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Posts Tagged ‘Crash’

Por Alberto Nannini

fim-fernanda-torres-tipssFernanda Torres é um pouco irritante. Quer dizer, ela parece ser uma pessoa bem bacana e divertida fora do palco; mesmo sendo filha da melhor atriz brasileira da história, ela é uma atriz excelente, cheia de recursos, comediante com timing invejável. Como se não bastasse, é uma ótima cronista. E agora, resolveu ser escritora também, com a costumeira excelência. Precisava mesmo ser boa em tudo?

Brincadeiras à parte, imaginei que as críticas generosas a seu primeiro romance, Fim, fosse mais por boa vontade dos vários amigos e conhecidos que ela deve ter, e da legião de admiradores que certamente tem, do que por mérito literário.

De qualquer forma, eu tinha que ler para dar meu veredicto, até porque nem sempre eu e a crítica geral afinamos nossos gostos. Há coisas que os críticos dizem ser sensacionais, e que eu acho péssimas (como exemplo, me vem à cabeça o filme Tabu, de Miguel Gomes). E há coisas que eles detestam, e eu gosto muito.

Enfim, li o livro da Sra. Fernanda Torres, com uns sete pés atrás.

E tenho que me render – o livro é ótimo.

Os fins

Um grupo de cinco amigos, separados, relembram episódios de suas vidas, e também atividades do dia a dia e a amizade que os unia, pouco antes de suas mortes, quase todos já velhos. Assim, o livro é dividido em cinco capítulos – cada qual narrado segundo a perspectiva de um dos integrantes do grupo, e intitulados com os nomes deles: Álvaro, Sílvio, Ribeiro, Neto e Ciro – e completado por um último capítulo, cujo título é “O próximo”.

Na página que inicia os capítulos, vem o nome do narrador e uma inscrição com as datas de seu nascimento e morte, como numa lápide. A narrativa é em primeira pessoa, e traz as memórias dos personagens e transcrições de seus pensamentos, enquanto fazem suas atividades rotineiras. Daí, as vozes vão se alternando, até seu último dia. Como as datas de óbito são afastadas, também vai se falar como as mortes dos primeiros afetarão os ainda vivos.

Estas digressões, pensamentos, diálogos e comentários entregam personagens esplendidamente construídos, absolutamente reais em suas mágoas e mesquinharias, de perfil psicológico consistente e de fácil identificação.

Isso, por si só, já é um grande mérito.

Mas a construção é ainda mais elaborada, porque, pelo fato deles serem amigos, comentam uns sobre os outros constantemente, e assim, entregam mais detalhes de seus comportamentos e atitudes, além de pontos de vista alternativos para alguns eventos-chave.

Ou seja, Fernanda conseguiu um feito e tanto, ao estabelecer uma narrativa que é perpassada pelas outras vozes o tempo todo, sem nunca perder a identidade de cada um, e ainda revelar mais destas identidades na visão inimitável e privilegiada que só o outro pode ter.

Os meios – demais personagens

A proeza de ter encadeado as vozes de cinco personagens, sem perder as características de cada um, é aumentada, porque há também as falas dos coadjuvantes, em subtítulos. E estes aparecem em mais de um relato dos protagonistas: são as esposas, ex-namoradas, filhos e filhas, dentre outros; todos igualmente bem construídos. O ponto de vista deles enriquece mais ainda o cenário desenhado e dá novas nuances às personalidades dos cinco amigos e a alguns dos fatos que eles relatam.

A teia de protagonistas e algumas das pessoas que gravitam em torno deles é uma microrreprodução do mundo: seres reais, que convivem e tem suas visões sobre as coisas e pessoas, que tem seus segredos e frustrações, e que confundem as memórias com os fatos.

Este pequeno recorte que Fernanda fez, das vidas e situações de todos os personagens que desfilam pelas 200 páginas, é em tudo fiel à realidade, e traz todos os ingredientes que conhecemos bem aqui fora do papel: esperança, sonhos, escolhas boas e ruins, anseios, alegrias, segredos, mágoas e desencontros, e também humor, tragédia, e muita, muita beleza.

Uma ideia de enredo tão simples, mas imensamente trabalhosa, que poderia desandar ao menor descuido – que felizmente, Fernanda não comete.

