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Posts Tagged ‘Gabriel Gárcia Márquez’

 

Por Igor Antunes Penteado

Gabriel_Garcia_MarquezCem anos de solidão é, certamente, o livro que mais me desafiou até hoje. Devo ter iniciado e interrompido sua leitura ao menos cinco vezes até conseguir concluí-la. O Igor que começou a ler a obra de Gabriel García Márquez, ainda no ensino médio, era muito diferente daquele que a terminou, já formado na universidade. E essa é uma das muitas lições que o livro me ensinou: a literatura é também um instrumento poderoso de autoconhecimento.

Falar (escrever?) sobre Cem anos de solidão é tarefa desnecessária. Muito já se produziu sobre esse que é figurinha carimbada em qualquer levantamento sobre os melhores livros da história. Portanto, meu objetivo é mais falar sobre a relação como leitor com a obra do que sobre o livro em si. Sendo assim, mais do que toda a complexidade da trama arquitetada por Gabo, o emaranhado de personagens, situações e o realismo fantástico reproduzido por ele – talvez jamais haja alguém tão bom nisso –, as minhas próprias transformações foram decisivas para tamanha procrastinação em minha leitura.

Já há algum tempo, ouvi do também escritor Rubem Alves uma frase sobre música que explica bem minha relação com o livro: “A música, quando é boa, não se dá na primeira vez”. Com Cem anos de solidão aprendi que na literatura essa máxima também funciona. Mas, ao mesmo tempo em que o livro se mostrava árido, denso, a magia criada pelo autor me movia ao longo das páginas quase num surto de identidade, entre querer e não querer prosseguir com a leitura.

Essa sensação se arrastou por mais de cinco anos, tempo em que, enquanto eu aprendia sobre as transformações dos Buendía e, por conseguinte, de sua Macondo, entendia que o Igor também estava mudando. Aprendi quanta diferença existia naquele “eu” que se deparou a primeira vez com um Aureliano para o outro “eu”, que via nascer – com o mesmo nome – o derradeiro herdeiro do clã caoticamente apaixonante criado por García Márquez. Aquele caos todo fazia sentido tanto em uma cabeça adolescente cheia de efervescência, quanto em uma já mais amadurecida, porque é até hoje absolutamente familiar.

E esse, pra mim, foi o grande trunfo de Cem anos de solidão. Não só o livro, mas a leitura arrastada dele, mais do que construir uma identificação com aquela realidade que, por mais absurda e fantástica que pareça, flerta assustadoramente com a vida cotidiana, me fez compreender com mais precisão as transformações pelas quais eu mesmo passava. Enquanto o tempo transcorria pra mim, os mesmos Buendía se tornavam outros, eu mesmo me tornava outro.

Hoje, posso afirmar com segurança que Cem anos de solidão tanto é o livro que mais me desafiou quanto o que mais contribuiu na minha jornada de autocompreensão. E um passo tão importante na trajetória humana – na minha trajetória – não seria possível sem o brilhantismo de seu autor. Sem exageros, essa obra mudou minha vida e, mais do que isso, me ajudou a compreender tais mudanças. Uma semana depois de sua partida, só tenho uma coisa a dizer: Obrigado, Gabo.

 

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Rodrigo Casarin

Wellinton_Melo_estrangeiro_labirtinto_167-140x214Há diversas formas de ser derrotado.

No futebol convencional, aquele que passa na televisão, as variáveis não são tantas. Há a derrota comum (1 x 0 ou 2 x 1 para o adversário), as goleadas (a partir de três gols de diferença, exceto em clássicos, quando qualquer derrota — às vezes até o empate — soa como uma goleada) e a derrota doída, aquelas com virada após os 40 minutos do segundo tempo ou em partidas decisivas. Há ainda detalhes como perder jogando bem ou sem sequer ver a bola que apenas dão alguma complexidade ao fracasso.

