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Posts Tagged ‘Fernando Pessoa’

Por João Dutra

reproduçãoEm entrevista sobre o lançamento de seu novo livro, o escritor Bernardo Carvalho fez críticas ao uso banal da internet.

“[…] E há o narcisismo, a exposição no Facebook, que pega um ponto central. É perverso, a conquista vai em pontos frágeis da psique, você se sente uma celebridade. Do ponto de vista político, você acha que está usando, mas está sendo usado. O livro expressa esse desconforto.”

O tema da comunicação digital faz parte da narrativa de sua nova obra, Reprodução. O personagem central da história é um rapaz chinês que tem como característica marcante a rotina de comentários ofensivos, preconceituosos e anônimos em blogs da internet, além de uma sabedoria predominantemente gerada por artigos da Wikipédia.

Em sua crítica, o autor cita também o comportamento narcísico dos usuários de redes sociais. De fato, a vida editada, na qual só o lado positivo é exposto ao público tem sido motivo de debates e reflexões sob diversas óticas.

A despeito da mediação tecnológica, a questão da supressão de aspectos negativos da vida cotidiana não é novidade. Fernando Pessoa dá voz a Álvaro de Campos, que, em “Poema em Linha Reta”, de forma irônica critica a sociedade que exalta apenas as virtudes de seus membros e causa angústia a ele próprio, simples mortal, na infinidade de seus defeitos e limitações:

“Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.
E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo,
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda; […]”

A angústia apontada pelo poeta se ajuda a explicar um elemento sobressalente da cultura da comunicação digital e, citada por Bernardo Carvalho: a limitação da compreensão da vida sob o ponto de vista do que é compartilhado na internet.

Nesse sentido, é essencial a reflexão sobre o papel da literatura como provedora clássica de críticas que ajudam a dar sentido à nossa existência. Tanto a obra do poeta português, quanto do escritor contemporâneo, atendem ao chamado de compreensão do cenário sócio-político da época em que vivem.

Como aponta o escritor Ricardo Azevedo, ganhador de cinco prêmios Jabuti, a literatura assume, como propósito, a responsabilidade por preencher a falta primordial de sentido do indivíduo. Em mesa da Flip de 2013, ele comenta:

“A literatura e a ficção são alguns dos inventos que o homem fez para tentar preencher as lacunas, as perguntas, as angústias, os vazios.”

Enquanto surgem novas formas de tecnologia e mediação da comunicação, potencializando aspectos perenes da condição humana, é essencial retomar a literatura como porto seguro para as angústias que vivemos em nossas jornadas pessoais.

Cada autor coloca em sua obra um pouco de si e da época em que vive. Em um momento da história em que o mercado parece ser o guia maior dos comportamentos das pessoas, inclusive na literatura, é nos livros clássicos e nas críticas à contemporaneidade que continuamos mantendo nossa postura crítica, por meio de autores capazes de questionar o senso-comum, nos fazendo refletir sobre nossa condição.

Isso, porém, não significa que devamos rejeitar as novidades advindas da evolução na comunicação. Blogs e redes sociais foram protagonistas de protestos e movimentos políticos recentes, no Brasil e no mundo. Ambos fazem parte do dia-a-dia de boa parte das pessoas, sobretudo nas grandes metrópoles.

O que é necessário é justamente avaliar com parcimônia o conteúdo e discernir aquilo que deve ou não ser aproveitado. Fernando Pessoa e Bernardo Carvalho nos alertam para a tendência da sociedade em editar a realidade à sua regalia e o quanto isso pode tornar banal a comunicação.

Neste ponto, é necessário o equilíbrio para se utilizar das ferramentas que indubitavelmente podem potencializar nosso conhecimento e nossa experiência cultural. Como alerta à falta de autenticidade da informação na internet, vale lembrar a frase atribuída ao general romano Pompeu, na obra de Plutarco (106-48 AC) e eternizada por Fernando Pessoa: “Navegar é preciso, viver não é preciso”. Com essa expressão, o general chamava a atenção para o fato de que havia precisão no ato de navegar, visto que era guiada por matemática e outras ciências exatas. Na vida, isso não era possível.

