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Posts Tagged ‘ficção cientifica’

O cenário é desolador. As pessoas pouco conversam. As televisões são projetadas nas paredes das casas – em um mesmo ambiente, se os quatro lados puderem ser transformados em telas, um tanto melhor. Quase ninguém presta atenção no que está ao seu redor. As publicidades possuem tamanhos colossais, para que os jovens que dirigem a mais de 190 quilômetros por hora possam vê-las.

Nesse lugar, qualquer livro é um objeto proibido. Para que não haja risco da população possuir bibliotecas – ou um mísero exemplar de alguma obra –, bombeiros são encarregados de atear fogo em qualquer livro que encontram. Isso mesmo, em Fahrenheit 451 (temperatura na qual o papel pega fogo) os bombeiros colocam fogo em livros, ao invés de apagar incêndios. O objetivo? Acabar com discussões provenientes de pensamentos opostos e, consequentemente, trazer a felicidade para todo o povo.

A história tem Montag, um bombeiro, como personagem principal. O cara se orgulha de sua profissão e realiza sua tarefa com prazer, até que um dia se encontra com Clarisse, sua vizinha de 17 anos. A menina – uma “subversiva” que ousa admirar as flores e sentir prazer em tomar chuva – puxa conversa com Montag e o questiona de diversas coisas relacionadas à forma como ele leva a vida. Ao final do papo, começa a surgir no bombeiro uma espécie de rebeldia, que propulsionará a mudança que acontece com o personagem ao longo da história.

Escrito por Ray Bradbury, Fahrenheit 451 foi transposto para os quadrinhos por Tim Hamilton (com autorização e aprovação Bradbury) em 2009 e agora chega ao Brasil pela Globo Graphics. A adaptação segue fielmente a obra original, mantendo inclusive as falas mais marcantes dos personagens. Como o texto de Bradbury conta com poucas descrições de cenários, a maioria dos desenhos são repletos de sombras, o que permite ao desenhista omitir boa parte dos espaços onde a história se passa ou trabalhar apenas com traços mais simples. Consequentemente, esse recurso acaba proporcionando à história um clima mais sombrio do que a sua versão original. Também em decorrência dos parcos cenários, os planos mais fechados são bastante utilizados, para que a atenção esteja realmente centrada nos personagens – por isso mesmo, as expressões nos rostos de cada um deles poderiam ser melhor trabalhadas.

Caso Hamilton tivesse se preocupado um pouco mais com a maneira que a história é contada nos quadrinhos, o resultado final de seu trabalho com certeza seria melhor. Em muitos momentos falta dramaticidade. O tom dos acontecimentos pouco varia, quase tudo parece acontecer sob o mesmo clima, e isso acaba por prejudicar um pouco a intensidade das cenas.

Apesar da obra ser bem adaptada para os quadrinhos, ela perde parte de suas forças nesse formato de mídia. Uma história que fala sobre uma sociedade onde os livros são proibidos e queimados possuí um significado muito maior quando contada exatamente em um livro. E que fique claro que livros e histórias em quadrinhos, por mais que possuam formatos muito semelhantes, são mídias distintas. Para boa parte dos estudiosos, inclusive, as Hqs se aproximam muito mais do Cinema – principalmente por causa da relação entre palavras e imagens – do que da Literatura.

A versão em quadrinhos de Fahrenheit 451 poderia ser melhor em alguns pontos, mas, apesar disso, é sim uma boa obra e uma excelente opção tanto para quem já leu o livro quanto para aqueles que desejam conhecer essa história, que está no hall dos grandes clássicos da ficção científica com teor distópico, junto com 1984, de George Orwell, Admirável mundo novo, de Aldous Huxley e Laranja mecânica, de Anthony Burgess.

Livro: Fahrenheit 451

Autor: Ray Bradbury e Tim Hamilton

Tradução: Ricardo Lísias e Renato Marques

Editora: Globo

Páginas: 160

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Eric Novello é o tipo de cara que faz trocentas atividades diferentes, mas todas elas ligadas por um mesmo fio: o das letras. Além de fazer leituras criticas e copidesque de originais de livros, é critico de cinema, música e literatura, roteirista e tradutor. Escreveu o romance histórico Dante – O Guardião da Morte, o romance de humor Histórias da Noite Carioca e o suspense de fantasia Neon Azul. Também já participou como autor e/ou organizador de antologias de contos, como a Imaginários  e a Paradigmas Vol. 1, ambas de fantasia, ficção-científica e terror. Parte de sua produção está disponível em seu site , na seção de textos online. O escritor ainda possui o recém-nascido Magos Urbanos, blog onde fala sobre seu processo de criação de um projeto de fantasia urbana. E para conversar de escrita, tradução, mercado editorial e possibilidades para novos escritores, dentre outros assuntos, é que conversamos com Eric.

