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Posts Tagged ‘Daniel Galera’

Tatiana Salem LevyTatiana Salem Levy nasceu em Lisboa, ainda jovem mudou-se para o Rio de Janeiro e agora passa uma nova temporada em terras portuguesas. Estreou como escritora com A chave de casa, de 2007, que venceu o Prêmio São Paulo de Literatura na categoria “romance de estreia”, já foi publicado na Espanha, França, Itália, Portugal, Romênia e Turquia e agora está sendo vertido para o inglês. Dois rios, seu outro romance, foi publicado em 2011 – sim, ela não tem pressa para despejar novos títulos no mercado.

Além disso, Tatiana já organizou e participou de coletâneas de contos (está presente na Granta com os melhores jovens escritores brasileiros, por exemplo) e publicou ensaios que surgiram de suas pesquisas acadêmicas (a moça é doutora em estudos da literatura pela PUC-RJ). Nessa conversa com o Canto dos Livros, falou do seu moroso processo de produção, o atual momento da literatura no país e um pouco de sua obra. Confira:

Canto dos Livros: Passado mais de um ano da publicação da Granta com os melhores jovens escritores brasileiros, como você avalia a sua participação na revista? Qual a importância dela? Houve algum retorno perceptível além do estardalhaço causado no meio literário à época do lançamento? 

Tatiana Salem Levy: A Granta ter feito um número com jovens escritores brasileiros significa que há um interesse crescente pela nossa literatura, o que é positivo para todos nós, para os que estavam e para os que não estavam na revista. O mercado estrangeiro nunca se mostrou tão aberto a ler os autores brasileiros, a traduzi-los. O meu primeiro livro, por exemplo, já saiu em seis países e agora, graças à Granta, vai sair também em inglês – isso, quinze anos atrás, era impossível. Portanto, além do estardalhaço, que é chato, mas inevitável, acho que a gente só saiu ganhando com a publicação da Granta.

CdL: O escritor Luiz Antonio Assis Brasil vê como marca predominante nesta geração de jovens escritores a escrita em primeira pessoa: “É quase hegemônico de uns 15 anos para cá. É uma literatura muito confessional”, diz. Concorda com esta análise? 

TSL: Mais ou menos. Uma marca que a literatura atual não tem é a hegemonia. Há, sim, uma tendência à escrita em primeira pessoa, mas acho que também há uma tendência a se escrever em terceira, a uma prosa mais realista. Acho que há uma diversidade grande no que diz respeito à forma e aos temas. E não acho que a literatura em primeira pessoa seja necessariamente confessional, acho que há, antes, uma tendência a se jogar com isso, brincar com as fronteiras entre o biográfico e o fictício.

CdL: Dessa nova geração de escritores brasileiros, quais obras e autores você destaca? Por quê? 

TSL: Não me sinto numa posição confortável para destacar nenhuma obra nem autor da minha geração. Acho que esse papel não cabe a mim. Posso dizer que gosto muito do trabalho do Daniel Galera, do Michel Laub, da Carola Saavedra, entre outros, mas isso é meu gosto pessoal. Até porque acho que ainda é muito cedo para definir quem são os mais importantes.

CdL: A maior proximidade dos autores, com seus perfis em redes sociais, é uma realidade. Você sente esta proximidade? Em que medida isto te afeta? 

TSL: Não sinto mais nada disso, porque saí do Facebook e nunca tive Twitter. Posso apenas dizer que receber mensagens de leitores no Facebook era uma das poucas coisas boas de se estar lá.

CdL: Você não parece preocupada em lançar uma obra atrás da outra em um curto espaço de tempo. Seu processo de escrita é muito lento? Como ele funciona? 