À luz do que nos ensina o guerreiro dos tempos de Império, considerando a importância da internet como ferramenta que potencializa nosso poder de comunicação, mas nos expõe, com frequência, a conteúdo sem muito valor, sobretudo nas redes sociais, há de se crer que, na internet, navegar é preciso, Facebook não é preciso.

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Por Alberto Nannini

capa  Ricardo Lisias Divorcio.inddTalvez conheça os mindfucks. A tradução literal é bem ilustrativa. Trata-se de uma espécie de quebra-cabeças, geralmente fotos, que parecem normais a primeira vista, mas que escondem algo que só aparecerá com um exame minucioso.

O detalhe dos mindfucks é que eles podem cumprir perfeitamente bem o papel de fotos, a não ser que você saiba que se trata de um mindfuck. Aí, você não conseguirá olhar para foto sem procurar o segredo dela.

  – Galera, aqui na reunião do blog já aviso que pretendo comprar e resenhar o novo livro do Ricardo Lísias.

– Beleza, tente entregar para o mês que vem. Seria legal uma leitura mais crítica.

– É o que pretendo. Acho que tenho uma chave de leitura para este livro.

O escritor mindfucker

Ricardo Lísias escreve uma literatura mindfuck. O autor, já entrevistado pelo Canto, e que teve seu ótimo livro O céu dos suicidas resenhado aqui por dois integrantes do blog (esta é a minha resenha e esta outra, do Rodrigo Casarin) está se especializando em confundir. Você lê achando que já sabe o que irá encontrar, ligado a experiências pessoais. Mas, por saber que ele é um autor ousado, que brinca com a linguagem e com algumas definições estanques da literatura, vai ser confundido, vai pensar no que ele quis dizer além do que disse, e provavelmente, mudará de ideia várias vezes.

Claro que, se você não lê livros pensando em resenhá-los e apenas comprar o último dele – Divórcio – e ler, vai achar curioso o personagem ter o mesmo nome do autor. Vai deduzir que se trata de uma expurgação, de alguém que viveu uma experiência traumática com um divórcio, e resolveu colocar tudo aquilo no papel. Esta teoria vai parecer bem encaixada, porque, com pouca pesquisa, vai ver que não apenas os nomes do personagem e do autor são o mesmo, mas que em algumas partes, a correspondência vai além: o autor/personagem diz que o livro anterior que escreveu é justamente O Céu dos Suicidas, e conta episódios reais, como ter escrito um conto para a revista piauí sobre seu pai e a Copa do Mundo de 82.

– E aí, como está a leitura do Divórcio?

– Travei a leitura, logo no começo. Achei outro livro, chamado Nada, deixei um pouco o Divórcio de lado, não tava fluindo. Vou resenhar o Nada antes, e tento entregar a resenha do Divórcio pro mês que vem.

– Mas por que travou? O que você está achando? 

– Tá meio repetitivo, e parece também uma jornada egocêntrica. Acho que é muita vaidade se colocar literalmente como o personagem, e muita exposição ficar romanceando tudo o que se viveu, literalmente.

Agora, se você conhece um pouco da obra deste autor em particular, provavelmente apurou seus sentidos a ponto de perceber que há mais ali do que está parecendo.

Depurar o gosto literário

A apuração dos sentidos e dos gostos parece um fato inescapável.  O senso artístico também é apurado com o tempo. A contemplação e o consumo da arte vão se sofisticando, quanto mais arte se contemple e se consuma, porque as experiências vão se somando e mudam os referenciais.

Com a literatura também é assim. Você lê um livro, dois, três, dez, dezenas. E começa a comparar tudo o que lê com o que já leu. E vai depurando seu gosto em autores prediletos, tramas prediletas. Chega a ponto de achar que conhece determinado autor.

– Eu acho, caras, que se pode criticar o autor x ou y, baseado no que se conhece da obra dele.

– Mas esta crítica nunca terá autoridade, a não ser que você tenha lido a obra inteira.

– Acho que não inteira, mas pelo menos uns 30%.

