Feeds:
Posts
Comentários

Posts Tagged ‘clássicos’

Por Alberto Nannini 

baltazar-serapiãoDe vez em quando, algum autor vira o “queridinho” da mídia. Considerando que o mercado de Literatura é tão ávido por lucro quanto qualquer outro, nem sempre estes tais queridinhos mostram a que vieram.

O português valter hugo mãe, (que quando lançou o livro do qual falaremos grafava seu nome com iniciais minúsculas), parecia ser um destes casos. Badalado, surpresa da Flip de 2011, teve divulgação maciça pela nossa mídia (às vezes, um tanto “baba-ovo” de estrangeiros), e seus livros ocupavam lugar de destaque nas livrarias.

Isto posto, confesso que caí no erro clássico do senso-comum: criticar sem conhecer. Algo que felizmente começou a ser solucionado com a leitura de o remorso de baltazar serapião, da Editora 34.

Após este poderoso livro, comecei a prestar mais atenção em Valter Hugo Mãe (aliás, impossível não lhe ter simpatia vendo o vídeo que está no final do texto). Hoje, ele prefere a grafia em maiúsculas, para não ficar marcado apenas por esta característica. A verdade é que, após começar a conhecer sua obra, é possível assegurar que não há a menor chance de que ele seja lembrado apenas por isso.

Tragédia portuguesa

O livro conta a história de Baltazar Serapião e sua família. Apelidados de “sargas”, são assim chamados por causa da vaca de estimação deles, chamada Sarga, que é dócil como um cão. São cinco: Baltazar, mãe, pai, o irmão mais novo, Aldegundes, e a irmã caçula, Brunilde. Vivem nas terras de D. Afonso, espécie de senhor feudal, casado com D. Catarina.

Completam o elenco central da tragédia Ermesinda, a mulher de Baltazar; Tereza Diaba, uma pária abusada por todos os homens, e a Mulher queimada.

O primeiro parágrafo dá o tom da história, e vai pautar as posições que ocuparão os personagens: “a voz das mulheres estava sob a terra, vinha de caldeiras fundas onde só o diabo e gente a arder tinham destino. A voz das mulheres, perigosa e burra, estava abaixo do mugido e atitude de nossa vaca, a sarga, como lhe chamávamos”.

Narrado por Baltazar, sujeito absolutamente limitado, a história tem o alcance e a perspectiva da sua estreiteza de raciocínios e de sua brutalidade. Os contrapontos, sempre dados pelas personagens femininas, são apenas vozes com que ele dialoga, e às quais responde, se não com seus patéticos argumentos e preconceitos, diretamente com a violência.

Estigmatizados como bichos, ridicularizados a ponto de serem reconhecidos pelo nome da vaca, os sargas se acomodam conforme a relação de poder desigual, totalmente submissos a D. Afonso. Brunilde, tão logo menstrua, se muda para casa dele, a lhe servir aos caprichos. A mãe é parcialmente aleijada – teve o pé retorcido por um ataque do pai, a lhe “corrigir”. Aldegundes é sensível, mas tem fixação pela vaca sarga. E Baltazar, que como todos os homens da trama, se alivia em Tereza Diaba, é da mesma laia.

A azarada Ermesinda, descrita como delicada e lindíssima, é pedida por Baltazar em casamento a seus pais, que concordam. Vai morar com Baltazar, no conjugado onde antes abrigavam a sarga. A beleza da moça não passa despercebida de D. Afonso, que manda que ela vá à sua casa todas as manhãs.

E, em algum momento, o povo ignorante das cercanias castiga uma velha acusada de bruxaria, ateando-lhe fogo, mas esta sobrevive, totalmente desfigurada.

Estas vidas miseráveis estão entrelaçadas pela desgraça, pelas superstições, pela obtusidade absoluta, que parte de conclusões só possíveis a homens ignorantes, inseguros e irremediavelmente tolos, para gerar dor, violência e morte.

Fusão de estilos

A primeira referência que vem à cabeça é Saramago. O falecido autor, ao ler o romance, disse: “às vezes tive a impressão de assistir a um novo parto da língua portuguesa”. O estilo, inspirado na oralidade, com acentuação particular, lembra muito o do premiado escritor. Até se “pegar o jeito”, trava um pouco a leitura, mas é uma inovação bem vinda e consistente, que mantém o padrão durante todo o romance.

Mas a história, algumas situações e o próprio ambiente lembraram bastante José Lins do Rêgo e seu Fogo Morto, também. Seu personagem Mestre José Amaro com sua brutalidade, a espancar a filha histérica e a maltratar a mulher, está bastante presente. A desgraça de Ermesinda, seu martírio pela suposta infidelidade, e o sofrimento do feminino em geral no romance, remete levemente à saga de Capitu e Bentinho, no clássico Dom Casmurro, de Machado de Assis.

Isso mostra a quantas ia o meu erro de pré-julgamento de Valter Hugo Mãe: após ler apenas uma obra sua, e ainda que rasamente, o comparo a três dos maiores escritores da língua portuguesa em todos os tempos, verdadeiras unanimidades.

Então, imagino que um livro que aliasse a linguagem de Saramago, a ambientação e a criação de personagens de José Lins do Rêgo e a inventividade de Machado de Assis, resultaria em algo muito semelhante ao remorso de baltazar serapião.

Tal é a qualidade da obra que esta parece deslocada no tempo. Poderia figurar ao lado dos clássicos, e lhes guarda muitas semelhanças. Se fosse sugerida pelos professores de literatura, traria um material formidável para discussão, que poderia se apoiar, principalmente, na opressão ao feminino.

Barbaridades entranhadas e recorrentes

A opressão ao feminino está de tal modo entranhada nos nossos hábitos, que costuma acontecer o que há de mais hediondo: muitas vezes, ela passa despercebida.

Coincidentemente, o Canto dos Livros levantou esta discussão, nos artigos Não, esse cara não é você e Uma medida de amor e ácidos, e não há um único dia em que notícias sobre as consequências desta opressão não sejam divulgadas: assassinatos, estupros, violência, desrespeito, preconceito, e muito mais, sendo certo que apenas uma minúscula fração daquilo que acontece chega a ser divulgado.

Por este viés, o livro traz um questionamento atual e importantíssimo, não obstante sua ambientação remeta a tempos passados. A constatação da opressão massiva ao feminino permeia a obra inteira, marca e desfigura suas personagens femininas, e tem como contraponto a obtusidade, a brutalidade e a imposição da força do masculino.

Porém, mais que um discurso panfletário, a obra tem um brilho próprio, e poderia ser discutida por vários vieses, que passam pela crítica aos costumes – de quão atrasados alguns deles são, perdurando até os dias de hoje, e do quanto a carência de uma boa educação afeta a vida das pessoas, ou mesmo pelo questionamento à romantização da vida rural, no livro tratada como precária e sofrida.

Além disso, é triste, mas inevitável constatar, que há milhões de Ermesindas por aí, espancadas, dilaceradas e violentadas, e outro tanto de Terezas Diabas, vilipendiadas, abusadas, desrespeitadas, e ainda outro tanto de Mulheres Queimadas, desfiguradas, marcadas e discriminadas, pela ignorância essencialmente masculina que domina nosso mundo.

De qualquer forma, os vieses tem em comum serem todos bárbaros, entranhados na nossa cultura e tristemente atuais, apesar de a vida rural ser hoje apenas uma reminiscência do que já foi.

Mérito literário

Seja para detectar um destes ou outros vieses de interpretação, seja apenas para ler uma boa história, o livro tem o mérito de ser autossuficiente, e prescindir de malabarismos para justificá-lo: como toda obra de excelência, se justifica por si só, tem força o bastante para permanecer na memória de quem o ler, e tende a fazer refletir.

Além do mérito da história, há os personagens – reais, densos, quase palpáveis, a ponto de a empatia pelo sofrimento das mulheres da trama nos afetar de verdade. Como já dito, elas existem, e são milhões.

Já a burrice, estupidez e brutalidade dos homens também existem, infelizmente, e o retrato deles é mais que verossímil, é atual e alarmante. E, obviamente, não incorre apenas nos meios rurais, ao contrário, atitudes como as deles são rotineiras, nos campos e nas cidades de todo o mundo.

Um livro que trata de uma história definida, que não demonstra pretensão de ser um retrato ou uma crítica formal, mas sim um “recorte” de um tempo indeterminado, com personagens reais e notórios, cuja escrita nos deixa entrever suas motivações, espíritos, ambições e limitações – essa pode não ser a descrição mais elaborada, mas a conclusão é uma: se trata de um clássico.

E minha aposta é que remorso de baltazar serapião já é um, e o tempo lhe fará (ou já faz) a devida justiça, quiçá até deverá figurar em breve como leitura indicada nas escolas, vestibulares e afins.

Se quiser uma leitura densa, atual, chocante e instigadora, o livro é este. Leia, descubra qual é o remorso que atinge o personagem/narrador, e se surpreenda.

Read Full Post »

No dia 1º de dezembro, quinta-feira, às 19h30, a Cosac Naify promove o lançamento oficial da nova edição de Guerra e paz, de Liev Tolstói, no Itaú Cultural, em São Paulo. O evento será marcado por um debate entre o tradutor (inclusive da obra em questão) e escritor Rubens Figueiredo, a historiadora e professora de história moderna da USP Laura de Mello e Souza e a professora de literatura russa da USP Elena Vássina, com mediação do jornalista e coordenador de comunicação da Cosac Naify Daniel Benevides.

Guerra e paz descreve a campanha de Napoleão Bonaparte na Rússia ao mesmo tempo em que acompanha os amores e aventuras de Natacha, Andrei, Pierre, Nikolai, Sônia e centenas de coadjuvantes, não menos marcantes. Baseado em meticulosa pesquisa, Liev Tolstói (1828-1910) reconta os episódios que culminaram na derrota francesa e retrata personagens reais, como Napoleão e outras figuras históricas. Esta é a primeira edição brasileira com tradução feita diretamente do russo. O preço sugerido para o livro são salgadíssimos 198 reais.
ITAÚ CULTURAL – SALA VERMELHA
1/12, quinta-feira, das 19h30 às 22h
Av. Paulista 149, São Paulo (SP)
Mais informações: (11) 2168-1777
Capacidade 70 pessoas
Sujeito a lotação do espaço

Read Full Post »

A literatura combina com tranquilidade, silencio e isolamento. Talvez o momento que mais propicia essas três condições em nosso dia-a-dia seja quando estamos no banheiro. Nada mais comum do que levar um gibi, uma revista ou um livro para melhor aproveitar o tempo que gastamos fazendo necessidades essenciais à vida.