TSL: Sim, bastante lento. É engraçado, porque cada vez que vou começar um livro, que tenho uma ideia e penso na estrutura narrativa, eu me digo: desta vez vai ser fácil, é só sentar e escrever. Mas nunca é só sentar e escrever. É como se a escrita de um livro não me ensinasse quase nada sobre o processo de escrita, como se eu tivesse que reaprender a cada livro. Num certo sentido é como partir do zero, e eu até gosto desse frescor. Mas também é difícil, porque inevitavelmente chega um momento em que eu digo: está tudo uma merda. Faz pouco tempo joguei 150 páginas fora. No fim, parece que foi fácil, mas nunca é. Eu poderia dizer que se escrevo uma página por dia posso ter um romance por ano, mas não é bem assim, porque a gente nunca conta as páginas que foram pro lixo, e a verdade é que elas são fundamentais. Além disso, tem o tempo de ruminação, eu fico ali com cada romance, cada história, ruminando, mudando pequenas coisas aos poucos, até conseguir ficar satisfeita e decidir publicá-lo.

CdL: Em uma entrevista para a Saraiva, você disse não gostar muito do termo autobiografia, prefere falar de memória. Pra você, quais as diferenças entre os dois termos (ou gêneros)? 

TSL: Já não me lembro em que contexto eu disse isso, de qualquer forma eu nunca escrevi nem uma autobiografia, nem uma memória. Talvez eu estivesse falando sobre a memória na A chave de casa, de que forma eu trabalhei com essa questão, porque a memória é um dos tópicos cruciais do romance. Mas eu não devia estar falando da minha memória ou da memória da minha família (se estava, já mudei de ideia, até porque essa entrevista tem tempo, e eu mudo de ideia constantemente), e sim do próprio trabalho da memória, do fato de ela nunca ser redonda, fechada. A chave de casa tem uma narrativa que funciona como pequenos flashes, que brinca o tempo todo com a incerteza, com as contradições, com a interpretação – tal como e a memória.

CdL: Independente do termo que usemos, sua obra está bastante atrelada ao seu passado e ao passado da sua família. Como os seus familiares costumam receber os seus livros? 

TSL: Eu não diria que a minha obra (se é que tenho uma) esteja bastante atrelada ao meu passado e ao passado da minha família. A chave de casa, sim, mas meus outros livros (meu segundo romance, o ensaio e o infantil), não. Então, só vou responder essa pergunta em relação ao primeiro livro. É verdade que houve uma expectativa da minha família em torno do romance, porque eles achavam que veriam a história da família retratada. Alguns dos meus familiares ficaram frustrados, justamente porque eu não conto nada da história dos meus antepassados. Tirando o fato de que vieram da Turquia, nada aconteceu na realidade, a história do passado do avô da personagem é completamente ficcionalizada. Mas no fundo, a questão é: que importância isso tem? Que diferença faz se eu falo de coisas que aconteceram ou não? O que vale é o leitor acreditar no que lê. Se aconteceu ou não, isso não faz diferença. O que define um romance é a forma com a qual a história é narrada, e não aquilo que é narrado.

CdL: Tendo organizado a coletânea Primos, com histórias de autores brasileiros descendentes de árabes e judeus, como você analisa a produção literária (de qualquer canto do mundo) que reflete a conturbada relação entre esses dois povos? 

TSL: Eu e a Adriana Armony quisemos organizar esse livro para mostrar como a convivência entre árabes e judeus não apenas é possível, como existiu ao longo dos séculos e ainda existe hoje em muitos lugares, tanto na diáspora quanto em Israel e na Palestina. Eu tinha acabado de fazer minha primeira viagem a Israel, e tinha voltado muito espantada (positivamente) com a semelhança entre os dois povos. São mesmo primos, em termos culturais e geográficos, mas vivem em guerra há algumas décadas.

A nossa ideia era, num certo sentido, promover uma espécie de paz literária, apontar para as semelhanças desses povos. Agora, analisar a produção literária de qualquer canto do mundo que reflita essa relação, sinceramente, não me sinto apta a isso. A nossa vontade era apenas a de mostrar para um público brasileiro o diálogo possível, e existente, entre árabes e judeus.

CdL: Você participou da coletânea 25 mulheres que estão fazendo a nova Literatura Brasileira, organizada por Luiz Ruffato. Pois bem. A desigualdade enraizada no tratamento dispensado a homens e a mulheres, quando no mesmo ofício, é um fato. Por outro lado, a boa literatura independe absolutamente do gênero de seu autor. Assim sendo, na sua opinião, iniciativas como estas, de reunir mulheres escritoras, auxiliam na quebra destes preconceitos enraizados ou apenas os reforçam?   