Canto dos Livros: Atualmente você trabalha apenas com texto, seja escrevendo ou realizando traduções, certo? Como você conseguiu atingir esse patamar almejado por tantos autores?

Eric Novello: Bem, tudo na vida é uma questão de ter metas e objetivos claros e… mentira. Não tenho uma resposta edificante para essa pergunta. Aconteceu, sem nenhum planejamento. Fui aproveitando as oportunidades que surgiam de sair da área científica (Biotecnologia/Farmácia/Bioquímica de Alimentos) e migrar para a área de criação (Cinema/Literatura) e cá estou. Como pauto minhas escolhas pelo prazer que terei com elas e pelo horário em que terei que acordar, não tive muita dúvida de que caminho seguir. É menos uma questão de saber para onde ir e mais de saber para onde não ir. Acabou que hoje trabalho com o que gosto, ganho o suficiente para não arrancar os cabelos e posso estourar meu reclamômetro com outros assuntos.

CL: A leitura de quais obras e autores é imprescindível para quem quer ser escritor?

EN: Não creio que hoje existam autores imprescindíveis. Conhecimento nunca é demais, isso é fato. Quem se acomoda em um determinado gênero ou autor carece de bagagem para escrever uma boa história. Por outro lado, é cada vez mais complicado gerenciar o nosso tempo. Nem chamo mais de tempo livre, porque isso para mim não existe. Então, cada um deve saber no que apostar.

Vamos começar pelo óbvio. Como autor, seria interessante pensar que obras dialogam com o seu trabalho. Se você irá escrever ficção-científica, leia muita FC. Se irá apostar em distopias, leias as distopias. Se decidiu ser um autor de literatura noir, policial, terror, escolha livros e autores icônicos do gênero e leia muito. Se escreverá literatura do cotidiano, mergulhe fundo também.

Não existe uma fórmula. Pode ser que o gênero não seja o seu foco, e sim um aspecto específico: traição, solidão, sexo, triângulos amorosos. Talvez você tenha mais interesse na estrutura do que no assunto. Seja um garimpeiro literário e expanda sua visão ao máximo.

Sobre instrumentação, eu fujo de livros de teoria literária. Porém, amo os de teoria de cinema. Um livro que influenciou muito o meu modo de compor personagens é O Nascimento da Tragédia, do Nietzsche, que li pela primeira vez para as aulas de estrutura dramática da escola de cinema.

Deixo aqui uma lista breve de autores e livros que me influenciaram e influenciam, caso queiram pesquisá-los: Crash (JG Ballard), Trem Noturno (Martin Amis), Fim de Caso (Graham Greene), Invisível (Paul Auster), Coração tão branco (Javier Marías), As Brasas (Sándor Márai), Ubik (Philip K. Dick), White Knight (Jim Butcher), Laranja Mecânica (Anthony Burgess). Todos livros fáceis, nada de outro mundo. Curiosamente, todos trazem personagens extremamente miseráveis em algum aspecto de suas vidas.

CL: O que acha das editoras especializadas em publicar novos autores? Publicar desta forma ou num selo do tipo “Novos Escritores” pode estigmatizar um autor?

Seja lá qual for o esquema de publicação, o que vale é a qualidade do seu texto. Daí vem a pergunta: essas editoras têm algum critério de qualidade na hora de publicar os novos autores ou é só apresentar o texto, pagar e pronto?

Se o seu texto for bom, é essa a etiqueta que prevalecerá. Se o seu texto for uma porcaria… É claro que cada um tem uma opinião, gosto é gosto, e todo aquele papo que a gente já conhece. Mas se você escreve mal, não tem tempero que disfarce o gosto amargo. Não digo que o primeiro texto de alguém será perfeito, espero que o mais recente seja sempre o melhor, mas é preciso ter um mínimo de critério com o que se pretende apresentar ao público. Quando o autor não tem esse critério, cabe ao editor explicá-lo. Se o editor é falho, quem se ferra é o autor.

CL: Como é organizar uma antologia de contos?