Agora, empresas de produtos para serem usados no pós-alívio começam a incorporar a literatura em suas mercadorias. A rede de livrarias russa 100.000 books, por exemplo, imprimiu trechos de livros e colou em purificadores de ar utilizados em lugares de grande circulação de público, como restaurantes e shopping. A inovação deu certo e agora a livraria comercializa os purificadores. Há alguns anos a empresa espanhola Empreendedores também havia inovado na área ao lançar o papel higiênico literário, que trazia clássicos da literatura impressos nos rolos.

Será que em breve teremos produtos desse tipo no Brasil? É bom que sim, afinal, nem sempre temos algo para ler próximo de nossas mãos nos momentos de aperto.

Read Full Post »

Lehgau-Z Qarvalho é um cara multi-artista. Apesar de também ser músico, desenhista e quadrinista, é no campo das letras que ataca com mais força. Autor de A teoria das sombras, lançado em 2007, este gaúcho resolveu que iria viver da Literatura, iria viver da arte. Atualmente, além de construir a sua obra com letras, notas e traços, ministra cursos para aspirantes a escritor. Nesta entrevista para o Canto dos Livros, Lehgau fala muito sobre suas ideias, novos autores, mercado editorial e, dentre outras coisas, explica de onde tirou seu curioso nome artístico.

Canto dos Livros: De onde vem o seu nome artístico?

Lehgau-Z Qarvalho: Quando eu estava na faculdade costumava ser requisitado para fazer as ilustrações, charges e cartuns para todos os jornais e revistas que surgiam no meio universitário, e muitos de fora também. No começo eu assinava Alexandre, conforme minha certidão de nascimento, mas com o tempo passei a considerar o meu nome muito extenso, já que ocupava um espaço relativamente grande em cada desenho. Daí passei a assinar “Lê”, só para reduzir a assinatura. Então, um belo dia, lendo uma revista de quadrinhos e cartuns, eis que encontro um Lê igual a mim. Entrei em contato, por carta, com a editora para saber mais sobre o cartunista. O cidadão era carioca e desenhava a mais tempo do que eu. Assim, achei justo que eu mudasse o meu pseudônimo. Como ele era o Lê carioca, e eu o Lê gaúcho, passei a me autodenominar “Lê Gau.” (de gaúcho).

Vivi um bom tempo do desenho e assinando assim. Então chegou a Internet e fui efetuar os devidos registros; coisas como endereço de e-mail, blog e afins. Todos os domínios como legau estavam ocupados por uma associação chamada Legau (LÉsbicas GAÚchas). Mais uma vez eu havia chegado atrasado. Enquanto eu pensava na nova mudança de assinatura, eu assisti um Programa do Jô em que ele entrevistava um numerólogo que fazia mantras personalizados por encomenda. Durante a entrevista ele falou que as letras que abriam as portas do sucesso eram, respectivamente, o H, o Z e o Q. Apesar de, na época, eu me considerar um cético de plantão, pensei: pelo sim, pelo não, vou incorporar essas letras no meu novo nome (risos). Juntei o Lê Gau, tirei o ponto e o acento do E, coloquei o H no meio (o que não afetou em nada a pronúncia), meti o Z entre o nome e o sobrenome (por ser sonoramente bem parecido com o “de”), e o Q coloquei em lugar do C em Carvalho (que é o meu sobrenome de registro), aproveitando ainda para fazer uma homenagem ao precursor do teatro do absurdo, o dramaturgo gaúcho José Joaquim de Campos Leão (1829 – 1883) que utilizava o pseudônimo de Qorpo Santo; figura com a qual eu ainda estava bastante impactado após ter lido a obra Cães da Província, de Luiz Antonio de Assis Brasil, a qual narra várias histórias ambientadas na cidade de Porto Alegre, “Província de São Pedro do RS”, durante o reinado do imperador D.Pedro II. Na obra, Qorpo-Santo representa a intelectualidade em choque com a mediocridade dos parâmetros de sua sociedade.

CL: Quanto há de você no livro A Teoria das Sombras?

LQ: Penso que sempre há muito de cada autor em suas obras. Não é possível dissociar-se totalmente de si mesmo para fazer qualquer tipo de coisa, ainda mais quando se trata de literatura. Somos frutos de nossas sensações e experiências; e não há como isso não aparecer no papel. Em A Teoria das Sombras existe um personagem central, o Jotapê, que mata pessoas, mas não sem um porquê. Há sempre, antes de cada morte, um discurso em forma de diálogo com a sua cúmplice, Simone de Beauvoir Oliveira e Silva, ou com as próprias vítimas, sobre determinado assunto ou ponto de vista, com os quais ele discorda e questiona. Jotapê e Simone se conhecem ao acaso em uma noite qualquer e saem em busca dos “verdadeiros culpados” pela miséria humana. No fundo eles matam, de fato, metaforicamente falando, velhas e desgastadas ideias. Provocam o caos, dentro e fora de si mesmos, para que daí talvez consigam chegar a uma nova ordem. Tanto que, lá pelo meio da história, Jotapê se perde de Simone e a prosa toma outros rumos muito distantes dos do início; ou seja, há uma brusca ruptura na maneira de Jotapê enxergar o mundo, assim como, eu acredito, se deu com o mundo depois do advento da informática e o seu consequente tsunami de informação ao qual estamos sendo submetidos. Estamos sendo obrigados a rever conceitos, a relativizar tudo e a tomar decisões muito diferentes do que estávamos acostumados. Em A Teoria das Sombras, procurei dar um panorama de nossa época e das transformações que estamos enfrentando. E, por consequência, que eu mesmo venho enfrentando.