Uma pitada de humor…

Eu esperava humor vindo de Fernanda Torres, comediante de primeira linha. E claro, há até bastante dele no livro, mas muito cadenciado. De fato, o humor é aquele que vem do inusitado, ou mesmo daquela sensação de que a vida é mesmo uma grande comédia, com suas idas e vindas.

Acho dificílimo escrever algo engraçado; são necessárias sutileza e elaboração muito delicadas, para não cair em algum extremo, como o grotesco ou o patético. Para ser bem sincero, houve duas ou três vezes durante o livro que parecia que a “Fernanda-comediante-do-imaginário-comum” estava escrevendo, com situações que pareciam vindas de alguma de suas comédias encenadas. Mas isso passou tão rápido como uma brisa, e a leitura prosseguiu, fluindo daquela maneira gostosa que vamos lendo sem perceber as páginas sendo viradas.

Então, na absoluta maioria das vezes em que o humor apareceu, veio de maneira perfeita – arrancando o riso como um ato reflexo, do qual só vamos nos dar conta do porquê rimos depois de já tê-lo feito.

… e uma de atrevimento

Já seria uma obra notável e uma estreia impressionante se ficasse nisso. Uma história correta, bem costurada, verossímil e divertida. Mas talvez alguém dissesse que faltou um pouco de imprevisto. Seria ainda uma obra de arte, como um quadro pintado com perfeição fotográfica, como os de Almeida Júnior – mas talvez carecesse de uma pitada de ousadia.

Nem isso faltou.

A danada da Fernanda ousou sim, e de maneira magistral, no final de seu romance, com algo que não pode ser entendido de imediato. Enquanto eu lia, fiquei aventando possibilidades, mas o mistério só é revelado no final (não se preocupe, isso não é um spoiler, nem quebra o encanto de ler a obra).

Há um sutil toque de fantástico no enredo – exatamente igual acontece no dia a dia. Basta ler o noticiário para o fantástico e o absurdo saltarem aos nossos olhos e estapearem as nossas caras.

Por isso, achei a última travessura da genial autora formidável, que deu ao livro aquela particularidade para não apenas torná-lo correto e bem escrito, mas ímpar.

Outra beleza

Fernanda Torres demonstra com esta obra ser uma ouvinte e uma espectadora atenta do cotidiano, e alia a isso a sensibilidade de mostrar que o dia a dia, o comezinho, as vidinhas que acendem e apagam todos os dias no mundo tem, em si, a mesma força que acendeu as estrelas.

E como tudo isso – a obra, a vida, a morte – é essencialmente belo, cabe traçar um paralelo com outra obra, em outra mídia, que toca nestes mesmos temas: o corriqueiro, as impressões dos outros, a vida normal que nunca é normal, e a morte e sua imprevisibilidade, que dá sentido a tudo.

É o filme Beleza americana.

beleza-americana

Ambas as obras falam da morte. Beleza americana é narrada postumamente por Lester Burnham, medíocre funcionário que segue emasculado e submisso a todos: aos chefes, aos clientes, à mulher e à filha. Ele é uma piada, até o dia em que resolve virar a mesa e começar a fazer o que quer e o que gosta.

***(Em off: quanto há de Lester Burnham em mim? E em você?)***

Em dado momento de sua vida, depois que ele rompe suas amarras, as coisas ficam bem esquisitas. Sua mulher o trai, sua filha o despreza, ele larga o emprego e se envolve, inadvertidamente, com tipos estranhos, como o garoto vizinho, que tem fixação pela sua filha e lhe fornece maconha, e o pai dele, ex-militar durão e preconceituoso, que talvez seja algo bem diferente por debaixo da casca. E a amiga da filha, uma jovem que ele tenta seduzir, e que parece experiente.

Bom, não vou publicar spoilers do filme, apesar dele ser já antigo (2000) e de ter passado inclusive na TV aberta. Se você já assistiu, sabe aonde quero chegar – a ironia e a fragilidade da vida, contada com humor mordaz – que bem pode ser uma descrição do magistral livro de Fernanda Torres.

A protagonista oculta

morte2A morte, esta desconhecida tão familiar, espreita em ambas as obras, e é enquanto ela não chega que as tramas vão se desenrolando para os narradores, e – surpresa! – continua se desenrolando depois que ela lhes alcança com seu derradeiro toque. 

