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Posts Tagged ‘Companhia das Letras’

Por Rodrigo Casarin

primeira guerraSarajevo, 1914. Balas mortais atingem o arquiduque austríaco Francisco Ferdinando e a duquesa Sofia. Quem as dispara é Gavrilo Princip, um sérvio integrante da Mão Negra, organização que quer todos os territórios eslavos independentes do império austro-húngaro. Para alcançar o objetivo, usam a violência como principal arma. O assassinato do casal é somente mais um ato. Gavrilo não imaginava o que aqueles disparos ocasionariam.

A Europa vivia um momento delicado. As nações imperialistas tentavam a todo custo aumentar seus territórios. Disputavam espaços na África e, para se fortalecer, investiam muito dinheiro em armamentos. Com animosidade entre os impérios, o sentimento de nacionalismo se exacerbava em uma época cujas feridas causadas por conflitos no século XIX ainda incomodavam.

Após o assassinato, os austro-húngaros acusam a Sérvia de financiar a Mão Negra e logo declaram guerra ao país. É a desculpa que todos precisavam. Como garotos esperando qualquer olhar torto para iniciar uma confusão, as nações europeias vão à briga. A Rússia em defesa dos sérvios; a Alemanha, contra a França e depois contra a Rússia; a Grã Bretanha, contra a Alemanha, em defesa da Bélgica; a Itália um tanto perdida, sem saber ao certo em quem bater. Logo os Estados Unidos chegariam para dar uma força aos amigos bretões e franceses.

A briga seria superlativa. Duraria até 1918, envolveria países de todos os continentes, deixaria mais de quinze milhões de mortos e seria conhecida como a Primeira Guerra Mundial, ou A Grande Guerra.

2014 marca os cem anos do início do conflito e o mercado editorial prepara novidades sobre o assunto. A Rocco lançará Adeus à Europa, de Olivier Campagnon, um estudo que mostra o impacto da batalha nos países latino-americanos, principalmente no Brasil e na Argentina. Segundo Campagnon, a mudança na imagem europeia, outrora exemplo de civilização, levanta questões identitárias que levam a uma reformulação do nacionalismo na América Latina.

Pela Companhia das Letras, chegará às prateleiras The Sllepwalkers (ainda sem título em português), de Christopher Clark, que trata das razões que motivaram a luta armada, e The beauty and the sorrow (outro ainda sem nome em nossa língua), de Peter England, um retrato das pessoas comuns durante o combate. A Alfaguara também trará uma novidade: O bom soldado Svejk, de Jaroslav Hasek, uma comédia que flerta com o absurdo, previsto já para o primeiro semestre.

A literatura da Primeira Guerra

As editoras se aproveitam da efeméride. Contudo, ao longo desses cem anos, diversos livros já abordaram A Grande Guerra. Os dois mais comumente associados ao evento são os romances Nada de Novo no Front, de Erich Maria Remarque, e Adeus às armas, de Ernest Hemingway.

Erich Maria Remarque é o pseudônimo de Erich Paul Remark, alemão que esteve no campo de batalha. Nada de novo no front, de 1929, é protagonizado por Paul Bäumer, que se alista ao exército germânico e vai combater no oeste europeu, onde se dá conta do que é realmente a guerra: um bando de homens matando outros homens por causa de homens que jamais viram na vida. A matança é intercalada por momentos de monotonia e fome – a dificuldade em encontrar comida às vezes é grande. Quando Paul volta à cidade, surpreende-se com as pessoas que acompanham tudo de suas casas, loucas por uma triunfal vitória, bastante diferente dos soldados da linha de frente, que só querem permanecer vivos.

Hemingway também esteve no front. Recusado pelo exército de seu país, os Estados Unidos, arrumou uma vaga na Cruz Vermelha. Foi enviado à Itália, onde dirigiu ambulâncias até estilhaços de uma bomba lhe atingirem na perna, obrigando-o a retornar para casa. Da experiência nasceu Adeus às armas, que, se lançado hoje, com certeza fomentaria ainda mais a discussão sobre as metaficções. A obra, lançada no mesmo ano de Nada de novo no front, narra a história de Frederic Henry, estadunidense que vai à guerra ser piloto de ambulância e é ferido na perna, veja só. Assim como Hemingway, Frederic se apaixona em meio à barbárie. É sobre a relação do personagem com sua amada que o enredo desenrola até seu final publicado – apenas um dos 47 finais elaborados pelo escritor.

Se o cenário dessas duas obras é Primeira Guerra Mundial, em outras ela aparece de forma velada, com influência sobre o ambiente que os personagens vivem – é o caso de O grande Gatsby, clássico do estadunidense Scott Fitzgerald, lançado em 1925 e que mostra a prosperidade e o deslumbramento da elite de seu país nos anos que sucederam o conflito –, ou explicitamente, mas de maneira pontual – como em O tempo redescoberto, último volume da Em busca do tempo perdido, do francês Marcel Proust, do qual se destaca a cena do protagonista passeando por uma Paris em meio a bombardeios.

No Brasil, um dos personagens mais marcantes de nossa literatura nasceu inspirado pelo combate. Jeca Tatu, uma espécie de arquétipo caipira, apareceu primeiro em um artigo para o jornal O Estado de São Paulo em 1914, mas foi eternizado no conto “Urupês”, do livro Cidades mortas, de 1919. Quando criou o personagem, Monteiro Lobato estava revoltado com brasileiros que se preocupavam mais com a condição da Europa do que com o interior do seu próprio país.

Em Cidades mortas ainda há o conto “O espião alemão”, no qual Lobato ridiculariza quem pensava que o Brasil poderia ser alvo de exércitos estrangeiros, enquanto uma verdadeira batalha acontecia em seus rincões: a luta pela sobrevivência.

