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Posts Tagged ‘França’

Por Rodrigo Casarin

primeira guerraSarajevo, 1914. Balas mortais atingem o arquiduque austríaco Francisco Ferdinando e a duquesa Sofia. Quem as dispara é Gavrilo Princip, um sérvio integrante da Mão Negra, organização que quer todos os territórios eslavos independentes do império austro-húngaro. Para alcançar o objetivo, usam a violência como principal arma. O assassinato do casal é somente mais um ato. Gavrilo não imaginava o que aqueles disparos ocasionariam.

A Europa vivia um momento delicado. As nações imperialistas tentavam a todo custo aumentar seus territórios. Disputavam espaços na África e, para se fortalecer, investiam muito dinheiro em armamentos. Com animosidade entre os impérios, o sentimento de nacionalismo se exacerbava em uma época cujas feridas causadas por conflitos no século XIX ainda incomodavam.

Após o assassinato, os austro-húngaros acusam a Sérvia de financiar a Mão Negra e logo declaram guerra ao país. É a desculpa que todos precisavam. Como garotos esperando qualquer olhar torto para iniciar uma confusão, as nações europeias vão à briga. A Rússia em defesa dos sérvios; a Alemanha, contra a França e depois contra a Rússia; a Grã Bretanha, contra a Alemanha, em defesa da Bélgica; a Itália um tanto perdida, sem saber ao certo em quem bater. Logo os Estados Unidos chegariam para dar uma força aos amigos bretões e franceses.

A briga seria superlativa. Duraria até 1918, envolveria países de todos os continentes, deixaria mais de quinze milhões de mortos e seria conhecida como a Primeira Guerra Mundial, ou A Grande Guerra.

2014 marca os cem anos do início do conflito e o mercado editorial prepara novidades sobre o assunto. A Rocco lançará Adeus à Europa, de Olivier Campagnon, um estudo que mostra o impacto da batalha nos países latino-americanos, principalmente no Brasil e na Argentina. Segundo Campagnon, a mudança na imagem europeia, outrora exemplo de civilização, levanta questões identitárias que levam a uma reformulação do nacionalismo na América Latina.

Pela Companhia das Letras, chegará às prateleiras The Sllepwalkers (ainda sem título em português), de Christopher Clark, que trata das razões que motivaram a luta armada, e The beauty and the sorrow (outro ainda sem nome em nossa língua), de Peter England, um retrato das pessoas comuns durante o combate. A Alfaguara também trará uma novidade: O bom soldado Svejk, de Jaroslav Hasek, uma comédia que flerta com o absurdo, previsto já para o primeiro semestre.

A literatura da Primeira Guerra

As editoras se aproveitam da efeméride. Contudo, ao longo desses cem anos, diversos livros já abordaram A Grande Guerra. Os dois mais comumente associados ao evento são os romances Nada de Novo no Front, de Erich Maria Remarque, e Adeus às armas, de Ernest Hemingway.

Erich Maria Remarque é o pseudônimo de Erich Paul Remark, alemão que esteve no campo de batalha. Nada de novo no front, de 1929, é protagonizado por Paul Bäumer, que se alista ao exército germânico e vai combater no oeste europeu, onde se dá conta do que é realmente a guerra: um bando de homens matando outros homens por causa de homens que jamais viram na vida. A matança é intercalada por momentos de monotonia e fome – a dificuldade em encontrar comida às vezes é grande. Quando Paul volta à cidade, surpreende-se com as pessoas que acompanham tudo de suas casas, loucas por uma triunfal vitória, bastante diferente dos soldados da linha de frente, que só querem permanecer vivos.

Hemingway também esteve no front. Recusado pelo exército de seu país, os Estados Unidos, arrumou uma vaga na Cruz Vermelha. Foi enviado à Itália, onde dirigiu ambulâncias até estilhaços de uma bomba lhe atingirem na perna, obrigando-o a retornar para casa. Da experiência nasceu Adeus às armas, que, se lançado hoje, com certeza fomentaria ainda mais a discussão sobre as metaficções. A obra, lançada no mesmo ano de Nada de novo no front, narra a história de Frederic Henry, estadunidense que vai à guerra ser piloto de ambulância e é ferido na perna, veja só. Assim como Hemingway, Frederic se apaixona em meio à barbárie. É sobre a relação do personagem com sua amada que o enredo desenrola até seu final publicado – apenas um dos 47 finais elaborados pelo escritor.

Se o cenário dessas duas obras é Primeira Guerra Mundial, em outras ela aparece de forma velada, com influência sobre o ambiente que os personagens vivem – é o caso de O grande Gatsby, clássico do estadunidense Scott Fitzgerald, lançado em 1925 e que mostra a prosperidade e o deslumbramento da elite de seu país nos anos que sucederam o conflito –, ou explicitamente, mas de maneira pontual – como em O tempo redescoberto, último volume da Em busca do tempo perdido, do francês Marcel Proust, do qual se destaca a cena do protagonista passeando por uma Paris em meio a bombardeios.

No Brasil, um dos personagens mais marcantes de nossa literatura nasceu inspirado pelo combate. Jeca Tatu, uma espécie de arquétipo caipira, apareceu primeiro em um artigo para o jornal O Estado de São Paulo em 1914, mas foi eternizado no conto “Urupês”, do livro Cidades mortas, de 1919. Quando criou o personagem, Monteiro Lobato estava revoltado com brasileiros que se preocupavam mais com a condição da Europa do que com o interior do seu próprio país.

