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Posts Tagged ‘F.T. Farah’

 

Por Alberto Nannini

enigma das estrelas capaAs gerações que tenham hoje entre quase trinta e quase cinquenta anos certamente já ouviram falar dela – uma série de livros de grande sucesso, editados pela editora Ática, a partir de 1972: a famosa série Vaga Lume.

Seus livros, com grandes tiragens, eram sucesso de público e de crítica. Lidos por muitos jovens, trabalhados nas escolas, sempre funcionaram como uma espécie de iniciação às leituras mais consistentes. A edição era simples, e as tramas, ágeis. Raramente iam muito além das 100 páginas.

O sucesso da série fez com que personagens de alguns de seus livros estrelassem mais de um romance. Era o caso do personagem Xisto, de Lúcia Machado de Almeida, que estrelou Aventuras de Xisto, Xisto no espaço e Xisto e o pássaro cósmico, e de Léo, o garoto que estrelou os sucessos O mistério do cinco estrelas, O rapto do garoto de ouro, Um cadáver ouve rádio e depois, Um rosto no computador, do autor Marcos Rey.

A série Vaga-lume foi citada aqui por três motivos: a obra que será resenhada a seguir poderia perfeitamente fazer parte de seu acervo; seus personagens estrelarão mais de um romance e, por fim, embora não tenha certeza, apostaria todas as fichas que o autor F.T. Farah lia esses livros, e que eles foram uma de suas fontes de inspiração.

Série infanto-juvenil Clube dos Mistérios, primeiro volume: O enigma das estrelas

A sinopse no site do autor diz assim: “Cercado por estranhos acontecimentos, o vilarejo mineiro de Morro do Ferro é o destino das férias de julho de cinco adolescentes: Jonas, Alfredo, Carola, Carmem e Vicentinho. Em O Enigma das Estrelas – primeiro volume da série Clube dos Mistérios –, eles partem para o primeiro acampamento de suas vidas. Para os pais, a aventura é um ritual de passagem para a vida adulta. Para Jonas, o mais velho da turma, é a ocasião perfeita para conquistar Carola e amedrontar os amigos. Na primeira noite fora de casa, ele conta histórias aterrorizantes em torno de uma fogueira. E acaba sendo vítima de uma delas. Levado a bordo de uma nave espacial, o adolescente é surpreendido por seres extraterrestres e passa por um estranho ritual de passagem”.

O livro lido (gentilmente cedido pelo autor) é uma reedição recém-publicada, já que sua primeira edição estava esgotada. Farah revisitou a obra, e a atualizou, substituindo cartas que os personagens escreviam por e-mails, além de acrescentar textos que dialogam com o leitor, em caixas separadas, com uma edição e aparência que lembra revistas ou sites.

Aliás, o design gráfico do livro é primoroso, e estas “caixas de diálogo” são uma sacada inteligente. Funcionam muito bem. Nelas, Farah aprofunda alguns temas, como listas de filmes com o tema de extraterrestres, palavra de estudiosos do assunto, dicas de acampamento e outros.

Outro ponto positivo são os muitos ganchos deixados, lembrando que este livro é o primeiro de uma série de cinco. Os garotos e meninas do grupo vão revelando suas personalidades e interesses, e alguns destes ganchos poderão ser aprofundados, como certos segredos só insinuados ou ligações que há entre personagens secundários. Por exemplo, é revelado neste 1º volume que houve um relacionamento antigo entre o pai de Jonas e a mãe de Carola. O atual marido desta, Murilo, sabe disso e não se sente confortável.

A linguagem utilizada pelo autor, quando dá voz a seus personagens, é bem fiel. Sem exagerar em gírias e trejeitos, consegue caracterizar as particularidades da comunicação entre eles, e também retrata bem suas preocupações típicas.

O fato dos protagonistas criarem um grupo – “O Clube dos mistérios” – lembrou o clássico infanto-juvenil de Pedro Bandeira, A droga da obediência, e o grupo deles, “Os Karas” (como o li só uma vez e há muito tempo, não conseguirei compará-los melhor).

Enfim, Farah, bom escritor (leia a resenha de outra obra sua já resenhada por aqui: A outra face de Deus), tem domínio de técnicas narrativas e soube construir um enredo instigante. Como já li o livro com intenção de resenhá-lo, atentei para o fato de que o autor tem a imagem dos personagens bastante nítida e também sabe exatamente aonde a história contada os levará.

Talvez daí venha alguns problemas que minha leitura detectou.

Um deles é que, embora ele tenha vívida a imagem dos garotos e das cenas descritas, há vezes em que sua descrição delas não é perfeita, ou ainda, não se passa daquela forma desapercebida, que se materializa, instantânea, conforme a leitura flui.

Acredito que isso se dê por conta de Farah utilizar praticamente apenas o recurso de descrever as ações após os diálogos. Por exemplo, em um deles, Jonas cumprimenta Vicentinho, que o interrompeu, mas o estado de ânimo dele – “se mordendo de raiva” – só é descrito após o cumprimento. Há o contexto, claro – na ocasião, Jonas estava sendo interrompido – mas há uma ampla gama de reações possíveis a isso, e faz parte da leitura “adivinhar” o desenrolar – a não ser que a maestria do autor o conduza por onde ele queira, e você nem se dê conta.

