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Posts Tagged ‘Granta’

Crédito da foto: Renato Parada

Crédito da foto: Renato Parada

Antonio Prata está em evidência. Na mesma semana do lançamento do seu novo livro, Nu, de botas, no início deste mês, envolveu-se em uma polêmica por conta do texto “Guinada à direita“, publicado na Folha de São Paulo, jornal onde é colunista. Alguns não entenderam sua suposta mudança de posição ideológica, e outros, pior, aplaudiram de pé o texto que precisou ser esmiuçado no domingo seguinte para que maus entendidos (ou entendedores?) fossem resolvidos. Autor de obras como Douglas, As pernas da tia Corália, Adulterado, Felizes quase sempre e Meio intelectual, meio de esquerda, foi um dos integrantes da edição da revista Granta com os melhores jovens escritores brasileiros e ajudou a escrever a novela Avenida Brasil. Além disso, informação importante, fabrica cervejas em sua própria casa. Falou de todos esses assuntos nesta entrevista que fizemos com ele (e de futebol também!).

Canto dos Livros: Como anda a vida depois da guinada à direita?

Antonio Prata: Muito mais tranquila. É bem mais fácil ser de extrema direita do que ser meio de esquerda. Você não precisa se preocupar com a pobreza – é culpa dos pobres – nem com a desigualdade – cada indivíduo é diferente do outro. Você pode fazer piadas racistas, machistas e homofóbicas e pagar de vanguardista. Ser de esquerda dá muito trabalho. Você está sempre sofrendo. Direita é paz de espírito. (RISOS – é sempre bom frisar…)

CdL: Ficou muito surpreso com a reação das pessoas a esse seu texto? Pensou que haveria tanta gente se identificando com o discurso e incapaz de perceber a ironia?

AP: Fiquei. Eu escrevi tantos absurdos no texto que jamais pensei que alguém pudesse levá-lo ao pé da letra.  Afirmava que José Maria Marin e Marco Feliciano eram de esquerda, que o “poderoso lobby dos antropólogos” havia transformado toda a área cultivável do Brasil em reserva indígena, que os negros estavam no poder, escanteando os brancos…

CdL: Na quarta capa de Nu, de botas está escrito que no livro “Antonio Prata revisita as passagens mais marcantes de sua infância”. Nessas revisitas você foi fiel à sua memória ou você criou histórias – ou detalhes – em cima daquilo que lembra da sua infância? Você realmente deixou de ganhar uma bicicleta do Bozo porque não sabia qual era o seu endereço?

AP: Olha, não dá pra chamar memórias de outra coisa senão de ficção, esse é um primeiro ponto. A memória é sempre uma história editada, reescrita no nosso cérebro. Às vezes (não poucas) é até inventada do zero. Memórias tão antigas, então… Eu não poria a mão no fogo por nada do que está no livro, se tivesse que testemunhar num tribunal quanto à veracidade. Ou seja, mesmo o que eu acho que aconteceu, não sei se aconteceu mesmo (ou se foi do jeito que lembro). Já certas histórias ou pedaços delas eu realmente inventei, para melhorar os enredos ou preencher brechas. A história da bicicleta eu trago na lembrança exatamente do jeito que escrevi. (Mas duvido que tenha acontecido: você acha que o Bozo ia conversar com um moleque de 5 anos depois do programa? E que ia se propor a dar uma bicicleta, do nada? Estranho.)

CdL: Como foi escrever esse livro?

AP: Foi legal. E cansativo, como sempre é a escrita.

CdL: É raro vermos crianças sendo bem retratadas na literatura e em Nu, de botas, você consegue captar bem o contraste entre a diferença de olhar, raciocínio e pensamento entre uma criança e um adulto. Como conseguiu isso? Tentativa e erro, estudos sobre a infância, convivência com crianças, boa memória dos primeiros anos de vida?

AP: Agradeço o elogio. Eu tentei criar as histórias a partir das memórias. E as memórias já tinham uma certa linguagem, um certo estilo de narrativa. O que tentei fazer foi ser fiel a esse estilo. Agora, se é assim que uma criança pensa (ou que eu pensava), já não sei. Mesmo esse elogio é o elogio de um adulto, alguém que, como eu, já não sabe mais o que passa pela cabeça das crianças. É igual filme de época. Você assiste Gladiador ou Spartacus e diz “nossa, eles recriaram direitinho a vida em Roma!”: mas quem é que sabe como era exatamente a vida em Roma?!

CdL: Ainda sobre a técnica de narrar histórias sob a perspectiva de uma criança, é uma questão da habilidade de bons escritores (como Bill Waterson e Neil Gaiman, para ficar em dois exemplos), ou há algum macete que facilite a tarefa?

AP: Pois então, são recriações, né? Pra começar, se eu quisesse ser realmente fiel ao pensamento das crianças, teria que restringir meu vocabulário a duzentas palavras, não poderia fazer frases longas nem conjugar direito os verbos. Eu tentei esse caminho quando comecei a escrever o livro, ficou ridículo. Experimentei alguns caminhos antes de chegar no que está publicado.

CdL: O Nu, de botas foi lançado junto com o Ligue os pontos, do Gregório Duvivier, em uma espécie de balada. De onde surgiu essa ideia? Como foi a experiência de aproximar dois universos tão distintos, a balada e a literatura?

 AP: A ideia foi da editora e eu achei ótima, porque sou fã do Gregório (embora não o conhecesse pessoalmente). Mais do que pela balada, o lançamento foi legal porque teve um bate-papo entre o Gregório e eu e leitura de trechos dos livros. Quanto à balada, propriamente, lamento dizer que eu tava tão exausto depois de tudo que nem consegui chegar à pista de dança. (Subir num palco e falar em público não é muito aterrorizante, pra mim. Aterrorizante são os sete dias e as vinte e quatro horas antes de subir no palco e falar em público…).

CdL: Você começou a publicar seus textos em veículos de comunicação bem jovem. De lá até hoje, como tem acompanhado as mudanças na imprensa? Como enxerga o futuro dela?

AP: Cara, quem souber responder essa pergunta ou é um gênio ou tá mentindo… 

CdL: Avenida Brasil foi uma das novelas mais elogiadas dos últimos anos, principalmente por causa de seu roteiro. Como foi fazer parte da equipe que escreveu essa novela? Como o trabalho era dividido? Quais eram as suas funções?

AP: A história é criada pelo autor principal, João Emanuel Carneiro. Todo dia ele faz uma escaleta, um resumão bem detalhado do capítulo e manda pros quatro colaboradores. Na escaleta, já vem apontado qual colaborador pegará quais cenas. A gente faz basicamente diálogos. Daí manda pra ele, ele dá um tapa final e manda pra ser filmado.

Foi demais participar dessa novela, por várias razões. Primeiro, por trabalhar com o João Emanuel, um escritor talentosíssimo e generoso, com quem aprendi muito. Também pela graça de escrever um troço que metade do país tá assistindo e comentando. Sem falar na alegria que é ver o diálogo que você escreveu sair da boca de alguns dos melhores atores do Brasil. (Em vários casos, aliás, melhorado por eles).

