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Posts Tagged ‘Clarice Lispector’

Por Rodrigo Casarin

Karina Freitas

Karina Freitas

Paulinha Denise não é puta, apesar de suas roupas. Se veste para provocar e capricha no rebolado. Usa um chapéu que mais parece um poodle, que cobre seu cabelo alisado e oxigenado. Tem um cabeção, um rabo perfeito, uma borboleta gigante tatuada na coxa e um umbigão mal tesourado extremamente feio, com uma tripa um pouco pra fora. É a mulher mais brega de Suzano. Frequenta os bares do centro de São Paulo e gosta de frango a passarinho e baconzitos. Tem dois cachorros, Titi e Camila, e uma irmã trambiqueira. Foge para Mongaguá quando precisa fazer algo realmente sério. Nunca leu Dostoiévski, adora Zíbia Gasparetto, compra livros do Shinyashiki e jamais encherá o saco com Clarice Lispector e Amélie Poulain. Curte Zeca Pagodinho. Não conhece “Samba do avião” e não sabe nada de Tom Jobim e bossa nova.

Ariela é o contrário de Paulinha. Não depila os pentelhos à maquina zero. Veste apenas uma camisa xadrez e fuma no terraço, mostrando-se nua e cabeludinha para as meninas da rua. Larga calcinhas e bijuterias para marcar território. É uma mentira, uma falsidade ambulante, uma Lolita avançada tecnologicamente. Em seu beijo não há cerveja ou amendoim. Ariela faz sonhar, é mulher para apresentar como namorada. É Maria Rodapé, gosta de beatnik. Tem sorriso de coelho e curte enganar os homens. Enxerga poesia onde somente existe egoísmo, solidão e desespero.

Ivete coleciona revistas femininas, não perde um programa da Sílvia Poppovic e é especialista em sexo oral. Mora na rua 3122, nº411, B.C, atende no número de telefone do seu tio Fernando e não trepou ontem de tarde, apenas levou umas porradas reparadoras e transcendentais depois que seu parceiro achou uma camisinha jogada atrás da cama – e ele nunca usa camisinha.

Eva é uma debiloide que dá desconto após o programa e fala de amigas em meio ao seu trabalho, mesmo quando está usando a boca para tal – aliás, gosta de conversar enquanto realiza seu ofício com a língua, os lábios, a garganta… Não fuma e tem belos pés, com unhas redondas e cobertas por base. Deveria se sentir honrada pela sutil relação que tem com Charles Bukowski.

Claudinha! Ele queria currá-la tal qual lera em Nelson Rodrigues. Uma garota de talentos, queria ser escritora. Abriu as pernas, mas preferia não ver seu nome numa história. Ao final de uma tarde em Paquetá, reclamou que os pés dele não tinham vida.

Nelci, aquela de cabelo esquisito e calcanhares sujos, é uma típica representante das garotas da fila de cinema gratuito do Centro Cultural São Paulo. Adora dizer um monte de bobagens e falar sobre uma tal de filosofia de vida superior.

Cristina B. era uma paixão de infância, da sétima série B. Claro que ela provocou apenas ilusão e desilusão. Agora, com 34 anos e ainda bela, deve estar casada com um alemão escroto que lhe deu um casal de filhos mongoloides e a leva para passar as férias de julho em Campos do Jordão. Cristina B foi sucedida pela inesquecível Luciana H.

Cris tem dentes grandes, que projetam seus lábios como se engolissem a própria língua. Ela às vezes causa tédio. Já Thaís é arquiteta, lésbica e namora Bebel. Moderninha, gosta de acrílicos. Tem ainda a Regiane, do disk-putas, que beija na boca, não bebe e o chama de “Príncipe de verdade”.

Mulher, mulher

Sem mulher não existe Marcelo Mirisola. Não só o escritor, mas o autor, narrador e personagem também seriam impossíveis sem as presenças femininas. Sem elas, não conseguiriam dar um passo – ou escrever uma linha – sequer. “É impossível fazer qualquer coisa na vida sem a presença feminina, literatura é só uma entre as milhares de outras coisas”, diz ele no brevíssimo papo que tivemos por e-mail.

Elas são a grande força das obras de Mirisola e, nas colagens acima, estão exemplos dessas personagens que dão vida a alguns livros do escritor. Paulinha Denise e Ariela são as responsáveis pela existência de Hosana poluída, o mais recente, que será publicado agora em maio pela Editora 34. A história começa num arquipélago na ilha de Sumatra – um dos quatro territórios da Oceania no War, célebre jogo de tabuleiro – e passa por São Paulo, Guarulhos, Rio de Janeiro, Suzano e interior de Minas Gerais. Nas suas primeiras páginas, Marcelo Mirisola, o protagonista, ouve de uma marmiteira que também lê tarô que irá correr o mundo e desfrutar do sexo de muitas mulheres – clarividência que reverbera por toda a obra do escritor.

Mas antes de continuar falando sobre as beldades mirisolianas, vale passar por alguns outros pontos de Hosana poluída. A prosa de Mirisola continua precisa até mesmo nas notas de rodapé – ou principalmente nas impagáveis notas de rodapé –, que costumam concentrar toda a verve cafona e sacana do autor, numa ótima mistura de Xico Sá com Chales Bukowski. Uma amostra: “Dedo no cu, no caso dos bitiniques de padaria, dois dedos cruzados – como se materializassem uma estrutura de DNA – que por sua vez denunciaria a falta incorrigível de talento e ânsia de se foder acompanhada de mais uma dose de Domecq” – o ódio é de Buk, a dose é de Xico.

