quando você queria saber de tudo, e perguntava a quem estivesse disponível.

Adultos, sabemos bastante (será?), mas ainda assim, a maioria de nós ignora o repertório científico mínimo, aquele que nos assegura que, por trás de “mágicas”, como creme emagrecedor, pulseira do equilíbrio, e-mails que distribuem prêmios em dinheiro, e praticamente qualquer baboseira que venha com o aval de “saiu publicado na Época-Veja-etc” ou “desenvolvido pela NASA”, se escondem espertalhões que dominam este repertório mínimo e jamais se deixariam enganar assim.

Caso você queira saber mais sobre algumas ciências notáveis, se munindo de conhecimento salutar em muitas situações (ou apenas prazeroso de se ter!!!), pode encontrar em nossas boas revistas científicas, como a SuperInteressante e a Galileu. Mas, se quiser saber mais ainda, te indico, de início, estas obras, dos autores que citei:

O mundo assombrado pelos demônios, Carl SAGAN, Cia das Letras (e Cia de Bolso);

O andar do bêbado, Leonard MLODINOW, ed Zahar.

Micro e Macro” (1 e 2), Marcelo GLEISER, Publifolha

O porco filósofo, Julian BAGGINI, Ed Relume-Dumara

É um melhor que o outro! Compre, peça de amigo-secreto, de Natal, pegue emprestado, mas leia! E me diga depois se não teve a sensação de estar com um tesouro nas mãos!

A quantas anda sua curiosidade?

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