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Posts Tagged ‘Gay Talese’

Monica Martinez é uma dessas profissionais que conseguem unir o domínio da prática e da teoria de sua profissão. Doutora em Ciências da Comunicação pela USP, defendeu uma tese que depois se transformou no livro Jornada do herói – a estrutura narrativa mítica na construção de histórias de vida em jornalismo. Não parou por aí, foi para a Umesp onde obteve o seu pós-doutorado. Professora universitária e ativa pesquisadora, também possui interesse pela Criatividade. Ministra cursos de Redação Criativa no Sindicato dos Jornalistas do Estado de São Paulo e, sobre o assunto, publicou Tive uma ideia! – o que é criatividade e como desenvolvê-la. Ainda que atualmente se dedique mais ao campo acadêmico, Monica é uma apaixonada pelas redações – nelas já redigiu matérias publicadas em grandes revistas do país. Não bastasse tudo isso, ainda está prestes a publicar o seu primeiro livro de ficção. Poderíamos falar por mais umas 50 linhas sobre suas qualificações, mas pararemos por aqui e deixaremos que a entrevista revele mais da PhD.

Canto dos Livros: Na sua opinião, o que é literatura?

Monica Martinez: Boa pergunta. Às vezes é mais fácil saber o que não é literatura do que o que de fato se encaixa neste rótulo, não é? A meu ver, e de forma bem sintética, literatura demanda o uso estético e criativo da linguagem escrita. E este uso deve sempre ser visto no contexto do espaço e do tempo em que o material é produzido.

CL: O Brasil é tido como um país de pessoas criativas. Essa virtude engloba a produção literária, ou essa é uma característica infundada do nosso povo? A criatividade artística não depende de um sistema de educação de maior qualidade, afinal?

MM: Um dos estudiosos contemporâneos de criatividade, o estadunidense Steven Johnson, remete ao conceito de redes líquidas para falar sobre criatividade. Este argumento é baseado nos estados da matéria e, portanto, é de simples compreensão. Assim, no estado gasoso há um caos criativo, porém neste universo caótico as boas ideias têm dificuldade em se concretizar. Já no sólido há estabilidade, porém as estruturas são tão cristalizadas que as inovações encontram dificuldade para irromper. Neste cenário, entendo que o Brasil estaria mais próximo do caos, com bastante explosões criativas, mas enfrentaria desafio no planejamento e na implementação a longo prazo das ideias criativas. Não basta criar: é preciso implementar as boas ideias, o que demanda outras habilidades do ser humano.  Habilidades, muitas delas, que evidentemente são transmitidas ou treinadas pelo sistema educacional, daí a importância de ele ser eficiente.

CL: Pegando neste ponto também, sempre existe uma grande questão em torno de escola para escritores. Alguns defendem sua importância, outros dizem que escritores já nascem prontos. Qual é a sua opinião?

MM: Já vi muita gente talentosa que simplesmente não tem a disciplina necessária para sentar e escrever. A escrita não é um fim, mas um processo. Neste sentido, é muito salutar a troca de informações e experiências, daí, a meu ver, a grande importância das oficinas. Há também muito de grupo de apoio nestes grupos, que inspiram os integrantes a vencer seus desafios e ir além do que imaginam ser seus limites.

CL: A partir da sua experiência em salas de aula, quais são as principais causas de bloqueios criativos que seus alunos expõem? E como fugir deles? 

MM: Deste assunto entendo bem, pois desde 2004 ministro um curso de Redação Criativa no Sindicato dos Jornalistas do Estado de São Paulo. Nele, faço um levantamento, por meio de respostas espontâneas, dos problemas relacionados a bloqueios. As seis causas de bloqueios mais citadas são desorganização, dispersão, perfeccionismo, indisciplina, insegurança e falta de estabelecer prioridades, respectivamente. Penso que não se trata de uma questão de fuga, mas de identificá-los e estabelecer uma estratégia para lidar com eles. É simples assim.

CL: Você anunciou recentemente que em breve lançará um livro de ficção. O que podemos esperar dele?

MM: Livros são como filhos. A gente lhes tem um amor infinito, mas nunca sabe de fato o que se pode esperar deles. E aí reside a graça: em geral somos surpreendidos por ambos. No meu caso, até agora, o simples fato de escrever ficção foi uma das coisas mais deliciosas que já fiz. O que já é uma recompensa e tanto. O que vier a mais é lucro…

CL: Como foi para uma pessoa tão acostumada a escrever fatos reais ter a liberdade total para criar o que quisesse? Essa liberdade em algum momento atrapalhou?