A pontaria de Mirisola também continua ótima e mira desde aqueles que analisam seus livros – na visão do personagem, Paula Denise faz comentários mais pertinentes sobre Charque do que pesquisadores, mestres e doutores da Unicamp – e os “intelectuais ticket-refeição da Flip”, passando por velhos torturadores que hoje fazem hidroginástica no SESC “da melhor idade” até atingir o ápice com um “nazista ecológico dissidente do PV e recém-filiado ao PC do B” – e não se preocupem, também há referências críticas em tom parecido a outros partidos de diferentes vertentes ideológicas.

Nessa linha de contemporaneidade, vale ainda registar passagens em que o personagem envia mensagens de telefone de Tim para Tim “a custo quase zero”, a possibilidade do Facebook como ferramenta para manter ou resgatar o relacionamento e o sonho de comprar um apartamento em Suzano financiado pela Caixa. São detalhes, às vezes pequenos, que aproximam muito o texto do homem médio brasileiro, aquele que está sempre em busca de seu ouro de tolo. Ainda merecem destaque as referências, como a possibilidade de falar com um tal de Reinaldo Moraes doutor em relacionamentos, e citações a autores consagrados, como neste ótimo trecho: “O diamante é um dos poucos objetos lapidados pela vontade humana capaz de encerrar-se em si mesmo. Os livros de Camus também”.

Por fim, em um momento que tanto se discute a autoficção, impossível não registar o quanto escritor, autor, narrador e personagem Marcelo Mirisola são parecidos. Em dado momento, o personagem-narrador chega a pensar se referindo à Paula Denise: “Se ela quisesse mesmo ser minha mulher, teria de aceitar o pacote completo, eu & meus 12 livros publicados”. De um ano pra cá, Ricardo Lísias, por conta de seu Divórcio, que esteve no cerne dessa discussão. Considero isso um equívoco. A figura contemporânea ideal para ancorar o debate sobre metaficção e os limites entre escritor, autor, narrador e personagem é Marcelo Mirisola – boa parte de sua obra comprova e nos permite isso. Ele mesmo – o escritor – vai além. “Não só é possível, como é necessário [que haja a confusão]. Já disse numa entrevista, e repito: sou o Pedro Álvares Cabral da autoficção aqui no Brasil, e ninguém tasca”.

Voltemos às belas.

Ivete, Eva, Claudinha, Nelci, Cristina B, Luciana H, Cris, Thaís, Bebel e Regiane estão espalhadas por O herói devolvido (2000), O azul do filho morto (2002), Bangalô (2003) e Memórias da sauna finlandesa (2009) e entram neste texto porque seria um desperdício não aproveitarmos uma gama tão boa de personagens femininas. Afinal, Marcelo, personagem preferido de Mirisola, é um grande conquistador, praticamente um Renato Gaúcho das páginas literárias. E as moças que conquista possuem personalidade própria, muitas vezes flertam ou mergulham na breguice e cafonice, frequentam bares que fedem a urina e ficam com homens que se banham de loção barata. Não se importam de comer frango a passarinho e às vezes podem ter uma pele de amendoim nos dentes talvez sujos de batom. Não ligam para o bafo de cerveja ou cachaça – podem até sentir tesão nisso. São também moças que caem na lábia de intelectuais e se apaixonam depois de ouvirem algumas frases de efeito ou serem presenteadas com uma bijuteria bem acabada. E podem ser o contrário ou mistura de tudo isso, pois não seguem fórmulas. “Na mesma proporção em que elas me destroem, eu as construo”, conta o escritor. São mulheres de personalidade marcante, jamais idealizadas – a não ser pelos próprios personagens masculinos. E aí, méritos para o Mirisola autor e escritor, que, contudo, garante não sentir atração por nenhuma delas.

Você sente tesão pelas suas personagens, Mirisola? Com quais você gostaria de ter uma noite (ou uma vida)?

Só se eu fosse necrófilo. Tesão nenhum.

Mas eu disse que elas apaixonam e costumam se apaixonar de verdade. Aliás, o amor e a paixão são os grandes temas de Marcelo Mirisola. Muitas vezes são representados em relacionamentos breves, conturbados, acompanhados de traições corriqueiras, porém nunca simples, sempre sofridas. Alguns personagens podem até fingir que não ligam para os chifres ou para as desilusões, mas as frustrações e as dores em algum momento se manifestam, afinal, as relações são sempre intensas, mesmo que dure apenas uma noite – e isso graças às sedutoras Denises, Claudinhas, Regianes e afins.

Um conto que representa muito bem isso é “Festinha na masmorra”, de Memórias da sauna finlandesa, no qual o protagonista vai a um clube de sadomasoquismo para conseguir realizar sua grande perversão sexual: fazer papai-mamãe no escuro. É isso! Por mais que se cerquem de grandes extravagâncias, os personagens de Mirisola querem fazer papai-mamãe no escuro, sussurrar um “eu te amo” no ouvido da parceira e levar o café da manhã na cama, ainda que parceira e cama mudem a cada semana. Todos são desesperados por carinho e atenção. Entretanto, o próprio escritor discorda desse ponto de vista: “Eu penso que é tudo idealizado, apesar dos estragos causados pela realidade. Se o amor fosse possível, como você infere, não faria nenhum sentido escrever ficção”.