Em Cidades mortas ainda há o conto “O espião alemão”, no qual Lobato ridiculariza quem pensava que o Brasil poderia ser alvo de exércitos estrangeiros, enquanto uma verdadeira batalha acontecia em seus rincões: a luta pela sobrevivência.

É evidente que a lista de prosas ficcionais que tratam do assunto não se esgota nesses títulos. Contudo, como se trata de um acontecimento histórico, é importante destacarmos os livros de não ficção que abordam a Grande Guerra. Com o nome nada original de A Primeira Guerra Mundial, temos obras assinadas por Michael Howard, Lawrence Sondhaus e H.P. Willmott, que trazem uma visão panorâmica do conflito. Focado no início do embate, enquanto estavam sendo decididos os rumos que influenciariam o mundo, há Canhões de agosto, de Barbara Tuchman, que alia informações históricas à narrativa literária em um trabalho que valeu o Prêmio Pulitzer de 1963 à autora.

Infelizmente, uma outra obra histórica construída em forma de narrativa ainda não foi publicada no Brasil. Trata-se de Der Kleine Frieden im Grossen Krieg (algo como Um pouco de paz na Grande Guerra), de Michael Jürgs, que refaz a trégua de quase uma semana entre soldados inimigos para celebrar o natal, enterrar seus mortos, jogar bola e até mesmo trocar alguns presentes. Fosse ficção, provavelmente soaria piegas.

Já com uma abordagem diferente, que dá luz às pessoas comuns, que vivenciaram e sofreram o período, há os relatos contidos em Vozes esquecidas da Primeira Guerra Mundial, trabalho de Max Arthur em parceria com o Museu Imperial de Guerra britânico.

A literatura na Primeira Guerra

Apesar dos exércitos, invasões, balas e mortes, novidades literárias continuavam aparecendo durante a Grande Guerra. E com um detalhe importante: o conflito, de certa forma, influenciou a que, para muitos, é a santíssima trindade literária do século XX: Franz Kafka, Marcel Proust e James Joyce, que, após uma busca de década por quem o editasse, lançou o livro de contos Dublinenses, uma de suas obras mais importantes, poucos dias antes de soarem os primeiros tiros. Nele, o escritor traça um retrato da vida dos habitantes de Dublin e apresenta sinais do estilo que radicalizaria em Ulysses. É de se imaginar que algumas pessoas deixassem os assuntos bélicos de lado e preferissem discutir as histórias do irlandês.

Outro título que deve ter sido posto em pauta entre uma opinião ou outra sobre o conflito é A metamorfose, um dos trabalhos mais representativos de Kafka, lançado em 1915. A saga do homem-inseto Samsa foi escrita após o início da Primeira Guerra Mundial, que impactou tanto na própria obra – o pessimismo da época, as questões que a modernidade trazia, a desesperança – quanto no autor tcheco, que passava por uma crise emocional agravada pelos episódios de matança.

Completando o trio sacro, já mostramos como a embate aparece no último volume de Em busca do tempo perdido, de Proust, mas faltou dizer que a publicação da septologia foi interrompida por conta da luta entre países. No caminho de Swan chega às livrarias em 1913, enquanto À sombra das raparigas em flor sai apenas em 1919. Apesar da conhecida morosidade da escrita do francês, o lapso entre publicações foi um motivo externo ao autor. A guerra também aparece de forma velada em Em busca do tempo perdido, afinal, não haveria como retratar a sociedade de sua época sem levar em conta os efeitos que ela provocou.

Apesar de distantes, não escapamos de novidades que flertam ou se agarram à confusão europeia. Lima Barreto, por exemplo, publica Numa e a ninfa e a versão em livro de O triste fim de Policarpo Quaresma durante os anos de conflito. Porém, é na poesia brasileira que o combate exerceu uma influência mais direta, em autores dos mais importantes para o movimento modernista no país.

Manuel Bandeira era tuberculoso, por isso, em 1913, mudou-se para a Suíça – iria se tratar por lá. Iria, caso não tivesse que retornar ao Brasil no ano seguinte, por conta do início das animosidades. De volta ao seu país natal, publica em 1917 A cinza das horas, sua primeira obra, que sai com uma edição de 200 exemplares custeados pelo autor. Mais evidente é a influência da Grande Guerra em Mário de Andrade, que também em 1917 publicou, sob o pseudônimo de Mario Sobral, Há uma gota de sangue em casa poema, livro inspirado pelas barbáries da batalha.

E tudo isso começou, de certa forma, com os tiros de Gavrilo Princip.

Texto publicado originalmente na edição XX suplemento literário Pernambuco.

Ps: Desculpem pelo jogo de negrito e não-negrito, mas há algum tempo venho apanhando do WordPress.

 

 

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jeremyVocê já quis morar numa livraria? Ele morou! Não foi o único, é verdade, principalmente quando a estadia é na livraria mais nostálgica e hospitaleira do mundo, a Shakespeare and Company, localizada em Paris. Mas como cada um é dono de sua própria experiência, Jeremy Mercer narrou como foi a sua em Um livro por dia,  que já resenhamos aqui no Canto dos Livros. Além deste livro traduzido em diversos idiomas, Mercer é autor de The Champaign gang, sobre uma gangue canadense, e When the guillotine fell, sobre o último homem condenado à morte na França, ambos inéditos no Brasil.