É evidente que a lista de prosas ficcionais que tratam do assunto não se esgota nesses títulos. Contudo, como se trata de um acontecimento histórico, é importante destacarmos os livros de não ficção que abordam a Grande Guerra. Com o nome nada original de A Primeira Guerra Mundial, temos obras assinadas por Michael Howard, Lawrence Sondhaus e H.P. Willmott, que trazem uma visão panorâmica do conflito. Focado no início do embate, enquanto estavam sendo decididos os rumos que influenciariam o mundo, há Canhões de agosto, de Barbara Tuchman, que alia informações históricas à narrativa literária em um trabalho que valeu o Prêmio Pulitzer de 1963 à autora.

Infelizmente, uma outra obra histórica construída em forma de narrativa ainda não foi publicada no Brasil. Trata-se de Der Kleine Frieden im Grossen Krieg (algo como Um pouco de paz na Grande Guerra), de Michael Jürgs, que refaz a trégua de quase uma semana entre soldados inimigos para celebrar o natal, enterrar seus mortos, jogar bola e até mesmo trocar alguns presentes. Fosse ficção, provavelmente soaria piegas.

Já com uma abordagem diferente, que dá luz às pessoas comuns, que vivenciaram e sofreram o período, há os relatos contidos em Vozes esquecidas da Primeira Guerra Mundial, trabalho de Max Arthur em parceria com o Museu Imperial de Guerra britânico.

A literatura na Primeira Guerra

Apesar dos exércitos, invasões, balas e mortes, novidades literárias continuavam aparecendo durante a Grande Guerra. E com um detalhe importante: o conflito, de certa forma, influenciou a que, para muitos, é a santíssima trindade literária do século XX: Franz Kafka, Marcel Proust e James Joyce, que, após uma busca de década por quem o editasse, lançou o livro de contos Dublinenses, uma de suas obras mais importantes, poucos dias antes de soarem os primeiros tiros. Nele, o escritor traça um retrato da vida dos habitantes de Dublin e apresenta sinais do estilo que radicalizaria em Ulysses. É de se imaginar que algumas pessoas deixassem os assuntos bélicos de lado e preferissem discutir as histórias do irlandês.

Outro título que deve ter sido posto em pauta entre uma opinião ou outra sobre o conflito é A metamorfose, um dos trabalhos mais representativos de Kafka, lançado em 1915. A saga do homem-inseto Samsa foi escrita após o início da Primeira Guerra Mundial, que impactou tanto na própria obra – o pessimismo da época, as questões que a modernidade trazia, a desesperança – quanto no autor tcheco, que passava por uma crise emocional agravada pelos episódios de matança.

Completando o trio sacro, já mostramos como a embate aparece no último volume de Em busca do tempo perdido, de Proust, mas faltou dizer que a publicação da septologia foi interrompida por conta da luta entre países. No caminho de Swan chega às livrarias em 1913, enquanto À sombra das raparigas em flor sai apenas em 1919. Apesar da conhecida morosidade da escrita do francês, o lapso entre publicações foi um motivo externo ao autor. A guerra também aparece de forma velada em Em busca do tempo perdido, afinal, não haveria como retratar a sociedade de sua época sem levar em conta os efeitos que ela provocou.

Apesar de distantes, não escapamos de novidades que flertam ou se agarram à confusão europeia. Lima Barreto, por exemplo, publica Numa e a ninfa e a versão em livro de O triste fim de Policarpo Quaresma durante os anos de conflito. Porém, é na poesia brasileira que o combate exerceu uma influência mais direta, em autores dos mais importantes para o movimento modernista no país.

Manuel Bandeira era tuberculoso, por isso, em 1913, mudou-se para a Suíça – iria se tratar por lá. Iria, caso não tivesse que retornar ao Brasil no ano seguinte, por conta do início das animosidades. De volta ao seu país natal, publica em 1917 A cinza das horas, sua primeira obra, que sai com uma edição de 200 exemplares custeados pelo autor. Mais evidente é a influência da Grande Guerra em Mário de Andrade, que também em 1917 publicou, sob o pseudônimo de Mario Sobral, Há uma gota de sangue em casa poema, livro inspirado pelas barbáries da batalha.

E tudo isso começou, de certa forma, com os tiros de Gavrilo Princip.

Texto publicado originalmente na edição XX suplemento literário Pernambuco.

Ps: Desculpem pelo jogo de negrito e não-negrito, mas há algum tempo venho apanhando do WordPress.

 

 

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Por Rodrigo Casarin

_FANTASMAS_NA_BIBLIOTECA_1364484163P1.

Sou são paulino e apaixonado por futebol. Antes do preço dos ingressos me afastar da arquibancada, ia praticamente toda semana ao Morumbi, e às vezes até viajava para torcer. Como também sempre gostei muito de ler, natural que tenha um enorme interesse por livros sobre futebol e torcidas.

Em uma conversa, descobri que precisava ler Entre os vândalos, de Bill Buford, jornalista que viveu como autêntico hooligan do Manchester United e depois transformou sua experiência em livro-reportagem. Torcedor eu já era, e havia decidido cursar jornalismo. Claro que fiquei empolgado. Queria a obra imediatamente, mas mal sabia o quanto demoraria para consegui-la.

Comecei a busca quando estava no primeiro ou segundo colegial. Frustrei-me, estava esgotado. Seria exagero dizer que visitei quase todos os sebos de São Paulo, mas com certeza entrei em todos pelos que passei em frente: ninguém tinha o maldito livro. De tempos em tempos, mandava e-mail para a Companhia das Letras. Minha esperança não era que republicassem Entre os vândalos apenas por minha causa, mas que achassem um mísero exemplar perdido na editora. Não rolou.

