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Rodrigo Casarin

Claudio Tavares_ISA

Claudio Tavares_ISA

A convivência com diferentes povos indígenas, o apreço por valores humanos como, o respeito às minorias, e o fortalecimento da diversidade socioambiental são alguns dos motivos que moveram o antropólogo Beto Ricardo nesses últimos 45 anos. Um dos convidados para a Flip (Festa Literária Internacional de Paraty), onde irá compor a mesa “Tristes trópicos” com Eduardo Viveiros de Castro, seu colega de profissão, passou a vida profissional batalhando por causas ligadas principalmente aos índios e ao meio ambiente.

Formou-se em Ciências Sociais pela USP em 1972, idealizou e coordenou o projeto Povos Indígenas do Brasil, com atuação entre 1978 e 1992, e militou pelos direitos indígenas. É sócio-fundador do Instituto Socioambiental (ISA), que visa propor soluções para problemas sociais e ambientais; nele, coordena o Programa Rio Negro, que atua na Bacia do Rio Negro, no noroeste da Amazônia. Também fez parte da criação da Comissão Pró-Yanomami, que defende os direitos dos índios yanomamis. Pelo seu trabalho, ainda em 1992, recebeu, nos Estados Unidos, o Prêmio Ambientalista Goldman. Já em 2011, foi eleito a Personalidade do Ano pelo Paladar, caderno gastronômico do jornal O Estado de São Paulo, pela ajuda prestada a chefs na busca por ingredientes amazônicos.

Na entrevista a seguir – concedida inicialmente para uma matéria que fiz ao Uol sobre a presença de Davi Kopenawa, escritor e xamã yanomami, na Flip -, Beto Ricardo fala sobre as questões indígenas em voga no país, os problemas pelos quais as nações marginalizadas passam e a importância dos atos simbólicos. Além disso, também conta que ainda há muito a se explorar na relação entre as florestas e a gastronomia, algo que só será possível caso haja preservação ambiental.

Rodrigo Casarin: Neste momento, como está a questão da demarcação das terras indígenas? Por que é tão importante que isso aconteça?

Beto Ricardo: A demarcação de terras indígenas está praticamente paralisada no governo Dilma, além de outros sinais de retrocesso. Há forte pressão da bancada ruralista no Congresso Nacional para transferir o reconhecimento de terras indígenas do executivo para o legislativo, incluindo a revisão de Terras já em processo de demarcação. Se isso acontecer será a pá de cal no principal direito indígena inscrito na Constituição Federal de 1988, segundo a qual é considerado direito originário e cabe ao Estado reconhecê-lo. Terras reconhecidas são a base para os demais direitos coletivos dos povos indígenas. É verdade que uma boa parte dos direitos territoriais dos povos indígenas no Brasil já está reconhecida, mas ainda há pendências importantes e pressões e ameaças nas terras demarcadas. Além do fato de que esses direitos estão desigualmente distribuídos. Nas regiões centro-oeste e norte a maior parte das terras indígenas são extensas e contínuas, reconhecidas e demarcadas depois da Constituição de 1988, mas pesam sobre essas terras o impacto das hidrelétricas, as invasões garimpeiras, o desmatamento do entorno e o aumento da vulnerabilidade ao fogo. Já nas regiões nordeste, sudeste e sul, os índios estão confinados em terras diminutas ou vivendo literalmente na beira de estradas, como é o caso de muitas comunidades do povo guarani.

RC: E quais são as questões indígenas que precisam ser tratadas com maior urgência?

BR: É preciso resolver o caso Guarani, o mais numeroso dos povos indígenas do país e desprovido de seus direitos territoriais básicos, e também a proteção dos chamados povos “isolados”. É preciso concluir as demarcações nas regiões centro-oeste e norte. Para as demais regiões do país há casos que requerem a desapropriação de terras para alargar os horizontes dos confinamentos a que estão relegados muitos povos e para viabilizar o assentamento de indígenas sem terra.

É também muito importante que o Governo Federal garanta recursos do orçamento da União, a longo prazo, para bancar os planos de gestão desses territórios, conforme prevê a PNGATI (Política Nacional de Gestão Territorial e Ambiental de Terras Indígenas), criada pela presidente Dilma em 2012. Para as Terras Indígenas situadas no arco do desmatamento da Amazônia, serão necessárias cada vez mais ações de adaptação às mudanças climáticas. Além disso é importante a implantação de sistemas diferenciados de educação escolar, com um programa de fortalecimento das línguas indígenas e de atendimento especializado à saúde. Também seria oportuno a criação de espaços institucionais e protocolos que permitam o diálogo intercultural com os conhecimentos indígenas, relevantes para o futuro do Brasil, dos biomas brasileiros e do planeta. Nunca é demais lembrar os serviços socioambientais e climáticos prestados pelas terras indígenas. Na Amazônia, elas representam uma parte muito importante das florestas, que garantem as chuvas, a biodiversidade e as condições do clima na maior parte do continente.

RC: Na luta pelos direitos dos povos indígenas, qual a importância de momentos simbólicos, como o pequeno índio que, na abertura da Copa, levou uma faixa pedindo a demarcação de terra?

BR: Fatos positivos marcantes e registrados em imagens são cruciais, porque alimentam um capital simbólico que funciona como um estoque de compensação à minoridade demográfica (0.4% da população nacional) e política dos povos indígenas, num país imenso, preconceituoso e avassalador, com 200 milhões de habitantes. Nos últimos 40 anos, tivemos vários episódios que renderam imagens marcantes para o imaginário do Brasil e do mundo: Mário Juruna Xavante com seu gravador para registrar as promessas de políticos em Brasília; Raoni Mentuktire Kayapó dividindo o palco com Sting ou puxando a orelha do ministro (do regime militar) Mario Andreazza durante uma coletiva de imprensa; Ailton Krenak pintando o rosto de preto enquanto discursava no plenário da Câmara Federal, em sinal de protesto pela supressão do capítulo dos direitos indígenas durante a Constituinte; a presença dos Kayapó no plenário da Câmara, durante a votação da Constituição Federal; Davi Kopenawa Yanomami protestando contra o massacre do seu povo pelos garimpeiros e recebendo o rei da Noruega em sua aldeia; a advertência de Tuira que usou a lâmina de seu facão para tocar o rosto de um diretor da Eletronorte em protesto contra a construção de barragens no rio Xingu em 1989 e tantos outros. Essas imagens estão reunidas numa exposição Povos Indígenas no Brasil 1980/2013, uma iniciativa da Embaixada da Noruega e do ISA, da qual fui curador. Essa exposição estreou em Brasília no final do ano passado, já esteve em São Paulo, em Belém e desde 15 de julho está instalada ao ar livre na Ponta Negra, em Manaus, por um mês.

RC: Qual a importância, a representatividade, da questão indígena ser abordada na Flip, um dos principais eventos culturais do país, tendo inclusive a mesa “Marcados” dedicada ao tema e com participação do Davi Kopenawa, um xamã Yanomami?

BR: Eu fiquei surpreso com o espaço aberto pela Flip para este tema. Originalmente havia a expectativa de se organizar apenas uma mesa ao redor do lançamento do livro “A queda do Céu”, de coautoria do xamã Davi Kopenawa e do antropólogo Bruce Albert, uma obra de fôlego, com 800 páginas, já publicada em francês e inglês, cuja versão em português está a caminho.

Acho importante que o tema seja abordados na Flip, se possível de uma forma não apenas episódica, mas incorporando narradores e autores indígenas, como um nicho de mercado. Mas é preciso politicas públicas governamentais para fortalecer processos e produtos bem acabados, com traduções competentes das narrativas em cerca de 150 línguas.

RC: Como a cultura indígena se relaciona com a literatura?

BR: É um caso de amor sem solução. É a luta dos igarapés contra as rochas. O vigor e originalidade das culturas indígenas estão nas narrativas orais, reiterativas, performáticas, fluidas. A literatura é baseada na palavra, escrita e impressa, que o vento não leva. Dito isso, como é de conhecimento, estão disponíveis no mercado editorial muitos livros infantis e juvenis, com autores individuais – sejam indígenas ou não indígenas – baseados, ou inspirados, em mitos indígenas. Para criar Macunaíma, Mário de Andrade bebeu nos registros da mitologia dos Taurepang, Ingarikó e Macuxi, feitos pelo pesquisador Koch-Grunberg no início do século XX.

Mas há que se reconhecer que a antropologia e a linguística no Brasil nunca estiveram tão capacitadas para transitar entre as línguas indígenas específicas e algumas línguas dominantes, como o português e o espanhol. E até o francês e o inglês, como é o caso de “A queda do céu”, um trabalho de excelência, que custou a ser publicado e se transformou rapidamente num marco desse novo ambiente. Tradicionalmente os esforços da linguística para grafar e normatizar as línguas indígenas era ofício de missionários que tinham por objetivo a tradução da bíblia para a catequese e a conversão, desde os jesuítas no século XVI até as organizações missionárias evangélicas atuais.

Hoje em dia há muitos antropólogos e linguistas – inclusive indígenas – que tem bons conhecimentos das línguas indígenas contemporâneas, o que viabiliza o registro e a difusão de contribuições dos povos indígenas com outras culturas. Uma iniciativa exemplar é o Programa de Documentação de Línguas Indígenas, que inclui o Museu Nacional e o Museu do Índio, com apoio da Unesco e coordenado por Bruna Franchetto, desde 2009.

Há que se destacar alguns outros exemplos, como a série “Narradores Indígenas do Rio Negro”, da FOIRN (Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro), com oito volumes já publicados e vários a caminho. Trata-se de um esforço editorial de mobilizar jovens adultos bilíngues, que gravam narrativas com os velhos sabedores e as transcrevem nas suas línguas de origem, posteriormente traduzidas ao português com apoio e notas de antropólogos especializados, resultando em versões atribuídas autoralmente aos narradores/clãs dos quais fazem parte. São bons exemplos os trabalhos do antropólogo Pedro Cesarino publicados em livros: “Oniska: poética do xamanismo na Amazônia” e “Quando a Terra deixou de falar: cantos da mitologia Marubo.

RC: E qual a importância, não só pela participação na Festa, de Davi Kopenawa?

BR: Davi é uma pessoa inspirada, cuja trajetória de vida o fez um homem-ponte entre mundos, na era da crise planetária, que começa a ser designada como antropoceno, uma nova época geológica, devido a transformação da espécie humana de mero agente biológico em força geofísica capaz de alterar as condições fundamentais da vida no planeta. No Brasil essa perspectiva tem pautado trabalhos recentes da filósofa Deborah Danowski e do antropólogo Eduardo Viveiros de Castro.

RC: De que forma você acha que o seu trabalho contribuiu para que a presença de um xamã num evento literário fosse possível?

BR: Eu conheço Davi Kopenawa há mais de 30 anos. Fui membro da Comissão pela Criação do Parque Yanomami (CCPY), depois da demarcação e homologação da Terra Yanomami em 1992, renomeada como Comissão Pró-Yanomami, e desde 2008 incorporada ao ISA (Instituto Socioambiental). Pelo ISA eu coordeno um programa na bacia do Rio Negro que inclui um termo de cooperação com a Hutukara Associação Yanomami, do qual Davi é o presidente. Apoiamos várias iniciativas do povo yanomami, entre as quais a realização de encontros de xamãs, a expansão de uma rede de comunicação por radiofonia, o intercâmbio com os yanomami da Venezuela e algumas pesquisas sobre os conhecimentos tradicionais e diálogos interculturais. Resultam desses processos algumas publicações e vídeos. Nesse contexto estamos apoiando a tradução do livro “A queda do céu”.

RC: Como você vê a relação entre os índios e o restante da sociedade brasileira?

RC: Em geral eu acho que o paradigma mudou nos últimos 40 anos. Quando começamos dar atenção a este assunto, no início dos anos 1970, os povos indígenas estavam condenados ao desaparecimento ou invisíveis, sob a retórica da ditadura militar de que a Amazônia era um vazio demográfico a ser ocupado aceleradamente em nome da soberania nacional. Na contra mão e a partir de uma rede da sociedade civil, conseguimos botar os índios no mapa, os direitos na Constituição de 1988 e avançamos com as demarcações de terras e outras iniciativas que inscreveram os povos indígenas no imaginário social e nas agendas nacionais futuras. Mas há pelo menos duas derivações desse novo paradigma, uma favorável aos povos indígenas , suas terras e direitos coletivos – com audiência especialmente entre a maioria dos brasileiros, que vivem na cidades; e outra que quer retroagir nos direitos constitucionais e frear ou reduzir os direitos indígenas, especialmente os territoriais, para liberar mais terras para o agronegócio ou obras de infraestrutura associadas. Nessa segunda vertente estão os segmentos da população brasileira que estão mais próximos geograficamente dos índios, muitas vezes atiçados por grandes interesses econômicos.

RC: Já ouvi muita gente, ao ver um índio aparecer na televisão com um celular, por exemplo, dizer: “olha lá, desde quando índio usa celular? Índio usa arco e flecha” ou algo semelhante. O que você pensa disso?

BR: É uma das formas mais perversas de preconceito, porque quer congelar as culturas indígenas, negando-lhes o direito que todas as culturas do mundo trocam processos, ideias, símbolos, comportamentos, sem que isso signifique perda de identidade. Além do mais, tal visão preconceituosa pretende deslegitimar o manejo que os povos indígenas fazem de suas identidades para obter vantagens práticas. Refiro-me, por exemplo, ao fato de indígenas que vivem em regiões fronteiriças e que possuem dupla documentação de identidade, o que lhes permite participar de processos eleitorais e de programas sociais em dois países. Por que não? Afinal, um belo dia, dona Marisa, então primeira dama, resolveu tirar passaporte italiano, incluindo os filhos, na expectativa de, eventualmente, obter vantagens derivadas da dupla nacionalidade e nem por isso deixou de ser brasileira. Tá cheio de paulistas que querem ser italianos. Se índio que usa celular deixasse de ser índio, o que dizer dos brancos que comem farinha e dormem em redes?

RC: Até aqui, utilizei “povos indígenas” e “índios” para simplificar as perguntas, mas essa simplificação é possível? Podemos, de alguma forma, tratar os indígenas como se fossem todos iguais ou cada tribo deve ser vista de maneira única?

BR: Depende das circunstâncias e do espaço disponível. Às vezes só cabe usar índios para diferenciar os nativos dos adventícios. O melhor é usar o genérico povos indígenas, terminologia amplamente reconhecida na legislação internacional e que faz jus às identidades culturais e organizações sociais específicas. Na prática cada tribo deve ser vista como singular. Claro que há semelhanças entre os povos de língua tupi e entre os de língua gê, por exemplo, mas há também muitas diferenças. No caso do Brasil estamos falando de 240 povos e 150 línguas, aproximadamente. Ou seja, não se confirmou a hipótese de alguns pessimistas, de que os indígenas no Brasil caminhariam inexoravelmente para uma identidade genérica. Aliás, no censo do IBGE de 2010, quase 900 mil pessoas se auto-identificaram como indígenas, como pertencentes a 305 povos, falando 274 línguas, resultados que necessitam de uma refinada revisão metodológicas para serem corretamente interpretados.

RC: O que te motiva a realizar o seu trabalho?

BR: As oportunidades de convivência com diferentes povos indígenas pelo Brasil afora, nos últimos 45 anos, além do apreço por valores estratégicos para a humanidade, como o respeito às minorias e o fortalecimento da diversidade socioambiental.

RC: Entrando rapidamente na questão gastronômica, como você ajudou chefs a obterem acesso a ingredientes da Amazônia? Quais ingredientes foram esses?

BR: O ISA tem programas e subsedes regionais nas bacias hidrográficas onde atua (Ribeira, Xingu e Rio Negro). Operamos com parcerias locais, regionais, nacionais e internacionais. Uma das linhas básicas da nossa atuação é criar ou apoiar alternativas econômicas com valor socioambiental agregado para comunidades que vivem na floresta. Nesse contexto é que abrimos uma conversa com vários chefs de cozinha, começando pelo Alex Atala no Rio Negro, em 2005. Desde então vários chefs do Brasil e do exterior vieram andar conosco nessas fronteiras de conhecimentos, convivendo com as comunidades indígenas e ribeirinhas, experimentando novos ingredientes, mas sobretudo aprendendo sobre as origens e modos de fazer, convertendo-se em aliados importantes para equacionar as dificuldades da comercialização: distâncias, dificuldades de logística, sazonalidades e controle de qualidade, entre outras. Essa nova atitude tomou corpo no Instituto Atá, fundado em São Paulo em 2012, uma organização da sociedade civil dedicada a promover e fortalecer a diversidade socioambiental e a agrobiodiversidade brasileira em particular. Começamos pela pimenta baniwa tipo jiquitaia, mas estamos identificando e pesquisando com as comunidades uma cesta de produtos, que inclui óleos, castanhas, derivados da mandioca brava, cogumelos, méis de abelhas sem ferrão e muitos outros.

RC: Há ainda muito a ser explorado na relação entre a floresta e a gastronomia? Faz ideia de algo que esteja por vir?

BR: Sim, as regiões de floresta são as maiores fronteiras da diversidade socioambiental do planeta, mas estão fortemente pressionadas pela agropecuária extensiva, com suas associadas, as indústrias de defensivos, de infraestrutura e de alimentos. Sem falar nas empresas de gás, petróleo e mineração. Esse bloco está altamente capitalizado, seja na vertente transnacionalizada, seja no cacife voraz de países como a China.

As paisagens florestais e a diversidade cultural associada estão sendo erradicadas e substituídas por paisagens reducionistas e “monótonas” numa velocidade espantosa.

Uma economia socioambiental baseada na diversidade cultural e nas paisagens florestais ainda é possível, mas requer visão estratégica e volumes de investimentos e modelos de governança capazes de deter o rolo compressor do capitalismo predatório.

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Por Rodrigo Casarin

Karina Freitas

Karina Freitas

Paulinha Denise não é puta, apesar de suas roupas. Se veste para provocar e capricha no rebolado. Usa um chapéu que mais parece um poodle, que cobre seu cabelo alisado e oxigenado. Tem um cabeção, um rabo perfeito, uma borboleta gigante tatuada na coxa e um umbigão mal tesourado extremamente feio, com uma tripa um pouco pra fora. É a mulher mais brega de Suzano. Frequenta os bares do centro de São Paulo e gosta de frango a passarinho e baconzitos. Tem dois cachorros, Titi e Camila, e uma irmã trambiqueira. Foge para Mongaguá quando precisa fazer algo realmente sério. Nunca leu Dostoiévski, adora Zíbia Gasparetto, compra livros do Shinyashiki e jamais encherá o saco com Clarice Lispector e Amélie Poulain. Curte Zeca Pagodinho. Não conhece “Samba do avião” e não sabe nada de Tom Jobim e bossa nova.

Ariela é o contrário de Paulinha. Não depila os pentelhos à maquina zero. Veste apenas uma camisa xadrez e fuma no terraço, mostrando-se nua e cabeludinha para as meninas da rua. Larga calcinhas e bijuterias para marcar território. É uma mentira, uma falsidade ambulante, uma Lolita avançada tecnologicamente. Em seu beijo não há cerveja ou amendoim. Ariela faz sonhar, é mulher para apresentar como namorada. É Maria Rodapé, gosta de beatnik. Tem sorriso de coelho e curte enganar os homens. Enxerga poesia onde somente existe egoísmo, solidão e desespero.

Ivete coleciona revistas femininas, não perde um programa da Sílvia Poppovic e é especialista em sexo oral. Mora na rua 3122, nº411, B.C, atende no número de telefone do seu tio Fernando e não trepou ontem de tarde, apenas levou umas porradas reparadoras e transcendentais depois que seu parceiro achou uma camisinha jogada atrás da cama – e ele nunca usa camisinha.

Eva é uma debiloide que dá desconto após o programa e fala de amigas em meio ao seu trabalho, mesmo quando está usando a boca para tal – aliás, gosta de conversar enquanto realiza seu ofício com a língua, os lábios, a garganta… Não fuma e tem belos pés, com unhas redondas e cobertas por base. Deveria se sentir honrada pela sutil relação que tem com Charles Bukowski.

Claudinha! Ele queria currá-la tal qual lera em Nelson Rodrigues. Uma garota de talentos, queria ser escritora. Abriu as pernas, mas preferia não ver seu nome numa história. Ao final de uma tarde em Paquetá, reclamou que os pés dele não tinham vida.

Nelci, aquela de cabelo esquisito e calcanhares sujos, é uma típica representante das garotas da fila de cinema gratuito do Centro Cultural São Paulo. Adora dizer um monte de bobagens e falar sobre uma tal de filosofia de vida superior.

Cristina B. era uma paixão de infância, da sétima série B. Claro que ela provocou apenas ilusão e desilusão. Agora, com 34 anos e ainda bela, deve estar casada com um alemão escroto que lhe deu um casal de filhos mongoloides e a leva para passar as férias de julho em Campos do Jordão. Cristina B foi sucedida pela inesquecível Luciana H.

Cris tem dentes grandes, que projetam seus lábios como se engolissem a própria língua. Ela às vezes causa tédio. Já Thaís é arquiteta, lésbica e namora Bebel. Moderninha, gosta de acrílicos. Tem ainda a Regiane, do disk-putas, que beija na boca, não bebe e o chama de “Príncipe de verdade”.

Mulher, mulher

Sem mulher não existe Marcelo Mirisola. Não só o escritor, mas o autor, narrador e personagem também seriam impossíveis sem as presenças femininas. Sem elas, não conseguiriam dar um passo – ou escrever uma linha – sequer. “É impossível fazer qualquer coisa na vida sem a presença feminina, literatura é só uma entre as milhares de outras coisas”, diz ele no brevíssimo papo que tivemos por e-mail.

Elas são a grande força das obras de Mirisola e, nas colagens acima, estão exemplos dessas personagens que dão vida a alguns livros do escritor. Paulinha Denise e Ariela são as responsáveis pela existência de Hosana poluída, o mais recente, que será publicado agora em maio pela Editora 34. A história começa num arquipélago na ilha de Sumatra – um dos quatro territórios da Oceania no War, célebre jogo de tabuleiro – e passa por São Paulo, Guarulhos, Rio de Janeiro, Suzano e interior de Minas Gerais. Nas suas primeiras páginas, Marcelo Mirisola, o protagonista, ouve de uma marmiteira que também lê tarô que irá correr o mundo e desfrutar do sexo de muitas mulheres – clarividência que reverbera por toda a obra do escritor.

Mas antes de continuar falando sobre as beldades mirisolianas, vale passar por alguns outros pontos de Hosana poluída. A prosa de Mirisola continua precisa até mesmo nas notas de rodapé – ou principalmente nas impagáveis notas de rodapé –, que costumam concentrar toda a verve cafona e sacana do autor, numa ótima mistura de Xico Sá com Chales Bukowski. Uma amostra: “Dedo no cu, no caso dos bitiniques de padaria, dois dedos cruzados – como se materializassem uma estrutura de DNA – que por sua vez denunciaria a falta incorrigível de talento e ânsia de se foder acompanhada de mais uma dose de Domecq” – o ódio é de Buk, a dose é de Xico.

A pontaria de Mirisola também continua ótima e mira desde aqueles que analisam seus livros – na visão do personagem, Paula Denise faz comentários mais pertinentes sobre Charque do que pesquisadores, mestres e doutores da Unicamp – e os “intelectuais ticket-refeição da Flip”, passando por velhos torturadores que hoje fazem hidroginástica no SESC “da melhor idade” até atingir o ápice com um “nazista ecológico dissidente do PV e recém-filiado ao PC do B” – e não se preocupem, também há referências críticas em tom parecido a outros partidos de diferentes vertentes ideológicas.

Nessa linha de contemporaneidade, vale ainda registar passagens em que o personagem envia mensagens de telefone de Tim para Tim “a custo quase zero”, a possibilidade do Facebook como ferramenta para manter ou resgatar o relacionamento e o sonho de comprar um apartamento em Suzano financiado pela Caixa. São detalhes, às vezes pequenos, que aproximam muito o texto do homem médio brasileiro, aquele que está sempre em busca de seu ouro de tolo. Ainda merecem destaque as referências, como a possibilidade de falar com um tal de Reinaldo Moraes doutor em relacionamentos, e citações a autores consagrados, como neste ótimo trecho: “O diamante é um dos poucos objetos lapidados pela vontade humana capaz de encerrar-se em si mesmo. Os livros de Camus também”.

Por fim, em um momento que tanto se discute a autoficção, impossível não registar o quanto escritor, autor, narrador e personagem Marcelo Mirisola são parecidos. Em dado momento, o personagem-narrador chega a pensar se referindo à Paula Denise: “Se ela quisesse mesmo ser minha mulher, teria de aceitar o pacote completo, eu & meus 12 livros publicados”. De um ano pra cá, Ricardo Lísias, por conta de seu Divórcio, que esteve no cerne dessa discussão. Considero isso um equívoco. A figura contemporânea ideal para ancorar o debate sobre metaficção e os limites entre escritor, autor, narrador e personagem é Marcelo Mirisola – boa parte de sua obra comprova e nos permite isso. Ele mesmo – o escritor – vai além. “Não só é possível, como é necessário [que haja a confusão]. Já disse numa entrevista, e repito: sou o Pedro Álvares Cabral da autoficção aqui no Brasil, e ninguém tasca”.

Voltemos às belas.

Ivete, Eva, Claudinha, Nelci, Cristina B, Luciana H, Cris, Thaís, Bebel e Regiane estão espalhadas por O herói devolvido (2000), O azul do filho morto (2002), Bangalô (2003) e Memórias da sauna finlandesa (2009) e entram neste texto porque seria um desperdício não aproveitarmos uma gama tão boa de personagens femininas. Afinal, Marcelo, personagem preferido de Mirisola, é um grande conquistador, praticamente um Renato Gaúcho das páginas literárias. E as moças que conquista possuem personalidade própria, muitas vezes flertam ou mergulham na breguice e cafonice, frequentam bares que fedem a urina e ficam com homens que se banham de loção barata. Não se importam de comer frango a passarinho e às vezes podem ter uma pele de amendoim nos dentes talvez sujos de batom. Não ligam para o bafo de cerveja ou cachaça – podem até sentir tesão nisso. São também moças que caem na lábia de intelectuais e se apaixonam depois de ouvirem algumas frases de efeito ou serem presenteadas com uma bijuteria bem acabada. E podem ser o contrário ou mistura de tudo isso, pois não seguem fórmulas. “Na mesma proporção em que elas me destroem, eu as construo”, conta o escritor. São mulheres de personalidade marcante, jamais idealizadas – a não ser pelos próprios personagens masculinos. E aí, méritos para o Mirisola autor e escritor, que, contudo, garante não sentir atração por nenhuma delas.

Você sente tesão pelas suas personagens, Mirisola? Com quais você gostaria de ter uma noite (ou uma vida)?

Só se eu fosse necrófilo. Tesão nenhum.

Mas eu disse que elas apaixonam e costumam se apaixonar de verdade. Aliás, o amor e a paixão são os grandes temas de Marcelo Mirisola. Muitas vezes são representados em relacionamentos breves, conturbados, acompanhados de traições corriqueiras, porém nunca simples, sempre sofridas. Alguns personagens podem até fingir que não ligam para os chifres ou para as desilusões, mas as frustrações e as dores em algum momento se manifestam, afinal, as relações são sempre intensas, mesmo que dure apenas uma noite – e isso graças às sedutoras Denises, Claudinhas, Regianes e afins.

Um conto que representa muito bem isso é “Festinha na masmorra”, de Memórias da sauna finlandesa, no qual o protagonista vai a um clube de sadomasoquismo para conseguir realizar sua grande perversão sexual: fazer papai-mamãe no escuro. É isso! Por mais que se cerquem de grandes extravagâncias, os personagens de Mirisola querem fazer papai-mamãe no escuro, sussurrar um “eu te amo” no ouvido da parceira e levar o café da manhã na cama, ainda que parceira e cama mudem a cada semana. Todos são desesperados por carinho e atenção. Entretanto, o próprio escritor discorda desse ponto de vista: “Eu penso que é tudo idealizado, apesar dos estragos causados pela realidade. Se o amor fosse possível, como você infere, não faria nenhum sentido escrever ficção”.

Há um trecho de Hosana poluída que é lapidar quanto a importância das mulheres na obra do escritor: “Inércia é a propriedade segundo a qual um corpo não pode modificar seu estado de movimento ou repouso, ao menos que sobre ele passe a atuar algo ou alguma força. Sem mulher, não há movimento”. Ou seja, a chave para entender Mirisola está em sua própria obra – é assim que os grandes artistas fazem, bastam-se naquilo que criam.

Texto publicado originalmente no suplemento literário Pernambuco.

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Por João Dutra

reproduçãoEm entrevista sobre o lançamento de seu novo livro, o escritor Bernardo Carvalho fez críticas ao uso banal da internet.

“[…] E há o narcisismo, a exposição no Facebook, que pega um ponto central. É perverso, a conquista vai em pontos frágeis da psique, você se sente uma celebridade. Do ponto de vista político, você acha que está usando, mas está sendo usado. O livro expressa esse desconforto.”

O tema da comunicação digital faz parte da narrativa de sua nova obra, Reprodução. O personagem central da história é um rapaz chinês que tem como característica marcante a rotina de comentários ofensivos, preconceituosos e anônimos em blogs da internet, além de uma sabedoria predominantemente gerada por artigos da Wikipédia.

Em sua crítica, o autor cita também o comportamento narcísico dos usuários de redes sociais. De fato, a vida editada, na qual só o lado positivo é exposto ao público tem sido motivo de debates e reflexões sob diversas óticas.

A despeito da mediação tecnológica, a questão da supressão de aspectos negativos da vida cotidiana não é novidade. Fernando Pessoa dá voz a Álvaro de Campos, que, em “Poema em Linha Reta”, de forma irônica critica a sociedade que exalta apenas as virtudes de seus membros e causa angústia a ele próprio, simples mortal, na infinidade de seus defeitos e limitações:

“Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.
E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo,
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda; […]”

A angústia apontada pelo poeta se ajuda a explicar um elemento sobressalente da cultura da comunicação digital e, citada por Bernardo Carvalho: a limitação da compreensão da vida sob o ponto de vista do que é compartilhado na internet.

Nesse sentido, é essencial a reflexão sobre o papel da literatura como provedora clássica de críticas que ajudam a dar sentido à nossa existência. Tanto a obra do poeta português, quanto do escritor contemporâneo, atendem ao chamado de compreensão do cenário sócio-político da época em que vivem.

Como aponta o escritor Ricardo Azevedo, ganhador de cinco prêmios Jabuti, a literatura assume, como propósito, a responsabilidade por preencher a falta primordial de sentido do indivíduo. Em mesa da Flip de 2013, ele comenta:

“A literatura e a ficção são alguns dos inventos que o homem fez para tentar preencher as lacunas, as perguntas, as angústias, os vazios.”

Enquanto surgem novas formas de tecnologia e mediação da comunicação, potencializando aspectos perenes da condição humana, é essencial retomar a literatura como porto seguro para as angústias que vivemos em nossas jornadas pessoais.

Cada autor coloca em sua obra um pouco de si e da época em que vive. Em um momento da história em que o mercado parece ser o guia maior dos comportamentos das pessoas, inclusive na literatura, é nos livros clássicos e nas críticas à contemporaneidade que continuamos mantendo nossa postura crítica, por meio de autores capazes de questionar o senso-comum, nos fazendo refletir sobre nossa condição.

Isso, porém, não significa que devamos rejeitar as novidades advindas da evolução na comunicação. Blogs e redes sociais foram protagonistas de protestos e movimentos políticos recentes, no Brasil e no mundo. Ambos fazem parte do dia-a-dia de boa parte das pessoas, sobretudo nas grandes metrópoles.

O que é necessário é justamente avaliar com parcimônia o conteúdo e discernir aquilo que deve ou não ser aproveitado. Fernando Pessoa e Bernardo Carvalho nos alertam para a tendência da sociedade em editar a realidade à sua regalia e o quanto isso pode tornar banal a comunicação.

Neste ponto, é necessário o equilíbrio para se utilizar das ferramentas que indubitavelmente podem potencializar nosso conhecimento e nossa experiência cultural. Como alerta à falta de autenticidade da informação na internet, vale lembrar a frase atribuída ao general romano Pompeu, na obra de Plutarco (106-48 AC) e eternizada por Fernando Pessoa: “Navegar é preciso, viver não é preciso”. Com essa expressão, o general chamava a atenção para o fato de que havia precisão no ato de navegar, visto que era guiada por matemática e outras ciências exatas. Na vida, isso não era possível.

À luz do que nos ensina o guerreiro dos tempos de Império, considerando a importância da internet como ferramenta que potencializa nosso poder de comunicação, mas nos expõe, com frequência, a conteúdo sem muito valor, sobretudo nas redes sociais, há de se crer que, na internet, navegar é preciso, Facebook não é preciso.

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Por Rodrigo Casarin

escritor fim do mundoO ano era 2007 e Juremir Machado da Silva, tradutor de Michel Houellebecq para o português (vertera Partículas elementares Extensão do domínio da luta até então), havia conseguido que o escritor francês fosse um dos convidados do ciclo de palestras Fronteiras do Pensamento. Convite aceito, Houellebecq pede ao “amigo” Juremir que, junto com sua mulher Claudia, também o acompanhe a uma viagem a Buenos Aires, Ushuaia e El Calafate. Vão à Patagônia porque é o lugar habitado mais ao Sul do mundo; porque, para os franceses, há a impressão de que nenhum outro canto pode ser mais longe — ainda que a Nova Zelândia seja mais distante da França — e porque, na ocasião, Houellebecq vendia mais livros na Argentina do que em todos os outros países hispânicos juntos.

Claro que o casal aceita o pedido — caso contrário, Um escritor no fim do mundo (viagem com Michel Houellebecq à Patagônia) não existiria e, conseqüentemente, esta resenha tampouco. Embarcam em uma viagem de sete dias, e é importante notar como de algo tão breve Juremir retirou um bom e valioso relato. Livros de viagens costumam retratar longas expedições — como Na trilha da humanidade, de Airton Ortiz —, aventuras que duram meses — O safári da estrela negra, de Paul Theroux —, buscas por algo quase sagrado — A última casa de ópio, de Nick Tosches — ou profundas imersões na cultura um país ou região ao menos um pouco estranho ao viajante-escritor — Colômbia espelho América, de Edvaldo Pereira Lima. Em todos os casos, quanto mais tempo o explorador tiver para flanar pelo desconhecido, melhor.

Talvez por não ter tido tanto tempo para esmiuçar a cultura local, talvez por não ter vivido nenhuma grande aventura — a viagem que Juremir, Michel e Claudia fazem é estritamente turística: andam de avião, táxi, hospedam-se em bons hotéis, integram excursões a atrações tradicionais, comem em bons restaurantes… — ou por estar acompanhado de um interessante escritor de renome internacional, o foco da escrita de Juremir se concentra muito mais no relacionamento que desenvolve com Houellebecq do que na viagem em si, que fica em segundo plano.

O autor opta por iniciar a obra com uma confissão que é quase um paradoxo para o que vem a seguir: “Eu amo as viagens e as memórias fugitivas. Mas odeio os viajantes e seus relatos”. Logo depois, trabalha com um conceito um tanto básico das narrativas de viagem: “Fomos ao exterior. Viajamos para o interior de nós mesmos. É essa narrativa que pretendo fazer aqui: a história de uma viagem ao interior de um homem”. E o que entrega ao leitor não é simplesmente um relato da sua passagem pela Argentina, mas principalmente uma interessante mistura de perfil do escritor francês — uma viagem ao seu interior — com ensaio sobre a relação dos dois — ou dos três, em alguns momentos. 

Difícil companheiro

Michel Houellebecq é um gênio ou um grande idiota, depende de quem o avalia. Em abril de 2002, Moacyr Scliar resenhou Plataforma, terceiro romance do francês, para a revista Veja. O título do texto, bastante elogioso à obra, era exatamente uma alusão a esses dois extremos de tratamento ao escritor: “Seria o autor francês um novo Albert Camus ou apenas um romancista medíocre e apelativo?”.

Seus romances são perturbadores. Pessimistas, politicamente incorretos, cheios de humor negro e com cenas de sexo que alguns dizem se aproximar da descrição de um filme pornô, de alguma maneira refletem a imagem do próprio autor. Houellebecq gosta de polêmicas e parece não se preocupar com o que os outros pensam dele (os brasileiros que o digam: o escritor já cancelou duas vezes sua vinda à Flip; a segunda, inclusive, aconteceu neste ano). Esforça-se para nutrir a imagem construída em torno da sua figura.

Na relação com Jurandir, faz questão que seja visto como alguém arrogante e eurocentrista, além de reiteradamente mostrar-se sedento por sexo. “Eu adoraria transar com brasileiras de dezessete anos que me acham radicalmente delicioso, mas isso me parece difícil dado o pouco tempo que ficarei em Porto Alegre. Tu não poderias organizar um concurso para descobrir a mais motivada dessas garotas? Afinal, estou ficando velho e talvez seja a minha última oportunidade de ir para a cama com uma brasileira”, diz em determinado momento para o parceiro, que, em algumas ocasiões, tem a clara impressão de que ouvirá Houellebecq se convidando para participar de um ménage à trois junto com o brasileiro e sua mulher.

Como é de se imaginar, a relação com o escritor francês não é exatamente tranqüila. Imprevisível, pode desencadear uma longa e surpreendente discussão sobre o que pingüins e lobos marinhos supostamente representariam — Houellebecq defende os primeiros; Juremir, os segundos, numa discussão que ganha corpo e importância ao longo do livro —, mas também se comunicar com o interlocutor apenas por meio de “humm” com entonações e sentidos diferentes, tudo depende do seu humor. Uma pena, pois quando o francês resolve efetivamente falar, surgem boas conversas, cheias de idéias, teorias e discussões intercaladas por amenidades e bobagens — que dão um toque pessoal e informal aos diálogos, bem ao ritmo de uma viagem sem grandes compromissos —, muito bem transpostas para o livro por Juremir.

Como não poderia ser diferente, o assunto que rende os melhores papos é literatura. Ciente do vasto conhecimento do francês, Juremir, em uma preocupação típica de intelectual, até decora o trecho de um texto de Jean Baudrillard para poder citá-lo e se fazer de erudito. Com essa alternância entre quase monólogos seguidos de lacônicos “humm” e longos, profundos e bem humorados diálogos, Juremir e Houellebecq ora parecem estar se descobrindo, ora parecem velhos amigos. 

Paisagens de gelo

Talentoso e atento, Juremir não se perde quando o francês resolve praticamente se enclausurar em si mesmo. Utiliza a relação com Claudia, as experiências que vivem, as refeições e momentos turísticos para dar corpo e movimento ao livro. Também observa bastante Houellebecq, em alguns momentos até demais: “É sempre comovente e elegante esperar um escritor famoso urinar”, confessa.

Apesar do foco na convivência com Houellebecq, em alguns momentos a narrativa de Um escritor no fim do mundo aproxima-se dos tradicionais livros de viagem. Juremir traz um pouco do fim do mundo para o leitor — lá encontram marcas da civilização que parecem se espalhar por toda a parte: American Express, Diesel, Puma, Adidas, Renault, Sony e BMW, por exemplo — e apresenta interessantes histórias de alguns lugares por onde passam, como o presídio de Ushuaia.

Ainda levando em conta os elementos locais, são interessantes as poucas oportunidades em que o autor se utiliza de algo tradicionalmente hermano como recurso. Eis uma amostra: “O silêncio tornou-se espesso. Parecia a defesa de um time argentino de futebol, de tão compacto”. Aliás, o futebol aparece em diversos momentos, mas é uma pena que daí surjam os raros deslizes do autor. Escrever que “em time que está ganhando não se mexe” para justificar o pedido de outra garrafa do mesmo vinho que estavam tomando ou que quando vêem um enorme bloco de gelo, correm para fotografá-lo junto com “as torcidas reunidas do Flamengo e do Corinthians” é optar por soluções fáceis demais.

Entretanto, não fossem construções tão óbvias, passariam desapercebidas perante os méritos do escritor. Durante uma das muitas conversas sobre literatura, Houllebecq pergunta: “Por que os seus livros não são lidos, Juremir?”. “Talvez por serem ruins. Essa é a opinião dos que me criticam”, responde o brasileiro. Não sei como andam as vendas nem o número de leitores de Um escritor no fim do mundo, mas, caso não estejam sendo satisfatórios, o problema está em algum outro lugar, não na qualidade da obra. Ao menos na opinião deste que lhe critica, Juremir.

Resenha publicada originalmente na edição 160 do jornal literário Rascunho 

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Por Alberto Nannini 

baltazar-serapiãoDe vez em quando, algum autor vira o “queridinho” da mídia. Considerando que o mercado de Literatura é tão ávido por lucro quanto qualquer outro, nem sempre estes tais queridinhos mostram a que vieram.

O português valter hugo mãe, (que quando lançou o livro do qual falaremos grafava seu nome com iniciais minúsculas), parecia ser um destes casos. Badalado, surpresa da Flip de 2011, teve divulgação maciça pela nossa mídia (às vezes, um tanto “baba-ovo” de estrangeiros), e seus livros ocupavam lugar de destaque nas livrarias.

Isto posto, confesso que caí no erro clássico do senso-comum: criticar sem conhecer. Algo que felizmente começou a ser solucionado com a leitura de o remorso de baltazar serapião, da Editora 34.

Após este poderoso livro, comecei a prestar mais atenção em Valter Hugo Mãe (aliás, impossível não lhe ter simpatia vendo o vídeo que está no final do texto). Hoje, ele prefere a grafia em maiúsculas, para não ficar marcado apenas por esta característica. A verdade é que, após começar a conhecer sua obra, é possível assegurar que não há a menor chance de que ele seja lembrado apenas por isso.

Tragédia portuguesa

O livro conta a história de Baltazar Serapião e sua família. Apelidados de “sargas”, são assim chamados por causa da vaca de estimação deles, chamada Sarga, que é dócil como um cão. São cinco: Baltazar, mãe, pai, o irmão mais novo, Aldegundes, e a irmã caçula, Brunilde. Vivem nas terras de D. Afonso, espécie de senhor feudal, casado com D. Catarina.

Completam o elenco central da tragédia Ermesinda, a mulher de Baltazar; Tereza Diaba, uma pária abusada por todos os homens, e a Mulher queimada.

O primeiro parágrafo dá o tom da história, e vai pautar as posições que ocuparão os personagens: “a voz das mulheres estava sob a terra, vinha de caldeiras fundas onde só o diabo e gente a arder tinham destino. A voz das mulheres, perigosa e burra, estava abaixo do mugido e atitude de nossa vaca, a sarga, como lhe chamávamos”.

Narrado por Baltazar, sujeito absolutamente limitado, a história tem o alcance e a perspectiva da sua estreiteza de raciocínios e de sua brutalidade. Os contrapontos, sempre dados pelas personagens femininas, são apenas vozes com que ele dialoga, e às quais responde, se não com seus patéticos argumentos e preconceitos, diretamente com a violência.

Estigmatizados como bichos, ridicularizados a ponto de serem reconhecidos pelo nome da vaca, os sargas se acomodam conforme a relação de poder desigual, totalmente submissos a D. Afonso. Brunilde, tão logo menstrua, se muda para casa dele, a lhe servir aos caprichos. A mãe é parcialmente aleijada – teve o pé retorcido por um ataque do pai, a lhe “corrigir”. Aldegundes é sensível, mas tem fixação pela vaca sarga. E Baltazar, que como todos os homens da trama, se alivia em Tereza Diaba, é da mesma laia.

A azarada Ermesinda, descrita como delicada e lindíssima, é pedida por Baltazar em casamento a seus pais, que concordam. Vai morar com Baltazar, no conjugado onde antes abrigavam a sarga. A beleza da moça não passa despercebida de D. Afonso, que manda que ela vá à sua casa todas as manhãs.

E, em algum momento, o povo ignorante das cercanias castiga uma velha acusada de bruxaria, ateando-lhe fogo, mas esta sobrevive, totalmente desfigurada.

Estas vidas miseráveis estão entrelaçadas pela desgraça, pelas superstições, pela obtusidade absoluta, que parte de conclusões só possíveis a homens ignorantes, inseguros e irremediavelmente tolos, para gerar dor, violência e morte.

Fusão de estilos

A primeira referência que vem à cabeça é Saramago. O falecido autor, ao ler o romance, disse: “às vezes tive a impressão de assistir a um novo parto da língua portuguesa”. O estilo, inspirado na oralidade, com acentuação particular, lembra muito o do premiado escritor. Até se “pegar o jeito”, trava um pouco a leitura, mas é uma inovação bem vinda e consistente, que mantém o padrão durante todo o romance.

Mas a história, algumas situações e o próprio ambiente lembraram bastante José Lins do Rêgo e seu Fogo Morto, também. Seu personagem Mestre José Amaro com sua brutalidade, a espancar a filha histérica e a maltratar a mulher, está bastante presente. A desgraça de Ermesinda, seu martírio pela suposta infidelidade, e o sofrimento do feminino em geral no romance, remete levemente à saga de Capitu e Bentinho, no clássico Dom Casmurro, de Machado de Assis.

Isso mostra a quantas ia o meu erro de pré-julgamento de Valter Hugo Mãe: após ler apenas uma obra sua, e ainda que rasamente, o comparo a três dos maiores escritores da língua portuguesa em todos os tempos, verdadeiras unanimidades.

Então, imagino que um livro que aliasse a linguagem de Saramago, a ambientação e a criação de personagens de José Lins do Rêgo e a inventividade de Machado de Assis, resultaria em algo muito semelhante ao remorso de baltazar serapião.

Tal é a qualidade da obra que esta parece deslocada no tempo. Poderia figurar ao lado dos clássicos, e lhes guarda muitas semelhanças. Se fosse sugerida pelos professores de literatura, traria um material formidável para discussão, que poderia se apoiar, principalmente, na opressão ao feminino.

Barbaridades entranhadas e recorrentes

A opressão ao feminino está de tal modo entranhada nos nossos hábitos, que costuma acontecer o que há de mais hediondo: muitas vezes, ela passa despercebida.

Coincidentemente, o Canto dos Livros levantou esta discussão, nos artigos Não, esse cara não é você e Uma medida de amor e ácidos, e não há um único dia em que notícias sobre as consequências desta opressão não sejam divulgadas: assassinatos, estupros, violência, desrespeito, preconceito, e muito mais, sendo certo que apenas uma minúscula fração daquilo que acontece chega a ser divulgado.

Por este viés, o livro traz um questionamento atual e importantíssimo, não obstante sua ambientação remeta a tempos passados. A constatação da opressão massiva ao feminino permeia a obra inteira, marca e desfigura suas personagens femininas, e tem como contraponto a obtusidade, a brutalidade e a imposição da força do masculino.

Porém, mais que um discurso panfletário, a obra tem um brilho próprio, e poderia ser discutida por vários vieses, que passam pela crítica aos costumes – de quão atrasados alguns deles são, perdurando até os dias de hoje, e do quanto a carência de uma boa educação afeta a vida das pessoas, ou mesmo pelo questionamento à romantização da vida rural, no livro tratada como precária e sofrida.

Além disso, é triste, mas inevitável constatar, que há milhões de Ermesindas por aí, espancadas, dilaceradas e violentadas, e outro tanto de Terezas Diabas, vilipendiadas, abusadas, desrespeitadas, e ainda outro tanto de Mulheres Queimadas, desfiguradas, marcadas e discriminadas, pela ignorância essencialmente masculina que domina nosso mundo.

De qualquer forma, os vieses tem em comum serem todos bárbaros, entranhados na nossa cultura e tristemente atuais, apesar de a vida rural ser hoje apenas uma reminiscência do que já foi.

Mérito literário

Seja para detectar um destes ou outros vieses de interpretação, seja apenas para ler uma boa história, o livro tem o mérito de ser autossuficiente, e prescindir de malabarismos para justificá-lo: como toda obra de excelência, se justifica por si só, tem força o bastante para permanecer na memória de quem o ler, e tende a fazer refletir.

Além do mérito da história, há os personagens – reais, densos, quase palpáveis, a ponto de a empatia pelo sofrimento das mulheres da trama nos afetar de verdade. Como já dito, elas existem, e são milhões.

Já a burrice, estupidez e brutalidade dos homens também existem, infelizmente, e o retrato deles é mais que verossímil, é atual e alarmante. E, obviamente, não incorre apenas nos meios rurais, ao contrário, atitudes como as deles são rotineiras, nos campos e nas cidades de todo o mundo.

Um livro que trata de uma história definida, que não demonstra pretensão de ser um retrato ou uma crítica formal, mas sim um “recorte” de um tempo indeterminado, com personagens reais e notórios, cuja escrita nos deixa entrever suas motivações, espíritos, ambições e limitações – essa pode não ser a descrição mais elaborada, mas a conclusão é uma: se trata de um clássico.

E minha aposta é que remorso de baltazar serapião já é um, e o tempo lhe fará (ou já faz) a devida justiça, quiçá até deverá figurar em breve como leitura indicada nas escolas, vestibulares e afins.

Se quiser uma leitura densa, atual, chocante e instigadora, o livro é este. Leia, descubra qual é o remorso que atinge o personagem/narrador, e se surpreenda.

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Recentemente, uma polêmica assolou o mercado nacional de literatura: o embate entre a edição da Granta com os 20 melhores escritores brasileiros da atualidade e o livro Geração Subzero (resenhado aqui pelo Fred Linardi), que traz outros 20 escritores que vendem bem, mas são quase que ignorados pela crítica. Nas discussões – que passavam por temas como “público x crítica” e a impossibilidade de se escolher duas dezenas de representantes de uma literatura tão ampla como a brasileira – , muito foi falado e nada concluído. Contudo, para contribuirmos de alguma forma com este importante debate, conversamos Felipe Pena, organizador de Geração Subzero (além de jornalista e Doutor em Letras pela Puc-Rio, professor universitário e autor de 13 livros, que se dividem entre teóricos e ficcionais).

Canto dos Livros: Na sua opinião, o que é um livro bem sucedido?

Felipe Pena: É um livro que provoque o leitor, que o faça pensar e, acima de tudo, que o faça virar a página, sem conseguir largá-lo. Quando escrevi meu primeiro romance, Fábrica de diplomas, estas foram minhas preocupações. E elas continuaram nos livros seguintes. O melhor elogio que posso receber é quando um leitor diz que ficou grudado na história. Não há nada melhor.

CL: O que é a crítica literária para você? O que pensa e qual a importância que dá a ela?

FP: Com raras e boas exceções, não acho que tenhamos uma crítica literária de verdade no Brasil. Há, no máximo, resenhistas pautados por alguns grupos de influência. E esses grupos determinaram que só têm valor os escritores cuja prosa se aproxima da elipse, da referência intelectualizada, da erudição construída, do beneplácito da academia, da receita caseira que apregoa que a literatura é para poucos. E os poucos são eles próprios. Essa é uma visão tipicamente elitista. E afasta os leitores.

CL: Como fazer o balanço entre o que o público gosta e o que a crítica fala?

FP: Para fazer este balanço, é preciso perceber como o público é informado pela mídia (influenciada pela crítica) sobre todos os gêneros da literatura. Os festivais literários, as premiações, a crítica universitária e uma parte da imprensa dão a impressão de que só a literatura hermética tem valor. E isso não é verdadeiro. A escrita simples é a laboriosa tradução da complexidade. Escrever fácil é muito difícil. O problema é que o ambiente já está contaminado. Você acha que o júri do Jabuti vai premiar um autor da Geração Subzero? Ou que o curador da FLIP vai formar uma mesa na tenda principal com escritores populares? Nunca. No dia que isso acontecer, eu desfilo de cueca pelas calçadas de pedra em Paraty.

Aliás, isso não seria incoerente, já que a FLIP é a Fashion Week dos escritores. E não estou fazendo uma crítica, que fique bem claro. Eu frequento o festival desde a sua primeira edição. Ele é o mais importante do país, o que atrai mais atenção, o que legitima a produção nacional. Deveria olhar com mais atenção para os autores que formam leitores.

CL: Como você tem visto o retorno da crítica sobre o Geração Subzero? Será que a partir de agora esses autores (e outros também ignorados pelos críticos) serão lembrados?

FP: Seria uma incoerência se um livro com autores congelados pela crítica fosse elogiado por essa mesma crítica. Nós perderíamos toda a credibilidade. Por isso, tratamos a crítica com ironia. Mas isso não é novo pra mim.

A opção pela ironia sempre esteve presente nos meus romances. Minhas histórias ironizam a cultura erudita, o mundo acadêmico e a comunidade literária, que são as próprias áreas por onde eu circulo. Em Fábrica de Diplomas, por exemplo, que é um thriller de suspense numa universidade, o personagem principal é um analfabeto e o vilão é um doutor. Já em O marido perfeito mora ao lado, brinco com os rótulos da psicanálise para contar uma história de amor. É uma opção estética, consciente. Acredito que a ironia seja o melhor instrumento para desarmar a prepotência do mundo literário e do mundo acadêmico. E foi o que fiz com o Geração Subzero, que é uma ironia com a coletânea Geração 00, do Nelson de Oliveira, que teve a pretensão de apresentar os melhores autores brasileiros surgidos nos anos 2000. Uma pretensão absurda. Obviamente, a ironia serviu para provocar essa suposta crítica intelectualizada.

CL: Sobre o “Manifesto Silvestre”, que defende principalmente a possibilidade da literatura como entretenimento, você afirma no Geração Subzero que muitos autores concordam com essas ideias, mas confessam para você que nunca teriam coragem de defendê-las em público. Você tem pago um preço por dar sua cara a tapa?

FP: Não me importo de assumir esse preço. O importante é que o assunto entrou em pauta e beneficiou muitos autores que estavam esquecidos. Não há produção artística sem risco. Não podemos é ficar imobilizados pelas asas do cânone estabelecido. Eu transito nas duas margens: escrevo ficção e estou na academia (sou professor da UFF e fiz o doutorado em literatura). Então, as reações vêm dos dois lados. Mas não estou aqui para agradar ninguém. Falo o que penso, é natural que haja reações. Minha primeira e única obrigação é com a lealdade de pensamento. Portanto, o risco é minha única opção.

CL: Durante a seleção deste conteúdo, você afirma que o gosto do público foi soberano até sobre seu poder como organizador. Afinal, o público é o melhor juiz para a arte?

FP: Não estou preocupado com juízes, estou preocupado com a formação de leitores. O Geração Subzero é destinado a um público que se preocupa apenas com o prazer da leitura, com a relação afetiva com o livro, com as reflexões que uma história bem contada pode provocar e com a socialização dessas histórias e dessas reflexões. Sim, a socialização, pois aquele que tem prazer na leitura sempre recomenda o livro ao amigo mais próximo.

CL: O quanto você considera decisiva a educação formal, a chamada por você de “não ignorância erudita”, na formação de alguém?

FP: A educação formal é excelente se você souber relativizá-la. Eu fiz o doutorado em literatura para aprender como não escrever. Nas aulas, só se falavam em teorias e em autores chatos e herméticos. Não queira ser um deles. Então resolvi ser um ignorante por conta própria.

CL: Qual a contribuição que uma formação em psicologia dá a um jornalista? E a um escritor de ficção?

FP: A formação em psicologia me ajuda a compor os personagens, dá substância aos dilemas que eles vivem. Nosso principal desafio é tentar entender o outro.

CL: A psicologia influenciou sua maneira de lidar com a mente de personagens fictícios (tanto os seus quanto o de outros autores)? O que mudou e de que maneira?

FP: A psicologia me ajudou a entender o tempo. Tempo é expectativa, é o portão de ferro da angústia. Estamos aprisionados num passado que não volta e num futuro que é incerto. Isso torna mais difícil viver o presente. As leituras das obras de Freud, Lacan e Ferenczi me ajudaram a encarar a angústia.

CL: Uma vez você declarou sobre a ficção que escreve que “fatos se fundem para gerar uma história; ficção, mas também realidade” e parafraseou Manoel de Barros, dizendo que “Noventa por cento do que escrevo é invenção, só dez por cento é mentira”. Qual a importância relacionar fatos reais que são aparentemente desconexos entre si para formar uma história de sentido único, que explique um mecanismo muito maior, onde o importante é o todo e não a parte?

FP: Eu sou um cronista sem jornal. E cronista sem jornal é erro de semântica. É dialética a prazo, sem juros, em dez vezes, nas Casas Bahia. É a perda da sintaxe, do sentido. É a gramática velha, a ortografia antiga, com trema e acento nos ditongos orais crescentes. Cronista sem jornal não tem direito ao último pedido, ao afago feminino, ao gozo embevecido. Cronista sem jornal não tem direito a voltar no tempo e pedir a leitora em casamento.

Então, como não tenho jornal, posso inventar a partir da realidade. E a ficção fala muito melhor sobre a realidade do que a própria realidade.

CL: Seu currículo mostra uma formação sólida e uma produção prolífica. A impressão comum sobre o meio acadêmico é que se trata de algo hermético, cujos integrantes não fazem especial questão de tornar acessíveis aos leigos suas pesquisas e descobertas. Este diagnóstico procede? Como incentivar a produção acadêmica num país de educação claudicante?

FP: A Academia é um inverno perene. São os doutores universitários (e me incluo na lista) que prejudicam a formação de um público leitor no país. A própria linguagem da academia é produzida como estratégia de poder. Quanto menos compreendidos, mais nossos brilhantes professores se eternizam em suas cátedras de mogno, sem o controle da sociedade. E isso se reflete na literatura, claro.

A exceção fica por conta de críticos como o José Castelo (que não é acadêmico) ou o Tzvetan Todorov, por exemplo, que é o maior herdeiro do formalismo russo e fez um mea culpa corajoso no livro A literatura em perigo. (Espero conhecer outros).

Acho que uma boa opção é incentivar os blogueiros literários. Eles escrevem com paixão, não estão presos a dogmas ou preconceitos. As editoras deveriam fazer concursos de resenhas entre os blogueiros. Há muita gente boa falando sobre literatura na internet.

CL: Três de seus romances são justamente ambientados no meio universitário, e formam a chamada “Trilogia do Campus”: desvendam alguns bastidores deste meio, bem como o jogo de interesses na disputa por um mercado milionário, que é o do ensino superior. Como foi o processo de criação dos livros? Uma vez tão entranhado neste meio, há um componente de expiação, ou de desabafo?

FP: Não há desabafo. Escrevo ficção, ponto. Mas se o que escrevo pode levar as pessoas a refletir sobre a realidade, melhor ainda. Muitos leitores de O marido perfeito mora ao lado me mandam e-mails pra dizer que o livro os ajudou no casamento ou no namoro. Não era essa a intenção, já que o título é uma brincadeira com os livros de autoajuda. Mas como cada capítulo é um conceito da psicanálise, explicado pelo personagem principal no interior do enredo, algumas pessoas acabaram aplicando-os na própria vida. Nada contra. O livro pertence ao leitor. É o nome dele que deveria vir na capa, não o meu.

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Começa hoje e vai até domingo a décima edição da Flip, a Festa Literária Internacional de Paraty. Para quem não pode ir à cidade fluminense para estar no evento literário mais importante do país, o que resta é fazer como eu e acompanhar as palestras pela Internet. Todas serão transmitidas pelo site da festa, que é este aqui: http://www.flip.org.br/

Por lá você também poderá conferir a programação completa da Flip. Dentre todas as mesas, as que destaco são:

– A abertura com Luis Fernando Veríssimo, nesta quarta, às 19h.

– “Apenas Literatura”, com Enrique Vila Matas, Alejandro Zambra e mediação de Paulo Roberto Pires, na quinta, às 15h

– “Ficção e história”, com Javier Cercas, Juan Gabriel Vasquez e mediação de Ángel Gurría-Quintana, na quinta, às 17h15

– “Autoritarismo, passado e presente”, com Luiz Eduardo Soares, Fernando Gabeira e mediação de Zuenir Ventura, na quinta, às 19h30

– “O mundo de Shakespeare”, com Stephan Greenblatt, James Shapiro e mediação de Cassiano Elek Machado, na sexta, às 12h

– “Encontro com Jonathan Franzen”, com mediação de Ángel Gurría-Quintana, na sexta, às 19h30

– “Pelos olhos do outros”, com Ian McEwan, Jennifer Egan e mediação de Arthur Dapieve, no sábado, às 12h

– “Música para malogrados: conferência de Enrique Vila Matas”, no sábado, às 19h30

– “Mesa Los Amigos”, com Angeli, Laerte e mediação de Claudiney Ferreira, no sábado, às 21h30

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