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Posts Tagged ‘Dostoievski’

Por Rodrigo Casarin

Foto: Victor Daguano

Foto: Victor Daguano

A história já é conhecida: uma garota de programa faz sucesso com um blog e resolve transformar as suas experiências na cama em um livro. Se outrora quem assumia esse papel de prostituta-escritora era Bruna Surfistinha, agora é a vez de Lola Benvenutti, que acaba de lançar O prazer é todo nosso, destinado “a todos que desejam gozar a vida longe de tabus e preconceitos e querem ser livres para descobrir seu corpo e suas inúmeras possibilidades de prazer” – é o que diz a contracapa.

Entretanto, a trajetória de Lola difere de sua antecessora. Aos 22 anos, é formada em Letras pela Universidade Federal de São Carlos. Foi fazer o curso pela paixão que tem por literatura, por autores como Dostoiévski e Nelson Rodrigues. Na faculdade, descobriu também gostar de africanos como Ondjaki e Mia Couto. “Gosto muito da poesia que há na prosa deles, me toca muito, são bastante viscerais. Acho que o Mia Couto tem muitas similaridades com o Guimarães Rosa”, compara. São dois escritores que fizeram livros que lhe marcaram, aliás: Terra sonâmbula, de Mia, e Grande sertão: veredas, de Rosa, que remete-lhe à mudança do interior de São Paulo para a capital paulista.

Uma frase de Rosa, inclusive, virou uma das diversas tatuagens que colorem o seu corpo: “Digo: o real não está na saída nem na chegada: ele se dispõe para a gente é no meio da travessia”. Tatuou ainda outras duas frases cunhadas por escritores: “Dizer insistentemente que fazia sol lá fora”, de Manuel bandeira, e “Quem não sente no corpo a alma expandir-se até desbrochar em puro grito de orgasmo, num instante infinito?”, de Carlos Drummond de Andrade.

No dia a dia faz o possível para ter algum tempo para leitura. Atualmente, divide-se entre A vida como ela é, de Nelson Rodrigues, Fanny Hill ou memórias de uma mulher de prazer, de John Cleland, e Um rio chamado tempo, uma casa chamada terra, outro de Mia Couto. Mas não é sempre que consegue arrumar uma hora livre em sua agenda. Seu cotidiano é corrido. Além de atender os clientes, gosta de responder pessoalmente todos os mais de cem e-mails que recebe diariamente. “Tenho que dar atenção para as pessoas que me procuram, não é só passar um preço, então é o tipo de coisa que não dá para delegar”.

Esse envolvimento com a literatura lhe trouxe algumas perturbações na hora de escrever O prazer é todo nosso. De cara, revela estar preocupada com a crítica, com a maneira que os leitores receberão a obra, diz há um peso maior quando algo é escrito por uma pessoa formada em Letras.

O resultado do trabalho é uma série de histórias que se passam na cama – ou em lugares mais improváveis, como um carro em movimento, com o parceiro ao volante –, pontuadas por um tom que mistura o professoral e uma espécie de autoajuda sexual. “Quis levar um olhar intenso para as relações, que vai além do sexo. Passei um ano escrevendo, procurei problematizar questões da sexualidade, refletir sobre o ato em si, sobre o prazer. É importante fazer com que as pessoas se permitam viver novas experiências”, explica.

O prazer é todo nosso

Lola diz que não há uma linha de ficção em seu livro, que realmente viveu todas as histórias da maneira que estão contadas. São passagens como um swing com 15 casais em uma festa fechada em Ribeirão Preto, situação que compara ao filme De olhos bem fechados, de Stanley Kubrick, com uma clássica cena de orgia. “Quando estavam me levando para aquele lugar, completamente isolado, misterioso, eu realmente achei que ia morrer”. Há outros momentos inusitados, como usar um dos brinquedos sexuais que leva na bolsa para se masturbar em meio a um congestionamento em São Paulo ou ser contratada para satisfazer cinco amigas, cujos maridos viajavam a trabalho, em uma “noite das mulheres”. Também situações mais leves, como quando ajuda um casal a retomar o tesão mútuo, auxilia uma mulher a gozar pela primeira vez na vida ou orienta um rapaz com clara inclinação homossexual a se permitir experiências com pessoas do mesmo sexo.

Entretanto, algumas passagens ficaram de fora por serem “pesadas demais”: a vez que atendeu um cego com fístula no braço e mal hálito, por exemplo, ou as diversas vezes em que clientes não apenas consumiram drogas em sua presença, mas insistiram para que ela também o fizesse – o que sempre recusou, garante.

O prazer é todo nosso apresenta referências a outras obras literárias, como um capítulo chamado História do olho, do francês Georges Bataille, um dos grandes clássicos da literatura erótica, gênero que muito agrada Lola. Da vertente, destaca Hilda Hilst, Anais Nin, Henry Miller e um quadrinista contemporâneo, Chester Brown, canadense autor de Pagando por sexo. “É uma HQ que traz uma problematização, apresenta o ponto de vista masculino sobre a relação com prostitutas e é uma história situada nos dias de hoje”.

Sobre os soft porns, diz ver certa importância neles por, eventualmente, fazerem com que pessoas descubram o prazer da leitura e se permitam algumas inovações na vida sexual, contudo, as qualidades acabam por aí. “Tecnicamente, leio e penso no Milton Hatoum, por exemplo, que constrói um labirinto que não é possível ser desvendado sem que se preste muita atenção no que está lendo. Nesse aspecto, esses pornôs que estão na moda não são tão bons”.

No campo profissional, Lola relata que títulos como Cinquenta tons de cinza pouco lhe impactaram; mesmo antes do sucesso da publicação, já tinha um perfil de dominadora e costumava praticar sadomasoquismo com homens. “Além disso, vejo nos livros mais algo onírico, da mulher ser tratada como uma princesa na vida cotidiana e ser dominada na cama”.

Lola e suas colegas

A influência da literatura também está no nome de trabalho da garota, que na verdade se chama Gabriela Natalia Silva. Enquanto o Benvenutti remete à “bem-vindo” em italiano, o Lola é uma homenagem a Lolita, a clássica ninfeta de Vladimir Nabokov. Ela se vê, de certa forma, nesse papel, como uma menina sensual que mexe com a cabeça de homens mais velhos.

Prostitui-se desde os 17 anos e, apesar das pretensões com a carreira literária e da vontade de fazer um mestrado (quer estudar o sexo dentro da antropologia ou das ciências sociais para ir mais a fundo na parte teórica do assunto que domina na prática), não tem planos para deixar a profissão tão cedo. Orgulha-se do que faz. Diz que, mais do que prazer, tem o importante papel de dar atenção, ouvir, valorizar a compreender muitas pessoas que não encontram isso em outras relações.