CdL: Ainda sobre a novela, você teve alguma participação nas hilárias cenas que o Tufão aparecia lendo A interpretação dos sonhos, de Freud (e o chamava de Fred), Mar morto, do Jorge Amado (para o Leleco dizer que nem sabia que o mar tinha vida para morrer) e O idiota, do Dostoievski (para o mesmo Leleco dizer que idiota mesmo era o Tufão)? Como foi a recepção para essas, digamos, intervenções? Como o pessoal da Globo as recebeu?

AP: Olha, quem mandava nas leituras do Tufão era o João Emanuel.

Não vejo essas citações como intervenções. Fazia sentido a Nina incentivar o Tufão a ler, como parte da “recuperação” que ela estava promovendo ali. E havia algumas piscadelas pro público, também. O primeiro livro que ela deu pra ele, se não em engano, era o Primo Basílio, que tinha não só o tema da traição como a inversão de papéis entre patroa e empregada, que se daria entre Nina e Carminha lá pelo capítulo cem. 

CdL: Seu pai, Mário Prata, o influencia como escritor?  Há ou houve alguma cobrança – sua, dele, da crítica ou dos leitores – pelo parentesco? Houve algum conflito íntimo quando você decidiu que seria escritor, como querer se diferenciar do estilo dele? 

 AP: Eu sempre digo que influência é uma palavra leve demais para definir o quanto a presença de um pai determina os caminhos de um filho. Mais do que me influenciar, ele me deu vinte e três cromossomos, me ensinou a andar, a falar, etc. Ou seja: sem dúvida “influenciou” muitíssimo minha escolha na profissão.

No começo havia a desconfiança de algumas pessoas, sim, mas com o tempo isso ficou pra trás. Ser filho de um escritor sem dúvida me abriu muito mais portas do que criou cobranças.

Não acho que eu tenha querido me diferenciar do estilo dele. Nossas disputas edípicas se deram em outros campos que não nas páginas

CdL: Como parte do time, o que você tem a dizer sobre o vexame brasileiro em Frankfurt? Perder de 9X1 não foi um pouco demais?

AP: Cara, pegue dezesseis escritores brasileiros que treinaram juntos duas vezes na vida no Playball da Barra Funda (nunca os onze do mesmo lado, só seis contra seis) e ponha pra jogar contra um time de quarenta alemães que treinam desde 2005. Ponha num campo oficial, a quatro graus, com garoa fina. Acho que 9X1 foi praticamente um empate.

CdL: Você também faz cerveja em casa. Há alguma forma de se relacionar a literatura com a cerveja caseira?

AP: Os textos dá pra consertar o tempo todo, dá pra mexer, remexer, cortar, remendar. Cerveja, se você cometer um errinho, vai tudo pro lixo. Ou melhor, pra pia.

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Tatiana Salem LevyTatiana Salem Levy nasceu em Lisboa, ainda jovem mudou-se para o Rio de Janeiro e agora passa uma nova temporada em terras portuguesas. Estreou como escritora com A chave de casa, de 2007, que venceu o Prêmio São Paulo de Literatura na categoria “romance de estreia”, já foi publicado na Espanha, França, Itália, Portugal, Romênia e Turquia e agora está sendo vertido para o inglês. Dois rios, seu outro romance, foi publicado em 2011 – sim, ela não tem pressa para despejar novos títulos no mercado.

Além disso, Tatiana já organizou e participou de coletâneas de contos (está presente na Granta com os melhores jovens escritores brasileiros, por exemplo) e publicou ensaios que surgiram de suas pesquisas acadêmicas (a moça é doutora em estudos da literatura pela PUC-RJ). Nessa conversa com o Canto dos Livros, falou do seu moroso processo de produção, o atual momento da literatura no país e um pouco de sua obra. Confira:

Canto dos Livros: Passado mais de um ano da publicação da Granta com os melhores jovens escritores brasileiros, como você avalia a sua participação na revista? Qual a importância dela? Houve algum retorno perceptível além do estardalhaço causado no meio literário à época do lançamento? 

Tatiana Salem Levy: A Granta ter feito um número com jovens escritores brasileiros significa que há um interesse crescente pela nossa literatura, o que é positivo para todos nós, para os que estavam e para os que não estavam na revista. O mercado estrangeiro nunca se mostrou tão aberto a ler os autores brasileiros, a traduzi-los. O meu primeiro livro, por exemplo, já saiu em seis países e agora, graças à Granta, vai sair também em inglês – isso, quinze anos atrás, era impossível. Portanto, além do estardalhaço, que é chato, mas inevitável, acho que a gente só saiu ganhando com a publicação da Granta.

CdL: O escritor Luiz Antonio Assis Brasil vê como marca predominante nesta geração de jovens escritores a escrita em primeira pessoa: “É quase hegemônico de uns 15 anos para cá. É uma literatura muito confessional”, diz. Concorda com esta análise? 

TSL: Mais ou menos. Uma marca que a literatura atual não tem é a hegemonia. Há, sim, uma tendência à escrita em primeira pessoa, mas acho que também há uma tendência a se escrever em terceira, a uma prosa mais realista. Acho que há uma diversidade grande no que diz respeito à forma e aos temas. E não acho que a literatura em primeira pessoa seja necessariamente confessional, acho que há, antes, uma tendência a se jogar com isso, brincar com as fronteiras entre o biográfico e o fictício.

CdL: Dessa nova geração de escritores brasileiros, quais obras e autores você destaca? Por quê? 

TSL: Não me sinto numa posição confortável para destacar nenhuma obra nem autor da minha geração. Acho que esse papel não cabe a mim. Posso dizer que gosto muito do trabalho do Daniel Galera, do Michel Laub, da Carola Saavedra, entre outros, mas isso é meu gosto pessoal. Até porque acho que ainda é muito cedo para definir quem são os mais importantes.

CdL: A maior proximidade dos autores, com seus perfis em redes sociais, é uma realidade. Você sente esta proximidade? Em que medida isto te afeta? 

TSL: Não sinto mais nada disso, porque saí do Facebook e nunca tive Twitter. Posso apenas dizer que receber mensagens de leitores no Facebook era uma das poucas coisas boas de se estar lá.

CdL: Você não parece preocupada em lançar uma obra atrás da outra em um curto espaço de tempo. Seu processo de escrita é muito lento? Como ele funciona? 

