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Posts Tagged ‘Fernanda Torres’

Por Alberto Nannini

fim-fernanda-torres-tipssFernanda Torres é um pouco irritante. Quer dizer, ela parece ser uma pessoa bem bacana e divertida fora do palco; mesmo sendo filha da melhor atriz brasileira da história, ela é uma atriz excelente, cheia de recursos, comediante com timing invejável. Como se não bastasse, é uma ótima cronista. E agora, resolveu ser escritora também, com a costumeira excelência. Precisava mesmo ser boa em tudo?

Brincadeiras à parte, imaginei que as críticas generosas a seu primeiro romance, Fim, fosse mais por boa vontade dos vários amigos e conhecidos que ela deve ter, e da legião de admiradores que certamente tem, do que por mérito literário.

De qualquer forma, eu tinha que ler para dar meu veredicto, até porque nem sempre eu e a crítica geral afinamos nossos gostos. Há coisas que os críticos dizem ser sensacionais, e que eu acho péssimas (como exemplo, me vem à cabeça o filme Tabu, de Miguel Gomes). E há coisas que eles detestam, e eu gosto muito.

Enfim, li o livro da Sra. Fernanda Torres, com uns sete pés atrás.

E tenho que me render – o livro é ótimo.

Os fins

Um grupo de cinco amigos, separados, relembram episódios de suas vidas, e também atividades do dia a dia e a amizade que os unia, pouco antes de suas mortes, quase todos já velhos. Assim, o livro é dividido em cinco capítulos – cada qual narrado segundo a perspectiva de um dos integrantes do grupo, e intitulados com os nomes deles: Álvaro, Sílvio, Ribeiro, Neto e Ciro – e completado por um último capítulo, cujo título é “O próximo”.

Na página que inicia os capítulos, vem o nome do narrador e uma inscrição com as datas de seu nascimento e morte, como numa lápide. A narrativa é em primeira pessoa, e traz as memórias dos personagens e transcrições de seus pensamentos, enquanto fazem suas atividades rotineiras. Daí, as vozes vão se alternando, até seu último dia. Como as datas de óbito são afastadas, também vai se falar como as mortes dos primeiros afetarão os ainda vivos.

Estas digressões, pensamentos, diálogos e comentários entregam personagens esplendidamente construídos, absolutamente reais em suas mágoas e mesquinharias, de perfil psicológico consistente e de fácil identificação.

Isso, por si só, já é um grande mérito.

Mas a construção é ainda mais elaborada, porque, pelo fato deles serem amigos, comentam uns sobre os outros constantemente, e assim, entregam mais detalhes de seus comportamentos e atitudes, além de pontos de vista alternativos para alguns eventos-chave.

Ou seja, Fernanda conseguiu um feito e tanto, ao estabelecer uma narrativa que é perpassada pelas outras vozes o tempo todo, sem nunca perder a identidade de cada um, e ainda revelar mais destas identidades na visão inimitável e privilegiada que só o outro pode ter.

Os meios – demais personagens

A proeza de ter encadeado as vozes de cinco personagens, sem perder as características de cada um, é aumentada, porque há também as falas dos coadjuvantes, em subtítulos. E estes aparecem em mais de um relato dos protagonistas: são as esposas, ex-namoradas, filhos e filhas, dentre outros; todos igualmente bem construídos. O ponto de vista deles enriquece mais ainda o cenário desenhado e dá novas nuances às personalidades dos cinco amigos e a alguns dos fatos que eles relatam.

A teia de protagonistas e algumas das pessoas que gravitam em torno deles é uma microrreprodução do mundo: seres reais, que convivem e tem suas visões sobre as coisas e pessoas, que tem seus segredos e frustrações, e que confundem as memórias com os fatos.

Este pequeno recorte que Fernanda fez, das vidas e situações de todos os personagens que desfilam pelas 200 páginas, é em tudo fiel à realidade, e traz todos os ingredientes que conhecemos bem aqui fora do papel: esperança, sonhos, escolhas boas e ruins, anseios, alegrias, segredos, mágoas e desencontros, e também humor, tragédia, e muita, muita beleza.

Uma ideia de enredo tão simples, mas imensamente trabalhosa, que poderia desandar ao menor descuido – que felizmente, Fernanda não comete.