No futebol de rua — ou de quadra, ou society, ou qualquer futebol jogado com os amigos — as variações de derrota vão além das já citadas. No tradicionalíssimo dez minutos ou dois gols, ver seu goleiro ser repetidamente vazado em menos de um minuto é deprimente, principalmente se o jogo seguinte correr ao longo de seu tempo máximo enquanto você espera apaticamente sentado na mureta. Se forem quatro times na quadra, então, o vexame se torna ainda maior — ele é sempre proporcional ao tempo de espera. Há ainda a derrota não-derrota. É simples: a vantagem do empate é do time que já está na quadra. Não importa que o desafiante sustente bravamente ao longo de dez minutos o placar em branco, aquele que já estava ganhando que continuará em campo e os guardiões da defesa suíça voltarão para o banquinho, derrotados sem perder.

Na literatura também há diversas formas de derrotas. Às vezes, os livros são derrotados, às vezes, os leitores. Se pegarmos para ler uma obra e a largamos antes da página 50 ou de completar 10% do calhamaço, derrota vexaminosa para o livro. Se lemos uma obra inteira para no final dizer “é uma porcaria”, derrota normal para o livro. Livro lido, entendido e leitor satisfeito é empate. Se estamos encantados com o livro, mas não conseguimos avançar em suas páginas por conta de uma clara debilidade nossa, 1 x 0 pro livro. Agora, se adoramos o que estamos lendo, criamos expectativa para continuar a leitura e chegamos ao final com a impressão de que tudo aquilo valeu a pena, mas que ainda há muito para se entender da obra, aí é goleada para o livro. Diferentemente do futebol, onde muitas vezes o técnico não pode ser execrado ou vangloriado pelo resultado de uma partida, quando o livro perde, empata, ganha ou goleia, seu escritor é sim diretamente responsável por aquilo e merece ficar com todos os louros — ou receber todas as vaias.

Já havia perdido para alguns livros. Ulysses, de James Joyce, me desbancou por volta da página 300, Cem anos de solidão, de Gabriel García Márquez, já me derrotou por três vezes (nas três eu ainda era bastante jovem, então anseio por mais uma revanche). Já sofri algumas derrotas mais feias (um 5 x 2, talvez) para obras de Proust e Dostoiévski, por exemplo. Agora, uma goleada como a que tomei de Estrangeiro na labirinto, de Wellington de Melo, jamais havia tomado. Futebol envolvente, insinuante, com jogadores de características completamente versáteis, um olhar crítico sobre a própria maneira de jogar, domínio tanto do espaço quanto do tempo dentro de campo, atletas com fôlego para ir até a linha de fundo, voltar, ir de novo, dribles improváveis e inesperados… Eu também estava em campo e jamais me entregaria. Tentei jogar. Quando houve espaço, fui pra cima, mas o contra-ataque era sempre mortal. Fiz o que pude, mas, ao final, bastava-me bater palmas e admirar aquele que me derrotou. Não lembro exatamente como ficou o placar, mas era algo clássico, típico da copa de 1954, como um 7 x 3 ou 8 x 4.

As impressões do derrotado

Na quarta capa do livro, dicas que a partida seria difícil: “Um juiz acusado de homofobia ao julgar um assassinato, mas que esconde um segredo ainda mais sombrio. Um matador de aluguel que volta à casa dos pais para acertar as contas com o passado. Uma prostituta viciada em crack que se vê presa em um labirinto de palavras” — até aí tudo bem, o time parece ser bom, mas dá pra encarar — “Vozes anônimas que tentam explicar a natureza de um livro que supostamente aprisiona seus leitores, usando conceitos de física quântica, da psicanálise e do ocultismo” — com essa filosofia de jogos é que as coisas se tornam mais difíceis para qualquer adversário.

Estrangeiro no labirinto é um livro múltiplo — palavra ideal para acompanhá-lo, aliás. São histórias diferentes, contadas por narradores (cronistas) diferentes, com vozes completamente distintas e bem caracterizadas, que se alternam e, de alguma maneira, compõem a própria história do livro. Cada trecho está dentro de uma porta que pertence a um salão e é precedido por cartas de tarô. Alguns cronistas narram as histórias anunciadas na quarta capa, outros filosofam, discutem, censuram-se.