Foi no segundo ou terceiro ano da faculdade que descobri o Estante Virtual. Finalmente uma nova chance se abria. Pelo que tinham me dito, seria impossível não achar alguma obra no site. Mentira, já não achei algumas, mas felizmente três exemplares de Entre os vândalos estavam à venda. Comprei de um sebo em Bauru, era o que estava mais próximo de São Paulo. Virou o meu livro de estimação.

Alguns anos depois, finalmente a Companhia das Letras republicou a obra. Confesso que até hoje, sempre que esbarro com algum exemplar na livraria, tenho vontade de comprá-lo. É estranho vê-lo ali, fácil, à disposição.

2.

Estávamos reunidos em umas dez pessoas. Discutíamos particularidades e rumos de um dos livros que estou escrevendo. O lugar era uma mistura de sala de estar e biblioteca. Logo interrompemos o papo para almoçar.

Nosso anfitrião é um grande colecionador. Dentre suas coleções, a de livros é uma das proeminentes. Enquanto pessoas se serviam de quiches e copos de água, aproveitei para dar uma olhada nos exemplares que estavam enfileirados nas prateleiras. Pouca coisa me chamou a atenção.

Sentamos, almoçamos, falamos amenidades e partimos para o café e a sobremesa. Ficamos todos de pé, rodando pelo espaço. Voltei às prateleiras e, enfim, um volume realmente me atraiu. Aliás, não só a mim, mas aos que me acompanhavam também. Indiscutivelmente, tínhamos ali uma preciosidade que nos maravilhava. Logo o anfitrião puxou uma mesa embutida à estante, pegou o livro e cuidadosamente abriu para que nós o admirássemos. Não tinha nome, mas o importante era sua data: 1492.

Ao vê-lo, fiquei momentaneamente paralisado, mas poderia jamais ter outra chance de me relacionar com um Matusalém daqueles. Abdiquei da compostura que a reunião pedia. Só ver o livro não bastava. Toquei, peguei, acariciei e, finalmente, levantei o livro e meti o nariz o mais próximo possível das suas páginas — precisava saber quais cheiros trazia do século 15.

Não senti grandes coisas, mas ao menos não espirrei.

Saí de lá surpreso: como uma raridade daquelas estava ali, sem proteção alguma, à mercê de uma xícara de café voadora ou de uma colher que erre a boca e derrube pavê sobre suas centenárias páginas?

3.

Sempre precisamos organizar minimamente nossos livros. Na parte de cima da minha estante ficam as obras, digamos, técnicas. Um pouco abaixo estão as de não-ficção. Já mais perto do chão, ficção, e, na mais baixa das prateleiras, livros sobre futebol — não o Entre os vândalos, que está em não-ficção —, música, livros que escrevi, enfim, um apanhado de tudo o que sobrou.

Dentro de cada uma dessas seções, eles são separados novamente de acordo com o seu gênero específico e dispostos conforme o sobrenome dos autores. Tudo isso na teoria, claro, pois na prática pouco funciona. Raramente um livro retirado da estante volta para o seu lugar de origem. Logo os espaços acabam e precisamos abrir concessões. Se não cabe mais nada na parte de biografias, é mais fácil deixar a vida de Borges provisoriamente perto de um Dostoiévski do que remanejar todas as obras até que ache algum espaço mais adequado.

Também há muitos livros que são difíceis de classificar. Onde colocar o último de David Foster Wallace (que precisei tirar da estante e já não voltará mais para o seu lugar)? Apesar da capa dizer que se trata de um livro de ensaios, a classificação não me convence. Ficando longe do fato de já estar meio que longe de tudo é muito mais um apanhado de experiências jornalísticas de DFW. E Nu, de botas, do Antonio Prata? São memórias de sua infância, mas, pela forma e pelo autor, estou propenso a colocá-lo junto de obras ficcionais, não próximo de O ano do pensamento mágico. A plena e satisfatória organização de uma estante ou de uma biblioteca é uma utopia. Gosto de utopias.

4.

Não costumo falar de mim em resenhas — se é que deste texto está saindo uma resenha —, deixo isso para quem sabe fazê-lo com maestria, como o Julián Ana (que, aliás, anda um tanto sumido aqui do Rascunho. Espero que volte logo.), mas é impossível ler Fantasmas na biblioteca — A arte de viver entre livros, do bibliófilo Jacques Bonnet, e não pensar nos momentos mais marcantes e na relação que tenho com os livros.

O livro é um ensaio — com certeza irá para esta seção — que traz diversas nuances da relação do seu autor com as obras que compõem sua vasta biblioteca. Fala da busca por exemplares raros, da estrutura requerida para abrigar tantos volumes, da necessidade de classificá-los, das formas de ler (aqui concordo plenamente com o autor, o ideal realmente é estar alongado, como se a posição permitisse ao texto descer melhor pelo corpo)… Em alguns momentos, Bonnet traz um humor sutil e uma ironia que me lembraram Vanessa Barbara — que, aliás, tem diversos textos também falando da sua relação com os livros.

Aparentemente, Fantasmas na biblioteca é despretensioso, e esse é um dos seus grandes méritos. Não é preciso ser um grande livro para ser uma obra preciosa, daquelas que se preocupam apenas com o prazer da leitura, justamente para aqueles que amam os livros. É sempre bom ver algo que amamos sendo tratado com o carinho que Bonnet aparenta tratar seus livros e as histórias que estão ao redor deles. É sempre bom quando algo nos faz lembrar vivamente das nossas próprias histórias.

Texto publicado originalmente na edição 164 do jornal literário Rascunho.