Mercer divide seu tempo também entre reportagens e traduções. Por tudo isso resolvemos convidá-lo para essa entrevista exclusiva. Entre a atmosfera empoeirada de uma livraria e os novos rumos da leitura digital, contundente, Mercer fala sobre a escrita de não ficção, sobre sua visão de um mundo que se transforma a cada momento e onde está o lugar do escritor e do idealista hoje em dia.

Canto dos Livros: Você se mudou do Canadá para França motivado por uma situação de risco. Depois de sua experiência na livraria, o que tem te motivado como escritor e quais os riscos que você ainda corre, mesmo que não seja o de perder a vida?

Jeremy Mercer: Agora sou pai de duas crianças pequenas, então eu tento excluir todos os riscos desnecessários. Preocupa-me a ideia de sofrer um acidente grave e me tornar um fardo para minha família; ou pior, morrer e ficar sem esse grande amor que me rodeia. Então, por exemplo, agora eu uso capacete quando ando de bicicleta. E recentemente recusei um convite para escalar uma rocha. E recusei uma oportunidade de ir para a Líbia durante a guerra. E também não uso mais drogas. Apesar de beber pra caramba vinho rosé, eu não dirijo quando bebo. Acho que não me importaria de ter uma longa e sofrida morte de cirrose, o que me amedronta é ficar sem minha família por causa de uma estupidez. (Apesar de muitas vezes me pegar berrando para outros motoristas aqui em Marselha, o que é uma burrice; outro dia um motorista tentou me parar no acostamento.)

Em suma, tudo que não tem sentido. Tratam-se daqueles momentos na vida quando você é livre, quando não há responsabilidades perante a família ou pessoas amadas, esses são momentos incríveis, quando você pode se meter em todo tipo de aventuras arriscadas, viajar para países em meio a revoluções, fazer amor de ocasião. Porque com sorte você terá algo tão belo em sua vida no futuro que você não vai querer correr o risco de perder, você aceita arriscar-se quando não tem muito a perder.

De uma perspectiva criativa, os riscos que corro agora são os novos projetos. Por exemplo, recentemente eu participei da gravação de um filme francês. Foi minha primeira vez atuando numa grande produção e foi amedrontador. E eu meio que fui mal. Mas eu aceitei o papel porque eu sabia que seria um risco profissional e, mesmo se eu falhasse, me traria um aprendizado. Claro, eu também aceitei porque me pagaram 600 euros por uma única tarde de trabalho. Dinheiro é sempre uma questão para escritores.

CL: Na Shakespeare and Company havia alguma diferença na maneira que você era tratado por escrever livros de não ficção?

JM: Sem dúvida. Tinha muitas pessoas na Shakespeare and Company que seriam grandes autores. Quer dizer, eu conheci três caras que insistiam em dizer que um dia seus romances ainda nem escritos seriam ensinados em universidades. Imagine. Esses tipos eram desdenhosos não apenas em relação à não ficção, mas aos romancistas que não chegavam a um grande reconhecimento nas listas dos mais vendidos, assim como estavam tão certo de que seriam sucesso, que ofuscariam qualquer outro autor que de fato fazia sucesso escrevendo.

Geralmente, há uma esnobação equivocada que cerca a ficção. Eu adoro belos romances, mas a verdade é que genialidade na ficção é rara e a vasta maioria dos autores que se empenha em fazê-lo acaba produzindo uma bobagem banal. A razão de eu amar a não ficção é que, mesmo que você escreva um livro ruim, você acaba aprendendo algo, você fez uma pesquisa incrível, você encontrou pessoas fascinantes. Além disso, eu acho que ficção é meio que uma trapaça. Na não ficção, você se depara com uma série de elementos da história e é forçado a encontrar um sentido naquilo tudo e transformá-los numa narrativa que honre a verdade; com a ficção você pode simplesmente inventar algo e encaixá-lo de maneira que faça a narrativa fluir. Muito fácil.

CL: Como você vê esse embate que muitas vezes há entre a literatura ficcional e a não ficcional? Acha que a segunda pode atingir o mesmo patamar da primeira?

JM: Estamos passando por um momento ruim porque os autores têm um grande interesse financeiro em fazer sucesso com livros de não ficção. Eu desconheço os números do Brasil, mas nos EUA a não ficção vende dez vezes mais do que ficção, então há muita oportunidade no mercado. Alguns autores são tão ávidos a fazer um estardalhaço com a não ficção que acabam alterando a verdade da história. Pegue o exemplo do livro Um milhão de pedacinhos, de James Frey, onde ele inventa partes de sua biografia, ou Imagine, de Jonah Lehrer, onde ele cria citações de Bob Dylan. Eu acho isso repugnante, pois estão traindo os ideais da não ficção. Nós devemos buscar a verdade e contar histórias reais, mas eles ignoram este respeitoso – e desafiador – caminho para inventarem coisas e aumentar suas chances no mercado da não ficção. Esses autores que traem a não ficção me lembram aqueles maridos que sentem orgulho de trair suas mulheres, fraudadores que não têm respeito algum por si mesmos, pela vida deles ou pelo próprio trabalho.

CL: Em dado momento de Um livro por dia você diz que “pagar para ser publicado é semelhante a pagar por sexo, só que, de certa forma, mais vergonhoso”. Hoje em dia essa prática é cada vez mais comum e também há diversos casos de sucesso com autopublicações. Você continua com a mesma opinião? Por quê?