Por todas as partes, dicas e evidências da multiplicidade dos personagens. O recurso do duplo é amplamente explorado por Melo, e, em muitos momentos, remete às diversas possibilidades de se ver uma só existência, algo tratado magistralmente pelo italiano Luigi Pirandello em Cem, nenhum e cem mil. A habilidade em lidar com esse jogo, arrisco dizer, deixaria Borges e Gógol orgulhosos do trabalho do autor.

Sim, Estrangeiro no labirinto é um labirinto, só que não um labirinto moderno e bonitinho, cheio de arbustos bem aparados e turistas sorridentes, mas daqueles com espelhos que nos refletem, distorcem e confundem, daqueles mitológicos, repletos de armadilhas e charadas a serem desvendadas, daqueles que uma vez dentro, a possibilidade de sair é quase inexistente — sim, porque as páginas do livro acabam, mas ele continua na cabeça.

Que venham mais leituras da obra, diversas outras, para que os elementos comecem a ser realmente percebidos, entendidos e, a partir disso, explicados e debatidos. Creio que Estrangeiro no labirinto terá uma carreira de glória pela frente, que será daqueles times com poucos torcedores, mas extremamente leais e qualificados. Parabéns pela vitória, Wellington. Sento na mureta e espero minha vez de lhe desafiar novamente.

Texto publicado originalmente na edição 167 do jornal literário Rascunho.

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Rodrigo Casarin

Os-Cadernos-de-Dom-RigobertoConhecido principalmente por obras como A cidade e os cachorros, A guerra do fim do mundo e Conversas no Catedral, pelo prêmio Nobel de 2010 e pelas polêmicas com Gabriel Garcia Márquez, Mario Vargas Llosa também é um grande autor de literatura erótica. Os cadernos de dom Rigoberto traz a continuação da história que começa em Elogio da madrasta.

Valiosos são os cadernos que trazem as inusitadas fantasiais sexuais de Rigoberto e a ambigüidade de Fonchito, que, agora adolescente, continua vivendo no limite entre a ingenuidade e a sedução – ora pendendo para um lado, ora para outro – e confundindo a sua madrasta, Lucrecia – nome que já diz muito sobre a personagem. Se no primeiro volume o garoto foi o responsável pela separação de Rigoberto e Lucrecia, na continuação ele tenta fazer com que os dois voltem a se unir.

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CLB26 CapaA Colômbia de Gabriel García Márquez, as histórias do tempo colonial e retratos instantâneos da geografia, povo e situações sociais são a primeira plataforma de leitura de Colômbia Espelho América 26, de Edvaldo Pereira Lima, nova edição atualizada de obra lançada com título ligeiramente modificado em 1987. A segunda é o tema subjacente do sonho da integração latino-americana, espelhado nas dores e dramas da situação colombiana.

“Tantos anos depois, o livro ganha um status de registro histórico, além de atualizar aspectos da vida colombiana de hoje”, comenta o autor, professor universitário, escritor e jornalista. Trata-se, comenta, de um formato narrativo singular da literatura de não ficção cujo propósito é oferecer ao leitor um mergulho intelectual, simbólico e sensorial em locais onde o escritor penetra como protagonista de uma jornada de descoberta, carregando consigo a probabilidade da projeção futura de quem vai lê-lo.

“Quando saiu a primeira edição, o Brasil dava pouca atenção a seus vizinhos de língua espanhola”, prossegue o autor. “Não mudou muito na área cultural, mas no setor empresarial muita gente agora se interessa, pois cresce a presença corporativa brasileira nos demais mercados sul-americanos. A Colômbia, em particular, ganha muita atenção, pois tem o segundo mercado doméstico mais importante da região após o Brasil. Da mesma forma, a curiosidade dos colombianos pelo nosso país se amplia, mobilizando muita gente a aprender o português, além de se informar sobre a cultura e a economia brasileira”.

O livro serve como introdução ligeira à Colômbia, além de discutir a questão da integração continental. É, para o autor, também um trampolim convidativo para estimular o leitor a outras leituras mais ambiciosas ou a viagens de conhecimento cujo propósito transcende o interesse meramente turístico.

A obra é publicada pelo sistema editorial Clube de Autores. Clique aqui para visitar sua página.

