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Posts Tagged ‘fantasia’

Por Fred Linardi

PEIXE_GRANDE_1293121765PTendemos a imaginar que a fantasia está se enfraquecendo. O mundo se tornou chato, dizemos também. As histórias infantis, em especial os livros clássicos, são um campo minado prestes a explodir na primeira análise dos fiscais do politicamente correto. Tira-se do contexto de época e de repente Monteiro Lobato se torna perigoso para nossa frágil moral. E então, no mundo de hoje, com crianças precocemente adultas, a impressão que temos é essa, a de que o mundo da fantasia vive num arriscado limiar.

Tanto a literatura quanto o cinema encontram um grande apelo comercial quando a história prestes a ser lida ou assistida se trata de uma narrativa inspirada numa vida real. Parece que as horas investidas na poltrona encontrarão mais sentido do que se a história em questão fosse meramente ficcional (como se isso fosse simples, como se a inventividade tirasse a autenticidade de uma vida inventada). E então, no entanto, nos lembramos do que há de real numa ficção e do que existe de universal em qualquer história tirada da imaginação.

No final, o que se extrai tanto de uma literatura quanto da outra é o que de há de humano, o que move o leitor na história. Ao cabo, chegamos à conclusão que não esgota o ciclo dessa questão, de que a fantasia jamais vai perder seu espaço, mesmo num mundo chato como ele se apresenta.

Peixe grande, de Daniel Wallace, é uma prova disso. Trata-se de um pequeno livro, uma história sobre a vida de Edward Bloom, que se encontra agora no leito de morte. É seu filho, William, que narra a história intercalando com diferentes momentos dessas horas do fim da vida com as extraordinárias passagens que ouviu sobre o passado do pai. Ouviu-as do próprio Edward, mas também as complementações e variações dos fatos que amigos e estranhos contavam sobre aquele homem sem igual. Dessa forma, o conhecido e mitológico pai está se esvaindo diante de um filho que, na verdade, pouco lhe conhece.

As inúmeras histórias, que se parecem mais fábulas que os adultos contam para entusiasmar as crianças, parecem não preencher o vazio que o filho sente em relação à ausência deste pai que tanto viajou durante a infância e juventude de William. De espírito aventureiro, não conseguiria jamais viver entre as paredes da casa, repletas das previsíveis coisas da vida.

Toda pergunta ou observação do filho sobre o pai, nos derradeiros diálogos antes da morte, ainda levam Edward a se lembrar das anedotas das quais ele teria participado e protagonizado ao longo de sua vida. William se irrita o tempo todo, pois, de tanto ouvir tantas histórias diferentes, sofre por nunca saber de fato quem havia sido seu pai além daquelas histórias deslavadamente inventadas, mesmo que tivessem realmente acontecido – sim, há um jogo de confusão e realidade digna de mestres contadores de histórias.

Mas acontece que o tão carismático e adorado-por-todos é um Edward que vive e morre como todos os seres humanos. Sua figura é imperfeita, mas escolheu contar ao filho os melhores pedaços de sua história. “Não importa; a história está sempre mudando. Todas as histórias mudam”, escreve o narrador em dado momento do livro. E o que fica é o que sabemos enxergar dela. O final redentor da relação entre pai e filho prova que a vida é grande, maior do que aquilo que escutamos e queremos acreditar. Maior do que nos contam ou do que ouvimos.

Vale dizer que o livro, adaptado para o cinema em 2003 pelo diretor da fantasia, Tim Burtom, teve muitas modificações em seu roteiro, com uma série de elementos e personagens criados para a tela. Dessa forma, o leitor de Peixe Grande tem contato com essa história a partir da inventividade própria do autor Daniel Wallace que, além de escritor é também ilustrador. A única frustração é que a edição do livro não conta com seu trabalho como desenhista, o que poderia contribuir muito com a riqueza deste trabalho. De qualquer maneira, suas palavras são o suficiente para ilustrar a mais árida das imaginações.

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eduardo-spohrHá uma clara divisão na literatura nacional. Enquanto a maior parte dos escritores se desdobra para que a venda de seus livros atinja o milhar, alguns raríssimos podem se gabar de centenas de milhares (ou até mais de um milhão) de exemplares vendidos. Muitos desses bestseller pertencem ao nicho da literatura fantástica, como é o caso do carioca Eduardo Spohr, autor de A batalha do Apocalipse, Filhos do Éden: herdeiros de Atlântida, Protocolo bluehand: Alienígenas ,Filhos do Éden: anjos da morte e A torre das almas e editor do blog Filosofia Nerd. Amado por milhares (ou milhões?) de fãs, defendido por Paulo Coelho e sustentando que a literatura deve ser analisada com o coração, Spohr falou com o Canto dos Livros. 

Canto dos Livros: Sobre seu primeiro trabalho, A batalha do Apocalipse, você já declarou que, devido à dificuldade em encontrar informações concretas durante a pesquisa, teve de criar uma “mitologia própria”. Tolkien talvez tenha sido o escritor que melhor desenvolveu este trabalho, criando um universo completamente novo. Quais foram as dificuldades encontradas nas pesquisas? Como foi criar uma mitologia própria? Em quais pontos foi bom ou ruim não ter algum embasamento prévio?

Eduardo Spohr:  Foi longo, porém mais fácil dos que as pessoas pensam porque eu já jogava RPG dentro desse universo, e tive anos para desenvolvê-lo. Então, a coisa aconteceu de forma orgânica e gradual. Quando comecei a escrever A batalha do Apocalipse, já tinha praticamente tudo pronto. O mais difícil, acredito, é manter a coerência com as “regras” estabelecidas para esse universo fantástico.

CdL: É comum vermos você falando de mitos. Conte-nos um pouco sobre a sua relação com a mitologia, com a obra de Joseph Campbell e o impacto que isso tem na sua escrita.

ES: Quando eu conheci Campbell, já tinha escrito o meu primeiro livro, mas o curioso foi ver que tudo o que ele falava, eu já tinha aplicado nas minhas histórias. Então, estudando mais sobre as teorias dele, eu entendi o porquê e comecei a desconstruir todo o processo.

CdL: Flertando com Campbell, de que forma um personagem deve ser construído para que desperte emoção no leitor?  Quais seus personagens mais amados? E os mais odiados?

ES: Bom, acho que acima de tudo o personagem deve ser crível. Como fazer isso? Cada escritor deve encontrar o seu caminho. No meu caso, não tenho personagens mais amados ou odiados. São todos como filhos (risos).

CdL: De que forma você enxerga a tradicional personificação do mal, na figura de um adversário – Diabo, Satã, Lúcifer ou equivalente? Sobre a responsabilidade do mal cometido pelos e sobre os homens, a quem ela recai?