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Por Fred Linardi

xa dos xasExiste um cano de revólver apontado para o meu pé enquanto escrevo sobre essa grande reportagem do respeitado jornalista internacional Ryszard Kapuscinski, que morreu em 2007 de causas naturais, apesar de ter ficado muito perto de armas engatilhadas durante as dezenas de lugares por onde passou. Ao contrário dele, que cobriu 27 golpes de estado e revoluções civis, o meu risco não reside apenas no calibre apontado para meus membros inferiores. O risco está em falar sobre um trabalho como O xá dos xás, segundo título do autor que faz parte da série Jornalismo Literário, da Companhia das Letras, precedido por O imperador.

Uma das primeiras lições que tive sobre Jornalismo Literário referia-se ao estilo que usa de técnicas da literatura para produzir reportagens num estilo, como o próprio nome diz, literário. Isso não significa ficcionalizar o texto, aprendi, mas sim tornar sua narrativa mais atraente ao leitor. Da mesma maneira, já cheguei a ouvir de mestres (no sentido acadêmico da palavra) que o tal estilo permitiria um tanto de invenções por parte do jornalista. Pois bem, o assunto é longo. Mas só para ficar num exemplo, relembro sobre a obra indicada pelo Igor Antunes Penteado na sua mais recente dica de leitura aqui do Canto do Livros – A sangue frio, de Truman Capote –, que será acompanhada por uma sombra eterna pelo fato do jornalista americano ter floreado um final em busca de uma conclusão dramática ao livro, criando um diálogo que jamais existiu na realidade.

Se for para escolher um dos lados, empunho com minhas próprias mãos essa arma que aponto para o meu pé e digo que fico do lado da total veracidade das cenas narradas.

Dito isso, sinto a pressão do gatilho no meu indicador.

Pow!

Ouço um barulho lá fora e quase acredito que é o estouro da minha arma que, na verdade, continua silenciosa. A capa do livro, com fundo preto e escrito em branco e vermelho, me encara. Preciso explicar o motivo de ter escolhido essa obra com menos de 200 páginas para escrever aqui nesse blog. Essa é a história do último xá do Irã, que pretendia transformar seu país numa superpotência – isso também está dito na capa. Outra coisa que ela indica, logo abaixo do subtítulo, é que faz parte da coleção já mencionada lá no primeiro parágrafo.

Então vamos lá. Era uma vez um cara chamado Mohammed Reza Pahlevi que, na década de 1940, herdou de seu pai um país miserável acima do chão e riquíssimo abaixo dele. Toda a riqueza vinda do petróleo abundante servia para enriquecer o próprio bolso, concentrando o poder suficiente para fazer a população de um país inteiro temer cogitar qualquer tentativa de mudança. Os métodos de intimidação eram dos mais complexos, com uma célula do governo repleta de informantes, que consideravam comentários banais como “hoje o céu está nublado” como mensagens subliminares de subversivos na rua. Quem ousasse dizer algo como isso, num ponto de ônibus que fosse, poderia começar a se despedir da vida – não sem antes passar por sessões de tortura que até o capeta duvida.

A história de um Irã tomado pelo egoísmo e crueldade do seu xá é margeada pela narrativa sagaz, a partir de fotos históricas coletadas, além das gravações e anotações de Kapuscinski, que há de perdoar o teclado do meu computador ocidental, que não consegue botar acento agudo no “s” e no “n” do seu sobrenome. Mas ele há de entender certas liberdades, já que… bem, já que ele é dos exemplos que devemos colocar ao lado de livros de não ficção que dão uma inventandinha em alguns trechos. Mas também ao lado de obras que fazem parte do que há de mais exemplar em grandes reportagens. E agora? De uma forma ou de outra, é inegável afirmar que livros como este (ou como A sangue frio) estão entre os mais ousados.

Mas o que Kapuscinski inventa, afinal?

Não sei dizer ao certo. É dito que

Ahhhh….!kapuscinski_01

Ouço um grito vindo da rua. Será que aquele barulho que ouvi vem de uma vítima atingida por um tiro que jamais esperava lhe atravessar o peito? Ou será que veio de alguém que está me vendo pela janela ora com a arma na mesa, ao lado de Kapuscinski, ora voltada para meus pés? Ou será que vem da minha consciência em conflito, sem saber o que dizer depois de ler o posfácio e constatar que, de fato, o velho polonês dava suas viajadas além-fato para escrever esse livro que eu, agora cúmplice de tudo, me deliciei. Cale a boca, Kapu! Arrisco-me demais ao te elogiar.

— Kapu, escute aqui! Sua obra foi chamada de “jornalismo mágico” pelo seu respeitado colega Adam Hochschild e a alcunha foi confirmada por Artur Domoslawski na biografia sobre você, Kapuscinski Não Ficção (ah, se você conhecesse Roberto Carlos em tempo…). Aí, sim, é possível saber o que há de ficção em suas obras de não ficção. Até que enfim alguém para nos esclarecer.

Ficção, sim. Mas vamos com calma (meu pé está suando frio agora). Sem dúvidas, o xá Reza Pahlevi era um tirano que governava sem um pingo de compaixão e, em certos pontos, com alguma dose de burrice, já que todos os ditadores têm seus atos falhos. Queria um país desenvolvido, queria criar “uma grande civilização”, queria que o Irã saísse do zero e se tornasse, em dez anos, um país comparável à Alemanha ou Inglaterra. Tinha dinheiro para isso e muito mais. Trouxe indústrias e importou mão de obra de outros países, já que ali as universidades eram proibidas. Os iranianos que queriam formação superior ganhavam bolsa para estudar fora – e poucos tinham coragem de regressar depois de graduados. Fanático por guerras, comprou um arsenal bélico fora de proporções, sem nem mesmo ter onde abrigar tantas aeronaves e tanques. Mas um dia o povo se desperta para uma revolução, que começa a acontecer em diversas cidades, uma depois da outra… E então Kapuscinski nos presenteia novamente na segunda parte do livro, com um primoroso ensaio sobre como funciona uma revolução. Uma peça fundamental para que se reflita sobre o espírito de um país que passa por esse tipo de evento.

