Feeds:
Posts
Comentários

Posts Tagged ‘ditadura’

 

Por Rodrigo Casarin

Ilustração de Janio Santos

Janio Santos

1.

Quando escrevemos, quando criamos, expurgamos o que está em nós, damos forma a sentimentos, organizamos ideias, refletimos sobre o que parecia estar escondido em algum compartimento na periferia do cérebro, dividimos com o papel – real ou virtual – o peso de nossas experiências, um pouco de nossas sombras. Às vezes, algo que começa como um íntimo desabafo se transforma num revigorante e produtivo processo.

2.

Você vai voltar pra mim é um apanhado de histórias transformadas em contos. Praticamente todos eles são de alguma forma inventadas, buscam fazer um retrato da realidade que talvez só seja possível com as nuances permitidas pela ficção. Mais do que relatos pontuais da época da ditadura no Brasil, os textos trazem o clima de medo, perseguição e até mesmo indiferença – a maioria das pessoas não estava nem aí para o que acontecia – que se instaurou no país ao longo de duas décadas que estão num passado apenas cronológico. O período está ali, bem representado, seja de maneira trágica, como em “Sobre a natureza do homem” e “Tio André” – talvez o melhor texto de todo o livro –, seja de maneira originalmente saudosista, como em “Recordações do casarão”.

Olhados na totalidade, os contos nos dão um grande panorama da vida íntima de muitos brasileiros ao longo da ditadura, de famílias que entravam em conflito porque o filho com verve revolucionária batia de frente com o pai reacionário (“Pais e filhos” e “Os gaúchos”), de “subversivos” que, por viverem em estado de permanente tensão, de medo de serem pegos pela polícia, acabavam encontrando alguma tranquilidade somente quando presos (“A mãe rezadeira”), dos podres da esquerda, tanto em forma de membros delatores (“Dodora”) quanto das artimanhas ilícitas para se levantar dinheiro (“O filósofo e o comissário”). Você vai voltar pra mim trata o assunto com a complexidade e profundidade que ele merece ser tratado, enfim.

3.

Bernardo Kuscinski entrou na USP no começo da década de 1960 para estudar Física. Quando um grupo de alunos subversivos foi expulso da FEI, estava dentre aqueles que os receberam na Universidade de São Paulo. De maneira quase que natural para um jovem estudante, pendia para a esquerda na mesma proporção que a direita se extremava. Tentou entrar para um grupo trotskista – estava de olho principalmente nas meninas que dele participavam –, mas foi recusado sob a alegação de que era muito fraco. Isso talvez tenha lhe poupado a vida.

Então, colaborava como podia. Levava bilhetes de um grupo para outro, ajudava em ações e até mesmo assaltou alguns mimeógrafos – apesar de não saber para quê foram usados. Percebeu que tinha mais jeito para comunicação e trocou a física pelo jornalismo. Trabalhando na revista Veja, participou da publicação de duas matérias de capa que denunciavam a tortura no Brasil. Fez também um dossiê sobre o assunto, com o irônico objetivo de ajudar o ditador Médici, que bradava ser contra aquela forma de violência, a extinguir a prática cada vez mais disseminada no Brasil. Se não houve censura antes da publicação, a perseguição após a veiculação das matérias foi enorme. Acreditava que colegas da imprensa ficariam ao seu lado, mas estava errado. Com medo de que algo pudesse acontecer, aproveitou que a esposa estava em Londres e se auto-exílou na Inglaterra.

Kuscinski viveu a ditadura de perto. Mais que isso, conheceu gente que mergulhou e foi engolido pelas entranhas dos órgãos de repressão. É com base nas histórias dessas pessoas que escreveu Você vai voltar pra mim.

2.

A semelhança entre K. e a obra de Kafka é evidente, a começar pelo nome do protagonista, K, que remete a Joseph K., personagem principal de O processo. K está em busca de sua filha, Ana Rosa, e de seu genro, Wilson, desaparecidos durante a ditadura. Já não tem esperanças de encontrá-los vivos, mas quer os corpos, reivindica seu direito de cumprir os ritos e o luto necessários para que a morte possa ser, se não superada, ao menos aceitada. Nessa busca, entra num espiral de mandos, desmandos, informações, contrainformações e absurdos semelhantes aos vividos por Joseph K. Além disso, em todo momento a ditadura soa como a grande força superior que inspira medo e transforma vítimas em culpados – para Kafka, esse elemento estava em casa, como podemos comprovar em sua Carta ao pai.