MM: Sou muito rigorosa com a apuração quando faço um texto jornalístico. A pessoa não tem mais ou menos 1,70m. Ou tem 1,69m ou 1,71m, por exemplo. Para mim, portanto, escrever ficção foi relaxante, um estado muito criativo e libertador.

CL: Um dos erros comuns de iniciantes em não-ficção é a dificuldade em livrar-se de conceitos pré-concebidos, amarras e juízos de valor. Você sente isso também? Como fazer para quebrar preconceitos, tabus e julgamentos que estão tão intrinsecamente ligados a cada um de nós?

MM: Acho que tenho uma característica de personalidade que me ajuda muito, que é a de ser muito exigente comigo mesma, mas de ter uma grande abertura para as idiossincrasias dos outros. Eu tenho uma infinita curiosidade de entender o ponto de vista do outro, sem endossá-lo nem absorvê-lo, mas de compreender o porquê a pessoa pensa, sente ou age desta ou daquela forma. Uma vez uma aluna escreveu uma história de vida fantástica, na qual uma moradora de um complexo habitacional poupava a vida de um rato que morava em sua cozinha — ainda que ela tivesse medo que o roedor mordesse seu bebê — porque ele tinha três patas. Essa delicadeza com um animal, digamos, com restrições motoras, vinda de uma pessoa com tal desfavorecimento econômico, nunca saiu da minha cabeça. A realidade, realmente, na maioria das vezes é mais surpreendente que a melhor ficção.

CL: Seu trabalho no campo acadêmico está muito voltado à pesquisa. Como é ser pesquisadora no Brasil? Você sempre teve essa vontade ou foi uma coisa que “aconteceu”?

MM: Acho que tudo o que eu sempre quis foi escrever. Eu sempre soube que lidaria com a escrita, embora não soubesse muito bem como isso aconteceria. Foi tudo muito natural. Escolher jornalismo como profissão, migrar para a docência num certo ponto da vida, fazer mestrado, doutorado, pós-doutorado, começar a ensinar a escrever, virar pesquisadora… No fundo, escrever um artigo científico exige muita competência textual. E, para mim, é mandatório que um artigo científico escrito por alguém da área de comunicação social seja bem redigido. Não faz sentido que não o seja.

CL: Como essas pesquisas se encaixam ou influenciam efetivamente no fazer jornalístico? Como a imprensa adota as novidades propostas pelo meio acadêmico?

MM: É uma simbiose. Até porque muitos acadêmicos são ou foram profissionais. E acho que mesmo quem se dedica mais à docência e já esteve numa redação não se esquece o quanto é apaixonante estar no meio de uma apuração ou de um fechamento. Você se sente 100% vivo, fazendo parte da história, é uma experiência fantástica.

CL: Após fazer mestrado e doutorado em uma universidade (USP), resolveu respirar novos ares e levar sua linha de pesquisa a outra instituição (Metodista), no pós-doutorado. Fale um pouco sobre a importância dessa mudança de ares para o desenvolvimento das pesquisas e produção de conhecimento.

MM: Tive muita sorte de ter tido a oportunidade de conhecer, na USP, o professor Edvaldo Pereira Lima (que viria a ser meu orientador do doutorado anos depois), que me despertou para o Jornalismo Literário — nunca mais fui a mesma depois desta descoberta. Entre 2008 e 2010, foi uma oportunidade e tanto conhecer mais de perto pesquisadores de uma instituição de ensino muito sólida como a Umesp, com um programa de pós-graduação de quase 40 anos. É inspirador participar de um grupo de pesquisadores sérios, altamente produtivos. Você vê o conhecimento sendo gestado na sua frente. Recentemente participei, com um grupo de pesquisadores do Brasil e de outros países, de um evento na Universidade de Viena e está sendo outro aprendizado interessantíssimo, descobrir como é feita a ciência da comunicação em nível mundial. O método pode ser o mesmo, mas o tempero é absolutamente cultural, regional. Neste sentido, os brasileiros têm sorte, pois bebem tanto na fonte da ciência quantitativa do modelo estadunidense quando na qualitativa do modelo europeu.

CL: Uma de suas paixões é a narrativa de viagem. Como é a sua relação com o gênero?