Na obra de Kapu é dito que há personagens e declarações inventadas. Dentro do contexto, elas parecem coerentes, mas ainda assim podem ser fictícias. O perigo neste caso é exatamente quando os limites entre acontecimentos ou pessoas reais ou imaginários não ficam claros para o leitor. E Kapu parece tomar exatamente este cuidado. Tudo flui, os personagens são vivos e coloridos. O perigo, no entanto, é quando começamos a duvidar das histórias que, por ventura, tenham sido frutos do obstinado trabalho de pesquisa e apuração jornalística.

Entre os autores que odeio amar, acredito que sempre estará a sombra de um anti-herói chamado Kapuscinski, batendo a mão nos meus ombros e lembrando que entre a ficção e a realidade existe uma série de questões, escolhas e princípios. Existe também uma mira de um revólver prestes a disparar em nossos pés.

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bernardo carvalhoDesde sua estreia em 1993, com Aberração, Bernardo Carvalho já publicou outras dez obras e se tornou um dos escritores mais prestigiados do país. Dentre seus trabalhos merecem destaque títulos como Mongólia, Onze, Nove noites e O filho da mãe, que integra a polêmica coleção Amores Expressos, da Companhia das Letras. Reprodução, o livro mais recente do autor, foi lançado neste segundo semestre de 2013 e apresenta um estudante de chinês envolvido em um enorme imbróglio no aeroporto horas antes de embarcar para a sonhada viagem à China. Por conta deste novo trabalho e da importante carreira que o Canto dos Livros entrevistou Bernardo Carvalho. 

CdL: É de se imaginar que para escrever Reprodução você tenha navegado bastante por sites de notícias e blog para ler os comentários dos internautas. Ao ler esses comentários – muitas vezes reacionários e racistas, como o personagem principal da obra –, qual era o seu sentimento? 

Bernardo Carvalho: Não li muitos comentários. Nem naveguei muito para poder escrever o livro. Como é tudo mais ou menos igual, basta ler alguns pra entender como a coisa funciona.

CdL: Apesar do tamanho, Reprodução tem uma estrutura que em muitos momentos se assemelha ao conto ou à novela. Contudo, ainda não existe uma definição clara do que seja um conto, uma novela e um romance. Para você, como esses gêneros são caracterizados? 

BC: Você vai achar as definições clássicas dos gêneros nos manuais literários. Pra mim, interessa embaralhar os gêneros. Mas acho que esse livro tem um espírito mais teatral do que qualquer outra coisa.

CdL: Em certo momento, Reprodução também é um livro que fala sobre o domínio que determinadas línguas exercem sobre outras. A passagem que trata das línguas que morrem chega a ser comovente. Qual a sua relação e interesse pelas línguas, sejam elas dominantes ou à beira da morte? 

BC: O desvio me interessa. O desvio da regra, a diferença, a exceção, a resistência ao hegemônico etc. Nesse sentido, as línguas em vias de extinção são chaves pra mundos alternativos, que estão se perdendo. Com o desaparecimento das línguas, o mundo também se estreita.

CdL: É cada vez mais evidente a maneira truculenta como policiais costumam tratar qualquer tipo de suspeito. Não seria mais plausível se o delegado que interroga o “estudante de chinês” desse um tapa na orelha do interrogado e mandasse ele apenas responder objetivamente as perguntas feitas? 

BC: Os personagens literários mais interessantes são aqueles que não correspondem às expectativas do leitor.

CdL: O protagonista de Reprodução parece só ouvir as pessoas quando aparentemente aumentam a voz ou quando não há mais nada para ser feito além de escutar uma conversa. É uma forma de mostrar que estamos cada vez mais preocupados em falar e menos dispostos a ouvir? 

BC: Não sei. É uma característica do personagem.

CdL: O final de Reprodução é forte e emblemático. Você é um crente, um otimista? 

BC: O final é trágico e triste. Crente, eu não sou. Acho que oscilo entre fases de otimismo e pessimismo.

CdL: Em entrevista recente, ao comentar sobre a banalização promovida pela internet, você destacou o narcisismo, e a maneira perversa pela qual ele pega as pessoas que escrevem ali, para qualquer audiência, lhes dando a ilusão de que são celebridades. Por outro lado, os romancistas costumam ter um forte componente narcisista, a serem bajulados pelos leitores e editoras, tanto mais quanto maior seja a projeção e o potencial comercial de suas obras, importando pouco a qualidade literária dela. No seu caso, escritor há 20 anos e consagrado, reconhece em você ou na sua obra indícios deste mesmo narcisismo? Concorda com o diagnóstico de alguns especialistas, de que a atual literatura brasileira é em grande parte feita com narrativas em primeira pessoa, confessionais e também narcisistas? 

BC: O narcisismo está em todo mundo. Faz parte do humano. Há gradações, claro, e maneiras diferentes de lidar com o narcisismo. Mas acho pobre pensar que uma narrativa em primeira pessoa é sinal de narcisismo do autor. É não ter entendido absolutamente nada do que é literatura.

CdL: Em uma resenha para O Globo, Beatriz Resende, professora da UFRJ, diz que você “confirma sua versatilidade como escritor que foge da zona de conforto”. É possível fazer arte permanecendo na zona de conforto? 

BC: Não há regras em literatura e arte. O conforto me incomoda, mas é o meu caminho. Não sou modelo pra ninguém.

CdL: O discurso de Luiz Ruffato na abertura da Feira de Frankfurt tem dividido opiniões no meio literário. Qual sua opinião sobre as colocações do autor? 

BC: Gostei do discurso dele.

CdL: Como foi a sua participação na Feira de Frankfurt? O que achou da seleção de escritores?

BC: Senti falta do Rubens Figueiredo e do Reinaldo Moraes [que já foi entrevistado pelo Canto e cujas respostas guardam certa semelhança com as de Bernardo]. Não sei se não foram convidados o se não quiseram ir.

CdL: Ainda sobre a feira, na oportunidade João Paulo Cuenca, Paulo Lins e Luiz Ruffato iniciaram um abaixo assinado apoiando a greve de professores do Rio de Janeiro e repudiando a violência policial. O que você achou desse manifesto? Na sua visão, qual é o papel de um escritor diante de reivindicações contemporâneas, como essa e tantas outras levantadas recentemente no Brasil? 

BC: Não conheço ninguém que seja contra a democracia e a educação, e a favor da truculência policial.

CdL: Alguns acham que a Literatura tem papel específico, outros, que ela pode ser uma agente de mudanças profundas. Entre estes dois pólos, onde você se situa? 

BC: Entre os dois. Nos dois.

CdL: Recentemente, a discussão sobre as biografias não autorizadas ganhou força novamente com a posição do Procure Saber, encabeçado por Paula Lavine. Tanto como escritor quanto personalidade pública, qual sua posição sobre isso? 

BC: A favor da liberdade de expressão.

CdL: Hoje em dia, ante as facilidades em se publicar, mas também ante a enorme concorrência, qual(is) atitude(s) aconselharia para novos escritores? O que eles devem enfatizar? 

BC: Cada um deve levar seu projeto literário e suas diferenças até as últimas consequências.

CdL: O humor tem qual espaço na sua obra? Se fosse defini-la em uma característica, qual seria?  

BC: Geralmente, o humor não está muito aparente no que eu escrevo. O Reprodução é uma exceção.

CdL: Após 20 anos de sua estreia como escritor, como você olha para sua própria obra?

BC: Fiz o que deu pra fazer.

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Por Fred Linardi

zeitounO absurdo é um privilégio que a realidade tem sobre a ficção. Em literatura de não ficção diversas vezes essa ideia vem à tona: se fosse uma história inventada, seria muito difícil de convencer. Essa ideia ecoa o tempo todo no livro Zeitoun, de Dave Eggers, publicado no Brasil pela Companhia das Letras. Foi o primeiro contato que tive com esse escritor cujas publicações até então abarcavam principalmente a literatura ficcional, exceto por O que é o quê?. Antes de folheá-lo, tampouco entendi seu título, o que se esclareceu assim que li a sinopse desta grande-reportagem que conta a história de Abdulrahman Zeitoun, um morador de Nova Orleans que vivenciou os dias em que a cidade ficou submersa após a passagem do furacão Katrina, em agosto de 2005.

Quando digo que seria absurdo demais para ser uma ficção, não me refiro apenas aos desdobramentos que misturam num ambiente hostil provocado por um desastre natural ao lado da reação não menos trágica por conta das decisões políticas de um governo cego por suas próprias neuroses, preconceitos e autoritarismo – isso tudo seria de fato um tempero à la Kafka, como indica uma das citações estampadas da quarta capa do livro. De fato, os desdobramentos, capazes de fazer a leitura acelerar na medida em que as águas do mar sobem a cada metro da cidade, fazem com que o leitor corra rapidamente pelas páginas acompanhando passo a passo, remada a remada, a inédita rotina de um homem ilhado em Nova Orleans. Provável também que leitores se lembrem de Ensaio sobre a Cegueira, de José Saramago. O clima vai ficando cada vez mais – e mais uma vez – absurdo.

Sim, os estragos do Katrina e do governo Bush dão uma ótima trama, mas o grande trunfo do livro é a percepção de Eggers ao encontrar a história da família Zeitoun, tomando-a como um dos exemplos do que aconteceu com centenas de pessoas como eles. E eis o perfil dos personagens: Abdulrahman Zeiton veio da Síria para os Estados Unidos e conheceu Kathy, uma americana de Baton Rouge, capital do estado de Lousiana. Ela, que já tinha uma simpatia pelo islamismo, acabou caindo nas graças daquele imigrante, converteu-se e se casou com ele. Foram para Nova Orleans, onde ele começou a exercer sua inteligência como mestre de obras, cuidando, reformando e restaurando acabamentos das casas de seu bairro e de outros. Sua reputação foi rapidamente comprovada pelos clientes que aumentavam a cada ano, prosperando e fazendo com que Kathy se tornasse também sua companheira de empresa. Trabalhavam de segunda a sábado – e às vezes também aos domingos. Prezavam pela beleza das casas, escolas, igrejas, escritórios, que um dia um furacão de grandes proporções haveria de destruir.

O livro não se debruça em ironias como essa: um muçulmano cuidando dos prédios de um país que teme a destruição pelos muçulmanos. Não é preciso fazer analogias como essa. O que vale é apresentar de maneira natural o cotidiano normal de algo que todos sabemos que sairá de controle em breve. Aliás, se existe uma sutileza neste livro ela está exatamente na maneira que Eggers escolhe para narrar, mostrando um discurso próprio de bons romancistas, como acontece neste trecho em que a tragédia ainda não aconteceu e estamos apenas conhecendo a rotina do casal Zeitoun e de seus filhos Zachary, Nademah, Aisha e Safiya. Na cena em que a mãe os põe para dormir, contando histórias e os aconchegando duas noites antes do furacão possivelmente chegar à cidade, nos deparamos com este terno momento: “Mais tarde, depois de dar um beijo de boa-noite em Zachary, Kathy se deitou na cama de Nademah e as meninas se acomodaram à sua volta, provocando uma confusão de membros e travesseiros sobrepostos.”

Enquanto temos um marido confiante de que aquele seria mais um alarde precipitado, como acontecia todos anos – de que o furacão perderia força no Golfo do México – Kathy, por via das dúvidas, deixa a cidade com as filhas. O autor também sabe construir bem a ideia de família sólida – talvez retratada como feliz e perfeita demais para ser verdade. Mas o fato é que entramos na vida dos Zeitoun pré-furacão com a crença que tudo poderia acontecer com eles, mas não uma tragédia. Eles já superaram preconceitos sociais, religiosos, culturais e não merecem que algo de ruim lhes aconteça. Mas o Katrina chega para desafiar a aura feliz de pais e filhos exemplares que os Zeitoun são. Assim como aquela cidade, conhecida pelo Mardi Gras, pelo seu jazz e seus blues, terá sua atmosfera calorosa e festeira arranhada pela violência às quais os moradores remanescentes da evacuação estarão vulneráveis.

A partir de então, temos uma narrativa que se alterna com o olhar da esposa vendo notícias sobre a cidade, enquanto o marido vê apenas o que seus olhos conseguem alcançar, já que a energia elétrica seria interrompida não muito tempo depois da destruição dos frágeis diques. Outro jogo do acaso: Zeitoun vem de uma família de pescadores e trabalhadores marítimos e, pelo fascínio pela água, havia comprado um bote para usar em horas de lazer, a contragosto da esposa. É neste bote que ele sai remando pelas ruas de seu bairro. Em casa, tenta vedar as goteiras e protege os álbuns de fotos. Enquanto isso, constantes flashbacks nos levam à história das famílias de origem do casal.

Os fatos que se sucedem abrem espaço para uma crítica contundente em diversas passagens do livro, principalmente no que se refere às decisões de um país com medo de ataques terroristas numa cidade devastada por um desastre já consumado e consumindo mais vidas a cada dia, enquanto militares procuram por saqueadores e bandidos em detrimento das vítimas.

Apesar do livro de quase 400 páginas ser dividido em apenas cinco capítulos, a quantidade de respiros e alternância de cenas abrandam a leitura (e, prepare-se, pois o enredo fica cada vez mais denso e crítico). Qualquer descrição além deste início dramático se trataria de spoiler, e um dos prazeres de se ler essa história temperada por atitudes desastrosas e maldosas é – assim como os Zeitoun – não saber o que acontecerá nas horas e nos dias seguintes.

A estrutura deste livro-reportagem parece feita já para ser adaptada ao cinema. E de fato ele já se encontra em pré-produção, sob direção de Jonathan Demme. Diante do sucesso que filmes biográficos têm feito, há de se vislumbrar que o mesmo aconteça nas mãos deste competente cineasta. Enquanto isso não acontece, temos um livro com qualidade literária, aprofundamento de pesquisa e registro da história vivenciada por uma família. Registro este que confirma o pensamento e as atitudes políticas e sociais de uma democracia falha em momentos de crise, que marcaram a primeira década do ano 2000 nos Estados Unidos, mas que na verdade, mostra-se uma constante cultural de um país que se diz uma nação de cidadãos livres.

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Na década de 1980, Reinaldo Moraes fez muito barulho no meio literário com seus dois primeiros livros, Tanto faz, de 1981, e Abacaxi, de 1985. Depois disso, ouve um grande hiato até que o escritor publicasse o seu terceiro romance, Pornopopéia, de 2009, uma das obras mais elogiadas dos últimos anos na literatura nacional. Não que tenha ficado apenas de pernas para o ar ao longo de todo esse tempo, mas o foco da produção estava em contos e literatura infanto-juvenil. Confira abaixo a entrevista que fizemos com o escritor, que deu respostas extremamente sucintas para todas as questões abordadas. Torcemos para que Moraes não economize as palavras e ideias também em seu próximo romance. 

Canto dos livros: Pornopopéia foi um livro muito bem aceito pela crítica e pelo público (ainda que isso não represente grandes vendas, necessariamente). Você esperava que ele tivesse essa recepção?

Reinaldo Moraes: Esperava bomba ou indiferença. Ou ambos.

CL: Passado alguns anos de seu lançamento, já é possível avaliar a importância desta obra dentro da sua trajetória literária?

RM: Prefiro fugir a esse tipo de auto-avaliação. Sento, escrevo o próximo livro, e só.

CL: Suas obras costumam conter muitas cenas de sexo. Na sua opinião, o que é uma boa cena de sexo na literatura? Quais os grandes exemplos que temos? Quem consegue transformar o ato em palavras com maestria?

RM: Belos motes para um belo ensaio. Mas não serei eu a escrevê-lo, velho.

CL: Seus escritos também costumam tratar bastante dos submundos da cidade e das pessoas que por ele transitam. Por que escrever sobre esse universo? Como você se relaciona com ele?

RM: Imagino que as respostas a essas questões estejam lá nas próprias histórias que escrevi. Deveriam estar, pelo menos.

CL: Alguns de seus personagens são bastante machistas (como o Zeca, de Pornopopéia). Já teve problemas por conta disso? Alguma história curiosa?

RM: Eu não tive nenhum problema com isso. As mulheres até me contam que gostaram do jeito desgraçado de ser do Zeca.

CL: Muitos escritores têm uma relação bastante obsessiva com o processo de reescrita, elaborando alguns trechos dezenas de vezes. Como isso se dá com você? O que pensa a esse respeito?

RM: Reescrevo milhões de vezes. Escrever é reescrever, já disse alguém.

CL: Indo mais além, como funciona o seu processo criativo e produtivo? Onde busca inspiração?

RM: Na cabeça. Literatura, como sexo, é uma coisa mental. Da Vinci concordaria comigo, já que a frase original é dele.

CL: Quando deverá ficar pronto o seu livro para a coleção Amores Expressos, da Companhia das Letras? No que a viagem ao México te ajudou na composição da história? O que pode antecipar desta obra?

RM: Lá por 2014. Não gosto de falar sobre o que ainda não escrevi. Estou nos finalmente de outro romance. Também não quero falar dele, por preguiça e superstição.

 CL: Em escritores com tanto tempo de estrada, é comum, com o passar dos anos, notar transformações. Como você percebe o amadurecimento do seu trabalho? Não só a questão estética e temática, mas, fundamentalmente, o que mudou do Reinaldo Moraes autor de Tanto Faz ou Abacaxi para o Reinaldo Moraes atual?

RM: Aí, cumpadre, você é que vai ter que ler a bagaça toda e me dizer.

CL: A sua produção de contos também é relevante. Há alguma preferência da sua parte por escrever conto ou romance? Por quê?

RM: Prefiro romance. Tenho 1,92m. sou um cara comprido que gosta de narrativas compridas.

CL: Você fez a tradução para o português de Mulheres, de Charles Bukowski. Qual a importância de traduzir uma obra do velho safado? Como foi a experiência? Quais as peculiaridades e dificuldades deste trabalho?

RM: Adorei traduzir Mulheres., mas podia ter ficado melhor. Sou um tradutor muito improvisado. Sobre a minha relação com o velho Buk, dá uma olhada nisso aqui.

CL: Certa vez, quando perguntado sobre o que achava sobre a abordagem da literatura contemporânea em gêneros como o regionalismo, você disse que, após Guimarães Rosa, as produções nesse sentido tendem a ficar “meio capengas, quando não ridículas”. Não acha que praticamente tudo, se comparado aos grandes mestres, corre o mesmo risco? O que fazer para lidar com essa questão limitante, que pode impedir novos fenômenos (de qualidade) de surgir por medo de parecerem ridículos quando comparados a quem já fez história?

RM: Caceta, sei lá, bicho.

CL: Você também já afirmou que “tem muita gente escrevendo por aí que eu não conheço e nunca vou conhecer, porque simplesmente não dá tempo de ler nem sequer uma boa amostra da produção brasileira contemporânea”. O que pensa sobre essa produção exorbitante? Como seleciona suas leituras?

RM: Leio o que estiver mais ao alcance da mão. Prefiro beber a ler.

CL: Aproveitando a pergunta anterior, quais os livros que estão na sua fila de espera para leitura?

RM: Todos os livros que me deram nos últimos anos.

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Por Fred Linardi

Ao escrever Na pior em Paris e Londres, Eric Arthur Blair ainda não era conhecido como George Orwell e, claro, não havia escrito os clássicos 1984 e A revolução dos bichos. De fato, essa narrativa de não ficção foi seu primeiro livro.

Sua premissa parece uma ideia que já passou pela cabeça de muitos: numa arriscada aventura, o autor decidiu que viveria como um jovem miserável pelas cidades de Paris e Londres, usando roupas de segunda mão e procurando empregos direcionados para pessoas naquela condição social. Simplesmente isso.

Os altos e baixos da vida um tanto vagabunda e desesperadora o fizeram passar fome e ser pressionado pelas cobranças de aluguel do seu miserável cubículo em Paris, infestado de percevejos. Foi também na capital francesa que ele batalhou por empregos como professor ou qualquer coisa que lhe pudesse trazer uma sobrevivência mais digna. Com incertezas e dias de estomago vazio, fixou-se como lavador de pratos de um hotel, onde conseguiu ficar a maior parte do tempo.

Entre o próprio emprego e os bares que frequentava, o escritor inglês soube aproveitar o encontro com personagens de vidas semelhantes a ele e ilustrá-los como retratos daquela realidade. Nesses meados dos anos 1920, Orwell conseguiu informar o que acontecia entre as ruas repletas de pessoas que viviam à margem da sociedade europeia, como eram tratados pelos patrões, colegas de trabalho e como era o relacionamento entre os próprios miseráveis que acabou conhecendo. É em Londres que o jovem escritor tem uma grande rotação entre albergues de todos os tipos e conta como esses lugares funcionam e quais são as condições de hospedagem.

Entre as ideias e ensaios sobre as experiências nesta rotina, os episódios são narrados com requintes textuais que mantêm o interesse pela leitura, por mais grotescos que sejam os casos contados pelos homens e mulheres que cruzavam seu caminho. Algumas vezes os depoimentos duram por quase todo um capítulo curto e pontual, mas também incrementados de ótimas reconstruções de cenas que projetam os ambientes de forma vívida.

Além de imprimir uma realidade à parte, o livro revela um enérgico jovem escritor. Na pior em Paris e em Londres manteve-se inédito no Brasil até 2005, quando foi editado pela Companhia das Letras em sua já notável coleção Jornalismo Literário. A narrativa revela a possibilidade de se fazer reportagem pela sua maneira mais radical, ou seja, retirando-se do escritório e vivenciando um determinado tema. Orwell não chega às últimas consequências, como décadas depois o Jornalismo Gonzo faria, nas mãos de seu mais ilustre representante, o americano Hunter Thompson. Talvez esteja aí o equilíbrio deste trabalho de Orwell, onde é perceptível seu cuidado em voltar vivo para contar a história.

Ainda bem, pois dentro dos seus trabalhos de não ficção, ele ainda escreveria os notáveis Dentro da baleia e A caminho de Wigan, refletindo sobre a sociedade e a política. De forma mais direta e pessoal, seus ensaios prevêem a qualidade narrada e a profundidade filosófica contida em seus clássicos romances posteriores.

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