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Posts Tagged ‘discos voadores’

 

Por Alberto Nannini

enigma das estrelas capaAs gerações que tenham hoje entre quase trinta e quase cinquenta anos certamente já ouviram falar dela – uma série de livros de grande sucesso, editados pela editora Ática, a partir de 1972: a famosa série Vaga Lume.

Seus livros, com grandes tiragens, eram sucesso de público e de crítica. Lidos por muitos jovens, trabalhados nas escolas, sempre funcionaram como uma espécie de iniciação às leituras mais consistentes. A edição era simples, e as tramas, ágeis. Raramente iam muito além das 100 páginas.

O sucesso da série fez com que personagens de alguns de seus livros estrelassem mais de um romance. Era o caso do personagem Xisto, de Lúcia Machado de Almeida, que estrelou Aventuras de Xisto, Xisto no espaço e Xisto e o pássaro cósmico, e de Léo, o garoto que estrelou os sucessos O mistério do cinco estrelas, O rapto do garoto de ouro, Um cadáver ouve rádio e depois, Um rosto no computador, do autor Marcos Rey.

A série Vaga-lume foi citada aqui por três motivos: a obra que será resenhada a seguir poderia perfeitamente fazer parte de seu acervo; seus personagens estrelarão mais de um romance e, por fim, embora não tenha certeza, apostaria todas as fichas que o autor F.T. Farah lia esses livros, e que eles foram uma de suas fontes de inspiração.

Série infanto-juvenil Clube dos Mistérios, primeiro volume: O enigma das estrelas

A sinopse no site do autor diz assim: “Cercado por estranhos acontecimentos, o vilarejo mineiro de Morro do Ferro é o destino das férias de julho de cinco adolescentes: Jonas, Alfredo, Carola, Carmem e Vicentinho. Em O Enigma das Estrelas – primeiro volume da série Clube dos Mistérios –, eles partem para o primeiro acampamento de suas vidas. Para os pais, a aventura é um ritual de passagem para a vida adulta. Para Jonas, o mais velho da turma, é a ocasião perfeita para conquistar Carola e amedrontar os amigos. Na primeira noite fora de casa, ele conta histórias aterrorizantes em torno de uma fogueira. E acaba sendo vítima de uma delas. Levado a bordo de uma nave espacial, o adolescente é surpreendido por seres extraterrestres e passa por um estranho ritual de passagem”.

O livro lido (gentilmente cedido pelo autor) é uma reedição recém-publicada, já que sua primeira edição estava esgotada. Farah revisitou a obra, e a atualizou, substituindo cartas que os personagens escreviam por e-mails, além de acrescentar textos que dialogam com o leitor, em caixas separadas, com uma edição e aparência que lembra revistas ou sites.

Aliás, o design gráfico do livro é primoroso, e estas “caixas de diálogo” são uma sacada inteligente. Funcionam muito bem. Nelas, Farah aprofunda alguns temas, como listas de filmes com o tema de extraterrestres, palavra de estudiosos do assunto, dicas de acampamento e outros.

Outro ponto positivo são os muitos ganchos deixados, lembrando que este livro é o primeiro de uma série de cinco. Os garotos e meninas do grupo vão revelando suas personalidades e interesses, e alguns destes ganchos poderão ser aprofundados, como certos segredos só insinuados ou ligações que há entre personagens secundários. Por exemplo, é revelado neste 1º volume que houve um relacionamento antigo entre o pai de Jonas e a mãe de Carola. O atual marido desta, Murilo, sabe disso e não se sente confortável.

A linguagem utilizada pelo autor, quando dá voz a seus personagens, é bem fiel. Sem exagerar em gírias e trejeitos, consegue caracterizar as particularidades da comunicação entre eles, e também retrata bem suas preocupações típicas.

O fato dos protagonistas criarem um grupo – “O Clube dos mistérios” – lembrou o clássico infanto-juvenil de Pedro Bandeira, A droga da obediência, e o grupo deles, “Os Karas” (como o li só uma vez e há muito tempo, não conseguirei compará-los melhor).

Enfim, Farah, bom escritor (leia a resenha de outra obra sua já resenhada por aqui: A outra face de Deus), tem domínio de técnicas narrativas e soube construir um enredo instigante. Como já li o livro com intenção de resenhá-lo, atentei para o fato de que o autor tem a imagem dos personagens bastante nítida e também sabe exatamente aonde a história contada os levará.

Talvez daí venha alguns problemas que minha leitura detectou.

Um deles é que, embora ele tenha vívida a imagem dos garotos e das cenas descritas, há vezes em que sua descrição delas não é perfeita, ou ainda, não se passa daquela forma desapercebida, que se materializa, instantânea, conforme a leitura flui.

Acredito que isso se dê por conta de Farah utilizar praticamente apenas o recurso de descrever as ações após os diálogos. Por exemplo, em um deles, Jonas cumprimenta Vicentinho, que o interrompeu, mas o estado de ânimo dele – “se mordendo de raiva” – só é descrito após o cumprimento. Há o contexto, claro – na ocasião, Jonas estava sendo interrompido – mas há uma ampla gama de reações possíveis a isso, e faz parte da leitura “adivinhar” o desenrolar – a não ser que a maestria do autor o conduza por onde ele queira, e você nem se dê conta.

Quando isso não acontece, poderá travar um pouco a leitura, porque, se não se percebe de maneira automática o ânimo dos personagens e o desenrolar de suas ações, vai se imaginar o que pareça adequado, que poderá se chocar com a cena construída pelo autor, descrita em seguida.

Por conta disso, acredito que alguns diálogos poderiam ser aperfeiçoados. Há maneiras de descrever ou induzir o leitor a perceber o estado de ânimo dos personagens antes do diálogos, bem como eliminar ações evidentes como “ – tal tal tal – retrucou fulana” (ainda que nem sempre se possa escapar da identificação do interlocutor).

Desta forma, se minimizaria aquela armadilha da escrita, na qual o autor sabe exatamente o que quer dizer e passar, mas nem sempre consegue descrever de maneira adequada para os leitores. Serviria também para evitar a repetição do recurso (de sempre colocar a voz narrativa após), que também tende a cansar a leitura.

Registre-se que há muitos momentos em que estes pequenos senões não aparecem, e a leitura flui muito mais fácil.

A primeira aventura

A trama fala sobre discos voadores e abduções, e é muito bem construída em cima deste mote. Gostei bastante das inúmeras referências, que vão de deuses à lendas. Farah cita no livro inúmeros filmes, músicas, seriados e obras do tema, e consegue costurá-las de forma bastante satisfatória.

Copyofouroboros_by_Saki_BlackWingAs mitologias que giram em torno das serpentes foi bem explorada, com figuras míticas, símbolos, como o ourobóros (a serpente que devora a própria cauda), a serpente emplumada asteca e outros, que se encaixam bem na trama. Porém, no tocante às músicas de Raul Seixas, e também sobre uma participação especial da imagem dele, achei um pouco fora de propósito. Mas esta é uma questão de gosto particular.

No geral, e considerando, principalmente, o público-alvo – infanto-juvenil – achei a obra muito adequada. O tom é condizente, e pode ser bastante divertido embarcar nela, com as devidas concessões. Lembrou-me do filme Super 8, de J.J. Abrams (também citado no livro), que foi feito tendo em mente o mesmo público, e buscou identificação deles com os personagens, mas também conseguiu divertir o público adulto e todos aqueles que ainda se lembravam de como era ser criança.

Talvez o maior problema do crítico que vos fala esteja aí – ter deixado de ser criança.

Outros mundos

Quando era pequeno, tinha curiosidade insaciável por quase tudo, e isso incluía OVNI’s e ET’s. Li alguns livros do suíço Erich Von Daniken, como Eram os deuses astronautas?, mesmo sem entender quase nada, e outros com temática semelhante.

Porém, minha formação católica me impedia de acreditar que pudesse haver algo como abduções. Eu já as entendia como um ato mau, por ser análoga ao sequestro. E não me parecia correto que Deus não nos protegesse deles (ET’s), como protegia dos demônios – se você fosse bom, rezasse e tivesse fé.

Ou seja, para meu raciocínio infantil, contra o mal que poderia incorrer sobre as pessoas, como influências de “espíritos”, o próprio azar e a maldade de outras pessoas, para tudo isso poderia haver proteção divina, mas, aparentemente, não frente à tecnologias e intenções escusas de seres de outros mundos. Sem contar que eu não saberia dizer à imagem de quem eles teriam sidos criados.

Cresci, e sempre deixei a mitologia em torno de discos voadores e abduções em plano secundário, mesmo quando já havia percebido que o Deus da minha infância era uma abstração.

Mas aí, conheci Carl Sagan e li seu espantoso livro O mundo assombrado por demônios. Isto mudou tudo.

A ciência vista como uma vela no escuro

A ideia de que o desconhecido nos assombra e que inventamos explicações para ele, ou melhor, que precisamos inventar explicações para ele, foi um dos ensinamentos mais poderosos que eu aprendi, e mudou completamente a minha maneira de ver a vida.

Percebi que nossa história mostra que o mecanismo de preenchimento de lacunas de conhecimento com fantasias e mitos não só é recorrente, mas também definidor do que é ser um humano. Procuramos explicações e padrões para tudo e tendemos a repetir os construtos, variando o objeto que eles explicariam.

A ciência, em princípio, desapaixonada, veio modificar bastante esta dinâmica. Ela não substitui (nem poderia) a mitologia, a fantasia e o anseio da divindade. Mas ela clareia alguns erros cognitivos, que nos levam a crer no inexistente.

Carl Sagan recebeu centenas de cartas de pessoas que alegaram terem sido abduzidas. Ele, desapaixonadamente, inquiria se os alienígenas deram alguma informação científica ao abduzido.

Nunca deram.

Para aqueles que alegavam ter contato contínuo com extraterrestres, Sagan perguntava as noções mais elementares da física – algo que viajantes em discos espaciais necessariamente deveriam dominar.

Mas, supondo que se queira contestar isso, admitindo que a física deles seja diferente da nossa (isso é algo unânime: eles sempre são mais avançados), ainda assim, é um postulado científico difícil de ser contestado que a linguagem matemática deveria ser entendida por qualquer organismo consciente. Então, para alienígenas que nos estudaram, que sabem falar de alguma forma mensagens inteligíveis a nós, seria fácil resolver um ou dois teoremas matemáticos dos mais simples. Mas isso também nunca aconteceu.

Note bem que Sagan era um cientista, mas não se achava um deus – ele apenas achava que havia uma histeria em torno das abduções, semelhantes a histerias passadas, como por exemplo, em torno da bruxaria. Aliás, ele compara, com coincidências impressionantes, as abduções às aparições de santos e divindades, quase sempre a crianças, que eram um pouco mais comuns antes dos óvnis. Ou seja, estes (da sigla Objeto Voador Não Identificado – UFO em inglês) são um mito moderno.

Como Sagan, não acho que não possa haver outras civilizações. É até provável que haja vida fora da Terra. Sagan escreveu o livro Contato, para imaginar, com bases científicas, como seria um provável contato extraterrestre. Eu, por minha vez, não acredito que tenha havido algum destes. Quando contatamos uma civilização mais atrasada tecnologicamente, sempre a modificamos ou a dominamos. Na nossa história, há inúmeros exemplos de sociedades dizimadas por conquistadores.

Partindo daí, acho improvável que seres extraterrestres tenham tido ou mantenham contato conosco e não tenham se revelado ou influenciado decisivamente em nosso planeta (que, aliás, está quase pedindo mesmo uma intervenção externa).

Conheço alguns argumentos que defendem a existência de alienígenas, e estas influências, que já seriam operadas. Bem, quando os argumentos não são furados e tendenciosos, eles tudo se assemelham à parábola do dragão invisível, contado pelo mesmo Sagan.

A navalha de Occam contra o dragão

O sujeito diz para o outro que não só há dragões, como um deles mora na sua garagem. O segundo sujeito diz que quer ir lá ver, para acreditar, mas o primeiro diz que o dragão é invisível. Então, o segundo diz que utilizará óculos especiais, que permitem ver o espectro de calor, mas o primeiro diz que o dragão não emite calor algum. Eles diz então que vai espalhar sensores no chão, que captarão o peso, mas o dragão paira acima do ar, e não tem peso. O segundo diz então que filmará de longe com câmeras de lentes especiais, que captam qualquer espectro de energia e radiação, mas o segundo diz que o dragão não emite qualquer radiação conhecida.

Ora, um dragão invisível, que não emite calor nem qualquer radiação conhecida, que não tem peso nem materialidade alguma, está bem aqui, em cima da minha cabeça no momento em que escrevo isto. Ao final, afirmá-lo equivale a dizer que ele é em tudo semelhante a um dragão inexistente.

Esta parábola se aplica ao deus personalizado também. Há uma contradição de base em se tentar materializar o imaterial, em conhecer o incognoscível… ***Ou talvez tudo isso seja uma questão de se utilizar os instrumentos adequados, o que leva à conclusão que o intelecto e a ciência não são suficientes, neste caso. Mas isso levaria a conversa para um outro rumo, que não será apreciado agora.***

Retomando, descarto as abduções e não creio em visitas de discos voadores, por falta de evidencias cabais. Qualquer um que tenha um conhecido de um vizinho que foi abduzido, ou que tenha tido visão de discos voadores, ou ainda contato com alienígenas – e que simpatize ou defenda as teorias conspiratórias para explicar o acobertamento de tudo isso – será facilmente contestado por teorias mais simples, perfeitamente lógicas e cabíveis, que até um leigo como eu domina.

Esta é a aplicação do princípio da Navalha de Occam, que diz, a grosso modo, “se houver duas explicações para um fenômeno, a mais simples tende a ser a mais correta”. Ao invés de elaborados sistemas que categorizam aliens e suas visitas, e dependem de uma série de premissas não tão bem costuradas para se sustentar, é mais simples perceber que os discos voadores fazem parte do imaginário humano, e que nosso cérebro, além de ser pré-configurado para acreditar, não é 100% fiel em suas deduções e certezas.

variedades da exp sagan capaSagan também disse sobre isto, em seu livro Variedades da experiência científica:

Dizem as vezes que pessoas que adotam uma abordagem de ceticismo em relação aos óvnis ou até a algumas variedades de demonstrações de religiões, estão na verdade sendo preconceituosas. Sustento que isso não é preconceito. É pós-conceito. Isto é, não é um juízo feito antes de examinar as evidências, mas um juízo adotado depois de examiná-las.

Para mim, a mitologia que envolve o assunto é isso – uma mitologia. Repetindo, isso não significa que eu afirme não haver vida fora do planeta Terra. Ante a imensidão do universo, é provável que haja vida aí fora. Mas o mesmo raciocínio e a mesma configuração cognitiva que nos levaram a acreditar em seres mitológicos, há alguns séculos, nos leva hoje a acreditar em abduções, sexo com extraterrestres, experiências deles, e naves espaciais (que nem seriam a melhor maneira de uma civilização avançada se comunicar, de qualquer maneira).

Outra falha é, por incrível que pareça, a falta de imaginação – os alienígenas, sempre humanoides, e sempre falando exatamente nos termos pelos quais as pessoas medianas que são abduzidas conseguiriam falar por si próprias. Mas, por dedução razoável, a configuração e a lentíssima evolução que resultou na humanidade não deve ser o único caminho para a vida vicejar aí afora, e por isso, pode ser que vida extraterrestre tenha formato muito diferente do baseado em carbono que conhecemos.

Alguém na escuta?

Mas, enfim, é bem sabido que argumentos lógicos são contestados sem lógica, ou ignorados, pelos que escolhem crer. Ou seja, não vou convencer ninguém que creia em óvnis e abduções que não há qualquer prova cientificamente aceitável a respeito.

Por isso, voltando ao livro de Farah, é uma boa diversão e uma boa leitura para a juventude de hoje, tão diferente, tão melhor informada, mas tão confusa quanto foi a da minha geração. Algumas necessidades são universais e atemporais. A de acreditar que haja algo além é uma delas, essencial. Por isso, respeito quem ignora, por opção ou por desconhecimento, as ferramentas científicas que, infelizmente, não autorizam a acreditar, por enquanto, em óvnis e abduções.

O mundo fica mesmo mais sem graça sem algo do tipo “pode ser que os aliens coloquem na cabeça dos cientistas e dos escritores pretensiosos a certeza que eles (aliens) não existem, para não atrapalhar seus planos”. (Risos) Talvez. Pode ser que haja dragões imateriais invisíveis também. E o mundo com graça é bem melhor.

O que é certo é que não somos o centro de tudo, como acreditamos. O planeta Terra é um grão de poeira no espaço, e nossas vidas, nas escalas cósmicas, são tão breves que mal se percebe que existiram.

Para quem quer acreditar

Mulder-and-Scully-mulder-and-scully-8678647-1681-2100O homem vasculha a imensidão em busca de companhia. Isso é até corajoso. Mas, enquanto nada de conclusivo se detecta, podemos nos distrair imaginando como seria este contato, por ficção boa como a de Sagan – o livro Contato (que foi filmado, com Jodie Foster no papel principal), ou a série de Farah, especialmente se você for jovem e/ou ufólogo.

Aficionados pelo antigo seriado Arquivo X (um dos mais bem sucedidos da TV, que falava sobre uma conspiração alienígena, e cujos protagonistas, o crédulo Fox Mulder e a cética Dana Scully, batizam este texto), talvez leiam esta resenha com aquele ar de desaprovação dedicado aos descrentes, e só diriam, meio condoídos: “a verdade está lá fora”. Mas como ela não dá sinais incontestáveis, por enquanto ficarei com as verdades e a vida daqui de dentro mesmo. E outra: Mulders precisam de Scullys, ou não há um time.

 

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