Isto é significativo, porque a morte é o Fim, como bem batizou Fernanda Torres, mas não se sabe qual fim. Se definitivo, se só passagem, se uma porta para o nada, ou para o tudo. Mas o que se infere destas obras é que o sol continuará a nascer, depois da sua morte, não importa o que você tenha chegado a ser. Que o mundo continuará basicamente o mesmo. Que você viverá nas memórias e impressões dos outros, e esta será sua sobrevida. Que a pessoa que você é acaba quando descer o caixão, mas que sua lembrança seguirá, enquanto os que te conheceram viverem.

E que até isso acontecer, você viverá, talvez, como cantou Sinatra, com duas doses de alegria para uma de tristeza. E então, deixará tudo isso para trás, na vida como carne e osso. Ou seja, independente do que você creia para depois da morte, a sua singularidade – Fulano(a) de Tal da Silva, filha de Sicrano e Beltrana – jamais se repetirá no universo conhecido.

Há que se ter humor para se encarar esta implacável verdade.

Influências cinematográficas?

Mas nem só de morte vive este romance. Há muito a acontecer, antes de ela chegar. Sobre influências da autora, arrisco dizer, sem ter certeza, que ela seja cinéfila, porque não apenas enxerguei paralelos evidentes, mas também entrevi influências de filmes consagrados no seu enredo: Magnólia, de Paul Thomas Anderson, Short Cuts, de Robert Altman e Crash, de Paul Haggis – todos eles com diversos personagens, em tramas que são cuidadosamente entrelaçadas, embora pareçam independentes. E também pelo fato de todos serem obras que ganham muito numa segunda visita – para perceber sutilezas, dicas e autocitações, que escapam na primeira leitura.

Os personagens de Fim, em minha opinião, alcançaram a mesma profundidade dos destes filmes, se não foram além, porque uma interpretação possível demonstra que a interação dos cinco protagonistas uns com os outros, durante a maior parte de suas vidas, foi de tal forma intensa e próxima que os moldou e imprimiu neles marcas definitivas. Embora esta seja uma extrapolação da leitura, é perfeitamente cabível, exatamente da mesma maneira que acontece “aqui fora”. No livro, se percebe o amigo infantilizado, o recalcado, o canalha, o certinho, todos eles se assumindo, se transformando e se reforçando, conforme o convívio entre eles acontecia.

Aliás, outro mérito foi a tranquilidade da autora em dar vozes masculinas a seus personagens. Ela reproduziu perfeitamente expressões, palavrões e visão de mundo essencialmente viris. Embora haja um tanto de chavões nelas, percebi também algumas sutilezas, que fogem do imaginário comum de que todos os homens são mulherengos (convictos ou disfarçados) e machistas.

Enfim, acredito que o fato de Fernanda ser uma atriz, ter vivido desde sempre entre artistas e atores, e ter que interpretar e contracenar com personagens que são construídos segundo um roteiro, tenha sido determinante para conseguir montar personagens tão ricos, tão multidimensionais e tão interdependentes, como são os de seu livro. Dá a nítida sensação que ela “conhecia” mais os personagens, em suas nuances, do que pôde relatar no papel.

Oh, crianças / Isso é só o fim”

O tom escolhido para alguma obra que imite a vida (todas?) depende do autor. Pode ir de tragédia à comédia, mas eu, particularmente, gosto bastante quando este tom se situa entre ambas, ou vai de uma a outra, sem se firmar.

Fim pende mais para a comédia, mas é por meio dela que também dramatiza, trazendo dilemas e vidas tão iguais as nossas, com toda a sensibilidade que os escritores seguros têm. Achei notável a estreia de Fernanda, e me surpreendi positivamente – e parece que não estou sozinho: o livro continua bem comentado e a autora aceitou o convite e confirmou a presença na Flip 2014 (Festa Literária Internacional de Paraty, que acontecerá de 30 de julho a 3 de agosto).

Falar sobre este pequeno intervalo entre dois períodos de tempo absolutamente desconhecidos – que nós chamamos de vida – brincando com a impermanência, com o cotidiano, com a vaidade e a forma aleatória com que tudo acontece, e de quebra, arrancar risos, fazer refletir e deixar uma sensação de bom tempo gasto, é tudo o que um bom livro pode desejar.

Em minha opinião, Fernanda Torres alcançou com méritos este Fim.  