MM: Tenho particular carinho pelas narrativas de viagem. Outro dia, por exemplo, estava lendo o livro do Hans Staden — já há quase 500 anos se produzia narrativas de qualidade. Penso que meu amor pelas viagens deriva do fato de que elas são sempre uma aventura de descoberta porque fazem com que os indivíduos deixem seus limites conhecidos para trás e se aventurem no novo, em universos diferentes. Isso faz com que as pessoas aprendam mais sobre si mesmos e sobre os outros — o que, para mim, é o grande desafio de se estar vivo.

CL: Quais autores na Literatura e quais jornalistas te inspiram?

MM: Tive a sorte de ter uma mãe que lia muito e que me ensinou o amor pela leitura. E um pai visionário, que me ensinou que o impossível não existe. Com certeza posso dizer que sou apaixonada por García Márquez, Hemingway, Falkner, mas amo mesmo a literatura de não-ficção americana. Talvez esta seja, de fato, minha grande especialidade. Entre eles, meus favoritos são sem dúvida Gay Talese (um clássico), Lilian Ross (com seu encantador estilo mosca-na-parede) e Joseph Mitchell (a revelação no segundo perfil de O Segredo de Joe Gould é, para mim, um dos momentos altos do jornalismo). Dos atuais, aprecio muitíssimo os livros de David Remnick, o atual editor da The New Yorker, em particular A Ponte, sobre o presidente Barack Obama.

CL: O que poderia dizer a jovens que pensam em ingressar no jornalismo ou que pretendam publicar seus escritos?

MM: Dizem que quando se vai comprar um imóvel é preciso se pensar em três coisas: localização, localização e localização. Para mim, a resposta para sua pergunta demanda três palavras: persistência, persistência e persistência. Não desistir nunca. Quem age assim certamente verá chegar a sua hora.

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Edvaldo Pereira Lima é uma daquelas pessoas muito complicadas de se definir. Seu currículo, ainda que condensado, abrange páginas e mais páginas, mas vamos tentar dar uma ideia de quem ele é. Professor aposentado da Escola de Comunicação e Artes da USP, é Doutor em Ciências da Comunicação pela mesma universidade e realizou o pós-doutorado em Educação pela Universidade de Toronto, no Canadá. Também deu aulas como professor-visitante nas universidades de Florença, na Itália, e Londres, na Inglaterra. É co-fundador da Academia Brasileira de Jornalismo Literário, onde ainda ministra aulas.

Ed, como costuma ser chamado pelos conhecidos, foca boa parte de suas pesquisas nas narrativas de não-ficção, mas costuma ir além do convencional, propondo integrações multidisciplinares ao jornalismo.  Já escreveu diversos livros, dentre eles Páginas Ampliadas – o livro-reportagem como extensão do jornalismo e da literatura, O que é livro-reportagem, Colômbia Espelho América, Aytorn Senna: o guerreiro de aquário e Escrita total. Recentemente, escreveu o capítulo sobre o Brasil do livro Literary Journalism around the Globe.

Nesta conversa para o Canto dos Livros, Ed fala sobre Jornalismo Literário (ou simplesmente JL), o poder das histórias edificantes e como a falta delas afeta o ser humano, mitologia, física quântica, olhar holístico sobre o mundo e alguns outros assuntos, como uma paixão de adolescente que levou para o mundo profissional.

Canto dos Livros: É constante o aumento de livros de não ficção nas livrarias. O que isso significa? As pessoas estão perdendo o interesse pela ficção?

Edvaldo Pereira Lima: Não sei se estão perdendo o gosto pela ficção, mas é fato que os livros de não ficção conquistaram nos anos mais recentes um lugar especial na produção das editoras, nas prateleiras das livrarias e no gosto do leitor.  Talvez parte desses leitores também leia ficção, enquanto uma parcela significativa (da qual fazem parte  leitores que antes não tinham o  hábito de ler, talvez) escolhe particularmente a não ficção.  De qualquer modo, o fato demonstra a maturidade do mercado editorial de livros, pelo menos nos grandes centros urbanos do país. Esse público encontra nos livros de não ficção abordagens exclusivamente disponíveis em livros, retratando distintos aspectos da vida real, quanto linhas temáticas de algum modo tratado por outras mídias, mas sem a longa duração e – às vezes – o aprofundamento desejado.

CL: Quais as boas novidades que apareceram no Jornalismo Literário nos últimos anos?