TSL: Sim, bastante lento. É engraçado, porque cada vez que vou começar um livro, que tenho uma ideia e penso na estrutura narrativa, eu me digo: desta vez vai ser fácil, é só sentar e escrever. Mas nunca é só sentar e escrever. É como se a escrita de um livro não me ensinasse quase nada sobre o processo de escrita, como se eu tivesse que reaprender a cada livro. Num certo sentido é como partir do zero, e eu até gosto desse frescor. Mas também é difícil, porque inevitavelmente chega um momento em que eu digo: está tudo uma merda. Faz pouco tempo joguei 150 páginas fora. No fim, parece que foi fácil, mas nunca é. Eu poderia dizer que se escrevo uma página por dia posso ter um romance por ano, mas não é bem assim, porque a gente nunca conta as páginas que foram pro lixo, e a verdade é que elas são fundamentais. Além disso, tem o tempo de ruminação, eu fico ali com cada romance, cada história, ruminando, mudando pequenas coisas aos poucos, até conseguir ficar satisfeita e decidir publicá-lo.

CdL: Em uma entrevista para a Saraiva, você disse não gostar muito do termo autobiografia, prefere falar de memória. Pra você, quais as diferenças entre os dois termos (ou gêneros)? 

TSL: Já não me lembro em que contexto eu disse isso, de qualquer forma eu nunca escrevi nem uma autobiografia, nem uma memória. Talvez eu estivesse falando sobre a memória na A chave de casa, de que forma eu trabalhei com essa questão, porque a memória é um dos tópicos cruciais do romance. Mas eu não devia estar falando da minha memória ou da memória da minha família (se estava, já mudei de ideia, até porque essa entrevista tem tempo, e eu mudo de ideia constantemente), e sim do próprio trabalho da memória, do fato de ela nunca ser redonda, fechada. A chave de casa tem uma narrativa que funciona como pequenos flashes, que brinca o tempo todo com a incerteza, com as contradições, com a interpretação – tal como e a memória.

CdL: Independente do termo que usemos, sua obra está bastante atrelada ao seu passado e ao passado da sua família. Como os seus familiares costumam receber os seus livros? 

TSL: Eu não diria que a minha obra (se é que tenho uma) esteja bastante atrelada ao meu passado e ao passado da minha família. A chave de casa, sim, mas meus outros livros (meu segundo romance, o ensaio e o infantil), não. Então, só vou responder essa pergunta em relação ao primeiro livro. É verdade que houve uma expectativa da minha família em torno do romance, porque eles achavam que veriam a história da família retratada. Alguns dos meus familiares ficaram frustrados, justamente porque eu não conto nada da história dos meus antepassados. Tirando o fato de que vieram da Turquia, nada aconteceu na realidade, a história do passado do avô da personagem é completamente ficcionalizada. Mas no fundo, a questão é: que importância isso tem? Que diferença faz se eu falo de coisas que aconteceram ou não? O que vale é o leitor acreditar no que lê. Se aconteceu ou não, isso não faz diferença. O que define um romance é a forma com a qual a história é narrada, e não aquilo que é narrado.

CdL: Tendo organizado a coletânea Primos, com histórias de autores brasileiros descendentes de árabes e judeus, como você analisa a produção literária (de qualquer canto do mundo) que reflete a conturbada relação entre esses dois povos? 

TSL: Eu e a Adriana Armony quisemos organizar esse livro para mostrar como a convivência entre árabes e judeus não apenas é possível, como existiu ao longo dos séculos e ainda existe hoje em muitos lugares, tanto na diáspora quanto em Israel e na Palestina. Eu tinha acabado de fazer minha primeira viagem a Israel, e tinha voltado muito espantada (positivamente) com a semelhança entre os dois povos. São mesmo primos, em termos culturais e geográficos, mas vivem em guerra há algumas décadas.

A nossa ideia era, num certo sentido, promover uma espécie de paz literária, apontar para as semelhanças desses povos. Agora, analisar a produção literária de qualquer canto do mundo que reflita essa relação, sinceramente, não me sinto apta a isso. A nossa vontade era apenas a de mostrar para um público brasileiro o diálogo possível, e existente, entre árabes e judeus.

CdL: Você participou da coletânea 25 mulheres que estão fazendo a nova Literatura Brasileira, organizada por Luiz Ruffato. Pois bem. A desigualdade enraizada no tratamento dispensado a homens e a mulheres, quando no mesmo ofício, é um fato. Por outro lado, a boa literatura independe absolutamente do gênero de seu autor. Assim sendo, na sua opinião, iniciativas como estas, de reunir mulheres escritoras, auxiliam na quebra destes preconceitos enraizados ou apenas os reforçam?   

TSL: Movimentos como este são fundamentais. O Ruffato organizou essa antologia porque no livro Geração 90: Manuscritos do computador havia apenas uma mulher, a Cintia Moscovich. Ele quis mostrar como havia muitas outras escrevendo, daí o livro.

Antigamente, eu achava que as mulheres, no meio artístico e intelectual, já tinham conquistado o seu espaço, mas na prática fui vendo que não é bem assim. Parece que a mulher ocupa uma espécie de cota pré-definida. Quando jornais e revistas fazem um balanço, por exemplo, dos 10 melhores livros do ano ou da década, normalmente há apenas uma ou duas mulheres. Se você ver os finalistas dos prêmios mais importantes, é a mesma coisa. Eu tenho viajado muito para participar de festivais literários, e o mesmo ocorre, sempre mais homens do que mulheres. Até na Granta, são 14 homens para 6 mulheres.

Se de fato houvesse mais homens do que mulheres escrevendo, eu entenderia. Ou se a qualidade dos textos dos homens fosse superior à dos textos das mulheres, eu também entenderia. Mas não é o caso. Portanto, cheguei à conclusão de que nem mesmo no meio artístico e intelectual a luta pelo espaço da mulher chegou ao fim.

Não se trata de defender uma literatura feminina – não acredito em tal coisa –, mas sim de eliminar a desigualdade entre homens e mulheres.

CdL: Testemunhamos recentemente um engajamento de cidadãos, com participação maciça dos jovens, em manifestações de protesto pelo Brasil. O que pensa a respeito? Qual colaboração uma escritora e sua obra podem legar para este público? 

TSL: Achei maravilhoso o engajamento da população brasileira para lutar pelos seus direitos. Estou passando um tempo em Portugal e, por esse motivo, infelizmente, não pude participar das manifestações. Se estivesse no Brasil, certamente teria ido. Manifestações são um momento de explosão de vitalidade, de se sentir vivo e lutando por um mundo melhor. A nossa tradição não é muito a de ir para a rua, né? Então, acho fantástico que tanta gente tenha se manifestado, e espero que o Brasil continue a ser um país assim, que luta pelos seus ideais.

Quanto ao legado de uma escritora e sua obra para isso, nem sei se há. Na verdade não acho que exista algo como “esse público” num sentido homogêneo. O público é sempre muito variado. A literatura transforma as pessoas aos poucos e, com isso, vai transformando o mundo, mas uma coisa assim imediata, acho que os cronistas dos jornais, os antropólogos, por exemplo, têm um papel mais eficaz nesse sentido.

CdL: Como o Canto dos Livros, muitos outros blogs de literatura produzem suas resenhas e críticas às obras publicadas no Brasil. O que acha desta tendência? Poderia citar aspectos positivos e negativos dela?  