EN: Imagine um mago, trancado numa cela, precisando conjurar um demônio para escapar. Ele não tem os ingredientes certos, ele não está nas melhores condições, o tempo é curto, a chance de dar errado é grande e provavelmente o demônio, se sobreviver, sairá do seu controle. É exatamente assim.

Cada vez que começo, fico me perguntando “por que mesmo fiz isso?”. Mas logo que termino já penso na próxima. Cada coletânea que organizei até agora me trouxe experiências completamente diferentes, então não tenho muito como organizar um raciocínio em torno. Diria que a única coisa que acho realmente importante na hora de decidir o tema e perfil de uma coletânea com os editores é abrir espaço para novos autores. O resto varia.

CL: Por favor, explique como é o trabalho de copidesque. Em que ele difere de uma outra atividade sua, a leitura crítica da obra?

EN: Na leitura crítica você analisa um original e no final escreve um laudo para o autor ou editor, descrevendo o que achou falho no livro. Recomendo o filme ou a peça de teatro The Bluetooth Virgin, uma comédia independente, para quem quiser entender melhor o processo. Tem uma cena hilária em que o autor (no caso, um roteirista) se encontra com a guru que analisou o seu original e conversa sobre os motivos do fracasso.

O copidesque é um trabalho intrusivo. Eu mexo no texto, reescrevo frases, busco pontos desconexos, sempre respeitando o estilo do autor, sua escolha de palavras. Você não pode pegar um livro romântico e transformar num suspense só porque não gosta do primeiro gênero. Vale lembrar também que as alterações são marcadas no texto para que o autor decida aceitá-las ou não. Se eu achar algo muito ruim e o autor decidir que aquilo é fundamental na qualidade da obra-prima dele, não discutirei.

CL: Copidescar um livro exige, entre outras coisas, muita liberdade e até intimidade com o autor, certo? Como você seleciona os autores que irá trabalhar? Já teve algum problema com isso? Qual(is)? Quais dicas daria pra quem vai trabalhar como ou com um copidesque?

Já fiz trabalho de copidesque sem nenhuma intimidade com o autor e é algo que não pretendo repetir, mas não quer dizer que não possa ser feito. O importante é o profissional de copidesque ter um mínimo de intimidade com o gênero com o qual trabalhará para evitar burradas que já vi por aí.

Eu hoje prefiro trabalhar com novos autores de fantasia. Gosto de ajudar novos nomes a dar um primeiro passo dentro de um gênero que curto.

Problema sempre há, só muda a intensidade. É muito difícil mexer no texto dos outros, é muito doloroso deixar alguém mexer no seu texto. Mas é necessário, e se não houver confiança, o trabalho não vai para frente. Você deixaria alguém em quem você não confia palpitar na sua vida? Um bom conselho é um conselho sincero ou aquele que diz o que você quer ouvir? A ideia por trás do copidesque é a mesma. O amadorismo literário traz a falsa noção de obra-prima intocável, seja um autor estreante ou um com alguns romances na bagagem. Tem gente que escreve uma porcaria de texto e se apega aquilo com todas as forças, não se permite mudar.

Em compensação, quando ocorre o inverso, é muito gratificante ver a evolução do autor desde a primeira versão do original até a versão final e de um livro para o outro.

A minha dica é transformar o trabalho em uma sessão de brainstorming, a via é de mão dupla.

CL: Nos seus livros você trabalha muito com o tênue limite entra ficção e realidade. O que você acha da literatura de não ficção?

EN: Leio literatura de gênero e do cotidiano na mesma proporção. O que importa é que sejam bons autores, boas histórias, ou que me ofereçam o que estou procurando naquele instante. Não vou esperar que Charlaine Harris me traga o mesmo que Philip K. Dick, ou que esse me traga o mesmo conteúdo que um Haruki Murakami ou Javier Marías. São aulas diferentes, digamos assim. O conteúdo da aula de Parasitologia é diferente do conteúdo da de Microbiologia. Existem autores contemporâneos muito bons em todos os gêneros. Seja você autor ou leitor, aconselho que se leia um pouco de tudo. Não se force a nada, porém não se acomode.

CL: Como funciona o trabalho de pesquisa para a redação de uma obra com bases históricas reais e mitológicas, como Dante, o guardião da morte?

EN: É um processo exaustivo, mas gostoso. No caso do Dante, eu sou fascinado pela Roma Antiga e por Julio César, então sabia onde estava mirando. A pesquisa precisa ser equivalente ao nível de detalhes que você pretende adotar no livro. E se pensarmos nesse aspecto, o Dante não pode ser usado como exemplo, porque eu decidi tomar liberdades para o andamento da trama. No livro você vê a minha versão de Roma. Diria que a minha preocupação foi com a ambientação e não com a recriação. A ambientação em Dante é um elemento tão fantasioso quanto a presença dos deuses imortais que permeiam o livro. Funciona? Acredito que sim. Passaria pelo crivo de um historiador? Certamente não.

CL: O que pode dizer sobre o mercado brasileiro? Na sua opinião, a afirmação “o brasileiro não lê” procede ou é uma falácia?

EN: Essa é fácil. Pegue seu círculo de amigos. Não vale autores! Quantos deles leem? Com que frequência? Agora tire os que leram só Best-sellers e livros de autoajuda. Sobraram quantos? Quando digo que leio um livro por semana (uma média confortável quando não estou atolado de trabalho), muita gente fica espantada. Gente que tem grana para comprar livros, um emprego bom e tempo livre ($) para viajar quatro ou cinco vezes por ano para o exterior acha estranho alguém ler um livro por semana. Se eu dissesse que vejo um filme por semana, o espanto não seria tão grande. Se eu falar que saio para beber toda semana, aí eu seria padrão.

Estou comparando banana com maçã de propósito para mostrar que ser leitor no Brasil ainda é ser um alien. Ler no Brasil não é visto com naturalidade.

Então não existe mercado? Claro que existe, com o público “jovem-adulto” fazendo a diferença em termos de vendas atualmente. Mas o fato de um autor ter rompido a barreira dos 100.000 exemplares vendidos não torna todos os outros Best-sellers potenciais, não importa o quão “acessível” seja o texto. Esse papo de potencialidade pura inerente a cada um de nós cabe melhor na autoajuda, justamente.

O que podemos dizer com segurança é que o brasileiro está lendo mais. Espero que siga daí para cima. Mas não existe mágica. Existe marketing.

CL: No Brasil, ouvimos falar muito de autores, mas pouco de tradutores? Por que isso acontece? Falta reconhecimento para o trabalho de tradução?

EN: A gente também ouve falar pouco de engenheiros mecatrônicos e nem por isso eles deixam de ser valorizados. Existem profissionais especializados no controle de crustáceos que crescem em turbinas de hidrelétricas. Eles são reconhecidos? Mas são valorizados. O mercado de tradução segue as mesmas regras de qualquer outro. Tem áreas que pagam mais, áreas que pagam menos, clientes melhores e piores. Há cursos, faculdade, pós em tradução, ou seja, muitas possibilidades de instrumentação. Eu prefiro ser bem pago (valorizado) a ser “reconhecido”, com muitas aspas, por favor. Não podemos confundir reconhecimento com presença histriônica na Internet e elogio de meia dúzia de amigos. Repito, é um mercado como os demais. Se nos prendermos à literatura, aposto que há ótimos tradutores, premiados, respeitados, e que eu nunca ouvi falar. Em suma, não é porque eu não conheço que não há reconhecimento, não é porque não há barulho que não há valorização. Desconfie de quem faz barulho demais.

Considero uma ótima profissão e dou força para quem quiser se aventurar nela.

CL: Os escritores formam uma “classe” muito desunida. Concorda? Por quê? O que poderia ser feito a respeito?

EN: Quando ouço essa ideia de classe unida e desunida me vem em mente os metalúrgicos do ABC lutando por aumento de salário, redução de jornada. E na literatura não existe isso. É bonitinho falar que somos todos amigos e que estamos no mesmo barco, mas não é real. Eu sou formado como farmacêutico, bioquímico de alimentos. Cada turma de faculdade tinha em média 70 alunos. Conheci mais de 400 pessoas. Eu sou amigo de todas elas só por sermos farmacêuticos? Lógico que não. Então por que seria amigo de todos os autores? É preciso afinidade para se aproximar de alguém. Posso gostar de um autor porque o texto dele é bom, porque ele é uma boa pessoa, etc. Cada um tem aí sua lista de itens que leva a aproximações e afastamentos, uma lista singular e intransferível. Não importa se essa pessoa é um autor, padeiro, arquiteto, empresário.

Alguém pode argumentar que todos os autores têm uma causa em comum e que é preciso união em torno dela. Tem mesmo? Qual seria? Cada grupo terá suas causas, suas lutas, suas discussões internas e sorrisos externos. É assim em qualquer ambiente de trabalho, mesmo nesse que dá mais prejuízo do que dinheiro. A sua causa digníssima pode, para mim, ser uma grande piada e vice-versa. O que existe no ambiente literário é uma capacidade imensa de se unir em torno de um inimigo em comum, o que dá a falsa ilusão de união aqui e ali. Amizade e afinidade são elementos raros em qualquer âmbito, não teria porque ser diferente na literatura.

Se cada indivíduo ou cada grupo batalhasse mais suas próprias causas e perdesse menos tempo destruindo a dos outros, talvez a literatura de gênero avançasse mais e a sensação de união fosse maior.

CL: O que é exatamente a “Fantasia Urbana”?

EN: “Exatamente” e “fantasia urbana” não têm tido um bom convívio faz um tempinho. Eu dividiria hoje o gênero em duas correntes:

A que explora a fantasia em uma cidade contemporânea, seja uma grande metrópole ou cidade periférica a ela, com uma dinâmica que fuja do bucolismo. É o que escrevo. Entram aí nomes como Jim Butcher, Lilith Saintcrow, Charlaine Harris, etc.

Tem um número grande de autores fazendo isso hoje. Discutiu-se há um ano o desgaste do gênero, mas as vendas continuam fortes e os olhos dos editores continuam brilhando.

A que põe a fantasia em uma cidade, seja qual for, de qualquer época. Uma cidade em um planeta distante? Pode ser. Uma cidade medieval? Por que não? Essa corrente foi quase um movimento de resposta à anterior. Alguém gritou “chega de livros que são romances de vampiros com lobisomens” e fez-se a quebra. Estou organizando uma coletânea para a editora Draco chamada “Fantasias Urbanas” que cabe nessa segunda opção.

Hum! Entendi, Eric. Então Crepúsculo é uma fantasia urbana? Não. É um gênero próximo chamado Paranormal Romance ou Romance Sobrenatural.

CL: O que acha dos outros meios de escrita, como HQ’s, e-books, blogs? Também podem ser considerados literatura?

EN: Temos duas coisas diferentes aí. E-books e blogs são veículos para a literatura. Eu posso colocar no meu blog a receita de bolo de cenoura da minha avó e posso colocar um conto. Esse conto pode (ou não) ser melhor do que meus contos publicados em papel. A Internet não o torna um texto menor. Papel não é sinônimo de qualidade. O blog é um espaço e você usa como quiser, inclusive para mostrar a sua literatura. Um e-book também. Ter medo de avanço tecnológico é burrice. Antes de qualquer coisa, eu sou um comunicador e meu site e as ferramentas sociais me colocam em contato com o público leitor. É algo que vale ouro para mim.

HQs eu leio pouco. São leituras muito pontuais, mas tenho um respeito enorme por elas. Justamente por isso, mesmo quando leio, não comento, porque julgo ser necessário um conhecimento maior do que eu tenho. Mas me incomoda isso de chamar HQ de literatura para legitimá-la. Por que ela só teria valor se fosse considerada literatura? Ela não pode ter valor sendo simplesmente “HQ”? Essa é uma discussão longa, teríamos que jogar o conceito de Graphic Novel na roda também. Como eu disse, tem gente mais capacitada para isso do que eu.

CL: Você também é crítico de cinema. Quais foram as melhores obras transpostas dos livros para as telonas? Por quê?

EN: Antes o porquê, depois os filmes. A meu ver, uma boa adaptação é um filme que funciona de forma independente da obra de origem, sendo ou não 100% fiel ao conteúdo do livro. A linguagem cinematográfica é diferente da literária e quem consegue fazer a transposição com qualidade merece mesmo os parabéns. Um filme foda é um filme foda, ponto.

Exemplos que me vêm em mente: O poderoso chefão, Senhor dos anéis, O talentoso Ripley (que os fãs da Patrícia Highsmith geralmente não curtem), 90% dos filmes do Kubrick, muito do cinema noir e, é claro, Crepúsculo (Just kidding!).

Entrevista concedida à equipe

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laranjaMais conhecida pela sua versão cinematográfica, dirigida Stanley Kubrick, Laranja Mecânica é uma grande obra também da literatura. Escrito pelo inglês Anthony Burgess, o livro aborda a violência praticada por gangues de jovens, como ela interfere na sociedade – também responsável pelo problema – e a forma como os sistemas políticos se aproveitam disso tudo.

A história é dividida em três partes. Na primeira, o jovem Alex – personagem principal e narrador da trama – e seus amigos Pete, Georgie e Tosko andam pela cidade cometendo atrocidades. Divertem-se espancando mendigos, brigando com outras gangues, estuprando mulheres e invadindo casas para agredir os residentes. Em uma destas invasões, o desfecho acaba sendo infeliz para Alex, que, sozinho, acaba preso.

A segunda parte da história se passa no presídio. Alex se torna um detento de boa conduta, porém com uma grande vontade de conseguir sua liberdade o mais rápido possível. Por isso se candidata e é escolhido para ser cobaia de um novo experimento, desenvolvido por cientistas, que promete eliminar a violência que há nas pessoas. O tratamento consiste em imobilizar o “paciente” de maneira com que ele não consiga sequer piscar os olhos e expô-lo a filmes com diversas cenas brutais.

Ao final do tratamento, realizado com êxito, Alex é devolvido à sociedade, mas, ao chegar a sua casa, encontra seu quarto ocupado por um inquilino de seus pais. Sem ter para onde ir, começa a vagar pelas ruas até ser espancado por um grupo de velhos após um deles reconhecê-lo como o delinquente que era. Sem conseguir reagir, devido à repugnância à violência que o tratamento lhe impusera, o jovem só é salvo com a chegada da polícia, que o leva para um lugar afastado da cidade e também o agride.

Todo machucado, Alex consegue achar uma casa, pede auxilio e é ajudado por pessoas do partido opositor ao governo, que tentam usar o jovem como uma prova de como os mandatários do país maltratam os humanos.  A partir deste ponto, tanto dirigentes da oposição quanto da situação governamental buscam utilizar Alex de acordo com seus próprios interesses.

Alguns pontos da narrativa chamam bastante atenção, como a forma que o personagem principal acaba passando de criminoso para vitima de todo um sistema. Além disso, a violência de Alex contrasta com sua paixão pela música clássica, que acaba tendo um papel primordial na história.

Também merece destaque o cuidado que Burgess teve ao criar diversas palavras para construir o dialeto dos jovens da história. A mais recente versão em português do livro, publicada em 2004 pela editora Aleph, traz um interessante prefácio, escrito por Fábio Fernandes – tradutor da obra – contando como o escritor criou estas gírias e o trabalho para adaptá-las ao português.

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admiravelUma história atemporal é um dos requisitos mais lembrados dentre as razões que tornam um livro um clássico. “Admirável mundo novo”, do inglês Aldous Huxley, vai além. Escrito em 1932, a história é uma das principais referências quando o assunto é ficção cientifica, rótulo bem estipulado para os padrões da época. Acontece que, com o passar do tempo, o livro se tornou (e se torna) cada vez mais atual.

A história mostra uma sociedade onde as pessoas são produzidas em série, com características em comum e divididas em castas. Cada uma serve para algum tipo de trabalho especifico e os modos de vida são semelhantes. A história é ambientada em uma Inglaterra do futuro, onde Deus é banido e passa se chamar Ford, clara alusão aos donos de empresas e detentores da grana que comandam a sociedade.

Nas castas mais baixas, os livros são objetos proibidos e autores ocultados, para que as pessoas não questionem a teoria de que nada que é velho pode ser melhor do que as coisas novas. Por interesse das autoridades, a privacidade do individuo é banida e os sentimentos suprimidos pela “soma”, uma espécie de droga, que pode ser comparada ao álcool ou calmantes.

Talvez uma das partes mais emblemáticas do livro seja quando o administrador da sociedade explique o porquê as pessoas são feitas com repudio as flores: não poderiam gostar de alguma coisa com a qual não se pode ganhar dinheiro, pois os campos e jardins são gratuitos.

O ponto alto da história acontece quando um “selvagem” é integrado à sociedade. Vindo de Malpaís, lugar sem atrativos financeiros – portanto desprezado pelos ingleses – ele começa questionar de vida das pessoas vivem e a reivindicar seus direitos, funcionado como uma espécie de filósofo em uma sociedade que não pensa.

O que em 1932 foi escrito como uma obra de ficção cientifica hoje pode muito bem ser considerada uma abordagem de como pode ser o futuro (ou até mesmo o presente) da humanidade.

*Resenha resgatada do meu antigo blog

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