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Eric Novello é o tipo de cara que faz trocentas atividades diferentes, mas todas elas ligadas por um mesmo fio: o das letras. Além de fazer leituras criticas e copidesque de originais de livros, é critico de cinema, música e literatura, roteirista e tradutor. Escreveu o romance histórico Dante – O Guardião da Morte, o romance de humor Histórias da Noite Carioca e o suspense de fantasia Neon Azul. Também já participou como autor e/ou organizador de antologias de contos, como a Imaginários  e a Paradigmas Vol. 1, ambas de fantasia, ficção-científica e terror. Parte de sua produção está disponível em seu site , na seção de textos online. O escritor ainda possui o recém-nascido Magos Urbanos, blog onde fala sobre seu processo de criação de um projeto de fantasia urbana. E para conversar de escrita, tradução, mercado editorial e possibilidades para novos escritores, dentre outros assuntos, é que conversamos com Eric.

Canto dos Livros: Atualmente você trabalha apenas com texto, seja escrevendo ou realizando traduções, certo? Como você conseguiu atingir esse patamar almejado por tantos autores?

Eric Novello: Bem, tudo na vida é uma questão de ter metas e objetivos claros e… mentira. Não tenho uma resposta edificante para essa pergunta. Aconteceu, sem nenhum planejamento. Fui aproveitando as oportunidades que surgiam de sair da área científica (Biotecnologia/Farmácia/Bioquímica de Alimentos) e migrar para a área de criação (Cinema/Literatura) e cá estou. Como pauto minhas escolhas pelo prazer que terei com elas e pelo horário em que terei que acordar, não tive muita dúvida de que caminho seguir. É menos uma questão de saber para onde ir e mais de saber para onde não ir. Acabou que hoje trabalho com o que gosto, ganho o suficiente para não arrancar os cabelos e posso estourar meu reclamômetro com outros assuntos.

CL: A leitura de quais obras e autores é imprescindível para quem quer ser escritor?

EN: Não creio que hoje existam autores imprescindíveis. Conhecimento nunca é demais, isso é fato. Quem se acomoda em um determinado gênero ou autor carece de bagagem para escrever uma boa história. Por outro lado, é cada vez mais complicado gerenciar o nosso tempo. Nem chamo mais de tempo livre, porque isso para mim não existe. Então, cada um deve saber no que apostar.

Vamos começar pelo óbvio. Como autor, seria interessante pensar que obras dialogam com o seu trabalho. Se você irá escrever ficção-científica, leia muita FC. Se irá apostar em distopias, leias as distopias. Se decidiu ser um autor de literatura noir, policial, terror, escolha livros e autores icônicos do gênero e leia muito. Se escreverá literatura do cotidiano, mergulhe fundo também.

Não existe uma fórmula. Pode ser que o gênero não seja o seu foco, e sim um aspecto específico: traição, solidão, sexo, triângulos amorosos. Talvez você tenha mais interesse na estrutura do que no assunto. Seja um garimpeiro literário e expanda sua visão ao máximo.

Sobre instrumentação, eu fujo de livros de teoria literária. Porém, amo os de teoria de cinema. Um livro que influenciou muito o meu modo de compor personagens é O Nascimento da Tragédia, do Nietzsche, que li pela primeira vez para as aulas de estrutura dramática da escola de cinema.

Deixo aqui uma lista breve de autores e livros que me influenciaram e influenciam, caso queiram pesquisá-los: Crash (JG Ballard), Trem Noturno (Martin Amis), Fim de Caso (Graham Greene), Invisível (Paul Auster), Coração tão branco (Javier Marías), As Brasas (Sándor Márai), Ubik (Philip K. Dick), White Knight (Jim Butcher), Laranja Mecânica (Anthony Burgess). Todos livros fáceis, nada de outro mundo. Curiosamente, todos trazem personagens extremamente miseráveis em algum aspecto de suas vidas.

CL: O que acha das editoras especializadas em publicar novos autores? Publicar desta forma ou num selo do tipo “Novos Escritores” pode estigmatizar um autor?

Seja lá qual for o esquema de publicação, o que vale é a qualidade do seu texto. Daí vem a pergunta: essas editoras têm algum critério de qualidade na hora de publicar os novos autores ou é só apresentar o texto, pagar e pronto?

Se o seu texto for bom, é essa a etiqueta que prevalecerá. Se o seu texto for uma porcaria… É claro que cada um tem uma opinião, gosto é gosto, e todo aquele papo que a gente já conhece. Mas se você escreve mal, não tem tempero que disfarce o gosto amargo. Não digo que o primeiro texto de alguém será perfeito, espero que o mais recente seja sempre o melhor, mas é preciso ter um mínimo de critério com o que se pretende apresentar ao público. Quando o autor não tem esse critério, cabe ao editor explicá-lo. Se o editor é falho, quem se ferra é o autor.