TSL: Acho esta tendência ótima. Quanto mais gente houver dando suas opiniões, escrevendo sobre literatura, melhor. Desde que os textos sejam assinados, claro. A melhor coisa da Internet é a possibilidade de divulgação dos textos de qualquer um, a abertura e a circulação da informação.  A pior é o anonimato. Uma pessoa sem nome não precisa se defender, e pode atacar usando os golpes mais baixos e rasos, sem profundidade, um ataque que vale só pelo ataque mesmo, muitas vezes velando um mero ressentimento.

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Crédito: Fernanda Sucupira

Crédito: Fernanda Sucupira

Nesta altura do ano, já podemos afirmar que 2012 foi ótimo para Julián Fuks, muito por causa do sucesso – de crítica, veja bem – de seu mais recente livro, Procura do romance, um dos finalistas do importante prêmio Portugal Telecom. Além disso, no ano que finda nos próximos dias, Julián foi escolhido para integrar a Granta com os 20 melhores escritores brasileiros com menos de 40 anos, outro feito considerável. Paulistano filho de pais argentinos exilados no Brasil, o entrevistado deste mês do Canto dos Livros também já escreveu Histórias de literatura e cegueira e Fragmentos de Alberto, Ulisses, Carolina e eu.

Canto dos livros: Comecemos pelo óbvio, qual a importância de ser um dos escolhidos para a Granta dos melhores jovens escritores brasileiros? Isso já teve algum tipo de impacto real na sua carreira?

Julián Fuks: É evidente que foi um lançamento de grande impacto, recebido com ânimos exacerbados, provocando suas polêmicas justificáveis. Mesmo que a literatura não tenha sido o foco de boa parte das discussões, essa repercussão toda deixou claro que não se trata de uma atividade anódina, indiferente, relegada ao interesse de tão poucos. Há vitalidade na literatura brasileira, ao menos no que diz respeito ao funcionamento do mercado – o que, convenhamos, não é grande coisa. Pessoalmente, acho que acabou servindo para me apresentar a um público mais amplo, fazendo circular meu nome. Não chega a ser um fenômeno muito mensurável, mas veio num momento bom da minha vida, somando-se a outras ocorrências agradáveis.

CL: Continuando a falar da Granta, nela, além de muitos contos ambientados totalmente ou parcialmente fora do Brasil, dentre os autores escolhidos temos o Chico Mattoso, que nasceu na França, o Javier Contreras, que nasceu em Salvador mas é de família chilena – os pais vieram para o Brasil fugindo da ditadura –, a Carola Saavedra, que é chilena, o Miguel de Castillo, que é filho de um uruguaio, e você, que, como já dissemos, é filho de pais argentinos exilados no Brasil. O que podemos perceber com isso? Demonstra que a literatura brasileira está, culturalmente, cada vez mais diversa?

JF: A diversidade da literatura brasileira é um fato inquestionável; não poderia ser diferente dada a diversidade do próprio país. Mas não tenho certeza de que a Granta revelou isso: pelo contrário, parece predominar na seleção certa uniformidade de propostas, e talvez de fato haja nisso algo de triste. Mas você pergunta sobre a profusão de semi-hispânicos, e isso eu só posso responder apelando à minha própria experiência. Estou certo de que o exílio de meus pais, exílio que herdei deles e que se expressou sobretudo como um constante estranhamento idiomático, teve sua importância para que eu me tornasse escritor. Há algo de estimulante nesse expatriamento linguístico, e talvez isso explique em alguma medida a existência de outros escritores com biografias parecidas.

CL: De certa forma continuando a aproveitar o assunto Granta, o que acha do atual momento da literatura brasileira? Quais nomes e obras você destaca?

JF: Como disse, a vitalidade que hoje se vê parece muito mais editorial e mercadológica do que propriamente literária. Mas é claro que dessa pujança um tanto problemática acaba por se depreender também a qualidade, até como forma de resistência aos ditames do mercado. Há várias respostas possíveis e interessantes ao problema que aí se coloca. Gosto do rigor do Nuno Ramos, por exemplo, dos jogos lógicos do Alberto Mussa, da ousadia do Reinaldo Moraes, da novidade do Ricardo Lísias. Entre os menos conhecidos, aprecio muito o romance que o Tiago Novaes acaba de lançar, Documentário, que leva o fenômeno tão difundido da autoficção a limites inesperados. E poderia, é claro, estender essa lista por mais umas quantas frases. 

CL: Quais autores e obras lhe inspiram?

JF: Pergunta difícil, pois de nada valeria estender aqui uma lista de nomes notáveis. Os que me inspiram são os que propõem a literatura como uma forma de crítica, no sentido mais amplo e agudo da palavra. Crítica de um mundo desigual e injusto, um mundo que desfila tranquilamente suas confortáveis atrocidades. Mas também crítica do próprio pensamento e da própria linguagem, que se fazem instrumentos inócuos a serviço desse mesmo estado de coisas. 

CL: Em qual momento de sua vida se deu conta de que seria escritor? Seus primeiros textos – que considera dignos de nota – foram produzidos sob quais circunstâncias?

JF: Me concebi como escritor muito antes de escrever qualquer coisa que prestasse. Escrever parece exigir esse esforço de autoafirmação, esse compromisso com as palavras e com as páginas. Só muito depois de me decidir a isso, e já com a sensação de que me demorava, de que falhava, foi que escrevi meus primeiros contos – os que publiquei em meu primeiro livro. Há neles um pouco dessa desconfiança em relação ao próprio fazer literário, desconfiança que marca meu trabalho até hoje. Há neles certa noção de um fracasso inevitável. 

CL: Saramago, autor tardio, teria dito que, se pudesse aconselhar a alguém que pretendesse ser escritor, diria-lhe para ler por trinta anos, depois por mais trinta, para aí então escrever. Sob esta ótica, do alto de seus 31 anos, você seria um tanto precoce (rs). Você já enfrentou dúvidas se você ou seus textos estariam suficientemente maduros? Como olha para seus textos mais antigos? O que pensa deles?

JF: Não serei eu, decerto, o mais indicado para avaliar a maturidade dos meus textos. Sinto que todo escritor sofre de uma hipermetropia: pode enxergar bem a obra dos outros, à distância, mas a sua própria sempre aparece aos seus olhos imprecisa e turva. Com meus textos mais antigos tenho sérios problemas, não consigo lê-los sem uma crítica ferrenha, sem sofrer pela infeliz comparação entre o que fiz e o que poderia ter feito. Já com os textos que vou escrevendo, o entusiasmo e o envolvimento suspendem – nos dias bons – essas leituras mais corrosivas. 

CL: Até pelas suas origens, você demonstra um grande interesse pela Argentina e, por extensão, pela literatura argentina. É cada vez mais comum que as pessoas comparem a arte argentina com a brasileira. O que acha dessa comparação?

JF: Análises comparativas podem ser proveitosas, podem ressaltar aspectos despercebidos de cada produção artística. Desde que não se pautem em clichês e visões canhestras de cada cultura, desde que não se apeguem demais a ideias pré-concebidas, para que a comparação não se perca na platitude das rivalidades estúpidas.