Veja a entrevista que fizemos em janeiro do ano passado com Edvaldo Pereira Lima.

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filho dos diasDurante a 5ª Cúpula das Américas, que aconteceu em abril de 2009 na capital de Trinidad e Tobago, Port of Spain, o presidente venezuelano Hugo Chávez surpreendeu o mundo ao presentear, em frente ao público e às câmeras de televisão, o presidente estadunidense Barack Obama com um exemplar de As veias abertas da América Latina, do escritor uruguaio Eduardo Galeano. O simbolismo do ato um tanto incomum entre líderes era claro: que os poderosos olhassem de outra maneira para os países mais pobres, a começar reconhecendo e refletindo sobre as atrocidades cometidas no passado — e no presente — e que, em partes, justificam a atual distribuição do dinheiro no mundo e a força política de cada país.

A Casa Branca, em seguida, declarou que dificilmente Obama leria a obra, pois o presidente tinha uma lista de prioridades de leituras ainda pendentes e ele não sabe ler em espanhol, idioma da edição presenteada. Contudo, se o regalo de Chávez não serviu para atingir diretamente o seu alvo, teve sim um efeito direto nas vendas de As veias abertas da América Latina, que, em pouco tempo, tornou-se um dos livros mais comercializados pela Amazon. Eram milhares de pessoas tendo contato (e lendo, é de se esperar) com as páginas nas quais Eduardo Galeano analisa a história da porção latina do continente americano desde o período colonial até o início da década de 1970, quando a obra foi lançada.

Forma e conteúdo

Em As veias abertas da América Latina, Galeano deixa sua posição muito clara com relação aos fatos históricos: a região foi usada, abusada, violentada, estuprada por europeus e, depois, por americanos, que vieram até aqui, levaram as riquezas e deixaram as mazelas. Proibido em países como Argentina, Brasil, Chile e o próprio Uruguai, que passavam por períodos de ditadura militar, não demorou para que o livro se tornasse um clássico entre aqueles que se consideram politicamente de esquerda.

Desde então, Galeano passou a ser analisado principalmente por sua posição política semelhante a de outros grandes da literatura, como o chileno Pablo Neruda, o colombiano Gabriel García Márquez e o brasileiro Jorge Amado, ainda que mais radical. Se alguém é simpático às suas idéias, quase que automaticamente o considera um grande escritor; se é contrário, o contrário — não é difícil achar textos de direitistas ensandecidos com o autor. Ambas as partes erram. Um grande escritor se dá pela maneira que escreve, e não pelo conteúdo do que escreve. Para a arte, pouco importa se Galeano é de esquerda ou de direita, e sim a forma de seus textos. E, nesse quesito, o escritor engrandeceu demais ao longo dos anos.

Se em As veias abertas da América Latina, sétimo livro de Galeano, o texto beira o relato histórico e jornalístico — ou seja, é algo artisticamente aquém do que esperamos da literatura —, o mesmo já não acontece na trilogia Memória do fogo, lançada entre 1982 e 1986, um de seus mais celebrados e premiados trabalhos, no qual retoma a história da América, agora como um todo. Comparando essas duas obras, já é possível perceber uma grande evolução na escrita do uruguaio. Formado em jornalismo e com grande interesse por assuntos históricos — como até quem jamais tinha ouvido falar do autor já pode ter percebido aqui —, Galeano aos poucos atingiu o melhor formato para o seu texto, não um formato específico ou já estabelecido e consagrado, mas uma mistura de conto com crônica, poesia, notícia e nota histórica, onde a base está em algum acontecimento real, porém o conteúdo sempre deixa o leitor pensativo sobre onde termina a realidade e começa a imaginação do autor.

Seguindo essa linha estilística peculiar e continuando seu trabalho de explorador do lixão da história mundial, como se autodefine, Galeano escreveu Os filhos dos dias, sua quadragésima obra, lançada no Brasil no inverno de 2012. A proposta do livro, apesar de original, faz o leitor — e os escritores, principalmente — se perguntar como ninguém nunca pensou ou realizou isso antes. Para cada dia do ano do calendário gregoriano (esse mesmo que utilizamos), uma página do livro e um texto diferente, que pode remeter ou não a algum fato que tenha ocorrido naquela data em algum ano qualquer. Simples, não?