EPL: No caso brasileiro, o que merece registro é a continuação da produção de livros-reportagem em volume respeitável, sejam traduções de obras assinadas por autores internacionais, sejam trabalhos de escritores nacionais.  Alguns desses títulos apresentam qualidade narrativa considerável.  É o caso, recentemente, de Os Últimos Soldados da Guerra Fria,  de Fernando Morais, publicado pela Companhia das Letras. Trata-se de uma saborosa e competente narrativa da história algo que tragicômica de espiões cubanos que se infiltram no movimento anti-castrista dos Estados Unidos.

CL: Recentemente foi publicado o livro Literary Journalism around the Globe, cujo capítulo sobre o Brasil é de sua autoria. O Brasil tem alcançado seus próprios traços no Jornalismo Literário? 

EPL: Sim, há  características peculiares que marcam a produção do jornalismo literário por autores brasileiros. Nem sempre a precisão é tão meticulosa como se vê na produção norte-americana, por exemplo. Em compensação, o estilo é às vezes algo mais esteticamente livre,  como nas reportagens de Eliane Brum, ou apresentam um tom descontraído, quase como uma conversa entre compadres, como se percebe em textos de José Hamilton Ribeiro, por exemplo.  Participar deste livro – lançado nos Estados Unidos em 2011 pela University of Massachusetts Press, por iniciativa da International Association for Literary Journalism Studies, foi uma honra, contribuindo para divulgar internacionalmente os trabalhos pioneiros de Euclides da Cunha e João do Rio, assim como a fase exuberante da revista Realidade e do Jornal da Tarde na década de 1960. O livro, por sinal, pode ser comprado no Brasil através dos serviços de importação de grandes livrarias, como a Cultura, ou por meio da Amazon, na Internet.

CL: Dentro do JL, o que é inspiração? Você acredita no famoso 99% de transpiração e 1% de inspiração? O que você faz para conseguir esse bendito 1%?

EPL: Esses duas marcas da produção do JL geralmente atuam juntas.  Há um movimento de esforço e trabalho duro do autor – especialmente na pesquisa, no levantamento de campo, nas entrevistas, nas observações in loco –, por um lado, e inspirações que iluminam questões essenciais de uma obra, de outro,  ou ajudam a gerar passagens narrativas de qualidade estética. Uma coisa não existe sem a outra. Colocando de outro modo, uma delas, sozinha, é geralmente insuficiente para gerar uma boa obra de JL.  Você precisa das duas abordagens.

CL: A sua pesquisa envolve muito as chamadas histórias edificantes. Quais são os traços dessas narrativas? Como dosar este teor entre o drama humano e algo que edifique o leitor?

EPL: O que move o bom JL é a procura de compreensão dos episódios reais sob uma perspectiva integral, plena, que abarca tanto os aspectos factuais quanto os conteúdos subjetivos.  Se o autor é consciente de que o eixo condutor da boa narrativa  está nos conflitos que marcam o drama humano da existência, tem condição de manter o interesse do leitor do princípio ao fim, mesmo que a história escape de um final trágico ou amargo, ou mesmo que apesar de algo dessa natureza, exista um significado edificante.  Na vida real, nós seres humanos somos criaturas conscientes até um certo ponto; inconscientes, noutra medida.  O drama motor de toda existência humana é a pressão interna para que a nossa consciência se expanda ao máximo, diminuindo tanto quanto possível nossa porção inconsciente, que nos traz sofrimentos existenciais terríveis.   Somos seres impulsionados para sairmos das sombras – as porções negativas e muitas vezes destrutivas do inconsciente –, reconhecermos o que rejeitamos em nós próprios, nos demais e no mundo, e iluminarmos essa parte indesejada da nossa realidade, transformando-a.  Toda narrativa pública transporta implicitamente uma visão de mundo, contribuindo ou para manter o grau de consciência do leitor num nível muito baixo de entendimento da realidade, ou ajudando-o a despertar para uma visão transformadora, que não termina no ângulo puramente derrotista, negativista.  A visão negativista que conduz o leitor a um beco sem saída e à construção mental de uma representação destrutiva – a imagem de que o mundo não tem saída, de que a espécie humana é mesmo esse desastre sem conserto que vemos nos infinitos casos de corrupção profundamente imoral ou nas infindáveis histórias de crueldade do homem contra o homem – não é algo gratuito, sem efeito. Ao contrário, colabora para gerar, no inconsciente coletivo, que abarca a todos nós, um funesto pessimismo e uma desvalorização perigosa da nossa identidade enquanto indivíduos e espécie. Lamentavelmente, boa parte da produção de massa, na indústria cultural, contribui para a escravização das consciências nesse baixíssimo patamar de visão reduzida, ignóbil, das coisas, como é exemplo bem recente este polêmico caso do Big Brother, da Rede Globo de Televisão, em que vemos um deprimente episódio da baixaria que domina os princípios diretrizes de um programa produzido com todo o requinte tecnológico moderno, com audiência estrondosa, mas vergonhoso patamar de valores. A que serve algo assim? A manter as pessoas como que hipnotizadas, alienadas dos aspectos mais sublimes da vida.  São como que vampirizadas na consciência.  Resulta que ao se exporem a assistir sistematicamente a esses medíocres espetáculos de baixaria, estão dando um tiro no coração de sua própria dignidade como seres humanos.