TSL: Movimentos como este são fundamentais. O Ruffato organizou essa antologia porque no livro Geração 90: Manuscritos do computador havia apenas uma mulher, a Cintia Moscovich. Ele quis mostrar como havia muitas outras escrevendo, daí o livro.

Antigamente, eu achava que as mulheres, no meio artístico e intelectual, já tinham conquistado o seu espaço, mas na prática fui vendo que não é bem assim. Parece que a mulher ocupa uma espécie de cota pré-definida. Quando jornais e revistas fazem um balanço, por exemplo, dos 10 melhores livros do ano ou da década, normalmente há apenas uma ou duas mulheres. Se você ver os finalistas dos prêmios mais importantes, é a mesma coisa. Eu tenho viajado muito para participar de festivais literários, e o mesmo ocorre, sempre mais homens do que mulheres. Até na Granta, são 14 homens para 6 mulheres.

Se de fato houvesse mais homens do que mulheres escrevendo, eu entenderia. Ou se a qualidade dos textos dos homens fosse superior à dos textos das mulheres, eu também entenderia. Mas não é o caso. Portanto, cheguei à conclusão de que nem mesmo no meio artístico e intelectual a luta pelo espaço da mulher chegou ao fim.

Não se trata de defender uma literatura feminina – não acredito em tal coisa –, mas sim de eliminar a desigualdade entre homens e mulheres.

CdL: Testemunhamos recentemente um engajamento de cidadãos, com participação maciça dos jovens, em manifestações de protesto pelo Brasil. O que pensa a respeito? Qual colaboração uma escritora e sua obra podem legar para este público? 

TSL: Achei maravilhoso o engajamento da população brasileira para lutar pelos seus direitos. Estou passando um tempo em Portugal e, por esse motivo, infelizmente, não pude participar das manifestações. Se estivesse no Brasil, certamente teria ido. Manifestações são um momento de explosão de vitalidade, de se sentir vivo e lutando por um mundo melhor. A nossa tradição não é muito a de ir para a rua, né? Então, acho fantástico que tanta gente tenha se manifestado, e espero que o Brasil continue a ser um país assim, que luta pelos seus ideais.

Quanto ao legado de uma escritora e sua obra para isso, nem sei se há. Na verdade não acho que exista algo como “esse público” num sentido homogêneo. O público é sempre muito variado. A literatura transforma as pessoas aos poucos e, com isso, vai transformando o mundo, mas uma coisa assim imediata, acho que os cronistas dos jornais, os antropólogos, por exemplo, têm um papel mais eficaz nesse sentido.

CdL: Como o Canto dos Livros, muitos outros blogs de literatura produzem suas resenhas e críticas às obras publicadas no Brasil. O que acha desta tendência? Poderia citar aspectos positivos e negativos dela?  

TSL: Acho esta tendência ótima. Quanto mais gente houver dando suas opiniões, escrevendo sobre literatura, melhor. Desde que os textos sejam assinados, claro. A melhor coisa da Internet é a possibilidade de divulgação dos textos de qualquer um, a abertura e a circulação da informação.  A pior é o anonimato. Uma pessoa sem nome não precisa se defender, e pode atacar usando os golpes mais baixos e rasos, sem profundidade, um ataque que vale só pelo ataque mesmo, muitas vezes velando um mero ressentimento.

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A Granta, uma das revistas literárias mais importantes do mundo, enfim divulgou os autores que estarão presentes na edição com os 20 melhores jovens escritores brasileiros. Eis os nomes:

Antonio Prata

Antonio Xerxenesky

Carola Saavedra

Carol Bensimon

Chico Matoso

Cristiano Aguiar

Daniel Galera

Emilio Fraia

Javier Arancibia Contreras

João Paulo Cuenca

Julián Fuks

Laura Edler

Leandro Sarmatz

Luisa Geisler

Michel Laub

Miguel del Castillo

Ricardo Lísias

Tatiana Salém Levy

Vanessa Barbara

Vinicius Jatobá

Participaram 247 escritores nascidos desde 1972 que já publicaram ao menos um texto em meio impresso. Dentre os escolhidos, já entrevistamos Vanessa Barbara e Ricardo Lísias e resenhamos Procura do romance, de Julián Fucks.