ES: É uma forma de ver as coisas. De fato o mal existe dentro de nós, assim como o bem. Está nas nossas mãos escolher o que fazer: o certo ou o errado, geralmente sendo o errado mais tentador. Metaforicamente é uma alegoria poderosa.

CdL: Suas crenças religiosas ou espirituais interferiram na escrita de seu livros ou a escrita de seus livros interferiram em suas crenças?

ES: Não. O livro é 100% ficção, não há nada relacionado com as minhas crenças ou algo do tipo.

CdL: Além de livros, você produz bastante conteúdo das suas histórias em outros formatos, como podcasts e textos no blog. Como esses formatos te ajudam a construir sua obra e envolver os leitores?

ES: São materiais diferentes, na verdade. Não acho que exista grande influência dos podcasts, por exemplo, nos meus livros.

CdL: De que forma a interação online com seus mais de 30 mil fãs no Facebook e mais de 50 mil seguidores no Twitter exerce impacto na sua obra?

ES: Eu sempre fico de olho no que os leitores falam, e escuto suas críticas. Isso tem me ajudado muito a melhorar, tenho certeza.

CdL: Você demonstra desejo de compartilhar sua experiência como escritor aos novos talentos. Há, inclusive, um post no seu blog com inúmeras referências, podcasts e vídeos sobre o assunto. O que te motiva a estimular a nova geração? Quais foram seus maiores professores na profissão?

ES: Eu acho um barato que a galera curta meus livros e o meu trabalho. Então, quando me fazem perguntas sobre como escrever, eu tenho o maior prazer em ajudar, daí eu ter feito esse post. Meu principal mentor creio que foi o escritor José Louzeiro, uma pessoa que admiro muito.

CdL: Num mundo cada vez mais racional, pelos avanços da ciência e do conhecimento, a literatura de fantasia tem hoje um papel diferente do que tinha antes?

ES: Não. Acho que é o mesmo. O papel de reconstruir a nossa sociedade e nós mesmos de forma metafórica.

CdL: Você esteve na Feira de Frankfurt este ano. O que achou da participação do Brasil no evento e como encarou todas as polêmicas que a cercaram, principalmente a lista de autores levados pelo governo e o discurso do Luiz Ruffato na abertura?

ES: Frankfurt é muito corrido. É uma reunião atrás da outra, com editores, agentes, etc. Confesso que nem tive tempo de parar e nem de pensar nas polêmicas. Estava totalmente concentrado em apresentar meu trabalho aos editores internacionais. Vamos torcer para que dê certo.

CdL: Como é a receptividade das editoras internacionais pela literatura de fantasia brasileira? O país de origem influencia no interesse dos editores? 

ES: Creio que dependa do caso. Nos lugares onde meu livro já saiu (Alemanha, Holanda e Portugal), a recepção foi bem legal.

CdL: É nítido o amadurecimento no seu texto desde o primeiro trabalho até o mais recente, Filhos do Éden: Anjos da Morte. Além da evolução como escritor, o que acha que mudou nesse tempo? Como a mudança tem sido recebida pelos leitores?

ES: Muito obrigado. Bom, claro que eu tenho tentado melhorar. Os leitores parecem estar curtindo também, pelo feedback que estão me dando.

CdL: Sobre sua evolução, você já declarou que precisava melhorar nos diálogos. Esse é um dos pontos cuja diferença pode ser percebida se compararmos o seu primeiro e o terceiro romance. Para você, qual a importância desse recurso dentro do todo? Em que exatamente e quanto acha que melhorou nesse sentido? 

ES: Muito importante. É o diálogo que dá vida aos personagens. Não só ele, mas é uma parte importante, acredito. Eu não posso dizer que melhorei (isso é para o leitor avaliar), posso dizer apenas que me esforcei para tentar melhorar.

CdL: Sua obra alcançou um grande público no Brasil, tornando-se um bestseller. Você faz parte também da coletânea de contos Geração Subzero, que reuniu autores “esquecidos pela crítica”. Afinal, não estar nas críticas da grande imprensa faz falta para você? Qual é a real importância destas críticas?

ES: Para mim é mais importante a crítica do leitor. Mas acho que toda crítica, quando feita com respeito, é válida e nos ajuda a evoluir.

CdL: Na sua opinião, um livro deve ser analisado dentro do seu nicho específico ou comparado com tudo o que compõe a literatura? Em outras palavras, uma obra de fantasia deve ser analisada tendo somente Tolkien como parâmetro ou podemos colocá-la ao lado de Graciliano Ramos, por exemplo?

ES: Acho que deve ser analisado com o coração. Pelo menos eu faço isso, enquanto leitor. Obviamente, os críticos discordariam.

CdL: Levando em conta toda a literatura brasileira contemporânea, como sua obra se situa nela?

ES: Para mim, é difícil fazer essa auto-avaliação. Prefiro que o leitor o faça.

CdL: Fazendo um exercício de futurologia, daqui cem anos, quais dos escritores brasileiros atuais continuarão sendo lidos? Por quê?

ES: Impossível dizer. E qualquer resposta seria errada. Prefiro não arriscar (risos).

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nelsonNão é raro alguém enxergar um escritor de fantasia como um sonhador, que tende a ver implicações metafísicas em todos os cantos. Claro que muitos autores justificam esse estereótipo, mas não é o caso de Nelson Magrini. Engenheiro Mecânico, estudioso e pesquisador em Física, com ênfase em Mecânica Quântica e Cosmologia, professor e consultor de Gestão Empresarial e Logística, exerce carreira profissional no Brasil e nos países do Mercosul. Responsável por projetos de inclusão e cidadania, agente literário, revisor, copidesque e autor de livros como Anjo a face do mal, Ceifadores – Anjo a face do mal II, e Relâmpagos de Sangue, além de participante de coletâneas de contos, é um escritor estabelecido no seu segmento. Escreve (preferencialmente) fantasia, mas, na entrevista que concedeu ao Canto dos Livros, mostra pés solidamente calcados ao chão e uma lógica que nada tem de fantasiosa. 

Canto dos Livros: Você buscou na escrita uma alternativa às consultorias que prestava como engenheiro. Dez anos depois dessa mudança profissional, é possível dizer que a estratégia compensou? Por quais motivos?

Nelson Magrini: Antes de tudo, meu agradecimento a toda equipe do Canto dos Livros por esta oportunidade. Em relação à questão, é necessário entender que essa alternativa sempre foi vista em longo prazo. Assim, treze anos depois que decidi me tornar escritor e nove anos depois de ter publicado meu primeiro livro, Anjo – a face do mal, a estratégia funcionou no sentido de ser um escritor relativamente conhecido, de fazer parte da história da literatura fantástica nacional e, mesmo, de ser um dos expoentes da fase, digamos, contemporânea ou atual, de ter contribuído para esse novo início e desenvolvimento. Contudo, em se tratando de ser um “autor de sucesso”, creio que falta me tornar ainda mais conhecido, abrangendo, desta feita, o grande público e, é claro, ser financeiramente recompensador. Apesar de todas as batalhas, lutas e triunfos dos mais diversos, o sonho de viver exclusivamente de escrever livros ainda permanece por alcançar. Mas seguramente não foi abandonado.