No JL, se queremos que cumpra um papel que realmente valha a pena, nobre, na sociedade, não pode se sujeitar a essas imbecilidades dos meios de comunicação de massa. Precisa transcender essa nuvem nebulosa do pão e circo que domina boa parte da mídia, procurando retratar a realidade em sua complexidade vital, onde imperam fenômenos tanto luminosos quanto escurecedores da consciência, mas onde também manifestam-se inúmeros casos de seres humanos que transcendem a banalidade doentia da maior parte do nosso mundo contemporâneo, revelando que sim, temos esperança como espécie, ainda somos capazes de grandeza e nobreza.  A descoberta dessas qualidades, sua manifestação e consolidação nas pessoas exige um esforço enorme, às vezes dramático, em busca da consciência perdida. O drama humano verdadeiramente poderoso, narrativamente, é a trajetória dessa descoberta, na qual a consciência individual atravessa as barreiras tenebrosas dos poderes – políticos, culturais, econômicos – coletivos que tentam de todas as formas impedir que o indivíduo  liberte-se das visões de mundo escravizantes que para eles é cômoda, mas que para a pessoa humana é terrível, pois achatam e sufocam sua liberdade potencial de ser integral, pleno, verdadeiramente independente.  Dramas deste tipo, das jornadas de crescimento da consciência individual rumo ao seu potencial pleno, são cheios de suspense e desafios que não deixam a desejar a nenhum bom roteiro de Hollywood. Cabe ao autor de JL o exercício da sensibilidade para captar esse drama e contá-lo com maestria, tocando o coração e a mente do leitor, tanto pela qualidade narrativa de sua história quanto pela visão de mundo transformadora inerente a histórias desse quilate.
CL: Como o conhecimento de diferentes mitologias pode auxiliar um escritor a construir um texto de ficção ou não ficção?

EPL: Mais do que o conhecimento de mitos específicos – isto é, de histórias que apresentam sentido profundo, pela simbologia que transportam –, é bastante útil a escritores de ficção e não ficção conhecerem o processo arquetípico conhecido pelo nome de Jornada do Herói, padrão estruturador de narrativas que tem se mostrado universalmente aplicável na organização da sequência e dos elementos que compõem uma boa história dramática. O processo foi sistematizado gradativamente, começando pelo clássico livro O Herói de Mil Faces, do mitólogo Joseph Campbell, e chegando à  Jornada do Escritor, de Christopher Vogler – que reúne tanto conceitos de Campbell quanto do pai da psicologia humanista, Carl Gustav Jung –, ambos trabalhos de enorme importância na construção narrativa dos filmes de Steven Spielberg, George Lucas e James Cameron, por exemplo.  Pude formatar uma adaptação dessa linha estuturadora de narrativas a matérias de JL, formato este todo como partida para a Tese de Doutorado de Monica Martinez que resultou em seu livro Jornada do Herói: A  Estutura Mítica na Construção de Histórias de Vida em Jornalismo (Annablume, 2008).  A Jornada do Herói serve como baliza decisiva, ajudando o autor a compreender a dinâmica narrativa potencial da história sobre a qual esteja trabalhando, e a organizá-la no seu texto.

CL: Você defende que um escritor tenha uma base holística. Quais pontos de vista comumente vêm sendo negligenciados por esses profissionais?

