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Posts Tagged ‘Eliane Brum’

Por Rodrigo Casarin

Meus desacontecimentos“Muito antes de perder minha fé, eu vagava pela casa quando me deparei com ela. Um filhote de barata. (Para mim não havia dúvida de que era uma menina.) Ficamos uma diante da outra, como num duelo de filme de caubói a que eu assistia com meus irmãos. Esmagueia-a com a minha havaiana. Era a minha primeira morte. De imediato, me identifiquei com o cadáver. Chorei. Ali, no corredor da casa, com o chinelo na mão, o corpinho colado na sola em insuportável desvalia”.

A partir do assassinato do animal, a criança Eliane Brum resolveu escrever, com sua letra péssima, A autobiografia de uma barata. Ao longo da narrativa, finalmente entendeu aqueles bichos asquerosos, que voavam em sua cabeça até mesmo enquanto rezava justamente para que nunca mais aparecessem. Percebeu que era legítimo, por exemplo, que entrassem nos potes de bolacha, afinal, precisavam de comida para viver.

Compaixão e empatia são dois traços da personalidade da escritora evidentes em seus textos, sejam eles jornalísticos ou ficcionais. Essas características, como é possível perceber, vêm desde a infância de Eliane. Para ela, sempre foi natural se colocar no lugar dos outros – sejam eles pessoas ou bichos, pelo visto. Acostumada a mergulhar na vida de seus personagens para transformá-las em narrativas, há pouco Eliane fez um movimento diferente. Imergiu em si mesma para escrever Meus desacontecimentos – a história da minha vida com as palavras, que resgata as memórias de sua relação com a arte escrita em uma espécie de autoperfil de formação literária.

O caminho até si mesma

Para realizar as reportagens que a consagraram, Eliane sempre precisou desabitar-se. Despe-se de preconceitos e julgamentos e se abre para o universo dos outros. Apenas dessa forma pode, de alguma maneira, escutar de verdade, buscar compreender qualquer tipo de gente, até os escorraçados pela sociedade, como um pedófilo. “Isso vale para qualquer experiência humana, preciso escutar mesmo, com todos os sentidos”, diz. O caminho de volta desse processo é sempre muito doloroso. Às vezes, após uma apuração, semanas são necessárias para que a escritora se readeque ao seu mundo, que parece ser tão igual ao que era antes, mas com a protagonista dele profundamente modificada por aquilo que vivenciou.

Em seus trabalhos ficcionais – como o romance Uma duas e o conto “Raimundo, o dono da bola”, presente na coletânea Entre quatro linhas – a escritora experimentou algo diferente. Surpreendeu-se ao se deixar possuir pelos personagens que a habitam. “Gosto de livros de terror e descobri que não há nada mais aterrorizante do que ser possuída pelos outros de si mesmo”, conta.

Já para Meus desacontecimentos, diz que foi tudo diferente, que sente dificuldade em definir a experiência. Como repórter, sempre se interessou por descobrir como cada indivíduo cria a sua própria vida, em geral com pouquíssimos elementos. “Nesse sentido, a vida de cada um de nós é nossa primeira ficção, que vai mudando ao longo do tempo”. Então, voltou-se para si e procurou entender como criou a sua vida com as palavras, levando a mulher Eliane para explorar as lembranças e tentar entender a menina que uma dia foi. A escritora encarou a empreitada com lucidez do cenário nebuloso que encontraria. “Lembranças não são fatos, mas as verdades que constituem aquele que lembra”, escreve em determinado momento da obra.

Para exemplificar essa busca pela ficção que cada um cria para sua própria vida, Eliane retoma um dos seus textos mais emblemáticos (ao menos para mim): “O gaúcho do cavalo-de-pau”, do excelente A vida que ninguém vê, livro que traz diversos perfis que escreveu para o jornal Zero Hora, de Porto Alegre. É a história de Vanderlei, homem que todos – até as vacas! – dizem ser louco porque faz de um cabo de vassoura o seu cavalo. Um trecho do diálogo que segue a matéria é essencial:

– Você sabe que isso é uma fantasia, que o cavalo é um cabo de vassoura. E mesmo assim galopa num cavalo-de-pau. Por quê?

– Sem invenção a vida fica sem graça. Fica tudo muito difícil.

Tuchè!

“O Vanderlei me ensinou que temos o cabo de vassoura e queremos o cavalo, ele mostra isso com radicalidade. Há uma beleza muito pungente na capacidade humana de criar sentido e inventar uma vida. Acho que o real não existe, só existe uma criação de sentido, que é importante nunca confundir com a mentira. A maior beleza humana é essa capacidade de inventar uma vida. As memórias são as verdades daquele que lembra, fragmentos de tempo que nos constitui, não fatos. Se os sentidos da vida fossem imutáveis, estávamos mortos, seríamos mortos-vivos. A memória, nesse livro, está em movimento, não está dada. A angustia fundamental da gente que escreve é que as palavras nunca dão conta de contar a vida, são sempre insuficientes”, define Eliane, que precisou reencontrar o sentido de sua vida.

A boliviana de 11 anos

Não que esteja acostumada a lidar com situações pesadas e delicadas, mas Eliane já passou por experiências bastante fortes, como ouvir as vítimas de incestos, abusadores sexuais, assassinos ou acompanhar os últimos 115 dias de vida de uma mulher para escrever justamente sobre o fim daquela existência – dessa, demorou exatamente um ano para sair do luto. Contudo, foi na Bolívia, em 2011, que o momento mais extremo de sua carreira aconteceu e está retratado na abertura da reportagem “Os vampiros da realidade só matam os pobres”, do livro Dignidade, que reúne textos de escritores sobre o trabalho da organização Médicos Sem Fronteiras.

– Por favor, não me deixe morrer.

A menina me agarra pelos dois braços. Tem apenas 11 anos. Seus olhos, porém, são tão velhos quanto os meus. Ou mais. Sonia é o seu nome. Naquele instante em que ela me pede para mudar o mundo, eu afundo na impotência. ‘Eu vou contar a sua história’, respondo. Mas eu e ela conhecemos o mundo o suficiente para saber que dificilmente ela será salva. Sonia e eu sabemos que o mundo não se importa, nem com ela, nem com os seus. Que o mundo nem sequer a vê.

O momento traumático desencadeou em Eliane uma crise com as palavras no papel. Não conseguia mais escrever. Precisava reencontrar o sentido de seu ofício para seguir adiante. Então, fez o automergulho para entender porque a escrita é tão importante para si. Por isso que Meus desacontecimentos não se limita a passagens peculiares – Eliane dormindo até os oito anos num berço, com as pernas encolhidas, porque a família não tinha dinheiro para comprar uma cama; tentando colocar fogo na prefeitura da cidade onde morava; a iniciação da vida sexual pelos livros da biblioteca de casa; as escapadas com a avó para tomarem cachaça escondidas… – e traz momentos de força vital, como “Às vezes me perguntam o que aconteceria comigo se não existisse a palavra escrita. Eu respondo: teria me assassinado, consciente ou não de que estava me matando. É uma resposta dramática, e eu sou dramática” ou “Cada vez mais, só era possível levantar da cama pela manhã porque eu podia estar em outro lugar e ser uma outra. Não havia eu, só alteridade. Se havia um eu, era este, o da menina que fabulava”. E dessa imersão, traz algo que muito explica a repórter e escritora que é: “Eu sempre fui uma criança que olhava e olhava e olhava. A melhor forma de me descrever nessa primeira infância era como dois olhos castanhos observando o mundo de um canto. Não espiando, mas olhando como se pudesse abarcá-lo inteiro. Acho que até hoje só mudei de tamanho”.