CL: Ainda com relação à comparação entre a arte argentina e a brasileira, qual paralelo podemos traçar entre a literatura de cada um destes países? Na sua opinião, quais os pontos mais fortes de cada uma e quais as principais diferenças?

JF: Apesar da proximidade, são posições muito diferentes, perspectivas distintas, tradições quase divergentes em alguns aspectos. Há na literatura brasileira um histórico de engajamento político e de atenção ao social que pouco se vê na literatura argentina, mais marcada por uma produção intelectual e autorreflexiva. Claro que estou falando de predominâncias, que os autores não se resumem a isso e que tampouco as culturas se encerram nessa aparente dicotomia. Os escritores mais interessantes foram justamente os que transgrediram esses limites. 

CL: Em novembro você iria apresentar uma palestra sobre Jorge Luis Borges, mas ela foi cancelada porque a prefeitura cortou parte da verba destinada ao Centro Cultural São Paulo. Qual seria o conteúdo desta palestra? Qual faceta do escritor argentino e de sua obra que você iria abordar?

JF: A proposta era confrontar a poesia de Borges com seus próprios princípios, comentar seus poemas à luz de seus ensaios sobre poética. Havia algo de performático em Borges, na retórica de suas posições teóricas, em suas conferências finais sobre literatura. É interessante ver como ele transgride suas próprias propostas em benefício da própria obra, de sua expressividade. Nesse contraste veem-se romper os dogmatismos, as certezas indesejáveis.

CL: Procura do romance foi finalista do prêmio Portugal Telecom, um dos mais importantes que temos para literatura, e, de uma maneira geral, muito bem aceito pela crítica – até o Rodrigo Gurgel, o polêmico jurado C do Jabuti, disse o livro poderia render a você, com louvor, o troféu em forma de tartaruga. Como você vê essa recepção ao seu trabalho?

JF: Fico contente com as deferências e os elogios, óbvio, mas também vou aprendendo aos poucos que não devo levá-los muito a sério, que a literatura fica aquém e além desses processos. Esse foi para mim um ano agitado, cheio de acontecimentos. Escrever, nesse contexto, se tornou quase uma impossibilidade, e o que quero agora é recuperar as condições físicas e mentais necessárias para produzir algo que o valha. 

CL: Seguindo a pergunta acima, você leu os outros concorrentes ao Prêmio Portugal Telecom (K, de Bernardo Kucinski, Diário da queda, de Michel Laub, e A máquina de fazer espanhóis, de Valter Hugo Mãe, que foi o vencedor)? O que achou do resultado?

JF: Li os livros, e gostei de cada um deles por razões diversas. O resultado me pareceu justo, sim. Valter Hugo Mãe tem uma produção consistente, um domínio invejável de seus próprios recursos que faz dele um escritor prolífico e cuidadoso a um só tempo. E particularmente acertada me pareceu a menção honrosa a Kucinski. O livro dele é de uma importância imensurável, pela história verídica que encerra ou gostaria de encerrar, pelo alcance político e histórico do que se narra. 

CL: Pelo pouco que sabemos da sua biografia, muito de sua vida pessoal parece fazer parte de suas obras. Até que ponto – ou com qual intensidade – você faz o que vem sendo chamado de autoficção, ou seja, cria uma obra romanceando a sua própria vida, sua própria história?

JF: É difícil ter certeza se a autoficção é de fato um fenômeno novo, ou se assim se apresenta algo que já era feito por escritores inúmeros de todos os tempos. Em Procura do romance há muito da minha trajetória pessoal, sim, há muito das minhas indagações e preocupações reais, é em parte a minha vida que se destrincha ali. Mas não sei se seria muito diferente se eu me ocupasse de criar lapsos maiores entre mim e meu personagem, se eu exacerbasse o lado ficcional da narrativa e me disfarçasse o máximo que conseguisse. Retorno, sem querer retornar, à velha concepção de que o escritor só escreve sobre si, concepção questionável que precisa ser matizada, mas que tem o seu momento de verdade. 

CL: Há aqueles que dizem que a literatura de hoje seria mais descartável, menos densa, tanto pela “aceleração moderna” quanto pela profusão de obras, que soterraria o que poderia se destacar. Por outro lado, há os que entendem que ambos fatores seriam positivos, justamente por segmentarem mais a produção literária e incentivarem sua produção e consumo. Você concorda com algum destes vieses?

JF: Acho que, se há algo de destacável na literatura atual, é o abandono de certo rigor de preceitos que marcava as melhores narrativas ao longo do século XX, em prol de um desejo de soberania, de um anseio por voltar a contar histórias como antes se fazia. A literatura, que tanto parecia ter de se haver com seus próprios impasses e dilemas, agora quer se esquecer deles e se devolver ao mundo, tomada talvez por uma nostalgia de tempos mais profícuos. Resta saber se os tantos retornos que se criam não se dão na forma de um abandono crítico. Algo que lamentavelmente viria a lhe subtrair o peso, o impacto, o alcance possível. 

CL: O que você tem lido atualmente?

JF: Justamente, preocupado com essas questões e com a possibilidade de renovação e radicalismo no romance contemporâneo, resolvi escrever um artigo a respeito. Para isso me pus a ler as obras fatídicas daquele que talvez seja o último dos radicais, ou o último dos modernos: Samuel Beckett. Voltei à trilogia do pós-guerra, Molloy, Malone morre e O inominável, e quero ver como vou sair dali. Se conseguir sair.

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Por Rodrigo Casarin

A tentação de escrever um texto sobre O céu dos suicidas traçando um paralelo entra o Ricardo Lísias, o autor da obra, com outros escritores que se relacionaram de alguma forma com o suicídio é grande. Contudo, há quem já tenha escrito colocando-o ao lado de Enrique Vila-Matas, do bom Suicídios exemplares, ou mostrando como o tema remete a David Foster Wallace, um nome cada vez mais querido pela crítica e que optou por acabar com sua própria vida. São boas abordagens, mas que se aproximam basicamente pela temática.

Penso que uma maneira de ler O céu dos suicidas é procurando entendê-lo dentro da própria obra de Ricardo Lísias e de suas referências (ou auto-referências, como veremos mais adiante). Mas vamos primeiro ao livro.

A história inicia com Ricardo Lísias (o protagonista homônimo do escritor) deixando de ser um colecionador para se tornar um especialista em coleções. É o ser não sendo, o afastamento necessário que devemos ter de um assunto para que possamos tratá-lo com a devida imparcialidade – o que nem sempre acontecerá ao longo da trama.

Aos poucos, a história deixa de falar da vida do protagonista como colecionador e especialista para imergi-lo em duas grandes buscas: a principal é saber o porquê do suicídio de André, amigo de Ricardo; a secundária, que funciona bem para o desenrolar dos fatos, é descobrir qual era a relação do avô de Ricardo com o Oriente Médio, mais precisamente o Líbano, ao longo da década de 1970.

Como já é de se esperar de uma obra que trata do suicídio, uma certa melancolia permeia cada página de O céu dos suicidas. As reflexões sobre a culpa de quem fica vão sendo aos poucos abordadas. O que poderia ter sido feito para que o suicídio fosse evitado? Qual a parcela de culpa de cada um para que a tragédia acontecesse? Onde o amigo estará agora? Ricardo acaba se tornando um colecionador de hipóteses e dados e acontecimentos da vida de André – e apenas os mais importantes merecem destaque, como em qualquer coleção que se preze –, como se isso pudesse manter o amigo vivo, como se com isso continuasse vivendo com o amigo.

Os detalhes do suicídio de André aparecem aos poucos, deixando a impressão que Ricardo não quer encará-los de uma vez. Contudo, em certo ponto da narrativa, o narrador parece tomar coragem e falar definitivamente sobre o que aconteceu, explicitando os pormenores da tragédia. Em contrapartida, conforme a história é contada, Ricardo vai se dando conta da dimensão da persa e a cada capítulo aparenta sentir mais falta do amigo.

Já a busca dos motivos pelos quais o avô trocava cartas com alguém do Líbano acabam por levar o protagonista a uma viagem – aparentemente precipitada; fracassada, com certeza – até o país do Oriente Médio, o que nos remete a outras obras de Lísias, onde o contato com o estrangeiro também é elemento marcante.

Em O livro dos mandarins, Paulo passa pela Inglaterra e imerge na China – chega até a aprender o idioma chinês. Em “Tólia”, conto de Lísias publicado na Granta – Os melhores jovens escritores brasileiros, o personagem principal, que também chama Ricardo, vai parar na Rússia e aprende o russo, outro idioma bastante estranho para nós brasileiros, com uma origem linguistica diferente do português. Em “Concentração”, conto publicado na Granta – Longe daqui, uma edição destinada às narrativas de viagem, Damião, o protagonista, viaja para e na cultura Argentina, muito mais próxima da nossa realidade. Como outros escritores de sua geração, Ricardo é um autor que não confina a ambientação de suas histórias nos limites geográficos do país onde vive. Mas há mais características de O céu dos suicidas que aproximam o livro de outras obras do mesmo autor.

Elementos autobiográficos e o narrador

Elementos autobiográficos permeiam O Céu dos Suicidas. O indicativo mais óbvio disso é o nome do protagonista: Ricardo Lísias, ainda que o autor deixe claro que o personagem principal não é ele. Ricardo – o escritor – recentemente também perdeu um amigo que se suicidou, diz que também passou por uma fase psicologicamente e emocionalmente bastante conturbada após o ocorrido (e quem há de duvidar?), também estudou em Campinas… Há momentos em que as reações do protagonista parecem ser as do próprio autor, como a surpresa com a educação de um policial ou quando o personagem relata que “As melhores coleções sobre material político que observei até hoje comprovam que José Sarney e Fernando Collor combinavam com o papel que lhes coube no picadeiro que foi a presidência do Brasil após a ditadura. Eu me envergonho de sentir saudades daquele tempo”. O posicionamento político de Ricardo escritor refletido no Ricardo personagem é evidente.

Em “Tólia”, como já vimos, o protagonista do conto também se chama Ricardo e os elementos autobiográficos voltam a abundar: a formação acadêmica, a relação com a literatura, os livros que escreveu… Pode ser apenas uma fase, mas, nesses dois exemplos – os seus trabalhos mais recentes se considerarmos apenas as publicações em livros – a ficção de Lísias parece tomar um rumo fortemente baseado em experiências de vida do próprio autor, como também acontece em Meus três Marcelos, conto de 2011 com um protagonista que dá aulas sobre literatura, como Lísias.

Toques da biografia de um escritor estão presentes, em menor ou maior escala, em praticamente qualquer obra de ficção, contudo, ao menos nesses trabalhos citados, Lísias parece criar uma nova história em cima de sua própria história, não utilizar elementos de suas vivências para dar um tom mais realístico ou falar com mais propriedade de algo que ocorre no plano ficcional. É a ficção invadindo a realidade, não o contrário.

E o protagonista de O céu dos suicidas não é útil apenas para que haja uma discussão da interferência da biografia do criador em sua criação. Ricardo Lísias personagem também é uma ótima oportunidade para que retomemos a sempre atual discussão de até onde podemos confiar no narrador de uma história.

Ricardo Lísias personagem é alguém que passa por surtos repentinos que beiram a inverossimilhança. Em meio a uma conversa, pode mandar alguém tomar no cu ou se foder de uma hora para a outra, apenas porque o interlocutor diz algo que não lhe agrada ou que não vai de encontro às suas expectativas. Além disso, o protagonista – também narrador – não é dos mais confiáveis. “Não me recordo como saí do apartamento da desgraça. Desde que meu grande amigo se matou, tenho problemas de memória. De repente, na lembrança que consigo recuperar, vejo-me na rua de novo”, revela. Ora, se temos aí um ser que passa por surtos – mostrando um distúrbio ou, ao menos, um indiscutível momento de forte perturbação psicológica – aliado a uma memória falha, como podemos acreditar nas palavras que ele diz?

Em outro momento de forte carga emocional, novo exemplo. Ricardo fecha um capítulo com um lapidar: “Não vou conseguir terminar este capítulo”, mostrando que está completamente envolvido com a história – envolvido a ponto de ser influenciado por ela, de ser até refém dela, mostrando que não possui um distanciamento necessário para encará-la como isenção, tal qual um especialista em coleções que não se afasta de suas próprias coleções. Esse é um dos grandes trunfos do livro, deixar para que o leitor decida se acredita ou não em tudo aquilo que vem sendo dito. Alguns acontecimentos são irrefutáveis – não há como negar o suicídio, por exemplo – mas outros são questionáveis – em alguns momentos, será que tamanha falta de educação e respeito realmente aconteceram daquela maneira?

Linguagem e beleza

Em O livro dos mandarins, romance publicado em 2009, Ricardo Lísias utiliza a linguagem com radicalismo. São comuns as excessivas repetições de frases e ideias em parágrafos próximos ou até em um mesmo parágrafo. Já em O céu dos suicidas, o recurso é usado com muito mais parcimônia, como no seguinte trecho: “Nesse mesmo dia, recebi uma ligação. Ricardo, o André se enforcou. Ricardo, a polícia achou o corpo do André enforcado. Já faz alguns dias. Ricardo, o seu amigo. Ricardo, você, Ricardo, o André, Ricardo. Enforcado, Ricardo. O André se enforcou, Ricardo”, fazendo com que as repetições e as frases incompletas deixem a impressão de que estamos vivendo a confusão mental que acontece na cabeça de Ricardo ao receber a notícia do suicídio do amigo.

Por outro lado, em O céu dos suicidas um toque de radicalismo está no formato dos capítulos, sempre curtos, ocupando não mais de uma página e meia, como se tudo acontecesse em flashs. O resultado da comparação mostra um escritor mais maduro, mais feliz nas experimentações, que consegue atingir uma estética muito mais bela com a linguagem e os recursos utilizados.

E por falar em beleza, os momentos mais belos de O céu dos suicidas são aqueles em que Ricardo busca saber para onde a alma de André poderá ter ido.

As religiões são implacáveis com os suicidas, praticamente todas elas os condenam veementemente. Nos templos, igrejas, sinagogas ou qualquer outra espécie de casa de Deus, não há consolo, afago, clemência e nem piedade com aqueles que optam por tirar suas próprias vidas. Nem com estes e nem com os que ficam. A dor e, principalmente, a raiva do protagonista após cada acolhimento frustrado são latentes. Ao procurar o psiquiatra, que também em nada lhe ajuda, o narrador se abre “Um dos nossos amigos, um cara muito espiritual, acho que a palavra é essa, espiritual, disse que em todas as religiões, ou praticamente em todas, os suicidas sofrem muito e na maior parte das vezes não vão para o céu”.

Em uma das buscas por alguma palavra que lhe conforte, Ricardo acaba sendo – não sem motivo – espancado por um grupo de espíritas. A surra é tamanha que vai parar no hospital e, após receber os primeiros tratamentos, é de um médico que ouve o consolo que tanto procurava. Em cenas breves e diálogos sucintos, mas belos, o doutor lhe ensina a rezar para acalmar a angustia, conversa com Ricardo sobre Deus, diz o que o personagem tanto procurou ouvir: “Seu amigo foi direto para o céu, sem nenhum sofrimento”.

Na obra, Médico é escrito assim, com m maiúsculo, da mesma maneira que se convencionou escrever Deus. Com esse recurso, de certa forma Lísias coloca o doutor no mesmo patamar do Todo-Poderoso, mas não por acaso. É de uma ironia, sensibilidade e beleza imensa o personagem, após ouvir palavras que muito lhe doíam dos religiosos, encontrar o afago nos dizeres de um médico, um dos profissionais mais ligados à ciência e que levam a fama de se sentirem mesmo deuses, mas pelas intervenções que podem fazer no ser humano, por poderem salvar vidas com atos físicos, não com palavras. Palavras essas que encaminham Ricardo de volta a uma vida um pouco mais nos eixos.

Esse último aspecto de O céu dos suicidas, o Médico fazendo aquilo que Deus não conseguiu fazer por causa de seus representantes na Terra, é um daqueles momentos que tocam profundamente o leitor mais atento e que está realmente envolvido com a obra. É um daqueles momentos que nos fazem entender porque a arte é essencial para a vida.

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Ricardo Lísias já foi entrevistado aqui no Canto dos Livros, confira clicando aqui.

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Como é de costume, após a Flip diversos escritores que se apresentaram na festa viajam para outras cidades brasileiras para participarem de eventos. Veja quem estará por São Paulo e Rio de Janeiro:

São Paulo

Enrique Vila-Matas  – hoje, 10/7, na Livraria Cultura do Conjunto Nacional, às 19h30

Dulce Maria Cardoso e José Luis Peixoto –hoje, 10/7, na Livraria da Vila da Fradique Coutinho, às 19h30

Javier Cercas – hoje, 10/7,  com Joca Reiners Terron, na Livraria da Vila da Alameda Lorena, às 19h30

Alejandro Zambra – quarta, 11/7, na Livraria da Vila do Shopping Higienópolis, às 19h30

Amin Maalouf – quarta, 11/7, na Livraria da Vila da Fradique Coutinho, às 19h30

José Luis Peixoto – quarta, 11/7, com Andréa Del Fuego, no b_arco, às 20h

John Freeman (Granta) – quinta, 12/7, na Livraria da Vila da Lorena, às 19h30

Teju Cole e Suketu Mehta  – quinta, 12/7, na Livraria da Vila do Shoping Pátio Higienópolis, às 19h30

 

Rio de Janeiro

Teju Cole – hoje, 10/7, às 19h, na Livraria da Travessa do Shopping Leblon

John Freeman e Paulo Roberto Pires (Granta e Serrote) – quarta, 11/7, às 20h, no Instituto Moreira Salles, Gávea

David Trueba, Dulce Maria Cardoso,  Suketu MehtaTeju Cole – quarta, 11/7, às 11h, no Espaço Criança Esperança, Morro do Cantagalo

Dulce Maria Cardoso e José Luis Peixoto  – quinta, 12/7, às 19h, na Livraria da Travessa do Shopping Leblon

Fonte: Livros Etc

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A Granta, uma das revistas literárias mais importantes do mundo, enfim divulgou os autores que estarão presentes na edição com os 20 melhores jovens escritores brasileiros. Eis os nomes:

Antonio Prata

Antonio Xerxenesky

Carola Saavedra

Carol Bensimon

Chico Matoso

Cristiano Aguiar

Daniel Galera

Emilio Fraia

Javier Arancibia Contreras

João Paulo Cuenca

Julián Fuks

Laura Edler

Leandro Sarmatz

Luisa Geisler

Michel Laub

Miguel del Castillo

Ricardo Lísias

Tatiana Salém Levy

Vanessa Barbara

Vinicius Jatobá

Participaram 247 escritores nascidos desde 1972 que já publicaram ao menos um texto em meio impresso. Dentre os escolhidos, já entrevistamos Vanessa Barbara e Ricardo Lísias e resenhamos Procura do romance, de Julián Fucks.

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Ricardo Lísias é um dos escritores nacionais de quem os leitores mais podem esperar algo atualmente. Autor de O livro dos mandarins, obra singular sobre o mundo corporativo, também escreveu Cobertor de estrelas, que foi traduzido para o espanhol e o galego, Duas praças, terceiro colocado no Prêmio Portugal Telecom de 2006 e Anna O. e outras novelas, de contos. O céu dos suicidas, seu próximo romance, já está no forno e deverá ser lançado até o começo de abril pela editora Alfaguara. Confira abaixo uma entrevista com Ricardo, onde ele fala sobre O livro dos mandarins, prêmios literários e, dentre outras coisas, o texto que escreveu recentemente para a revista Piauí.

Canto dos Livros: Para começar, o que é literatura para você?

Ricardo Lísias: Muita coisa especial, mas nesse momento da minha vida estou preferindo praticá-la a pensá-la. Talvez possa dizer que entre tanta coisa, uma das que mais me agrada é a forma particularmente profunda e eficaz de expressão.

CL: Qual o papel da literatura de ficção?

RL: Creio também que muitos: entre eles, fugir da vulgaridade, fugir do lugar-comum, resguardar discursos particulares etc.

CL: Como vê a literatura não ficcional?

RL: Acho que dentro de suas particularidades, pode ser tão especial quanto a ficção. Eu não colocaria em patamares diferentes Franz Kafka e Walter Benjamin.

CL: O livro dos mandarins pode ser considerado um retrato dos executivos atuais? Como o livro foi recebido por pessoas dessa classe?