EPL: A visão holística verdadeira nada tem a ver com concepções místicas de qualidade duvidosa.  Diz respeito, sim, a uma visão de mundo  integral, sistêmica, complexa.   É uma abordagem muito diferente desse patamar raso, mecanicista, superficial, esquemático que impera na maior parte dos relatos públicos, tanto na mídia jornalística quanto mesmo em obras de ficção. A nossa sociedade está nessa situação crítica em que se encontra parcialmente por causa desse olhar míope sobre a realidade que impera na maior do sistema cultural e do sistema educacional.  Essa visão distorcida e reducionista trouxe à nossa civilização este mundo em perigoso caminho de autodestruição em que nos encontramos. É urgente uma revisão e uma transformação do nosso olhar, rumo a uma perspectiva complexa, integral – portanto holística, já que a palavra “holos” quer dizer todo –, dinâmica, processual.  Se um jornalista literário absorve os instrumentos comprovadamente eficazes do JL para construir narrativas e a isso acrescenta um modo de ver holístico, realiza um trabalho de grande importância para a transformação da consciência do leitor rumo a um patamar relevante de compreensão dinâmica da realidade.  A aquisição de um olhar holístico é possível através do estudo de propostas de vanguarda existentes em vários campos do saber e da prática em que o autor reeduca sua maneira de ver as coisas, desenvolvendo para isto não só seus potenciais mentais, intelectuais, mas também suas emoções e seus processos intuitivos, colocando-se a serviço de captação e ressignificação da realidade.

CL: O que a física quântica, um assunto cujo estudo é de seu interesse, tem a acrescentar ao jornalismo?

EPL: Muito, pois é um dos campos da ciência que nos ajuda exatamente a olhar para a realidade com uma angulação complexa, dinâmica, abrangente. Tome-se, por exemplo, o conceito de múltiplas realidades apresentado pelo grande físico téorico David Bohm, e já estaremos vendo os fatos da história imediata de nossos dias não como algo raso, superficial e mecânico, mas como um processo complexo que nos abre um horizonte muito mais vasto de entendimento orgânico, vivo, efetivo e significativo do que é, verdadeiramente, esse fenômeno extraordinariamente desafiador e belo que se chama vida.

CL: Como podemos utilizar o máximo de potencial de nossa mente na hora de contar uma história?

EPL: Conhecendo a mente, abrindo nossa percepção para descobrir como pensamos, como vemos a realidade, que fatores condicionam o modo como a percebemos.  Praticando exercícios de distintas metodologias que nos ajudam a sairmos fora do padrão reduzido de visão das coisas apenas pelo lado estreito da racionalidade reduzida. Aprendendo a usar técnicas e métodos de ativação da criatividade que ensinamos nos cursos de pós-graduação da Academia Brasileira de Jornalismo Literário, como a visualização criativa.  Exercitando alguns desses dispositivos de vanguarda que disponibilizo no meu método e livro Escrita Total de redação espontânea.  Aprendendo a meditar, como nos cursos e práticas do budismo, especialmente em suas linhagens tibetanas.  Abandonando os preconceitos da racionalidade estreita. Deixando nossa sensibilidade falar mais alto.

CL: Em todo seu tempo de carreira, qual sua maior decepção literária (um livro, um autor, algo que tenha ficado muito abaixo da sua expectativa…)? Por quê?

EPL: Não seria ético citar nomes, mas há alguns livros-reportagem decepcionantes, assinados por profissionais de renome do jornalismo, mas que nada sabem sobre a natureza real e as exigências do livro-reportagem. São pessoas famosas da mídia diária, mas que ao trabalharem um tema potencialmente rico, em livro-reportagem, levam para essa modalidade o mesmo padrão de linguagem e o mesmo caráter efêmero, superficial, do jornal do dia a dia. Metem os pés pelas mãos, produzindo um resultado pífio.

CL: Qual você julga ser o erro mais frequente de um pretendente a autor de não-ficção? E de ficção?

EPL: No primeiro caso, querer deitar verdades, como se sua leitura da realidade fosse a mais perfeita e a mais absoluta de todas. No segundo, achar que destilar pobreza de olhar o mundo a partir de seu próprio umbigo é a coisa mais esplendorosa que já aconteceu na história da literatura.

CL: Por que a opção por publicar alguns de seus livros por conta própria? Qual a vantagem, para o autor, nesse tipo de publicação?

EPL: No meu caso, não se trata propriamente de publicação por conta própria, mas sim de publicação por um sistema editorial independente e inovador.  Tenho livros publicados por editoras convencionais, mas também tenho títulos pelo Clube de Autores, iniciativa que democratiza sobremaneira a publicação de livros no país. O Clube oferece aos autores um modo de publicação instantânea, sobre a qual têm controle e domínio bastante grande do processo de edição, em si, sem custos e sem a burocracia operacional que cerca o trabalho costumeiro das editoras convencionais.

CL: Sua paixão pela aviação é amplamente reconhecida. Você trocaria tudo o que realizou dentro do jornalismo – e, mais amplamente, dentro de todo campo de narrativas de não ficção – para ter sido piloto? Por quê?

EPL: Não. O sonho de ser piloto foi uma paixão de adolescência. O que me move na aviação, mais do que tudo, é o que representa como liberdade e velocidade para unir culturas, conhecer mundos, transpor distâncias, descobrir territórios, povos e histórias dos mais variados cantos do globo. Estou feliz em unir de um jeito peculiar as duas coisas.  Parte da minha atividade profissional consiste em escrever, como jornalista, sobre aviação comercial.

CL: Um daqueles clichês, mas que todos gostam de saber a resposta: quais os seus livros e autores preferidos?

EPL: No JL, quase todos os livros de Gay Talese, com destaque para seu clássico Fama & Anonimato, assim como  para o ótimo  O Olho da Rua, de Eliane Brum. Em biografias, o bom O Mago, de Fernando Moraes, sobre Paulo Coelho.  Na ficção, o divertidíssimo Pantaleão e as Visitadoras, de Mario Vargas Llosa, assim como o extraordinário romance de ficção científica Shikasta, de Doris Lessing.  Na filosofia da ciência e suas implicações para toda a sociedade, o fabuloso Ponto de Mutação, de Fritjof Capra. Na categoria de boa narrativa por cientistas, Muito Além do Nosso Eu, de Miguel Nicolélis.   No conhecimento não convencional da realidade, os intrigantes livros assinados por Ramatís, psicografados pelo médium Hercílio Maes, com destaque para A Fisiologia da Alma. Em narrativa de viagem, o excelente Um Adivinho Me Disse, de Terziano Terzani.

CL: Está preparando alguma novidade que já possa nos contar?

EPL: Estou preparando sim, mas prefiro nada dizer, por enquanto.

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Por Rodrigo Casarin

A novidade deverá agradar quem fez pós-graduação em Jornalismo Literário. O texto abaixo é a sinopse disponibilizada pela Record. Escreverei minhas impressões assim que eu ler o livro.

 

Entre as décadas de 1960 e 1970, rachaduras rompiam o tecido social e o mundo estava fora de ordem. As ferramentas tradicionais do jornalismo eram inadequadas para descrever as tremendas mudanças culturais e sociais norteamericanas: guerra, assassinato, rock, drogas, hippies, Nixon. Como um tradicional repórter restrito aos fatos podia ousar dar uma ordem clara e simétrica a tamanho caos? Como o clássico lead de quem-quando-onde-por que podia dar conta de toda essa efervescência?

Mas um grupo de escritores surgiu aparentemente do nada para impor algum sentido a toda aquela confusão americana. Tom Wolfe, Jimmy Breslin, Gay Talese, Hunter S. Thompson, Joan Didion, John Sack e Michael Herr apareceram para contar histórias que ninguém mais tinha coragem de escrever. Histórias sobre como a vida estava sendo vivida. E se tornaram arautos — e até mesmo a consciência moral — de uma era: os novos jornalistas.

A TURMA QUE NÃO ESCREVIA DIREITO, de Marc Weingarten, resgata as aventuras por trás das apurações, os brainstormings que originaram as pautas. A ruptura cada vez maior entre os repórteres tradicionais e os parajornalistas, profissionais da notícia que passaram a pensar como romancistas. As histórias por trás das histórias que mudaram a maneira de seus leitores verem o mundo. Reportagens que fazem parte do melhor jornalismo do século XX, fluxo sem precedentes de não-ficção criativa.

Weingarten passeia pelos bastidores dos encontros entre editores e revistas que ajudaram esse movimento a crescer e conta os segredos de Harold Hayes, da Esquire, Clay Felker, da New York, e Jann Wenner, da Rolling Stone. A luta travada entre a autoridade factual do jornalismo e a licença atmosférica da ficção. Um jornalismo que se lê como ficção. Uma época ótima para revistas e jornais, uma era pré-TV a cabo, pré-internet, em que a mídia impressa reinava soberana sobre leitores instruídos e cultos.

 

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Por Rodrigo Casarin

Acompanhando o resgate dos 33 mineiros chilenos, pensei em como essa tragédia – que terminou com um final feliz, então nem sei mais se é tragédia ou aventura – renderia uma boa história para ser contada em livro, mas desde que escrita por alguém realmente capacitado para isso (não apenas algum aproveitador querendo ganhar dinheiro com o que aconteceu). Então, imaginei como alguns escritores de não-ficção tratariam o assunto:

Gay Talese – para ele os mineiros já seriam estrelas, então, escreveria sobre a equipe de resgate. Iria entrevistar todos os envolvidos no projeto e faria uma viagem com a Fênix 2 ao interior da mina para escrever com propriedade sobre como é viver essa experiência.

Norman Mailer – acompanharia os 33 quando eles saíssem do buraco, mas sempre deixaria bem claro que a estrela ali é ele. Na hora de escrever, focaria a história mais na relação que um tal de Norman (Mailer) teve com os mineiros do que qualquer outra coisa. Caso encontrasse algum judeu no caminho, desembestaria a falar sobre esse povo.

Truman Capote – primeiro torceria para que algum mineiro morresse, assim o seu livro ficaria completo. Não chegaria nem perto dos soterrados quando eles deixassem o buraco – “estavam fedidos e nojentos”, diria posteriormente. Talvez tivesse alguma relação sexual com um ou dois deles.

Eliane Brum – ia passar os 68 dias que os mineiros ficaram soterrados à beira do buraco, tentando falar com eles, demonstrando solidariedade. O livro focaria na força do ser humano, na compaixão que os trabalhadores mostraram entre si enquanto estavam isolados e em como as pessoas podem se inspirar neles para mudar o seu próprio mundo.

Ryszard Kapuscinsky – começaria cobrindo os mineiros, mas depois passaria a prestar atenção no deserto do Atacama e se apaixonaria por ele. Sairia pelo Chile e escreveria uma grande obra sobre o povo chileno, suas diversidades étnicas e conflitos históricos.

Tom Wolfe – não chegaria nem perto da mina para não sujar o seu terno. Retrataria o sofrimento das famílias dos mineiros e solicitaria ao governo chileno acesso a tudo o que tivessem sobre o caso. Daria um jeito de criar uma hierarquia de importância entre os mineiros.

Hunter Thompson – provavelmente seria a opção de escritor mais interessante para os mineiros. Logo que soubesse da tragédia, iria correndo para o Chile e daria um jeito de chegar ao soterrados para passar o tempo todo com eles. Claro, levaria consigo muitos cigarros, cervejas, alucinógenos e diversos outros tipos de drogas. Provavelmente uns 10 mineiros morreriam de overdose, mas os outros passariam por momentos muito mais divertidos do que os que viveram. Seriam 68 dias de festa.  Thompson relataria que ora estava ao lado de 33 mineiros, ora junto com 33 mineiros e alguns monstros esquisitos pra caralho que habitam o fundo da terra.

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mafiosostaleseEscrito pelo jornalista estadunidense Gay Talese, um dos autores mais famosos do Jornalismo Literário, “Os honrados mafiosos”, publicado em 1971, conta a história da família Bonnano, importante grupo de mafiosos dos Estados Unidos durante o meio do século passado.. Para construir a narrativa, o autor levou cerca de sete anos realizando pesquisas, entrevistas e convivendo com os mafiosos, principalmente Bill Bonnano, filho do patriarca da família Joseph Bonnano.

Com uma escrita leve (exceto quando descreve cenas de tribunais) e precisa, Talese dividiu o livro em quatro partes. Na primeira, intitulada “O desaparecimento”, narra o sumiço de Joseph e dá uma espécie de introdução ao leitor no mundo da Máfia. O segundo, “A guerra”, mostra a crise que assolou nove famílias de mafiosos dos Estados Unidos durante o período em que o autor escreveu o livro. Depois vem “A família”, a estrutura da Máfia e a importância da confiança entre seus integrantes é descrita aqui. Por último está “O julgamento”, que é o desfecho de toda a trama.

O livro serve como um registro histórico de um fenômeno que influiu e ditou moda na vida de muitas pessoas. Até hoje a Máfia – a original, que surgiu na Sicília, sul da Itália – é vista com certo glamour.

*Resenha resgatada do meu antigo blog

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