Há um trecho de Hosana poluída que é lapidar quanto a importância das mulheres na obra do escritor: “Inércia é a propriedade segundo a qual um corpo não pode modificar seu estado de movimento ou repouso, ao menos que sobre ele passe a atuar algo ou alguma força. Sem mulher, não há movimento”. Ou seja, a chave para entender Mirisola está em sua própria obra – é assim que os grandes artistas fazem, bastam-se naquilo que criam.

Texto publicado originalmente no suplemento literário Pernambuco.

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jose luiz passosJosé Luiz Passos tem uma missão nem um pouco fácil: lecionar Literatura Brasileira na Universidade da California em Los Angeles (mais conhecida como UCLA), nos Estados Unidos, um dos países mais fechados no mundo para as artes e a cultura que não as locais. Formado em sociologia e doutor em Letras, o professor também é escritor, já publicou os ensaios Ruínas de linhas puras Machado de Assis, o romance com pessoas e os romances Nosso grão mais fino O sonâmbulo amador, um dos livros mais elogiados pela crítica em 2012 – e começo de 2013, já que a obra foi publicada no final do ano passado – e que já tem resenha aqui no blog. Na entrevista abaixo, dentre outros temas, Passos fala sobre como chegou à universidade estadunidense, sobre sua formação como leitor e o trabalho de ficcionista.

Canto dos Livros: Como você foi parar na Universidade da Califórnia?

José Luiz Passos: Quando o e-mail começou a fazer parte da vida universitária no Brasil, em 1994, escrevi para alguns professores nos Estados Unidos e na Inglaterra, buscando fazer uma pós-graduação fora. Na época, era aluno de sociologia na UFPE e, depois, na Unicamp, em São Paulo. Fui aceito por algumas universidades estrangeiras, entre as quais estava a Universidade da Califórnia em Los Angeles, a UCLA, para onde acabei vindo. Depois de concluir o doutorado, outro campus do mesmo sistema me contratou como professor: a Universidade da Califórnia em Berkeley, mais conhecida pelo nome da cidade. Dei aulas em Berkeley por nove anos. Em 2008, a UCLA abriu um concurso na minha área, no qual passei, e, então, decidi voltar para cá. Gosto de Los Angeles. Sempre preferi as cidades grandes.

CdL: Como é ministrar um curso de Literatura Brasileira em uma universidade dos Estados Unidos? Há real interesse por nossa literatura aí? Por quais autores?

JLP: A literatura brasileira é ensinada aqui em português e em inglês, no contexto dos programas de letras hispânicas, línguas neolatinas ou literatura comparada. É, portanto, uma das várias literaturas oferecidas na língua original, ou em tradução, para alunos de diversos programas e cursos. Nossas disciplinas são abertas a todos os estudantes do campus; resulta que as turmas são heterogêneas: gente de música, direito, matemática, ciências biomédicas etc., além dos demais cursos nas humanidades. Desde que cheguei, noto um interesse cada vez maior pelo Brasil, porém não necessariamente pela literatura brasileira. A noção mais difusa da “cultura” brasileira — e em particular, da música, do cinema e de questões socioeconômicas — tem sido o foco dos estudos e dos diplomas dos alunos americanos. Entre os autores mais canônicos, Machado de Assis e Clarice Lispector são os mais usados em sala de aula. O que mudou bastante, a meu ver, foi o interesse, dentro dos programas de letras, na ficção contemporânea. Há hoje mais cursos que incluem autores mais jovens nas diversas universidades americanas que conheço. Em Berkeley, costumava ensinar, a cada três semestres, um curso sobre o romance contemporâneo usando exclusivamente textos publicados nos últimos quatro ou cinco anos. Trouxe o curso para a UCLA e ensinei-o, por exemplo, no semestre passado.

CdL: Qual a sua opinião sobre o atual momento da literatura no Brasil? Quais nomes e obras merecem destaque?

JLP: Creio que atravessamos um momento de produção intensa e de grande diversidade na literatura brasileira. Há, também, uma visibilidade maior na mídia, por conta dos prêmios, das novas mídias sociais, dos incentivos governamentais, das feiras e festivais. Isso é bom, e tem feito a literatura brasileira repercutir um pouco mais aqui fora. Mas a intensidade do movimento no mercado e a maior visibilidade das letras na grande mídia não resultam, necessariamente, numa literatura de maior qualidade. Pode ser que sim. Esperemos que sim. Sinceramente, sou otimista a esse respeito. Como professor de letras, fico contente de ver uma literatura mais robusta e diversa ocupando as livrarias e chegando às salas de aula, inclusive fora do Brasil. São muitos os nomes que leio com prazer. Destacar uns poucos é fazer injustiça com os demais. Então, menciono apenas aqueles que li recentemente e estão, agora, enquanto escrevo, ao alcance da mão. Admiro Beatriz Bracher e Adriana Lunardi; sempre que posso, volto a elas. Achei o romance Mar azul, de Paloma Vidal, fascinante. E estou ansioso para ler o próximo de Ricardo Lísias, cuja ousadia da imaginação sempre me impressiona. Quem mais? Hoje dei uma aula sobre Sérgio Sant’Anna, mas este não conta, porque conta demais; é um clássico vivo.