Mas claro que não é só isso. K também luta contra a crueldade do desaparecimento súbito e sem registros – até mesmo durante o holocausto, os soldados de Hitler ao menos anotavam os nomes das vítimas. Os capítulos alternam o foco entre K e outros personagens, como uma delatora construída com extrema complexidade, cuja participação é um dos pontos mais altos da obra. Também mostra os problemas da esquerda radical, seu totalitarismo, seus hábitos semelhantes aos praticados por aqueles que combatiam. No âmbito familiar, é uma narrativa sobre um pai que se aproxima e passa a conhecer muito mais sobre a sua filha – não só politicamente, mas também pessoalmente – apenas depois que ela desaparece.

3.

Ana Rosa Kuscinski e Wilson Silva desapareceram em 22 de abril de 1974. Militavam pela ALN (Ação Libertadora Nacional) e sumiram quando os repressores eliminavam pessoas que pudessem comprometê-los de alguma forma. A bandidagem batia continência.

Bernardo Kuscisnki estava em Londres e só soube do desaparecimento da irmã e do cunhado quando seu pai foi encontrá-lo. A princípio, acreditavam que o sumiço poderia ser temporário. Porém, com o passar dos dias, das semanas, dos meses, primeiro a angustia e depois o desolamento aumentavam na proporção inversa à esperança de acharem Ana e Wilson vivos. Investiram dinheiro, contataram gente em diversos lugares do mundo, vasculharam todas as pistas que surgiram, mas elas sempre vinham acompanhadas de algo estranho, como uma força maior que misteriosamente as alteravam e impediam que se aproximassem de alguma verdade. O espectro ditatorial parecia atuar em todas as instâncias.

A violência contra a família e contra Ana não se encerrou no desaparecimento em si. Depois disso, ela passou a ser tratada por muitos como uma mera comunista, como alguém que mereceu sofrer o que sofreu por ser subversiva. Nem mesmo na USP, onde dava aulas, recebeu um tratamento respeitoso. Após uma decisão tomada por seus colegas, foi destituída de seu cargo por abandono de emprego, como se não ir ao trabalho fosse uma opção sua, não uma consequência de seu assassinato, de um crime político. O caso ainda é uma chaga na história da universidade.

No ótimo K., Kuscinski romanceia a história da busca de seu pai por sua irmã e se aprofunda nessas questões que envolveram o pós-morte de Ana.

2.

A abordagem que Kuscinski utilizou em K., a tragédia vista sob uma perspectiva próxima, mas não grudada, a um pai que perde sua filha, o transforma em um livro esteticamente mais interessante do que Você vai voltar pra mim. Contudo, ambos são fundamentais – aliás, qualquer obra bem escrita sobre a ditadura é fundamental. Retratam um período que ainda não se esgotou, que vive nos algozes impunes que continuam por aí, nos mais variados tipos de vítimas e, o que é mais preocupante, em seus entusiastas.

Mas a relevância vai além. Todas as atrocidades representadas nas obras de alguma maneira eram justificadas por conta da vítima ser “subversiva”, algo bastante semelhante com o que temos hoje, quando alguém pode ser espancado por dez policiais em uma manifestação, afinal, se estava lá, é “baderneiro”, ou preso ao poste com um cadeado de bicicleta, já que é “bandido” mesmo. O ser humano continua sendo descartável no Brasil, só mudaram os adjetivos.

Um dos melhores trechos de K. vai ao cerne da questão, flertando com a humanização dos animais e animalização dos humanos: “Mandou comprar essa ração de trinta paus o quilo, mais cara que filé mignon; o pior foi ontem, quanto eu falei em sacrificar a cadela, levei o maior esporro, me chamou de desumano, de covarde, que quem maltrata cachorro é covarde; quase falei pra ele: e quem mata esses estudantes coitados, que têm pai e mãe, que já estão presos, e ainda esquarteja, some com os pedaços, não deixa nada, é o quê?” – haviam acabado de matar os donos da cadela que agora deveriam cuidar bem.