Apesar de passar por momentos às vezes desagradáveis – certa vez precisou se segurar para não mandar o cliente “tomar no cu” depois de ouvir que poderia “ter mais peitinho” -, diz-se sortuda de trabalhar com tantas pessoas legais. Quando perguntada como prefere ser tratada, opta por “puta mesmo, acho mais original, causa um choque nas pessoas, é mais divertido, mais bem resolvido”. É aí que invoca Gabriela Leite – outra puta-escritora, autora de Filha, mãe, avó e puta, e ferrenha ativista na busca pelos direitos das profissionais do sexo, que faleceu em 2013 -, a quem prefere ser comparada, tanto que dedica o livro à ex-colega.

Contudo, o paralelo com Bruna Surfistinha e seu O doce veneno do escorpião é inevitável. É possível afirmar que Bruna é mais detalhista em seus relatos, vai mais a fundo nos pormenores carnais, enquanto Lola se preocupa em refletir sobre cada cena presente em seu livro. É como se a primeira não ligasse em assumir o lado pornográfico da obra, enquanto a segunda procurasse ficar no campo erótico, menos vulgar. Outra diferença: O doce veneno do escorpião traz uma narrativa única, enquanto O prazer é todo nosso pode ser encarado como uma sequência de contos, com alguma lógica e continuidade entre si, mas que também se sustentam se lidos de maneira independente. Em comum, ambas assumem que, além do sexo, precisam fazer as vezes de analista de diversos clientes.

Escrevendo O prazer é todo nosso – que sai com uma aposta alta, em tiragem de 10 mil exemplares – Lola conseguiu juntar as duas coisas que mais gosta na vida: o sexo e a literatura. Espera que o livro seja um divisor de águas em sua carreira, apesar de não fazer ideia de como ele irá repercutir e para onde vai lhe levar – só assegura que não será para longe dos programas.

Matéria originalmente publicada no Uol.

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Por Rodrigo Casarin

Karina Freitas

Karina Freitas

Paulinha Denise não é puta, apesar de suas roupas. Se veste para provocar e capricha no rebolado. Usa um chapéu que mais parece um poodle, que cobre seu cabelo alisado e oxigenado. Tem um cabeção, um rabo perfeito, uma borboleta gigante tatuada na coxa e um umbigão mal tesourado extremamente feio, com uma tripa um pouco pra fora. É a mulher mais brega de Suzano. Frequenta os bares do centro de São Paulo e gosta de frango a passarinho e baconzitos. Tem dois cachorros, Titi e Camila, e uma irmã trambiqueira. Foge para Mongaguá quando precisa fazer algo realmente sério. Nunca leu Dostoiévski, adora Zíbia Gasparetto, compra livros do Shinyashiki e jamais encherá o saco com Clarice Lispector e Amélie Poulain. Curte Zeca Pagodinho. Não conhece “Samba do avião” e não sabe nada de Tom Jobim e bossa nova.

Ariela é o contrário de Paulinha. Não depila os pentelhos à maquina zero. Veste apenas uma camisa xadrez e fuma no terraço, mostrando-se nua e cabeludinha para as meninas da rua. Larga calcinhas e bijuterias para marcar território. É uma mentira, uma falsidade ambulante, uma Lolita avançada tecnologicamente. Em seu beijo não há cerveja ou amendoim. Ariela faz sonhar, é mulher para apresentar como namorada. É Maria Rodapé, gosta de beatnik. Tem sorriso de coelho e curte enganar os homens. Enxerga poesia onde somente existe egoísmo, solidão e desespero.

Ivete coleciona revistas femininas, não perde um programa da Sílvia Poppovic e é especialista em sexo oral. Mora na rua 3122, nº411, B.C, atende no número de telefone do seu tio Fernando e não trepou ontem de tarde, apenas levou umas porradas reparadoras e transcendentais depois que seu parceiro achou uma camisinha jogada atrás da cama – e ele nunca usa camisinha.

Eva é uma debiloide que dá desconto após o programa e fala de amigas em meio ao seu trabalho, mesmo quando está usando a boca para tal – aliás, gosta de conversar enquanto realiza seu ofício com a língua, os lábios, a garganta… Não fuma e tem belos pés, com unhas redondas e cobertas por base. Deveria se sentir honrada pela sutil relação que tem com Charles Bukowski.

Claudinha! Ele queria currá-la tal qual lera em Nelson Rodrigues. Uma garota de talentos, queria ser escritora. Abriu as pernas, mas preferia não ver seu nome numa história. Ao final de uma tarde em Paquetá, reclamou que os pés dele não tinham vida.

Nelci, aquela de cabelo esquisito e calcanhares sujos, é uma típica representante das garotas da fila de cinema gratuito do Centro Cultural São Paulo. Adora dizer um monte de bobagens e falar sobre uma tal de filosofia de vida superior.

Cristina B. era uma paixão de infância, da sétima série B. Claro que ela provocou apenas ilusão e desilusão. Agora, com 34 anos e ainda bela, deve estar casada com um alemão escroto que lhe deu um casal de filhos mongoloides e a leva para passar as férias de julho em Campos do Jordão. Cristina B foi sucedida pela inesquecível Luciana H.

Cris tem dentes grandes, que projetam seus lábios como se engolissem a própria língua. Ela às vezes causa tédio. Já Thaís é arquiteta, lésbica e namora Bebel. Moderninha, gosta de acrílicos. Tem ainda a Regiane, do disk-putas, que beija na boca, não bebe e o chama de “Príncipe de verdade”.

Mulher, mulher

Sem mulher não existe Marcelo Mirisola. Não só o escritor, mas o autor, narrador e personagem também seriam impossíveis sem as presenças femininas. Sem elas, não conseguiriam dar um passo – ou escrever uma linha – sequer. “É impossível fazer qualquer coisa na vida sem a presença feminina, literatura é só uma entre as milhares de outras coisas”, diz ele no brevíssimo papo que tivemos por e-mail.

Elas são a grande força das obras de Mirisola e, nas colagens acima, estão exemplos dessas personagens que dão vida a alguns livros do escritor. Paulinha Denise e Ariela são as responsáveis pela existência de Hosana poluída, o mais recente, que será publicado agora em maio pela Editora 34. A história começa num arquipélago na ilha de Sumatra – um dos quatro territórios da Oceania no War, célebre jogo de tabuleiro – e passa por São Paulo, Guarulhos, Rio de Janeiro, Suzano e interior de Minas Gerais. Nas suas primeiras páginas, Marcelo Mirisola, o protagonista, ouve de uma marmiteira que também lê tarô que irá correr o mundo e desfrutar do sexo de muitas mulheres – clarividência que reverbera por toda a obra do escritor.

Mas antes de continuar falando sobre as beldades mirisolianas, vale passar por alguns outros pontos de Hosana poluída. A prosa de Mirisola continua precisa até mesmo nas notas de rodapé – ou principalmente nas impagáveis notas de rodapé –, que costumam concentrar toda a verve cafona e sacana do autor, numa ótima mistura de Xico Sá com Chales Bukowski. Uma amostra: “Dedo no cu, no caso dos bitiniques de padaria, dois dedos cruzados – como se materializassem uma estrutura de DNA – que por sua vez denunciaria a falta incorrigível de talento e ânsia de se foder acompanhada de mais uma dose de Domecq” – o ódio é de Buk, a dose é de Xico.