Enquanto escrevia, enquanto procurava retomar o significado da literatura para si, Eliane precisou enfrentar até situações inusitadas, como seguir adiante mesmo perdendo peças do teclado de seu computador. Primeiro foram o “E”, o “A” e o “O”, depois, o “S” e o “C”. Sorte que a escritora apenas se atentou para a irônica relação simbólica das letras que se perdiam à sua frente, mas não encarou o fato como uma mensagem subliminar para que deixasse as palavras de lado. Caso contrário, não teríamos frases excelentes como “Quando era criança, eu quase morria muito” e muito menos a obra em si.

A verdade daquela que lembra

Meus desacontecimentos é um livro breve – realmente se atém à relação da escritora com a palavra, a protagonista da obra na visão de Eliane, dispensando outros tipos de memórias –, feito por capítulos que formam um conjunto coeso, mas também se sustentam sozinhos. “Eu não penso muito quando escrevo. A forma vem de um processo interno. Escrevo como uma leitora, mesmo nas reportagens, nunca sei como vou terminar um texto, e essa é a graça”, explica.

Após o olhar para si, Eliane reencontrou aquilo que é seu norte: transformar vidas em narrativas. Ao ser questionada se é isso que a faz feliz, mesmo tendo que sofrer por momentos tão delicados e dolorosos, responde. “Eu não ligo para a felicidade, que hoje é quase um imperativo de consumo. Contar histórias dá sentido para minha vida. Acredito profundamente que as narrativas são um meio de transformação para mim e para o outro. Vejo sentido em ser uma contadora de histórias. A palavra escrita é o que me permite viver, esse corpo de palavras”.

Texto publicado originalmente no suplemento literário Pernambuco.

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Por Rodrigo Casarin

Gado Novo_Guille ThomaziNeste ano, em virtude da Copa do Mundo, uma turba de livros sobre futebol dominou as prateleiras. Tive contato, li parte deles e raros foram os que julguei realmente oportunos – o melhor de todos, O drible, de Sergio Rodrigues, é do ano passado. Das novidades, uma boa obra é Entre quatro linhas, coletânea de contos sobre o esporte organizada por Luiz Ruffato, que traz nomes como Ronaldo Correia de Brito, Tatiana Salem Levy, Carola Saavedra, André Sant’anna, Rogério Pereira e Cristovão Tezza, que alternam textos razoáveis com outros bons. Entretanto, no volume, um trabalho realmente se destaca: “Raimundo, o dono da bola”, de Eliane Brum.

Em seu conto, Eliane usa o futebol para ir além, mostrando a famigerada bravura e a coragem do sertanejo, mas também toda a sua fragilidade e inocência. Raimundo é um homem bruto e matuto, que nasceu e cresceu no meio da floresta e conhece o futebol somente pelo que ouve no rádio – nunca assistiu a partida alguma, portanto, o esporte acontece somente em seu imaginário, na ficção que cria com as informações que os locutores tentam transmitir, emular aquilo que o interiorano jamais viu.

As coisas mudam quando Valdir aparece em sua vida e, ao mesmo tempo que abre um ponto de contato entre Raimundo e a vida urbana ou moderna, também traz consigo os males da civilização. Utilizando o futebol – que passa efetivamente para o plano real, com traves e bola -, Valdir ganha a amizade do outrora desconfiado e fechado Raimundo e consegue arquitetar a sua ruína. O conto é de uma violência – não apenas física, mas moral, emocional e contra a natureza, inclusive – extrema, é daqueles que marcam e perturbam o leitor. O jogo acaba sem gol, sem apito final, mas com uma selvagem e destrutiva invasão de campo, digamos.

Numa conversa, Eliane me disse que algumas pessoas se queixaram que o texto era muito grande para um conto. Quanta mediocridade! Primeiro porque “Raimundo, o dono da bola”, com suas 31 páginas, se não é exatamente pequeno, também não é nenhum Guerra e paz do gênero. Segundo, porque isso pouco importa. A qualidade do trabalho não está condicionada a seu tamanho. Essa lógica, na ordem reversa, poderia colocar em cheque, por exemplo, o bom Gado novo, de Guille Thomazi, uma novela de 50 páginas – o livro tem 68, mas descontei as que não trazem exatamente o trabalho literário do autor. Será que alguém se queixou com Thomazi que seu livro é muito pequeno? Espero que não.

Violência do campo

Gado novo traz outra história de extrema violência que se passa no campo. Eu nasci em Campinas e cresci em São Paulo – digo que minha mãe foi me parir lá apenas para que os outros pudessem fazer piadas relacionadas à cidade -, costumava passar alguns dias de férias em Lins, no interior paulista, mas jamais estive efetivamente no campo, em uma daqueles longos vazios de fazendas gigantescas, cujos vizinhos, às vezes, estão separados por quilômetros de distância e cada endereço, de alguma forma, acaba sendo uma cidade em si mesmo. Durante muito tempo, a imagem que tive desses lugares é aquela do censo comum para um homem médio da cidade grande (ou seja, formado seguindo uma longa lista de clichês): são terras onde se vive em contato direto com a natureza, o que traz paz e tranquilidade. Lá, as pessoas plantam e criam o que comem, precisam apoiar-se e proteger-se mutuamente, o que gera uma boa relação social, que, graças às distâncias, acaba não sendo banalizada pela convivência diária. São pessoas corteses, sempre preparadas para abrir as portas de casa e receber visitantes, mesmo que sejam desconhecidos. (O clichê também tem uma variação para as cidades interioranas, segue a linha do “quero mudar pra lá porque a vida é mais tranquila, menos violência, trabalhar perto de casa, num lugar onde as pessoas se respeitam e blá blá blá”).

Entretanto, ao conversar com pessoas desses lugares e ao ler ou assistir aos relatos de como é realmente a vida nessas enormes e pouco habitadas fazendas, percebo que muitas vezes esse ideal só existe mesmo na imaginação. Se no conto de Eliane é o homem da cidade que leva a desgraça para o isolado homem do campo, na novela de Thomazi o homem do campo, já influenciado pela vida da cidade, é o próprio responsável pelas suas mazelas.

A história começa com o narrador, sempre em primeira pessoa, procurando por um norte. “O dia nasceu torto. A menina nasceu sem futuro. Descobri como se faz mal ao mundo”. As frases são bastante breves, como se o personagem, cansado e confuso, buscasse fôlego para continuar. A tragédia está feita e ele gostaria de remediá-la, entretanto, há atitudes que são impossíveis de se contornar.

Com o passar dos capítulos, o foco da narrativa vai mudando e o ponto de vista alternando de personagem – passa pela avó da menina, o padrasto, o peão, um forasteiro – e Thomazi constrói uma intricada teia, às vezes confusa, como é mesmo a vida. Cabe ao leitor situar-se dentro da obra e procurar, por meio dos relatos, dar corpo à sua própria versão da macro-história proposta – impossível ler de fato Gado novo sendo um leitor passivo. Conforme o foco muda, o texto, o ritmo, o vocabulário, também mudam, e de maneira precisa, mostrando que o jovem escritor – que nasceu em 1986 – já em seu livro de estreia apresenta bom domínio das técnicas narrativas.