– Mas aí é que está: e se estes 30% não forem os mais representativos? Acho que embasar a crítica tem mais a ver com uma leitura coerente, e que se apoie em tudo o que você já leu, do que em se especializar no escritor tal, lendo tudo aquilo que o sujeito publicou.

Mas o suposto conhecimento do autor é uma armadilha – a não ser que seja um escritor medíocre, no sentido de escrever sempre aqueles livros médios e ser “fiel ao seu público”. Ele descobre um nicho e fica nele, garantindo sua fatia de mercado. Este sim pode ser conhecido, porque nunca sairá da sua zona de conforto – o que, aliás, é uma boa definição para mediocridade.

Os escritores mais capacitados não podem ser conhecidos, a não ser postumamente, pelo estudo de sua obra inteira. É o caso de gigantes da nossa literatura, como Machado de Assis, que depois, ao ter sua obra organizada, se constatou que passou por várias “fases” de escrita.

 Bom, vamos retomar a leitura..  A chave é esta: vaidade. Você é vaidoso, Ricardo. (…) Vou utilizar o Livro de Eclesiastes como citação. Vaidade das Vaidades, tudo é Vaidade.(…) Tá fácil de te pegar, Ricardo. Pág 66: “…retomar O céu dos suicidas. No dia seguinte, mandaria finalmente meu conto para concorrer a um lugar na revista Granta…” Vai dizer que não é você, Ricardo?

Sobre um divórcio esfolador

O livro tem o seguinte enredo: o personagem, Ricardo Lísias, escritor e professor, está casado há quatro meses, quando acha o diário que a sua mulher, jornalista, escreve às escondidas. O tal diário tem partes como estas: “O Ricardo é patético, qualquer criança teria vergonha de ter um pai desse. Casei com um homem que não viveu”; “Em Cannes, eu pude confirmar a mulher que sou. As carícias do (cineasta)[x] me desabrocharam”.

A traição é elevada a requintes de crueldade, segundo o narrador, porque o diário foi deixado num lugar de fácil acesso (criado-mudo dela, onde ficavam boletos de contas para pagar), o que presume intenção de ser encontrado ou despreocupação com esta possibilidade; porque o ridiculariza implacavelmente, e porque comprova pelo menos uma traição dela com um cineasta, que participava do Festival de Cannes, que ela cobria.

A metáfora recorrente para explicitar a dor e a fragilidade do personagem é esta: um corpo em carne viva. Ricardo relata que ficou sem pele. Não apenas nu, o que já seria vergonhoso e dolorido, mas sem pele alguma. Hipersensível, e vulnerável a qualquer mínimo contato ou sopro.

Segundo o site do hospital Albert Einstein, veja abaixo o potencial estressante de algumas situações, sendo 100 o maior possível (a fonte citada é The Social Readjustment Rating Scale, dos psiquiatras Thomas H. Holmes e Richard H. Rahe, ambos da Universidade de Washington, nos Estados Unidos):

morte do cônjuge  100
divórcio  73
prisão  63
morte de um parente querido  63
casamento  50
demissão do trabalho  47
aposentadoria  45
reconciliação conjugal  45
gravidez  40
grandes conquistas pessoais  28
problemas com o chefe  23
férias  13

Ou seja, a dor, considerando as particularidades da relação, a personalidade da mulher, a fragilidade do personagem e as circunstâncias traumáticas da descoberta, está bem descrita. Na escala, é o 2º evento mais estressante, e foi descoberto de forma bem ruim – resultado: deixou-o como morto (ele promete a si mesmo: “só morro mais uma vez”).

O processo de procurar o chão novamente, de recuperar a pele, utilizando para isso treinos de corrida, e a confusão que acontece em todo o processo é o que dará o tom a doze dos treze capítulos (batizados como os quilômetros de uma maratona). O último capítulo é uma discussão sobre a suposta gênese do romance, sobre escolhas feitas na hora de editar e revisar o livro, e o gesto final à ex-mulher.

Eu imaginei que ia achar, está bem aqui, pág. 103: “Os amigos da minha ex-mulher perceberam logo que eu era vaidoso e souberam me bajular”. Bom, vou ter que mencionar na resenha que você mesmo reconheceu sua vaidade. Acho que é um ponto positivo.  (…)Olha aqui, de novo, ainda melhor,  pág. 210: “Fiquei envaidecido. Eu era muito metido. Agora, depois de uma pancada em forma de diário kitsch, sei que não sou nada de mais.Minha vaidade era tão grande que precisei perder toda a pele para me livrar dela”. Mas será que se livrou mesmo?

O livro expõe as situações e seus personagens sem pudores. A memória do protagonista passeia, e ele vai “costurando” as lembranças em busca de entendimento. Neste processo, aparecem passagens com a ex-mulher, outras passagens anteriores ao casamento, cenas de sexo, indícios de comportamentos estranhos de ambos, e discussões com colegas dela. Depois do ocorrido, descontrole de praticamente todos, do ex-casal aos tais colegas, na maioria, também jornalistas.

Outra característica que aparece durante a leitura é o processo de “retomada de raciocínio” – as narrativas no início se sobrepõem, travadas, sem identificação temporal, numa confusão à altura do trauma. Gradualmente, começam a ser clareadas.

Ainda assim, por conta da linha borrada que faz confundir (propositalmente) o autor com o personagem, é uma leitura difícil. Ele cita “o medo de estar vivendo dentro de um de seus contos” e marca em determinado momento, com maiúsculas: “ACONTECEU NÃO É FICÇÃO”.

   Terminei a leitura. Tá, vou falar da vaidade e que mais? Porra, porque fui dizer que ia resenhar este livro? Nem sei se o entendi direito. Também nem sei se gostei ou não. Acho que sim. O cara escreve bem, vai.

Obras iconoclastas

O livro aproveita para criticar a vaidade, a superficialidade e a frieza de pessoas “carreiristas”, que querem subir na vida a qualquer custo – a mulher é assim descrita. Por extensão, critica, mas não de forma generalizada, os desmandos dos maus jornalistas, que podem difamar, insinuar e manipular as notícias em desfavor de quem queiram.

As posições são fortes e embasadas, apesar de maniqueístas. Recordando a pessoa do personagem e a situação vivida, não haveria como não se vitimizar, nem como não vilanizar a algoz (que poderia ser bancária ou advogada): a ex-mulher, retratada como fria, egocêntrica e imoral. Tudo bem que a metáfora da dor sentida, constantemente repetida, já comove o leitor e o seduz – pois quem não teria compaixão de alguém sem pele? – e, por conseguinte, deixa a ex-mulher em maus lençóis. Mas o que ela vai revelando de si é suficiente para se complicar. Claro que ela o faz por intermédio do autor, Ricardo Lísias, que tudo indica ser bastante próximo do personagem, Ricardo Lísias. Mas não sejamos injustos com eles.

Num rápido exame de consciência, e puxando pela memória situações traumáticas vividas que tenham como cerne algum relacionamento, é fácil perceber que este caminho é natural – nós, conhecedores que somos de todas nossas motivações e claras justificativas, somos as vítimas, enquanto o outro é o algoz, porque não nos entende. Então, a vitimização do Ricardo Lísias esfolado não é um demérito do livro, ao contrário, lhe empresta maior veracidade. Sua dor é a protagonista e a narradora.

Criticar os carreiristas é outro ponto contra o qual é difícil discordar. Seja porque o ideal de trabalho hoje – seja competitivo, trabalhe mais, supere seu colega, ganhe mais, leve vantagem, mostre serviço, dispense os excedentes, ponha os subalternos no lugar deles etc etc, é diametralmente oposto a uma vida minimamente significativa e com valores, seja porque há péssimos exemplos em todas as profissões – é um bom serviço prestado o livro discutir por que pessoas com algum poder se sentem tão superiores (a mídia é um enorme poder, o 4º poder), e porque a ambição de subir na carreira a qualquer custo pode manchar reputações, estragar amizades e relacionamentos e contaminar o caráter das pessoas.

Na verdade, discussões sérias e profundas são recorrentes ao autor: em O Céu dos Suicidas, ele batia nas tradições religiosas, aquelas que condenam para além de qualquer solução um suicida, e que falham fragorosamente em consolar os que ficam. Há que se convir que as religiões, como um todo, falham muitas vezes, quando, engessadas por suas tradições e dogmas, são incapazes de tentar entender os defeitos e desesperos humanos, que levam a gestos extremos.

Ou seja, é uma obra iconoclasta, na medida em que agride as tradições e convenções, e mostra suas fraquezas e vícios. Possivelmente, esta é uma chave de leitura para ler Ricardo Lísias: se preparar para polêmicas. Suas obras tendem a não ficar só na superfície, boiando inofensivas. Elas instigam e apontam o dedo para as feridas.

Só que aquilo que o autor Ricardo Lísias dá a conhecer de si, é exatamente assim também: agressor daquilo que discorda, como o conformismo, as tradições caducas e os comportamentos corporativistas e/ou predatórios. E isso confunde mais ainda a cabeça dos pobres resenhistas e críticos, a separar os Ricardos.

A crítica menciona autoficção, e Ricardo discorda. Quer dizer, é autoficção, porque eu comprovei que ele fala do Ricardo Lísias escritor, não comprovei? O mesmo cara que escreveu para piauí, que corre e  que tudo indica que se divorciou… Ah, não vou ficar caçando nome da ex-mulher jornalista, isso pode ser inventado. Como todo o resto…  E aí, já não é autoficção… (Suspiro). Mas foi ele que escreveu Céu dos Suicidas, ele fala de si próprio. Mas em qual medida?

A arte que choca demora a ser reconhecida

Geralmente, os hábitos adquiridos como leitor facilitam novas leituras. Como já dito, leitores contumazes comparam tudo o que leem com tudo o que já leram, e tendem a perceber nuances de estilo e referências. Como todo o gosto que é depurado pelo prazer que te dá, você vai subindo as exigências, ficando mais crítico e teoricamente, tendo maior autoridade para dizer do que gosta ou não, e porquê.

Só que, para ler Ricardo Lísias, estes hábitos chegam quase a dificultar. Você vai lendo e, dependendo do enfoque, vai se agradando com o que lê ou não. Se a leitura enfatiza o apuro literário, o estilo limpo, o humor involuntário e a acidez, você gosta bastante. Se você achar que é autoficção, se se obcecar em procurar as referências de eventos reais acontecidos, pode não gostar. Se entender que este jogo todo é uma desconstrução dos moldes normais da literatura e do romance, pode voltar a gostar, ainda que já esteja meio cansado. Este é o preço do pioneirismo que leva a autorreferência a um novo patamar.

Não poucas críticas atingem o autor, o que acaba desviando o enfoque do mérito literário de seus últimos livros. Uma análise precipitada de sua obra provavelmente destacará alguma controvérsia ligada a tal autoficção ou termo semelhante, discutindo suas intenções e referências autobiográficas. Mesmo uma análise que destacasse a predominância das narrativas em 1ª pessoa entre os “novos” autores e o que há de confessional nelas, tenderá a deixar o mérito de suas obras em segundo plano.

Ao me dar conta disso, durante a produção desta resenha, deixei de lado a abordagem que pretendia – fazer um apanhado da vaidade dos novos autores e suas narrativas confessionais em 1ª pessoa, cujo ápice seria os últimos livros de Ricardo Lísias, tornado personagem de mesmo nome e sobrenome de suas tramas, para então traçar um paralelo com um mundo que prioriza o individual e vai se ensimesmando cada vez, mas que também facilita a publicação de opiniões, blogs e resenhas, e cria algum espaço para todos que queiram se tornar um pouco escritores, ainda que quase todo o grosso desta produção seja vaidade e superficialidades.

Mas se a obra de Lísias até aqui não pode ser chamada de alguma coisa é justamente de superficial. Ela choca e inquieta, e este é um dos principais atributos que a arte pode ter.

 O avesso do avesso do avesso

Chegando a alguma conclusão sobre a obra do escritor mindfucker.

Chegando a alguma conclusão sobre a obra do escritor mindfucker.

Eu, como bom leigo de arte que sou, a reconheço segundo os padrões do senso comum. Ao ver o realismo de um quadro de Caravaggio, digamos, exposto no lugar adequado – um museu – o reconheceria facilmente como arte. Se visse o mesmo quadro fora do museu, ainda o reconheceria como arte, pelos seus pressupostos e pelo fácil encaixe no modelo estereotipado.

Já no caso de obras de arte iconoclastas e rompedoras de convenções, como o vaso sanitário de Marcel Duchamp ou o tubarão de Damien Hirst, que dependem de um contexto para serem entendidas como arte, não são facilmente reconhecidas como tal, e têm justamente nisto um de seus méritos. Afinal, um vaso sanitário fora de um banheiro e de um museu provavelmente é só sobra de alguma reforma, e um tubarão conservado talvez seja só para estudos de especialistas. Quebrar estas convenções é a sacada.

Divórcio, o último romance de Ricardo Lísias, vem no meio adequado: publicado em forma de livro exposto em livrarias e assinado por um escritor muito bom, com amplo domínio da escrita e de suas ferramentas, e que vai demarcando seu espaço. E, ainda assim, é uma obra que rompe paradigmas. Poderia ser apenas mais um livro sobre o tema, correto e bem escrito, com notas autobiográficas mais ou menos difusas, mas foi bem mais ousado que isso, e é um rompedor. Tem alguns defeitos, abusa da metalinguagem, começa meio confuso, com alguns discursos indefinidos no tempo e de identificação complicada na realidade da trama, mas vai engrenando, clareando, da mesma forma que o personagem começa a retomar o controle quando limpa seu “cafofo” e quando percebe que seu corpo sem pele, quando cansado pela caminhada, o permite dormir por algumas horas, e por isso, se põe a treinar para a corrida de São Silvestre.

O último capítulo antecipa críticas possíveis e entra no mérito das próprias escolhas feitas na escrita do livro. Daí que clareza ou padronização nunca foram preocupações, na gênese desta obra. Ao contrário, esta confusão é parte indissociável dela. Justamente como um divórcio: traumático, confuso, triste – o que só a torna mais real e lhe confere personalidade.

Além disso, borrar todas as linhas divisórias entre romance e autoficção também funciona como um recurso cíclico, como dois espelhos colocados de frente um ao outro, que espelham a imagem da imagem da imagem… da imagem ”n” refletida. Não são a ficção e a realidade imagens espelhadas?

Ou como o poema famoso de Fernando Pessoa, “O poeta é um fingidor/ Finge tão completamente/ Que chega a fingir que é dor/ A dor que deveras sente”, poderia vir uma paráfrase, que dissesse que o romancista ousa, ousa tão descaradamente, que finge que é ele a experimentar, aquilo que pode ter passado.

Estranho, não? Mas se você ler, vai entender.

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Por Rodrigo Casarin

Está aí o verão. Principalmente nesta época do ano, é difícil passarmos um dia sem ver na tevê, escutar no rádio ou ler em alguma revista ou site alguém falando sobre como cuidar do corpo. A ordem é clara: todos precisam estar em forma. Ser saudável não basta, é preciso ser sarado. É preciso que seu corpo esteja de acordo com os padrões de beleza atuais, nada de se achar bonito apenas por seguir critérios renascentistas. Ter uma barriga passa a quase ser um crime. Se ainda o barrigudo for flagrado se deliciando com uma bela porção de calabresa acebolada e um tonel de cerveja, aí o julgamento e a acusação são inevitáveis: precisa se cuidar mais.

E ta lá no programa das 13h20: tome suco de clorofila com jaca para diminuir a barriga; na revista semanal: corra 150km por dia e coma apenas mato para atingir o corpo perfeito; na Internet: plante a própria melancia e conquiste o corpo da mulher fruta da estação… É um policiamento constante, uma lavagem cerebral permanente.

Claro que ter um corpo saudável é importante, contudo, não é isso que pregam, não se enganem. Basta ver a quantidade de pessoas que tomam diversos tipos de substâncias maléficas ao ser humano apenas para atingir os formatos que nos empurram goela abaixo como sendo os ideais. Agora, se fingem querer que todos tenham uma saúde impecável, por que não desejam o mesmo para o cérebro?

Que interessante seria se assistíssemos na televisão, ouvíssemos nas rádios e lêssemos em qualquer canto sistematicamente coisas do tipo: “Você precisa ler mais, é importante para o seu cérebro”, “Não dê opiniões sem fundamentações básicas, estude o assunto antes de meter o bedelho”, “Ache o que quiser, mas saiba embasar os seus achismos”. Poderiam criar programas, que passariam no horário nobre, com dicas de leituras e debates sobre obras consagradas. Com o tempo, as pessoas se acostumariam com nomes como Tolstoi, Philip Roth, Gabriel Gárcia Márquez, Cristovão Tezza ou Jorge Luis Borges. Ficariam íntimas de Ryszard Kapuscinski e Charles Bukowski. Não estranhariam aquele gordo que continua comendo feito um porco, mas qualquer um que não saiba o mínimo sobre Dostoievski.

Obviamente outros programas abordariam outras manifestações artísticas. Os filmes enlatados dos Estados Unidos dariam lugar a verdadeiras obras de arte. Menos Spielberg, mais Ricardo Darín, Almodóvar e Lars Von Trier. Em seguida, discussões sobre as obras e como elas se encaixaram no contexto da época em que foram filmadas. Outras formas de se expressar também teriam seu lugar, tudo para que o cérebro de cada um seja realmente desenvolvido.

Alguns bons anos depois, teríamos muito mais pessoas cultas e verdadeiramente inteligentes por aí, com real capacidade para lidar com os problemas, com uma dimensão muito maior da realidade, que saberiam conviver muito melhor com as diversidades e respeitar o próximo. O próximo, esse sim, poderia ser gordo, magro, tanto faz, desde que saudável. Saudável de corpo e, principalmente, de mente (com o perdão do cacófato).

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Certa vez, enquanto estava hospedado em um hotel, dois fãs encheram tanto o saco das pessoas do lugar para ver Renato Russo que o cantor da Legião Urbana resolveu dar uma atenção aos malas. Contudo, ao invés de descer e falar com eles, Renato preferiu enviar uma carta e aproveitou para indicar leituras aos rapazes. Vejam o que ele escreveu:

O que está escrito:

Tudo bem, tudo bem.

Mas realmente não gosto que me visitem sem me avisar antes – sempre estou ocupado ou fazendo alguma coisa ou etc.

Uma boa idéia rapazes é LER LIVROS, aí vocês verão que eu nem sou tão original (etc.) assim.

Uma lista:

Zen e a arte de manutenção de motocicletas – Robert M. Pirsig

A montanha mágica – Thomas Mann

Admirável mundo novo – Aldous Huxley

Estórias de fadas – Oscar Wilde

Revolução dos bichos – George Orwell

Capitães de areia – Jorge Amado

O encontro marcado – Fernando Sabino

O apanhador no campo de centeio – J. D. Salinger

Discurso sobre a servidão voluntária – Etienne de la Boétie

O senhor dos anéis – J. R. Tolkien

Siddharta – Herman Hesse

Demian – Herman Hesse

Narciso e Goldmund – Herman Hesse

O lobo da estepe – Herman Hesse

Histórias extraordinárias – E. A. Poe

Fundação – Isaac Asimov

1984 – George Orwell

 

Autores interessantes:

Julio Verne

Fernando Pessoa

Carlos Drummond de Andrade

Colin Wilson

&

O vampiro Lestat – Anne Rice

Feliz ano velho – Marcelo Rubens Paiva

 E milhões de outros livros jóia.

Etc.

 Boa leitura

 Renato Russo

 E aí, o que acharam da lista?

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Desde que me tornei um leitor mais assíduo – e lá se vão bons anos – costumeiramente penso sobre formas de incentivar a leitura em um país que não a tem como tradição primária. Mas, em contrapartida, também penso sobre alguns meios que vez ou outra surgem em larga escala, mas que são absolutamente controversos.

O batido conselho “deve-se ler tudo, não importa o tema, nem que seja bula de remédio”, ainda que soe num tom quase desesperador, não apresenta nenhuma grande surpresa, afinal, é realmente melhor que o hábito de ler comece de alguma forma, nem que pelo desenvolvimento de uma possível hipocondria.

Entretanto, uma das formas de “incentivo” que surgiu com a popularização da internet, e que me incomoda desde que comecei a usar ativamente uma conta de e-mail, é a dos textos apócrifos. Para quem não sabe, um texto apócrifo é um texto cuja autoria é duvidosa ou não pode ser verificada, ou seja, com grandes chances de ser falso – ou falsamente atribuído a alguém, claro.

Pois é, levante a mão quem aqui nunca recebeu por e-mail (por mais bem intencionado que fosse o remetente) um texto fofo e meigo, “assinado” por Carlos Drummond de Andrade, Clarice Lispector, Mario Quintana ou, o mais comum, o gaúcho Luis Fernando Verissimo. Arnaldo Jabor, Fernando Pessoa e Vinícius de Moraes também têm a “honra” de alguém lhes dar a paternidade de textos piegas, excessivamente sentimentais e, no geral, notadamente mal escritos.

Esses fatores, obviamente, evidenciam a falsidade dos textos, que geralmente fogem por completo do estilo dos autores a que são atribuídos, mas não são os únicos. Muitas vezes o descuido com a estética da escrita – é comum ver erros de grafia nas palavras, muitas vezes provocados pelo encurtamento que a escrita na Internet promoveu, como, por exemplo, em “vc” – ou até mesmo na correta reprodução do nome do autor. Luis Fernando Verissimo é comumente reproduzido como Luiz Fernando Veríssimo (sic).

A origem mais comum de tais falsas atribuições é dar uma maior dimensão a textos de autores que estão começando, que certamente não teriam se fossem assinados por eles. Muitas vezes a má fé não parte dos autores, mas fica difícil identificar onde a fraude começou. Enfim, esse fato cai diretamente na discussão proposta, vale qualquer coisa para incentivar a leitura?

Bom, a minha opinião é terminantemente contrária a essa ou qualquer outra prática que, ainda que com o objetivo de incentivar algo producente, utilize-se de métodos que firam a ética e a moral, extremamente envolvidas na questão dos direitos autorais. Eu sei, não é tão simples assim identificar, só pela leitura, se um texto é ou não do autor ao qual está sendo atribuído. Mas, claro, é uma covardia passar adiante um texto de origem duvidosa, que muitas vezes propaga de modo medíocre – tanto em forma quanto em conteúdo –, de lista em lista, ideias recheadas de lugares comuns e obviedades, e que claramente não seriam assinadas por nenhum grande escritor.

Dessa forma, ainda que a mensagem seja legal, o conteúdo motivacional, ou simplesmente o texto contenha uma história engraçadinha, passar adiante textos cuja autoria não possa ser verificada é reforçar um padrão criado por alguém sem coragem de assumir as próprias ideias – ou que também foi “fraudado” sem saber – e que as atribui à credibilidade de nomes consagrados e que nada têm a ver com o que foi escrito.

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Ainda em tempo, já que o papo é incentivar a leitura por meios honestos e legais, uma dica é um movimento literário mundial que chegou ao Brasil e felizmente cresce a cada dia, o BookCrossing. Todas as informações a respeito podem ser encontradas no site (www.bookcrossing.com.br), mas a ideia central pode ser definida em três pilares básicos: ler, registrar e libertar. Resumidamente, o objetivo é transformar o mundo todo em uma biblioteca e, para isso, basta que você pegue um livro que já leu, registre-o e deixe em um lugar público para ser encontrado e lido por outro leitor, que por sua vez deverá fazer o mesmo. Sabemos o quanto às vezes é difícil promover o desapego com livros que fizeram e fazem tanta diferença em nossa formação, mas o Canto dos Livros apoia e incentiva o BookCrossing!

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