A pontaria de Mirisola também continua ótima e mira desde aqueles que analisam seus livros – na visão do personagem, Paula Denise faz comentários mais pertinentes sobre Charque do que pesquisadores, mestres e doutores da Unicamp – e os “intelectuais ticket-refeição da Flip”, passando por velhos torturadores que hoje fazem hidroginástica no SESC “da melhor idade” até atingir o ápice com um “nazista ecológico dissidente do PV e recém-filiado ao PC do B” – e não se preocupem, também há referências críticas em tom parecido a outros partidos de diferentes vertentes ideológicas.

Nessa linha de contemporaneidade, vale ainda registar passagens em que o personagem envia mensagens de telefone de Tim para Tim “a custo quase zero”, a possibilidade do Facebook como ferramenta para manter ou resgatar o relacionamento e o sonho de comprar um apartamento em Suzano financiado pela Caixa. São detalhes, às vezes pequenos, que aproximam muito o texto do homem médio brasileiro, aquele que está sempre em busca de seu ouro de tolo. Ainda merecem destaque as referências, como a possibilidade de falar com um tal de Reinaldo Moraes doutor em relacionamentos, e citações a autores consagrados, como neste ótimo trecho: “O diamante é um dos poucos objetos lapidados pela vontade humana capaz de encerrar-se em si mesmo. Os livros de Camus também”.

Por fim, em um momento que tanto se discute a autoficção, impossível não registar o quanto escritor, autor, narrador e personagem Marcelo Mirisola são parecidos. Em dado momento, o personagem-narrador chega a pensar se referindo à Paula Denise: “Se ela quisesse mesmo ser minha mulher, teria de aceitar o pacote completo, eu & meus 12 livros publicados”. De um ano pra cá, Ricardo Lísias, por conta de seu Divórcio, que esteve no cerne dessa discussão. Considero isso um equívoco. A figura contemporânea ideal para ancorar o debate sobre metaficção e os limites entre escritor, autor, narrador e personagem é Marcelo Mirisola – boa parte de sua obra comprova e nos permite isso. Ele mesmo – o escritor – vai além. “Não só é possível, como é necessário [que haja a confusão]. Já disse numa entrevista, e repito: sou o Pedro Álvares Cabral da autoficção aqui no Brasil, e ninguém tasca”.

Voltemos às belas.

Ivete, Eva, Claudinha, Nelci, Cristina B, Luciana H, Cris, Thaís, Bebel e Regiane estão espalhadas por O herói devolvido (2000), O azul do filho morto (2002), Bangalô (2003) e Memórias da sauna finlandesa (2009) e entram neste texto porque seria um desperdício não aproveitarmos uma gama tão boa de personagens femininas. Afinal, Marcelo, personagem preferido de Mirisola, é um grande conquistador, praticamente um Renato Gaúcho das páginas literárias. E as moças que conquista possuem personalidade própria, muitas vezes flertam ou mergulham na breguice e cafonice, frequentam bares que fedem a urina e ficam com homens que se banham de loção barata. Não se importam de comer frango a passarinho e às vezes podem ter uma pele de amendoim nos dentes talvez sujos de batom. Não ligam para o bafo de cerveja ou cachaça – podem até sentir tesão nisso. São também moças que caem na lábia de intelectuais e se apaixonam depois de ouvirem algumas frases de efeito ou serem presenteadas com uma bijuteria bem acabada. E podem ser o contrário ou mistura de tudo isso, pois não seguem fórmulas. “Na mesma proporção em que elas me destroem, eu as construo”, conta o escritor. São mulheres de personalidade marcante, jamais idealizadas – a não ser pelos próprios personagens masculinos. E aí, méritos para o Mirisola autor e escritor, que, contudo, garante não sentir atração por nenhuma delas.

Você sente tesão pelas suas personagens, Mirisola? Com quais você gostaria de ter uma noite (ou uma vida)?

Só se eu fosse necrófilo. Tesão nenhum.

Mas eu disse que elas apaixonam e costumam se apaixonar de verdade. Aliás, o amor e a paixão são os grandes temas de Marcelo Mirisola. Muitas vezes são representados em relacionamentos breves, conturbados, acompanhados de traições corriqueiras, porém nunca simples, sempre sofridas. Alguns personagens podem até fingir que não ligam para os chifres ou para as desilusões, mas as frustrações e as dores em algum momento se manifestam, afinal, as relações são sempre intensas, mesmo que dure apenas uma noite – e isso graças às sedutoras Denises, Claudinhas, Regianes e afins.

Um conto que representa muito bem isso é “Festinha na masmorra”, de Memórias da sauna finlandesa, no qual o protagonista vai a um clube de sadomasoquismo para conseguir realizar sua grande perversão sexual: fazer papai-mamãe no escuro. É isso! Por mais que se cerquem de grandes extravagâncias, os personagens de Mirisola querem fazer papai-mamãe no escuro, sussurrar um “eu te amo” no ouvido da parceira e levar o café da manhã na cama, ainda que parceira e cama mudem a cada semana. Todos são desesperados por carinho e atenção. Entretanto, o próprio escritor discorda desse ponto de vista: “Eu penso que é tudo idealizado, apesar dos estragos causados pela realidade. Se o amor fosse possível, como você infere, não faria nenhum sentido escrever ficção”.

Há um trecho de Hosana poluída que é lapidar quanto a importância das mulheres na obra do escritor: “Inércia é a propriedade segundo a qual um corpo não pode modificar seu estado de movimento ou repouso, ao menos que sobre ele passe a atuar algo ou alguma força. Sem mulher, não há movimento”. Ou seja, a chave para entender Mirisola está em sua própria obra – é assim que os grandes artistas fazem, bastam-se naquilo que criam.

Texto publicado originalmente no suplemento literário Pernambuco.

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Rodrigo Casarin

Wellinton_Melo_estrangeiro_labirtinto_167-140x214Há diversas formas de ser derrotado.

No futebol convencional, aquele que passa na televisão, as variáveis não são tantas. Há a derrota comum (1 x 0 ou 2 x 1 para o adversário), as goleadas (a partir de três gols de diferença, exceto em clássicos, quando qualquer derrota — às vezes até o empate — soa como uma goleada) e a derrota doída, aquelas com virada após os 40 minutos do segundo tempo ou em partidas decisivas. Há ainda detalhes como perder jogando bem ou sem sequer ver a bola que apenas dão alguma complexidade ao fracasso.

No futebol de rua — ou de quadra, ou society, ou qualquer futebol jogado com os amigos — as variações de derrota vão além das já citadas. No tradicionalíssimo dez minutos ou dois gols, ver seu goleiro ser repetidamente vazado em menos de um minuto é deprimente, principalmente se o jogo seguinte correr ao longo de seu tempo máximo enquanto você espera apaticamente sentado na mureta. Se forem quatro times na quadra, então, o vexame se torna ainda maior — ele é sempre proporcional ao tempo de espera. Há ainda a derrota não-derrota. É simples: a vantagem do empate é do time que já está na quadra. Não importa que o desafiante sustente bravamente ao longo de dez minutos o placar em branco, aquele que já estava ganhando que continuará em campo e os guardiões da defesa suíça voltarão para o banquinho, derrotados sem perder.

Na literatura também há diversas formas de derrotas. Às vezes, os livros são derrotados, às vezes, os leitores. Se pegarmos para ler uma obra e a largamos antes da página 50 ou de completar 10% do calhamaço, derrota vexaminosa para o livro. Se lemos uma obra inteira para no final dizer “é uma porcaria”, derrota normal para o livro. Livro lido, entendido e leitor satisfeito é empate. Se estamos encantados com o livro, mas não conseguimos avançar em suas páginas por conta de uma clara debilidade nossa, 1 x 0 pro livro. Agora, se adoramos o que estamos lendo, criamos expectativa para continuar a leitura e chegamos ao final com a impressão de que tudo aquilo valeu a pena, mas que ainda há muito para se entender da obra, aí é goleada para o livro. Diferentemente do futebol, onde muitas vezes o técnico não pode ser execrado ou vangloriado pelo resultado de uma partida, quando o livro perde, empata, ganha ou goleia, seu escritor é sim diretamente responsável por aquilo e merece ficar com todos os louros — ou receber todas as vaias.

Já havia perdido para alguns livros. Ulysses, de James Joyce, me desbancou por volta da página 300, Cem anos de solidão, de Gabriel García Márquez, já me derrotou por três vezes (nas três eu ainda era bastante jovem, então anseio por mais uma revanche). Já sofri algumas derrotas mais feias (um 5 x 2, talvez) para obras de Proust e Dostoiévski, por exemplo. Agora, uma goleada como a que tomei de Estrangeiro na labirinto, de Wellington de Melo, jamais havia tomado. Futebol envolvente, insinuante, com jogadores de características completamente versáteis, um olhar crítico sobre a própria maneira de jogar, domínio tanto do espaço quanto do tempo dentro de campo, atletas com fôlego para ir até a linha de fundo, voltar, ir de novo, dribles improváveis e inesperados… Eu também estava em campo e jamais me entregaria. Tentei jogar. Quando houve espaço, fui pra cima, mas o contra-ataque era sempre mortal. Fiz o que pude, mas, ao final, bastava-me bater palmas e admirar aquele que me derrotou. Não lembro exatamente como ficou o placar, mas era algo clássico, típico da copa de 1954, como um 7 x 3 ou 8 x 4.

As impressões do derrotado

Na quarta capa do livro, dicas que a partida seria difícil: “Um juiz acusado de homofobia ao julgar um assassinato, mas que esconde um segredo ainda mais sombrio. Um matador de aluguel que volta à casa dos pais para acertar as contas com o passado. Uma prostituta viciada em crack que se vê presa em um labirinto de palavras” — até aí tudo bem, o time parece ser bom, mas dá pra encarar — “Vozes anônimas que tentam explicar a natureza de um livro que supostamente aprisiona seus leitores, usando conceitos de física quântica, da psicanálise e do ocultismo” — com essa filosofia de jogos é que as coisas se tornam mais difíceis para qualquer adversário.

Estrangeiro no labirinto é um livro múltiplo — palavra ideal para acompanhá-lo, aliás. São histórias diferentes, contadas por narradores (cronistas) diferentes, com vozes completamente distintas e bem caracterizadas, que se alternam e, de alguma maneira, compõem a própria história do livro. Cada trecho está dentro de uma porta que pertence a um salão e é precedido por cartas de tarô. Alguns cronistas narram as histórias anunciadas na quarta capa, outros filosofam, discutem, censuram-se.

Por todas as partes, dicas e evidências da multiplicidade dos personagens. O recurso do duplo é amplamente explorado por Melo, e, em muitos momentos, remete às diversas possibilidades de se ver uma só existência, algo tratado magistralmente pelo italiano Luigi Pirandello em Cem, nenhum e cem mil. A habilidade em lidar com esse jogo, arrisco dizer, deixaria Borges e Gógol orgulhosos do trabalho do autor.

Sim, Estrangeiro no labirinto é um labirinto, só que não um labirinto moderno e bonitinho, cheio de arbustos bem aparados e turistas sorridentes, mas daqueles com espelhos que nos refletem, distorcem e confundem, daqueles mitológicos, repletos de armadilhas e charadas a serem desvendadas, daqueles que uma vez dentro, a possibilidade de sair é quase inexistente — sim, porque as páginas do livro acabam, mas ele continua na cabeça.

Que venham mais leituras da obra, diversas outras, para que os elementos comecem a ser realmente percebidos, entendidos e, a partir disso, explicados e debatidos. Creio que Estrangeiro no labirinto terá uma carreira de glória pela frente, que será daqueles times com poucos torcedores, mas extremamente leais e qualificados. Parabéns pela vitória, Wellington. Sento na mureta e espero minha vez de lhe desafiar novamente.

Texto publicado originalmente na edição 167 do jornal literário Rascunho.

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Por Rodrigo Casarin

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Sou são paulino e apaixonado por futebol. Antes do preço dos ingressos me afastar da arquibancada, ia praticamente toda semana ao Morumbi, e às vezes até viajava para torcer. Como também sempre gostei muito de ler, natural que tenha um enorme interesse por livros sobre futebol e torcidas.

Em uma conversa, descobri que precisava ler Entre os vândalos, de Bill Buford, jornalista que viveu como autêntico hooligan do Manchester United e depois transformou sua experiência em livro-reportagem. Torcedor eu já era, e havia decidido cursar jornalismo. Claro que fiquei empolgado. Queria a obra imediatamente, mas mal sabia o quanto demoraria para consegui-la.

Comecei a busca quando estava no primeiro ou segundo colegial. Frustrei-me, estava esgotado. Seria exagero dizer que visitei quase todos os sebos de São Paulo, mas com certeza entrei em todos pelos que passei em frente: ninguém tinha o maldito livro. De tempos em tempos, mandava e-mail para a Companhia das Letras. Minha esperança não era que republicassem Entre os vândalos apenas por minha causa, mas que achassem um mísero exemplar perdido na editora. Não rolou.

Foi no segundo ou terceiro ano da faculdade que descobri o Estante Virtual. Finalmente uma nova chance se abria. Pelo que tinham me dito, seria impossível não achar alguma obra no site. Mentira, já não achei algumas, mas felizmente três exemplares de Entre os vândalos estavam à venda. Comprei de um sebo em Bauru, era o que estava mais próximo de São Paulo. Virou o meu livro de estimação.

Alguns anos depois, finalmente a Companhia das Letras republicou a obra. Confesso que até hoje, sempre que esbarro com algum exemplar na livraria, tenho vontade de comprá-lo. É estranho vê-lo ali, fácil, à disposição.

2.

Estávamos reunidos em umas dez pessoas. Discutíamos particularidades e rumos de um dos livros que estou escrevendo. O lugar era uma mistura de sala de estar e biblioteca. Logo interrompemos o papo para almoçar.

Nosso anfitrião é um grande colecionador. Dentre suas coleções, a de livros é uma das proeminentes. Enquanto pessoas se serviam de quiches e copos de água, aproveitei para dar uma olhada nos exemplares que estavam enfileirados nas prateleiras. Pouca coisa me chamou a atenção.

Sentamos, almoçamos, falamos amenidades e partimos para o café e a sobremesa. Ficamos todos de pé, rodando pelo espaço. Voltei às prateleiras e, enfim, um volume realmente me atraiu. Aliás, não só a mim, mas aos que me acompanhavam também. Indiscutivelmente, tínhamos ali uma preciosidade que nos maravilhava. Logo o anfitrião puxou uma mesa embutida à estante, pegou o livro e cuidadosamente abriu para que nós o admirássemos. Não tinha nome, mas o importante era sua data: 1492.

Ao vê-lo, fiquei momentaneamente paralisado, mas poderia jamais ter outra chance de me relacionar com um Matusalém daqueles. Abdiquei da compostura que a reunião pedia. Só ver o livro não bastava. Toquei, peguei, acariciei e, finalmente, levantei o livro e meti o nariz o mais próximo possível das suas páginas — precisava saber quais cheiros trazia do século 15.

Não senti grandes coisas, mas ao menos não espirrei.

Saí de lá surpreso: como uma raridade daquelas estava ali, sem proteção alguma, à mercê de uma xícara de café voadora ou de uma colher que erre a boca e derrube pavê sobre suas centenárias páginas?

3.

Sempre precisamos organizar minimamente nossos livros. Na parte de cima da minha estante ficam as obras, digamos, técnicas. Um pouco abaixo estão as de não-ficção. Já mais perto do chão, ficção, e, na mais baixa das prateleiras, livros sobre futebol — não o Entre os vândalos, que está em não-ficção —, música, livros que escrevi, enfim, um apanhado de tudo o que sobrou.

Dentro de cada uma dessas seções, eles são separados novamente de acordo com o seu gênero específico e dispostos conforme o sobrenome dos autores. Tudo isso na teoria, claro, pois na prática pouco funciona. Raramente um livro retirado da estante volta para o seu lugar de origem. Logo os espaços acabam e precisamos abrir concessões. Se não cabe mais nada na parte de biografias, é mais fácil deixar a vida de Borges provisoriamente perto de um Dostoiévski do que remanejar todas as obras até que ache algum espaço mais adequado.

Também há muitos livros que são difíceis de classificar. Onde colocar o último de David Foster Wallace (que precisei tirar da estante e já não voltará mais para o seu lugar)? Apesar da capa dizer que se trata de um livro de ensaios, a classificação não me convence. Ficando longe do fato de já estar meio que longe de tudo é muito mais um apanhado de experiências jornalísticas de DFW. E Nu, de botas, do Antonio Prata? São memórias de sua infância, mas, pela forma e pelo autor, estou propenso a colocá-lo junto de obras ficcionais, não próximo de O ano do pensamento mágico. A plena e satisfatória organização de uma estante ou de uma biblioteca é uma utopia. Gosto de utopias.

4.

Não costumo falar de mim em resenhas — se é que deste texto está saindo uma resenha —, deixo isso para quem sabe fazê-lo com maestria, como o Julián Ana (que, aliás, anda um tanto sumido aqui do Rascunho. Espero que volte logo.), mas é impossível ler Fantasmas na biblioteca — A arte de viver entre livros, do bibliófilo Jacques Bonnet, e não pensar nos momentos mais marcantes e na relação que tenho com os livros.

O livro é um ensaio — com certeza irá para esta seção — que traz diversas nuances da relação do seu autor com as obras que compõem sua vasta biblioteca. Fala da busca por exemplares raros, da estrutura requerida para abrigar tantos volumes, da necessidade de classificá-los, das formas de ler (aqui concordo plenamente com o autor, o ideal realmente é estar alongado, como se a posição permitisse ao texto descer melhor pelo corpo)… Em alguns momentos, Bonnet traz um humor sutil e uma ironia que me lembraram Vanessa Barbara — que, aliás, tem diversos textos também falando da sua relação com os livros.

Aparentemente, Fantasmas na biblioteca é despretensioso, e esse é um dos seus grandes méritos. Não é preciso ser um grande livro para ser uma obra preciosa, daquelas que se preocupam apenas com o prazer da leitura, justamente para aqueles que amam os livros. É sempre bom ver algo que amamos sendo tratado com o carinho que Bonnet aparenta tratar seus livros e as histórias que estão ao redor deles. É sempre bom quando algo nos faz lembrar vivamente das nossas próprias histórias.

Texto publicado originalmente na edição 164 do jornal literário Rascunho.

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Crédito da foto: Renato Parada

Crédito da foto: Renato Parada

Antonio Prata está em evidência. Na mesma semana do lançamento do seu novo livro, Nu, de botas, no início deste mês, envolveu-se em uma polêmica por conta do texto “Guinada à direita“, publicado na Folha de São Paulo, jornal onde é colunista. Alguns não entenderam sua suposta mudança de posição ideológica, e outros, pior, aplaudiram de pé o texto que precisou ser esmiuçado no domingo seguinte para que maus entendidos (ou entendedores?) fossem resolvidos. Autor de obras como Douglas, As pernas da tia Corália, Adulterado, Felizes quase sempre e Meio intelectual, meio de esquerda, foi um dos integrantes da edição da revista Granta com os melhores jovens escritores brasileiros e ajudou a escrever a novela Avenida Brasil. Além disso, informação importante, fabrica cervejas em sua própria casa. Falou de todos esses assuntos nesta entrevista que fizemos com ele (e de futebol também!).

Canto dos Livros: Como anda a vida depois da guinada à direita?

Antonio Prata: Muito mais tranquila. É bem mais fácil ser de extrema direita do que ser meio de esquerda. Você não precisa se preocupar com a pobreza – é culpa dos pobres – nem com a desigualdade – cada indivíduo é diferente do outro. Você pode fazer piadas racistas, machistas e homofóbicas e pagar de vanguardista. Ser de esquerda dá muito trabalho. Você está sempre sofrendo. Direita é paz de espírito. (RISOS – é sempre bom frisar…)

CdL: Ficou muito surpreso com a reação das pessoas a esse seu texto? Pensou que haveria tanta gente se identificando com o discurso e incapaz de perceber a ironia?

AP: Fiquei. Eu escrevi tantos absurdos no texto que jamais pensei que alguém pudesse levá-lo ao pé da letra.  Afirmava que José Maria Marin e Marco Feliciano eram de esquerda, que o “poderoso lobby dos antropólogos” havia transformado toda a área cultivável do Brasil em reserva indígena, que os negros estavam no poder, escanteando os brancos…

CdL: Na quarta capa de Nu, de botas está escrito que no livro “Antonio Prata revisita as passagens mais marcantes de sua infância”. Nessas revisitas você foi fiel à sua memória ou você criou histórias – ou detalhes – em cima daquilo que lembra da sua infância? Você realmente deixou de ganhar uma bicicleta do Bozo porque não sabia qual era o seu endereço?

AP: Olha, não dá pra chamar memórias de outra coisa senão de ficção, esse é um primeiro ponto. A memória é sempre uma história editada, reescrita no nosso cérebro. Às vezes (não poucas) é até inventada do zero. Memórias tão antigas, então… Eu não poria a mão no fogo por nada do que está no livro, se tivesse que testemunhar num tribunal quanto à veracidade. Ou seja, mesmo o que eu acho que aconteceu, não sei se aconteceu mesmo (ou se foi do jeito que lembro). Já certas histórias ou pedaços delas eu realmente inventei, para melhorar os enredos ou preencher brechas. A história da bicicleta eu trago na lembrança exatamente do jeito que escrevi. (Mas duvido que tenha acontecido: você acha que o Bozo ia conversar com um moleque de 5 anos depois do programa? E que ia se propor a dar uma bicicleta, do nada? Estranho.)

CdL: Como foi escrever esse livro?

AP: Foi legal. E cansativo, como sempre é a escrita.

CdL: É raro vermos crianças sendo bem retratadas na literatura e em Nu, de botas, você consegue captar bem o contraste entre a diferença de olhar, raciocínio e pensamento entre uma criança e um adulto. Como conseguiu isso? Tentativa e erro, estudos sobre a infância, convivência com crianças, boa memória dos primeiros anos de vida?

AP: Agradeço o elogio. Eu tentei criar as histórias a partir das memórias. E as memórias já tinham uma certa linguagem, um certo estilo de narrativa. O que tentei fazer foi ser fiel a esse estilo. Agora, se é assim que uma criança pensa (ou que eu pensava), já não sei. Mesmo esse elogio é o elogio de um adulto, alguém que, como eu, já não sabe mais o que passa pela cabeça das crianças. É igual filme de época. Você assiste Gladiador ou Spartacus e diz “nossa, eles recriaram direitinho a vida em Roma!”: mas quem é que sabe como era exatamente a vida em Roma?!

CdL: Ainda sobre a técnica de narrar histórias sob a perspectiva de uma criança, é uma questão da habilidade de bons escritores (como Bill Waterson e Neil Gaiman, para ficar em dois exemplos), ou há algum macete que facilite a tarefa?

AP: Pois então, são recriações, né? Pra começar, se eu quisesse ser realmente fiel ao pensamento das crianças, teria que restringir meu vocabulário a duzentas palavras, não poderia fazer frases longas nem conjugar direito os verbos. Eu tentei esse caminho quando comecei a escrever o livro, ficou ridículo. Experimentei alguns caminhos antes de chegar no que está publicado.

CdL: O Nu, de botas foi lançado junto com o Ligue os pontos, do Gregório Duvivier, em uma espécie de balada. De onde surgiu essa ideia? Como foi a experiência de aproximar dois universos tão distintos, a balada e a literatura?

 AP: A ideia foi da editora e eu achei ótima, porque sou fã do Gregório (embora não o conhecesse pessoalmente). Mais do que pela balada, o lançamento foi legal porque teve um bate-papo entre o Gregório e eu e leitura de trechos dos livros. Quanto à balada, propriamente, lamento dizer que eu tava tão exausto depois de tudo que nem consegui chegar à pista de dança. (Subir num palco e falar em público não é muito aterrorizante, pra mim. Aterrorizante são os sete dias e as vinte e quatro horas antes de subir no palco e falar em público…).

CdL: Você começou a publicar seus textos em veículos de comunicação bem jovem. De lá até hoje, como tem acompanhado as mudanças na imprensa? Como enxerga o futuro dela?

AP: Cara, quem souber responder essa pergunta ou é um gênio ou tá mentindo… 

CdL: Avenida Brasil foi uma das novelas mais elogiadas dos últimos anos, principalmente por causa de seu roteiro. Como foi fazer parte da equipe que escreveu essa novela? Como o trabalho era dividido? Quais eram as suas funções?

AP: A história é criada pelo autor principal, João Emanuel Carneiro. Todo dia ele faz uma escaleta, um resumão bem detalhado do capítulo e manda pros quatro colaboradores. Na escaleta, já vem apontado qual colaborador pegará quais cenas. A gente faz basicamente diálogos. Daí manda pra ele, ele dá um tapa final e manda pra ser filmado.

Foi demais participar dessa novela, por várias razões. Primeiro, por trabalhar com o João Emanuel, um escritor talentosíssimo e generoso, com quem aprendi muito. Também pela graça de escrever um troço que metade do país tá assistindo e comentando. Sem falar na alegria que é ver o diálogo que você escreveu sair da boca de alguns dos melhores atores do Brasil. (Em vários casos, aliás, melhorado por eles).

CdL: Ainda sobre a novela, você teve alguma participação nas hilárias cenas que o Tufão aparecia lendo A interpretação dos sonhos, de Freud (e o chamava de Fred), Mar morto, do Jorge Amado (para o Leleco dizer que nem sabia que o mar tinha vida para morrer) e O idiota, do Dostoievski (para o mesmo Leleco dizer que idiota mesmo era o Tufão)? Como foi a recepção para essas, digamos, intervenções? Como o pessoal da Globo as recebeu?

AP: Olha, quem mandava nas leituras do Tufão era o João Emanuel.

Não vejo essas citações como intervenções. Fazia sentido a Nina incentivar o Tufão a ler, como parte da “recuperação” que ela estava promovendo ali. E havia algumas piscadelas pro público, também. O primeiro livro que ela deu pra ele, se não em engano, era o Primo Basílio, que tinha não só o tema da traição como a inversão de papéis entre patroa e empregada, que se daria entre Nina e Carminha lá pelo capítulo cem. 

CdL: Seu pai, Mário Prata, o influencia como escritor?  Há ou houve alguma cobrança – sua, dele, da crítica ou dos leitores – pelo parentesco? Houve algum conflito íntimo quando você decidiu que seria escritor, como querer se diferenciar do estilo dele? 

 AP: Eu sempre digo que influência é uma palavra leve demais para definir o quanto a presença de um pai determina os caminhos de um filho. Mais do que me influenciar, ele me deu vinte e três cromossomos, me ensinou a andar, a falar, etc. Ou seja: sem dúvida “influenciou” muitíssimo minha escolha na profissão.

No começo havia a desconfiança de algumas pessoas, sim, mas com o tempo isso ficou pra trás. Ser filho de um escritor sem dúvida me abriu muito mais portas do que criou cobranças.

Não acho que eu tenha querido me diferenciar do estilo dele. Nossas disputas edípicas se deram em outros campos que não nas páginas

CdL: Como parte do time, o que você tem a dizer sobre o vexame brasileiro em Frankfurt? Perder de 9X1 não foi um pouco demais?

AP: Cara, pegue dezesseis escritores brasileiros que treinaram juntos duas vezes na vida no Playball da Barra Funda (nunca os onze do mesmo lado, só seis contra seis) e ponha pra jogar contra um time de quarenta alemães que treinam desde 2005. Ponha num campo oficial, a quatro graus, com garoa fina. Acho que 9X1 foi praticamente um empate.

CdL: Você também faz cerveja em casa. Há alguma forma de se relacionar a literatura com a cerveja caseira?

AP: Os textos dá pra consertar o tempo todo, dá pra mexer, remexer, cortar, remendar. Cerveja, se você cometer um errinho, vai tudo pro lixo. Ou melhor, pra pia.

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Por Rodrigo Casarin

Marcos_Peres_Evangelho_Segundo_Hitler_162-140x215Uma sociedade secreta em busca da verdade do mundo, do segredo mais profundo do cristianismo e da reencarnação de seu Messias. Uma seita de homens tatuados, mensagens subliminares encontradas nos contos de um escritor famoso, o homônimo deste escritor se transformando em seu duplo e tomando o lugar nada aprazível que caberia ao primeiro. Uma paixão improvável que ganha forças. A busca por vingança… Uma maçaroca de elementos que deixa alguns leitores realmente preocupados com o que estão começando a ler.

O evangelho segundo Hitler, de Marcos Peres, é um livro bastante atraente, a começar pelo seu nome, realmente forte. A também chamativa capa traz a informação de que se trata do vencedor do Prêmio Sesc de Literatura 2012/2013. Na quarta capa, palavras elogiosas de Manuel da Costa Pinto; na orelha, mais elogios, desta vez de André Sant’Anna, nomes que ajudam a dar credibilidade à obra. Mas a preocupação com a miscelânea de assuntos permanece. Faz muitos anos, mas já li O código da Vinci Anjos e demônios, e não gostaria de repetir a experiência, ainda que com outro título.

Pelo visto, Peres é um escritor atento, que se preocupa com o que o leitor irá achar do seu livro antes mesmo de lê-lo. Sabe que, apesar dos elogios, o que ele aparentemente promete pode gerar sérias desconfianças. Por isso, utiliza o prefácio para se justificar: “Minhas fontes eram os evangelhos canônicos, a curiosidade sobre História e a admiração por um escritor argentino chamado Jorge Luis Borges”, explica. Diz que gostaria de construir uma tese capaz de se erguer — ainda que de maneira frágil, como um castelo de areia —, mas não ser um “vendedor de teorias conspiratórias como os que pululam em livrarias”. Pelo contrário, gostaria de ser uma espécie de crítico daqueles que compram com facilidade qualquer tipo de teoria (e o que seria aceitar tudo em um texto literário? Tê-lo como verdadeiro? Plausível? Verossímil? Mas sigamos em frente). Para afastar de vez a sombra de Dan Brown, garante que se espelha principalmente em Umberto Eco, em O pêndulo de Foucault.

Menos mal, vamos ver se é isso mesmo, então.

Início desanimador

O começo de O evangelho segundo Hitler desmente o prefácio otimista de Peres e coloca em xeque os elogios de Pinto e Sant’Anna. Além do festival de elementos bem distintos que se entrelaçam, temos um texto ágil que se inicia com uma cena de muito suspense, um artigo misterioso, a procura por alguém que sabe de um segredo que mudou a história da humanidade… Tudo isso em capítulos breves e com finais em aberto, para que o leitor, totalmente envolvido com a trama e curioso para ter aqueles mistérios revelados, não desgrude um minuto sequer do livro; para que passe galopando de um capítulo para o outro. Ou desista.

Impossível não pensar em Dan Brown, não tem jeito. Mas, para que esse começo tenha alguma erudição, Peres desfila referências: cita Dostoiévski, irmãos Grimm, Dante, Harold Bloom, Aristóteles e até mesmo a Bíblia. Tivesse copiado qualquer um destes, é de se pensar.

Quisesse eu me apegar a isso e criticar negativamente a obra de Peres, poderia ir a fundo a alguns pontos, a começar pela relação que os jovens escritores brasileiros têm com Buenos Aires: parece que muitos deles conhecem mais a cidade portenha do que São Paulo, Curitiba, Belém, Cuiabá, Recife ou qualquer outro canto do Brasil. Falam de suas ruas e cafés como se falassem do quintal de casa (ou da sacada do apartamento). Reclamaria dos argentinos que dizem “Porra!” ao invés do tradicional “Carajo!”. Atacaria o terrível momento-clichê em que o protagonista pensa: “Que se fodam os alemães, Judas e essa bobeira toda. Dinheiro é o de menos, se com Raquel. Viveríamos de amor, em alguma praia perdida do Brasil, lendo livros de Jorge Amado e amando loucamente”. Repudiaria a quantidade de revelações da trama que há na capa, quarta capa e orelha, o que prejudica a história. Comentaria o momento em que a impressão é de que o autor é que está falando, não o narrador ou algum dos personagens.

Contudo, fizesse isso, estaria contaminado com as desanimadoras primeiras páginas. Sempre que leio uma obra, espero que ela seja boa e ao final eu possa elogiá-la e indicá-la aos amigos, por isso fiquei realmente contente em perceber que aquilo era um julgamento precipitado.

Grata reviravolta

A segunda impressão é que o livro se torna esquizofrênico, sem saber muito bem que caminho quer seguir, se o assumidamente pop ou algo que se aproxime da alta literatura. Mas logo fica nítido que Peres sabe o que está fazendo. A tensão afrouxa, o ritmo cadencia e recursos como flashback, digressão e quebra de expectativa começam a despontar oportunamente. O humor e a ironia, traços típicos de Borges, também aparecem. Dan Brown continua sim no imaginário, mas agora podemos ver O evangelho segundo Hitler como uma espécie de paródia dos livros do famigerado escritor estadunidense. O início, outrora terrível, já soa como um pastiche — um perigoso pastiche, aliás, que pode afastar alguns leitores e iludir outros com uma falsa promessa do que lerão pela frente.

E a narrativa que prometia voar desesperadoramente com o leitor de um canto para o outro da trama acaba apresentando uma estrutura bem definida, dividida em dois momentos. No primeiro plano está o presente que supostamente justifica toda a obra e que aos poucos vai perdendo espaço para o segundo plano, a revelar toda a história que leva o protagonista até o momento do plano inicial. Tudo bem amarrado no final e seguido de um epílogo que se conecta ao prefácio e abre a possibilidade para que a narrativa seja desconstruída: ponto para Peres.

Pela maneira que compôs seu livro de estréia, fica evidente que, além de fã, Peres é um grande conhecedor dos trabalhos de Jorge Luis Borges, caso contrário não conseguiria brincar da maneira que brinca com os contos do escritor argentino. O autor também utiliza elementos que fascinavam o autor de O aleph, como o próprio duplo e o Paradoxo de Zeno.

“Sei que nos escritos de Borges está a salvação do mundo, quiçá a minha própria. É só lê-lo com atenção. Lá está tudo, tudo o que um homem precisa saber em sua vida”, escreve Peres já nas últimas linhas de O evangelho segundo Hitler. Disso, poderia ter tirado mais uma obra à la Dan Brown, mas não, construiu uma verdadeira reverência a Jorge Luis Borges. E mais de Borges, até mesmo uma homenagem, é sempre ótimo.

Resenha publicada originalmente na edição 162 do jornal literário Rascunho

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Claraboia 

José Saramago

Companhia das Letras

Primavera de 1952. Um prédio de seis apartamentos numa rua modesta de Lisboa é o cenário principal das histórias simultâneas que compõem este romance da juventude de José Saramago. Os dramas cotidianos dos moradores – donas de casa, funcionários remediados, trabalhadores manuais – tecem uma trama multifacetada, repleta de elementos do consagrado estilo da maturidade do escritor, em especial a maestria dos diálogos e o poder de observação psicológica.

No início da década de 1950, José Saramago já não era um nome totalmente desconhecido na cena literária. Aos trinta anos, publicara o romance Terra do pecado. Até 1953, o escritor iniciaria a redação de mais quatro romances, que ficaram inacabados. Em 5 de janeiro daquele ano Saramago finalizava o datiloscrito de Claraboia. O novo romance acabaria esquecido no fundo de uma gaveta. O original nunca foi devolvido ao seu autor, que também não recebera resposta alguma. Na década de 1980, já consagrado, Saramago era contatado pela mesma editora para publicar Claraboia. A mágoa pela falta de resposta na juventude levou-o a declarar que não desejaria ver o romance editado em vida.

O Rio é tão longe – Cartas a Fernando Sabino

Otto Lara Resende

Companhia das Letras

Amigos desde a juventude em Belo Horizonte, Otto e o escritor, cronista e editor Fernando Sabino (1923-2004) mantiveram uma ligação epistolar como poucas em nossa literatura. É sob todos os aspectos uma proeza em um tempo em que não havia computadores pessoais nem e-mail nesse vasto intercâmbio entre os dois autores ao longo do tempo e de diversas cidades.

Este volume inédito traz as cartas de Otto a Sabino ao longo de mais de trinta anos de uma sólida amizade – que perduraria até a morte do primeiro, no início dos anos 1990. Enviadas de lugares como Rio de Janeiro, Bruxelas e Lisboa (nestas duas últimas cidades Otto viveria como adido cultural), as cartas trazem o ponto de vista singularíssimo de um autor sobre os mais diversos aspectos da vida: dos amores à literatura, das transformações nos costumes à política do Brasil.

Nestas cartas escritas com mão levíssima e dicção altamente literária, comparece um elenco de personagens que iriam decidir os rumos do Brasil nos mais diversos campos, da literatura à política, da música popular às finanças. Guimarães Rosa, Nelson Rodrigues, Jânio Quadros, San Thiago Dantas, Chico Buarque e João Goulart, entre muitos outros, aparecem como protagonistas, interlocutores ou mesmo em sublimes (humorísticas ou amorosas) evocações de um autor que assim definiu seu gosto por escrever tantas cartas: “Não é grafomania. É civilidade”.

Bom dia para nascer – Crônicas publicadas na Folha de S.Paulo

Otto Lara Resende

Companhia das Letras

No início da década de 1990, Otto Lara Resende iniciou uma profícua e caudalosa colaboração com a Folha de S. Paulo. Jornalista tarimbado, com passagens por diversas redações, Otto escrevia nesse espaço diário crônicas sobre uma vasta gama de assuntos: os desajustes da política (vivíamos a Era Collor), os amigos desaparecidos (como Nelson Rodrigues, Vinicius de Moraes e Paulo Mendes Campos), os costumes no Rio de Janeiro (cidade que o mesmerizava), as mudanças no nosso idioma, a literatura etc. Sempre com clareza e delicadeza exemplares.

Esta reunião de suas crônicas na Folha é uma edição ampliada de um volume publicado pela Companhia das Letras em 1993 e organizado, na época, por Matinas Suzuki. Desta vez, o jornalista Humberto Werneck recebeu a incumbência de coordenar o volume, garimpando mais de setenta crônicas nunca antes publicadas em livro.
E o Otto cronista é nada menos que um clássico do gênero: sua prosa, escorreita e refinada (mas nunca hermética), se molda à perfeição a amplitude de temas e pontos de vista apresentados diariamente nas páginas do jornal. A leitura das notícias o alimentava, claro, mas também há aqueles tópicos consagrados por outros cronistas antes e depois (a exemplo de Rubem Braga e Fernando Sabino, amigos e personagens de alguns textos deste volume), como a impiedosa passagem do tempo, os encontros e desencontros proporcionados pela grande cidade, a nostalgia de quem sabe que tudo, afinal, é breve e desaparece um dia. Às vezes, na edição seguinte do jornal.

O romancista ingênuo e o sentimental

Orhan Pamuk

Companhia das Letras

Em 1927, o romancista E. M. Forster proferiu em Cambridge as conferências hoje conhecidas como Aspectos do romance, uma resistente obra de referência dos estudos literários. Fazendo a devida justiça a esse pequeno livro, o turco Orhan Pamuk deu, em 2009, seu testemunho pessoal sobre a arte do romance na prestigiosa posição de palestrante das conferências Charles Eliot Norton, em Harvard.

Com o mote do famoso ensaio de Friedrich Schiller, “Sobre a poesia ingênua e sentimental” (1795-6), este livro reúne as seis aulas de Pamuk, e pode muito bem ser lido como uma atualização das lições de Forster. Entre tantos antecessores ilustres, cabe lembrar que, em 1985, a morte impediu Italo Calvino de falar em Harvard. Das Seis propostas para o próximo milênio, a última ficou em esboço.

A exemplo de Calvino, Pamuk desenha um percurso pela cultura do Ocidente, com a diferença de que explicita que o seu lugar é o de um intelectual em país pobre não ocidental. Se, para a audiência de Forster, o romance era ocidental e sobretudo europeu, o gênero chegou plenamente globalizado ao século XXI, e um dos principais tópicos de Pamuk é a apropriação do cânone pelos países periféricos e os papéis que a escrita e a leitura de ficção vêm desempenhando fora dos grandes centros culturais.

O eterno marido

Dostoiévski

L&PM

Uma tradição pode ter consequências trágicas. Mas como ter certeza de que o outro sabe que foi enganado? Em O eterno marido, Dostoiévski conduz seus personagens pelo fio tênue da dúvida e promove um surreal encontro entre um homem traído e o traidor.

Dostoiévski escreveu a obra em apenas três meses, durante o ano de 1869, quando não tinha dinheiro nem para colocar o manuscrito no correio. Publicado em 1870, este é um dos trabalhos mais refinados do autor e uma amostra das suas grandes temáticas, como a dualidade humana, e dos grandes personagens, como o homem comum que chega às fronteiras do crime. Um livro pungente, cercado de uma atmosfera de sarcasmo e ironia que beira a loucura.

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