Animais, humanos, humanos animais

Uma outra característica da novela de Thomazi que me chamou a atenção é a batalha entre diferentes animais pela sobrevivência. Quando o homem se depara com o bicho, a forma como se matam bois, por exemplo, pode impressionar algum urbanóide como eu, acostumado apenas com a carne já fria, pronta para ir à churrasqueira. “Paraguay não tem dó nem mão mole. Empurra a faca no peito do bicho, no espaço entre os ossos para que dê no coração” – escreve e me lembra que cresci ouvindo o quanto é cruel quando se erra essa facada no porco, que solta um berro que causa condolência até mesmo nos mais acostumados em sacrificar os futuros alimentos. Em seguida, “cortar a carne viva é uma das funções com a qual ocasionalmente nos deparamos, e o fazemos com naturalidade”, registra uma das mulheres da obra.

Entretanto, é a violência entre dois bichos da mesma espécie que merece maior destaque: a do homem contra o homem, essa tão bem conhecida por qualquer um, seja a pessoa da cidade, do campo, da praia, da floresta… “O homem meio fora de si podia decidir passar fogo em mim era ali mesmo”, pensa um dos personagens. E poderia mesmo, sempre pode. Passar fogo, espancar, vilipendiar… Sempre é preciso que um animal humano sobreviva a outro animal humano. A menina não conseguiu resistir e sua morte foi terrível: marcas de arma branca, semidespida, roupa íntima arrancada, saia rasgada, mordidas no pescoço e nos seios miúdos, falta de parte do lábio inferior, perfurações no abdômen, olhos abertos…

Quando o homem perde para o homem. Raimundo perdeu o seu lugar e Isabel jamais chegará.

Texto publicado originalmente no jornal literário Rascunho.

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Por Rodrigo Casarin

daniela-arbex-holocausto-brasileiroPessoas de cabeças raspadas, anônimas ou chamadas por um nome que não é o seu. Nus ou cobertos por farrapos. Raquíticos que se alimentam da carne crua dos ratos ou pombas que conseguem apanhar. Bebem água do esgoto ou até mesmo a própria urina. Dormem sobre o capim ou no chão duro. São espancados, violentados e eletrocutados com tanta energia que a rede elétrica da cidade chega a cair. Mulheres grávidas que besuntam suas barrigas com as próprias fezes para que ninguém tenha coragem de lhes tocar, de lhes forçar um aborto. Pouco adianta. Assim que dão à luz, perdem as crias, que são mandadas para qualquer canto longe dali.

Estão todos confinados, internados à força. Há quem diga que são loucos, mas cerca de 70% não têm diagnóstico algum. São prostitutas, homossexuais, meninas indesejavelmente grávidas, esposas que perturbavam seus maridos por conta das amantes, alcoólatras, epiléticos, garotas que “envergonharam” seus pais por terem perdido a virgindade antes do casamento. Alguns são apenas tímidos ou depressivos. Pouco importa. Se estão internados no maior hospício do Brasil, em Barbacena, Minas Gerais, é porque há motivo para ficarem isolados da sociedade.

Mas nem tudo é desgraça. Muitos se beneficiam disso. Para começar, os poderosos que ali se livraram de pessoas inconvenientes. Também se beneficia quem de alguma forma tira proveito dos detentos, seja explorando a mão-de-obra, seja vendendo para faculdades corpos dos que ali morrem, seja derretendo em ácido (na frente dos internos ainda vivos) os corpos não vendidos, para que possam comercializar as ossadas. Quando o mercado pede algo e as mortes “naturais” andam em baixa, não há pudor em antecipar o dia final de alguns supostos loucos. Basta aumentar um pouco o sofrimento, como deixar que durmam ao frio relento da Serra da Mantiqueira. Enfraquecidos, raramente acordam.

Pelo que podemos saber, essas atrocidades fazem parte somente do passado do Colônia, como era conhecido o hospício de Barbacena. Mas a história do maior manicômio do Brasil, onde mais de 60 mil pessoas morreram, não pode ser esquecida. Parte das barbaridades que lá ocorreram é contada no livro-reportagem Holocausto brasileiro, da jornalista Daniela Arbex. Fosse ficção, boa parte do que revela seria inverossímil.

Falando de literatura

Daniela entrega ao leitor um livro sem brilho literário. Não que seja ruim. É bastante correto e, se analisado somente como uma reportagem, torna-se um ótimo texto. Contudo, há diversos pontos que poderiam ser mais explorados e melhorados pela jornalista. Um leitor frio e indiferente, que busque no texto apenas prazeres estéticos, provavelmente terminará a leitura frustrado — ou a largará no meio.

Concordo que a literatura, em sua essência, não precisa servir para nada, está ali apenas para encantar, para, como bela que é, ser admirada. Porém, se pode também causar impacto, provocar, propor transformações pessoais ou sociais, um tanto melhor. E, se no aspecto mais essencial da literatura, o livro de Daniela é razoável, no desdobramento que uma obra literária pode trazer, é excelente. Tanto faz qual o patamar do valor artístico de Holocausto brasileiro. Deixemos isso um pouco de lado. Quando uma realidade tão brutal, que aconteceu em nosso próprio país, com a nossa conivência, é apresentada, precisamos nos atentar principalmente ao conteúdo.

E, sim, falei da realidade. Meio que contradizendo o que defendi em Viagem a lugar nenhum, dessa vez a relevância da discussão do que é ou não real fica também para outro momento. O livro evidentemente não é a transposição da realidade, mas o fragmento de realidade que ele apresenta não nos permite enveredarmos para esse tipo de discussão. Quando vemos uma pessoa comendo um rato cru e relatamos que vimos alguém comer um rato cru, podemos não representar toda a realidade, mas o chocante fato principal continua ali. Dessa vez, apeguemo-nos a ele, não a todo o resto.

Para ler com as vísceras

Holocausto brasileiro é mais que uma denúncia, é um grito, um escândalo, que deveria ser lido com as vísceras e merecia ter estampado as capas de todos os jornais e revistas de nosso país. Não foi isso que aconteceu. Pela grande mídia, até onde pude acompanhar, passou quase que despercebido. Contudo, aos poucos vai ganhando espaço.

Assim que terminei de ler o livro, fui pesquisar mais sobre ele na Internet e achei um vídeo de Daniela no programa Provocações, de Antonio Abujamra. Resolvi assistir. Já vi muitas edições do programa, mas jamais havia encontrado Abujamra naquele estado. O provocador estava desolado, desnorteado, inconformado. Nem mesmo todo seu aparente ceticismo e falta de crença na humanidade — é o tipo de pessoa que parece acreditar somente na arte — foram suficientes para lhe blindar do impacto de Holocausto brasileiro. Abujamra estava prestes a desmoronar perante tamanha barbárie. Reação parecida teve o meu pai quando terminou de ler a obra e veio conversar comigo; reação parecida vem tendo a minha sobrinha, enfermeira, que está no meio da leitura. Houve quem preferisse não lê-lo, temia perturbações à cabeça e à alma.

Importância dos personagens

Voltando ao texto, se o maior mérito de Daniela é resgatar parte da história do hospício, ela também merece ser parabenizada por ter escolhido contar essa história por meio de alguns personagens que lá viveram. Uma escolha que, apesar de bastante simples, revela-se certeira para o que a obra propõe. Traz a história de Antônio Gomes da Silva, que não sabe por que foi mandado por um delegado para o manicômio. De Geralda Siqueira Santiago, que foi estuprada aos 14 anos e chegou grávida ao Colônia. De Sueli Rezende, que morreu sem jamais reencontrar Débora Soares, sua filha. Traz a história desses e muitos outros, devolvendo-lhes parte da dignidade e da identidade, como bem constata a consagrada jornalista Eliane Brum no prefácio da obra.