CL: Como é organizar uma antologia de contos?

EN: Imagine um mago, trancado numa cela, precisando conjurar um demônio para escapar. Ele não tem os ingredientes certos, ele não está nas melhores condições, o tempo é curto, a chance de dar errado é grande e provavelmente o demônio, se sobreviver, sairá do seu controle. É exatamente assim.

Cada vez que começo, fico me perguntando “por que mesmo fiz isso?”. Mas logo que termino já penso na próxima. Cada coletânea que organizei até agora me trouxe experiências completamente diferentes, então não tenho muito como organizar um raciocínio em torno. Diria que a única coisa que acho realmente importante na hora de decidir o tema e perfil de uma coletânea com os editores é abrir espaço para novos autores. O resto varia.

CL: Por favor, explique como é o trabalho de copidesque. Em que ele difere de uma outra atividade sua, a leitura crítica da obra?

EN: Na leitura crítica você analisa um original e no final escreve um laudo para o autor ou editor, descrevendo o que achou falho no livro. Recomendo o filme ou a peça de teatro The Bluetooth Virgin, uma comédia independente, para quem quiser entender melhor o processo. Tem uma cena hilária em que o autor (no caso, um roteirista) se encontra com a guru que analisou o seu original e conversa sobre os motivos do fracasso.

O copidesque é um trabalho intrusivo. Eu mexo no texto, reescrevo frases, busco pontos desconexos, sempre respeitando o estilo do autor, sua escolha de palavras. Você não pode pegar um livro romântico e transformar num suspense só porque não gosta do primeiro gênero. Vale lembrar também que as alterações são marcadas no texto para que o autor decida aceitá-las ou não. Se eu achar algo muito ruim e o autor decidir que aquilo é fundamental na qualidade da obra-prima dele, não discutirei.

CL: Copidescar um livro exige, entre outras coisas, muita liberdade e até intimidade com o autor, certo? Como você seleciona os autores que irá trabalhar? Já teve algum problema com isso? Qual(is)? Quais dicas daria pra quem vai trabalhar como ou com um copidesque?

Já fiz trabalho de copidesque sem nenhuma intimidade com o autor e é algo que não pretendo repetir, mas não quer dizer que não possa ser feito. O importante é o profissional de copidesque ter um mínimo de intimidade com o gênero com o qual trabalhará para evitar burradas que já vi por aí.

Eu hoje prefiro trabalhar com novos autores de fantasia. Gosto de ajudar novos nomes a dar um primeiro passo dentro de um gênero que curto.

Problema sempre há, só muda a intensidade. É muito difícil mexer no texto dos outros, é muito doloroso deixar alguém mexer no seu texto. Mas é necessário, e se não houver confiança, o trabalho não vai para frente. Você deixaria alguém em quem você não confia palpitar na sua vida? Um bom conselho é um conselho sincero ou aquele que diz o que você quer ouvir? A ideia por trás do copidesque é a mesma. O amadorismo literário traz a falsa noção de obra-prima intocável, seja um autor estreante ou um com alguns romances na bagagem. Tem gente que escreve uma porcaria de texto e se apega aquilo com todas as forças, não se permite mudar.

Em compensação, quando ocorre o inverso, é muito gratificante ver a evolução do autor desde a primeira versão do original até a versão final e de um livro para o outro.

A minha dica é transformar o trabalho em uma sessão de brainstorming, a via é de mão dupla.

CL: Nos seus livros você trabalha muito com o tênue limite entra ficção e realidade. O que você acha da literatura de não ficção?

EN: Leio literatura de gênero e do cotidiano na mesma proporção. O que importa é que sejam bons autores, boas histórias, ou que me ofereçam o que estou procurando naquele instante. Não vou esperar que Charlaine Harris me traga o mesmo que Philip K. Dick, ou que esse me traga o mesmo conteúdo que um Haruki Murakami ou Javier Marías. São aulas diferentes, digamos assim. O conteúdo da aula de Parasitologia é diferente do conteúdo da de Microbiologia. Existem autores contemporâneos muito bons em todos os gêneros. Seja você autor ou leitor, aconselho que se leia um pouco de tudo. Não se force a nada, porém não se acomode.