Uma pitada de humor…

Eu esperava humor vindo de Fernanda Torres, comediante de primeira linha. E claro, há até bastante dele no livro, mas muito cadenciado. De fato, o humor é aquele que vem do inusitado, ou mesmo daquela sensação de que a vida é mesmo uma grande comédia, com suas idas e vindas.

Acho dificílimo escrever algo engraçado; são necessárias sutileza e elaboração muito delicadas, para não cair em algum extremo, como o grotesco ou o patético. Para ser bem sincero, houve duas ou três vezes durante o livro que parecia que a “Fernanda-comediante-do-imaginário-comum” estava escrevendo, com situações que pareciam vindas de alguma de suas comédias encenadas. Mas isso passou tão rápido como uma brisa, e a leitura prosseguiu, fluindo daquela maneira gostosa que vamos lendo sem perceber as páginas sendo viradas.

Então, na absoluta maioria das vezes em que o humor apareceu, veio de maneira perfeita – arrancando o riso como um ato reflexo, do qual só vamos nos dar conta do porquê rimos depois de já tê-lo feito.

… e uma de atrevimento

Já seria uma obra notável e uma estreia impressionante se ficasse nisso. Uma história correta, bem costurada, verossímil e divertida. Mas talvez alguém dissesse que faltou um pouco de imprevisto. Seria ainda uma obra de arte, como um quadro pintado com perfeição fotográfica, como os de Almeida Júnior – mas talvez carecesse de uma pitada de ousadia.

Nem isso faltou.

A danada da Fernanda ousou sim, e de maneira magistral, no final de seu romance, com algo que não pode ser entendido de imediato. Enquanto eu lia, fiquei aventando possibilidades, mas o mistério só é revelado no final (não se preocupe, isso não é um spoiler, nem quebra o encanto de ler a obra).

Há um sutil toque de fantástico no enredo – exatamente igual acontece no dia a dia. Basta ler o noticiário para o fantástico e o absurdo saltarem aos nossos olhos e estapearem as nossas caras.

Por isso, achei a última travessura da genial autora formidável, que deu ao livro aquela particularidade para não apenas torná-lo correto e bem escrito, mas ímpar.

Outra beleza

Fernanda Torres demonstra com esta obra ser uma ouvinte e uma espectadora atenta do cotidiano, e alia a isso a sensibilidade de mostrar que o dia a dia, o comezinho, as vidinhas que acendem e apagam todos os dias no mundo tem, em si, a mesma força que acendeu as estrelas.

E como tudo isso – a obra, a vida, a morte – é essencialmente belo, cabe traçar um paralelo com outra obra, em outra mídia, que toca nestes mesmos temas: o corriqueiro, as impressões dos outros, a vida normal que nunca é normal, e a morte e sua imprevisibilidade, que dá sentido a tudo.

É o filme Beleza americana.

beleza-americana

Ambas as obras falam da morte. Beleza americana é narrada postumamente por Lester Burnham, medíocre funcionário que segue emasculado e submisso a todos: aos chefes, aos clientes, à mulher e à filha. Ele é uma piada, até o dia em que resolve virar a mesa e começar a fazer o que quer e o que gosta.

***(Em off: quanto há de Lester Burnham em mim? E em você?)***

Em dado momento de sua vida, depois que ele rompe suas amarras, as coisas ficam bem esquisitas. Sua mulher o trai, sua filha o despreza, ele larga o emprego e se envolve, inadvertidamente, com tipos estranhos, como o garoto vizinho, que tem fixação pela sua filha e lhe fornece maconha, e o pai dele, ex-militar durão e preconceituoso, que talvez seja algo bem diferente por debaixo da casca. E a amiga da filha, uma jovem que ele tenta seduzir, e que parece experiente.

Bom, não vou publicar spoilers do filme, apesar dele ser já antigo (2000) e de ter passado inclusive na TV aberta. Se você já assistiu, sabe aonde quero chegar – a ironia e a fragilidade da vida, contada com humor mordaz – que bem pode ser uma descrição do magistral livro de Fernanda Torres.

A protagonista oculta

morte2A morte, esta desconhecida tão familiar, espreita em ambas as obras, e é enquanto ela não chega que as tramas vão se desenrolando para os narradores, e – surpresa! – continua se desenrolando depois que ela lhes alcança com seu derradeiro toque. 

Isto é significativo, porque a morte é o Fim, como bem batizou Fernanda Torres, mas não se sabe qual fim. Se definitivo, se só passagem, se uma porta para o nada, ou para o tudo. Mas o que se infere destas obras é que o sol continuará a nascer, depois da sua morte, não importa o que você tenha chegado a ser. Que o mundo continuará basicamente o mesmo. Que você viverá nas memórias e impressões dos outros, e esta será sua sobrevida. Que a pessoa que você é acaba quando descer o caixão, mas que sua lembrança seguirá, enquanto os que te conheceram viverem.

E que até isso acontecer, você viverá, talvez, como cantou Sinatra, com duas doses de alegria para uma de tristeza. E então, deixará tudo isso para trás, na vida como carne e osso. Ou seja, independente do que você creia para depois da morte, a sua singularidade – Fulano(a) de Tal da Silva, filha de Sicrano e Beltrana – jamais se repetirá no universo conhecido.

Há que se ter humor para se encarar esta implacável verdade.

Influências cinematográficas?

Mas nem só de morte vive este romance. Há muito a acontecer, antes de ela chegar. Sobre influências da autora, arrisco dizer, sem ter certeza, que ela seja cinéfila, porque não apenas enxerguei paralelos evidentes, mas também entrevi influências de filmes consagrados no seu enredo: Magnólia, de Paul Thomas Anderson, Short Cuts, de Robert Altman e Crash, de Paul Haggis – todos eles com diversos personagens, em tramas que são cuidadosamente entrelaçadas, embora pareçam independentes. E também pelo fato de todos serem obras que ganham muito numa segunda visita – para perceber sutilezas, dicas e autocitações, que escapam na primeira leitura.

Os personagens de Fim, em minha opinião, alcançaram a mesma profundidade dos destes filmes, se não foram além, porque uma interpretação possível demonstra que a interação dos cinco protagonistas uns com os outros, durante a maior parte de suas vidas, foi de tal forma intensa e próxima que os moldou e imprimiu neles marcas definitivas. Embora esta seja uma extrapolação da leitura, é perfeitamente cabível, exatamente da mesma maneira que acontece “aqui fora”. No livro, se percebe o amigo infantilizado, o recalcado, o canalha, o certinho, todos eles se assumindo, se transformando e se reforçando, conforme o convívio entre eles acontecia.

Aliás, outro mérito foi a tranquilidade da autora em dar vozes masculinas a seus personagens. Ela reproduziu perfeitamente expressões, palavrões e visão de mundo essencialmente viris. Embora haja um tanto de chavões nelas, percebi também algumas sutilezas, que fogem do imaginário comum de que todos os homens são mulherengos (convictos ou disfarçados) e machistas.

Enfim, acredito que o fato de Fernanda ser uma atriz, ter vivido desde sempre entre artistas e atores, e ter que interpretar e contracenar com personagens que são construídos segundo um roteiro, tenha sido determinante para conseguir montar personagens tão ricos, tão multidimensionais e tão interdependentes, como são os de seu livro. Dá a nítida sensação que ela “conhecia” mais os personagens, em suas nuances, do que pôde relatar no papel.

Oh, crianças / Isso é só o fim”

O tom escolhido para alguma obra que imite a vida (todas?) depende do autor. Pode ir de tragédia à comédia, mas eu, particularmente, gosto bastante quando este tom se situa entre ambas, ou vai de uma a outra, sem se firmar.

Fim pende mais para a comédia, mas é por meio dela que também dramatiza, trazendo dilemas e vidas tão iguais as nossas, com toda a sensibilidade que os escritores seguros têm. Achei notável a estreia de Fernanda, e me surpreendi positivamente – e parece que não estou sozinho: o livro continua bem comentado e a autora aceitou o convite e confirmou a presença na Flip 2014 (Festa Literária Internacional de Paraty, que acontecerá de 30 de julho a 3 de agosto).

Falar sobre este pequeno intervalo entre dois períodos de tempo absolutamente desconhecidos – que nós chamamos de vida – brincando com a impermanência, com o cotidiano, com a vaidade e a forma aleatória com que tudo acontece, e de quebra, arrancar risos, fazer refletir e deixar uma sensação de bom tempo gasto, é tudo o que um bom livro pode desejar.

Em minha opinião, Fernanda Torres alcançou com méritos este Fim.  

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