Essa humanização é fundamental para que o leitor crie empatia com o que está sendo narrado e perceba a real dimensão de tudo aquilo. O apego aos personagens é maior do que o apego aos números, e isso é essencial. Aprofundar-se em Celita Maria da Conceição, mostrar quem ela é e dizer que se lambuzava com as próprias fezes para proteger a sua gravidez, aproxima o leitor da narrativa e lhe causa um impacto muito maior do que a enxurrada de dados e estatísticas a que estamos acostumados a ver diariamente por aí.

Outro ponto que merece destaque é que Daniela não se limita à desgraça. Ainda que em alguns momentos tenda para a pieguice, não trata os ex-prisioneiros (acho que posso assim chamá-los) como meros coitadinhos. Mostra como muitos conseguiram recuperar algum controle sobre suas vidas. Também revela diversas pessoas que se engajaram para tentar mudar a situação do lugar.

Mas por que uma obra que retrata algo que já aconteceu, mas não acontece mais, merece receber tamanha atenção?

Não acontece mais? Quem disse?

Exemplo claro de onde isso ocorre são as cadeias brasileiras. Basta ver as recentes reportagens sobre o pandemônio que virou o sistema carcerário maranhense. As descrições são muito semelhantes a que temos no livro de Daniela. E não se engane, isso também acontece em todo o país, e não só nos presídios, mas em albergues coletivos, centros de tratamento compulsório para viciados em drogas ou qualquer outro lugar no Brasil que abrigue seres humanos indesejados pela sociedade.

E se uma obra literária não tem força para mudar absolutamente nada — aliás, a não ser elementos estritamente pessoais, dificilmente algo isolado pode provocar mudanças relevantes de qualquer ordem —, livros como Holocausto brasileiro têm o poder de ao menos nos fazer refletir sobre esses crimes que diariamente são cometidos com a nossa anuência. De nos fazer refletir sobre essa constante, disseminada e quase velada tragédia.

Texto publicado originalmente na edição 166 do jornal literário Rascunho.

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Por Rodrigo Casarin

daniela-arbex-holocausto-brasileiroRepugnante, asqueroso, deprimente, vergonhoso. São muitos os adjetivos que podemos dar a Holocausto brasileiro, um livro-reportagem da jornalista Daniela Arbex, com prefácio de Eliane Brum, que escancara as atrocidades cometidas ao longo de décadas em Barbacena, no maior hospício do Brasil, onde mais de 60 mil pessoas morreram. O paralelo com os campos de concentração do holocausto judaico não é em vão. Os internos eram submetidos a situações, humilhações, descasos, semelhantes às que sofriam os judeus na Alemanha nazista.

Pretendo falar deste livro com mais calma em outra oportunidade, contudo, deixo aqui o registro de uma das coisas que mais me chamaram a atenção no pós-leitura. Assisto a muitas reprises do Provocações, da Cultura. No programa (vejam abaixo) que recebeu Arbex, foi a primeira vez que vi Abujamra desolado, chocado, abalado, com a voz embargada, segurando um choro que seus olhos revelavam. Impossível ler a obra e permanecer indiferente ao que é relatado. Apesar dos adjetivos de abertura não serem falsos, os que devem acompanhar Holocausto brasileiro são outros: indispensável, obrigatório, essencial, fundamental.

 

 

 

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Por Fred Linardi

menina quebradaParece complicado ser Eliane Brum. Não digo pelo fato de seus textos já terem lhe rendido uma dezena de prêmios desde o começo de sua carreira, quando era repórter do Zero Hora. Tampouco levo em conta sua história um tanto turbulenta quando, aos 15 anos, teve que lidar com uma gravidez e, consequentemente, estrear na maternidade antes mesmo de pensar em começar sua vida profissional.

A impressão é que Eliane Brum parece ter uma fibra das mais densas. Como repórter, lida com a realidade dos outros, absorve os personagens com quem encontra e, a partir de um olhar de compressão e crítica, destila cenários, traduz emoções, encaixa palavras e borda um texto de maneira limpa, cujos nós e complicações só vão se fazer nas certezas que tínhamos até ler suas matérias.

Como imergir neste mundo de riquezas centrais e pobrezas periféricas? Como entender jovens adultos e velhos infantis? De que forma analisar uma sociedade cada vez mais exigente e conquistadora e, ao mesmo tempo, tão mimada e melindrosa?

Por isso é que não deve ser simples ser Eliane Brum. Vemos que por trás da solidez e competência de seu trabalho, existe um ser quebradiço. No seu mais recente livro, A Menina Quebrada, ela assume exatamente o quanto morre a cada matéria que escreve. Ou a cada matéria que escrevia. Isso porque este não se trata de uma série de reportagens, mas sim uma seleção de 64 crônicas das que ela publica no blog da Revista Época desde 2009.

Nos livros anteriores da jornalista e escritora gaúcha, o leitor já pôde entender como ela conduz suas matérias, como ela valoriza as histórias das pessoas com quem cruza em seu caminho. Como ela vai quebrando, pouco a pouco, nossas convicções; e como ela se mostra quebrar as próprias. É assim com seu primeiro livro, Coluna Prestes – O avesso da lenda, passando pelo A vida que ninguém vê – ambos com textos originalmente publicados no Zero Hora – e O olho da rua – com matérias escritas para a Revista Época. Tanto no gênero de reportagem quanto em suas crônicas (considere aqui crônica não ficcional, já que no Brasil é comum haver umas pitadas de invenções neste gênero) a realidade parece urgir de Eliane o tempo todo. É preciso entender esse mundo repleto de contradições e entrelinhas. É nele que ela se envolve e é dele que retorna para nos contar. 

Como assim, não mais matérias?

Até o ano de 2010, Eliane permaneceu como repórter especial da revista e fechou sua temporada como tal com uma das reportagens mais viscerais feitas por ela. Em “A enfermaria entre a vida e a morte ela conta como é a vida de quem já está com os dias contados – os pacientes da ala de cuidados paliativos – em especial uma senhora que sofre de câncer: Eliane acompanhou seus últimos 115 dias de vida.

Depois disso, deixou seu cargo na revista, mas continuou com seu blog semanal no mesmo veículo. Explica – inclusive no texto que abre a coletânea – que era preciso buscar uma nova identidade, algo que ela mesma não sabe ao certo como definir. Mas quando trata de seus textos, ela é categórica: escreve depois de ser tomada por um assunto, os aborda de maneira original, e investiga muito antes de falar sobre. E, claro, “Escrevo porque a vida me dói, porque não seria capaz de viver sem transformar dor em palavra escrita.”

A partir daí, suas crônicas se diferem de suas matérias exatamente pela presença da própria Eliane, quando parte de uma provocação que a vida lhe trouxe, com uma surpresa que vivenciou, ou simplesmente com um filme a que assistiu, um livro que leu, ou uma frase que escutou. O artigo A menina quebrada“, que dá nome ao livro, veio exatamente de algo que aconteceu com ela numa festa, quando uma menina de quase dois anos se debulhou em lágrimas depois de ver uma outra garota com uma perna engessada. “A menina quebrou!”, desesperava-se. A autora tenta lhe dizer que a menina com o membro imobilizado está bem, que vai voltar a ser como antes. E, depois que volta para casa, se mostra envergonhada de ter enganado a pequena inconsolável.

“E, Catarina, você tem toda a razão de duvidar. Depois de quebrar, nunca mais voltamos a ser como antes. Haverá sempre uma marca que será tão você quanto o tanto de você que ainda não quebrou. Viver, Catarina, é rearranjar nossos cacos e dar sentido aos nossos pedaços, os novos e os velhos, já que não existe a possibilidade de colar o que foi quebrado e continuar como era antes. E isso é mais difícil do que aprender a andar e a falar. Isso é mais difícil do que qualquer uma das grandes aventuras contadas em livros e filmes. Isso é mais difícil do que qualquer outra coisa que você fará.”

Alguns dos textos abordam também sua vivência de matérias antigas, aproximando até de um tipo de making of, com cenas ou reflexões que ficaram por fora dos textos publicados.

Em A menina quebrada, (re)lemos uma Eliane com seus textos intensos e a voz que já se fez conhecida. Com seu tom que lhe rendeu leitores assíduos, ainda mais graças às mídias sociais em toda segunda-feira que seu blog era atualizado – alguns textos atingiram os 50 mil compartilhamentos. Nos aproximamos também desde improváveis temas até assuntos que eram notícia e que continuam de fundamental leitura, já que um texto bem escrito torna-se perene, vira livro – mesmo que todas as crônicas continuem disponíveis no vasto mundo da web para quem quiser ler. Mas há de se convir que o livro, esse objeto que parece cada vez mais estar no passado, é uma maneira de nos apropriarmos e nos relacionarmos de forma diferente do que na caótica e frenética rede.

E tem mais: a experiência de ler seus textos em livro é poder ler um após o outro – e isso pode ser um tanto dolorido. Por mais que nem todos os assuntos sejam dolorosos por si, estão repletos de vida – a vida em demasia que existe em tudo o que há no mundo. Quando as coisas parecem estar ficando simples, Eliane subverte nossas verdades, anda na contramão do senso comum e aponta para as falhas das nossas certezas.

O vazio preenchido

Por mais que seja possível ler um atrás do outro (a leitura flui, já que esta é uma das grandes qualidades da autora) é preciso um tempo para assimilar seus conceitos, sua profundidade e alguns golpes em cheio que nos levam muitas vezes ao chão.

O destino que ela nos leva – logo aprendemos – se dará muitas vezes no vazio, neste vazio do cotidiano que tendemos tamponar de forma banal. O vão dentro de nós mesmos; aquele que nem nos damos conta de existir, ou quando o fazemos, encontramos um jeito de tampá-lo, deixando-o o oco. Diante deles, a autora vai escarafunchando de maneira contundente, com seu olhar ao mesmo tempo compreensivo e indignado.

O que poderia facilmente soar arrogante, Eliane tende a cativar a cada arranhão que nos dá. Faz com a maestria de alguém que pisa num terreno sabendo exatamente onde deve dar seus passos, pois se apropria com segurança sobre o que fala. Consegue mexer nos demônios particulares porque os primeiros que aparecem em seus artigos são os dela. Sua autenticidade é resultado da maneira como assume que existe dentro de si mesma esse grande vazio. Sua produção, que poderia ser uma série de lamentos, tem a qualidade de lidar com os assuntos de forma realista o suficiente para que se preencha esse vão antes de nos comprometer a alma. É assim que os textos deste livro nos provocam para depois nos preencher – e provoca e preenchem a ela mesma. Não raro, Eliane assume isso de uma maneira ou de outra, como na abertura de “Qual é a sua história?”:

“Me sinto como Cheherazade, a moça esperta das mil e uma noites. Não porque sou esperta, mas porque de algum modo sempre soube que contar histórias me salvava de perder não a cabeça, como era o caso de Cheherazade, mas de perder a mim mesma.”

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Por Igor Antunes Penteado

preso_livroEmbora soe como ironia, não é. O livro de Markus Zusak, A menina que roubava livros, foi a obra mais lida entre os presidiários de quatro penitenciárias federais do país em 2012 – Campo Grande (MS), Catanduvas (PR), Mossoró (RN) e Porto Velho (RO). O Menino do Pijama Listrado, de John Boyne, e O Caçador de Pipas, de Khaled Hosseini, ficaram em segundo e terceiro lugares, respectivamente. Os dados se referem ao projeto Remição pela Leitura, em que os presos têm prazo que varia entre 21 e 30 dias para a leitura de uma obra literária.

Ao final deste período, o detento deve apresentar uma resenha e, cada livro aceito após avaliação, pode remir quatro dias de pena (em um ano, é possível ler até doze obras e remir, no máximo, 48 dias). O projeto tem objetivo de proporcionar aos detentos acesso ao conhecimento, à educação e à cultura, além de diminuir consideravelmente a ociosidade e possuir caráter ressocializador.

Desde que foi lançado, o Remição pela Leitura provoca controvérsias e é alvo dos mais variados tipos de ataque. Isso porque, ainda que a remição de pena por serviços prestados ou estudo já seja uma realidade relativamente bem aceita no Brasil, o mesmo não se aplica quando o assunto é ler. Isso ocorre pela própria barreira imposta ao que é novo, como explica a especialista em assistência penitenciária e pedagoga da Penitenciária Federal em Porto Velho, Stephane Silva de Araujo. “A remição pelo estudo foi conquistada após cerca de 30 anos de luta dos movimentos sociais ligados à população carcerária, logo, espera-se que a remição pela leitura trilhe o mesmo caminho”, contextualiza.

Ou seja, a frente crítica baseia-se naqueles que consideram o projeto um retrocesso no processo de penalização dos criminosos. Entretanto, como explica Stephane, o projeto, para ter sucesso, tem de ser encarado como uma ação séria e consolidada, no interior de prisões que ofereçam o mínimo de condições ambientais para a leitura e construção de resenhas críticas. “Não será a leitura pela simples leitura que possibilitará a remição, mas sim uma leitura que leve o preso à reflexão e transmissão de seu posicionamento quanto ao que leu”, enfatiza. Mas voltemos ao outro lado da questão. Que devemos lutar pela punição dos culpados é fato, mas será que é só a punição que interessa?

A recuperação de indivíduos como meta

Pra começo de conversa, eu considero, sim, a punição como parte importante do processo de ressocialização de um condenado. Entretanto, acredito fielmente na reeducação; na capacidade de reintegrar à sociedade alguém após um erro cometido. Eu não acho que absolutamente todas as pessoas tenham conserto, mas acredito que a maioria delas tem. Claro, essa é uma opinião pessoal, mas você verá que tenho bons argumentos para sustentá-la.

Segundo dados do Sistema Integrado de Informações Penitenciárias – InfoPen, coordenado pelo Departamento Penitenciário Nacional do Ministério da Justiça, dos mais de 513 mil presos custodiados no sistema penitenciário brasileiro, mais de um quarto (27%) estarão livres em menos de 8 anos. Isso significa mais de 140 mil reintegrados à sociedade, andando lado a lado com você e com sua família nas ruas, sem contar as reduções de pena por bom comportamento, habeas corpus etc. Ou seja, defender a posição de que só punir é o caminho é uma decisão extremamente temerária e que não afeta só a sua individualidade. Mais do que isso, a liberdade desses ex-presidiários vai acontecer independe da sua vontade. Sendo assim, é melhor que ela aconteça a uma pessoa regenerada ou a alguém que foi tratado em condições subumanas durante quase uma década?

Antes de continuar, é bom deixar claro que, sim, eu me coloco constantemente no lugar de pessoas vitimadas pela violência. E, provavelmente, no lugar de alguém que teve um parente brutalizado como nas cenas que vemos todos os dias no noticiário, eu iria querer vingança. Não julgo nem culpo quem pensa assim. Pelo contrário, eu compreendo e até me identifico. Entretanto, não podemos, enquanto sociedade, endossar este comportamento. A sociedade não pode e não deve tomar para si um sentimento de vingança pessoal. Isso não seria só ir contra a Constituição, mas contra qualquer conceito de civilização. Seria voltar ao homem das cavernas, um tempo de barbárie, regido pela lei do “olho por olho”.

Um problema coletivo

Sendo assim, me parece bastante sensato pensar que, já que a reintegração de criminosos à sociedade vai acontecer à revelia do que penso e que não podemos, enquanto agrupamento social, tomar frente às vinganças particulares, nós devemos presar pela regeneração dessas pessoas. Nós temos de acreditar que é possível recuperar gente! E que, durante e após o cumprimento da pena em decorrência do ato que cometeram, essas pessoas tenham seus direitos constitucionais garantidos.

Mas não para por aí. Tanto a segurança quanto a justiça no Brasil são cheias de falhas. Isso resulta em uma série de desmandos, abusos de autoridade, descumprimento de leis e, claro, inocentes respondendo por crimes que não cometeram. Quando lemos no jornal que, em uma imersão na favela a polícia matou oito pessoas, sendo três inocentes, automaticamente já fazemos um juízo de valor. Mesmo sem perceber, estamos chancelando a legitimidade da pena de morte de suspeitos (ideia discutida com muita propriedade pela Eliane Brum aqui). Em resumo, ao endossar esse tipo de discurso, concordamos que os supostamente “não inocentes” podem ser mortos, mesmo sabendo que eles são apenas SUSPEITOS, até que se prove o contrário. Mas, sobretudo, ignoramos categoricamente o fato de que as leis que vigoram no país não preveem a pena de morte em nenhuma circunstância, ainda que a suspeita seja confirmada.

Veja, não se trata de impunidade. O que estamos falando refere-se ao assassinato de pessoas que nem acusação comprovada contra si tem. Dessa forma, é importante admitirmos que esse “nosso” comportamento não só justifica, mas legitima a violência da polícia. E essa polícia só existe por causa de como encaramos a situação, recorrendo à ideia de que a vida de uns vale menos do que a de outros, sendo comum para “nós” aceitar que, numa sociedade tão desigual, o efeito colateral de tudo isso seja a morte dos filhos, dos irmãos e dos pais das pessoas mais pobres.

E, é claro, isso tudo vai gerar um gargalo onde? Exatamente no sistema prisional! Superlotado, corrupto e degenerador em praticamente todas as suas instâncias. E, mais claro ainda, não podemos nos excluir de todo esse universo.  Por isso é que a responsabilidade por boa parte do problema é justamente o posicionamento de quem acha que preso não é ser humano. Isso porque, além da impunidade, a principal causa da violência no Brasil é a falta de uma rede social eficiente, que garanta à população direitos básicos como educação, saúde, assistência social e oportunidades de emprego, e negar esses direitos a alguém que cometeu um erro é sentenciá-lo a uma vida em que sua escolha, basicamente, resume-se à reincidência ou à alçada a crimes cada vez mais graves. Em resumo, um tiro no pé.

Tá, mas e aí?

Estamos em um blog de literatura, então, suponho, todos concordamos que a leitura é de extrema importância. E alguns devem até estar pensando que impor a leitura (o que não é o caso), ou usá-la como “moeda de troca” na remição de penas, é banalizá-la. Que esse gosto pelos livros deveria partir de uma fonte mais genuína, por vontade própria. Penso que essa linha de raciocínio exclui um pouco da individualidade, da sensibilidade de perceber que os processos de aprendizado se dão de maneiras diferentes para cada indivíduo. E que muitos precisam, sim, de um estímulo como esse. Mas, ainda mais a fundo, exclui o talvez maior entrave que um projeto como o Remição pela Leitura encontra: a capacidade de leitura dos presos.

Segundo dados do Infopen, mais de 320 mil presidiários (praticamente 63% de toda a população carcerária) são analfabetos ou têm ensino fundamental incompleto, o que, como bem conhecemos o nosso sistema de ensino, quer dizer praticamente a mesma coisa. Quer dizer que, em princípio, muita, mas muita gente mesmo, não consegue participar de uma atividade como essa nem que queira. E, sem querer entrar mais uma vez no mérito do contexto de exclusão e desigualdade do país, ignorar esse fato é também desconsiderar que a leitura pode ser um fator de contribuição justamente nesse sentido, ou seja, atuar como ferramenta de apoio na alfabetização e letramento desses indivíduos.

E, para ratificar o que estou dizendo, o Remição pela Leitura já vem dando resultados palpáveis. Segundo a pedagoga, especialista em assistência penitenciária e chefe da divisão de reabilitação da Penitenciária Federal em Catanduvas, Jocemara Rodrigues da Silva, desde que o programa foi implantado, a prática da leitura passou a ser muito mais valorizada pelos presos. “Isso gerou um avanço na comunicação verbal, na produção escrita, bem como no nível de interpretação de mundo”, conta. A unidade possui hoje 123 internos e, em 2012, teve participação de 105 deles no projeto, com a produção de 261 resenhas aprovadas.

Baseada na experiência do ano passado, Jocemara garante que uma das principais razões de considerar o projeto importante refere-se justamente à questão da regeneração dos indivíduos que lá estão. “Uma das principais razões que podemos elencar é o fato de a Penitenciária, enquanto instituição criada teoricamente para punir, poder contribuir de forma a instrumentalizar o custodiado na busca pela transformação de sua própria história, levando-o a se compreender como sujeito responsável pelas consequências de suas escolhas”, explica.

A Penitenciária de Porto Velho possui número semelhante de presos (122), mas uma realidade um tanto diferente da de Catanduvas. Em 2012, o projeto contou com 72 participantes, dos quais 69 resenhas foram aprovadas. Quadro que se deve basicamente à falta de estudo por parte dos detentos, como explica a pedagoga da unidade, Stephane. “A relação entre a taxa de analfabetismo e os índices apresentados é direta. A escolarização nas penitenciárias federais tem sido o foco de um programa educacional que traz as Secretarias de Educação e os Institutos Federais como principais parceiros na oferta de assistência educacional formal e profissionalizante, e alterações pontuais já ocorreram, como, por exemplo, a implantação de oficinas de leitura e orientações básicas para a construção das resenhas,trazendo benefícios diretos à escolarização dos participantes”, diz.

Depende do lado da moeda

Aqui chegamos a um ponto chave, digamos assim. Quando nos damos conta de que um sistema penitenciário como o brasileiro é reflexo de sua abismal desigualdade e exclusão social, continuar a reproduzir e defender isso em nossos discursos e opiniões só vai resultar em uma ação retroliamentadora de todo o processo. Por absoluta falta de oportunidades (não estou generalizando ou justificando o caso, é só um exemplo que, olha que surpreendente, é extremamente comum em todo o país) alguém vai e comete um crime. É preso, julgado e sentenciado a uma pena. Junto dela, ao invés de aprender com os erros, pagar o que deve à sociedade e ser reintegrado à sociedade, com uma chance de recomeçar, não é o que acontece. Quando temos oportunidade de oferecer esse tipo de chance, negamos antes mesmo de saber qual é a proposta.

E é aí que talvez resida a maior ironia. Em uma sociedade que privilegia tão fortemente quem tem as benesses de nascer em berço esplêndido, pode ser que a única chance de algumas pessoas esteja justamente em um programa de recuperação social, de reeducação.  Ideia essa que conta com a anuência das duas pedagogas e especialistas em assistência penitenciária. “Devido à especificidade de isolamento celular, os detentos, que e em determinados momentos passavam 22 horas trancados em suas celas, recebem de forma positiva todas as ações voltadas à reinserção social. Os ganhos oriundos deste projeto não são de ordem quantitativa, mas sim qualitativa, pois alteram a rotina de reeducandos”, afirma Stephane, de Porto Velho.

Já Jocemara, de Catanduvas, concorda e vai ainda mais além. Para ela, a empatia com as histórias lidas e a sensibilidade adquirida através da imersão no mundo dos livros podem ser decisivas no processo de reintegração dos presos. “O projeto conta com a anuência de todos, com exceção dos analfabetos. Dois deles, inclusive, se motivaram a escrever livros, iniciando com suas próprias biografias. É comum ouvirmos relatos de presos dizendo que se emocionaram com as histórias lidas, nas quais se identificaram com os personagens, ou que o livro serviu como um espelho, cuja história refletia sua própria imagem”, destaca.

É nítido que o tema é controverso e espinhoso. Assim como é difícil fugir de nossa tendência à culpabilização irrestrita dos indivíduos. Mas é de fundamental importância que enxerguemos o quanto as mazelas coletivas são responsáveis por boa parte da podridão que vemos no mundo. E reconhecermos nossa parte de culpa em tudo isso é um dos meios mais práticos de buscarmos uma saída. É a velha história de aceitarmos que um direito concedido aos outros não significa que um dos nossos será tolhido. Trata-se pura e simplesmente de uma questão de igualdade. Nesse caso, o que me parece é que o problema não reside em quem está preso na cadeia, mas em quem está preso no seu próprio preconceito.

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Por Alberto Naninni

post_betoExiste um momento precioso numa leitura – quando, ao ler determinado texto, você se dá conta de algo sobre você mesmo(a) que ignorava até então.

E também, com a imensa diversidade de opiniões que se encontra por aí, hoje mais acessíveis do que nunca, graças a sites e blogs como este, me diga se você já não se sentiu meio “perdido(a)” ante assuntos espinhosos, defendidos de forma bastante convincente por antagonistas? Tudo parece tão bem embasado, que fica difícil tomar uma posição; e, quando a tomamos, diz mais a respeito sobre simpatias e “pré-conceitos” do que sobre lógica ou razão. Bons exemplos se deram aqui no Canto mesmo, ante as discussões sobre os originais racistas de Monteiro Lobato e sobre o voto nulo, ambos escritos buscando solidez argumentiva, e gerando contra-argumentos igualmente sólidos.

De qualquer maneira, ainda que facilitadas as discussões, quando se tratar de alguns assuntos – talvez os mais importantes – nós apenas buscaremos as confirmações de nossas opiniões pré-estabelecidas, ignorando inadvertidamente bons argumentos contrários a elas. Há um experimento que corrobora esta tese, feito pelo psicólogo americano Drew Westen, e também um livro, mencionado no fim deste artigo.

Pois bem.

Em meio a balbúrdia que é o Facebook, suas fotos, seus memes, piadinhas, textos pessimamente escritos e afins, é possível garimpar algumas joias. Com a possibilidade de assinar perfis ou mesmo de adicionar  pessoas que tenham relevância dentro dos meios que admiramos ou que tenhamos afinidades, é provável ler bons comentários, receber bons textos, links interessantes, e eventualmente, na leitura de algum deles, possa vir o tal “momento precioso”.

Li no perfil do Rodrigo Casarin um texto da Eliane Brum por ele compartilhado, que reproduzo aqui:

“Desqualificar os índios, sua cultura e a situação de indignidade na qual vive boa parte das etnias é uma piada clássica em alguns meios, tão recorrente que se tornou quase um clichê. Para parte da elite escolarizada, apesar do esforço empreendido pelos antropólogos, entre eles Lévi-Strauss, as culturas indígenas ainda são vistas como “atrasadas”, numa cadeia evolutiva única e inescapável entre a pedra lascada e o Ipad – e não como uma escolha diversa e um caminho possível. Assim, essa parcela da elite descarta, em nome da ignorância, a imensa riqueza contida na linguagem, no conhecimento e nas visões de mundo das 230 etnias indígenas que ainda sobrevivem por aqui.”

Li, e me dei conta: lá estava eu, em meio à tal “elite escolarizada”, prisioneiro de uma visão superficial sobre o “progresso cultural”, por assim dizer, apesar de me achar bastante defensor das minorias e que-tais.

Com este pequeno insight na cabeça, li muitas outras notícias, acontecidas em culturas muitíssimo diferentes daquela que vivo.

E aí veio o me “sentir perdido” – se não há superioridade de uma cultura a outra, como poderei condenar o que acho errado e tomar uma posição, se a justificativa de qualquer ato pode ser como algo típico de determinada cultura? E como balizar aonde eu, com minha cultura, me situo?

O problema é bem mais capcioso que parece.

Há algumas semanas, li a notícia de uma garota paquistanesa de 15 anos, que foi morta pelos próprios pais – tenho que repetir, com ênfase em toda a tristeza e todo o absurdo que daí vem: foi morta pelos próprios pais – que lhe jogaram ácido no rosto e corpo. Ela teria olhado para um garoto, e os pais “defenderam a honra da família”, segundo eles, já manchada pela filha mais velha que teria fugido para se casar. Crimes de honra acontecem corriqueiramente em diversas culturas. Mulheres suspeitas de adultério são queimadas com gasolina, pelos noivos ofendidos ou até pelos próprios familiares; desfiguradas, apedrejadas, enterradas vivas, executadas, barbarizadas, em alguns países no Oriente Médio, Ásia e África (se quiser mais detalhes sobre este horror, leia isso.

Claro que estes são exemplos absurdos destas culturas, e claro que há exemplos extremos na nossa cultura também, mas a questão aqui não é simplesmente pinçar os extremos, mas observar as variações morais, éticas e legais dentre elas. Por causa da infinidade de variações que existe, tais atos são legitimados. Mas, para não ir tão longe, algumas tribos indígenas brasileiras tinham o costume de sacrificar gêmeos ou bebês albinos recém-nascidos, por acreditar que eles trariam mau agouro, enterrando-os logo que nascessem. Num primeiro momento, este outro exemplo parece igualmente extremo e bárbaro. E é, claro. Mas, olhando-o atentamente, em tudo se assemelha ao aborto. Um aborto tardio. A diferença é que a índia não faz pré-natal, e não sabe como ou quantos serão seus filhos.

E o aborto, sem entrar em suas razões ou méritos, algo que mereceria uma discussão à parte, é algo muito mais próximo. Assim, pode-se dizer que todas as culturas, mesmo as indígenas, toleram ou até incentivam um sem-número de barbaridades, segundo suas convenções e costumes. E a minha cultura? Esta, que eu acreditava linearmente superior às outras, atrasadas e arcaicas?

Nela, o Estado de Direito que vigora busca trazer uma igualdade. Se é verdade que há muitos senões a isso, também é verdade que crimes como os já descritos são tipificados, com suas respectivas punições. O sistema econômico incentiva uma concorrência – que, se é um tanto predatória e irresponsável no consumo de matérias-primas e degradação do meio ambiente, também trouxe incontestáveis melhorias e avanços para a vida de milhões e milhões de pessoas, além de praticamente duplicar a expectativa de vida destas num espaço de tempo bastante curto.

Então, é possível detectar porque há uma inconsistência entre uma suposta superioridade que despreza riquezas culturais em detrimento de confortos tecnológicos – algo dificilmente defensável, e esta mesma superioridade, em detrimento de costumes arcaicos – algo plausível, pelo menos no campo moral. Trata-se de medir estas diferenças com a “régua” adequada.

As riquezas culturais de civilizações com milênios de história não podem ser desprezadas. Nossa civilização seria uma criança pequena comparada a estas. Mas eu acredito haver sim uma espécie de “linha evolutiva” do progresso das civilizações e culturas, e acredito que estamos mais evoluídos que a maioria, se aplicarmos esta “régua”: o maior amor ao próximo.

Este critério, uma vez definido o que se entende por amor, esclarece as controvérsias havidas quando confrontadas as culturas e seus costumes. Assim, é indiferente se o jovem anda com seu Ipad ou se pesca no rio com seu arco-e-flecha. Se sua cultura o acolhe, ama, respeita e protege, tentando igualá-lo em direitos e deveres a todos os outros (salvo inevitáveis variações hierárquicas), não há superioridade ou inferioridade a outra cultura. É apenas um outro caminho.

Mas, se ao invés de se amar às pessoas, se ama mais os conceitos e instituições, como a honra, os costumes, a religião, as posses ou o governo, fatalmente se sucederão e se admitirão absurdos como a violência às mulheres e minorias. E isto é um atraso, e um horror, e uma tristeza.

Sim, há na nossa cultura muitos e muitos casos de violência contra mulheres e diversas minorias. Isso é indiscutível. Infelizmente. Não somos o exemplo de amor ao próximo que poderíamos ser, ante o esclarecimento que atingimos. Mas eu até acho que nos dirigimos para isso, timidamente. Prova disso são os militantes pelos direitos de parcelas oprimidas, como por exemplo o movimento feminista, os anti-racistas, e os de defesa dos animais.

Muitos movimentos de defesa das minorias tem sido bastante ativos, e este é um ótimo sinal. Tomando o último citado, quando expandimos o conceito de amor ao próximo aos animais, inferimos que as pessoas que o fazem, em sua absoluta maioria, respeita seus semelhantes como iguais. Ou seja, partem do pressuposto que obviamente não se deve maltratar as pessoas, e muito menos os animais, que são indefesos. Muitos gostam mais deles do que delas, e não os culpo – os animais são puros e desinteressados; as pessoas, nem sempre.

De qualquer forma, apesar destes movimentos, há pouco amor ao próximo, e por isso, há muitas leis. Há inclusive a tentativa de se criminalizar maus-tratos aos animais, e os militantes em defesa deles fazem muito barulho quando flagram algum caso, como o da enfermeira que, sujando sua categoria, torturou até a morte seu cãozinho, sem perceber que estava sendo filmada. De minha parte, acho justo a crueldade ser punida.

Porém, reconheço que, por interesse, contemporizo com outro tipo de crueldade: a que envolve se alimentar de outros animais. É algo cultural, e talvez até genético. Segundo o dr. Dráusio Varella, estaria impresso nos nossos genes o consumo de carne, tanto que salivamos só de cheirar um bife sendo feito. Mas há aqueles que optam por abrir mão deste consumo: os vegetarianos e veganos.  Eles transcendem um impulso atávico humano: o de caçar e comer, ainda que não cacemos nada senão em açougues e mercados. E o substituem por um tipo de amor que não despreza o sofrimento causado a um outro ser vivo, criado apenas para o abate, e muitas vezes, em condições extremamente cruéis. Além disso, costumam se tornar vegetarianos ou veganos pela própria vontade – e não por ser um costume do seu povo, ou por ordem de seu líder religioso. Até porque eles costumam prescindir de crenças, já que são guiados pela própria consciência, a ponto de se importar não só com seus semelhantes, mas também com os outros seres vivos.

Por estes motivos, acredito que eles sejam a próxima “linha evolutiva” humana, e a princípio, moralmente superiores. Aliás, possivelmente, num futuro talvez não tão distante, seremos vistos como neandertais, com nossos churrascos e frigoríficos.

Enfim, as violências – culturais ou não – que se passam do outro lado do mundo chegam até mim, assim como aquelas que literalmente batem à minha porta, ou chegam à minha mesa. Os movimentos pelos direitos humanos e animais – mais fortes e presentes em algumas culturas do que outras – também. Então, posso respeitar as culturas e diferenças, mas, munido da medida do amor, também posso ver que, quanto mais tradicionalista e fechada uma cultura seja, mais distorções e violência contra os seus ela tende a abrigar. Em contraponto, quanto mais progressista e aberta seja outra, mais ela tenderá a dar voz aos seus, e, por conseguinte, mais equilibrada e justa ela possivelmente será.

Depreende-se então que desta cisma se originou um outro tipo de desafio: como se estar conectado a tudo e não ser massacrado por isso.

O genial David Foster Wallace, jornalista e escritor americano, escreveu um relato cru sobre um tal Festival da Lagosta, que acontece nos EUA, para uma revista especializada, que foi de certa forma até corajosa em publicá-lo, ante a posição que ele toma e as reflexões que ele faz.

Creio ter chegado a conclusões parecidas. O homem é abjeto. Vil, ditador, mesquinho e cruel. Animal em suas pulsões. Ler sobre as barbaridades que alguns são capazes, as fazendo por causa de sua cultura ou por outra justificativa qualquer, nos dá a sensação de que somos melhores, que não faríamos aquilo em hipótese nenhuma. Bem, pesquisas consagradas contestam isso: somos capazes dos piores atos, se arrumarmos uma justificativa que considerarmos plausível, como obediência, costume, autodefesa ou “forte emoção”.

Não admira que David Foster Wallace, capaz de enxergar tanto sobre si e seus semelhantes até num Festival de Lagostas, não tenha mais aguentado viver. Ser sensível demais, enxergar demais, traz desespero. É necessário um embotamento, uma “correria” atarantada, que consome futilidades, que acumula coisas, que se engana com um juízo distorcido de si mesmo, e que ignora, ou finge ignorar, o quanto de vaidade há nisso tudo. E mais que isso, é necessária uma “dessensibilização” aos absurdos do mundo, como um antídoto, que nos possibilita viver e até ser felizes.

Como uma espécie de ácido que nós mesmos derramamos em nossas consciências.

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O novo livro traduzido de David Foster Wallace, publicado quatro anos após sua morte, Ficando longe do fato de já estar meio que longe de tudo, da Cia. das Letras, acabou de chegar às livrarias, e tem o ensaio “Pense na Lagosta”, mencionado aqui. Também pode ser lido no site da revista piauí.

O livro mencionado que aprofunda a noção de que só procuramos a confirmação das nossas teses é o Previsivelmente Irracional, da Elsevier, escrito pelo psicólogo e professor americano Dan Ariely.

Agora, consigo marcar uma posição de qual lugar minha cultura ocupa (e eu dentro dela). Muito longe da perfeição ela está, e muito para se envergonhar existe. Consumir carne e esgotar o meio-ambiente, ligar pouco para as minorias, fazer parte de um sistema que mais separa e exclui do que o contrário. Confere. Mesmo assim, afirmo haver grande diferença entre cometer estes e outros pecados, e cometer não apenas estes, mas ainda outros piores, contra qualquer um, por motivo de ódio, costumes medievais e ignorância – pura, grossa e cascuda. Em relação a estas pessoas, cuja cultura autoriza e estimula este tipo de ação, só preciso ver a foto de UMA das milhares e milhares de vítimas que eles desfiguraram com seus ácidos e preconceitos para dizer: atrasados. Covardes. Bárbaros. Desumanos.

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