3.

Kuscinski acredita que no Brasil a ditadura não tem o tratamento que merece. Crê que o brasileiro, de uma maneira geral, não se envergonha de um dos períodos mais asquerosos de sua história, que encara as perseguições, torturas, mortes e sumiços como algo necessário para aquele momento. Evoca países que protagonizaram tragédias semelhantes, ainda que de proporções distintas, e tentam se retratar com o passado, como a Alemanha e a necessidade de reafirmar constante que o holocausto foi um erro gigantesco, como outros países da América do Sul, que julgaram, condenaram e prenderam ditadores e seus capangas fardados. Aqui não. Apesar da Comissão da Verdade, o esforço é pequeno, como se não quisessem incomodar os velhinhos que ainda exercem influência e, mais do que isso, são admirados por membros das Forças Armadas e de parte representativa – e poderosa, principalmente – da população.

16.

Mas essa é a visão macro, a visão do país, do povo. Há ainda a visão micro, o eu, a tragédia particular. Essas Kuscinski começa a de alguma forma superar. Depois de ser compulsoriamente aposentado pela USP, onde era professor, e de se desiludir com o jornalismo que pende cada vez mais para o lado de quem detém o poder, resolveu escrever ficção – garante que ela permite uma maior reflexão sobre a condição humana.

Enquanto conversamos sobre sua relação com o período ditatorial, sobre sua irmã, seus olhos permaneceram vermelhos como o uniforme da seleção da Polônia – país onde seu pai nasceu. Às vezes os esfregava com as mãos, com força, apertava-nos, mas nenhuma lágrima se desprendeu do seu marejado globo ocular. Sua aparência, seu sentimento, só mudou quando falamos de literatura. Sorri para dizer que descobriu a maravilha que é inventar ou recriar histórias, mas lamenta ter começado muito tarde – ele completa 77 anos em 2014. Arrisca-se em diversos gêneros, experimenta-se com o estilo de outros escritores, passeia por temas, descobre-se como autor. “Rompi com a razão racional, fui para a razão humana”.

Por que optou por começar escrevendo sobre a ditadura? Porque era o que ainda estava – está – latente dentro de si. Enxerga Você vai voltar pra mim como um livro bastante forte, mas escrito com a cabeça, enquanto diz que K. foi feito com suas entranhas. Dessa forma, com a cabeça, com as entranhas, Kuscisnki encontrou nas palavras uma forma para cuidar de seu passado.

Texto publicado originalmente na edição 98 do suplemento literário Pernambuco.

 

Read Full Post »

IvanaDepois de passar por distintas fases, Ivana Arruda Leite não sabe porque escreve. Mais que isso, fará dessa falta de resposta o mote de seu próximo romance. A mestre em Sociologia pela USP que nasceu em 1951, em Araçatuba, é autora de obras como Falo de mulher e Ao homem que não me quis, de contos, da novela Eu te darei o céu – e outras promessas dos anos 60 e dos romances Hotel novo mundo e Alameda Santos. Também escreve livros infantis e infanto-juvenis e vê alguns de seus trabalhos sendo publicados em no exterior. A escritora fala disso e de diversos outros assuntos na conversa que tivemos com ela.

Canto dos Livros: A revista alemã Die horen publicou dois contos seus. Quais contos são esses? Do que eles tratam?

Ivana Arruda Leite: Os contos são “Receita para comer o homem amado” e “O sabonete das estrelas”. O primeiro é do meu livro Falo de Mulher, o segundo, do Ao Homem que não me quis.

CdL: O que significa ser publicada numa revista estrangeira? Como conseguiu essa publicação?

IAL: Essas publicações (além de antologias no México) são reverberações da feira de Frankfurt, que jogou luz sobre autores brasileiros. Apesar de não ter ido à feira, fui publicada na revista bilíngüe Machado de Assis, da Câmara Brasileira do Livro, e ela me levou a outras publicações.