CdL: Em seus dois livros de ficção há duas personagens bastante sensuais, Ana Corama e Minie. Houve algum cuidado especial na hora de compô-las? Há alguma diferença na construção de um personagem masculino e um feminino?

JLP: Ana Corama (em Nosso grão mais fino, de 2009) e Minie (em O sonâmbulo amador, de 2012) são ao mesmo tempo um problema e uma solução para os seus admiradores masculinos, Vicente Campelo e Jurandir, respectivamente. Mas a semelhança para aí. Ambas têm grande independência moral frente a seus amantes, mas apenas Ana Corama tem o poder de uma narradora; é autora de livros; enfrenta Vicente no plano dos diálogos que desenvolvem interiormente, ao longo de quarenta anos. Por sua vez, Minie representa, para Jurandir, não uma volta ao passado, como Ana, mas o desafio de um presente em que o desejo confunde papéis e funções. Em O sonâmbulo amador, a amiga Minie se confunde com a amante, que se confunde com a memória da esposa quando jovem e, também, com a colega de trabalho. Em ambos os casos, é o desejo do narrador por essas mulheres que os leva adiante, na tentativa de contar uma história que, para elas, é fundamental e precisa ser enfrentada, a despeito da hesitação masculina. São sensuais? Espero que sim. Afinal, são amadas profundamente; e do trauma que esse amor gera, nascem as narrativas de Vicente e Jurandir.

CdL: O processo de reescrita é quase uma unanimidade entre os escritores. Segundo consta, seu primeiro romance teve 16 versões. Como isso funciona para você? Que tipo de trecho merece ser reescrito tantas vezes? Usando o didatismo de um educador, poderia dar um exemplo prático — quem sabe de alguma frase de O sonâmbulo amador — desse processo de reescrita?

JLP: Em cada um dos projetos, a reescrita tem um papel diferente. No caso de Nosso grão mais fino, demorei até encontrar um modo de fazer com que meus personagens pudessem habitar e falar a partir de diferentes momentos no tempo. A cada vez que faço uma mudança na estrutura, gravo e imprimo uma nova versão do texto. Então, por exemplo, no primeiro romance, a sequência da ação apresenta diferenças radicais em cada uma das versões; numa delas, o irmão de Vicente — Zelino — era um pássaro; noutra, os diálogos eram destacados em itálicos, com direções de cena no estilo do teatro; noutra, ainda, a ação continuava após o capítulo final, narrando os últimos dias de Vicente. Já em O sonâmbulo amador, a reescrita foi necessária para moderar a presença dos sonhos no plano do tempo presente de Jurandir. A versão mais completa dos originais tinha 510 páginas. Entreguei à Alfaguara uma versão com 320 páginas, o que resultou nas 270 do livro. Os cortes incidiram na redução da quantidade de sonhos, de personagens secundários e no seu tempo de permanência na clínica de Belavista. Mas também reescrevi a voz narrativa: originalmente, Jurandir escrevia cartas a dr. Ênio, dirigindo-se a ele diretamente, descrevendo as sessões de análise com grande minúcia. Então, não é que a mesma frase seja reescrita dezesseis vezes: é que a relação entre as partes se altera, a voz muda de tom e a interação entre as personagens transforma o ritmo do enredo. A cada vez que isso muda, é necessário, a meu ver, recompor o fio e cuidar da consistência de estilo e perspectiva. Assim, novas versões vão brotando uma de dentro da outra. 

CdL: Você não depende de sua produção literária para pagar as contas, certo? Isso lhe permite investir o tempo que achar necessário na escrita de um livro, mas também faz com que tenha de dividir seu tempo com outras atividades. Como isso funciona para você? Escreve só nas horas vagas mesmo ou separa uma parte do dia para escrever?

JLP: Escrevo sempre que posso. A rigor, dependo do que escrevo para viver. Escrevo minhas notas de aula, relatórios, pareceres, cartas de recomendação, artigos, livros acadêmicos… Então, você tem razão; não viver da literatura não significa, necessariamente, ter mais tempo ou estar mais livre para escrever. Meu tempo é, em grande parte, tomado pela rotina da burocracia acadêmica. Então, como disse, escrevo o máximo possível, sempre que posso. Nos meses de férias e intervalos universitários, é claro, me dedico com mais disciplina à ficção. Costumava separar horas na semana para escrever meu primeiro romance. Porém, com o aumento das minhas responsabilidades na universidade e as demandas da vida familiar, isso é cada vez mais difícil. Hoje, por exemplo, escrevo em cafés, restaurantes, aeroportos, etc., coisa que não fazia antes. O tempo, por incrível que pareça, anda cada vez mais raro.

CdL: Você demorou cinco anos para escrever O sonâmbulo amador. Por que tanto tempo? Quais foram as maiores dificuldades que você encontrou durante a escrita deste livro?

JLP: Iniciei O sonâmbulo amador em 2007, o ano em que publiquei meu livro sobre Machado de Assis. No ano seguinte, meu primeiro romance foi aceito pela Alfaguara. Precisei revê-lo mais de uma vez e cuidar de sua saída. Então, parada no sonâmbulo. Em 2008, mudei de Berkeley para Los Angeles. Transladei a profissão e a família. Vendi um imóvel e comprei outro. Em 2009, nasceu meu segundo filho e assumi a direção do Centro de Estudos Brasileiros, na UCLA. Ou seja, essa pequena lista mostra que as interrupções na redação de O sonâmbulo amador foram de várias ordens. A maior dificuldade foi encontrar tempo para um mergulho mais concentrado e de longa duração no universo do romance. Por isso, me impus um método de escrita relativamente rígido: primeiro redigi os sonhos de Jurandir. Depois, os eventos em sua vida presente. A seguir, o enlace de ambos com as memórias e os textos que ele próprio buscava escrever. Organizar e dar unidade a uma matéria tão diversa, do ponto de vista cronológico e estilístico, foi talvez o grande esforço do livro e aquilo que me custou mais tempo.

CdL: Como você tem acompanhado a recepção de O sonâmbulo amador pelo público e pela crítica?

JLP: Estou satisfeito e surpreso com a repercussão do romance. Fico especialmente contente quando recebo notas pessoais, de amigos que não vejo há muito tempo, e que não são profissionais do comentário à literatura. O livro, em parte, foi escrito para eles, tal como o próprio Jurandir confessa nas últimas duas páginas. A sanção da crítica profissional é, obviamente, muito importante para a permanência do livro. Mas minha satisfação maior está na repercussão dele entre aqueles que, de certo modo, estão dentro do livro e para quem concebi a história de Jurandir.

CdL: Em entrevista recente, você declarou que O sonâmbulo amador é meio que uma tentativa de acabar o que seu pai começou, mas sem usar a vida dele — o que seria “difícil demais” —, já que usou como base o material deixado por ele em um baú. Ainda assim, sabemos o quanto Jurandir — personagem principal da obra — foi influenciado por uma história real. Posto isso, o quanto a sua ficção se apoia na realidade? Como você, particularmente, consegue achar a medida certa de uma dentro da outra?

JLP: A ficção é parte do real, não se opõe a ele; não é o oposto da verdade. A ficção é um modo de se tornar visíveis relações constitutivas do real. O que tirei dos diários de meu pai foi a ideia de alguém que é levado a fazer, a contragosto, uma revisão de sua vida noturna: uma vida sonhada ou escondida na distância de memórias que tentamos evitar. Porém, não se trata da história do meu pai; por exemplo, nem eu nem ele jamais perdemos um filho. Somos, neste sentido, diferentes de Jurandir. Em outros, somos iguais. A pergunta inversa, então, se coloca: como seria escrever uma narrativa que não se baseasse em nenhuma história ou traço do real? De certa forma, tal livro nunca chegou a ser escrito; e se for, arrisco-me a dizer, será inútil ou sumamente desinteressante.

CdL: Para você, a literatura — romances sobre sonhos e outras manifestações escondidas no subconsciente — é uma forma de terapia? Funciona?
JLP:
Não sei se funciona como terapia. São coisas que podem se parecer, mas que, de fato, são diferentes. O aspecto iniludível da presença de um bom terapeuta, que nos ouve e nos guia, não é equivalente à sensação de máxima liberdade e satisfação individual que caracteriza a composição de uma narrativa de ficção. (Isso, pelo menos, no meu caso.) Há momentos em que escrever um romance, ao longo de tanto tempo, chega a ser infernal. A preocupação com o pormenor, com o tom, com a frase nos separa das pessoas. Ao mesmo tempo, é também uma educação em como representar situações entre pessoas que são outras, diferentes da pessoa e dos valores do próprio autor. É, então, um abraço no outro e também uma reserva com relação a ele… Isso é terapia? Acho que não.

CdL: Qual a diferença do José Luiz Passos de Nosso grão mais fino para o José Luiz Passos de O sonâmbulo amador?

JLP: É a diferença entre um autor sem nenhum livro e outro com dois romances. Ou seja, cabelos brancos. Maior controle sobre o ofício. Uma responsabilidade mais vultosa frente a leitores, outros autores, amigos etc. Escrevi meu segundo romance com maior consciência da estrutura que pretendia dar a ele. Escrevi o primeiro embriagado pela realidade da morte do meu pai e pela presença de pessoas que pareciam saídas de uma noite muito longa. O primeiro é uma poesia. Ainda me agrada muito. Mas agora está mais distante e, de certa maneira, voltou a ser um segredo, inclusive para mim.

CdL: Para um autor, quais as principais diferenças entre publicar livros com ensaios e livros com romances?

JLP: É a diferença entre narrar um gol e chutar a gol. Em ambos os casos, é possível ter prazer e encontrar companhia interessante. São práticas relacionadas. Há quem considere não haver diferença entre ambas, mas acho isso um pouco exagerado. Gosto de escrever ensaios e ficção. Gosto, particularmente, da sala de aula, onde, creio eu, locução e gol dão as mãos. Os ensaios que escrevo derivam das aulas que dou. Ensino literatura e ensino, mais recentemente, escrita criativa. Lendo os escritores de que gosto e os trabalhos dos meus alunos — acho eu — aprendo a escrever melhor. Então, são práticas relacionadas, dão gosto, mas não vejo necessidade de confundi-las ou forçá-las numa hierarquia.

CdL: Alguns autores cuidam das suas obras como mães cuidam de bebês, são resistentes à críticas e as enxergam de forma um pouco distorcida, enquanto outros, no outro extremo, mal falam sobre elas e as deixam soltas no mundo, por assim dizer. Qual a sua relação com suas obras?

JLP: Sou autor recente. É cedo para falar de uma suposta relação autoral, já constituída, com as minhas obras… Claro que é incômodo receber uma crítica negativa. Mas é incômodo também quando o objeto da crítica é a forma como dirigimos, fazemos um bolo ou damos um beijo. Ao mesmo tempo, se uma objeção de imediato destruir o escritor, alguma coisa faltava nele — independentemente da razão da crítica. Procuro deixar os meus livros em paz, e dar a eles o apoio que necessitam para ir adiante, sem desaparecer no horizonte dos leitores. São, sim, de certo modo (para usar a sua imagem) como filhos: mimá-los é uma forma de arruiná-los pela cegueira; mas abandoná-los por conta própria também é muito cruel.

CdL: Se você pudesse escolher, viveria só de escrever livros? Por quê?
JLP:
Viver apenas de escrever livros é uma ideia tentadora. Mas acho que sentiria falta da sala de aula. Hoje passei o dia ensinando Osman Lins e Sérgio Sant’Anna. O debate com meus alunos americanos — muitos dos quais liam esses autores pela primeira vez — foi um prazer imenso. Depois, discuti os contos da minha turma de escrita criativa. Outro prazer imenso. Ora, acho que grande parte do sentido dos livros que lemos e queremos escrever está aí, não? Na divisão do bolo. Na conversa sobre o bolo. No consumo dele como se fosse uma festa. Viver “só de escrever livros” é talvez abrir mão de uma parte gostosa dessa festa. Uma parte com pé no chão e menos pompa.

CdL: Quais as suas principais referências literárias?

JLP: Mudam sempre. São as que ando lendo. Esta semana, como disse, além de Osman Lins e Sérgio Sant’Anna, participei de uma oficina de tradução em que discutimos Machado de Assis e Ricardo Lísias. São, sem dúvida, referências. Outras, além das brasileiras: olho para a minha cabeceira e lá estão os “internacionais” que ando lendo: Hilary Mantel, Hans Magnus Enzensberger e Steven Millhauser. Uma inglesa, um alemão e um americano, todos contemporâneos. As referências mudam. Se não mudassem, não haveria diferença entre elas e um tijolo, ou um credo que se recita sem nenhuma consciência.

CdL: O que é um grande escritor? E um grande livro?

JLP: Se eu tivesse essa grande resposta, escreveria um grande livro sobre esse grande tema.

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Antes de começarmos a fazer perguntas para a entrevistada desse mês do Canto dos Livros, pedimos para que ela falasseum pouco sobre si mesma. Eis que Cristina Cezar deu um belo panorama sobre quem ela é. “Sou capixaba, tenho quarenta e três anos e moro em São Paulo desde 1991. Estudei Comunicação Social com especialização em Publicidade com Pós-graduação em Administração da Comunicação. Nasci sob o signo de Escorpião.  Atuei como atriz em grupos de Teatro e sou uma fotógrafa amadora apaixonada por Cinema. Escrevo desde que me conheço como gente, mas minha primeira publicação, o romance Olho Cego No Horizonte, foi lançada em 2007 na Bienal Internacional do Livro do Rio de Janeiro e  na Livraria da Vila, em São Paulo. Desde então, tenho me dedicado a escrever contos e crônicas, e venho apresentando alguns deles no meu blog pessoal, o que tem sido um bom exercício, já que sou bastante tímida para divulgar o meu trabalho”. Apresentados? Então vamos à entrevista.

CL: Quais expectativas – dentre críticas, repercussão, alcance… – que você tinha quando publicou o seu romance Olho Cego no Horizonte? O que se concretizou? O que não?

CC: Olhando para trás, vejo que muito já foi feito. Quando me vi com o livro concluído, percebi que não havia mais como ignorar o ponto em que eu havia chegado, e a publicação tornou-se um desafio inevitável e muito excitante, antes de tudo pela pura realização pessoal. Depois do livro pronto, as expectativas mudaram. Veio o lançamento e o retorno positivo dos meus primeiros leitores, e ficou claro para mim que não se publica uma obra impunemente, afinal uma caixa de livros não é feita para ficar guardada com o autor. Procurei um livreiro para divulgar o meu trabalho junto ao mercado literário e me surpreendi com o fato de não encontrar nenhum que trabalhasse diretamente com escritores. Acho isso muito louco, quando se ouve falar o tempo todo sobre a carência de novos autores no mercado. Esse é o meu novo desafio, divulgar o meu trabalho. A cada passo dado, novos desafios e expectativas vão surgindo.

CL: A própria sinopse destaca o ritmo cinematográfico do seu livro. Foi intencional? Em algum momento, esta aproximação de linguagens a influenciou enquanto você o escrevia?

CC: Eu percebo que o cinema influencia muito o meu modo de escrever, mas isso acontece de modo natural. Quando estou escrevendo, procuro manter suspensas as minhas referências para desenvolver o meu texto da forma mais instintiva possível, sem muitas intenções.

CL: Na orelha do seu livro diz que você gosta muito de teatro. Ao longo de Olho Cego no Horizonte vemos muitos diálogos. Isso é uma influência dos textos teatrais?

CC: Acho que essa influência vem do Teatro e do Cinema. Gosto de diálogos enxutos, e, particularmente, dos que vejo nos filmes de diretores David Mammet, Hal Hartley e Iñárritu, por exemplo. Nesses roteiros, vejo o limite entre a forma de escrever para cinema e para teatro simplesmente desaparecer.

CL: Um dos méritos do livro Olho Cego no Horizonte é o de flutuar sua narrativa no presente entre os principais personagens, usando bastante o ponto de vista deles, sem um narrador marcado, e também sem caracterizar um “eu feminino” como autora. Como foi que se deu esta construção?

CC: Eu quis contar uma estória em que ninguém tivesse um olhar absoluto sobre o que acontecia, e essa foi a melhor forma que encontrei. Eu tive que me desapegar do meu próprio olhar, pessoal e feminino, para depois perceber o que acontecia de sob o olhar dos personagens.

CL: Não raro, autores novos às vezes pecam pelo excesso, seja prolixidade, seja até um certo pedantismo. Você, ao contrário, utiliza uma linguagem bem enxuta, tanto no livro como em seu blog. Seu estilo é naturalmente conciso ou você o lapidou desta forma?  

CC: Que bom, fico feliz por não ser tida como uma escritora prolixa e pedante, isso seria terrível!Rs. Eu concordo, são características comuns a escritores, não apenas aos novos. Acho mais desafiador e mais elegante escrever de forma sucinta, usar as palavras como pinceladas. Para mim, às vezes o texto vem corrente, pronto. Às vezes, escrevo bastante até encontrar a palavra ou a frase que procuro.

CL: Como é conciliar uma carreira no serviço público com a atividade de escritora? A escrita vira algo esporádico ou você é disciplinada? Já pensou em viver apenas da escrita?

CC: A literatura e o serviço público são duas atividades com as quais lido separadamente, acho que é a melhor forma de manter expectativas distintas para cada um. Quanto ao meu ritmo, eu sou meio caótica. Não costumo me sentar em frente a uma folha em branco e ficar esperando a idéia vir, é a idéia que me impulsiona. Quando ela vem, ou quando estou amadurecendo um texto, posso passar uma noite escrevendo sem me dar conta do tempo. Seria absolutamente fantástico viver só para escrever.

CL: Quais as maiores dificuldades que enfrentou para publicar seu primeiro livro?

CC: No meu caso, a fase de revisão junto à editora foi meio traumática. O meu texto foi muito remexido, e deu muito trabalho traze-lo de volta à sua forma original antes da publicação.

CL: Já entrevistamos alguns escritores oriundos de lugares fora dos principais centros econômicos do país (principalmente Eixo Rio-São Paulo), o que prova que a difusão e produção de cultura não acontece somente nos grandes centros . O que você pensa a esse respeito? Como é o acesso e produção de Literatura no Espírito Santo?

CC: Com certeza os novos meios de comunicação diluíram muito os guetos culturais e expandiram o acesso a oportunidades naquilo que se resolve através das mídias eletrônicas, mas eu não sei dizer como é o mercado de livros em papel fora desse eixo.

CL: Você diz no “Quem sou eu” do seu blog que é “fascinada pela natureza irregular e caótica do Homem – especialmente o Homem urbano”. Como você seleciona personagens que podem ou não virem a ser explorados? O que pensa sobre autores que, ao contrário de você, privilegiam personagens do campo/interior, como o Guimarães Rosa, por exemplo? Quais as principais diferenças que enxerga?

CC: Na verdade eu não enxergo uma diferença além do contexto. No fim do meu livro, um dos personagens percebe que aquele asfalto, aqueles prédios da Capital, são a sua verdadeira natureza. Aquela é a sua selva, a sua casa, o seu Sertão, e é o meu também. Nasci numa capital e me mudei para outra, morei em apartamentos a maior parte da minha vida. Esse é o mundo em que me encontro com a minha própria natureza.

CL: Muitos escritores buscam transmitir uma transcendência em suas obras. Você diz que “busca nos personagens e universos que monta, uma revelação, um espelho”. Cite alguns exemplos de como sentiu que algo que escreveu tenha te transformado. Isso já aconteceu enquanto lia obras de outros autores? Quais?

CC: Tanto em meus textos quanto nas obras que leio, sempre estou buscando alguma sensação nova, verdadeira. Há um conto do Rubem Fonseca chamado Orgulho, que, poderosamente, me fez ver esse sentimento de um ângulo totalmente diferente. Entre meus textos, há um conto em que acompanho atenta a fuga de uma lagartixa pela parede e, num certo momento, percebi que eu passei a narrar essa fuga sob o ponto de vista do animal. Quando terminei, nem sabia mais quem eu era direito. Foi uma experiência louquíssima.

CL: Uma pergunta de praxe, mas sempre importante: quais seriam (algumas de) suas principais influências para escrever?

CC: Na Literatura, Clarice Lispector, Ligia Fagundes e Rubem Fonseca.

CL: Quais seus próximos projetos na área de Literatura?

CC: Ainda não sei. O meu primeiro filho nasceu no fim de março, e ainda me sinto meio fora do ar. Vou descobrir, depois conto para vocês.

CL: Por último, o que diria para algum escritor que pretenda publicar seu primeiro livro? Quais dicas lhe daria?

CC: Ouça o seu desejo e publique! Procure uma editora que invista em escritores novos, de preferência uma com a qual você se identifique, e pague para ver. Se for preciso, mexa no texto, mude, mas publique o “seu” trabalho, com o seu jeito. Não tenha receio de trazer algo original, novo. E boa sorte!

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Desde que me tornei um leitor mais assíduo – e lá se vão bons anos – costumeiramente penso sobre formas de incentivar a leitura em um país que não a tem como tradição primária. Mas, em contrapartida, também penso sobre alguns meios que vez ou outra surgem em larga escala, mas que são absolutamente controversos.

O batido conselho “deve-se ler tudo, não importa o tema, nem que seja bula de remédio”, ainda que soe num tom quase desesperador, não apresenta nenhuma grande surpresa, afinal, é realmente melhor que o hábito de ler comece de alguma forma, nem que pelo desenvolvimento de uma possível hipocondria.

Entretanto, uma das formas de “incentivo” que surgiu com a popularização da internet, e que me incomoda desde que comecei a usar ativamente uma conta de e-mail, é a dos textos apócrifos. Para quem não sabe, um texto apócrifo é um texto cuja autoria é duvidosa ou não pode ser verificada, ou seja, com grandes chances de ser falso – ou falsamente atribuído a alguém, claro.

Pois é, levante a mão quem aqui nunca recebeu por e-mail (por mais bem intencionado que fosse o remetente) um texto fofo e meigo, “assinado” por Carlos Drummond de Andrade, Clarice Lispector, Mario Quintana ou, o mais comum, o gaúcho Luis Fernando Verissimo. Arnaldo Jabor, Fernando Pessoa e Vinícius de Moraes também têm a “honra” de alguém lhes dar a paternidade de textos piegas, excessivamente sentimentais e, no geral, notadamente mal escritos.

Esses fatores, obviamente, evidenciam a falsidade dos textos, que geralmente fogem por completo do estilo dos autores a que são atribuídos, mas não são os únicos. Muitas vezes o descuido com a estética da escrita – é comum ver erros de grafia nas palavras, muitas vezes provocados pelo encurtamento que a escrita na Internet promoveu, como, por exemplo, em “vc” – ou até mesmo na correta reprodução do nome do autor. Luis Fernando Verissimo é comumente reproduzido como Luiz Fernando Veríssimo (sic).

A origem mais comum de tais falsas atribuições é dar uma maior dimensão a textos de autores que estão começando, que certamente não teriam se fossem assinados por eles. Muitas vezes a má fé não parte dos autores, mas fica difícil identificar onde a fraude começou. Enfim, esse fato cai diretamente na discussão proposta, vale qualquer coisa para incentivar a leitura?

Bom, a minha opinião é terminantemente contrária a essa ou qualquer outra prática que, ainda que com o objetivo de incentivar algo producente, utilize-se de métodos que firam a ética e a moral, extremamente envolvidas na questão dos direitos autorais. Eu sei, não é tão simples assim identificar, só pela leitura, se um texto é ou não do autor ao qual está sendo atribuído. Mas, claro, é uma covardia passar adiante um texto de origem duvidosa, que muitas vezes propaga de modo medíocre – tanto em forma quanto em conteúdo –, de lista em lista, ideias recheadas de lugares comuns e obviedades, e que claramente não seriam assinadas por nenhum grande escritor.

Dessa forma, ainda que a mensagem seja legal, o conteúdo motivacional, ou simplesmente o texto contenha uma história engraçadinha, passar adiante textos cuja autoria não possa ser verificada é reforçar um padrão criado por alguém sem coragem de assumir as próprias ideias – ou que também foi “fraudado” sem saber – e que as atribui à credibilidade de nomes consagrados e que nada têm a ver com o que foi escrito.

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Ainda em tempo, já que o papo é incentivar a leitura por meios honestos e legais, uma dica é um movimento literário mundial que chegou ao Brasil e felizmente cresce a cada dia, o BookCrossing. Todas as informações a respeito podem ser encontradas no site (www.bookcrossing.com.br), mas a ideia central pode ser definida em três pilares básicos: ler, registrar e libertar. Resumidamente, o objetivo é transformar o mundo todo em uma biblioteca e, para isso, basta que você pegue um livro que já leu, registre-o e deixe em um lugar público para ser encontrado e lido por outro leitor, que por sua vez deverá fazer o mesmo. Sabemos o quanto às vezes é difícil promover o desapego com livros que fizeram e fazem tanta diferença em nossa formação, mas o Canto dos Livros apoia e incentiva o BookCrossing!

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Neste último final de semana nasceu a Revista Macondo, publicação eletrônica voltada à Literatura que terá periodicidade trimestral. A edição de estreia cumpre o prometido e traz poesias, haicais, contos, microcontos, fotografias, ensaio (sobre Shakespeare), uma breve entrevista com o escritor português José Luis Peixoto e resenhas (uma sobre O lustre, de Clarice Lispector, e outra sobre a vida e a morte na obra de Tolstoi). Os editores da revista selecionaram os textos dentre mais de 700 obras, de centenas de autores, enviadas para avaliação.

O ponto negativo da estréia fica por conta do projeto gráfico da revista, algo muito aquém da qualidade proposta. Talvez valha a pena um espaço ser aberto para os designers e editores de arte que queiram colaborar com o projeto.

Para ver a revista online, clique aqui.

Para salvá-la em seu computador, clique acá.

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