JM: Eu tenho uma opinião ainda pior sobre isso agora devido à facilidade dos e-books e e-publishing que têm se aberto para tantos escritores e tem tanta gente tentando se aproveitar disso e fazer dinheiro com as aspirações literárias das pessoas. Por exemplo, uma ex-agente literária minha iniciou um negócio cujo trabalho é aconselhar escritores em como publicar seus próprios livros e ela está fazendo dinheiro com pessoas sem talento e desesperadas para terem seus livros publicados. Eu ainda acredito que a literatura precisa de guardiões e existem revistas, jornais e editores tão diversificados por aí que eu não vejo por que um escritor precisaria pagar para ser publicado ou se autopublicar a não ser que seja um preguiçoso ou sem talento.

É claro que você pode citar exemplos de autopublicações que se tornaram um grande sucesso, como A cabana, que chegou aos 15 milhões de cópias. Mas meu argumento é que esse livro também teria sido publicado pelos meios tradicionais se o autor tivesse sido mais persistente. Lembre-se: o livro Zen e a arte da manutenção de motocicletas foi rejeitado por 121 editoras antes de ser aceito, e A resposta foi recusado 60 vezes. Não é que eu rejeite todos os modelos de autopublicação. Se você ver o que Andrew Sullivan está fazendo, é interessante: ele tem dois milhões de seguidores em seu blog, então ele começou a publicar seus próprios livros para ter mais controle criativo (como fez Luis CK na comédia). Mas a diferença aqui é que Sullivan já tem um mercado e uma demanda pelo seu trabalho, e escolheu seguir de forma independente.

CL: Em outro trecho do livro, George Whitman lhe diz “Não é medonho? A arte da guerra relacionado como livro de conselhos empresariais. O que isso diz sobre nossa sociedade?” e a pergunta, ainda que claramente retórica, fica em aberto. Já consegue arriscar o que isso diz sobre nossa sociedade?

JM: Bem, eu acho que é muito claro que muitas práticas empresariais se opõem ao que consideramos serem a melhores práticas morais. Um executivo na China pode fazer mais dinheiro colocando químicos em seu leite para bebês. É um exemplo de pessoas que priorizam o lucro individual sobre um bem comum. Além disso, pense nas espionagens corporativas que existem. Ou nas trapaças desmedidas. Eu ouvi sobre um documentário que mostra uma empresa de engenharia que compra ambulâncias antigas e as utiliza para transporte de materiais e trabalhadores, já que ninguém para uma ambulância por excesso de velocidade ou para verificar os documentos do motorista. Ou, claro, veja o próprio país de vocês: o governo brasileiro disse que os estádios para a Copa do Mundo seriam construídos com dinheiro privado. E vocês acreditaram! Rá, sobrou pra vocês. Claro que eles queriam os negócios de uma Copa do Mundo e, quando se tratam de negócios, qualquer coisa é fair play.

Mas acho que vocês estão falando de uma questão mais abrangente. A verdade é que é o mundo é cheio de gente corrupta, e você não pode deixar se levar. Também sempre terá empresários desonestos roubando de pobres e enganando a sociedade. Em meio a tudo isso, tudo o que você pode fazer é construir um pequeno refúgio de felicidade com pessoas que você confia e respeita. E, vocês hão de convir que, por tudo o que ele faz, o capitalismo ocidental tem dado a chance para muitos construírem seus refúgios felizes. No fim, eu prefiro aceitar homens de negócios com técnicas de guerra do que ditadores com técnicas de guerra.

CL: Em que momento você contou a George Whitman sobre seu livro? Qual foi a receptividade dele com a ideia e, por fim, com o livro em si?

JM: A princípio George adorou a minha ideia sobre escrever o livro. Depois, quando leu o manuscrito, ficou ofendido. Ele achou que eu fiz a livraria parecer muito suja e não gostou do fato de ter tantos detalhes sobre sua vida e sua família. Mas é um adorável e preciso retrato da loja, e acho que no final ele reconheceu isso. Por fim, nós bebemos uma cerveja e brindamos o livro juntos. Mas depois sua ex-mulher leu e ficou maluca. Lembrem que ela se casou com George quando ela tinha 27 anos e ele 69. Ela depois foi embora de Paris e se tornou uma cristã conservadora e então tentava esconder o seu passado. Quando o livro saiu, ela ficou furiosa e proibiu Sylvia (que agora administra a livraria) de carregar o livro consigo. Então foi um tanto infeliz, pois eu não tenho mais nenhuma relação com a loja.

CL: Você ainda mantém contato com os personagens que conheceu na Shakespeare and Company?

JM: Sim, alguns dos meus melhores amigos são da loja. O escritor Adrian Hornsby veio de Londres na semana passada e me visitou, e Buster Burk esteve em Marselha recentemente. Tenho grandes memórias e amizades daquela época.

CL: Seu livro acabou contribuindo com o destino da Shakespeare and Company?

JM: Acho justo dizer que eu dei um empurrão para o digno destino que teve. Eu acho que a Sylvia teria vindo até Paris mais cedo ou mais tarde, ou George teria enviado alguém para encontrá-la, então eu não fui tão crucial assim para os fatos. Mas eu dei um empurrãozinho nas coisas, sim.

CL: É bastante acentuada a forma otimista como George enxergava o mundo e acreditava na bondade das pessoas. Para você, como foi trabalhar essa questão da dualidade otimismo e pessimismo? Como funcionam esses conceitos na sua cabeça?