CL: O raciocínio lógico da engenharia influencia na escrita dos livros? 

NM: Tenho certeza que sim, muito embora possa passar despercebido para mim. Penso que até como se manifesta minha criatividade é de uma maneira lógica, embora tudo comece com um insight, normalmente uma imagem ou cena. E apesar de não gostar de traçar linhas gerais e deixar a imaginação correr solta, ainda assim vejo uma estruturação lógica por detrás de meus projetos.

CL: Você é estudioso e pesquisador em Mecânica Quântica e Cosmologia. Há um movimento que utiliza a mecânica quântica e algumas de suas particularidades para iluminar questões metafísicas, como na obra do indiano Amit Goswami e outros, que puderam ser vistos no filme Quem somos nós?. Já o americano Brian Greene enfatiza mais o estudo da mecânica quântica para aplicação em teorias científicas. Para qual lado pende os seus estudos?

NM: Eu pendo totalmente para o único lado verdadeiro da Mecânica Quântica (MQ), ou seja, o lado de Brian Greene. De fato, até existe possibilidades de se utilizar a MQ para clarear ou nortear certas questões metafísicas, mas estas se encontram no domínio da Filosofia, tipo a natureza da realidade, onde se discute muito o Realismo, o que ele significa, se é possível mantê-lo como visão de mundo, etc. Contudo, sou bastante enfático e contrário ao que Goswami e outros fazem, onde a MQ é chamada a suportar qualquer tipo de crendice sem nenhum fundamento científico. Aliás, a MQ jamais deu qualquer validade a questões espirituais e similares, embora um número bem grande de pessoas pareça necessitar que algo assim ocorra, como sustentando seus pensamentos e fé. Nesse sentido, Goswami e outros são apenas pessoas que escrevem tendo como alvo um público bastante específico, onde o intuito do lucro fácil é mais que claro. Perceba que, apesar da propaganda que os meios interessados fazem, Goswani, por exemplo, apesar de ser um físico, nunca publicou um trabalho sequer em Física de verdade e que fosse pioneiro. Apesar do marketing de que ele “calou os críticos por meio de várias publicações técnicas a respeito de suas teorias”, a pergunta é: quais publicações técnicas? Chamar seus livros de publicações técnicas é uma piada! Goswami sequer responde ao simples desafio de mostrar nas equações da MQ quais termos representam aquilo que ele afirma. Por que não o faz? Porque simplesmente os termos não representam nada do que ele prega, simples assim.

Vale lembrar que livros desse tipo, ou filmes como Quem somos nós?, são conhecidos no meio científico como charlatanices, e é uma pena que poucos físicos sérios tenham tempo para expor e denunciar esse tipo de divulgação.

CL: Como você enxerga a receptividade dos jovens para as narrativas fantásticas hoje em dia, quando a aridez do mundo adulto parece contagiá-los de forma tão prematura?

NM: Penso que a receptividade ocorra exatamente pelo fato do mundo adulto ser tão árido. Apesar do contágio prematuro, cada vez mais enfático, existe no jovem (e não só) aquela vontade de poder desligar do mundo real, mesmo que por algum tempo, onde a imaginação volta a correr solta. Possivelmente, em uma sociedade cada vez mais dura, a fuga momentânea venha a ser vista como mais um modo das pessoas combaterem o stress. Talvez, em um futuro não muito distante, pessoas com tal perfil sejam vistas como portadores de uma habilidade valiosa. Algo assim não me espantaria.

CL: É correto afirmar que sua obra é segmentada ao nicho de fantasia?

NM: De modo geral, sim, embora o termo mais abrangente seja literatura fantástica. Eu escrevo, basicamente, tramas de mistério, suspense e terror, sempre incorporando um ou mais elementos fantásticos. Contudo, embora notadamente uma literatura de entretenimento, sempre que possível e dentro do contexto, ou seja, pertinente à trama, gosto de fazer meus leitores pensarem, questionarem, e tal pode se dar em relação a temas bem mais realistas. Mas no fundo, como sempre digo, minhas histórias são para divertir, para que os leitores passem umas boas horas vivenciando o mistério e o suspense, e, se possível, que pulem de susto!

CL: O livro Anjo – a face do mal tem personagens pertencentes a diversas mitologias, inclusive do panteão afro-brasileiro. Há alguma intenção ou mensagem na utilização deles?

NM: Não necessariamente uma mensagem, mas a intenção foi exatamente utilizar uma mitologia extremamente rica e, por que não dizer, famosa no Brasil, e que nunca foi, ou é muito pouco explorada em livros de aventura e entretenimento. O mais interessante é que, ao se pesquisar ou estudar a respeito desse panteão, deparamo-nos com personagens (entidades) com personalidade própria e que podem ser muito explorados. Curiosamente, recebi alguns comentários negativos em relação ao uso desses personagens, comentários que transpareciam certo preconceito, como se fosse normal se falar em anjos ou mesmo demônios, mas que não era de bom tom tratar de “entidades” usadas em macumba! Mas foram muito poucos, e penso que a maioria dos leitores gostou da maneira como edifiquei tais personagens.

CL: O deus retratado na obra lembra muito o demiurgo de que fala a gnose e presente em alguns dos evangelhos apócrifos. Quais leituras fez antes de começar a escrever?

NM: Curiosamente, em relação a deus, nenhuma. Mesmo em relação a Lúcifer, um personagem marcante da obra, não fiz nenhuma pesquisa específica, muito embora, ao longo de anos, já havia lido muito a respeito, e até mesmo participado de um grupo de estudo sobre o assunto, De qualquer modo, antes mesmo de iniciar o projeto, eu já tinha muito bem definido as características de tais personagens, e se tais características são similares às apresentadas em determinadas doutrinas ou linhas de pensamento, isso se deve a mera coincidência.

CL: Ainda sobre Anjo – a face do mal, o protagonista da obra, Lúcifer, é apresentado de forma bastante original e guarda poucas semelhanças com a mitologia cristã. Dois autores consagrados fizeram o mesmo com o personagem: Neil Gaiman, em Sandman, e Saramago em, O Evangelho segundo Jesus Cristo. Eles o influenciaram? Quais autores o inspiram?

NM: Em se tratando de Lúcifer, eu já conhecia e admirava o personagem de Gaiman, mas não tive contato com o de Saramago. Independente disso, eu já tinha a minha visão muito bem estruturada e já sabia o que queria de meu personagem, então não penso que tive qualquer influência literária mais direta.

Já em relação a autores que me inspiram, são muitos, desde Isaac Asimov e Arthur Clark, quando lia muita ficção-científica, até mais contundentemente Stephen King e Dean Kootz, mestres do terror moderno, terreno que mais gosto de trabalhar. Mas vale lembrar que esses são apenas alguns nomes. Eu devorei tantos livros durante minha vida inteira que seguramente muitos me influenciaram, mesmo que não me recorde dos nomes hoje em dia.

CL: Como seu trabalho conta com influências de narrativas mitológicas, você chega a se inspirar na estrutura da Jornada do Herói, conceituada por Joseph Campbell e, mais adiante, remodelada por Christopher Vogler?

NM: Pode até ser que em parte sim, mas é totalmente inconsciente, ou seja, não é algo intencional. Penso que muito da Jornada do Herói já se instaurou na mente de qualquer leitor voraz, exatamente por devorar milhares de tramas onde tal característica é destacada, e seguramente, isso resgata à mente quando se compõe uma história. Mas nunca me preocupei com tal questão a ponto de estudar a respeito e aplicá-la de maneira consciente e proposital em meus textos.

CL: Que tipo de retorno tem obtido dos fãs e da crítica com respeito a seu trabalho?

NM: Os fãs, de modo geral, me trazem uma resposta muito gratificante. Críticas ou comentários negativos são bastante raros, tendo a esmagadora maioria dos leitores gostado muito de meus livros. Em relação à crítica, seja em blogs ou veículos mais especializados, também sempre foram muito positivas, o que me mostra que estou no caminho certo.

CL: Como você observa a relação entre a literatura fantástica e a crítica literária?

NM: Se considerarmos como crítica literária a chamada crítica especializada ou profissional, a relação não é nada boa, com raras exceções, principalmente se nos restringirmos aos autores nacionais. Aliás, em relação à esmagadora maioria desses últimos, nem dá para falar que os críticos falam mal; eles simplesmente os ignoram. Até entendo que ainda existe muitos autores amadores nesse segmento, mas também tem muita gente boa que já está presente há anos, têm presença no meio, inúmeros fãs e, ainda assim, é praticamente nula a atenção da crítica.

CL: O cenário de literatura de fantasia no Brasil está consolidado?

NM: Sem dúvida. É um nicho que não para de crescer em termos de leitores, bem como, onde a todo mês surgem novos nomes. Obviamente, ele necessita uma maior estruturação e atenção por partes das editoras, principalmente as chamadas grandes, com destacada penetração no mercado.

CL: Qual influência autores estrangeiros, como Anne Rice e Stephanie Meyer, exercem sobre o mercado nacional?

NM: Autores estrangeiros de sucesso seguramente influenciaram e influenciam toda uma geração, ainda mais com o aporte de marketing com que tais títulos chegam ao país. Antes mesmo de ser consumido pelos leitores, estes já são despertados para o novo Big 1 que está chegando. Uma vez que, na sua esmagadora maioria, os novos (assim como os velhos) escritores são leitores vorazes e compulsivos, é óbvio que estes terão uma influência muito grande, não só das duas escritoras citadas, mas de vários outros. Como qualquer influência, se o novo escritor não souber dosar e procurar seu próprio estilo e caminho, ela poderá vir a ser muito negativa.

CL: Indo um pouco além, na sua opinião, qual papel a fantasia tem hoje no mundo?

NM: Penso que o mesmo que sempre teve: divertir as pessoas e levá-las a um mundo de faz de conta por um tempo. Talvez, o que se vê hoje em dia seja uma maior e mais rápida disseminação de determinados universos de fantasia, que acabam virando moda, com milhares de seguidores. Nesse sentido, pode-se ter a impressão de que a fantasia tem uma maior influência na moldagem do mundo e, mesmo, de certos convívios sociais, mas creio que a maioria que curte tais aventuras saiba diferenciar entre a realidade e o imaginário. Existem extremos? Sem dúvida, mas não creio que sejam percentualmente representativos.

Como já comentei, vivenciar por um período a literatura de fantasia pode vir a ser encarada, em um futuro não tão distante, como uma forma de se combater o stress de uma sociedade cada vez mais competitiva e exigente. Por fim, vale lembrar que a indústria de entretenimento fatura bilhões de dólares por ano. Seguramente, isso diz alguma coisa sobre a natureza humana.

CL: Em entrevista ao blog Fontes da ficção você fala dos problemas que acontecem em diversos setores da cadeia editorial. Como autor, qual a melhor maneira de ajudar a solucionar esses ou parte desses problemas e alavancar as vendas de um livro?

NM: Taí uma muito boa pergunta , mas de difícil resposta. O Brasil não é diferente de outros países onde, uma editora, assim como qualquer empresa, visa e necessita obter lucro para prosperar e se manter no mercado. Contudo, aqui falta uma função que lá fora é executada em larga escala, seja através de agentes literários (refiro-me a profissionais sérios e capacitados, aquele que investe no talento, uma figura que faz extrema falta por aqui) ou dos próprios editores. No geral, o editor nacional ou não aposta no escritor brasileiro ou aposta pouco. E pior, se contenta com pouco. Se um autor vende 3 mil, 5 mil cópias de um título, e esse é seu montante constante a cada novo lançamento, está ótimo (não me refiro a autores que já se consagraram e conseguem, com o passar do tempo, vender bem acima desses números). Eles investem um tanto nesse nome e obtém um certo retorno. Vale dizer que 3 ou 5 mil exemplares de um título está extremamente acima do que a maioria vende em um lançamento, cujas tiragens variam de mil a 3 mil exemplares para editoras que não trabalham sob demanda.

Contudo, falta aquele que verá um autor com uma venda pobre, mas que vê o talento que ele possui, ou seja, que enxerga que, se (bem) trabalhando, ele venderá 10, 15, 20, 50 mil exemplares ou mais. Porém, para isso, além de se ler a obra desse autor promissor, tem-se que investir, e aí a coisa complica. O que falta aqui é esse apostador no talento, que esteja disposto, como em qualquer tipo de negócio, diga-se de passagem, a colocar dinheiro para ganhar muito mais. Um autor bom vende bem; torne-o muito mais conhecido que ele venderá muito mais. Basta um conhecimento básico de marketing para saber que essa relação não é linear. Se fosse, o mundo jamais seria o que é hoje e jamais se investiriam bilhões nesse campo.

Como eu disse, é uma pergunta bastante complexa de se responder e o descrito acima é apenas um ponto. Seguramente, existem muitos outros.

CL: Na entrevista acima citada você também diz não possuir nenhuma influência literária nacional. Continua não tendo? Por quê?

NM: Basta ver as influências que citei acima. Eu lia todos eles na minha adolescência e nos anos seguintes. Naquela época, dentro do segmento que eu adorava, ficção-científica e, depois, terror, inexistiam autores nacionais ou eram desconhecidos. Lembro-me de ter lido um ou dois contos do André Carneiro, mas nem me recordo onde. Se hoje, o autor nacional de literatura fantástica tem como divulgar seu trabalho na Internet e ficar mais conhecido do público, naquela época era praticamente impossível. Pelo menos, eu nunca ouvi falar de nomes que publicavam nessa linha. Pensando bem, imagino que tenha até lido autores brasileiros nesse segmento, mas eles (ou as editoras) publicavam com pseudônimos estrangeiros.

Então, nesse cenário, nunca me identifiquei com algum nome que viria a acompanhar, como Stephen King, por exemplo, e que seguramente iria me influenciar. E, de fato, continuo não tendo, talvez porque agora sejamos todos contemporâneos. Isso não significa que não possa aparecer algum autor nacional e que venha a exercer influência em minhas obras futuras, mas por enquanto não existe.

CL: O que é um livro de sucesso?

NM: Um livro de sucesso é aquele que apresenta uma trama instigante, daquelas que prende o leitor da primeira à última página, que o faz pensar em determinados momentos da história, que o faz sentir saudades dos personagens e lamentar o término do livro. Também precisa ser bem escrito, com um português, no mínimo, elegante, variado. Um livro de sucesso tem tudo isso, mas isso tudo, por si só, não garante sucesso algum. Ele também tem de ser bem trabalhado pela editora, o autor ser promovido, seja por esforço próprio, como pela editora, em um esquema que gere real penetração no mundo dos leitores, tornando o título conhecido, bem como seu autor. Vale lembrar que um trabalho bem feito faz a editora ser reconhecida, o que leva leitores a observar com mais cuidado os títulos de seu catálogo.

Em se conseguindo isso, o retorno é garantido.

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Eric Novello é o tipo de cara que faz trocentas atividades diferentes, mas todas elas ligadas por um mesmo fio: o das letras. Além de fazer leituras criticas e copidesque de originais de livros, é critico de cinema, música e literatura, roteirista e tradutor. Escreveu o romance histórico Dante – O Guardião da Morte, o romance de humor Histórias da Noite Carioca e o suspense de fantasia Neon Azul. Também já participou como autor e/ou organizador de antologias de contos, como a Imaginários  e a Paradigmas Vol. 1, ambas de fantasia, ficção-científica e terror. Parte de sua produção está disponível em seu site , na seção de textos online. O escritor ainda possui o recém-nascido Magos Urbanos, blog onde fala sobre seu processo de criação de um projeto de fantasia urbana. E para conversar de escrita, tradução, mercado editorial e possibilidades para novos escritores, dentre outros assuntos, é que conversamos com Eric.

Canto dos Livros: Atualmente você trabalha apenas com texto, seja escrevendo ou realizando traduções, certo? Como você conseguiu atingir esse patamar almejado por tantos autores?

Eric Novello: Bem, tudo na vida é uma questão de ter metas e objetivos claros e… mentira. Não tenho uma resposta edificante para essa pergunta. Aconteceu, sem nenhum planejamento. Fui aproveitando as oportunidades que surgiam de sair da área científica (Biotecnologia/Farmácia/Bioquímica de Alimentos) e migrar para a área de criação (Cinema/Literatura) e cá estou. Como pauto minhas escolhas pelo prazer que terei com elas e pelo horário em que terei que acordar, não tive muita dúvida de que caminho seguir. É menos uma questão de saber para onde ir e mais de saber para onde não ir. Acabou que hoje trabalho com o que gosto, ganho o suficiente para não arrancar os cabelos e posso estourar meu reclamômetro com outros assuntos.

CL: A leitura de quais obras e autores é imprescindível para quem quer ser escritor?

EN: Não creio que hoje existam autores imprescindíveis. Conhecimento nunca é demais, isso é fato. Quem se acomoda em um determinado gênero ou autor carece de bagagem para escrever uma boa história. Por outro lado, é cada vez mais complicado gerenciar o nosso tempo. Nem chamo mais de tempo livre, porque isso para mim não existe. Então, cada um deve saber no que apostar.

Vamos começar pelo óbvio. Como autor, seria interessante pensar que obras dialogam com o seu trabalho. Se você irá escrever ficção-científica, leia muita FC. Se irá apostar em distopias, leias as distopias. Se decidiu ser um autor de literatura noir, policial, terror, escolha livros e autores icônicos do gênero e leia muito. Se escreverá literatura do cotidiano, mergulhe fundo também.

Não existe uma fórmula. Pode ser que o gênero não seja o seu foco, e sim um aspecto específico: traição, solidão, sexo, triângulos amorosos. Talvez você tenha mais interesse na estrutura do que no assunto. Seja um garimpeiro literário e expanda sua visão ao máximo.

Sobre instrumentação, eu fujo de livros de teoria literária. Porém, amo os de teoria de cinema. Um livro que influenciou muito o meu modo de compor personagens é O Nascimento da Tragédia, do Nietzsche, que li pela primeira vez para as aulas de estrutura dramática da escola de cinema.

Deixo aqui uma lista breve de autores e livros que me influenciaram e influenciam, caso queiram pesquisá-los: Crash (JG Ballard), Trem Noturno (Martin Amis), Fim de Caso (Graham Greene), Invisível (Paul Auster), Coração tão branco (Javier Marías), As Brasas (Sándor Márai), Ubik (Philip K. Dick), White Knight (Jim Butcher), Laranja Mecânica (Anthony Burgess). Todos livros fáceis, nada de outro mundo. Curiosamente, todos trazem personagens extremamente miseráveis em algum aspecto de suas vidas.

CL: O que acha das editoras especializadas em publicar novos autores? Publicar desta forma ou num selo do tipo “Novos Escritores” pode estigmatizar um autor?

Seja lá qual for o esquema de publicação, o que vale é a qualidade do seu texto. Daí vem a pergunta: essas editoras têm algum critério de qualidade na hora de publicar os novos autores ou é só apresentar o texto, pagar e pronto?

Se o seu texto for bom, é essa a etiqueta que prevalecerá. Se o seu texto for uma porcaria… É claro que cada um tem uma opinião, gosto é gosto, e todo aquele papo que a gente já conhece. Mas se você escreve mal, não tem tempero que disfarce o gosto amargo. Não digo que o primeiro texto de alguém será perfeito, espero que o mais recente seja sempre o melhor, mas é preciso ter um mínimo de critério com o que se pretende apresentar ao público. Quando o autor não tem esse critério, cabe ao editor explicá-lo. Se o editor é falho, quem se ferra é o autor.

CL: Como é organizar uma antologia de contos?

EN: Imagine um mago, trancado numa cela, precisando conjurar um demônio para escapar. Ele não tem os ingredientes certos, ele não está nas melhores condições, o tempo é curto, a chance de dar errado é grande e provavelmente o demônio, se sobreviver, sairá do seu controle. É exatamente assim.

Cada vez que começo, fico me perguntando “por que mesmo fiz isso?”. Mas logo que termino já penso na próxima. Cada coletânea que organizei até agora me trouxe experiências completamente diferentes, então não tenho muito como organizar um raciocínio em torno. Diria que a única coisa que acho realmente importante na hora de decidir o tema e perfil de uma coletânea com os editores é abrir espaço para novos autores. O resto varia.

CL: Por favor, explique como é o trabalho de copidesque. Em que ele difere de uma outra atividade sua, a leitura crítica da obra?

EN: Na leitura crítica você analisa um original e no final escreve um laudo para o autor ou editor, descrevendo o que achou falho no livro. Recomendo o filme ou a peça de teatro The Bluetooth Virgin, uma comédia independente, para quem quiser entender melhor o processo. Tem uma cena hilária em que o autor (no caso, um roteirista) se encontra com a guru que analisou o seu original e conversa sobre os motivos do fracasso.

O copidesque é um trabalho intrusivo. Eu mexo no texto, reescrevo frases, busco pontos desconexos, sempre respeitando o estilo do autor, sua escolha de palavras. Você não pode pegar um livro romântico e transformar num suspense só porque não gosta do primeiro gênero. Vale lembrar também que as alterações são marcadas no texto para que o autor decida aceitá-las ou não. Se eu achar algo muito ruim e o autor decidir que aquilo é fundamental na qualidade da obra-prima dele, não discutirei.

CL: Copidescar um livro exige, entre outras coisas, muita liberdade e até intimidade com o autor, certo? Como você seleciona os autores que irá trabalhar? Já teve algum problema com isso? Qual(is)? Quais dicas daria pra quem vai trabalhar como ou com um copidesque?

Já fiz trabalho de copidesque sem nenhuma intimidade com o autor e é algo que não pretendo repetir, mas não quer dizer que não possa ser feito. O importante é o profissional de copidesque ter um mínimo de intimidade com o gênero com o qual trabalhará para evitar burradas que já vi por aí.

Eu hoje prefiro trabalhar com novos autores de fantasia. Gosto de ajudar novos nomes a dar um primeiro passo dentro de um gênero que curto.

Problema sempre há, só muda a intensidade. É muito difícil mexer no texto dos outros, é muito doloroso deixar alguém mexer no seu texto. Mas é necessário, e se não houver confiança, o trabalho não vai para frente. Você deixaria alguém em quem você não confia palpitar na sua vida? Um bom conselho é um conselho sincero ou aquele que diz o que você quer ouvir? A ideia por trás do copidesque é a mesma. O amadorismo literário traz a falsa noção de obra-prima intocável, seja um autor estreante ou um com alguns romances na bagagem. Tem gente que escreve uma porcaria de texto e se apega aquilo com todas as forças, não se permite mudar.

Em compensação, quando ocorre o inverso, é muito gratificante ver a evolução do autor desde a primeira versão do original até a versão final e de um livro para o outro.

A minha dica é transformar o trabalho em uma sessão de brainstorming, a via é de mão dupla.

CL: Nos seus livros você trabalha muito com o tênue limite entra ficção e realidade. O que você acha da literatura de não ficção?

EN: Leio literatura de gênero e do cotidiano na mesma proporção. O que importa é que sejam bons autores, boas histórias, ou que me ofereçam o que estou procurando naquele instante. Não vou esperar que Charlaine Harris me traga o mesmo que Philip K. Dick, ou que esse me traga o mesmo conteúdo que um Haruki Murakami ou Javier Marías. São aulas diferentes, digamos assim. O conteúdo da aula de Parasitologia é diferente do conteúdo da de Microbiologia. Existem autores contemporâneos muito bons em todos os gêneros. Seja você autor ou leitor, aconselho que se leia um pouco de tudo. Não se force a nada, porém não se acomode.

CL: Como funciona o trabalho de pesquisa para a redação de uma obra com bases históricas reais e mitológicas, como Dante, o guardião da morte?

EN: É um processo exaustivo, mas gostoso. No caso do Dante, eu sou fascinado pela Roma Antiga e por Julio César, então sabia onde estava mirando. A pesquisa precisa ser equivalente ao nível de detalhes que você pretende adotar no livro. E se pensarmos nesse aspecto, o Dante não pode ser usado como exemplo, porque eu decidi tomar liberdades para o andamento da trama. No livro você vê a minha versão de Roma. Diria que a minha preocupação foi com a ambientação e não com a recriação. A ambientação em Dante é um elemento tão fantasioso quanto a presença dos deuses imortais que permeiam o livro. Funciona? Acredito que sim. Passaria pelo crivo de um historiador? Certamente não.

CL: O que pode dizer sobre o mercado brasileiro? Na sua opinião, a afirmação “o brasileiro não lê” procede ou é uma falácia?

EN: Essa é fácil. Pegue seu círculo de amigos. Não vale autores! Quantos deles leem? Com que frequência? Agora tire os que leram só Best-sellers e livros de autoajuda. Sobraram quantos? Quando digo que leio um livro por semana (uma média confortável quando não estou atolado de trabalho), muita gente fica espantada. Gente que tem grana para comprar livros, um emprego bom e tempo livre ($) para viajar quatro ou cinco vezes por ano para o exterior acha estranho alguém ler um livro por semana. Se eu dissesse que vejo um filme por semana, o espanto não seria tão grande. Se eu falar que saio para beber toda semana, aí eu seria padrão.

Estou comparando banana com maçã de propósito para mostrar que ser leitor no Brasil ainda é ser um alien. Ler no Brasil não é visto com naturalidade.

Então não existe mercado? Claro que existe, com o público “jovem-adulto” fazendo a diferença em termos de vendas atualmente. Mas o fato de um autor ter rompido a barreira dos 100.000 exemplares vendidos não torna todos os outros Best-sellers potenciais, não importa o quão “acessível” seja o texto. Esse papo de potencialidade pura inerente a cada um de nós cabe melhor na autoajuda, justamente.

O que podemos dizer com segurança é que o brasileiro está lendo mais. Espero que siga daí para cima. Mas não existe mágica. Existe marketing.

CL: No Brasil, ouvimos falar muito de autores, mas pouco de tradutores? Por que isso acontece? Falta reconhecimento para o trabalho de tradução?

EN: A gente também ouve falar pouco de engenheiros mecatrônicos e nem por isso eles deixam de ser valorizados. Existem profissionais especializados no controle de crustáceos que crescem em turbinas de hidrelétricas. Eles são reconhecidos? Mas são valorizados. O mercado de tradução segue as mesmas regras de qualquer outro. Tem áreas que pagam mais, áreas que pagam menos, clientes melhores e piores. Há cursos, faculdade, pós em tradução, ou seja, muitas possibilidades de instrumentação. Eu prefiro ser bem pago (valorizado) a ser “reconhecido”, com muitas aspas, por favor. Não podemos confundir reconhecimento com presença histriônica na Internet e elogio de meia dúzia de amigos. Repito, é um mercado como os demais. Se nos prendermos à literatura, aposto que há ótimos tradutores, premiados, respeitados, e que eu nunca ouvi falar. Em suma, não é porque eu não conheço que não há reconhecimento, não é porque não há barulho que não há valorização. Desconfie de quem faz barulho demais.

Considero uma ótima profissão e dou força para quem quiser se aventurar nela.

CL: Os escritores formam uma “classe” muito desunida. Concorda? Por quê? O que poderia ser feito a respeito?

EN: Quando ouço essa ideia de classe unida e desunida me vem em mente os metalúrgicos do ABC lutando por aumento de salário, redução de jornada. E na literatura não existe isso. É bonitinho falar que somos todos amigos e que estamos no mesmo barco, mas não é real. Eu sou formado como farmacêutico, bioquímico de alimentos. Cada turma de faculdade tinha em média 70 alunos. Conheci mais de 400 pessoas. Eu sou amigo de todas elas só por sermos farmacêuticos? Lógico que não. Então por que seria amigo de todos os autores? É preciso afinidade para se aproximar de alguém. Posso gostar de um autor porque o texto dele é bom, porque ele é uma boa pessoa, etc. Cada um tem aí sua lista de itens que leva a aproximações e afastamentos, uma lista singular e intransferível. Não importa se essa pessoa é um autor, padeiro, arquiteto, empresário.

Alguém pode argumentar que todos os autores têm uma causa em comum e que é preciso união em torno dela. Tem mesmo? Qual seria? Cada grupo terá suas causas, suas lutas, suas discussões internas e sorrisos externos. É assim em qualquer ambiente de trabalho, mesmo nesse que dá mais prejuízo do que dinheiro. A sua causa digníssima pode, para mim, ser uma grande piada e vice-versa. O que existe no ambiente literário é uma capacidade imensa de se unir em torno de um inimigo em comum, o que dá a falsa ilusão de união aqui e ali. Amizade e afinidade são elementos raros em qualquer âmbito, não teria porque ser diferente na literatura.

Se cada indivíduo ou cada grupo batalhasse mais suas próprias causas e perdesse menos tempo destruindo a dos outros, talvez a literatura de gênero avançasse mais e a sensação de união fosse maior.

CL: O que é exatamente a “Fantasia Urbana”?

EN: “Exatamente” e “fantasia urbana” não têm tido um bom convívio faz um tempinho. Eu dividiria hoje o gênero em duas correntes:

A que explora a fantasia em uma cidade contemporânea, seja uma grande metrópole ou cidade periférica a ela, com uma dinâmica que fuja do bucolismo. É o que escrevo. Entram aí nomes como Jim Butcher, Lilith Saintcrow, Charlaine Harris, etc.

Tem um número grande de autores fazendo isso hoje. Discutiu-se há um ano o desgaste do gênero, mas as vendas continuam fortes e os olhos dos editores continuam brilhando.

A que põe a fantasia em uma cidade, seja qual for, de qualquer época. Uma cidade em um planeta distante? Pode ser. Uma cidade medieval? Por que não? Essa corrente foi quase um movimento de resposta à anterior. Alguém gritou “chega de livros que são romances de vampiros com lobisomens” e fez-se a quebra. Estou organizando uma coletânea para a editora Draco chamada “Fantasias Urbanas” que cabe nessa segunda opção.

Hum! Entendi, Eric. Então Crepúsculo é uma fantasia urbana? Não. É um gênero próximo chamado Paranormal Romance ou Romance Sobrenatural.

CL: O que acha dos outros meios de escrita, como HQ’s, e-books, blogs? Também podem ser considerados literatura?

EN: Temos duas coisas diferentes aí. E-books e blogs são veículos para a literatura. Eu posso colocar no meu blog a receita de bolo de cenoura da minha avó e posso colocar um conto. Esse conto pode (ou não) ser melhor do que meus contos publicados em papel. A Internet não o torna um texto menor. Papel não é sinônimo de qualidade. O blog é um espaço e você usa como quiser, inclusive para mostrar a sua literatura. Um e-book também. Ter medo de avanço tecnológico é burrice. Antes de qualquer coisa, eu sou um comunicador e meu site e as ferramentas sociais me colocam em contato com o público leitor. É algo que vale ouro para mim.

HQs eu leio pouco. São leituras muito pontuais, mas tenho um respeito enorme por elas. Justamente por isso, mesmo quando leio, não comento, porque julgo ser necessário um conhecimento maior do que eu tenho. Mas me incomoda isso de chamar HQ de literatura para legitimá-la. Por que ela só teria valor se fosse considerada literatura? Ela não pode ter valor sendo simplesmente “HQ”? Essa é uma discussão longa, teríamos que jogar o conceito de Graphic Novel na roda também. Como eu disse, tem gente mais capacitada para isso do que eu.

CL: Você também é crítico de cinema. Quais foram as melhores obras transpostas dos livros para as telonas? Por quê?

EN: Antes o porquê, depois os filmes. A meu ver, uma boa adaptação é um filme que funciona de forma independente da obra de origem, sendo ou não 100% fiel ao conteúdo do livro. A linguagem cinematográfica é diferente da literária e quem consegue fazer a transposição com qualidade merece mesmo os parabéns. Um filme foda é um filme foda, ponto.

Exemplos que me vêm em mente: O poderoso chefão, Senhor dos anéis, O talentoso Ripley (que os fãs da Patrícia Highsmith geralmente não curtem), 90% dos filmes do Kubrick, muito do cinema noir e, é claro, Crepúsculo (Just kidding!).

Entrevista concedida à equipe

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De toda a equipe.

Nazarethe Fonseca nasceu em São Luis do Maranhão e atualmente mora em Natal, no Rio Grande do Norte. Começou a escrever aos 15 anos, após um sonho que se tornaria seu primeiro livro, uma trama policial. É autora da saga Alma e Sangue, iniciada com O despertar do vampiro e seguida por O império dos vampiros e O pacto dos vampiros, que chegou às livrarias muito antes dos dentuços de Stephanie Meyer e está sendo transformada em uma série de curtas-metragens para Internet. Também publicou contos nas coletâneas Necrópole: Histórias de Bruxaria, Anno Domini e Meu Amor é um Vampiro. É autora do blog Alma e Sangue e concedeu por e-mail a entrevista abaixo para o Canto dos Livros, onde fala sobre sua carreira, influências, mercado e seus vampiros, claro.

Canto dos Livros: Conte-nos como começou e está sendo a sua carreira de escritora.

Nazarethe Fonseca: Comecei com a publicação do meu primeiro livro O Despertar do Vampiro, em 2001, que, posteriormente, deu origem à saga Alma e Sangue. De lá até aqui, posso dizer que tem sido bastante árduo. Escrever no Brasil é fácil, o difícil é publicar. O mercado está cheio de escritores tanto nacionais como estrangeiros, o espaço existe, mas as grandes editoras não apostam em títulos nacionais com facilidade. É preciso sorte e provar que é capaz de emplacar um livro.

CL: Quais obras/ autores influenciaram na criação de seus livros? Qual a importância dos clássicos Anne Rice e Bram Stoker?

NF: Acho que tudo o que eu já li, e leio, me influência de algum modo. A lista para citar é enorme, e nem todos os livros e escritores estão dentro do universo da fantasia. Mas sim, gosto muito de Anne Rice e Bram Stoker, eles conseguiram mudar a história do vampiro no mundo.

CL: Enfrentou dificuldades por não estar nos chamados grandes centros (sul e sudeste)?

NF: Não, quando preciso vou a São Paulo e tento ver os fãs que sempre buscam autógrafos. Eu gosto muito do Norte e do Nordeste, acho São Paulo uma cidade realmente vibrante, talvez vivesse bem nela, mas morar em Natal é estar perto de raízes mais antigas.

CL: Dentre as muitas alternativas de publicação e divulgação existentes, quais considera mais efetivas?

NF: Na publicação, o livro físico. Já publiquei livro na internet e postava os capítulos toda semana. Também já tive uma web-novela no Portal Feminice, mas acho que o público ainda prefere ter o livro em mãos. Para divulgação, a web tem seu espaço garantido como um dos veículos de maior amplitude e rapidez.

CL: Qual foi o impacto que o sucesso da série “Crepúsculo”, de Stephenie Meyer, teve no seu trabalho?

NF: Eu já vendia a série Alma e Sangue e continuo vendendo. A série Crepúsculo fez o público jovem descobrir um tipo de vampiro e outros autores. Os mais curiosos foram a fundo e buscaram outros livros, outros autores. E isso abriu o mercado, aumentou as vendas, gerou oportunidades que já existiam e nunca foram exploradas. Muitos livros do gênero foram publicados desde então. Eu continuei com minha série sem alterações.

CL: No livro Alma e Sangue a história se passa em São Luis do Maranhão, sua cidade. No pocket book lançado posteriormente,  Kara e Kmam – uma saga de alma e sangue, a trama ocorre em Paris. Você conhece a França? Como foi o processo de escrever uma história ambientada em um lugar que você provavelmente não conhece tão bem quanto sua cidade natal?

NF: Posso dizer que conheço a França com os olhos da Alma. A França dos meus livros é a de 1572 e dos séculos seguintes, até os dias atuais. Sempre tive grande interesse na França porque São Luis sofreu colonização francesa, temos palavras em francês incorporadas em nossa língua, e por ai vai. Os meus leitores costumam dizer que caminharam com os personagens dos livros pelas ruas de Paris, devido à riqueza dos detalhes. Não achei difícil, no livro A Rainha dos Vampiros, por exemplo, estou na Rússia, e no O Pacto dos Vampiros estive em Barcelona. Sinto que sempre estou viajando.

CL: Você já deu declarações afirmando que a história de Kara e Kmam ainda tem muitos capítulos pela frente. Como você estruturou a narrativa desde o começo para que ela tivesse solidez para manter vários livros em sequência?

NF: Eu trabalho um livro após o outro. Baseio parte no que já escrevi, parte nos sonhos que tenho, e a outra nas ideias que surgem ao correr da trama. Gosto de dizer que no fim tudo se encaixa como num quebra cabeças, ou como uma colcha de retalhos. Geralmente tenho um caderno onde copio as cenas e depois as levo para o computador. Às vezes acontece de sobrar cenas que uso em outras histórias e ocasiões.

CL: O que acha do mercado de literatura mítica e de fantasia no Brasil?

NF: Está em crescimento, os escritores estão ganhando espaço e firmando seus nomes no mercado. Não sou pessimista, acho que como intelectuais e artistas, se investirmos em nossas ideias e projetos, conseguimos espaço dentro da sociedade.

CL: Como se deu esse processo de reedição do livro? A ideia de reescrever alguns capítulos, por exemplo, partiu de você ou da editora? Qual a participação do Eric Novello, como copidesque, no trabalho? Como é a relação com esse tipo de profissional? Qual a importância na qualidade final do trabalho?

NF: Sai de uma editora e entrei na Aleph. O livro precisava de revisão, e nada mais justo com o público que esperava a continuação, que o primeiro livro trouxesse novidades. Eu adorei a ideia e junto ao escritor, roteirista e tradutor Eric Novello fizemos o copidesque do livro. O trabalho compensou e hoje o livro é um artigo digno de ser comprado. Todo escritor precisa estar em busca de melhorar, e eu não sou diferente, sempre reescrevendo e reinventando. Eu sou a favor do copidesque, não abro mão. Minha relação é a melhor possível, mas só entrego meus livros para quem confio. O Eric Novello é uma dessas poucas pessoas, ele já conhece meu texto como ninguém.

CL: Num mundo tão conectado, onde o contato com os fãs e leitores é mais imediato do que jamais foi, via Twitter, e-mails e outros, houve alguma sugestão ou pedido deles que mudou o que você escrevia?

NF: Não, apesar de receber muitos e-mails com pedidos de que minha personagem principal, Kara Ramos, engravidasse (risos). Eu sou fiel aos meus personagens e a suas histórias. Adoro ver suas sugestões, mas prefiro surpreendê-los com algo que não pensaram ainda.

CL: Você gostava de ler quando criança? De que forma uma criança pode ser incentivada à leitura?

NF: Livros de aventura e de magia, e de monstros como eu costumava chamar. Acho que quando a mãe está grávida e lê para o bebê, certamente o seu filho criará o hábito da leitura.  Eu cresci numa casa com livros e revistas por todos os lugares, então foi fácil primeiro descobrir as cores e imagens, e depois as letras. Eu aprendi a ler em 15 dias, estava com seis anos.

CL: Quais os próximos passos do seu trabalho?

NF: Terminar a série Alma e Sangue com o livro A Rainha dos Vampiros e me dedicar a um novo livro que já tem quase cem páginas, e que acredito que seja minha próxima série. Fantasia, claro.

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