CL: Como funciona o trabalho de pesquisa para a redação de uma obra com bases históricas reais e mitológicas, como Dante, o guardião da morte?

EN: É um processo exaustivo, mas gostoso. No caso do Dante, eu sou fascinado pela Roma Antiga e por Julio César, então sabia onde estava mirando. A pesquisa precisa ser equivalente ao nível de detalhes que você pretende adotar no livro. E se pensarmos nesse aspecto, o Dante não pode ser usado como exemplo, porque eu decidi tomar liberdades para o andamento da trama. No livro você vê a minha versão de Roma. Diria que a minha preocupação foi com a ambientação e não com a recriação. A ambientação em Dante é um elemento tão fantasioso quanto a presença dos deuses imortais que permeiam o livro. Funciona? Acredito que sim. Passaria pelo crivo de um historiador? Certamente não.

CL: O que pode dizer sobre o mercado brasileiro? Na sua opinião, a afirmação “o brasileiro não lê” procede ou é uma falácia?

EN: Essa é fácil. Pegue seu círculo de amigos. Não vale autores! Quantos deles leem? Com que frequência? Agora tire os que leram só Best-sellers e livros de autoajuda. Sobraram quantos? Quando digo que leio um livro por semana (uma média confortável quando não estou atolado de trabalho), muita gente fica espantada. Gente que tem grana para comprar livros, um emprego bom e tempo livre ($) para viajar quatro ou cinco vezes por ano para o exterior acha estranho alguém ler um livro por semana. Se eu dissesse que vejo um filme por semana, o espanto não seria tão grande. Se eu falar que saio para beber toda semana, aí eu seria padrão.

Estou comparando banana com maçã de propósito para mostrar que ser leitor no Brasil ainda é ser um alien. Ler no Brasil não é visto com naturalidade.

Então não existe mercado? Claro que existe, com o público “jovem-adulto” fazendo a diferença em termos de vendas atualmente. Mas o fato de um autor ter rompido a barreira dos 100.000 exemplares vendidos não torna todos os outros Best-sellers potenciais, não importa o quão “acessível” seja o texto. Esse papo de potencialidade pura inerente a cada um de nós cabe melhor na autoajuda, justamente.

O que podemos dizer com segurança é que o brasileiro está lendo mais. Espero que siga daí para cima. Mas não existe mágica. Existe marketing.

CL: No Brasil, ouvimos falar muito de autores, mas pouco de tradutores? Por que isso acontece? Falta reconhecimento para o trabalho de tradução?

EN: A gente também ouve falar pouco de engenheiros mecatrônicos e nem por isso eles deixam de ser valorizados. Existem profissionais especializados no controle de crustáceos que crescem em turbinas de hidrelétricas. Eles são reconhecidos? Mas são valorizados. O mercado de tradução segue as mesmas regras de qualquer outro. Tem áreas que pagam mais, áreas que pagam menos, clientes melhores e piores. Há cursos, faculdade, pós em tradução, ou seja, muitas possibilidades de instrumentação. Eu prefiro ser bem pago (valorizado) a ser “reconhecido”, com muitas aspas, por favor. Não podemos confundir reconhecimento com presença histriônica na Internet e elogio de meia dúzia de amigos. Repito, é um mercado como os demais. Se nos prendermos à literatura, aposto que há ótimos tradutores, premiados, respeitados, e que eu nunca ouvi falar. Em suma, não é porque eu não conheço que não há reconhecimento, não é porque não há barulho que não há valorização. Desconfie de quem faz barulho demais.

Considero uma ótima profissão e dou força para quem quiser se aventurar nela.

CL: Os escritores formam uma “classe” muito desunida. Concorda? Por quê? O que poderia ser feito a respeito?

EN: Quando ouço essa ideia de classe unida e desunida me vem em mente os metalúrgicos do ABC lutando por aumento de salário, redução de jornada. E na literatura não existe isso. É bonitinho falar que somos todos amigos e que estamos no mesmo barco, mas não é real. Eu sou formado como farmacêutico, bioquímico de alimentos. Cada turma de faculdade tinha em média 70 alunos. Conheci mais de 400 pessoas. Eu sou amigo de todas elas só por sermos farmacêuticos? Lógico que não. Então por que seria amigo de todos os autores? É preciso afinidade para se aproximar de alguém. Posso gostar de um autor porque o texto dele é bom, porque ele é uma boa pessoa, etc. Cada um tem aí sua lista de itens que leva a aproximações e afastamentos, uma lista singular e intransferível. Não importa se essa pessoa é um autor, padeiro, arquiteto, empresário.