JM: Existe a ideia do “otimismo racional” (de Matt Ridley) que tem sido usada hoje em dia e eu me descreveria como um otimista racional. Eu estou certamente preocupado com questões como o aquecimento global, mas também confiante que a ingenuidade humana irá resolver o problema de alguma maneira. A intolerância dos estados teocratas e o islamismo fundamentalista também são complicadores, mas tenho que acreditar que a briga de ideias será ganha pelos que defendem os direitos humanos universais. Caramba, vocês viram quem vai concorrer à presidência de Mianmar em 2015? A verdade é que a sociedade tem ficado cada vez melhor. Veja o casamento gay. Dá para acreditar o quão rápido esse direito fundamental foi aceito? É muito bom. A dualidade que vejo não está entre otimismo e pessimismo, mas entre realismo e idealismo. É claro que o mundo está distante dos nossos ideais, mas realisticamente é uma ótima época para estar vivo. E quem está em países como a França ou o Brasil são afortunados com infinitas oportunidades.

CL: Assim como outros que passaram por Paris, você é um escritor estrangeiro produzindo literatura fora do seu país. Como é essa esta experiência dentro de uma diferença cultural e idiomática?

JM: Paris é um fenômeno interessante. Pessoas tão criativas se encontram nessa cidade que você se depara com encontros fantásticos. A melhor parte é que essa cidade me fez perceber o quanto mais duro eu teria que trabalhar se eu quisesse alcançar as mentes criativas de verdade. Diferença idiomática? Rá! Você não precisa falar francês em Paris – todos falam inglês. De fato, eu só realmente passei a falar francês em Marselha. E isso é o engraçado: uma cidade como Marselha é vastamente superior a Paris em termos humanos. Aluguéis mais baratos, clima melhor, menos pretensiosa etc… Mas Paris é como tiro de cocaína intelectual. E assim como é ruim para a saúde usar muita cocaína, passar muito tempo em Paris faz mal para a alma.

CL: O que acha das barreiras culturais, aqueles “muros invisíveis” que dificultam a entrada e a publicação de bons autores estrangeiros em outros países e mercados?

JM: Bom, para ser honesto, essas barreiras culturais me ajudaram bastante, pois o ruim da cultura moderna é que geralmente ela é uma via de mão única – do inglês para outras línguas. Quantos livros e filmes brasileiros são traduzidos para o inglês? Uma mão cheia a cada ano. E quantos livros e filmes americanos e ingleses chegam ao mercado brasileiro? Centenas por ano. É horrível e realmente limita as perspectivas dos anglófonos, pois precisamos garimpar muito para encontrar livros de outras culturas. Algo interessante na França é que o governo está ativamente barrando a dominação cultural inglesa. Ele subsidia a tradução de livros franceses para o inglês. Por exemplo, quando eu traduzi o livro de Robert Badinter [L’abolition], eu recebi seis mil euros do governo francês.

CL: No Brasil há muitas críticas (a maioria delas procedentes) quanto à tradução do nome de obras tanto cinematográficas quanto literárias. O título original de seu livro, Time was soft there, foi traduzido aqui para Um livro por dia. O que você pensa sobre essa questão? Gostou da tradução? 

JM: Eu adorei a edição brasileira e achei o título ótimo. Mas sabe quem me ferrou? Os britânicos! Eles traduziram o nome para Books, Baguettes, and Bedbugs (Livros, baguetes e percevejos), que eu odiei, mas o departamento de marketing amou. E adivinhem! Eles estavam certos. O livro vendeu três vezes mais (per capta) no Reino Unido do que nos Estados Unidos. 

CL: Você já participou de alguns eventos literários do Brasil. Teve a oportunidade de ler algo da nossa literatura?

JM: Assim como muitas pessoas na França, já li Jorge Amado. E eu li [Euclides] da Cunha para me preparar para o festival. Mas sabe quem é o meu favorito? Rubem Fonseca. Eu adoro esse escritor e já li todos os seus livros traduzidos para o inglês. Eu até entrevistei seu tradutor para saber por que seus outros livros ainda não foram traduzidos. Fonseca é um escritor brilhante e sofisticado, que consegue brincar com os estereótipos e clichês da ficção policial. Eu me lembro que quando li Bufo e Spallanzani, fiquei tão impressionado e empolgado que eu tive que me levantar e andar pela casa para me acalmar. Além disso, Fonseca é um pouco louco, pelo menos é o que me dizem, e devemos gostar de escritores loucos.

CL: Considerando as lojas virtuais, o advento dos e-readers e a expansão das megastores, é possível dizer que as pequenas livrarias vivem seu ocaso? 

JM: Livrarias como lugares onde você apenas compra livros estão definitivamente em declínio. Mas as livrarias de sucesso estão se tornando o “terceiro lugar”, onde as pessoas querem estar quando não estão em casa ou no trabalho. Elas têm um café e eventos, e um espaço onde acontece o encontro entre pessoas. Esse tipo de livraria é um sucesso tremendo, mas é claro que elas exigem que os donos amem livros e pessoas, e muitos donos de livrarias antigas amam livros, mas odeiam pessoas. Além disso, vocês devem saber que existe na França a “Lei Lang”, que proíbe grandes redes como a Amazon de baixar o preço de livros mais do que 5% nos primeiros dois anos de sua publicação. Então isso ajuda muito a proteger as livrarias, pois elas conseguem ter um lucro decente à beira das grandes lojas.

CL: O que os efeitos do mercado predatório trazem para o mercado de livros em si e para a sociedade? E qual seria o lugar para os idealistas de hoje?

JM: Bom, muitos idealistas querem formar uma comunidade e basta uma comunidade para que uma livraria de sucesso aconteça, então acho que idealistas e livrarias são um bom par. Acho que livrarias vão sobreviver enquanto pessoas comprarem livros em papel, mas a migração para leitores eletrônicos me preocupa um pouco. Não consigo imaginar a leitura num e-book, pois gosto de fazer anotações em meus livros (a lápis, claro). E também adoro ler no banheiro, e por alguma razão, a ideia de juntar os movimentos do intestino com um e-reader me causa repulsa. Além disso, junto às leis do governo para proteger as livrarias, é interessante ver como elas estão usando sites como IndieGoGo ou Kickstart para fazer dinheiro. De novo, trata-se de comunidade e uma livraria cercada por uma comunidade sobrevive. (E ainda, é muito importante que as livrarias sejam donas de seus prédios; muitas ótimas livrarias sumiram, pois seus arredores valorizaram muito, dobrando ou triplicando os aluguéis).

CL: Qual o papel da literatura na nossa nova sociedade? Para onde ele deveria se dirigir, se estiver fora do rumo, e como aprumá-la? 

JM: Não penso que a literatura deva ter um papel definido na sociedade e acho que escritores que planejam escrever uma “grande obra” acabam fracassando. Ao invés disso, os livros servem como fragmentos de espelhos que refletem a sociedade ao leitor. Com o tempo, poucos fragmentos vão ficar e se tornar parte do cânone literário e serão vistos como representativos ou fundamentais. Mas isso tudo deve ser um processo natural. Em sua alma, o mercado de livros trata-se de contar histórias (vocês pensam que Homero pensou sobre seu papel na sociedade? A odisseia era apenas uma história sensacional que foi passada por gerações e rica em sabedoria cultural). O momento em que escritores começam a Pensar Grande, cuidado. Ou vai ser algo muito chato ou muito pretensioso para o leitor.

Tradução: Fred Linardi

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mercer_photo1“Idealists and bookstores are a good match” – an interview with Jeremy Mercer.

Have you ever wished to live in a bookstore? He did live! He was not the only one, that´s true, especially when the stay is at Shakespeare and Company, located in Paris – the most nostalgic and welcoming one. But as he had his own experience, Jeremy Mercer wrote about it on Time was soft there, which we´ve written about here in Canto dos Livros. Beside this title, translated to several languages, Mercer is the author of The Champaign gang, about a Canadian gang, and When the guillotine fell, that tells the true story about the last man executed in France, both of the books unpublished in Brazil.

Mercer works also as a reporter and translator. For all of it, we´ve invited him for this interview. Between a library dusty ambience and the digital reading world, Mercer talks heated about nonfiction craft, his view on a changing world and where´s the writer and the ideologist place on it today.  

Canto dos Livros: You have moved out from Canada to France motivated by a death risk. After your experience at Shakespeare and Company, what have motivated you as a writer and what are the risks that you still take, (even if they aren´t so harmful)?

Jeremy Mercer: I am now the father of two young children so I am trying to eliminate all unnecessary risks. The idea of having a brutal accident and becoming a burden on my family haunts me; or worse, dying and missing out on this glorious love that surrounds me. So, for example, I wear a bicycle helmet now. And I recently turned down a chance to go rock climbing. And I refused a chance to go Libya during the war. And I also don’t use drugs any more. Though I do drink, a hell of a lot of rosé, but I don’t drink and drive. I guess I don’t mind a long painful death from cirrhosis, it’s the just the idea of being yanked away from my family due to my own stupidity that scares me. (Though I also still find myself yelling at other drivers here in Marseille, which is ridiculously stupid; someone tried to run me off the road the other day.)

Anyway, all that is kind of nonsense. The broader point is that those moments in life when you are free, when you have no responsibilities to family or loved ones, those are incredible moments when you can get involved in all kinds of dangerous adventures, travel to countries in the midst of revolutions, make love to unstable people. Because hopefully one day you will have something so beautiful in your life that you don’t want to risk losing it, you need to take all the chances you can when you don’t have too much to lose.

From a creative perspective, the risks I take now are new projects. For example, yesterday I shot a scene in a major French film. It was my first time acting in a major production and I was terrified. And I kind of screwed up. But I accepted the role because I knew it would be a professional risk and even if I failed I would learn from it. Of course, I also accepted the role because it paid me 600 euros for an afternoon’s work. Money is always a question for writers.

CL: At Shakespeare and Company, did people looked at your in a different way by the fact you write nonfiction?

JM: Absolutely. There were a lot of people at Shakespeare and Company that were convinced they were going to be great authors. I mean, I knew three men who insisted one day their unwritten novels would be taught in universities. Imagine. These sorts were dismissive of not only non-fiction writers but established mid-list fiction writers as well because they were so certain their future success would eclipse any actual success achieved by these working writers.