CdL: Por que você escreve?

IAL: Se você me fizesse essa pergunta há quarenta anos eu diria “escrevo porque a literatura é a minha vida, o meu meio de expressão pra chegar às pessoas. Através dela eu consigo organizar meus sentimentos, minhas idéias e botar pra fora todo meu torvelinho interior. Sem a literatura eu morro”.

Se você me fizesse essa pergunta há dez anos eu diria: “escrevo pra chegar às pessoas, emocioná-las com minhas histórias, fazer com que elas se identifiquem, tenham um pouco de conforto e consigam rir de si próprias”.

Hoje você me pergunta e eu não tenho resposta.

Durante anos escrevi pra me curar ou curar as pessoas. Esvaídos esses propósitos, busco um sentido para a escrita e a resposta para a sua pergunta.

CdL: Do que tratará seu próximo romance?

IAL: Justamente disso. Meu próximo romance conta a história de um escritor cinqüentão, boa pinta, sucesso de público e de crítica em crise com a literatura. De repente ele se dá conta que a vida fora dos livros é muito mais rica e bonita do que a artificialidade que ela ganha ao “virar” literatura. Depois de conseguir fama, dinheiro, prêmios e mulheres, ele se pergunta: escrever pra quê? Essa é a pergunta.

CdL: Você tem livros escritos para públicos de diversas idades. O que muda na hora de escrever um infanto-juvenil e um adulto, por exemplo?

IAL: Muda a temática e a linguagem. Tanto uma quanto outra devem se adequar aos pequenos. Eu acho muito mais fácil e divertido escrever pra crianças. Pena que essa que não seja minha vocação primeira. Os livros infantis são raros de acontecer e geralmente surgem para atender uma encomenda.

CdL: Até quando você acha que teremos a cultura do politicamente correto na produção infantil e infanto-juvenil?

IAL: Infelizmente, por muito tempo. Parece que o politicamente correto chegou pra ficar. Pior que o politicamente correto é a briguinha entre os dois partidos. Os corretinhos vendo os incorretos como preconceituosos escrotos, fascistas e reacionários; os incorretos vendo os corretinhos como babacas imbecis. Ai que preguiça…

CdL: Você já declarou que considera a narrativa no estilo “diário” um forte atrativo para o público jovem. Como você trabalha esse tipo de texto pra que ele não fique raso e/ou meramente anedótico?

IAL: Eu só tenho um livro no estilo diário, é o Confidencial – anotações secretas de uma adolescente. Como ele foi feito com base nas vivências com uma sobrinha muito querida de quem eu sempre fui muito próxima, eu tinha material para aprofundar questões polêmicas como sexo, drogas, brigas com os pais, etc. Apesar do humor (sempre presente nas minhas obras), o livro não ficou raso nem anedótico.

CdL: Você costuma citar Kafka e Julio Cortázar como suas principais influências na produção de contos por causa da concisão. Na sua obra, a busca pela concisão é uma escolha estilística ou, pra você, ser conciso é um pré-requisito para um bom conto. Por quê?

IAL: As duas coisas. Pra mim, a concisão é uma escolha por considerá-la um pré-requisito para o bom conto. Mas entenda: concisão não quer dizer necessariamente conto curto. Um conto pode ser imenso e ser conciso. Concisão é a qualidade do que não excede, não se estende em demasia, não enrola, não escreve em dez linhas o que pode ser dito em duas, segue rente ao osso. Essa será sempre minha escolha estilística.

CdL: O seu livro Eu te darei o céu é dedicado ao Joca Reiners Terron. Qual importância ele tem na sua carreira?

IAL: Eu vivia contando meus “causos” dos anos 60 nas rodas de cerveja da Mercearia [São Pedro, famoso ponto de encontro de escritores em São Paulo] e o Joca vivia insistindo pra que eu escrevesse sobre isso. Quando finalmente resolvi colocar minhas memórias adolescentes no papel, nada mais justo do que dedicá-las a quem me incentivou a fazê-lo. Fora isso, o Joca é um ótimo conselheiro e vive me dando palpites certeiros. Tonta sou eu que não os sigo à risca.

CdL: Você vivenciou diversos períodos emblemáticos na história do país e no mundo, como a Ditadura e a censura militar, o fim da polarização da guerra fria, o advento da internet. Em qual medida a experiência destas mudanças te afetou como escritora?

IAL: Essas mudanças me afetaram como pessoa. Nasci em 51. Cresci na efervescência psicodélica dos anos 60, passei a juventude sob o tacão da ditadura, dancei muito ao som do primeiro compacto dos Beatles, fui macaca de auditório do Roberto Carlos, saí à rua sem lenço e sem documento. Sou cria da televisão. Como passar imune a tudo isso? Claro que este universo acaba constituindo a pessoa que eu sou e a escritora que eu me tornei. Não há como fugir da própria história.

CdL: Qual a sensação ao ler algum texto seu escrito há muito tempo? Qual Ivana você enxerga nele?

IAL: Quando releio minhas primeiras publicações às vezes eu me surpreendo (poxa, que conto legal, eu não sabia que ele era tão bom); às vezes eu torço o nariz (poxa, que pena, se eu tivesse me dedicado um pouco mais, ele ficaria bem melhor); às vezes eu me arrependo (poxa, por que não joguei esse conto no lixo?)

CdL: O empoderamento feminino é um tema que vez ou outra aparece em sua obra. Como você enxerga essa questão na literatura atual? Acha que ainda há resistência a temáticas sobre as “minorias”?

IAL: Não acho não. Até porque as mulheres não são minoria há muito tempo. Nos meus contos você nunca vai encontrar a mulher coitadinha. Pelo contrário, elas são bravas, são loucas, se vingam e dão um jeito de saírem vitoriosas. Na real, o fato de ser mulher não faz de mim um ser especial com direitos e privilégios que os homens não mereçam. Somos todos igualmente desgraçados, homens e mulheres.

CdL: Durante sua carreira, houve mudanças em relação ao reconhecimento das mulheres escritoras? Se sim, quais? São necessárias mais mudanças, ou o status do escritor independe do gênero sexual?

IAL: O status do escritor independe do gênero.

CdL: Certa vez você disse que sonhava em viver de literatura. Como anda a busca por esse sonho?

IAL: Depois de trinta longos e árduos anos de trabalho, hoje sou funcionária pública aposentada e tenho a sobrevivência garantida até o fim dos meus dias. Não preciso da literatura pra viver. Aleluia!!!! E aí volta a pergunta: escrever pra quê mesmo? 

Read Full Post »

Por Rodrigo Casarin

Os escritores argentinos possuem uma longa tradição de criar ficções tendo como base acontecimentos ou personagens políticos históricos de seu país. Lançado em 1961, Sobre heróis e tumbas, de Ernesto Sabato, retrata artisticamente a morte do general Juan Lavalle — militar que batalhava pela independência da Argentina — em uma das tramas que compõem o livro. Já em 1995, o jornalista e escritor Tomás Eloy Martinez romanceou as andanças do corpo embalsamado de Evita Perón, figura das mais adoradas — e odiadas –, em Santa Evita. Agora, é a vez do período da ditadura militar pelo qual o país passou servir de tema para uma quantidade significativa de manifestações nas mais variadas formas de arte, dentre elas a literatura. E é esta fase que serve de ambientação para História do cabelo, de Alan Pauls, segundo volume de uma trilogia — composta também por História do pranto e História do dinheiro (ainda inédito) — sobre os anos 1970.

História do cabelo traz a saga de um tímido tradutor em busca do salão e do cabeleireiro que acerte o corte de cabelo perfeito. A obsessão com modelos, tratamentos e produtos capilares é o que move sua vida. Cada corte de cabelo — e o seu resultado — é como se uma obra de arte fosse feita ou admirada. “É a lei do cabelo. Cada salão que não conhece e no qual se aventura é um perigo e uma esperança, uma promessa e uma armadilha. Pode cometer um erro e afundar no desastre, mas, e se acontece o contrário? E se encontra, por fim, o gênio que procura? E se por medo não entra e o perde?”, divaga o narrador de maneira a praticamente tocar a alma do personagem principal e expor a principal razão pela qual vive.

Ao longo do livro, a vida deste personagem — que não tem seu nome revelado — é menos contada e mais percebida de acordo com tudo o que acontece com seu cabelo. Loiro, em dado momento tenta fazer um corte blackpower para romper com o “dogma da beleza oficial” e mostrar que é rebelde e ousado, como se uma simples mudança no cabelo representasse uma mudança de comportamento ou atitude, por exemplo. Sem muitos avisos, tudo vai acontecendo, se misturando, indo, voltando, desenrolando, sempre com o cabelo servindo de propulsor das histórias, ações, reações, sentimentos e lembranças. Em História do cabelo, o tempo passa com poucos avisos, deixando marcas profundas. Paulatinamente, é possível perceber o desprezo do personagem — uma pessoa fechada e introspectiva — pelas amizades e as dificuldades de diálogo, relacionamento e convívio.

Forma aos fatos

A ditadura argentina está no pano de fundo da história, influenciando sutilmente as decisões do protagonista — que não está preocupado com a situação política do país, mas sim com o que farão do seu cabelo, transformando-se em uma ótima caricatura do homem comum, do homem médio, aquele que está e prefere se manter alheio ao que acontece ao seu redor, importando-se somente consigo mesmo ou com seus familiares, no máximo. Apenas nas páginas finais que o totalitário governo militar passa a ser tratado de maneira mais explícita. É aí que o narrador aproveita para mostrar seu incômodo e ojeriza com o que vem daquela época, como um certo corte de cabelo dos anos 1970 que sobreviveu às décadas seguintes por estar eternizado em cabeças de celebridades. “A pátria desse corte é a Argentina e […] a época em que floresce é a época em que tudo o que nasce e cresce da terra é filho dos rios de sangue que substituem os adubos tradicionais com que se nutre a terra” — até parece que é Alan Pauls falando.

Porém, se ao longo da obra a ditadura apenas permeia a história — exceto no final, como vimos —, esse momento histórico parece refletir o tempo todo na maneira de Pauls escrever. Parágrafos longos, com frases extensas, muitas orações, repletas de informações que se sucedem intercaladas. Cada um desses parágrafos, cheios de digressões, exige do leitor uma atenção extrema para que os sutis detalhes que compõem o mosaico da história sejam percebidos. É como se a sintaxe refletisse a complexidade da ditadura argentina, com todas as suas chagas que até hoje permanecem abertas em boa parte da população do país.

Além de escritor, Alan Pauls mantém uma sólida carreira relacionada à arte em forma de escrita. Atua como conferencista, articulista, colunista, ensaísta e crítico literário desde os anos 1990, tendo textos publicados em veículos da América Latina e da Espanha. E toda essa intimidade com as letras e suas possibilidades se reflete diretamente em seu texto. História do cabelo é um desfile de recursos literários. Flashbacks, fluxo de consciência, digressões, divagações, discurso indireto livre, pitadas de ensaio pessoal, detalhismo que chega a ser excessivo… tudo isso pode ser encontrado na obra. O livro também não tem capítulos, intertítulos ou sequer respiro entre certos parágrafos, o que, se não é nenhuma novidade, tampouco é algo corriqueiro.

Com domínio sobre esses recursos, Alan Pauls prova que é possível fazer boa literatura (se é que isso existe, pois, talvez, má literatura simplesmente não seja literatura) mesmo com um argumento bastante raso — a preocupação de um homem com seu cabelo —, tendo um personagem principal cercado de secundários que beiram a insignificância e com pouquíssimas tensões ao longo da quase inexistente trama — um dos momentos mais inquietantes da história é quando o protagonista, depois de achar o cabeleireiro perfeito, descobre que ele foi demitido do salão em que trabalhava.

Entretanto, mesmo sendo mais uma boa obra de ficção que leva em conta a história argentina, a estética que Alan Pauls emprega em História do cabelo  e que também empregou em História do pranto e provavelmente empregará em História do dinheiro — deixa a impressão de que a trilogia destina-se àqueles que já possuem boa experiência com obras escritas em uma linguagem mais complexa. Poderia até dizer que História do cabelo é um livro feito pensando muito mais na leitura de um crítico do que na de um leitor. Contudo, o que é um crítico se não um bom leitor?

Texto publicado originalmente na edição de setembro do jornal literário Rascunho.

Read Full Post »

Os escritores ficcionistas sabem o quanto é difícil criar um livro. Qual história contar? O que serve ou não para aquela história? Tais cenas são suficientemente boas para compor a obra? Como construir o personagem? Quais características ele terá? Vai gostar de cerveja ou vinho? Quanto do real estará presente nas páginas? Quais palavras usar para descrever uma situação que pode ser descrita de inúmeras maneiras? Qual o melhor começo? Por onde começar a escrever? Construo primeiro um final, a primeira frase, crio um roteiro…?

É sobre essa aflição do autor que trata Procura do romance, de Julián Fuks, publicado neste mês pela Record. O personagem principal da obra é Sebastán, um escritor brasileiro que retorna à Argentina para, no apartamento onde cresceu e passou boa parte da juventude, procurar inspirações para o seu próximo romance. Boa parte toda a história se passa na cabeça de Sebastián. Quase todos os objetos que toca, cenas que vê e pessoas que tem contato são capazes de fazer com que o personagem desencadeia uma série de pensamentos ou mergulhos em sua memória. Até as coisas mais banais desencadeiam-lhe ideias e sentimentos. A dúvida é sempre a mesma: posso usar isso ou não para o próximo livro? A conclusão é quase sempre negativa. E quando esses mergulhos na consciência de Sebastán tocam o passado do escritor, acabam por revelar, até de forma inesperada, um pouco da história do personagem.

Contudo, antes de qualquer coisa, Sebastián é um traído, uma traído pelo seu próprio criador. De nada adiantaria ele achar uma ideia brilhante para a sua obra. O narrador tem acesso a tudo o que se passa em sua cabeça e revela essas confabulações em Procura do romance. Se a história do livro é a história de Sebastián em busca de uma história, qualquer história que Sebastán pensasse já estaria retratada no livro de Fuks. Ou seja, já teria sido contada, revelada. Na verdade, tudo o que Sebastián descarta, Fuks aproveita em Procura do romance.

Fuks opta por começar a obra com a fala de uma personagem em espanhol para nas páginas seguintes explorar a consciência de Sebastián. O recurso de usar o espanhol para a fala dor personagens argentinos é bastante interessante, uma pena que não tenha sido mantido nos diálogos mais extensos. Ao compor a narrativa, o escritor também demonstra um vasto conhecimento das palavras da língua portuguesa, contudo, a variação vocabular – que por si só é uma grande qualidade – em alguns momentos parece forçada, o que acaba deixando um ar de pretensão exacerbada. Essa pretensão também está presente em algumas descrições, às vezes carregadas de detalhes que não fazem a menor diferença para o texto – não cumprem função estética alguma e frequentemente travam a  leitura – ou para a história.

Tradutor e autor de Histórias da literatura e cegueira e Fragmentos de Alberto, Ulisses, Carolina e eu, Fuks possui diversas semelhanças com Sebastián. A mais óbvia é que ambos são escritores. Mas os dois são brasileiros filhos de país que vieram da Argentina para o Brasil fugindo da ditadura e possuem uma forte ligação com o país vizinho. Em muitos momentos, Fuks parece colocar em Sebastián as suas opiniões, apenas para dizer o que pensa de alguns assuntos, como a arte voltada puramente para aspectos comerciais.

Ainda com relação à ditadura, o tema parece ser o grande mote para a produção artística na Argentina – ou das histórias que na Argentina se passam – nos dias de hoje. É bastante comum vermos filmes e livros que tratam do assunto com bastante profundidade e que, por mais que a enredo tome outros rumos, acaba flertando com o período que os militares argentinos estiveram no poder de seu país, como é o caso de Procura do romance.

Read Full Post »

%d blogueiros gostam disto: