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Posts Tagged ‘Graciliano Ramos’

eduardo-spohrHá uma clara divisão na literatura nacional. Enquanto a maior parte dos escritores se desdobra para que a venda de seus livros atinja o milhar, alguns raríssimos podem se gabar de centenas de milhares (ou até mais de um milhão) de exemplares vendidos. Muitos desses bestseller pertencem ao nicho da literatura fantástica, como é o caso do carioca Eduardo Spohr, autor de A batalha do Apocalipse, Filhos do Éden: herdeiros de Atlântida, Protocolo bluehand: Alienígenas ,Filhos do Éden: anjos da morte e A torre das almas e editor do blog Filosofia Nerd. Amado por milhares (ou milhões?) de fãs, defendido por Paulo Coelho e sustentando que a literatura deve ser analisada com o coração, Spohr falou com o Canto dos Livros. 

Canto dos Livros: Sobre seu primeiro trabalho, A batalha do Apocalipse, você já declarou que, devido à dificuldade em encontrar informações concretas durante a pesquisa, teve de criar uma “mitologia própria”. Tolkien talvez tenha sido o escritor que melhor desenvolveu este trabalho, criando um universo completamente novo. Quais foram as dificuldades encontradas nas pesquisas? Como foi criar uma mitologia própria? Em quais pontos foi bom ou ruim não ter algum embasamento prévio?

Eduardo Spohr:  Foi longo, porém mais fácil dos que as pessoas pensam porque eu já jogava RPG dentro desse universo, e tive anos para desenvolvê-lo. Então, a coisa aconteceu de forma orgânica e gradual. Quando comecei a escrever A batalha do Apocalipse, já tinha praticamente tudo pronto. O mais difícil, acredito, é manter a coerência com as “regras” estabelecidas para esse universo fantástico.

CdL: É comum vermos você falando de mitos. Conte-nos um pouco sobre a sua relação com a mitologia, com a obra de Joseph Campbell e o impacto que isso tem na sua escrita.

ES: Quando eu conheci Campbell, já tinha escrito o meu primeiro livro, mas o curioso foi ver que tudo o que ele falava, eu já tinha aplicado nas minhas histórias. Então, estudando mais sobre as teorias dele, eu entendi o porquê e comecei a desconstruir todo o processo.

CdL: Flertando com Campbell, de que forma um personagem deve ser construído para que desperte emoção no leitor?  Quais seus personagens mais amados? E os mais odiados?

ES: Bom, acho que acima de tudo o personagem deve ser crível. Como fazer isso? Cada escritor deve encontrar o seu caminho. No meu caso, não tenho personagens mais amados ou odiados. São todos como filhos (risos).

CdL: De que forma você enxerga a tradicional personificação do mal, na figura de um adversário – Diabo, Satã, Lúcifer ou equivalente? Sobre a responsabilidade do mal cometido pelos e sobre os homens, a quem ela recai?

ES: É uma forma de ver as coisas. De fato o mal existe dentro de nós, assim como o bem. Está nas nossas mãos escolher o que fazer: o certo ou o errado, geralmente sendo o errado mais tentador. Metaforicamente é uma alegoria poderosa.

CdL: Suas crenças religiosas ou espirituais interferiram na escrita de seu livros ou a escrita de seus livros interferiram em suas crenças?

ES: Não. O livro é 100% ficção, não há nada relacionado com as minhas crenças ou algo do tipo.

CdL: Além de livros, você produz bastante conteúdo das suas histórias em outros formatos, como podcasts e textos no blog. Como esses formatos te ajudam a construir sua obra e envolver os leitores?

ES: São materiais diferentes, na verdade. Não acho que exista grande influência dos podcasts, por exemplo, nos meus livros.

CdL: De que forma a interação online com seus mais de 30 mil fãs no Facebook e mais de 50 mil seguidores no Twitter exerce impacto na sua obra?

ES: Eu sempre fico de olho no que os leitores falam, e escuto suas críticas. Isso tem me ajudado muito a melhorar, tenho certeza.

CdL: Você demonstra desejo de compartilhar sua experiência como escritor aos novos talentos. Há, inclusive, um post no seu blog com inúmeras referências, podcasts e vídeos sobre o assunto. O que te motiva a estimular a nova geração? Quais foram seus maiores professores na profissão?

ES: Eu acho um barato que a galera curta meus livros e o meu trabalho. Então, quando me fazem perguntas sobre como escrever, eu tenho o maior prazer em ajudar, daí eu ter feito esse post. Meu principal mentor creio que foi o escritor José Louzeiro, uma pessoa que admiro muito.

CdL: Num mundo cada vez mais racional, pelos avanços da ciência e do conhecimento, a literatura de fantasia tem hoje um papel diferente do que tinha antes?

ES: Não. Acho que é o mesmo. O papel de reconstruir a nossa sociedade e nós mesmos de forma metafórica.

CdL: Você esteve na Feira de Frankfurt este ano. O que achou da participação do Brasil no evento e como encarou todas as polêmicas que a cercaram, principalmente a lista de autores levados pelo governo e o discurso do Luiz Ruffato na abertura?

ES: Frankfurt é muito corrido. É uma reunião atrás da outra, com editores, agentes, etc. Confesso que nem tive tempo de parar e nem de pensar nas polêmicas. Estava totalmente concentrado em apresentar meu trabalho aos editores internacionais. Vamos torcer para que dê certo.

CdL: Como é a receptividade das editoras internacionais pela literatura de fantasia brasileira? O país de origem influencia no interesse dos editores? 

ES: Creio que dependa do caso. Nos lugares onde meu livro já saiu (Alemanha, Holanda e Portugal), a recepção foi bem legal.

CdL: É nítido o amadurecimento no seu texto desde o primeiro trabalho até o mais recente, Filhos do Éden: Anjos da Morte. Além da evolução como escritor, o que acha que mudou nesse tempo? Como a mudança tem sido recebida pelos leitores?

ES: Muito obrigado. Bom, claro que eu tenho tentado melhorar. Os leitores parecem estar curtindo também, pelo feedback que estão me dando.

CdL: Sobre sua evolução, você já declarou que precisava melhorar nos diálogos. Esse é um dos pontos cuja diferença pode ser percebida se compararmos o seu primeiro e o terceiro romance. Para você, qual a importância desse recurso dentro do todo? Em que exatamente e quanto acha que melhorou nesse sentido? 

ES: Muito importante. É o diálogo que dá vida aos personagens. Não só ele, mas é uma parte importante, acredito. Eu não posso dizer que melhorei (isso é para o leitor avaliar), posso dizer apenas que me esforcei para tentar melhorar.

CdL: Sua obra alcançou um grande público no Brasil, tornando-se um bestseller. Você faz parte também da coletânea de contos Geração Subzero, que reuniu autores “esquecidos pela crítica”. Afinal, não estar nas críticas da grande imprensa faz falta para você? Qual é a real importância destas críticas?

ES: Para mim é mais importante a crítica do leitor. Mas acho que toda crítica, quando feita com respeito, é válida e nos ajuda a evoluir.

CdL: Na sua opinião, um livro deve ser analisado dentro do seu nicho específico ou comparado com tudo o que compõe a literatura? Em outras palavras, uma obra de fantasia deve ser analisada tendo somente Tolkien como parâmetro ou podemos colocá-la ao lado de Graciliano Ramos, por exemplo?

ES: Acho que deve ser analisado com o coração. Pelo menos eu faço isso, enquanto leitor. Obviamente, os críticos discordariam.

CdL: Levando em conta toda a literatura brasileira contemporânea, como sua obra se situa nela?

ES: Para mim, é difícil fazer essa auto-avaliação. Prefiro que o leitor o faça.

CdL: Fazendo um exercício de futurologia, daqui cem anos, quais dos escritores brasileiros atuais continuarão sendo lidos? Por quê?

ES: Impossível dizer. E qualquer resposta seria errada. Prefiro não arriscar (risos).

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xicoPor Guilherme Magalhães, Rodrigo Casarin e Yasmin Taketani

No Vale do Cariri, início da década de 1970, um menino acompanha seu pai, conhecido como “O Velho”, na boléia de Big Jato. É o caminhão limpa-fossas que garante o sustento da família — “tudo que a gente ganha vem da merda” — e o espírito trabalhador do pai que orgulha o menino. Mas sua formação é dividida entre outros modelos, como o tio beatlemaníaco, “veado, maconheiro e vagabundo”, e é influenciada pela própria região, que avança por uma estrada esburacada rumo à modernização.

Esta é a história de Big Jato (leia resenha aqui), novo romance de Xico Sá. Nascido no Crato, Ceará, em 1962, Xico Sá começou a carreira de jornalista no Recife, atuou como repórter investigativo e publicou livros de contos e crônicas, como Chabadabadá e Modos de macho & modinhas de fêmea, e atualmente é colunista da Folha de S. Paulo e comentarista dos programas “Saia justa” (GNT) e “TV Folha” (Cultura). No prólogo do autobiográfico Big Jato, o autor profetiza: “Se um homem não conta, é um homem morto”. Vivo que é, Xico Sá se muniu do filtro da ficção, enfrentou a “maldição do cronista” e escreveu sua vingança contra o passado. Nesta entrevista, realizada via e-mail, Xico Sá fala sobre a escrita do novo livro, a “dama conservadora” que é a crônica e a característica de rir da própria desgraça, entre outros temas.

No prólogo de Big Jato, você escreve: “Tudo isso estava muito guardado. Agora emerge por força superior”. Como definiria essa força que o impeliu a colocar as histórias no papel?