Generally, there is a misplaced snobbery around fiction. I love beautiful novels, but the truth is that genius in fiction is rare and the vast majority of people who strive for it end up producing banal drivel. The reason I love non-fiction is because even if you end up writing a bad book, you’ve learned something, you’ve done incredible research, and you’ve met fascinating people. Besides, I think fiction is kind of cheating. In non-fiction, you are faced with a collection of disparate story elements and you are forced to make sense of them and transform them into a narrative that honors the truth; with fiction, you can just make something up and stick it in you narrative to make it flow. Too easy.

CL: How do you look at this collision that happens many times between fiction and nonfiction writing? Do you think that the second one can reach the first one level? 

JM: At the moment, we’re in an ugly place because authors have such a financial interest in writing successful non-fiction. I don’t know the numbers for Brazil, but in the U.S., non fiction outsells fiction by a 10-to-1 ratio, so there is a lot of opportunity in the market. For some authors, they are so eager to write explosive non-fiction that they play with the truth. Take the case of James Frey’s Million Little Pieces where he fabricated parts of his life story or Jonah Lehrer’s Imagine where he made up quotes from Bob Dylan. I find this nauseating because they are betraying the ideals of non-fiction. We are supposed to be searching for the truth and telling true stories, but they ignore this honorable – and challenging – path and instead use the ‘make-things-up’ technique of fiction to improve their chances in the non-fiction market. These writers who betray non-fiction remind me of those men who are really proud of cheating on their wives, saps and scammers who have no respect for themselves or their lives or their craft.

CL: In a certain moment of Time was soft there you write that paying to be published is like to pay for sex, but in a certain way, more shameful. Nowadays this practice is getting more and more common and there are several successful self-publishing cases. Do you keep this opinion today? Why? 

JM: I have an even worse opinion of this practice now because the facility of ebooks and epublishing has opened the market to so many writers and there so many more people who are trying to make money off of aspiring writers’ dreams. For example, a former literary agent of mine started a business advising writers how to publish their own books and she is making money from desperate people who have no talent. I still believe that literature needs gatekeepers and there are so many diverse magazines and journals and publishers out there I don’t see why a writer would need to pay to get published or publish themselves unless they were lazy or talentless. Of course you can cite examples of self-published books that became a big success, such as The Shack that went on to sell 15 million copies. But my argument is that this book would have had been published by traditional channels if the author was more persistent. Remember, Zen and the Art of Motorcycle Maintenance was rejected by 121 publishers before it was picked up, and The Help was rejected 60 times. Now, that’s not to say I reject all self-publishing models. If you look at what Andrew Sullivan is doing, that’s interesting: he has 2 million followers from his blog, so he started publishing his own books so he had more creative control. (Kind of like Louis CK in comedy.) But the difference here is that Sullivan has an existing market and a demand for his work, and he chose to go independent.

CL: In other part of the book, George Whitman says “Isn´t that awful? The art of war listed as a business advice book. What does that tell you about our society?” and his question, even tough is clearly eloquent, stands open. Can you take the risk of what that says about our society? 

JM: Well, I think it is pretty clear that many business practices stand in opposition to what we would consider the best moral practices. A businessman in China can make more money by putting chemicals in his baby milk or investment firms can sell poisoned bonds to retirement funds. These are people prioritizing individual profit over the common good. Beyond that, just think of the corporate espionage that exists. Or flat out deception. I just heard a documentary about a construction company that buys old ambulances uses them to ship tools and workers around because nobody stops an ambulance for speeding or to check the driver’s papers. Or, of course, look at your country. Your government told you that private money would build the World Cup football stadiums. And you guys believed them! Ha, the jokes on you. They were, of course, because they wanted the business of the World Cup and when it comes to business everything is fair play.

But I think you are talking about a broader issue. The truth is, life is full of corrupt people so you can’t let it get to you. There will also be sleazy business people stealing from the poor and cheating society. In the midst of this, all you can do is carve out a little nook of happiness with people you trust and respect. And, you have to admit, that for all it’s faults, Western-style capitalism has given a lot of people the opportunity to carve out happy nooks. In end, I would rather accept war-like businesses ruling our world than war-like dictators.

CL: When and how was the moment you told Mr. Whitman about your book? How receptive was he about your idea?

JM: At first, George loved the idea of me writing the book. Then he read the manuscript and was outraged. He thought I made the bookstore look too dirty and he didn’t like the fact that I had so many personal details about his family. But it was a loving and accurate portrait of the store, and I think he ultimately recognized this. In the end, we drank a beer and toasted the book together. But then, his ex-wife read the book and exploded. Remember, she married George when she was 27 and he was 69. She eventually left Paris and started a new life as a conservative Christian and she tried to hide her past. When the book came out, she was furious and forbid Sylvia (who now runs the bookstore) from carrying the book. So, that was kind of unfortunate because I now have no relationship with the bookstore.

CL: Do you still keep in touch with the people you´ve met at Shakespeare and Company? And what about the Whitman family?

JM: I told you about the Whitmans, but, yes, some of my best friends are from the bookstore. The writer Adrian Hornsby was visiting me last week from London, while Buster Burk was down in Marseille recently. Generally I have great memories and friendships from that period.

CL: Did your book ended up helping the Shakespeare and Company destiny?

JM: I think it is fair to say I nudged the bookstore into its proper destiny. I think eventually Sylvia would have come to Paris or George would have sent somebody else to find her, so I wasn’t that crucial to events. But, I did push things a long a little bit.

CL: George Whitman had a very optimistic way to see the world and believed in people goodness. How was it for you, working with this duality between optimism and pessimism?

JM: There is this idea of ‘rational optimism’ (Matt Ridley) floating around today and I would describe myself as a rational optimist. I’m certainly concerned about issues such as climate change, but I am also confident that human ingenuity will eventually solve the problem. The intolerance of theocratic states and fundamental Islam are also troubling, but I have to believe that the battle of ideas will be won by those on the side of universal human rights. Hell, did you see who is running for the presidency of Myanmar in 2015? The truth is, society has just been getting better and better. Look at gay marriage. Can you believe how quickly society has accepted this fundamental human right? It’s been brilliant. The duality I see isn’t between optimism and pessimism, but between realism and idealism. Of course our world falls short of our ideals, but realistically this is a brilliant time to be alive and those of use in countries like France or Brazil are bestowed with endless opportunities.

CL: Just like others that passed by Paris, you are a foreign writer producing literature out of your country. How is this experience considering the cultural and language differences?

JM: Paris is an interesting phenomenon. So many creative people gather in this city that you end up with scintillating encounters. The best part of the city was that it made me realize how much harder I had to work if I wanted to measure up to the truly creative souls. Language difference? Ha. You don’t need to speak French in Paris, everybody speaks English. In fact, I only really began to speak French in Marseille. And that’s the funny thing: as a human being, a city like Marseille is vastly superior to Paris. Cheaper rents, better weather, less pretension, etc.. But, Paris is like a burst of intellectual cocaine. And just like it’s bad for your health to do too much cocaine, it’s bad for your soul to spend too much time in Paris.

CL: What do you think about the cultural barriers, those “invisible walls” that make it tough to good authors to be publicized in other countries and markets?

JM: Well, to be honest, those invisible walls have really helped me because the sad thing about modern culture is that it generally only flows in one direction, from English to other languages. How many Brazilian films and books get translated into English? A handful every year. But how many American and English films and books are in the Brazilian market? Hundreds every year. It’s awful and it really limits the perspective of English speakers because we have to search so hard for books from other cultures. One interesting thing about France is that they are actively fighting the English cultural domination. They subsidize the translation of French books into English. For example, when I translated Robert Badinter’s book into English, I received a $6000 grant from the French government.

CL: Here in Brazil the books and movies titles translations are much criticized (and most of times the critics proceed). Your book title here was translated to “One book a day”. What do you think about that and did you like this translation? 

JM: I loved the Brazilian edition and I thought the title was wonderful. But do you know who screwed me? The British! They changed the title to Books, Baguettes, and Bedbugs, which I hated but the marketing department loved. And guess what? The marketing department was right. My book sold three times as well (per capita) in Britain than in North America.

CL: You´ve already been in literature events here in Brazil. Did you have the chance to read any of our writers? 

JM: Like a lot of people in France, I’d read Jorge Amado. And I read da Cunha to prepare for the festival. But do you know who my favorite is? Rubem Fonseca. I love that writer and I’ve read all his books that have been translated into English. I’ve even interviewed his translator to see why the other books haven’t been translated. Fonseca is a brilliant, whimsical writer who really plays with the stereotypes and clichés of detective fiction. I remember when I first read Bufo and Spallanzani, I was so astonished and excited I had to get up from my chair and walk around the house to calm down. Plus, Fonseca’s a little crazy, or so they tell me, and you have to love a crazy writer.

CL: Considering the online stores, the megastores expansion and the e-readers, is it possible to say that the small bookstores live their decline?

JM: Bookstores as places where you just buy books are definitely in decline. But the successful bookstores are becoming the ‘third space’, the space people want to be when they aren’t at home or work. They have a little café and events and a room they let people meet in. These types of bookstores are tremendously successful, but of course they require the owner to love books and people and a lot of old bookstore owners love books and hate people. Also, you should know that in France we have the ‘Lang law’ that forbids big stores and Amazon from cutting the price of a book by more than 5% the first two years after it is published. So, this really helps protect bookstores because they can earn a decent profit margin on the big sellers.

CL: What do the effects that this predatory market brings to the books market itself and to the society? And where do the idealists find their place in this context?

JM: Well, most idealists want to form a community and it takes a community to run a successful bookstore, so I think that idealists and bookstores are a good match. I think bookstores will survive as long as people keep buying paper books, but the trend to electronic readers worries me a little bit. I can’t imagine reading an ebook because I love to make notes in my books, in pencil of course. Also, I love to read on the toilet and the idea of having a bowel movement with an electronic reader disgusts me for some reason. Also, along with government laws that can protect bookstores, it is interesting to see how bookstores are using websites like IndieGoGo or Kickstarter to raise money. Again, this is about a community and a bookstore with a community around it will survive. (Also, it’s really important for bookstores to own their building; a lot of great bookstores have gone out of business because their neighborhood became trendy and their rent doubled or tripled.)

CL: What´s the literature role in this new society? Where does it should point to and, if it´s out of the track, how to upend it?

JM: I don’t think literature should have a defined role in society and I think writers who set out to write ‘big books’ ultimately fail. Instead, books should serve as fragments of mirrors that reflect society back to the reader. As years pass, a few fragments will stand out and become part of the literary canon and be seen as representational or even foundational. But, all this should be a natural process. At it’s heart, the book business is about storytelling (Do you think Homer thought about his role in society? The Odyssey was just an awesome story that had been passed down for generations and was rich with cultural wisdom.) The moment writers start to Think Big, watch out. It’s either going to be really boring or really patronizing for the reader.

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