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Posts Tagged ‘Damien Hirst’

Por Alberto Nannini

capa  Ricardo Lisias Divorcio.inddTalvez conheça os mindfucks. A tradução literal é bem ilustrativa. Trata-se de uma espécie de quebra-cabeças, geralmente fotos, que parecem normais a primeira vista, mas que escondem algo que só aparecerá com um exame minucioso.

O detalhe dos mindfucks é que eles podem cumprir perfeitamente bem o papel de fotos, a não ser que você saiba que se trata de um mindfuck. Aí, você não conseguirá olhar para foto sem procurar o segredo dela.

  – Galera, aqui na reunião do blog já aviso que pretendo comprar e resenhar o novo livro do Ricardo Lísias.

– Beleza, tente entregar para o mês que vem. Seria legal uma leitura mais crítica.

– É o que pretendo. Acho que tenho uma chave de leitura para este livro.

O escritor mindfucker

Ricardo Lísias escreve uma literatura mindfuck. O autor, já entrevistado pelo Canto, e que teve seu ótimo livro O céu dos suicidas resenhado aqui por dois integrantes do blog (esta é a minha resenha e esta outra, do Rodrigo Casarin) está se especializando em confundir. Você lê achando que já sabe o que irá encontrar, ligado a experiências pessoais. Mas, por saber que ele é um autor ousado, que brinca com a linguagem e com algumas definições estanques da literatura, vai ser confundido, vai pensar no que ele quis dizer além do que disse, e provavelmente, mudará de ideia várias vezes.

Claro que, se você não lê livros pensando em resenhá-los e apenas comprar o último dele – Divórcio – e ler, vai achar curioso o personagem ter o mesmo nome do autor. Vai deduzir que se trata de uma expurgação, de alguém que viveu uma experiência traumática com um divórcio, e resolveu colocar tudo aquilo no papel. Esta teoria vai parecer bem encaixada, porque, com pouca pesquisa, vai ver que não apenas os nomes do personagem e do autor são o mesmo, mas que em algumas partes, a correspondência vai além: o autor/personagem diz que o livro anterior que escreveu é justamente O Céu dos Suicidas, e conta episódios reais, como ter escrito um conto para a revista piauí sobre seu pai e a Copa do Mundo de 82.

– E aí, como está a leitura do Divórcio?

– Travei a leitura, logo no começo. Achei outro livro, chamado Nada, deixei um pouco o Divórcio de lado, não tava fluindo. Vou resenhar o Nada antes, e tento entregar a resenha do Divórcio pro mês que vem.

– Mas por que travou? O que você está achando? 

– Tá meio repetitivo, e parece também uma jornada egocêntrica. Acho que é muita vaidade se colocar literalmente como o personagem, e muita exposição ficar romanceando tudo o que se viveu, literalmente.

Agora, se você conhece um pouco da obra deste autor em particular, provavelmente apurou seus sentidos a ponto de perceber que há mais ali do que está parecendo.

Depurar o gosto literário

A apuração dos sentidos e dos gostos parece um fato inescapável.  O senso artístico também é apurado com o tempo. A contemplação e o consumo da arte vão se sofisticando, quanto mais arte se contemple e se consuma, porque as experiências vão se somando e mudam os referenciais.

Com a literatura também é assim. Você lê um livro, dois, três, dez, dezenas. E começa a comparar tudo o que lê com o que já leu. E vai depurando seu gosto em autores prediletos, tramas prediletas. Chega a ponto de achar que conhece determinado autor.

– Eu acho, caras, que se pode criticar o autor x ou y, baseado no que se conhece da obra dele.

– Mas esta crítica nunca terá autoridade, a não ser que você tenha lido a obra inteira.

– Acho que não inteira, mas pelo menos uns 30%.

– Mas aí é que está: e se estes 30% não forem os mais representativos? Acho que embasar a crítica tem mais a ver com uma leitura coerente, e que se apoie em tudo o que você já leu, do que em se especializar no escritor tal, lendo tudo aquilo que o sujeito publicou.

Mas o suposto conhecimento do autor é uma armadilha – a não ser que seja um escritor medíocre, no sentido de escrever sempre aqueles livros médios e ser “fiel ao seu público”. Ele descobre um nicho e fica nele, garantindo sua fatia de mercado. Este sim pode ser conhecido, porque nunca sairá da sua zona de conforto – o que, aliás, é uma boa definição para mediocridade.

Os escritores mais capacitados não podem ser conhecidos, a não ser postumamente, pelo estudo de sua obra inteira. É o caso de gigantes da nossa literatura, como Machado de Assis, que depois, ao ter sua obra organizada, se constatou que passou por várias “fases” de escrita.