Voltando àqueles que julgam Galeano artisticamente pelos temas de seus livros, quem não gostou do que o autor disse em seus outros títulos nem precisa perder tempo lendo Os filhos dos dias (a não ser que queira ficar espumando mais um pouco de raiva), pois na obra predominam textos contra as repressões, os abusos aos miseráveis, a exploração dos países pobres pelos ricos, o imperialismo, o descaso com a natureza, os absurdos cometidos em nome da religião e o agronegócio que altera e destrói a natureza, dentre outros temas de linha semelhante.

Contudo, não é só isso. Galeano mostra a bela relação dos havaianos com o mar e lembra Bob Marley. Como é recorrente em suas obras, também diz muito sobre futebol — e escreve sobre a final da Copa de 1950, quando o Uruguai se sagrou bicampeão mundial vencendo o Brasil em pleno Maracanã (partida que já serviu de inspiração para outros textos de sua autoria, presentes em livros como o ótimo Espelhos e o bom Futebol ao sol e à sombra). O uruguaio resgata memórias e acontecimentos de cidades como Sorocaba (no interior de São Paulo) e Resistência, no Chaco argentino, de onde traz um dos relatos mais belos do livro: a história do cachorro vira-lata Fernando, que vivia na rua, andava com músicos e acompanhava concertos. De tão querido pelos cidadãos da cidade, virou estátua (não uma, mas três). São tantas as histórias e referências das mais diversas culturas presentes em Os filhos dos dias que praticamente obriga o leitor a lê-lo com alguma boa fonte de pesquisa ao lado.

Como se pode perceber, é difícil falarmos da escrita de Galeano sem nos atentarmos — e apegarmos ou rechaçarmos — majoritariamente ao conteúdo do que ele escreve. Todavia, repito e insisto, não é essa análise que devemos fazer quando falamos de literatura. Se alguém questionar os méritos estritamente literários de As veias abertas da América Latina, serei obrigado a concordar que o livro é artisticamente fraco. Contudo, se a mesma pessoa disser que Galeano continua não sendo um bom escritor ou sendo um escritor comum, de duas, uma: ou essa pessoa parou de lê-lo em uma obra com mais de 40 anos ou há ressentimentos pelo teor dos textos. Não há como negar: hoje — e já há algum bom tempo — Eduardo Galeano é sim um grande escritor, um dos maiores ainda vivos.

Texto publicado originalmente no jornal literário Rascunho.

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O xá dos xás

Ryszard Kapuscinski

Nos anos 1950, com o repentino aumento do preço do petróleo, o Irã embarcou em um extraordinário processo de modernização. Foram importados armamentos, carros, aviões, tudo o que para o xá era sinônimo de desenvolvimento. Em 1979, no entanto, seu projeto de “Grande Civilização” ruiu: sob o impacto de manifestações populares e a pressão dos religiosos xiitas, o reinado despótico de Mohammed Reza Pahlevi chegou ao fim.
Para narrar o processo de ascensão e queda do último xá do Irã, Kapuscinski lança mão de uma técnica mista, em que entram narrativa histórica, crônica jornalística e escrita de ficção. Sem entrevistar representantes do novo governo ou adentrar o palácio onde viveu o xá, o autor busca no homem comum o significado profundo da cultura, da religiosidade e da revolução iraniana.
Nesta brilhante cobertura, o jornalista-escritor põe em prática sua convicção de que “todos os livros sobre as revoluções […] deveriam começar com um capítulo com tons psicológicos, em que se descrevesse o momento em que um homem sofrido e apavorado repentinamente derrota o terror; o instante em que ele deixa de sentir medo”.

Farsantes & Fantasmas
Antonio Carlos Olivieri

Antonio Carlos Olivieri cria uma trama em que as questões éticas ganham uma nova dimensão. O protagonista de Farsantes & Fantasmas é um ghost writer envolvido com personagens egocêntricos e de caráteres duvidosos, entre eles um editor que vê na morte de um de seus autores a oportunidade para emplacar um best-seller.