Quando isso não acontece, poderá travar um pouco a leitura, porque, se não se percebe de maneira automática o ânimo dos personagens e o desenrolar de suas ações, vai se imaginar o que pareça adequado, que poderá se chocar com a cena construída pelo autor, descrita em seguida.

Por conta disso, acredito que alguns diálogos poderiam ser aperfeiçoados. Há maneiras de descrever ou induzir o leitor a perceber o estado de ânimo dos personagens antes do diálogos, bem como eliminar ações evidentes como “ – tal tal tal – retrucou fulana” (ainda que nem sempre se possa escapar da identificação do interlocutor).

Desta forma, se minimizaria aquela armadilha da escrita, na qual o autor sabe exatamente o que quer dizer e passar, mas nem sempre consegue descrever de maneira adequada para os leitores. Serviria também para evitar a repetição do recurso (de sempre colocar a voz narrativa após), que também tende a cansar a leitura.

Registre-se que há muitos momentos em que estes pequenos senões não aparecem, e a leitura flui muito mais fácil.

A primeira aventura

A trama fala sobre discos voadores e abduções, e é muito bem construída em cima deste mote. Gostei bastante das inúmeras referências, que vão de deuses à lendas. Farah cita no livro inúmeros filmes, músicas, seriados e obras do tema, e consegue costurá-las de forma bastante satisfatória.

Copyofouroboros_by_Saki_BlackWingAs mitologias que giram em torno das serpentes foi bem explorada, com figuras míticas, símbolos, como o ourobóros (a serpente que devora a própria cauda), a serpente emplumada asteca e outros, que se encaixam bem na trama. Porém, no tocante às músicas de Raul Seixas, e também sobre uma participação especial da imagem dele, achei um pouco fora de propósito. Mas esta é uma questão de gosto particular.

No geral, e considerando, principalmente, o público-alvo – infanto-juvenil – achei a obra muito adequada. O tom é condizente, e pode ser bastante divertido embarcar nela, com as devidas concessões. Lembrou-me do filme Super 8, de J.J. Abrams (também citado no livro), que foi feito tendo em mente o mesmo público, e buscou identificação deles com os personagens, mas também conseguiu divertir o público adulto e todos aqueles que ainda se lembravam de como era ser criança.

Talvez o maior problema do crítico que vos fala esteja aí – ter deixado de ser criança.

Outros mundos

Quando era pequeno, tinha curiosidade insaciável por quase tudo, e isso incluía OVNI’s e ET’s. Li alguns livros do suíço Erich Von Daniken, como Eram os deuses astronautas?, mesmo sem entender quase nada, e outros com temática semelhante.

Porém, minha formação católica me impedia de acreditar que pudesse haver algo como abduções. Eu já as entendia como um ato mau, por ser análoga ao sequestro. E não me parecia correto que Deus não nos protegesse deles (ET’s), como protegia dos demônios – se você fosse bom, rezasse e tivesse fé.

Ou seja, para meu raciocínio infantil, contra o mal que poderia incorrer sobre as pessoas, como influências de “espíritos”, o próprio azar e a maldade de outras pessoas, para tudo isso poderia haver proteção divina, mas, aparentemente, não frente à tecnologias e intenções escusas de seres de outros mundos. Sem contar que eu não saberia dizer à imagem de quem eles teriam sidos criados.

Cresci, e sempre deixei a mitologia em torno de discos voadores e abduções em plano secundário, mesmo quando já havia percebido que o Deus da minha infância era uma abstração.

Mas aí, conheci Carl Sagan e li seu espantoso livro O mundo assombrado por demônios. Isto mudou tudo.

A ciência vista como uma vela no escuro

A ideia de que o desconhecido nos assombra e que inventamos explicações para ele, ou melhor, que precisamos inventar explicações para ele, foi um dos ensinamentos mais poderosos que eu aprendi, e mudou completamente a minha maneira de ver a vida.

Percebi que nossa história mostra que o mecanismo de preenchimento de lacunas de conhecimento com fantasias e mitos não só é recorrente, mas também definidor do que é ser um humano. Procuramos explicações e padrões para tudo e tendemos a repetir os construtos, variando o objeto que eles explicariam.

A ciência, em princípio, desapaixonada, veio modificar bastante esta dinâmica. Ela não substitui (nem poderia) a mitologia, a fantasia e o anseio da divindade. Mas ela clareia alguns erros cognitivos, que nos levam a crer no inexistente.

Carl Sagan recebeu centenas de cartas de pessoas que alegaram terem sido abduzidas. Ele, desapaixonadamente, inquiria se os alienígenas deram alguma informação científica ao abduzido.

Nunca deram.

Para aqueles que alegavam ter contato contínuo com extraterrestres, Sagan perguntava as noções mais elementares da física – algo que viajantes em discos espaciais necessariamente deveriam dominar.

Mas, supondo que se queira contestar isso, admitindo que a física deles seja diferente da nossa (isso é algo unânime: eles sempre são mais avançados), ainda assim, é um postulado científico difícil de ser contestado que a linguagem matemática deveria ser entendida por qualquer organismo consciente. Então, para alienígenas que nos estudaram, que sabem falar de alguma forma mensagens inteligíveis a nós, seria fácil resolver um ou dois teoremas matemáticos dos mais simples. Mas isso também nunca aconteceu.

Note bem que Sagan era um cientista, mas não se achava um deus – ele apenas achava que havia uma histeria em torno das abduções, semelhantes a histerias passadas, como por exemplo, em torno da bruxaria. Aliás, ele compara, com coincidências impressionantes, as abduções às aparições de santos e divindades, quase sempre a crianças, que eram um pouco mais comuns antes dos óvnis. Ou seja, estes (da sigla Objeto Voador Não Identificado – UFO em inglês) são um mito moderno.

Como Sagan, não acho que não possa haver outras civilizações. É até provável que haja vida fora da Terra. Sagan escreveu o livro Contato, para imaginar, com bases científicas, como seria um provável contato extraterrestre. Eu, por minha vez, não acredito que tenha havido algum destes. Quando contatamos uma civilização mais atrasada tecnologicamente, sempre a modificamos ou a dominamos. Na nossa história, há inúmeros exemplos de sociedades dizimadas por conquistadores.

Partindo daí, acho improvável que seres extraterrestres tenham tido ou mantenham contato conosco e não tenham se revelado ou influenciado decisivamente em nosso planeta (que, aliás, está quase pedindo mesmo uma intervenção externa).

Conheço alguns argumentos que defendem a existência de alienígenas, e estas influências, que já seriam operadas. Bem, quando os argumentos não são furados e tendenciosos, eles tudo se assemelham à parábola do dragão invisível, contado pelo mesmo Sagan.

A navalha de Occam contra o dragão

O sujeito diz para o outro que não só há dragões, como um deles mora na sua garagem. O segundo sujeito diz que quer ir lá ver, para acreditar, mas o primeiro diz que o dragão é invisível. Então, o segundo diz que utilizará óculos especiais, que permitem ver o espectro de calor, mas o primeiro diz que o dragão não emite calor algum. Eles diz então que vai espalhar sensores no chão, que captarão o peso, mas o dragão paira acima do ar, e não tem peso. O segundo diz então que filmará de longe com câmeras de lentes especiais, que captam qualquer espectro de energia e radiação, mas o segundo diz que o dragão não emite qualquer radiação conhecida.

Ora, um dragão invisível, que não emite calor nem qualquer radiação conhecida, que não tem peso nem materialidade alguma, está bem aqui, em cima da minha cabeça no momento em que escrevo isto. Ao final, afirmá-lo equivale a dizer que ele é em tudo semelhante a um dragão inexistente.

Esta parábola se aplica ao deus personalizado também. Há uma contradição de base em se tentar materializar o imaterial, em conhecer o incognoscível… ***Ou talvez tudo isso seja uma questão de se utilizar os instrumentos adequados, o que leva à conclusão que o intelecto e a ciência não são suficientes, neste caso. Mas isso levaria a conversa para um outro rumo, que não será apreciado agora.***

Retomando, descarto as abduções e não creio em visitas de discos voadores, por falta de evidencias cabais. Qualquer um que tenha um conhecido de um vizinho que foi abduzido, ou que tenha tido visão de discos voadores, ou ainda contato com alienígenas – e que simpatize ou defenda as teorias conspiratórias para explicar o acobertamento de tudo isso – será facilmente contestado por teorias mais simples, perfeitamente lógicas e cabíveis, que até um leigo como eu domina.

Esta é a aplicação do princípio da Navalha de Occam, que diz, a grosso modo, “se houver duas explicações para um fenômeno, a mais simples tende a ser a mais correta”. Ao invés de elaborados sistemas que categorizam aliens e suas visitas, e dependem de uma série de premissas não tão bem costuradas para se sustentar, é mais simples perceber que os discos voadores fazem parte do imaginário humano, e que nosso cérebro, além de ser pré-configurado para acreditar, não é 100% fiel em suas deduções e certezas.

variedades da exp sagan capaSagan também disse sobre isto, em seu livro Variedades da experiência científica:

Dizem as vezes que pessoas que adotam uma abordagem de ceticismo em relação aos óvnis ou até a algumas variedades de demonstrações de religiões, estão na verdade sendo preconceituosas. Sustento que isso não é preconceito. É pós-conceito. Isto é, não é um juízo feito antes de examinar as evidências, mas um juízo adotado depois de examiná-las.

Para mim, a mitologia que envolve o assunto é isso – uma mitologia. Repetindo, isso não significa que eu afirme não haver vida fora do planeta Terra. Ante a imensidão do universo, é provável que haja vida aí fora. Mas o mesmo raciocínio e a mesma configuração cognitiva que nos levaram a acreditar em seres mitológicos, há alguns séculos, nos leva hoje a acreditar em abduções, sexo com extraterrestres, experiências deles, e naves espaciais (que nem seriam a melhor maneira de uma civilização avançada se comunicar, de qualquer maneira).

Outra falha é, por incrível que pareça, a falta de imaginação – os alienígenas, sempre humanoides, e sempre falando exatamente nos termos pelos quais as pessoas medianas que são abduzidas conseguiriam falar por si próprias. Mas, por dedução razoável, a configuração e a lentíssima evolução que resultou na humanidade não deve ser o único caminho para a vida vicejar aí afora, e por isso, pode ser que vida extraterrestre tenha formato muito diferente do baseado em carbono que conhecemos.

Alguém na escuta?

Mas, enfim, é bem sabido que argumentos lógicos são contestados sem lógica, ou ignorados, pelos que escolhem crer. Ou seja, não vou convencer ninguém que creia em óvnis e abduções que não há qualquer prova cientificamente aceitável a respeito.

Por isso, voltando ao livro de Farah, é uma boa diversão e uma boa leitura para a juventude de hoje, tão diferente, tão melhor informada, mas tão confusa quanto foi a da minha geração. Algumas necessidades são universais e atemporais. A de acreditar que haja algo além é uma delas, essencial. Por isso, respeito quem ignora, por opção ou por desconhecimento, as ferramentas científicas que, infelizmente, não autorizam a acreditar, por enquanto, em óvnis e abduções.

O mundo fica mesmo mais sem graça sem algo do tipo “pode ser que os aliens coloquem na cabeça dos cientistas e dos escritores pretensiosos a certeza que eles (aliens) não existem, para não atrapalhar seus planos”. (Risos) Talvez. Pode ser que haja dragões imateriais invisíveis também. E o mundo com graça é bem melhor.

O que é certo é que não somos o centro de tudo, como acreditamos. O planeta Terra é um grão de poeira no espaço, e nossas vidas, nas escalas cósmicas, são tão breves que mal se percebe que existiram.

Para quem quer acreditar

Mulder-and-Scully-mulder-and-scully-8678647-1681-2100O homem vasculha a imensidão em busca de companhia. Isso é até corajoso. Mas, enquanto nada de conclusivo se detecta, podemos nos distrair imaginando como seria este contato, por ficção boa como a de Sagan – o livro Contato (que foi filmado, com Jodie Foster no papel principal), ou a série de Farah, especialmente se você for jovem e/ou ufólogo.

Aficionados pelo antigo seriado Arquivo X (um dos mais bem sucedidos da TV, que falava sobre uma conspiração alienígena, e cujos protagonistas, o crédulo Fox Mulder e a cética Dana Scully, batizam este texto), talvez leiam esta resenha com aquele ar de desaprovação dedicado aos descrentes, e só diriam, meio condoídos: “a verdade está lá fora”. Mas como ela não dá sinais incontestáveis, por enquanto ficarei com as verdades e a vida daqui de dentro mesmo. E outra: Mulders precisam de Scullys, ou não há um time.

 

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entrevista_desenhoNesses mais de quatro anos de Canto dos Livros, as entrevistas que procuramos fazer mensalmente se tornaram um dos principais diferenciais do blog. Por isso, resolvemos reunir os links de todas as conversas que tivemos com pessoas do meio literário em um só post. Abaixo, trechos de dez delas e, em seguida, uma relação com todos aqueles que já falaram conosco. Para ler uma entrevista na íntegra, basta clicar sobre os nomes dos entrevistados. Divirta-se!

“Perceber o mundo como um morador local o percebe é fundamental para escrever com realismo e convencer o leitor de que ele está entrando num mundo especial, diferente do seu dia-a-dia” – Airton Ortiz

“Adoro o cotidiano mais prosaico, um ponto de ônibus, um sofá com televisão, um almoço qualquer” – Andréa del Fuego

“Por mais interessantes e diferentes que tenham sido as experiências que vivi durante a viagem, tenho escolhido não estacionar em vida nenhuma. Isso não quer dizer viver superficialmente, à deriva, do tipo ‘pra onde me chamar eu vou’. É, na verdade, uma tentativa de se manter aberto, receptivo às novidades” – Antonio Lino

“Toda narrativa pública transporta implicitamente uma visão de mundo, contribuindo ou para manter o grau de consciência do leitor num nível muito baixo de entendimento da realidade, ou ajudando-o a despertar para uma visão transformadora, que não termina no ângulo puramente derrotista, negativista” – Edvaldo Pereira Lima

“Geralmente, há uma esnobação equivocada que cerca a ficção. Eu adoro belos romances, mas a verdade é que genialidade na ficção é rara e a vasta maioria dos autores que se empenha em fazê-lo acaba produzindo uma bobagem banal” – Jeremy Mercer

“A ficção é parte do real, não se opõe a ele; não é o oposto da verdade. A ficção é um modo de se tornar visíveis relações constitutivas do real” – José Luiz Passos

“Sinto que todo escritor sofre de uma hipermetropia: pode enxergar bem a obra dos outros, à distância, mas a sua própria sempre aparece aos seus olhos imprecisa e turva” – Julián Fuks

“Acho que no geral há uma possibilidade razoável de nos próximos anos termos bons livros para ler. No entanto, parece-me que boa parte da produção ainda reproduz – sem criticar ou, ainda pior, aderindo ao que há de pior no Brasil. Digamos que estamos diante, se formos falar no geral, de uma produção amena e edulcorada” – Ricardo Lísias

“O que mais me incomodava, além dos entraves burocráticos, era a minha completa inaptidão para conversar com as pessoas. Às vezes eu ficava em silêncio ao lado de algum entrevistado vendo os ônibus passarem, por puro pânico e falta de perguntas. Isso às vezes era uma vantagem, porque o sujeito acabava falando qualquer coisa que lhe viesse à mente” – Vanessa Barbara

Alex Robinson

Augusto Paim

Bernardo Carvalho

Claudio Brites

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Eric Novello

Felipe Pena

Ferréz

F. T. Farah

Lehgau-Z Qarvalho

Marcelo Maluf

Monica Martinez

Nazarethe Fonseca

Nelson Magrini

Paulão de Carvalho

Reinaldo Moraes

Renato Modernell

Tatiana Salem Levy

Xico Sá

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ftfarahComo jornalista, Fábio Farah já foi repórter de uma revista semanal, editor de turismo em portal de Internet e coordenador de redação em emissora de tevê, além de crítico gastronômico e de vinhos – e ainda está com 36 anos. Já assinando como F. T. Farah, o paulistano é autor de livros infanto-juvenis e do romance A Outra Face de Deus (já resenhado aqui no blog). Este romance é o primeiro de uma trilogia, cujo segundo volume está sendo desenvolvido e, se tudo correr conforme previsto, chegará às livrarias no segundo semestre de 2014.

Nesta entrevista, Farah fala sobre sua obra, revela o novo contrato com a editora Geração Editorial (divulgando em primeira mão que serão republicados os dois livros iniciais de sua série “Clube dos Mistérios”, com lançamento do primeiro livro já em novembro, em formato de e-book) e comenta sobre a “pesquisa de campo” para escrever a respeito do Diabo. Confira:

Canto dos Livros: Há um ano você deixou a editora Papagaio e assinou com a Geração Editorial. Por que essa troca?

F. T. Farah: Os editores da Papagaio, Denise e Sérgio Pinto de Almeida, foram os primeiros a apostar em minha carreira de escritor. Eles aprovaram a coleção Clube dos Mistérios, composta por cinco livros juvenis, e publicaram o primeiro, O Enigma das Estrelas, em 2005. O segundo, A Diversão dos Mortos, saiu três anos depois. Quando recebi a proposta da Geração Editorial para a aquisição da série, conversei com meus primeiros editores e, consensualmente, rescindimos o contrato. Uma editora maior, e com mais recursos, tem mais chances de alavancar comercialmente a coleção.

CdL: Como é a sua relação com as editoras?

F.T.F: A relação com as editoras é ótima quando elas valorizam o autor. Isso significa respeitar não apenas suas opiniões durante o processo de edição, mas também o que ocorre quando o livro chega ao mercado. E um dos pecados mais graves é não pagar os direitos autorais. Felizmente, em minha jornada, as experiências positivas superam as desilusões.

CdL: Ainda sobre a troca de editoras, na nova casa você lançará uma versão ampliada do seu primeiro livro, O enigma das estrelas. Do que trata essa ampliação? Uma simples extensão da história?

F.T.F. Se um autor disser que gosta de reler seus livros, provavelmente estará mentindo. Sempre encontrará palavras que se encaixarão melhor em uma descrição, diálogos que soarão melhor de outra maneira. Quando surgiu a oportunidade de reeditar meu primeiro livro em outra casa, resolvi revisitá-lo. Para respeitar meus primeiros leitores, não mudei o fio condutor da trama. Mas mudei palavras, aprimorei diálogos e, sobretudo, procurei construir uma narrativa mais ágil, com histórias paralelas, novos enigmas e personagens surpreendentes.

CdL: Como você aprendeu a escrever para o público infanto-juvenil? De que forma compreendeu seus interesses, desejos, anseios, para criar histórias que despertassem sua atenção?

A resposta a essa questão é simples e complexa ao mesmo tempo. Excetuando-se alguns prodígios, os autores que escrevem histórias infanto-juvenis já foram crianças e adolescentes. Os sentimentos e as percepções daquela época permanecem guardados. O primeiro passo é resgatá-los. Geralmente quando isso acontece, costumamos descartá-los como “bobagens” de uma época passada. O segredo é deixar o adulto de castigo por alguns instantes e conversar com as crianças como uma criança e com os adolescentes como um adolescente.

CdL: Qual a sua opinião sobre a Educação, atualmente, no Brasil? Como escritor de livros infanto-juvenis, qual acredita que seja o papel da literatura na formação de crianças e adolescentes?

A literatura é fundamental na educação de crianças e adolescentes. Mas não acredito que ela contribua apenas para a formação humanística. Acredito que ela desempenha um papel primordial no desenvolvimento de certas áreas cerebrais. Se elas não forem exercitadas, crianças serão prejudicadas pela vida inteira. Neste sentido, o problema da educação básica brasileira – e aqui cabe uma generalização – é não incentivar o interesse pela leitura, mas apresentá-la como algo enfadonho. E isto afasta as pessoas. O reflexo pode ser facilmente contabilizado pelo número de livros, em média, que o brasileiro lê por ano. Às vezes, a educação familiar consegue preencher esta lacuna. Mas, se os pais cresceram sem dar importância à leitura, dificilmente conseguirão criar filhos leitores. É um ciclo vicioso.

CdL: Como foi a transição de publicar livros infanto-juvenis e infantil para o romance A outra face de Deus?

Não foi propriamente uma transição. Antes de publicar histórias infantojuvenis, já tinha esboçado um romance adulto. O ponto-chave é despertar o interesse de seu público-alvo. Para as crianças, como eu disse anteriormente, é preciso dialogar de igual para igual. É preciso, por exemplo, se divertir diante de coisas que soariam banais para um adulto. As crianças se divertem quando leem o título de meu primeiro infantil, Pum de Peixe. Para os adolescentes, é preciso compreender os conflitos próprios da época, como os batimentos cardíacos após o primeiro beijo. Escrever para diferentes faixas etárias é a capacidade para transitar dentro de si mesmo.

CdL: A trama do livro A outra face de Deus parece beber de várias fontes, de literatura a quadrinhos, passando por cinema e religião. Quais foram as influências mais determinantes na obra? Quais outras influências te inspiram a escrever?

A Outra Face de Deus bebe, sim, de várias fontes. E elas não se resumem somente a outras obras literárias.  Falar sobre influências determinantes nunca é fácil. No caso específico de A Outra Face de Deus, tentarei resumir. Ela sofre a influência de best-sellers contemporâneos, como Dan Brown – na forma de encadear a trama – e Stephen King – no suspense permeado por toques sobrenaturais -, além de outros que se tornaram clássicos, como sir Arthur Conan Doyle e G. K. Chesterton. Eles criaram detetives fascinantes. Mas essa história também é influenciada por obras canônicas, como A Tempestade, de Shakespeare, utilizada na trama, e O Apocalipse de São João. Também me inspiro em textos medievais, sobretudo os que revelam profecias misteriosas, além de guias de viagem. E, como afirmado, cinema. Para citar alguns filmes: O Bebê de Rosemary e O Último Portal, ambos dirigidos Polanski. E, claro, quadrinhos, música, obras de arte, manuais de ocultismo…

CdL: O livro mostra um extenso trabalho de pesquisa. Quanto tempo levou entre imaginar a história, levantar informações e dar forma final a tudo isso? Como se deu esta jornada?

A trama se desenvolve na cabeça do autor, mesmo que ele não esteja plenamente consciente disso. E o processo varia de história para história. Para compor uma ficção, a mente se apropria de lugares pelos quais passou, lugares pelos quais gostaria de ter passado, histórias reais ou imaginárias, detalhes que, em algum momento da vida, despertaram sua atenção. É um processo contínuo. No meu caso, imagino histórias o tempo inteiro, de livros infantis a romances adultos. Mas escrever uma história envolve mais do que imaginá-la. É um trabalho exaustivo que requer inúmeras pesquisas adicionais. Ao sentar para escrever A Outra Face de Deus, a linha principal da história já existia. Entre pesquisar, escrever e revisar, contabilizaria dez meses.

CdL: O personagem Diabo sempre fascinou a literatura ocidental. Muitas obras recentes tem repensado seu papel, humanizando-o. Já no seu livro, o personagem equivalente se assemelha mais ao clássico. Como se deu a construção dele?

O Diabo é um personagem bastante complexo. Não à toa fascinou escritores afamados como Dante, Goethe, Milton, Oscar Wilde, apenas para citar alguns exemplos. No entanto, embora Samyaza (o demônio em A Outra Face de Deus) se assemelhe ao personagem clássico, como definiu em sua pergunta, resolvi buscá-lo em outras fontes. Procurei o Demônio que os exorcistas encontram em possessões e que os feiticeiros costumavam invocar, utilizando antigos grimórios medievais. Procurei o anjo caído que a Igreja Católica define como um ser “real e pessoal”. E o encontrei, talvez da mesma maneira que os autores citados. Talvez algum dia escreva sobre essas experiências não-convencionais.

CdL: E dos protagonistas, o padre Pietro Amorth e o jornalista David Rowling? O que há de autobiográfico neles, especialmente no último?

Muitos leitores me fazem a mesma pergunta. E a resposta é sempre a mesma. Não construo personagens autobiográficos. Claro que há semelhanças que podem nos aproximar, mas as diferenças nos afastam bem mais. Por exemplo, David Rowling e eu somos jornalistas e apreciamos vinho. No entanto, o protagonista escolheu a carreira por vocação. Eu me tornei um jornalista acidental após desistir da faculdade de Física. O Jornalismo me aproximou dos vinhos tardiamente, quando me tornei especialista no nobre fermentado. David é um aristocrata inglês e cresceu provando os melhores rótulos que o dinheiro pode comprar. Já em relação ao padre, temos algo em comum: ambos somos católicos.

CdL: Há menção textual ao livro O Código da Vinci no livro. Acredita que sua obra pertença ao nicho alargado pelo best seller? Por quê?

Na realidade, há uma brincadeira com o nome do best-seller de Dan Brown. A repórter Mary está lendo O Enigma Michelangelo quando é surpreendida pelo seu chefe. David Rowling é um leitor de clássicos e brinca com sua subordinada sobre seu gosto literário. Como foi apontado na crítica do blog, A Outra Face de Deus tem semelhanças – e diferenças – com a obra-prima de Dan Brown. Entre as primeiras, uma página inicial com fatos verídicos transportados para a ficção, capítulos curtos com cortes em pontos-chave e, consequentemente, um ritmo veloz. Desse ponto de vista, a obra pertence ao nicho alargado pelo norte-americano.

CdL: Qual impacto da publicação do livro, passado um ano de seu lançamento? Como reagem os leitores e a crítica? De alguma maneira essas reações irão interferir nos outros livros da trilogia?

Recebo muitas mensagens de leitores, seja pela minha fanpage do Facebook, seja pelo Fale Conosco do meu site. Reservo um tempo para ler e responder a todas elas. Há os que se apaixonam pela história e cobram a continuação. Um leitor chegou a ingressar na faculdade de Jornalismo inspirado pelo protagonista de A Outra Face de Deus, David Rowling. Também há leitores críticos. Para mim, tanto suas considerações – como a de críticos profissionais – são fundamentais para a sequência de A Outra Face de Deus. O escritor deve procurar aprimorar sempre seu trabalho. E fará isso na medida em que agradar, cada vez mais, seus leitores e, claro, aumentar seu público. Mas deve fazer isso respeitando seu estilo.

CdL: Na sua opinião, a literatura de gênero deve ser analisada e avaliada dentro de seus nichos específicos ou deve ser comparada ao trabalho de autores canônicos?

Há dois níveis de análise. Em um primeiro momento, a obra deve ser avaliada dentro de seus nichos específicos e comparada com outras do mesmo gênero. Esse tipo de análise é a que mais interessa aos leitores. Se alguém é aficionado por ficção científica, por exemplo, quer saber de que maneira os títulos que chegam ao mercado se assemelham a outras obras já consagradas do gênero. Em um nível acadêmico, a literatura de gênero deve ser comparada ao trabalho de autores canônicos. Muitos estudiosos brasileiros ainda têm preconceito em relação aos romances policiais, para citar um gênero. Recentemente, a inglesa P.D. James foi entrevistada por vários veículos brasileiros. A revista Época, por exemplo, indagou: “A senhora sempre se esforçou para elevar a literatura policial. Acha que colaborou na união da arte culta com a literatura policial?”

A resposta da autora é genial: Literatura policial, não. Literatura, por favor! Esse foi sempre meu desejo, mostrar que a narrativa de mistério deve ser valorizada como obra literária. Eu já disse uma vez que uma história de mistério de primeira classe tem de ser literatura de primeira classe…”. Ou seja, toda história de primeira classe deve ser avaliada como literatura de primeira classe, independente do gênero.

CdL: Qual a sua percepção sobre a crítica literária no Brasil em relação aos livros de temas como fantasia, mistérios, thrillers e afins?

Ainda há muito preconceito da crítica especializada brasileira em relação a esses temas. Posso dizer isso com segurança, pois já trabalhei como crítico literário (na IstoÉ Gente) e me relaciono com vários jornalistas especializados. Geralmente, as obras nacionais são ignoradas e as obras internacionais recebem destaque apenas quando se tornam best-sellers no exterior. Graças a esse “empenho” da mídia, muitos bons autores brasileiros estão fora do mercado editorial. E os que estão não recebem a merecida atenção de seus possíveis leitores.

CdL: Você estudou demonologia, ciências ocultas e percorreu vários santuários cristãos do mundo. Sendo os temas espirituais algo de seu profundo interesse, o que acha que um bom livro com essa temática (ainda que de pano de fundo) deve ter para não cair na mera doutrina e/ou pregação?

Acima de tudo, um bom autor. G.K.Chesterton foi um dos maiores escritores de seu tempo e influenciou autores como Ernest Hemingway, laureado com o Nobel. Seus romances não se assemelham a pregações. Ele era um católico devoto, mas suas ideias religiosas não amarravam sua imaginação. Quando ele queria debater sobre o tema, escrevia livros de não-ficção, como Ortodoxia. Outro exemplo: o badalado J.R.R.Tolkien. Ele reinventou a fantasia e é parâmetro para os atuais escritores do gênero. O que poucos fãs sabem é que ele frequentava a missa toda semana.

CdL: Você trabalha com jornalismo há bastante tempo. Qual a diferença de encarar uma folha em branco como repórter e como ficcionista? Qual te desafia mais e qual te agrada mais?

Acredito que o Fábio Farah jornalista foi um degrau necessário para revelar o F.T.Farah ficcionista. A experiência em uma redação, primeiro como repórter, depois como crítico e, finalmente, como editor, aprimorou a habilidade para escrever uma boa história. E editá-la. Não é raro exemplos de escritores que se formaram em redações. Alguns, revolucionaram a história da literatura. Talvez um dos mais notáveis – e um dos que mais aprecio – seja o norte-americano Ernest Hemingway. Seu estilo foi forjado em uma redação. Pessoalmente, me sinto mais desafiado a criar histórias do que a reportar a realidade. Por isso, me agrada mais o ofício de ficcionista.

CdL: Tendo trabalhado na revista de celebridades IstoÉ Gente, você entrevistou muita gente famosa. Se pudesse escolher um(ns) personagem(ns) de ficção para entrevistar, qual(is) seria(m)? Por quê? Qual(is) pergunta(s) faria?

Gostaria de entrevistar vários personagens. Mas colocaria dois nos primeiros lugares. Talvez propusesse a eles uma entrevista simultânea: Dorian Gray e Fausto. A pergunta principal: “Se tivessem a chance de reeditar o contrato com o ‘tinhoso’, qual cláusula acrescentariam?”.

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Por Alberto Nannini

a outra face de deusNas livrarias, tenho o costume de procurar pelos lançamentos de escritores nacionais menos divulgados. Quando a temática me interessa, compro o livro.

Confesso que nem sempre consigo terminar a leitura. Ou porque o livro não me “prendeu” o suficiente, ou porque não é o momento de se ler aquele livro em específico. Por outro lado, li livros interessantes, de autores novos, como Nelson Magrini (Anjo – a face do mal), que me lembro de imediato, e também F.T. Farah e o seu A outra face de Deus.

Romance de estréia para o público adulto, é um livro de fôlego – mais de 500 páginas, numa trama que lembra o famoso Código Da Vinci, de Dan Brown. Basicamente, a história fala sobre a vinda do anticristo e a realização do apocalipse, e de como um padre exorcista italiano e um jornalista inglês correrão para evitá-lo. Diversas citações bíblicas são utilizadas, e também magia, demonologia, evangelhos apócrifos e outros correlatos.

Porém, ainda que haja semelhanças com o bestseller (inclusive com citações diretas dos personagens a ele), o autor traça um caminho diferente, e com isso, consegue alguns méritos e comete alguns pecados.

Dentre os tais “pecados” cometidos no livro como um todo, o mais sentido é a prolixidade – haveria bastante coisa para se enxugar, e deixar a narrativa mais ágil. Citações bíblicas literais, como o surgimento do dragão de sete cabeças e dez chifres, são um recurso até cabível pelo enredo – mas o autor repete diversas vezes que aqueles que conseguiam ver a criatura “contou sete cabeças e dez chifres”. Uma descrição mais vívida uma única vez do tal dragão (em qual cabeça estariam os chifres extras? Há simetria, não há?…) e o resgate desta descrição surtiria melhor efeito. Ou mesmo o pânico que o personagem experimentaria ao ver o monstro e descrevê-lo como algo “com um monte de cabeças e chifres” soaria bem.

Outro ponto a se melhorar: os diálogos. Não achei nenhum deles muito bem lapidado; no máximo, não comprometiam. Porém, alguns estavam bem aquém do desejado, com adjetivos e descrições fracas do estado de ânimo dos personagens.

Sobre o perfil psicológico desses, até foi delineado, embora esbarrem um pouco na caricatura. É verdade que os protagonistas tem suas ambiguidades, mas a sensação que tive ao ler o livro foi de que eram um tanto bidimensionais, planos. Em nenhum momento me pareceram “esféricos”, múltiplos e quase reais. Num livro de mais de 500 páginas, isso poderia ter sido melhor trabalhado.

Sobre os pontos positivos, destaco a fórmula encontrada para encadear as tramas que corriam paralelas, e se encontravam constantemente: capítulos bem curtos, de duas páginas, e mudança constante para outra trama. Foi um recurso interessante, que precisa ser utilizado quando há diversos personagens e algumas tramas que não se encontram (um caso magistral para exemplificar é o Cidade de Deus, de Paulo Lins), mas que é opcional no caso de um núcleo mais enxuto. Se não fosse esta escolha, acredito que a leitura teria ficado extremamente cansativa.

Outro mérito é o extenso trabalho de pesquisa que se percebe. Este livro mostra ter sido o trabalho de uma vida inteira levantando dados e informações. Todas as partes que relatam fatos históricos ou que utilizam elementos, personalidades ou fatos reais, são convincentes. A ambientação é outro ponto alto: o autor demonstra conhecer os lugares que descreve, e novamente remetendo à Dan Brown, as localidades são quase personagens da trama. Mesmo as bebidas (o autor é enófilo) e as vestimentas dos personagens seguem um padrão verossímil, embora as descrições sejam por vezes repetitivas.

Talvez o maior mérito tenha sido a coragem de publicar. Segundo verifiquei, o livro estava pronto desde 2009, mas o autor enfrentou dificuldades para encontrar uma editora que se dispusesse a apostar, até encontrar a editora Rai, que abraçou o projeto. Este tipo de livro, que reúne tanta pesquisa, acaba sendo “adiado” pelos autores, que muitas vezes esperam maior apuração de dados, ou uma melhor montagem da história, ou ainda, uma boa oportunidade de publicação, o que resulta, muitas vezes, em projetos engavetados. Mas Farah o publicou, e a obra, ainda que com algumas ressalvas, não faz feio.

Por último, não tanto sobre os méritos literários em si, mas sobre a impressão que a história me causou – eu esperava um pouco mais. Adoro a temática ligada aos evangelhos apócrifos e à dualidade Deus-diabo, e criei uma expectativa que me atrapalhou um pouco. O desfecho também me pareceu “morno”. Há uma reviravolta até interessante, enquanto uma outra de um personagem secundário me pareceu fora do tom. A conclusão me lembrou o filme Advogado do Diabo, com Al Pacino e Keanu Reeves, e deixou um ar de continuação a vista (procede: o autor disse que imagina uma trilogia, e já tem o 2º livro esboçado). De qualquer forma, li o livro em poucos dias, e espero que ele esteja fazendo sucesso, e que Farah continue publicando – se possível, sanando estas ou outras críticas, para que seu trabalho resulte em algo mais prazeroso e bem acabado.

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