 Bom, vamos retomar a leitura..  A chave é esta: vaidade. Você é vaidoso, Ricardo. (…) Vou utilizar o Livro de Eclesiastes como citação. Vaidade das Vaidades, tudo é Vaidade.(…) Tá fácil de te pegar, Ricardo. Pág 66: “…retomar O céu dos suicidas. No dia seguinte, mandaria finalmente meu conto para concorrer a um lugar na revista Granta…” Vai dizer que não é você, Ricardo?

Sobre um divórcio esfolador

O livro tem o seguinte enredo: o personagem, Ricardo Lísias, escritor e professor, está casado há quatro meses, quando acha o diário que a sua mulher, jornalista, escreve às escondidas. O tal diário tem partes como estas: “O Ricardo é patético, qualquer criança teria vergonha de ter um pai desse. Casei com um homem que não viveu”; “Em Cannes, eu pude confirmar a mulher que sou. As carícias do (cineasta)[x] me desabrocharam”.

A traição é elevada a requintes de crueldade, segundo o narrador, porque o diário foi deixado num lugar de fácil acesso (criado-mudo dela, onde ficavam boletos de contas para pagar), o que presume intenção de ser encontrado ou despreocupação com esta possibilidade; porque o ridiculariza implacavelmente, e porque comprova pelo menos uma traição dela com um cineasta, que participava do Festival de Cannes, que ela cobria.

A metáfora recorrente para explicitar a dor e a fragilidade do personagem é esta: um corpo em carne viva. Ricardo relata que ficou sem pele. Não apenas nu, o que já seria vergonhoso e dolorido, mas sem pele alguma. Hipersensível, e vulnerável a qualquer mínimo contato ou sopro.

Segundo o site do hospital Albert Einstein, veja abaixo o potencial estressante de algumas situações, sendo 100 o maior possível (a fonte citada é The Social Readjustment Rating Scale, dos psiquiatras Thomas H. Holmes e Richard H. Rahe, ambos da Universidade de Washington, nos Estados Unidos):

morte do cônjuge  100
divórcio  73
prisão  63
morte de um parente querido  63
casamento  50
demissão do trabalho  47
aposentadoria  45
reconciliação conjugal  45
gravidez  40
grandes conquistas pessoais  28
problemas com o chefe  23
férias  13

Ou seja, a dor, considerando as particularidades da relação, a personalidade da mulher, a fragilidade do personagem e as circunstâncias traumáticas da descoberta, está bem descrita. Na escala, é o 2º evento mais estressante, e foi descoberto de forma bem ruim – resultado: deixou-o como morto (ele promete a si mesmo: “só morro mais uma vez”).

O processo de procurar o chão novamente, de recuperar a pele, utilizando para isso treinos de corrida, e a confusão que acontece em todo o processo é o que dará o tom a doze dos treze capítulos (batizados como os quilômetros de uma maratona). O último capítulo é uma discussão sobre a suposta gênese do romance, sobre escolhas feitas na hora de editar e revisar o livro, e o gesto final à ex-mulher.

Eu imaginei que ia achar, está bem aqui, pág. 103: “Os amigos da minha ex-mulher perceberam logo que eu era vaidoso e souberam me bajular”. Bom, vou ter que mencionar na resenha que você mesmo reconheceu sua vaidade. Acho que é um ponto positivo.  (…)Olha aqui, de novo, ainda melhor,  pág. 210: “Fiquei envaidecido. Eu era muito metido. Agora, depois de uma pancada em forma de diário kitsch, sei que não sou nada de mais.Minha vaidade era tão grande que precisei perder toda a pele para me livrar dela”. Mas será que se livrou mesmo?

O livro expõe as situações e seus personagens sem pudores. A memória do protagonista passeia, e ele vai “costurando” as lembranças em busca de entendimento. Neste processo, aparecem passagens com a ex-mulher, outras passagens anteriores ao casamento, cenas de sexo, indícios de comportamentos estranhos de ambos, e discussões com colegas dela. Depois do ocorrido, descontrole de praticamente todos, do ex-casal aos tais colegas, na maioria, também jornalistas.

Outra característica que aparece durante a leitura é o processo de “retomada de raciocínio” – as narrativas no início se sobrepõem, travadas, sem identificação temporal, numa confusão à altura do trauma. Gradualmente, começam a ser clareadas.

Ainda assim, por conta da linha borrada que faz confundir (propositalmente) o autor com o personagem, é uma leitura difícil. Ele cita “o medo de estar vivendo dentro de um de seus contos” e marca em determinado momento, com maiúsculas: “ACONTECEU NÃO É FICÇÃO”.

   Terminei a leitura. Tá, vou falar da vaidade e que mais? Porra, porque fui dizer que ia resenhar este livro? Nem sei se o entendi direito. Também nem sei se gostei ou não. Acho que sim. O cara escreve bem, vai.