 

1922 – A semana que não terminou

Marcos Augusto Gonçalves

Numa narrativa fluente, elegante e crítica, que mescla linguagem jornalística e relato histórico, o jornalista Marcos Augusto Gonçalves dá vida aos personagens e descreve as famosas jornadas que animaram o Teatro Municipal nos dias 13, 15 e 17 de fevereiro de 1922, durante o festival que ficou conhecido como Semana de Arte Moderna. Ao mesmo tempo em que reconstitui passo a passo o evento, o autor despe o episódio de mitos que o foram cercando ao longo do tempo: desde certas fantasias triunfalistas associadas a uma espécie de superioridade paulista na formação da cultura moderna brasileira, até as versões que, ao contrário, insistem em diminuir a importância histórica dos festivais encenados pelos rapazes modernistas e patrocinados pela elite econômica da emergente Pauliceia.
Nesse sentido, o livro incorpora críticas que têm sido feitas, desde a década de 1980, a algumas “verdades” consagradas pela historiografia e pelo senso comum. Como a ideia de que a arte e a literatura dos anos que antecederam a Semana seriam apenas acadêmicas ou passadistas, resumindo-se, quando muito, a manifestações de caráter pré-modernista.
O autor procura reavaliar a participação do Rio de Janeiro naqueles anos de formação da modernidade artística, e inscreve os jovens personagens de 1922 numa rede de relações pessoais ampla e complexa – na qual trafegam oligarcas, playboys, mecenas, mulheres fatais, imortais da Academia e poetas “passadistas”.
Com base em ampla pesquisa, extensa bibliografia e entrevistas com especialistas, o livro – que também traz fotos e reproduções – é acessível ao leitor que se inicia no assunto, mas não deixará de despertar o interesse do meio acadêmico.
O título, como explica o autor, surgiu num chiste: “É uma paródia, uma espécie de blague quase oswaldiana a partir dos títulos de dois brilhantesbest-sellers escritos pelos jornalistas Zuenir Ventura e Laurentino Gomes. Espero que me perdoem”.

Doce Gabito
Francisco Azevedo
Doce Gabito conta a fantasiosa história de Gabriela Garcia Marques, uma menina que após a morte dos pais na guerrilha do Araguaia vai para o Rio de Janeiro morar com o avô na favela Santa Marta. Numa noite de tempestade, um simpático senhor de fartos bigodes surge em seu sonho e a convence a sair do barraco que logo desaba tirando a vida do avô. Aparecendo sem avisar e com valiosos conselhos, o misterioso senhor bigodudo torna-se seu mentor e melhor amigo. Ao descobrir que seu nome é igual ao do consagrado Gabriel García Márquez e se deparar com uma foto do escritor – que ainda nasceu no mesmo dia que ela – Gabriela reconhece seu amigo bigodudo cujo apelido, para os íntimos, é Gabito. Sempre acompanhada por seu ilustre parceiro, Gabriela enfrenta com lirismo e vigor as várias reviravoltas de seu tortuoso destino. 

Outro Israel
Textos de Uri Avnery organizados por Guila Flint
Em Outro Israel, o israelense Uri Avnery, vencedor do Prêmio Nobel Alternativo de 2001, faz uma profunda análise dos entraves à paz entre judeus e palestinos, e mostra que as dificuldades passam pela intransigência dos sucessivos governos de direita à frente do Estado de Israel. Os melhores textos de Avnery foram selecionados pela jornalista Guila Flint e são agora publicados pela primeira vez no Brasil. Hoje com 88 anos, Avnery foi fundador e líder do movimento Gush Shalom (Bloco da Paz), lutou na guerra pelo nascimento de Israel e já naquela época enxergou as ameaças à paz na região. As contundentes reflexões do escritor unidas a relatos emocionantes traçam um panorama do impasse que se arrasta desde meados do século XX.

Jesus

Christiane Rancé
Jesus de Nazaré chegou ao mundo quatro ou seis anos antes da data oficial de seu nascimento – o ano zero de nossa era. Em sua vida de pouco mais de três décadas (sua morte data do ano 31), passou apenas três anos em pregações. Afirmando-se como filho de Deus, neste curto intervalo difundiu uma mensagem de amor pouco comum para a época, despertou a ira e o temor dos detentores do poder e acabou morto da maneira mais degradante­ possível. Com o cruzamento das informações disponíveis nos Evangelhos e o resgate de fatos históricos na região da Palestina há dois mil anos, vem à tona o homem Jesus, fundador de um novo modo de pensar – que mudaria para sempre a ordem do mundo ocidental.

Erma Jaguar

Alex Varenne
Alex Varenne nasceu na França, em 1939, e é considerado um ilustrador notável. Erma Jaguar é uma de suas personagens mais conhecidas, uma espécie de “madame” moderna que à noite, vestindo seu corpete preto e dirigindo seu carro, sai buscando satisfazer todas as suas fantasias. Insaciável, ela enlouquece homens e mulheres de todos os tipos – uma jovem esposa, uma mulher inspirada na “deputada” italiana Cicciolina, um sujeito que mais parece um funcionário público, uma teenager, uma dragqueen, um cego… Todos cabem nos desejos de Erma Jaguar. Todos, da dama ao caminhoneiro, são a presa de seus instintos mais libidinosos.

Vai embora da casa de teus pais
Bernardo Sorj
Em um fascinante relato que une biografia, história e reflexão, Vai embora da casa de teus pais conta as aventuras de uma juventude que acreditava na mudança radical da sociedade. As lembranças sobre a passagem por Israel e a união de jovens latino-americanos, árabes e judeus na luta pela paz aparecem ao lado de reflexões sobre o judaísmo. Outro trecho memorável é o encontro do autor com Darcy Ribeiro no Uruguai. O título do livro é uma alusão à determinação bíblica na qual Deus diz a Abraão para sair de seu lar e de sua terra natal.

Estranhos no aquário
Adriana Armony
Às vésperas da virada do milênio, o jovem Benjamin contempla, através de um retângulo de vidro, as águas ondulantes de uma piscina onde corpos inconscientes do seu olhar se atravessam, lentos como o sono que o invade, até que algo penetra inesperadamente o vidro azulado. Tudo acontece tão rápido quanto a mudança que o atingirá em seguida: ao sair precipitadamente da pousada onde está hospedado com a namorada e os amigos, sofre um acidente de carro que o deixa com sequelas de locomoção e memória. Na luta para recuperá-lo, seus pais esbarram nas lacunas de uma memória ilhada num eterno presente, mas à medida que a narrativa recua no passado, mesclando lembranças e atualidade, percebe-se que o estado de Benjamin é consequência de um outro acidente que envolve histórias e paixões mais antigas e profundas.

Dentes de leite
Ignacio Martínez de Pisón
Através da trajetória de uma família, desde a Guerra Civil Espanhola até os anos 1980, Ignacio Martínez de Pisón retrata um dos períodos mais conturbados da história da Espanha. O italiano Raffaele Cameroni chega à ao país em 1937 para lutar como voluntário das forças franquistas. Lá ele conhece Isabel, uma bela enfermeira de Saragoça, e desiste de voltar a sua pátria, dando início a uma comovente saga familiar. Ao longo de três gerações dos Cameroni, é possível testemunhar o nascimento dos três filhos do casal, o drama quando se descobre que o mais novo, Paquito, tem uma deficiência mental, e a relação de amor e ódio entre pai e filhos.

Anatomia de um desaparecimento
Hisham Matar
Em Anatomia de um desaparecimento, o escritor de origem líbia Hisham Matarconsulta as próprias memórias para criar um belo romance sobre a relação pai e filho. E sobre o vácuo de sua ausência. Em uma voz trabalhada com delicadeza e de uma beleza terna, Hisham Matar pergunta: quando uma pessoa amada desaparece, como sua ausência molda as vidas dos que são deixados? Neste romance autobiográfico, Matar traz elementos da própria história, marcada pelo desaparecimento do pai que por anos militou no exílio contra o regime de Muamar Kadafi.

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Gabriel García Márquez completa 85 anos hoje!

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