CL: Seu estilo lembra muito o de Frank Miller. Quais suas principais influências literárias? No tocante ao livro, houve alguma inspiração em personagem real ou fictício?

LQ: Eu leio de tudo um pouco, mas sempre consumi muita literatura policial, noir, historias em quadrinhos e coisas do gênero – o que inclui, é claro, Frank Miller. Em A Teoria das Sombras fiz questão de colocar, logo no início, inserido em uma cena de estupro, as minhas influências literárias diretas para a obra: Dostoiewski, Henry Miller, Charles Bukowski, Rubem Fonseca, Edgar Allan Poe, Nelson Rodrigues, Hilda Hilst, João Gilberto Noll, Caio Fernando Abreu e Jack Kerouac.

Acredito também que todos os personagens têm sempre, ao menos, uma mistura de tudo o que lemos, assistimos, escutamos, vivemos, produzimos e de pessoas que conhecemos, amamos, odiamos ou simplesmente simpatizamos ou o contrário. Exemplo disso é o fato de eu ter sido um existencialista durante toda a minha adolescência e, não por acaso, ter colocado o nome de um dos meus personagens de Simone de Beauvoir Oliveira e Silva e do protagonista da história, de Jotapê – em referência a Jean Paul Sartre.

CL: Como tem sido a recepção e a crítica a esta obra?

LQ: Na época do lançamento, em 2007, foi muito boa. O livro me abriu muitas portas; o que contribuiu para a minha decisão de largar tudo o que vinha fazendo até então para viver de literatura. Meus leitores me diziam que a leitura fluía e que não conseguiam parar de ler até que chegassem logo ao final do livro. Isso muito me agradava porque essa havia sido a minha intenção desde o início. Queria que o livro fosse rápido e recheado de ação.

Fiquei sabendo, também, que um padre o tinha “tentado ler”, mas parou logo no início e devolveu o livro a quem o tinha presenteado, alegando ser o conteúdo muito forte para ele, e ir radicalmente contra os seus princípios católicos. Eu adorei saber disso (risos).

CL: Numa leitura do livro, foi possível perceber nitidamente  as vozes ocultas do personagem masculino, o que leva a pensar que dificilmente uma autora poderia ter escrito determinados trechos e seus desdobramentos. Há alguma preocupação de haver alguma crítica por inconsistência ou inverossimilhança na história por conta disso, ou há um propósito neste tom “sexista”?

LQ: Ainda que pareça chavão: quando escrevo nunca penso se vou agradar ou desagradar alguém. Creio que uma obra, depois de escrita, é como um filho que vai para o mundo, ganha vida própria e sofre as mais diversas interpretações – o que, acredito, para um escritor é o ponto mais interessante depois da obra ir a público. E a obra sofre também modificações de interpretações ao longo dos anos. O fato de A teoria das Sombras poder ser entendida como “sexista” não me incomoda nem um pouco. O que eu não gostaria mesmo é que ela fosse interpretada como misógina, como a grande maioria dos livros e filmes de ação, por exemplo, onde a mulher sempre atrapalha o homem e o faz correr riscos desnecessários só para atender os seus “caprichos femininos”. Posso estar enganado, mas não acredito que as mulheres tenham sido retratadas dessa forma por mim, em meu livro.

CL: Você tem o hábito de entrar em livrarias e pedir por obras de novos autores, aqueles publicados há menos tempo. Quais bons escritores vocês já descobriu com esse método? Mantém algum tipo de contato com eles?

LQ: Eu sempre estou atento para novas formas de se fazer literatura. Acredito que ler os clássicos se faz extremamente necessário para qualquer pessoa que goste de literatura e, em especial, para quem deseja ser escritor. Mas creio também que ler apenas os clássicos acabe por fazer com que o escritor pense e escreva como um autor clássico e, por conseqüência, soe como uma “banda cover”, a qual, por mais que tente, jamais consegue fazer melhor do que o original.

Por isso eu digo que é preciso ler os novos também. Ao menos para se ter ferramentas para fazer o contraponto. Como posso dizer que a literatura de antigamente era muito melhor do que a feita hoje, ou o contrário, se não estou conectado com, e aberto para, o que está acontecendo agora ao meu redor?!

É justamente da falta de informação e conhecimento do novo que nasce o preconceito com relação ao próprio novo. Concordo com o argumento de que o novo assusta e desacomoda justamente pelo fato de ser o desconhecido a bater em nossa porta. Mas, digo sempre aos meus alunos, sejamos corajosos; aprender nunca é demais.

E sim, não só no Brasil, mas quando estou em outro país, sempre gosto de chegar nas livrarias e pedir por novos autores nacionais, o que provoca, não raras vezes, um grande rebuliço e até constrangimento. Algumas vezes acabo por receber, de fato, indicações de novas edições de velhas e já conhecidas obras e autores.

Mas nem sempre é assim. Certa vez, na livraria El Ateneo, em Buenos Aires, pedi por novos autores argentinos e o vendedor indicou-me prontamente alguns títulos muito bons e foi quando conheci escritores como Juan Terranova, Patricia Suárez, Mariana Henríquez, Gisela Antonuccio, Jorge Consiglio, Gabriel Vommaro, Natalia Moret, Félix Bruzzone, Mariela Ghenadenik, Pedro Mairal, Pablo Ali, Washington Cucurto, Mariana Mariasch, Maximiliano Tomas, Oliverio Coelho, Joaquín Linne, Florencia Abbate, Alejandro Parisi, Gabriel Vommaro e Josefina Licitra, entre outros.

Em outra ocasião, no Uruguai, fazendo a mesma pergunta em um pequeno sebo, descobri, por exemplo, a excelente Claudia Amengual. Da Inglaterra, temos Martin Page e Steven hall. Dos Estado Unidos, John Wray. De Angola/Portugal, Gonçalo M. Tavares. Aqui no Brasil: Vanessa Bárbara, Emílio Fraia, Reges Schwaab (que iniciou sua carreira na literatura em minhas oficinas), Lu Thomé, Claudia Tajes, Clara Tajes, Fernando Mantelli, Reginaldo Pujol Filho, Ítalo Ogliari, Rodrigo Rosp, Samir Machado de Machado, Ricardo Silvestrin, Antônio Xerxenesky, entre tantos outros.

CL: O que o levou à decisão de viver apenas de literatura? Como tem sido?

LQ: Comecei a trabalhar, por iniciativa própria, aos treze anos de idade em uma gráfica. Passei por diversos empregos e em diversas áreas e funções até chegar ao curso de Jornalismo, na faculdade de comunicação, já com vinte e três anos. Embora eu tenha aprendido muito sobre pessoas – o que me parece fundamental para todo e qualquer escritor –, ao longo desse caminho, para mim, trabalhar em algo que eu não goste sempre foi demasiadamente pesado. A certa altura da minha vida, refletindo muito sobre: “afinal, quem sou eu, o que estou fazendo aqui e para o que eu sirvo de fato?!”, acabei por encontrar uma resposta interna que me parece satisfatória até agora: “nasci para criar, fazendo arte”. Por conta disso, não seria preciso dizer que a minha carreira jornalística já começou a fazer água mesmo antes de ter se iniciado por completo, se não fosse pelo fato de eu ter, lá mesmo, nas dependências da PUCRS, travado contato com o “novo jornalismo” e seus principais expoentes: Tom Wolfe, Gay Talese, Norman Mailer e Truman Capote. E, em seguida, ter conhecido, me inscrito e sido aprovado para participar da oficina literária do escritor Luiz Antonio de Assis Brasil, nas dependencias da faculdade de letras da PUCRS. Sendo assim, e mesmo cônscio da precária situação do mercado editorial brasileiro – em especial para novos autores, resolvi arriscar.

Ao mesmo tempo eu via que todas as oficinas literárias existentes na cidade (e não são poucas) eram ou de contos ou de poesia. Eu sentia necessidade de uma oficina relacionada à novela e ao romance. E como sempre considerei o personagem como principal elemento de uma narrativa longa – não há como desenvolvê-la sem ao menos um –, montei uma oficina de criação de personagens, a qual utilizava a internet como ferramenta. A oficina inicialmente consistia de dois módulos, mas por insistencia dos alunos, chegou até o módulo doze.

CL: Como escritor, qual seria o seu objetivo, qual o “lugar ideal” que projeta chegar um dia?

LQ: O lugar ideal de um escritor é em frente aos olhos dos leitores, em forma de letras. Almejo, e não exatamente pelo dinheiro, mas porque é para isso que escrevo, ser lido pelo maior número de pessoas, dos mais variados credos, culturas e etnias possível e, com minha literatura, transformar nas melhores medidas, os seus cotidianos. Gostaria que minha literatura fosse tão transformadora do cotidiano das pessoas quanto a literatura dos autores que li e continuo lendo foram e são para mim.

CL: Como surgiu a ideia de dar aulas de criatividade para aspirantes a escritores? Como são as aulas, já que o curso é definido como de “Desinibição Textual”? No que elas ajudam àqueles que desejam escrever?

LQ: Com o tempo, notei que a dificuldade maior dos meus alunos de criação de personagens era mesmo começar. Sair do chão. Depois que conseguiam isso, que já estavam nos ares, aí não queriam mais parar de voar. Foi então que me veio a ideia de organizar um curso com técnicas e exercícios, com o intuito de desinibir quem quer que tenha o desejo de escrever. Isso porque acredito que qualquer pessoa que consiga escrever um pequeno bilhete inteligível para outra pessoa, tem condições de escrever um livro. Basta se soltar das amarras que o tempo, as pressões alheias e o “eu carrasco” impõem.

Depois de pronto o curso e já devidamente testado e aprovado nas dependências da Palavraria (uma livraria e café com espaço para cursos e oficinas, no bairro Bom Fim, em Porto Alegre), pensei que era hora de levá-lo para dentro da universidade. Enviei o projeto, juntamente com o de um curso de Histórias em Quadrinhos, para a Feevale, em Novo Hamburgo, e eles aprovaram ambos prontamente.