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Por Alberto Naninni e Rodrigo Casarin

O Jornalismo Cultural é a área de maior interesse do jovem Augusto Paim, que, com apenas 26 anos, já possui em seu currículo trabalhos de grande relevância, como uma reportagem em quadrinhos sobre as favelas do Rio de Janeiro para um site holandês e a coordenação de um dossiê sobre São Paulo para a revista espanhola Zona de Obras. Formado em Jornalismo pela Universidade Federal de Santa Maria e mestrando em Letras, pela PUCRS, com pesquisa relacionada à escrita criativa, foi o curador do I Encontro Internacional de Jornalismo em Quadrinhos (EIJQ), no Instituto Goethe de Porto Alegre, e já organiza a segunda edição do evento, que acontecerá em Curitiba. Como tradutor, já passou do alemão para o português o livro Johnny Cash – uma biografia, a história de vida do cantor retratada em HQ, publicada pela 8Inverso. No papo abaixo, Augusto fala bastante sobre esses assuntos e é enfático com relação à necessidade do amadurecimento dos quadrinhos como arte.

Canto dos Livro: Como é realizar o trabalho de tradução? O que se espera de um bom tradutor?

Augusto Paim: Os passos que dou nessa área ainda não são firmes e velozes como os de quem já pratica a tradução há anos – e a habilidade de traduzir pode muito bem ser comparada ao desenvolvimento de um músculo -, então só posso falar das descobertas surgidas durante o processo do meu próprio trabalho, além do que aprendi acompanhando o trabalho de outros tradutores mais experientes. O que se espera de um bom tradutor, antes de mais nada, é domínio da língua de chegada e o conhecimento de muitas ferramentas de pesquisa. Dominar a língua de partida, além de tarefa praticamente impossível, não é tão importante quanto isso.
Da minha parte, o trabalho de tradução é um processo penoso, que não começa exatamente quando coloco a primeira palavra no arquivo do Word, mas sim no momento em que leio um livro no original pela primeira vez, passando pelo período longo que leva para se achar uma editora para essa obra no Brasil. O meu envolvimento com a tradução, talvez porque tenho trabalho especificamente com quadrinhos alemães, vai além do trabalho de rotina de um tradutor.

CL: Quais as diferenças de traduzir uma livro de prosa para uma história em quadrinhos?

AP: Genericamente, acho que as obras de quadrinhos são uma ótima porta de entrada no terreno da tradução, já que o clima da história é parcialmente dado pelos desenhos, que tendem à universalidade. Analisando isoladamente, porém, vejo casos de obras cuja dificuldade não são amenizadas pelos desenhos. Um caso recente, de que posso dar o exemplo como tradutor, é Wir können ja Freunde bleiben, do Mawil, que deve chegar nas livrarias em breve pela Zarabatana. O título será Mas podemos continuar amigos. É um livrinho curto, de apenas 64 páginas, mas deu muito trabalho, porque a maior parte das suas partes cômicas é baseada no tom curioso de algumas expressões regionais de Berlim, além de outras da época da escola do autor, ou seja, expressões já desgastadas pelo tempo. Sem falar nas onomatopeias! Ah, e também tem um capitulo do livro que é baseado numa confusão idiomática, quando as personagens moram numa república estudantil, e essa situação precisou ser adaptada para funcionar por aqui. Para traduzir esse livro, precisei fazer a tal “tradução criativa”, pensando em formas de fazer com que o livro cative o leitor brasileiro da mesma forma que cativa o alemão.

CL: Quais obras lançadas no Brasil você considera um exemplo de tradução? Por quê?

AP: Sempre se corre o risco de omitir nomes por esquecimento, mas… lá vai! Me ocorre agora a tradução de Antonio de Macedo Soares para Maus e a de Daniel Galera para Jimmy Corrigan, duas obras que, pela fluência com que podem ser lidas no português, demonstram o talento dos tradutores. Além disso, essas duas obras, lidas pelo olhar treinado de um tradutor, mostram que tipo de dificuldade se enfrentou na tradução. E com certeza foram muitas, a começar pelo volume de páginas.
Destaco também o engajamento permanente de Érico Assis na tradução de quadrinhos do idioma inglês.

CL: Você também possuí trabalhos relacionados ao jornalismo em quadrinhos. Como você começou a se interessar pelo gênero?

AP: Eu tive o primeiro contato com o trabalho de Joe Sacco em 2006. Nessa época eu cursava Jornalismo na Universidade Federal de Santa Maria, e esse interesse acabou virando o tema da minha monografia, em que eu fiz uma análise semiológico-narrativa de um trecho de Palestina: na Faixa de Gaza. Depois da faculdade, o tema continuou me acompanhando, e cresceu de importância a partir de dois momentos-chave: quando tive a oportunidade de realizar minha primeira reportagem em HQ e na ocasião em que organizamos o I Encontro Internacional de Jornalismo em Quadrinhos.

CL: Em que estado se encontra o jornalismo em quadrinhos no mundo? E no Brasil?

AP: Ainda muito incipiente. Internacionalmente, começam a surgir nomes de destaque individual, como Dan Archer e David Axe, nos Estados Unidos. Na Alemanha, muitos autores consagrados se aventuram por essa área, como Jens Harder e Ulli Lust. Importante tem sido o trabalho de Matt Bors, editor do portal Cartoon Movement, que tem estimulado o surgimento de HQ-repórteres em diferentes continentes. O mundo, porém, ainda precisa da égide de Joe Sacco.
No Brasil, ainda não há um nome de peso na área, mas acredito que os novos talentos estão por aí, germinando em algum lugar, já fazendo algumas experiências. Para que eles desabrochem, falta estímulo, e é por isso que considero fundamental o trabalho de discussão e informação proporcionado por eventos como o EIJQ.

CL: Com relação ao jornalismo em quadrinhos, quais os trabalhos que você destaca para quem queira conhecer mais sobre o gênero?

AP: Sempre que falo sobre o assunto a alguém que me escuta pela primeira vez, sugiro a leitura de Maus e de toda a obra de Joe Sacco. Depois recomendo a visita ao portal Cartoon Movement, na seção de reportagens em quadrinhos. E, eventualmente, a leitura da reportagem Os Filhos de Joe Sacco, sobre o crescimento internacional do Jornalismo em Quadrinhos

CL: Na sua opinião, quadrinhos, independente de ficcionais ou não, também podem ser considerados obras literárias? Por quê?

AP: O amadurecimento de uma linguagem passa por sua autonomia. Se os quadrinhos já tem obras que demonstram essa independência (e as tem em número suficiente para isso), o mesmo não se pode dizer se sua recepção crítica. É por isso que ainda precisamos referenciar uma obra-prima dos quadrinhos como “literária”; uma forma de elogiar e demonstrar qualidade para uma linguagem que ainda carece de respeito crítico (não se diz, por exemplo, para elogiar um bom filme, que ele seja “literário”…). Por outro lado, penso que a literatura tem muito a oferecer para a linguagem dos quadrinhos, principalmente como fonte de inspiração de densidade e do uso criterioso de técnicas narrativas. Mas também podemos falar da importância do teatro, do cinema, da fotografia… e das próprias obras-primas dos quadrinhos!

CL: Você está organizando a segunda edição do Encontro Internacional de Jornalismo em Quadrinhos. O que já pode nos adiantar sobre ele?

AP: O II EIJQ ocorrerá em Curitiba, dentro do festival de quadrinhos Gibicon, entre 25 e 28 de outubro deste ano. Ainda não posso divulgar nomes oficialmente, o que posso dizer é que, exatamente como foi no I EIJQ, estamos pensando no estímulo de uma discussão, no fomento de um debate, e essa continuará sendo nossa motivação durante o segundo evento. Creio que o tema terá uma oportunidade e tanto de crescimento por o evento ser realizado dentro de um grande festival de quadrinhos. Isso traz a possibilidade de atrair ainda mais público interessado e, por outro lado, permite que os interessados em Jornalismo em Quadrinhos tenham a oportunidade de, além de participar das discussões, aproveitar todas as outras atividades de um festival desse porte.

CL: O Governo do Estado de São Paulo disponibiliza para os professores kits de leitura para atualização e trabalho, nos quais há opções com obras em quadrinhos. Por outro lado, revistas de grande circulação volta e meia publicam reportagens críticas a eles, desmerecendo-os como assunto de vestibulares e concursos, e atacando a linguagem de alguns. Quais implicações e prejuízos você enxerga causados por esta controvérsia?

AP: Acompanhei algumas dessas discussões na mídia. Em linhas gerais, o resultado é lamentável! Não para quem trabalha com quadrinhos, claro, que já passou dessa fase do discurso fácil e irrefletido sobre a linguagem. Meu receio é em relação a quem ainda não redescobriu o universo dos quadrinhos enquanto linguagem artística. Por outro lado, creio que não estamos mais em 1954, e que o público leitor dessas matérias tem agora senso crítico para não cair cegamente numa reedição das ideias de Fredric Wertham e sua Sedução do Inocente [que atacava moralmente os quadrinhos e acusava-os quadrinhos de subverterem os leitores].

Além disso, há muitos profissionais trabalhando com quadrinhos em sala de aula de forma madura e consistente. Essas polêmicas ajudam a vender jornal e acabam trazendo algum efeito negativo na carona, mas não conseguem destruir a solidez de um trabalho de conscientização e amadurecimento que vem de décadas. Derruba alguns tijolos, mas a parede segue de pé.

CL: Qual seria o cenário ideal para que os quadrinhos auxiliassem mais na educação e na produção jornalística?

AP: O cenário ideal: quando o conhecimento técnico sobre a linguagem dos quadrinhos, no público geral, equivalesse ao conhecimento que se tem sobre cinema, literatura, artes visuais etc. Não se trata de exigir um grande conhecimento, veja bem, apenas uma visão geral de respeito a uma arte que tem sua história. Isso ainda falta. Em relação ao Jornalismo em Quadrinhos, o caminho é mais árduo, porque envolve uma dupla conscientização: o jornalista precisa conhecer melhor a linguagem dos quadrinhos, e o quadrinista deve procurar entender toda uma dinâmica e um código de procedimentos do jornalismo. Falta essa via de mão dupla, falta mesmo. E, no meu ver, sem isso não se faz uma reportagem em quadrinhos que realmente mereça atenção.

CL: Numa biblioteca básica de Quadrinhos, quais obras não poderiam faltar?

AP: E agora, como citar tudo? Além de esquecer obras importantes, também não tenho como citar as que ainda não li.
Bem, no campo teórico-técnico, penso que é indispensável ter trabalhos do Scott McCloud, Umberto Eco, Will Eisner e Thierry Groensteen, para começo de conversa. Em relação aos quadrinhos em si, há tanta obra de qualidade que se começasse a listar algumas, certamente não se pararia mais. Bem, vou falar de duas obras cuja leitura recente me causaram um impacto bastante positivo, não só em termos de conteúdo, mas também de linguagem. Jimmy Corrigan e Cachalote. Não são minhas obras-primas, veja bem, mas são leituras recentes. Além disso, há inúmeras obras em língua alemã que têm me contagiado bastante, mas que infelizmente ainda não são do conhecimento do leitor brasileiro. Sugiro acompanhar o portal de quadrinhos do Instituto Goethe.

O Augusto também é editor dos blogs Cabruuum e August Fest, vale conferir!

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Antes de começar a ler Histórias da noite carioca, Eric Novello, o autor da obra, já havia me alertado “leve em conta que é um livro de humor com zero de seriedade, pra fazer rir mesmo”. E como é mais fácil analisarmos um livro considerando o que o escritor queria com ele.

O livro conta a história de Lucas Moginie que já obtivera sucesso, mas também lançara obras que sequer sua mãe comprara, e não sabe se está em crise de decadência ou em uma fase de renovação. Lucas, uma pessoa com excessivas preocupações com o que veste e a maneira que se apresenta aos outros, vive em um apartamento no Rio de Janeiro (claro!) e tem um casal tarado por sexo como vizinhos de cima.

Um dia, Tita, a ex-namorada do escritor, procura-o para que escreva uma história baseada na vida noturna que ela leva junto com um certo amigo Rodrigo. Lucas titubeia escrever sobre os dois em um primeiro momento, mas acaba aceitando após pressões de Lívia, a sua sedutora empresária, que precisa apresentar alguma novidade do autor para a editora. E é o aceite em realizar a obra que desencadeia uma série de encontros e desencontros – boa parte deles amorosos, alguns até bizarros – na vida de Lucas.

Mesmo a obra em si sendo despretensiosa, ela traz alguns elementos de bastidores que podem instigar uma discussão acerca da escrita. “Sem imaginar, me tornei um caçador de histórias, atento a cada diálogo que testemunhava”, narra Lucas em determinado momento. Ora, e o que é um escritor se não um caçador de histórias que sabe colocá-las com maestria no papel? Claro que há os que mergulham mais ou menos na vida real para construir os seus livros, contudo, é impossível que algo seja feito sem levar em conta o que vemos, vivemos, ouvimos, lemos, assistimos…

Lucas também declara que, ao escrever com os pés firmes na realidade, encontra dificuldades em descrever as pessoas, e aqui os escritores de não ficção hão de concordar que mora um grande problema. Nem sempre as pessoas que merecem uma história são bonitas, e uma descrição fiel do personagem pode magoá-lo muito. Muitas pessoas até aceitam se ver gorda e com uma verruga na cara em uma foto, mas têm ojeriza ao se ver assim descrita com palavras.

E, ainda sobre os personagens, Histórias da noite carioca flerta com a questão de até que ponto o autor tem o direito de se apropriar da vida de outra pessoa para transformá-la em história. Uma questão bastante complexa e que foi bastante discutida quando José Castello lançou o romance Ribamar, no qual cria uma ficção que tem como base a relação dele com o pai, misturando realidade e ficção – e arrumando uma grande confusão para a cabeça, inclusive com a própria família, que insistia em dizer que ele inventava calunias sobre o seu velho, por exemplo, ao invés de entender que aquilo era uma história romanceada.

Entre elementos reais e ficcionais que formam o personagem, Eric deixa transparecer (não sei se propositalmente) em Lucas algumas de suas próprias características. Eric, assim como Lucas, começou a escrever uma literatura com uma base mais real após se aventurar pelos caminhos da fantasia. Ambos fazem críticas para o cinema para incrementar o orçamento. E Lucas demonstra um conhecimento dos meandros do corpo humano que só pode ter aprendido com o seu criador, que possui formação na área de bioquímica e farmacêutica. Esses conhecimentos, aliás, soam como rebarbas no texto.”Sangue do tipo A”, “epinefrina”, “cerebelo”, “hipotálamo”, “elétrons”, “axônios” e “dendritos” fazem parte da história, mas nada acrescentam a ela.

Contudo, isso não chega a ser um problema. Frases como “Hambúrguer sem gosto de isopor. Raro como tamanduás” e “Durmo ciente de que não estou exercitando os músculos e não escrevo com sono, pois sai que nem psicografia de ateu” compensam com sobras alguns exageros biológicos. As referências a Daniel Galera, Cazuza, Kafka e Pirandello são de tirar um sorriso do leitor.

Quisesse Eric ter escrito sua obra-prima, teria fracassado. Mas isso não quer dizer que Histórias da noite carioca seja um mau livro. Pelo contrário, é dinâmico, descontraído e, em alguns momentos, engraçado. Ou seja, Eric atingiu o seu objetivo.

Eric está vendendo alguns exemplares de Histórias da noite carioca por 25 reais (o frete é por conta dele). Para adquirir, mande um e-mail para cericn@gmail.com

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