Obras iconoclastas

O livro aproveita para criticar a vaidade, a superficialidade e a frieza de pessoas “carreiristas”, que querem subir na vida a qualquer custo – a mulher é assim descrita. Por extensão, critica, mas não de forma generalizada, os desmandos dos maus jornalistas, que podem difamar, insinuar e manipular as notícias em desfavor de quem queiram.

As posições são fortes e embasadas, apesar de maniqueístas. Recordando a pessoa do personagem e a situação vivida, não haveria como não se vitimizar, nem como não vilanizar a algoz (que poderia ser bancária ou advogada): a ex-mulher, retratada como fria, egocêntrica e imoral. Tudo bem que a metáfora da dor sentida, constantemente repetida, já comove o leitor e o seduz – pois quem não teria compaixão de alguém sem pele? – e, por conseguinte, deixa a ex-mulher em maus lençóis. Mas o que ela vai revelando de si é suficiente para se complicar. Claro que ela o faz por intermédio do autor, Ricardo Lísias, que tudo indica ser bastante próximo do personagem, Ricardo Lísias. Mas não sejamos injustos com eles.

Num rápido exame de consciência, e puxando pela memória situações traumáticas vividas que tenham como cerne algum relacionamento, é fácil perceber que este caminho é natural – nós, conhecedores que somos de todas nossas motivações e claras justificativas, somos as vítimas, enquanto o outro é o algoz, porque não nos entende. Então, a vitimização do Ricardo Lísias esfolado não é um demérito do livro, ao contrário, lhe empresta maior veracidade. Sua dor é a protagonista e a narradora.

Criticar os carreiristas é outro ponto contra o qual é difícil discordar. Seja porque o ideal de trabalho hoje – seja competitivo, trabalhe mais, supere seu colega, ganhe mais, leve vantagem, mostre serviço, dispense os excedentes, ponha os subalternos no lugar deles etc etc, é diametralmente oposto a uma vida minimamente significativa e com valores, seja porque há péssimos exemplos em todas as profissões – é um bom serviço prestado o livro discutir por que pessoas com algum poder se sentem tão superiores (a mídia é um enorme poder, o 4º poder), e porque a ambição de subir na carreira a qualquer custo pode manchar reputações, estragar amizades e relacionamentos e contaminar o caráter das pessoas.

Na verdade, discussões sérias e profundas são recorrentes ao autor: em O Céu dos Suicidas, ele batia nas tradições religiosas, aquelas que condenam para além de qualquer solução um suicida, e que falham fragorosamente em consolar os que ficam. Há que se convir que as religiões, como um todo, falham muitas vezes, quando, engessadas por suas tradições e dogmas, são incapazes de tentar entender os defeitos e desesperos humanos, que levam a gestos extremos.

Ou seja, é uma obra iconoclasta, na medida em que agride as tradições e convenções, e mostra suas fraquezas e vícios. Possivelmente, esta é uma chave de leitura para ler Ricardo Lísias: se preparar para polêmicas. Suas obras tendem a não ficar só na superfície, boiando inofensivas. Elas instigam e apontam o dedo para as feridas.

Só que aquilo que o autor Ricardo Lísias dá a conhecer de si, é exatamente assim também: agressor daquilo que discorda, como o conformismo, as tradições caducas e os comportamentos corporativistas e/ou predatórios. E isso confunde mais ainda a cabeça dos pobres resenhistas e críticos, a separar os Ricardos.

A crítica menciona autoficção, e Ricardo discorda. Quer dizer, é autoficção, porque eu comprovei que ele fala do Ricardo Lísias escritor, não comprovei? O mesmo cara que escreveu para piauí, que corre e  que tudo indica que se divorciou… Ah, não vou ficar caçando nome da ex-mulher jornalista, isso pode ser inventado. Como todo o resto…  E aí, já não é autoficção… (Suspiro). Mas foi ele que escreveu Céu dos Suicidas, ele fala de si próprio. Mas em qual medida?

A arte que choca demora a ser reconhecida

Geralmente, os hábitos adquiridos como leitor facilitam novas leituras. Como já dito, leitores contumazes comparam tudo o que leem com tudo o que já leram, e tendem a perceber nuances de estilo e referências. Como todo o gosto que é depurado pelo prazer que te dá, você vai subindo as exigências, ficando mais crítico e teoricamente, tendo maior autoridade para dizer do que gosta ou não, e porquê.

Só que, para ler Ricardo Lísias, estes hábitos chegam quase a dificultar. Você vai lendo e, dependendo do enfoque, vai se agradando com o que lê ou não. Se a leitura enfatiza o apuro literário, o estilo limpo, o humor involuntário e a acidez, você gosta bastante. Se você achar que é autoficção, se se obcecar em procurar as referências de eventos reais acontecidos, pode não gostar. Se entender que este jogo todo é uma desconstrução dos moldes normais da literatura e do romance, pode voltar a gostar, ainda que já esteja meio cansado. Este é o preço do pioneirismo que leva a autorreferência a um novo patamar.

Não poucas críticas atingem o autor, o que acaba desviando o enfoque do mérito literário de seus últimos livros. Uma análise precipitada de sua obra provavelmente destacará alguma controvérsia ligada a tal autoficção ou termo semelhante, discutindo suas intenções e referências autobiográficas. Mesmo uma análise que destacasse a predominância das narrativas em 1ª pessoa entre os “novos” autores e o que há de confessional nelas, tenderá a deixar o mérito de suas obras em segundo plano.

Ao me dar conta disso, durante a produção desta resenha, deixei de lado a abordagem que pretendia – fazer um apanhado da vaidade dos novos autores e suas narrativas confessionais em 1ª pessoa, cujo ápice seria os últimos livros de Ricardo Lísias, tornado personagem de mesmo nome e sobrenome de suas tramas, para então traçar um paralelo com um mundo que prioriza o individual e vai se ensimesmando cada vez, mas que também facilita a publicação de opiniões, blogs e resenhas, e cria algum espaço para todos que queiram se tornar um pouco escritores, ainda que quase todo o grosso desta produção seja vaidade e superficialidades.

Mas se a obra de Lísias até aqui não pode ser chamada de alguma coisa é justamente de superficial. Ela choca e inquieta, e este é um dos principais atributos que a arte pode ter.

 O avesso do avesso do avesso

Chegando a alguma conclusão sobre a obra do escritor mindfucker.

Chegando a alguma conclusão sobre a obra do escritor mindfucker.

Eu, como bom leigo de arte que sou, a reconheço segundo os padrões do senso comum. Ao ver o realismo de um quadro de Caravaggio, digamos, exposto no lugar adequado – um museu – o reconheceria facilmente como arte. Se visse o mesmo quadro fora do museu, ainda o reconheceria como arte, pelos seus pressupostos e pelo fácil encaixe no modelo estereotipado.

Já no caso de obras de arte iconoclastas e rompedoras de convenções, como o vaso sanitário de Marcel Duchamp ou o tubarão de Damien Hirst, que dependem de um contexto para serem entendidas como arte, não são facilmente reconhecidas como tal, e têm justamente nisto um de seus méritos. Afinal, um vaso sanitário fora de um banheiro e de um museu provavelmente é só sobra de alguma reforma, e um tubarão conservado talvez seja só para estudos de especialistas. Quebrar estas convenções é a sacada.

Divórcio, o último romance de Ricardo Lísias, vem no meio adequado: publicado em forma de livro exposto em livrarias e assinado por um escritor muito bom, com amplo domínio da escrita e de suas ferramentas, e que vai demarcando seu espaço. E, ainda assim, é uma obra que rompe paradigmas. Poderia ser apenas mais um livro sobre o tema, correto e bem escrito, com notas autobiográficas mais ou menos difusas, mas foi bem mais ousado que isso, e é um rompedor. Tem alguns defeitos, abusa da metalinguagem, começa meio confuso, com alguns discursos indefinidos no tempo e de identificação complicada na realidade da trama, mas vai engrenando, clareando, da mesma forma que o personagem começa a retomar o controle quando limpa seu “cafofo” e quando percebe que seu corpo sem pele, quando cansado pela caminhada, o permite dormir por algumas horas, e por isso, se põe a treinar para a corrida de São Silvestre.

O último capítulo antecipa críticas possíveis e entra no mérito das próprias escolhas feitas na escrita do livro. Daí que clareza ou padronização nunca foram preocupações, na gênese desta obra. Ao contrário, esta confusão é parte indissociável dela. Justamente como um divórcio: traumático, confuso, triste – o que só a torna mais real e lhe confere personalidade.

Além disso, borrar todas as linhas divisórias entre romance e autoficção também funciona como um recurso cíclico, como dois espelhos colocados de frente um ao outro, que espelham a imagem da imagem da imagem… da imagem ”n” refletida. Não são a ficção e a realidade imagens espelhadas?

Ou como o poema famoso de Fernando Pessoa, “O poeta é um fingidor/ Finge tão completamente/ Que chega a fingir que é dor/ A dor que deveras sente”, poderia vir uma paráfrase, que dissesse que o romancista ousa, ousa tão descaradamente, que finge que é ele a experimentar, aquilo que pode ter passado.

Estranho, não? Mas se você ler, vai entender.

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