CL: Quem mais procura a oficina de criatividade? Em que este laboratório contribui(u) no seu trabalho?

LQ: Estruturei o curso inicialmente pensando nos estudantes de Letras. Mas fiquei surpreso, logo em seguida, quando a maior procura por vagas foi dos estudantes e profissionais das áreas de comunicação: jornalismo, publicidade e propaganda e relações públicas. Aliás, tenho constatado que pessoas dessas áreas parecem estar mais abertas para novos desafios literários, basta ver o currículo profissional da maioria dos novos escritores que citei. Boa parte deles tem formação ou atua em um desses setores profissionais. Mas, também, tenho alunos de outras áreas até bem mais distantes da literatura, como, por exemplo, biomedicina e contabilidade.

Depois de um tempo, por intermédio de ex-alunos, passei também a ser convidado para ministrar o curso dentro das próprias agências de publicidade e assessorias de comunicação. Também passei a fazer palestras para executivos de grandes empresas, com exercícios práticos durante a palestra e leitura ao vivo dos resultados, a fim de que consigam ser mais desinibidos, sensíveis e criativos na resolução de problemas por conta própria.

Além disso, creio que toda a pessoa que ensina tem uma dupla satisfação: a de contribuir para a evolução e o crescimento de outras pessoas e a de, por vezes, aprender tanto quanto, ou até mais, do que ensina. Assim eu me sinto em sala de aula. E me emociono muitas vezes durante cada encontro do curso, quando ouço a leitura das produções de cada um e a superação de seus limites.

CL: Fale sobre a experiência de escrever um livro a seis mãos com alguns de seus ex-alunos.

LQ: Friedrich Nietzsche dizia que “um bom escritor possui não somente sua própria inteligência, mas também a inteligência de seus amigos”. Certo dia, acordei inquieto, fazendo tudo no piloto automático – o que sempre acontece quando estou para “parir alguma ideia”. Então liguei para dois ex-alunos meus, a Ana Lúcia Pompermayer, artista plástica e escritora, e o Reges Schwaab, jornalista e escritor, e marquei um encontro em um café, à noite. Lá expliquei o que me ocorria. Propus fazermos uma experiência inédita (até onde eu sei): escreveríamos um romance a seis mãos. A quatro mãos não é nenhuma novidade. Entre tantos exemplos temos a muito bem sucedida parceria entre os argentinos Jorge Luis Borges e Adolfo Bioy Casares, que rendeu livros com histórias fantásticas, sob o pseudônimo de Bustos Domecq.

E a ideia não era, também, que cada um escrevesse uma parte isolada da história; mas, sim, que escrevêssemos conjuntamente e não tentassemos impor uns aos outros as nossas letras. Teriamos de ser um trio simbiótico, como foi a dupla Borges e Bioy. E, assim, forjar um estilo diferente de cada um de nós. Vi os olhos deles brilharem. E logo as ideias não paravam de desabar sobre nossas cabeças.

Além disso, disse a eles que queria inserir no contexto intervenções urbanas que ajudassem no processo de criação do romance. E, com o resultado dessas intervenções, mais a espinha dorsal criada por nós, começamos a desenvolver a história. E assim tem sido há três anos. Encontramos-nos sempre que podemos para dar prosseguimento ao projeto. É bem verdade que os encontros estão ficando cada vez mais esparsos, já que precisamos encontrar espaço em nossas agendas que não param de crescer. Mas, certo é: já estamos bem perto da conclusão. Depois é ir atrás das editoras.

CL: O que acha do mercado brasileiro para novos autores? Como funciona o primeiro contato com uma editora? Que tipo de dica ou conselho você daria a quem está começando na carreira de escritor?

LQ: Tive o prazer de assistir uma palestra ao vivo do grande escritor José Saramago. A certa altura, alguém da platéia pediu a palavra e perguntou: “para eu me tornar um bom escritor, preciso passar trinta anos lendo ou trinta anos escrevendo?”, ao que o Saramago respondeu: “sessenta anos lendo!”. Penso que essa é a grande dica. É preciso que estejamos sempre muito ligados em tudo, a todo momento. Não devemos ter preconceito com nenhum tipo de literatura ou com a informação em geral. Tudo pode nos ser útil. Precisamos estar abertos tanto para o passado quanto para o que está acontecendo agora, bem ao nosso lado. Vivemos a grata época do acesso democrático à informação; graças, em especial, à Internet. Hoje só não sabemos o que não queremos saber.

E informação, junto com sensibilidade e coragem (sim, é preciso coragem para escrever – porque parte do nosso eu mais interno, intenso e subliminar está, de uma forma ou de outra, sempre contido em nossas obras) é, a meu ver, a fórmula (se é que existe uma) básica para a criação. E, assim que estivermos abertos e desimpedidos para o mundo, ele, inevitavelmente, virá até nós, trazendo na bagagem tudo o que desejamos e precisamos para o que quer que no momento queiramos.

Sobre questões mercadológicas, bem, no Brasil o mercado para novos autores é bastante complicado. Em parte, graças à Internet, as editoras estão apanhando. Não vou comprar o que posso ler de graça! Os custo de impressão ainda são altos e o poder aquisitivo da grande maioria dos brasileiros, não preciso nem explicar, não é nada bom. As grandes editoras apostam só na venda certa. Em outras palavras: os clássicos, literatura estrangeira, ou alguém que já tem fama em outra área e resolve enveredar por caminhos literários.

Mas, em contrapartida, hoje, também graças à Internet, só não publica quem não quer. Os blogs e sites de relacionamento estão aí para não me deixar mentir. Não há custo algum – a não ser um computador e uma conexão, é claro; e a resposta dos leitores é muito rápida e direta. Nunca houve na história da literatura e das comunicações um laboratório tão bom e eficiente quanto este (e quem está lendo esta entrevista neste exato momento já sabe bem do que eu estou falando).

Dito isso, na prática, a dica mais preciosa que eu posso dar para quem está começando na carreira de escritor é: a menos que você conheça alguém dentro da editora com quem possa contar, NÃO perca tempo nem dinheiro imprimindo originais e enviando para as editoras. Eles NÃO vão ler.

Ao contrário: se não tiver dinheiro para bancar uma publicação impressa ou montar a sua pequena editora, escreva, faça um blog, publique lá o que escreveu e divulgue entre os amigos. Seja corajoso. Você vai se surpreender com o quanto vai aprender com as críticas, sugestões e elogios que receber.

Os tempos felizmente são outros; e o conceito de publicar também mudou: publicar é tornar público – e não precisamos mais de tinta e papel para isso. Quanto a ganhar dinheiro, bem, os autores brasileiros, salvo raríssimas exceções, nunca ganharam dinheiro com seus livros mesmo; ficam apenas com míseros oito por cento do preço de capa e não tendo nenhum controle sobre a quantidade que é impressa ou a que é vendida, já que os livros não são nem nunca foram numerados.

CL: Está trabalhando em algum novo livro? Do que ele trata? Qual a previsão para ficar pronto?

LQ: Tenho um livro pronto, de contos, totalmente influenciado pela literatura de Jorge Luis Borges e, inclusive, dedicado a ele, esperando por uma editora disposta a publicá-lo. Estou escrevendo um romance a seis mãos em parceria com ex-alunos, conforme já citei. Escrevo, também, um romance solo iniciado em 2007 sobre relacionamentos à distância, ou, o que Zygmunt Bauman chama de “amores líquidos”, ainda sem previsão para terminar. E, em uma tentativa de me reaproximar do jornalismo de uma forma mais prazerosa para mim, acabo de dar início a minha primeira reportagem em quadrinhos.

CL: É verdade que você alimenta dezoito blogs ao mesmo tempo? Qual o segredo para administrar o tempo?

LQ: Além disso, também componho músicas e trilhas para teatro e espetáculos de dança e outras por pura diversão. Mas de fato não posso dizer que sou um bom administrador do meu tempo. Vou fazendo tudo ao mesmo tempo e trabalhando muito durante as madrugadas, que é quando encontro a paz necessária para desenvolver o que crio a qualquer hora do dia e da noite. As ideias vêm, eu tomo nota para não esquecer, e depois faço o que posso para desenvolvê-las.

CL: Qual seu processo de escrita – você se programa para escrever um certo tempo por dia, escreve quando tem inspiração…?

LQ: Não sou muito organizado. Na verdade não sou nada organizado (risos). É que aprendi a viver o caos e a entendê-lo, na medida do possível. O que, acredito, acaba me dando alguma vantagem para viver nestes tempos. Não que isso seja fácil. Já passei por muita crise de ansiedade. Mas costumo fazer o seguinte: quando alguma coisa me causa um formigamento no peito, um brilho nos olhos e uma pressão na cabeça, não paro de fazê-la até que me dê por contente. Posso até ficar muitas horas sem dormir por conta disso. E admito: não é algo racional; algo que eu possa controlar. Apenas me atiro e deixo fluir.

Read Full Post »

Confesso, em muitos alguns aspectos eu sou um velho. Não concordo com a ideia de que tudo seja justificável por dinheiro. Não acho que seja aceitável a mercantilização da paixão pelo futebol. Penso que crer em utopias seja algo extremamente necessário para uma vida melhor e com mais sentido. Reluto em aceitar a transposição do livro do papel para as telas do computador, e-reader, ou qualquer outra geringonça do tipo. Todavia, agora vi uma vantagem de verdade nessa história de aliar tecnologias modernas e literatura. Deem uma olhada:

Achei fantástica a possibilidade de termos acesso às edições originais dos grandes clássicos da literatura no nosso computador. Mais detalhes desse projeto estão disponíveis no site da Biblioteca Nacional de España. Já o livro, a fantástica primeira edição de Don Quixote, recheada de diversos conteúdos interativos, está aqui, ao alcance de um clique.

Não acho que os livros de papel morrerão. Não tão cedo, ao menos. Mas começo a ver uma convivência realmente oportuna deles com as tecnologias modernas.

Read Full Post »

O despertar literário

Por Igor Antunes Penteado

Bom, já de cara, devo fazer uma confissão. Tenho usado esta coluna para o Canto também a meu favor. Através dela, vejo a oportunidade de sanar algumas curiosidades minhas sobre a relação entre pessoas e livros. Assim, retomando a ideia levantada em meu primeiro post, hoje pretendo falar sobre o despertar do entusiasmo pelos livros. Isso porque fico curioso em saber como ocorreu esse “despertar” em cada um dos que por aqui transitam.

É comum ouvirmos a batida frase de que o brasileiro não gosta de ler. Óbvio que ela faz sentido, afinal, nosso país possui uma taxa de analfabetismo de 15%. Para se ter uma ideia, entre os países da América do Sul, só não temos uma taxa pior que a da Bolívia, além de que, apenas outros dez países do mundo possuem mais de 10 milhões de analfabetos. Isso sem falar nos analfabetos funcionais.

Se fizermos uma comparação com nossos vizinhos, enquanto lemos, em média, um livro por ano, chilenos e argentinos leem cinco, enquanto os uruguaios leem seis. Em uma outra comparação, talvez pouco sensata, mas curiosa, Portugal – nosso colonizador – é o segundo país que menos lê em toda Europa, com um índice melhor apenas que o de Malta.

Sem querer parecer tendencioso pondo a culpa de nossa pouca cultura literária nos patrícios portugueses, creio, como o consenso quase geral, que podemos atribuir esse quadro a dois fatores básicos. Por aqui, muitos foram alfabetizados pela televisão, além de que a escola não ajuda nesse despertar literário, obrigando adolescentes recém-iniciados no mundo das letras a ler obras clássicas do século 19, de qualidade incontestável, mas que pouco têm em comum com sua própria história e o mundo em que vivem.

Fora isso, um estudo da Unesco revelou que a fórmula que faz alguns países terem maior tradição em ler do que outros nada mais é do que a soma de três práticas, ou seja, só se lê muito onde ler é uma tradição nacional, onde o hábito de ler vem de casa e onde são formados novos leitores. Não precisa de muito para notarmos que, não, não nos enquadramos em nenhuma das práticas.

Entretanto, o mais curioso de tudo é que, pensando em minha própria tragetória literária, constato que eu tinha tudo para dar errado! Afinal, faço parte da geração que foi educada pela TV, fui obrigado, ainda na pré-adolescência, a ler clássicos com os quais não tinha a menor identificação, meu país não tem tradição em ler, meus pais odeiam o hábito da leitura e são raríssimos os colegas que cresceram comigo e cultivam a mesma paixão literária.

Não me lembro de uma obra que tenha marcado, de maneira decisiva, minha entrada no mundo literário. Mas eu acho que, pra mim, sempre foi muito claro que, quanto mais eu lesse, mesmo assuntos sobre os quais eu não tinha o menor interesse, menos eu seria enganado. Quanto mais eu soubesse sobre o mundo, sobre como as coisas funcionam, mais eu conseguiria discutir em nível igualitário com quem quer que fosse, não sendo apenas mais um a ser passado pra trás. E acho que é a essa sede de saber sempre mais que devo minha paixão pelos livros.

O velho jargão de que ler nunca é demais, pra mim, jamais será batido. Pelo contrário, quanto mais leio, quanto mais conheço, mais tenho vontade de ler, de conhecer. E essa, sem dúvida, é a parte mais incrível e saborosa de toda a história.

E quanto a você, como foi seu “despertar literário”? (Lembrando que obras inspiradoras nesse início também enriquecerão os comentários!!!)

 

Read Full Post »

Paris é uma Festa é um livro de memórias de Ernest Hemingway, autor famoso por ser tido como durão e pelo texto marcado por parágrafos curtos e diretos. Na obra, Hemingway, que nasceu em 1899, nos Estados Unidos, relata a parte da sua juventude vivida em Paris, entre os anos de 1921 e 1926.

No início do livro predominam passagens do escritor ao lado de Elizabeth, sua primeira mulher (ao longo da vida ele veio a ter outros três casamentos), com quem teve um filho em 1924. A vida do casal não era das mais fáceis na capital francesa. A luta por dinheiro era constante, já que Hemingway ainda estava longe de se tornar um consagrado escritor e penava para conseguir vender seus contos para algumas revistas literárias e jornais. A principal diversão de ambos  era ir ao hipódromo – apostar em cavalos era um dos hobbies de Ernest – e, vez ou outra, se permitiam comer em restaurantes badalados, apesar do certo perrengue financeiro. Aliás, tal dificuldade fazia com que Hemingway e Elizabeth tivessem que ter jogo de cintura para conviver com parte da alta (ou metida à alta) sociedade parisiense.

Porém, apesar dos interessantes momentos vividos pelo casal, as melhores partes do livro são as que Hemingway relembra de sua convivência com outros escritores, que na época também buscavam crescer na profissão. Há passagens onde Ernest se reúne em cafés (onde adorava trabalhar) ou livrarias com amigos ou conhecidos como James Joyce e  Scott Fitzgerald. Sobre este segundo, inclusive, Ernest relata uma viagem que realizaram juntos pela França e mostra o quão temperamental era Fitzgerald, que vivia sendo importunado por sua mulher, ficava paranóico quando se achava doente e, ao tentar acompanhar Hemingway, não agüentava algumas poucas doses de bebida alcoólica.

Mesmo o gênero Memórias não estando entre os meus preferidos, Paris é uma Festa é um livro bastante gostoso de ler. Com capítulos curtos, mostra o lado machão de Hemingway, mas também apresenta uma faceta cordial do autor, principalmente no trato com sua mulher. Boa pedida para quem quer conhecer um pouco da obra de um dos mais importantes e influentes escritores do século XX.

Read Full Post »

Older Posts »

%d blogueiros gostam disto: