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Posts Tagged ‘ficção’

Por Rodrigo Casarin

_FANTASMAS_NA_BIBLIOTECA_1364484163P1.

Sou são paulino e apaixonado por futebol. Antes do preço dos ingressos me afastar da arquibancada, ia praticamente toda semana ao Morumbi, e às vezes até viajava para torcer. Como também sempre gostei muito de ler, natural que tenha um enorme interesse por livros sobre futebol e torcidas.

Em uma conversa, descobri que precisava ler Entre os vândalos, de Bill Buford, jornalista que viveu como autêntico hooligan do Manchester United e depois transformou sua experiência em livro-reportagem. Torcedor eu já era, e havia decidido cursar jornalismo. Claro que fiquei empolgado. Queria a obra imediatamente, mas mal sabia o quanto demoraria para consegui-la.

Comecei a busca quando estava no primeiro ou segundo colegial. Frustrei-me, estava esgotado. Seria exagero dizer que visitei quase todos os sebos de São Paulo, mas com certeza entrei em todos pelos que passei em frente: ninguém tinha o maldito livro. De tempos em tempos, mandava e-mail para a Companhia das Letras. Minha esperança não era que republicassem Entre os vândalos apenas por minha causa, mas que achassem um mísero exemplar perdido na editora. Não rolou.

Foi no segundo ou terceiro ano da faculdade que descobri o Estante Virtual. Finalmente uma nova chance se abria. Pelo que tinham me dito, seria impossível não achar alguma obra no site. Mentira, já não achei algumas, mas felizmente três exemplares de Entre os vândalos estavam à venda. Comprei de um sebo em Bauru, era o que estava mais próximo de São Paulo. Virou o meu livro de estimação.

Alguns anos depois, finalmente a Companhia das Letras republicou a obra. Confesso que até hoje, sempre que esbarro com algum exemplar na livraria, tenho vontade de comprá-lo. É estranho vê-lo ali, fácil, à disposição.

2.

Estávamos reunidos em umas dez pessoas. Discutíamos particularidades e rumos de um dos livros que estou escrevendo. O lugar era uma mistura de sala de estar e biblioteca. Logo interrompemos o papo para almoçar.

Nosso anfitrião é um grande colecionador. Dentre suas coleções, a de livros é uma das proeminentes. Enquanto pessoas se serviam de quiches e copos de água, aproveitei para dar uma olhada nos exemplares que estavam enfileirados nas prateleiras. Pouca coisa me chamou a atenção.

Sentamos, almoçamos, falamos amenidades e partimos para o café e a sobremesa. Ficamos todos de pé, rodando pelo espaço. Voltei às prateleiras e, enfim, um volume realmente me atraiu. Aliás, não só a mim, mas aos que me acompanhavam também. Indiscutivelmente, tínhamos ali uma preciosidade que nos maravilhava. Logo o anfitrião puxou uma mesa embutida à estante, pegou o livro e cuidadosamente abriu para que nós o admirássemos. Não tinha nome, mas o importante era sua data: 1492.

Ao vê-lo, fiquei momentaneamente paralisado, mas poderia jamais ter outra chance de me relacionar com um Matusalém daqueles. Abdiquei da compostura que a reunião pedia. Só ver o livro não bastava. Toquei, peguei, acariciei e, finalmente, levantei o livro e meti o nariz o mais próximo possível das suas páginas — precisava saber quais cheiros trazia do século 15.

Não senti grandes coisas, mas ao menos não espirrei.

Saí de lá surpreso: como uma raridade daquelas estava ali, sem proteção alguma, à mercê de uma xícara de café voadora ou de uma colher que erre a boca e derrube pavê sobre suas centenárias páginas?

3.

Sempre precisamos organizar minimamente nossos livros. Na parte de cima da minha estante ficam as obras, digamos, técnicas. Um pouco abaixo estão as de não-ficção. Já mais perto do chão, ficção, e, na mais baixa das prateleiras, livros sobre futebol — não o Entre os vândalos, que está em não-ficção —, música, livros que escrevi, enfim, um apanhado de tudo o que sobrou.

Dentro de cada uma dessas seções, eles são separados novamente de acordo com o seu gênero específico e dispostos conforme o sobrenome dos autores. Tudo isso na teoria, claro, pois na prática pouco funciona. Raramente um livro retirado da estante volta para o seu lugar de origem. Logo os espaços acabam e precisamos abrir concessões. Se não cabe mais nada na parte de biografias, é mais fácil deixar a vida de Borges provisoriamente perto de um Dostoiévski do que remanejar todas as obras até que ache algum espaço mais adequado.

Também há muitos livros que são difíceis de classificar. Onde colocar o último de David Foster Wallace (que precisei tirar da estante e já não voltará mais para o seu lugar)? Apesar da capa dizer que se trata de um livro de ensaios, a classificação não me convence. Ficando longe do fato de já estar meio que longe de tudo é muito mais um apanhado de experiências jornalísticas de DFW. E Nu, de botas, do Antonio Prata? São memórias de sua infância, mas, pela forma e pelo autor, estou propenso a colocá-lo junto de obras ficcionais, não próximo de O ano do pensamento mágico. A plena e satisfatória organização de uma estante ou de uma biblioteca é uma utopia. Gosto de utopias.

4.

Não costumo falar de mim em resenhas — se é que deste texto está saindo uma resenha —, deixo isso para quem sabe fazê-lo com maestria, como o Julián Ana (que, aliás, anda um tanto sumido aqui do Rascunho. Espero que volte logo.), mas é impossível ler Fantasmas na biblioteca — A arte de viver entre livros, do bibliófilo Jacques Bonnet, e não pensar nos momentos mais marcantes e na relação que tenho com os livros.

O livro é um ensaio — com certeza irá para esta seção — que traz diversas nuances da relação do seu autor com as obras que compõem sua vasta biblioteca. Fala da busca por exemplares raros, da estrutura requerida para abrigar tantos volumes, da necessidade de classificá-los, das formas de ler (aqui concordo plenamente com o autor, o ideal realmente é estar alongado, como se a posição permitisse ao texto descer melhor pelo corpo)… Em alguns momentos, Bonnet traz um humor sutil e uma ironia que me lembraram Vanessa Barbara — que, aliás, tem diversos textos também falando da sua relação com os livros.

Aparentemente, Fantasmas na biblioteca é despretensioso, e esse é um dos seus grandes méritos. Não é preciso ser um grande livro para ser uma obra preciosa, daquelas que se preocupam apenas com o prazer da leitura, justamente para aqueles que amam os livros. É sempre bom ver algo que amamos sendo tratado com o carinho que Bonnet aparenta tratar seus livros e as histórias que estão ao redor deles. É sempre bom quando algo nos faz lembrar vivamente das nossas próprias histórias.

Texto publicado originalmente na edição 164 do jornal literário Rascunho.

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Por Fred Linardi

xa dos xasExiste um cano de revólver apontado para o meu pé enquanto escrevo sobre essa grande reportagem do respeitado jornalista internacional Ryszard Kapuscinski, que morreu em 2007 de causas naturais, apesar de ter ficado muito perto de armas engatilhadas durante as dezenas de lugares por onde passou. Ao contrário dele, que cobriu 27 golpes de estado e revoluções civis, o meu risco não reside apenas no calibre apontado para meus membros inferiores. O risco está em falar sobre um trabalho como O xá dos xás, segundo título do autor que faz parte da série Jornalismo Literário, da Companhia das Letras, precedido por O imperador.

Uma das primeiras lições que tive sobre Jornalismo Literário referia-se ao estilo que usa de técnicas da literatura para produzir reportagens num estilo, como o próprio nome diz, literário. Isso não significa ficcionalizar o texto, aprendi, mas sim tornar sua narrativa mais atraente ao leitor. Da mesma maneira, já cheguei a ouvir de mestres (no sentido acadêmico da palavra) que o tal estilo permitiria um tanto de invenções por parte do jornalista. Pois bem, o assunto é longo. Mas só para ficar num exemplo, relembro sobre a obra indicada pelo Igor Antunes Penteado na sua mais recente dica de leitura aqui do Canto do Livros – A sangue frio, de Truman Capote –, que será acompanhada por uma sombra eterna pelo fato do jornalista americano ter floreado um final em busca de uma conclusão dramática ao livro, criando um diálogo que jamais existiu na realidade.

Se for para escolher um dos lados, empunho com minhas próprias mãos essa arma que aponto para o meu pé e digo que fico do lado da total veracidade das cenas narradas.

Dito isso, sinto a pressão do gatilho no meu indicador.

Pow!

Ouço um barulho lá fora e quase acredito que é o estouro da minha arma que, na verdade, continua silenciosa. A capa do livro, com fundo preto e escrito em branco e vermelho, me encara. Preciso explicar o motivo de ter escolhido essa obra com menos de 200 páginas para escrever aqui nesse blog. Essa é a história do último xá do Irã, que pretendia transformar seu país numa superpotência – isso também está dito na capa. Outra coisa que ela indica, logo abaixo do subtítulo, é que faz parte da coleção já mencionada lá no primeiro parágrafo.

Então vamos lá. Era uma vez um cara chamado Mohammed Reza Pahlevi que, na década de 1940, herdou de seu pai um país miserável acima do chão e riquíssimo abaixo dele. Toda a riqueza vinda do petróleo abundante servia para enriquecer o próprio bolso, concentrando o poder suficiente para fazer a população de um país inteiro temer cogitar qualquer tentativa de mudança. Os métodos de intimidação eram dos mais complexos, com uma célula do governo repleta de informantes, que consideravam comentários banais como “hoje o céu está nublado” como mensagens subliminares de subversivos na rua. Quem ousasse dizer algo como isso, num ponto de ônibus que fosse, poderia começar a se despedir da vida – não sem antes passar por sessões de tortura que até o capeta duvida.

A história de um Irã tomado pelo egoísmo e crueldade do seu xá é margeada pela narrativa sagaz, a partir de fotos históricas coletadas, além das gravações e anotações de Kapuscinski, que há de perdoar o teclado do meu computador ocidental, que não consegue botar acento agudo no “s” e no “n” do seu sobrenome. Mas ele há de entender certas liberdades, já que… bem, já que ele é dos exemplos que devemos colocar ao lado de livros de não ficção que dão uma inventandinha em alguns trechos. Mas também ao lado de obras que fazem parte do que há de mais exemplar em grandes reportagens. E agora? De uma forma ou de outra, é inegável afirmar que livros como este (ou como A sangue frio) estão entre os mais ousados.

Mas o que Kapuscinski inventa, afinal?

Não sei dizer ao certo. É dito que

Ahhhh….!kapuscinski_01

Ouço um grito vindo da rua. Será que aquele barulho que ouvi vem de uma vítima atingida por um tiro que jamais esperava lhe atravessar o peito? Ou será que veio de alguém que está me vendo pela janela ora com a arma na mesa, ao lado de Kapuscinski, ora voltada para meus pés? Ou será que vem da minha consciência em conflito, sem saber o que dizer depois de ler o posfácio e constatar que, de fato, o velho polonês dava suas viajadas além-fato para escrever esse livro que eu, agora cúmplice de tudo, me deliciei. Cale a boca, Kapu! Arrisco-me demais ao te elogiar.

— Kapu, escute aqui! Sua obra foi chamada de “jornalismo mágico” pelo seu respeitado colega Adam Hochschild e a alcunha foi confirmada por Artur Domoslawski na biografia sobre você, Kapuscinski Não Ficção (ah, se você conhecesse Roberto Carlos em tempo…). Aí, sim, é possível saber o que há de ficção em suas obras de não ficção. Até que enfim alguém para nos esclarecer.

Ficção, sim. Mas vamos com calma (meu pé está suando frio agora). Sem dúvidas, o xá Reza Pahlevi era um tirano que governava sem um pingo de compaixão e, em certos pontos, com alguma dose de burrice, já que todos os ditadores têm seus atos falhos. Queria um país desenvolvido, queria criar “uma grande civilização”, queria que o Irã saísse do zero e se tornasse, em dez anos, um país comparável à Alemanha ou Inglaterra. Tinha dinheiro para isso e muito mais. Trouxe indústrias e importou mão de obra de outros países, já que ali as universidades eram proibidas. Os iranianos que queriam formação superior ganhavam bolsa para estudar fora – e poucos tinham coragem de regressar depois de graduados. Fanático por guerras, comprou um arsenal bélico fora de proporções, sem nem mesmo ter onde abrigar tantas aeronaves e tanques. Mas um dia o povo se desperta para uma revolução, que começa a acontecer em diversas cidades, uma depois da outra… E então Kapuscinski nos presenteia novamente na segunda parte do livro, com um primoroso ensaio sobre como funciona uma revolução. Uma peça fundamental para que se reflita sobre o espírito de um país que passa por esse tipo de evento.

Na obra de Kapu é dito que há personagens e declarações inventadas. Dentro do contexto, elas parecem coerentes, mas ainda assim podem ser fictícias. O perigo neste caso é exatamente quando os limites entre acontecimentos ou pessoas reais ou imaginários não ficam claros para o leitor. E Kapu parece tomar exatamente este cuidado. Tudo flui, os personagens são vivos e coloridos. O perigo, no entanto, é quando começamos a duvidar das histórias que, por ventura, tenham sido frutos do obstinado trabalho de pesquisa e apuração jornalística.

Entre os autores que odeio amar, acredito que sempre estará a sombra de um anti-herói chamado Kapuscinski, batendo a mão nos meus ombros e lembrando que entre a ficção e a realidade existe uma série de questões, escolhas e princípios. Existe também uma mira de um revólver prestes a disparar em nossos pés.

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Por Igor Antunes Penteado 

Quando acordou, Pedro percebeu que estava atrasado. Estava sempre atrasado.  Levantou rápido e correu para o banheiro, mas não rápido o bastante para chegar antes da irmã. “Ferrou”, pensou ele, “essa menina demora mais que funcionário público em fim de expediente”. Impaciente, vestiu a primeira roupa que encontrou no armário e desceu rapidamente as escadas reclamando para a mãe, enquanto ela preparava seu café da manhã, que a camisa estava mal passada. Desde que a empregada fora embora, nunca mais suas coisas estavam organizadas como deveriam. “Malditos programas assistencialistas”, pensou.

Pedro saiu de casa apressado em seu carro recém-comprado. “Porra, essa redução do IPI sim foi uma grande atitude desse governo de merda. Deveriam zerar outra alíquota dessas ao invés de ficar investindo em corredores de ônibus. Essas porcarias só atrapalham o trânsito”.  Enquanto esperava parado no farol, jogou pela janela do carro o envelope da conta do celular, a caixinha do suco e a embalagem do pacote de bolacha. “Também, quase não tem lixeira nessa cidade… apesar que tô gerando emprego, né, faço isso todo dia. Só resta saber se esse povo vai querer trabalhar ou prefere ficar ganhando esmola do governo”, resmungou.

Quando chegou ao trabalho, em uma grande multinacional, Pedro já estava estressado, mesmo ainda sendo começo da manhã. Recebera uma multa por excesso de velocidade, o que o faria perder a carteira devido ao número de pontos acumulados, mas logo se lembrou de um camarada que trabalhava no departamento de trânsito e poderia resolver o problema. “Por quinhentinhos esse malandro me livra de novo”, riu sozinho em sua sala enquanto começava a enfiar a cabeça em planilhas.

O emprego foi conseguido por indicação de um amigo de seu pai, um dos vice-presidentes da empresa. Como estudou em ótimos colégios, o que o credenciou a cursar uma universidade pública bastante prestigiada, Pedro era o cara certo para aquela vaga. Mesmo sendo funcionário com cargo júnior e recém-contratado, Pedro já ganhava o suficiente para comprar um carro importado com preço de apartamento com vista pro mar, mas sentia-se infeliz. “Eu merecia que todo meu esforço fosse melhor reconhecido”, pensou. O que o confortava é que, naquela noite, a balada era garantida. E pela metade do preço, ainda por cima. “Porra, esse esquema de carterinha de estudante falsificada é o que há. Trouxa de quem não faz”, divertiu-se. Também pensava no baseado que fumaria com os amigos, afinal, erva não fazia mal a ninguém. “Vou ligar pro mano da boca e reservar um tijolinho… É hoje!!!”

Enquanto isso, no quarto ao lado…

Quando acordou, a irmã de Pedro correu para o banheiro porque estava cansada de encontrar as roupas do irmão jogadas pelo chão alagado que ele deixava pra trás, afinal, homem não precisa se preocupar com essas coisas. Além disso, Pedro não entendia como era nascer, crescer e viver com o peso de sempre ser julgado por sua aparência, precisar arrumar os cabelos, maquiar-se, cuidar da pele, controlar o peso, vestir-se e comportar-se segundo um padrão preestabelecido pelos outros simplesmente porque o mundo é assim e sua função é meramente decorativa. Pedro nunca precisou fazer as unhas ou andar sobre um salto e cresceu jogando bola na rua, enquanto ela era obrigada a aprender os deveres da casa. Pedro nunca entenderia o porquê daquela demora.

O mundo era injusto pra ela, ainda mais porque Pedro também nunca saberia do que acabara de acontecer. Enquanto saia da faculdade de odontologia para um barzinho, foi violentada. As cenas de horror se confundiam em sua cabeça. Não lembrava direito do que tinha acontecido. Só da dor que sentia, e daquela marca que agora carregava em seu ventre. Por sorte, se é que pode ser chamada assim, seu pai, um dentista influente, conhecia um colega médico gabaritado que mantinha uma clínica alternativa e podia resolver o problema, mantendo ilibada a reputação de sua família. O procedimento foi rápido e aquele episódio não deixou rastros… além do trauma incalculável.

Enquanto isso, no apartamento de baixo…

O vizinho de Pedro sempre saia no mesmo horário que o garoto, mas tinha desistido de cumprimentá-lo. Da última vez que tentou ser educado, recebeu um “Tá olhando o que, bixa velha?” E isso justamente naquela semana em que seu companheiro de 20 anos estava internado, sendo que, devido à sua condição não ser das melhores, durante a internação, foi enviado diretamente para a UTI. Aquele garoto jamais entenderia o constrangimento de ser barrado em todas as visitas por não conseguir comprovar qualquer grau de parentesco com o paciente. Jamais entenderia como era viver uma relação estável e feliz durante tantos anos e não poder ter qualquer tipo de direito legal, ao contrário, sempre ter suas garantias constitucionais censuradas. Jamais entenderia que seu modelo de família não é o único possível e que querer tratamento igualitário não é tentar ser melhor do que ninguém. Ao menos, seu companheiro tinha dinheiro para um plano de saúde e não precisava esperar em macas nos corredores do SUS.

Enquanto isso, em um barraco qualquer…

Quando acordou, a ex-empregada de Pedro sentiu um aperto de saudade dele e da irmã. Ela os tinha criado desde pequenos. Mas sentia-se cansada para dar conta de um apartamento daquele tamanho sozinha ganhando menos de um salário mínimo e tendo de dormir todos os dias no trabalho. Quando parava pra pensar, tirando a violência física, não conseguia distinguir muito a vida que levou por anos daquela vivida por seus antepassados escravos. Era chamada ao trabalho até quando já estava dormindo, afinal, a criança chorona não podia ficar sem seu leitinho.

Em princípio, não entendia bem o porque desta saudade tão latente daquelas pessoas. Mas, no fundo, ela sabia sim. Tinha abandonado a própria casa e os filhos para viver com eles. Enquanto Pedro tinha duas mães, seus filhos não tinham nenhuma. Cresciam no meio das drogas e da violência e ela nada podia fazer. Era isso ou não ter dinheiro para botar em casa. Passava o dia cozinhando do bom e do melhor para os patrões, enquanto mal conseguia fritar um ovo no fogão velho, comprado a longuíssimas prestações. Ao menos, agora tinha direito a um dinheiro concedido pelo governo que a ajudava a manter a casa enquanto procurava uma ocupação mais adequada à sua idade e condição de saúde.

Seu menino tentou estudar, mas precisava ajudar em casa. Aos 14, fazia jornada dupla exaustiva e acabou largando a escola. No emprego, recebia “50 conto” por semana e era explorado pelo patrão abusivo. Quase todo dia era parado pela PM que queria saber o que o “neguinho” fazia naquela região da cidade. Se respondia, tomava tapas na cara, porque “é isso que favelado merece”. Logo, desiludido, começou a passar uns papelotes pra complementar a renda. O dinheiro do tráfico era “bom”, mas lá ele via muita coisa errada. Seu próprio chefe se vangloriava das piores coisas que o garoto poderia ouvir. “Porra, fizemos a fita e tava tudo a pampa, mas a mina era mó gracinha, não dava só pra roubar. Precisa ver a cara da vadia quando peguei ela, a paty chorava, mas no fundo tava gostando”, dizia o mano da boca em voz alta. “Mas se apronta, moleque, hoje o play vem aí buscar o tijolinho do mês e vou tentar passar pó pra ele também, só erva não dá nada”.

A filha da ex-empregada de Pedro também trabalhava desde cedo par ajudar em casa. Ao 16, engravidou do namorado, que não quis saber do assunto. “Você até que é gostosa, mas não tô pronto pra essa parada não… fui”, recebeu por SMS. Sozinha, sem dinheiro e perspectiva de criar o filho com o mínimo de dignidade, recorreu a uma clínica clandestina. Foi submetida a um procedimento longo e doloroso, em um ambiente completamente insalubre e um médico com diploma falso na parede, que havia comprado de um cara que falsificava essas coisas, tipo diploma e carteirinha estudantil. Passou semanas em uma maca de hospital público devido às complicações. Ouvia dos médicos “é isso que dá ir contra as leis de Deus”. Sua saúde, percebeu ela, pouco importava perto dos moralismos conservadores.

Mas, contrariando a lógica, ela conseguiu se recuperar, ao menos fisicamente, já que o trauma piscicológico daquela experiência ela carregaria para sempre. Fez um supletivo e conseguiu concorrer a uma bolsa na faculdade. Jamais conseguiria estudar se não fosse por aquele programa governamental. Todos os dias, passava horas dentro de um ônibus lotado. Dia sim, dia não, algum engraçadinho se aproximava e se sentia no direito de cercá-la, acuá-la e molestá-la. Afinal, mulher desacompanhada é propriedade pública. Quando conseguia sentar, olhava pela janela, pensativa. “Pôxa, hoje qualquer um financia e compra um carro, aí é que o trânsito não anda mesmo. Não seria melhor, ao invés do pobre andar de carro, o rico andar de transporte público? É, esse seria um mundo realmente bom”, divagava.

Chegava à sala de aula sempre pontualmente, mesmo com toda jornada digna de maratona que enfrentava diariamente e, mesmo sendo dona das melhores notas e média de frequência de sua turma, ouvia maldades pelos corredores. “Duvido que essa neguinha estaria aqui se não fosse a esmola do governo”, dizia uma colega do curso de odontologia que, ao invés de ir à aula, preferia sair todo dia para o bar. Ao fim da aula, já tarde da noite, ainda teria novamente a jornada de volta para enfrentar, mas só pensava no quanto aquele curso e o estágio que conseguira ajudavam sua mãe. Mesmo que o patrão a subjulgasse e cometesse todo tipo de assédio, prometera que sua mãe nunca mais passaria necessidade, ainda que tivesse de aguentar aquele homem nojento esfregando seu corpo no dela. Quando esperava no ponto de ônibus, um carro desgovernado a atropelou. O motorista, bêbado, fugiu sem prestar socorro. Posteriormente, reconhecido pela polícia, acabou inocentado. Conhecia um camarada no departamento de trânsito que ajeitou as coisas.

A menina morreu tão instanteneamente quanto os seus sonhos.  Foi enterrada num caixão simples, comprado com o que restou do acerto de contas que o patrão fez. Ao notar pela primeira vez o sobrenome da funcionária, o homem, indignado com a ironia que o destino estava lhe pregando, pensou: “porra, era filha daquela mulher que largou o emprego e tudo o que davamos pra ela lá em casa pra viver de esmola do governo. Agora tenho que pagar para aquela safada mesmo depois da filha morta, e ainda por cima ela não me dava uma brechinha sequer. Pelo menos da menina eu consegui alguma coisa, né, tomara que ache outra gostosinha pro lugar dela”.

Quando a ex-empregada da casa de Pedro chegou da cerimônia simples no cemitério municipal, encontrou seu barraco alagado. Os móveis e alguns eletrodomésticos estavam mais ou menos a salvo, afinal, todo mês aquilo acontecia e colocá-los sobre mesas e cadeiras já era praxe. O problema é que a invasão policial no meio da noite passada, sem qualquer aviso ou delicadeza, havia deixado, além de algumas marcas de tortura física e piscológica, roupas jogadas pelo chão. Enquanto via o avental preferido da filha boiando em meio a toda sorte de roupas, pensou no que seria de sua vida dali pra frente. “Acho que vou virar gari, quem sabe ao menos esse problema não consigo resolver, tirando essa bando de sujeira que as pessoas jogam nas ruas”. No mesmo instante, algo lhe chamou atenção. Ao lado de uma pilha de lixo que boiava na água do esgoto que mais uma vez invadira sua casa, uma caixinha de suco, um pacote de bolachas e um envelope com um nome: Pedro.

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Quando acordou assustado, Pedro percebeu que havia sonhado. Um sonho tão claro que parecia real. Pela primeira vez na vida, Pedro se deu conta de seu privilégio. Naquele dia, ele não estava atrasado.

 

Essa é a primeira e humilde tentativa que este autor faz de construir um conto de ficção. Ou não.

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Antes de começar a ler Histórias da noite carioca, Eric Novello, o autor da obra, já havia me alertado “leve em conta que é um livro de humor com zero de seriedade, pra fazer rir mesmo”. E como é mais fácil analisarmos um livro considerando o que o escritor queria com ele.

O livro conta a história de Lucas Moginie que já obtivera sucesso, mas também lançara obras que sequer sua mãe comprara, e não sabe se está em crise de decadência ou em uma fase de renovação. Lucas, uma pessoa com excessivas preocupações com o que veste e a maneira que se apresenta aos outros, vive em um apartamento no Rio de Janeiro (claro!) e tem um casal tarado por sexo como vizinhos de cima.

Um dia, Tita, a ex-namorada do escritor, procura-o para que escreva uma história baseada na vida noturna que ela leva junto com um certo amigo Rodrigo. Lucas titubeia escrever sobre os dois em um primeiro momento, mas acaba aceitando após pressões de Lívia, a sua sedutora empresária, que precisa apresentar alguma novidade do autor para a editora. E é o aceite em realizar a obra que desencadeia uma série de encontros e desencontros – boa parte deles amorosos, alguns até bizarros – na vida de Lucas.

Mesmo a obra em si sendo despretensiosa, ela traz alguns elementos de bastidores que podem instigar uma discussão acerca da escrita. “Sem imaginar, me tornei um caçador de histórias, atento a cada diálogo que testemunhava”, narra Lucas em determinado momento. Ora, e o que é um escritor se não um caçador de histórias que sabe colocá-las com maestria no papel? Claro que há os que mergulham mais ou menos na vida real para construir os seus livros, contudo, é impossível que algo seja feito sem levar em conta o que vemos, vivemos, ouvimos, lemos, assistimos…

Lucas também declara que, ao escrever com os pés firmes na realidade, encontra dificuldades em descrever as pessoas, e aqui os escritores de não ficção hão de concordar que mora um grande problema. Nem sempre as pessoas que merecem uma história são bonitas, e uma descrição fiel do personagem pode magoá-lo muito. Muitas pessoas até aceitam se ver gorda e com uma verruga na cara em uma foto, mas têm ojeriza ao se ver assim descrita com palavras.

E, ainda sobre os personagens, Histórias da noite carioca flerta com a questão de até que ponto o autor tem o direito de se apropriar da vida de outra pessoa para transformá-la em história. Uma questão bastante complexa e que foi bastante discutida quando José Castello lançou o romance Ribamar, no qual cria uma ficção que tem como base a relação dele com o pai, misturando realidade e ficção – e arrumando uma grande confusão para a cabeça, inclusive com a própria família, que insistia em dizer que ele inventava calunias sobre o seu velho, por exemplo, ao invés de entender que aquilo era uma história romanceada.

Entre elementos reais e ficcionais que formam o personagem, Eric deixa transparecer (não sei se propositalmente) em Lucas algumas de suas próprias características. Eric, assim como Lucas, começou a escrever uma literatura com uma base mais real após se aventurar pelos caminhos da fantasia. Ambos fazem críticas para o cinema para incrementar o orçamento. E Lucas demonstra um conhecimento dos meandros do corpo humano que só pode ter aprendido com o seu criador, que possui formação na área de bioquímica e farmacêutica. Esses conhecimentos, aliás, soam como rebarbas no texto.”Sangue do tipo A”, “epinefrina”, “cerebelo”, “hipotálamo”, “elétrons”, “axônios” e “dendritos” fazem parte da história, mas nada acrescentam a ela.

Contudo, isso não chega a ser um problema. Frases como “Hambúrguer sem gosto de isopor. Raro como tamanduás” e “Durmo ciente de que não estou exercitando os músculos e não escrevo com sono, pois sai que nem psicografia de ateu” compensam com sobras alguns exageros biológicos. As referências a Daniel Galera, Cazuza, Kafka e Pirandello são de tirar um sorriso do leitor.

Quisesse Eric ter escrito sua obra-prima, teria fracassado. Mas isso não quer dizer que Histórias da noite carioca seja um mau livro. Pelo contrário, é dinâmico, descontraído e, em alguns momentos, engraçado. Ou seja, Eric atingiu o seu objetivo.

Eric está vendendo alguns exemplares de Histórias da noite carioca por 25 reais (o frete é por conta dele). Para adquirir, mande um e-mail para cericn@gmail.com

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Por Rodrigo Casarin

É complicado falar algo de Jostein Gaarder sem lembrar de O Mundo de Sofia, o excelente livro no qual a trama principal se desenrola apresentando a uma menininha (a Sofia, claro) a história da Filosofia. Desde então o que se espera do autor norueguês é que seus livros façam o leitor ao menos pensar, preferencialmente sobre questões existenciais da humanidade. Sua mais recente obra, O castelo nos Pirineus, cumpre essa expectativa.

A história principal é o reencontro entre Solrun e Steinn, que tinham vivido um romance de cinco anos há três décadas e desde então não se viam Os dois se reencontram em dada ocasião e passam a se comunicar por e-mails. Conforme contam o desenrolar de suas vidas, vão mostrando pontos de vista diferentes sobre os mesmos fatos. Ele enxerga as coisas de forma cética; ela, acha que em tudo há uma interferência divina.

A essência do livro está nesse embate. Solrun, que crê nas forças divínas, defende seu lado com bastante empáfia. Fala mais do passado de ambos do que tenta fundamentar suas opiniões. Em muitos momentos parece desdenhar de Steinn, que é quem mais argumenta. Como é um meteorologista ligado ao mundo acadêmico, às vezes realiza seu papel de forma bastante burocrática. Alguns e-mails chegam a parecer com artigos acadêmicos, o que acaba deixando o texto pesado em certos momentos.

Aliás, o formato de troca de e-mails durante todo o livro faz com que O castelo nos Pirineus acabe sendo um tanto monótono. Além disso, não sei como são as trocas de e-mail na Noruega – onde a história se passa – mas, se for como aparece na obra, eles nunca utilizam nenhum correspondente a “vc”, “tb”, “abç” ou “bj”, o que acho bastante estranho.

Outro ponto que me incomodou é que ambos são casados, mas suas famílias quase não aparecem na história. A mulher de Steinn é apenas citada uma vez ou outra. Já o marido de Solrun assume um papel importante apenas no (bom) final, de resto, pouco se incomoda ao ver a mulher passar dias inteiros apenas trocando e-mails saudosistas com um ex-namorado. Impossível não pensar na tendência que o cidadão tem para ser ornamentado com uma galhada.

Apesar de tudo, a essência do livro é boa e, como eu disse no começo do texto, cumpre a expectativa que Jostein Gaarder sempre cria: consegue fazer o leitor pensar e refletir sobre o assunto tratado.

 

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