Faltava o poder da ficção, o filtro da ficção, a lente da ficção. Havia um rascunho ainda muito fiel ao vivido, uma noção quase documental e, de certa forma, piedosa. Queria outra coisa, uma espécie de vingança contra o passado. Não há melhor vingança do que o dia em que você diz: opa, agora parece a maior mentira do universo, a trapaça venceu inclusive o inconsciente, manchou de vez as lembranças encobridoras, agora tenho uma verdade mínima na mesa, a verdade que só um ficcionista alcança. O autor mente muito, como no título do livraço de Carlos Sussekind e Francisco Daudt. Creio ter alcançado minimamente o sagrado altar dos mentirosos.

Sendo um romance autobiográfico, qual o efeito que a escrita de Big Jato — de revisitar e ficcionalizar o passado — teve sobre você? Por que a ficção se fez necessária para contar essa história?

Nada mais farsesco do que inscrever um livro como autobiográfico. Aí começo a funcionar como ficcionista. No prólogo, uso meu amigo Kurt Vonnegut como escudo: tudo isso aconteceu, mais ou menos. Se lesse meu livro e acreditasse que eu era o seu filho, no modo que está no Big Jato, meu pai me assassinaria da forma mais greco-cratense — cratense de Crato, a cidade onde nasci. Graças a Deus é um homem da roça, vive isolado no seu rancho, na sua cachaça metafísica e nas suas caçadas de avoantes e tatus, jamais vai perder seu tempo com certas leituras. Sorte de nós todos. Mas o pior é que eu chorava como um desalmado, em certas partes da escrita. Principalmente nas partes mais inventadas. Vai entender o diabo da ficção! É poderosa. Você inventa para fugir, ela nos pega como uma nova verdade mais lascada e sofrida ainda. Uma sucuri que nos engole como a um boi no pântano.

Big Jato, estruturado em 33 capítulos, começou na forma de contos. O que o fez transformá-los em um romance? Como foi a passagem de contista e cronista a romancista?

Era um conto só, com várias versões, mas um relato bem capenga, desajeitado, embora já contemplasse a merda toda do limpa-fossas do Velho, o personagem principal. Os amigos Joca Terron e Ronaldo Bressane leram e começaram a me botar pilha para esticar e explorar a idéia, digo, a merda. Isso há séculos, uns sete anos atrás. Deixei pra lá. Quando retomei, em 2011, o livro saiu num jato só, aí sim foi importante a prosódia do Cariri, onde se passa a suposta história. Voltei lá para treinar o ouvido. Juntei a isso releituras do meu escritor brasileiro predileto, Graciliano Ramos, e tudo que é romance e crônica dos picarescos de Espanha — daí o humor, creio. Aqui mesmo neste jornal, o escritor Raimundo Carrero fez uma crítica que me deixou corado, metido e achando que valeu a pena ter rabiscado o tal volume. Ele exagerou dizendo que o Lazarillo de Tormes tinha agora a companhia de um livro brasileiro, o Big Jato. Isso foi de arrombar de bom. Agradeço a Deus por ele ter visto a influência dos miseráveis pícaros espanhóis. Estes mesmos pícaros que se parecem muito com as narrações populares ou dos cordéis nordestinos. Ora, essa coisa é muito da minha formação como leitor pícaro-picareta e de escritor idem. O anti-heroísmo soy yo.

Temas de suas crônicas — como mulher, masculinidade, futebol, vida nordestina e cultura brega lado a lado com a alta cultura — estão presentes também em Big Jato. O romance permitiu, de alguma forma, que você desse a eles uma densidade que não cabia na crônica?

O livro tem todas as virtudes e todos os defeitos que tenho como cronista. Inclusive os temas. E olhe que, durante a escrita, a grande paranóia era não deixar a crônica tomar conta da parada. Dizia pra mim mesmo: fdp, agora você é um ficcionista, chega! Mesmo assim, foi impossível evitar a contaminação, mesmo armado de todos os repelentes e escudos. Ao final, fiquei com a sensação de que o amor e o sexo, temas tão comuns a tudo que escrevo, não estavam presentes como deveriam, embora existam cenas de cabarés, leilões de virgens para gringos e a iniciação sexual do guri. Acabei me conformando: ora, àquela altura eu mal sabia o que era uma fêmea direito. Havia me deitado apenas com cabritas. A memória não poderia me trair nessa hora.

Qual a sua definição de crônica?

É o PF da literatura brasileira. Arroz, feijão, bife e um ovo estrelado por cima. E tem coisa melhor, amigos, na hora da fome canina? É o gênero vira-lata por excelência, por isso tanto me encanta. Na minha crônica mais metalingüística, solene definição para a falta de assunto em cima da hora do fechamento do jornal, defino assim o ofício de cronista: algumas crônicas nascem fáceis, como aparentam aquelas de Rubem Braga, como uma polaroid, uma pose digital, olha o passarinho, olha a borboleta amarela, diga xis, um sabiá teimando contra o barulho da metrópole. Fáceis como beijos roubados de mulheres difíceis… Outras nascem na dança, na pista, uma moleza, como empurrar bêbado em ladeira, como Vinicius no elogio de uma saboneteira, como descer para um café ou uma cerveja lá na esquina da Augusta.

A crônica brasileira vive um bom momento? Qual a marca mais visível dos cronistas em atividade?

Continuamos no arroz, feijão, bife e um ovo estrelado por cima. Mesmo no caso de um gourmet, como o Verissimo, nosso melhor cronista, mestre da área. A crônica é uma dama conservadora, mudou quase nada depois de Rubem Braga. Não existiria a minha crônica esportiva, por exemplo, sem a matriz deixada por Nelson Rodrigues. A minha crônica amorosa é requentada, e isso eu acho um luxo, de Paulo Mendes Campos e Antônio Maria, dois caras que leio como orações diárias. Só acrescento farinha e pimenta, por causa da minha origem, no PF. E uma cachacinha, obviamente. A matriz é a mesma dos anos 1950 até hoje, incluindo uma certa porção de subliteratura, faz parte — como uma porção de viagem na maionese.

Numa entrevista, você comenta que escreveu Big Jato para enfrentar a maldição do cronista, “o sofrimento de não arrematar tudo numa frase de efeito, não deixar a crônica tomar conta”. Durante sua escrita, descobriu alguma “maldição do romancista”?

A gente descobre de cara a maldição do romancista: será que este personagem tem capacidade de andar com as próprias pernas, mesmo as pernas curtas da mentira? Arte maldita. E tem o diabo da voz, uma afinação de possessos, eco de casa mal-assombrada. Estou longe de entender dessas coisas. Pior é que a maldição vicia: já estou no embalo de um novo sofrimento como ficcionista. Quando falo em matar a maldição do ficcionista, trato da maldição do ficcionista em português. Em portunhol selvagem, língua dos meus mentores Douglas Diegues e Wilson Bueno, sou veterano, me aventurei em muitas narrativas publicadas inclusive no Paraguai, minha verdadeira pátria, afinal de contas a pátria de um hombre é a pátria do seu uísque, por supuesto.

Do Crato até São Paulo, como sua formação cultural — e literária, por extensão — foi construída? O que lhe fez optar pela “alma de poeta”?

Entre o Cariri — além do Crato, vivi em outras cidades da região — e São Paulo, tive a sorte de morar, estudar e beber no Recife. Minha educação sentimental e literária, mesmo ainda precária e mobralesca, devo a esta cidade e aos seus escritores e poetas. Cheguei lá ainda jovem, na casa dos dezesseis, mas dei a sorte de conviver com muitos mestres, que me indicavam e cobravam leituras nas mesas dos bares —melhor lugar para tal cobrança a um mancebo —, como Jaci Bezerra, Alberto da Cunha Melo, Paulo Bruscky — que julgo o maior artista plástico brasileiro —, Jomard Muniz de Britto, José Carlos Targino, Raimundo Carrero — com quem trabalhei em um jornal da Universidade Federal de Pernambuco — e tantos outros. Sem querer esnobar, ainda dei a sorte de uma breve convivência com Gilberto Freyre, que me dava porres enormes de licor de pitanga — bebida que ele julgava como invenção sua e a mais incrível do planeta — e João Cabral de Melo Neto, quando das suas férias em Pernambuco. Como não tinha capacidade de conversar de verdade sobre poesia com João Cabral — mal eu tinha lido o ABC do Pound e O arco e a lira do Paz —, inventava umas entrevistas mandrakes, pois eu já era repórter — cheguei a publicar uma no Jornal da Tarde. Mas nossa grande conversa era mesmo sobre futebol. Ele jogou no América (do Recife) e no Santa Cruz. Um dia, quem sabe, publico essa prosa futebolística.

Os pais do narrador desprezam os livros, preferindo a objetividade da matemática e o suor do trabalho como possibilidades de se levar uma vida melhor. Que resposta daria ao Velho quando este pergunta: “Inteligente para quê? Para pensar até sobre uma folha que cai sobre a terra? Que adianta?”.

Na vida real, esse era mais o espírito de um avô do que do meu pai. Meu velho nunca foi de livros, sempre esteve no pequeno comércio de bodegas, feiras e na roça. Mas eu queria cutucar também essa crença exagerada e iluminista de que os livros salvam. O personagem faz o elogio da vida prática, rasteira, direta, a vida de pobre, em contraposição ao tio doidão beatlemaníaco e à tia bibliotecária, responsável também pela perdição sonhadora do guri. É ela que aplica os [Charles] Dickens no pequeno infeliz.

O menino cresce entre a masculinidade bruta do pai e um cosmopolitismo emergente do tio, que representam as mudanças culturais no sertão na época, marcado pelo conflito entre o novo e o velho, entre a tradição e a tecnologia. Dessa mistura, o que resultou?

O bom confronto se repete hoje, em bases mais radicais, globalizadas e com as novidades made in China. Até alguns fetiches da mitologia sertaneja, como produtos do padre Cícero, são fabricados no Oriente. Uma das raras virtudes do meu livro é ser um romance no sentido de demarcar uma crônica de costumes de uma época, entre o rural e o urbano, em um momento em que o Brasil estava aderindo a um novo tempo: a migração em massa, deixando lugares como o meu às moscas, em busca da metropolização, etc. Quem foge, como o suposto herói da saga, foge com medo da extinção, como um animal desesperado.

Independentemente do gênero, seus textos sempre são tidos como divertidos. Não é diferente com Big Jato: amor não correspondido, trabalho pesado do pai, “bullying” dos colegas de escola, vida dura no sertão, inflação, tio “vagabundo” e os sofrimentos tradicionais dos adolescentes são tratados com graça, mas poderiam muito bem compor um drama. O que o leva em direção ao humor?

Creio que seja esse negócio de rir da própria desgraça. De novo voltamos aos pícaros-picaretas da glória de estar vivos. Mas se for buscar nas minhas leituras, também é Gógol puro: acredito no nariz e no capote desse russo como as duas peças mais incríveis e bonitas da literatura. Tenho muitos motivos para expor minhas dores em forma de tiração de onda.

No momento em que se passa a trama, início dos anos 1970, o futebol desempenhava no imaginário popular um papel muito mais vivo do que hoje. Existe um “descaso” com o futebol na literatura brasileira contemporânea?

Sim, na ficção existe, embora a família Sant’Anna, a melhor família de ficcionistas brasileiros hoje, tenha feito de tudo para salvar a ficção ludopédica. Pegue O paraíso é bem bacana, do André, um livraço, uma história de futebol cosmopolita, com neguinho saindo do futebol de praia e do Santos para ser um Mané Mohamed (cito aqui de cabeça sem puerra nenhuma de Google), uma história internacional que antecipa muitos conflitos do futebol em estádios da Europa. Genial. É a melhor ficção sobre futiba do mundo, melhor até que o Peter Handke de O medo do goleiro diante do pênalti, que tem apenas quinze minutos de bola rolando, o resto é o drama da humanidade fora das quatro linhas, como se fosse qualquer pecinha grega da vida. Aí, para completar, você pega esse último do Sérgio, pai do André, obviamente, tricolor das Laranjeiras doente: Páginas sem glória. O mesmo tricolor que já havia escrito contos memoráveis mata a pau sobre um anti-herói futebolístico.

Sexo é um tema recorrente nos seus textos e comentários. Por que ele é tão mal retratado na literatura? Que autores conseguem transpor com maestria o ato para palavras? Soft porn lhe agrada?

Se é soft, não é pornô, muito menos sexo. Sexo é sujo e sagrado ao mesmo tempo. Aí é sacanagem competir com Henry Miller. Quase todo escritor brasileiro, pelo que escrevem sobre isso, toma banho depois do sexo.

Entrevista publicada originalmente na edição 155 do jornal literário Rascunho.

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Por Rodrigo Casarin

big jatoBig Jato, de Xico Sá, é uma merda.

Mas é repleto de qualidades, a começar pelos personagens e pela história, baseada na vida do escritor, como podemos perceber já no prólogo. “A história que vem a seguir […] é verdadeira. Estiquei ao máximo a corda da verossimilhança. Quase no pescoço”, escreve Xico, logo depois de usar uma citação de B. Traven em Viagem noturna: “De certa forma, uma história não significa nada a menos que você mesmo a tenha vivido”. Para finalizar, antes de sermos levados ao Vale do Cariri durante a primeira metade dos anos 1970, o veredicto sobre o teor autobiográfico do que vem a seguir: “Tudo isso estava muito guardado. Agora emerge por força superior. Se um homem não conta, é um homem morto”. Em seguida, entramos definitivamente no que podemos supor seja parte do passado, ainda que romanceado — leia-se “ficcionalizado” —, de Xico Sá. Um passado vivido praticamente na merda.

Apesar de a história ser quase que integralmente (dois capítulos são exceção) contada por uma criança entrando na adolescência — e acreditamos representar o autor —, o grande personagem de Big Jato não é esse narrador, mas seu pai, conhecido como “o velho”, que logo descobrimos nem ser tão velho assim. Resmungão do tipo que só fala quando bêbado, bronco que finge não ter sentimentos, trabalha com o Big Jato, um caminhão de limpar fossas. Ou seja, é uma pessoa cuja vida é feita — com sucesso — sobre a merda alheia. E se orgulha disso: o Big Jato é de suma importância para toda a família, é dele que vem o sustento da casa e é graças e ele que começam a enriquecer.

Com a maleabilidade típica de uma criança, o garoto narrador arquiteta sua relação com o pai — que paulatinamente ganha intensidade e entrosamento — em alicerces escatológicos. A única pessoa que parece se incomodar com o ramo de negócios do velho é sua mulher, uma dona de casa com horror ao vento — provavelmente por ser o culpado por trazer o cheiro de merda do Big Jato para dentro de casa, cheiro que está sempre impregnado em seu marido.

Outro personagem importante e bastante marcante na obra é o tio do menino, irmão gêmeo do velho, mas com personalidade praticamente oposta — de igual, apenas o fanatismo pelos Beatles. Um vagabundo de primeira, que nutre horror imenso e declarado pelo trabalho, exemplo do que o velho não quer para o seu filho. Ironicamente, é esse tio o responsável por encaminhar o garoto para o seu primeiro emprego, numa rádio da cidade.

Contudo, o trabalho na rádio dura pouco. Logo o rapaz precisa assumir o Big Jato por causa de uma doença que deixa o velho de cama. Para decepção da mãe, agora é o filho que sai pelas ruas do Cariri para recolher a merda dos outros. É grande o desgosto da mulher ao ver a cria herdar do pai o gosto pelas fezes alheias.

Toda essa história é contada com a ajuda de referências diversas. Há diálogos com outras obras literárias, como O pequeno príncipe, de Antoine de Saint-Exupéry, e Grandes esperanças, de Charles Dickens, e ícones da cultura pop, como o filme O exorcista e os próprios Beatles, além de comparações relativamente sofisticadas — o pai remete a Apolo e Graciliano Ramos; o tio, a Dionísio e Vinícius de Moraes. São elementos dignos de alguém que já tem uma boa bagagem cultural e amplo repertório, alguém que volta a uma história depois de bastante tempo, não de um menino da década de 1970.

Putaria e seriedade

No começo do livro, Xico parece acanhado, como se estivesse intimidado por estar escrevendo um romance. Contudo, não demora a mostrar suas melhores marcas. Quem acompanha o trabalho de Xico Sá em seu blog ou no jornal Folha de S. Paulo sabe que uma das principais características do escritor é a prosa bem-humorada, repleta de sacanagem, filosofia de boteco e clichês que se transformam em grandes adágios. Tudo isso também está em Big Jato. Os conhecimentos mais profundos dos personagens parecem vir diretamente dos lugares mais comuns, as sacadas são ótimas e a fixação do garoto por quem realmente faz cocô (“até o papa?”) rende diálogos escatologicamente bem-humorados. A maneira como Xico trata o sexo — que muitos dirão ser pornográfica — também proporciona grandes momentos. Eis um deles: “Se tem uma dupla que toca de ouvido, é pau e boceta, mondrongo e racha, pra-te-vai e chibiu, cara e periquito, rola e xoxota, pênis e vagina, como dizem os compêndios escolares”.

Entretanto, o livro não é somente isso. Em algumas oportunidades, Xico também acaba por retratar a triste situação do sertão brasileiro, mas faz isso de maneira leve, quase que superficial. Os problemas abordados — a seca, a falta de comida, o passado sangrento, a escassez de opções para diversão, o pouco valor à vida, a violência cotidiana, a mortalidade infantil… — aparecem no dia-a-dia dos personagens como algo trivial, que não desperta atenção de quem vive naquela realidade.

Ao final, baseado na merda, Xico constrói um bom e divertido livro.

Texto publicado originalmente na edição 155 do jornal literário Rascunho.

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graciliano_httpwww.ieb.usp.breventoseminario-graciliano-ramos-estilo-e-permanenciaNo dia 20 de março será realizado no Instituto de Estudos Brasileiros (IEB) o Seminário Graciliano Ramos: Estilo e Permanência. O evento é organizado em parceria do IEB com a Área de Literatura Brasileira da FFLCH-USP e propõe-se a realizar um dia de depoimentos e discussões em torno à figura e à literatura desse importante escritor brasileiro.

Programação:

9h – 10h30min
Palestra de abertura: Alfredo Bosi
Apresentação: Erwin Torralbo

10h30min – 12h – Arquivo e Memória
Alcides Villaça (FFLCH)
Murilo Marcondes de Moura (FFLCH)
Histórico do arquivo GR
Homenagem à Professora Yêdda Dias Lima
Moderador: Erwin Torralbo Gimenez (FFLCH)

14h30min – 16h – Estilo e permanência: visões críticas
Luis Bueno (UFPR)
Hermenegildo Bastos (UNB)
Elizabeth Ramos (UFBA)
Moderador: Marcos Antonio de Moraes (IEB)

16h – 17h30min – Estilo e permanência: releituras
Francisco Jc. Dantas (Sergipe)
José Luiz Passos (Los Angeles – EUA)
Moderador: Fernando Paixão (IEB)

Seminário Graciliano Ramos: Estilo e Permanência
Quando:
20 de março de 2013

Horário: das 9 às 18h
Onde | Auditório da História – FFLCH-USP
Endereço: Av. Prof. Lineu Prestes, 338, Cidade Universitária – São Paulo

Mais informações: (11) 3091-1149 difusieb@usp.br

Não haverá inscrições. 

Fonte: IEB 

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Por toda equipe.

Andréa del Fuego é uma daquelas escritoras que pode fazer parte de qualquer seleção de novos autores brasileiros. Entretanto, o seu primeiro romance, Os Malaquias, proporcionou-lhe já de cara o Prêmio José Saramago, em 2011, o que a coloca também no patamar de autores de quem podemos esperar desempenho digno dos grandes nomes de nossa literatura a cada nova obra lançada. Andréa tem 36 anos e escreveu também a trilogia de contos Minto enquanto posso, Nego tudo e Engano seu, além dos juvenis Sociedade da caveira de cristal e Quase caio. Na conversa abaixo, falamos sobre seu inicio nas letras, o peso de um prêmio como o Saramago e Os Malaquias, claro. Confira:

Canto dos Livros: Você começou a carreira de escritora escrevendo, entre outros,  contos eróticos. Como é escrever esse tipo de texto? Da onde vem a inspiração para construí-los? Qual o limite entre o erotismo e a pornografia?

Andréa del Fuego: Escrevia contos eróticos no final da adolescência, foi a experiência de morte na família que desviou meu foco para algo bem maior que o encontro erótico. A pornografia é um estímulo maior que o estímulo erótico, esse é mais subjetivo, anuncia sem mostrar, o que tem mais elo com a literatura. Acreditava que o erotismo tivesse a maior força da existência, ele tem força mesmo, mas a morte é invencível.  Já no meio do primeiro livro de contos, que era erótico, minha rota já estava fazendo a curva, as perdas e desencontros já faziam pressão. O erotismo é justamente encontro, o contrário.

CL: Em que os contos eróticos servem para uma evolução da técnica de quem os escreve? Você ainda pratica esse tipo de literatura? Por quê?

AdF: Não tenho escrito contos eróticos, esse tema não é mais protagonista. Gosto de um conto que escrevi recentemente, “Francisco não se dá conta”, em que um aposentado tem um caso amoroso com um bancário, o mais perto do sexo que há é uma cena em que eles tomam banho juntos e o velhote faz xixi na banheira, ou quando repousam o prato de comida no chão para deixar rolar. Acho que a evolução da técnica tem pouco a ver com o gênero da escrita, mas com as horas de voo desse gênero ou de qualquer outro. É preciso escrever muito, pra jogar muito texto fora.

CL: Entrando agora em Os Malaquias, os personagens são uma das maiores forças desta obra. Como você lida com eles? Qual a sua reação ao ver um deles morrer, por exemplo?

AdF: Eles são meu parentes, literalmente. Morreram no decurso da escrita do livro, literalmente. A relação com esse livro é como se ele fosse um filho, agora que acabei de parir, posso comparar a isso mesmo, há uma ligação sanguínea e ancestral com os personagens. Trata-se de um álbum do fotografias que encontrei em um baú e que visitarei até o fim.

CL: Os Malaquias pode ser considerado uma obra de realismo fantástico, já que boa parte da história é baseada na vida de seus bisavós. Em um livro assim, como funciona o trabalho de pesquisa histórica? Ela existe ou você simplesmente usa os elementos que já domina da história com complementos de ficção? Como funciona essa costura de realidade e fantasia?

AdF: Nenhuma pesquisa, há invenção, intuição e delírio. Bem delírio mesmo, a ponto de ter que cortar minha tendência poética para não deixar tudo ainda mais delirante. No corte do texto, fui eliminando a poesia gratuita, aquela de passagem que dá vontade de escrever porque o personagem inspira, fui ficando seca na técnica para que o delírio da história ficasse “comestível”.

CL: O seu texto é marcado por frases curtas, quase sempre diretas e com raros excessos de palavras. Quais foram as suas principais influências para que chegasse a esse estilo?

AdF: Ler Machado de Assis, ele é um detox da linguagem. Lá está ele escrevendo sem nenhuma palavra sobrando, assim como Graciliano Ramos. Até Guimarães Rosa, com aquele derrame de linguagem, não deixa sobrar nada.

CL: No que você se inspira para criar as ambientações dos seus textos?

AdF: O cotidiano, adoro o cotidiano mais prosaico, um ponto de ônibus, um sofá com televisão, um almoço qualquer.

CL: O que significa ganhar o Prêmio José Saramago já no seu romance de estreia para o mundo adulto?

AdF: O prêmio deu-me coragem para escrever assim como escrevo, como se me desse carteira de habilitação para o que já faço. Ao mesmo tempo, é uma espécie de fiscal que me acompanha dizendo que daqui por diante, que eu tome tenência e não publique qualquer coisa.

CL: Sempre que uma mulher vence um prêmio, ou ganha destaque por qualquer que seja sua atuação profissional, começam a ser inseridas questões de gênero no acontecimento. Você não acha que essa prática sistêmica de ficar dividindo “meninos e meninas” já cansou? Você já sofreu com algo nesse sentido?

AdF: Nunca senti isso. E não sinto de propósito, a mulher já é um adulto civil, não há um motivo sequer para que a mulher não faça o que quer e precisa fazer. Há direitos ainda a ser conquistados, mas o espaço já está dado, é hora e obrigação de ocupá-lo.

CL: Ainda sobre esse assunto, você está participando da antologia 30 mulheres que estão fazendo a nova literatura brasileira. É, sem dúvida, uma grande oportunidade das autoras mostrarem suas caras e seus trabalhos, mas não acha que projetos assim só fazem reafirmar essa questão de gênero?

AdF: Essa antologia foi muito importante, revelou muitas escritoras. É só não classificá-la demais, tirá-la da prateleira da literatura para a prateleira da antropologia.

CL: Tivesse você a chance de escolher o ganhador do Prêmio Nobel de Literatura de 2012, para quem ele iria? Por quê?

AdF: Um brasileiro, quem sabe o Dalton Trevisan que acabou de levar o Camões, justamente por ser um contista, e por não cultuar a própria imagem em eventos e convescotes.

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Um dos livros nacionais mais elogiados pela crítica nos últimos anos, Pornopopéia, de Reinaldo Moraes, além de ter um grande valor literário, também é uma grande diversão para o leitor – e sabemos que quando algum livro agrada aos críticos, muitas vezes ele é um porre para os míseros mortais, não é mesmo!?

Como o nome já indica, a história é praticamente uma epopeia pornográfica. A obra é dividida em duas partes. A primeira, de uma intensidade fantástica, com cenas, cenários e diálogos muito bem trabalhados, passa-se na cidade de São Paulo. Ou melhor, em uma espécie de submundo da metrópole. O personagem principal é Zeca, um anti-herói que cativa o leitor já no começo do texto. O cara bebe, fuma, cheira, não é nem um pouco chegado a trabalho, não está nem aí para a esposa, mostra raras preocupações pelo filho, não desperdiça nenhuma oportunidade de comer uma mulher, vive passando a perna no cunhado e, ainda assim, é extremamente carismático, surpreendentemente humano.

Tal estilo de vida acaba envolvendo Zeca em uma série de complicações, e aí que a história em si começa a realmente se desenrolar. Após uma intensa noite de bebedeira, sexo e muito nariz na farinha, o protagonista resolve passar uma temporada em Ubatuba – e aqui chegamos na segunda parte da obra. Vai para o Litoral para espairecer sobre alguns problemas pontuais, mas lá descobre que sua vida está muito mais complicada do que poderia supor.

Na praia, desacelera. Durantes algumas semanas, leva uma vida bem mais tranquila, longe do pó, tomando apenas alguns gorós e fumando poucos baseados. Começa a curtir o estilo de vida praiano, enquanto a sua vida só piora em São Paulo. Contudo, a necessidade de sexo acaba fazendo com que Zeca arrume confusões – e, durante algum tempo, soluções – também em Ubatuba.

Atualmente, qualquer livro repleto de sexo, drogas e com a história completamente focada em um ponto de vista bastante masculino (que beira o machismo) é automaticamente comparado às obras de Bukowski. Com Pornopopéia não é diferente. Contudo, enquanto o Velho Safado atingia o seu ápice em rapidinhas (contos), Reinaldo Moraes domina com maestria a arte do sexo tântrico, e mantém a relação – nem sempre ereto, é verdade, mas ainda assim mostrando presença – ao longo de 660 páginas.

Em alguns momentos a lembrança de Nelson Rodrigues também é inevitável, principalmente quando relacionamentos “proibidos” ocorrem. Há passagens deste tipo, inclusive, nas quais Moraes utiliza um vocabulário próximo ao do Anjo Pornográfico (o famoso ululante, por exemplo). Talvez isso não seja apenas uma coincidência, mas um exemplo do domínio que o autor tem do texto, que levou anos para ficar pronto.

O final de Pornopopéia poderia ser um pouco melhor, contudo isso está longe de ser um problema em um livro que nos brinda constantemente com passagens do tipo. “Lá vai a tarde entrando em preguiçosa agonia no horizonte líquido desse lugar comum à beira-mar. Olha só que poesia tem essa frase. Má poesia, mas poesia assim mesmo. Eu conseguiria viver sem poesia. Aliás, eu vivo sem poesia, Não conseguiria é viver sem buceta. E estou vivendo sem buceta”.

No lugar de Machado de Assis, José de Alencar, Guimarães Rosa ou Graciliano Ramos (como fazem – ou ao menos tentam – as escolas), dê Pornopopéia na mão de um moleque de 15, 16 ou 17 anos. Quero ver se ele não se apaixonará por Literatura.

Livro: Pornopopéia

Autor: Reinaldo Moraes

Editora: Objetiva

Páginas: 660

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