Alguém pode argumentar que todos os autores têm uma causa em comum e que é preciso união em torno dela. Tem mesmo? Qual seria? Cada grupo terá suas causas, suas lutas, suas discussões internas e sorrisos externos. É assim em qualquer ambiente de trabalho, mesmo nesse que dá mais prejuízo do que dinheiro. A sua causa digníssima pode, para mim, ser uma grande piada e vice-versa. O que existe no ambiente literário é uma capacidade imensa de se unir em torno de um inimigo em comum, o que dá a falsa ilusão de união aqui e ali. Amizade e afinidade são elementos raros em qualquer âmbito, não teria porque ser diferente na literatura.

Se cada indivíduo ou cada grupo batalhasse mais suas próprias causas e perdesse menos tempo destruindo a dos outros, talvez a literatura de gênero avançasse mais e a sensação de união fosse maior.

CL: O que é exatamente a “Fantasia Urbana”?

EN: “Exatamente” e “fantasia urbana” não têm tido um bom convívio faz um tempinho. Eu dividiria hoje o gênero em duas correntes:

A que explora a fantasia em uma cidade contemporânea, seja uma grande metrópole ou cidade periférica a ela, com uma dinâmica que fuja do bucolismo. É o que escrevo. Entram aí nomes como Jim Butcher, Lilith Saintcrow, Charlaine Harris, etc.

Tem um número grande de autores fazendo isso hoje. Discutiu-se há um ano o desgaste do gênero, mas as vendas continuam fortes e os olhos dos editores continuam brilhando.

A que põe a fantasia em uma cidade, seja qual for, de qualquer época. Uma cidade em um planeta distante? Pode ser. Uma cidade medieval? Por que não? Essa corrente foi quase um movimento de resposta à anterior. Alguém gritou “chega de livros que são romances de vampiros com lobisomens” e fez-se a quebra. Estou organizando uma coletânea para a editora Draco chamada “Fantasias Urbanas” que cabe nessa segunda opção.

Hum! Entendi, Eric. Então Crepúsculo é uma fantasia urbana? Não. É um gênero próximo chamado Paranormal Romance ou Romance Sobrenatural.

CL: O que acha dos outros meios de escrita, como HQ’s, e-books, blogs? Também podem ser considerados literatura?

EN: Temos duas coisas diferentes aí. E-books e blogs são veículos para a literatura. Eu posso colocar no meu blog a receita de bolo de cenoura da minha avó e posso colocar um conto. Esse conto pode (ou não) ser melhor do que meus contos publicados em papel. A Internet não o torna um texto menor. Papel não é sinônimo de qualidade. O blog é um espaço e você usa como quiser, inclusive para mostrar a sua literatura. Um e-book também. Ter medo de avanço tecnológico é burrice. Antes de qualquer coisa, eu sou um comunicador e meu site e as ferramentas sociais me colocam em contato com o público leitor. É algo que vale ouro para mim.

HQs eu leio pouco. São leituras muito pontuais, mas tenho um respeito enorme por elas. Justamente por isso, mesmo quando leio, não comento, porque julgo ser necessário um conhecimento maior do que eu tenho. Mas me incomoda isso de chamar HQ de literatura para legitimá-la. Por que ela só teria valor se fosse considerada literatura? Ela não pode ter valor sendo simplesmente “HQ”? Essa é uma discussão longa, teríamos que jogar o conceito de Graphic Novel na roda também. Como eu disse, tem gente mais capacitada para isso do que eu.

CL: Você também é crítico de cinema. Quais foram as melhores obras transpostas dos livros para as telonas? Por quê?

EN: Antes o porquê, depois os filmes. A meu ver, uma boa adaptação é um filme que funciona de forma independente da obra de origem, sendo ou não 100% fiel ao conteúdo do livro. A linguagem cinematográfica é diferente da literária e quem consegue fazer a transposição com qualidade merece mesmo os parabéns. Um filme foda é um filme foda, ponto.

Exemplos que me vêm em mente: O poderoso chefão, Senhor dos anéis, O talentoso Ripley (que os fãs da Patrícia Highsmith geralmente não curtem), 90% dos filmes do Kubrick, muito do cinema noir e, é claro, Crepúsculo (Just kidding!).

Entrevista concedida à equipe

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