RL: Em parte, sim. Tive notícias apenas das pessoas que serviram como informantes. Todas gostaram. Muita gente que trabalhou nesse meio – sobretudo em bancos – me disse que a representação e  ideologia também ficaram adequadas. Mas algumas pessoas também se sentiram agredidas pelo livro. Recebi algumas manifestações nesse sentido.

CL: Em O livro dos mandarins quase todos os seus personagens se chamam Paulo (ou Paul, Pablo…). Por que a escolha por esse recurso e esse nome especificamente?

RL: Há a tentativa de mostrar a despersonalização das pessoas no ambiente corporativo. O nome Paulo foi utilizado porque foi o que eu achei que permite um grande número de variações.

CL: O livro dos mandarins foi lançado em 2009 e provavelmente concorreu aos prêmio de 2010, quando Minha mãe se matou sem dizer adeus, de Evandro Affonso Ferreira, ganhou o prêmio da Associação Paulista de Críticos de Arte, Leite derramado, de Chico Buarque, levou o Jabuti de melhor livro do ano de Ficção – enquanto Se eu fechar os olhos agora, de Edney Silvestre, foi escolhido como melhor romance – e o mesmo Leite derramado venceu o Prêmio Portugal Telecom, apenas para ficarmos em três premiações das mais conhecidas. Em uma entrevista para a revista Vice, você diz não ter recebido nenhum grande prêmio com O livro dos mandarins por ter uma postura que desagrada muitos jurados, por não fazer média com os outros. Você acredita que o seu livro seja superior a todos esses citados?

RL: Não acho que eu tenha dito exatamente isso para a Vice, mas não vou olhar a revista agora, para não me influenciar com a resposta aqui. Eram também dois momentos diferentes para mim. Antes de tudo, acho que o livro de Evandro Affonso Ferreira saiu um ano depois do meu, não creio que concorremos a nada juntos. Mas já respondendo a uma parte da pergunta, acho o livro dele bom, como também acho bom o romance do Chico Buarque. Já o livro do Edney Silvestre, acho muito bem feito e bom como os outros dois, mas com um detalhe: é um livro claramente infanto-juvenil. Para esse público, é excelente. 

Eu li uma parte das “discussões” que se seguiram às premiações sobre o livro do Edney Silvestre e do Chico Buarque e fiquei impressionado como não houve nenhum tipo de atenção a esse detalhe. Como quase sempre, aliás, não houve discussão estética…

De resto, não acho de forma alguma que meu livro tenha sido prejudicado (ou não tenha sido…) em prêmios literários por causa de alguma possível radicalidade. Sequer me sinto à vontade para dizer que há alguma radicalidade no meu romance. Não é minha função, como também não é minha função dizer se eu merecia ter ganho ou não, ou aliás, quem merecia.

O que acho claramente é que os prêmios e tudo o que cerca a literatura brasileira são parte do Brasil, portanto também um reflexo dele. É só pensar nas eleições: de vez em quando, elegemos de longe o melhor candidato, outras vezes, o Tiririca. Prêmios dizem mais sobre o júri do que sobre o autor vencedor e os outros. Também não quero ser hipócrita: o dinheiro é importante, lógico, facilita o trabalho de todo mundo.

Acho ainda que o comportamento “morno” de muitos grandes ganhadores de prêmio no Brasil os ajuda a chegar ao consenso. Dificilmente um senhor desses faz alguma declaração incômoda…

Mas de jeito nenhum eu me sinto prejudicado: ganhei alguns, perdi outros, mas frequento boa parte dessas listas já faz tempo, e nunca fiz nenhuma concessão, de nenhuma ordem. Nem vou fazer.

CL: Por outro lado, O livro dos mandarins foi o último campeão da Copa de Literatura Brasileira, ganhando de goleada d’O filho da mãe, do Bernardo Carvalho, na final. Isso tem alguma importância para você?

RL: Sem dúvida, muita importância. Em primeiro lugar, muitos dos textos sobre o meu livro eram ótimos e mostravam coisas que eu não tinha visto. Depois confirmaram algo que venho sentindo há algum tempo: que meus textos cada vez mais agradam as novas gerações de leitores, inclusive muitos afastados do mainstream literário e com reservas a ele. A Copa de Literatura está fora dos espaços já muito viciados. Fiquei bastante satisfeito com o resultado.   

CL: Você tem um conto chamado Concentração, na Granta edição de narrativas e contos de viagem. Sua estrutura é perspicaz, acompanhando acontecimentos dramaticamente irônicos em torno do personagem Damião. Como foi o processo de criação desta narrativa?  

RL: Em 2001, em julho, tive um problema em uma conexão e acabei ficando bastante tempo no aeroporto de Buenos Aires. Comprei alguns jornais e fiquei espantado com a situação do país. Como já gostava de literatura latino-americana e tinha estudado os movimentos autoritários dessa região, mergulhei na história argentina e desde esse mesmo ano visitei o país algumas vezes. Comecei a escrever ainda no aeroporto. Devo tê-lo refeito inúmeras vezes em vários anos. Comprei alguns arquivos de jornais e fiz algumas pequenas coleções de material histórico sobre a Argentina, até concluir esse conto, em 2008. Foi o texto em que trabalhei por mais tempo até hoje, mesmo contando os romances. Tive certa obsessão pela história e pela literatura argentina, mas ela já passou.

CL: O que você pensa dos outros escritores de sua geração? Quais destaca?

RL: É incômodo para mim responder essa pergunta de maneira pontual, porque uns poucos deles são amigos muito próximos, então não vou citá-los. Acho que a Vanessa Barbara é bastante notável em vários aspectos, inclusive (ou sobretudo) tecnicamente. Também gostei bastante do livro do José Luis Passos (Nosso grão mais fino) e tenho bastante expectativa com relação ao próximo dele. Gostei de tudo o que li até hoje do Julian Fuks também. O livro de Brisa Paim me surpreendeu. Também gostei dos últimos textos da Verônica Stigger, achei-os bastante originais. Acho que no geral há uma possibilidade razoável de nos próximos anos termos bons livros para ler. No entanto, parece-me que boa parte da produção ainda reproduz – sem criticar ou, ainda pior, aderindo ao que há de pior no Brasil. Digamos que estamos diante, se formos falar no geral, de uma produção amena e edulcorada.

Eu gostaria de conhecer um pouco melhor a poesia e a crítica para falar desses campos também, mas seria leviano com o pouco que li.

CL: Sobre o processo criativo, você relatou para a revista Piauí deste mês uma verdadeira saga, aonde o ato de correr e depois treinar para completar a Corrida de São Silvestre foram sua terapia para superar problemas e conseguir concluir seus escritos pendentes. Não raro, diz-se que a tristeza e a adversidade auxiliam na criação. Quais diferenças você sentiu – ou não – na sua criação durante este período, comparado a outros normais? E como era o seu processo até então?

RL: No segundo semestre de 2011 sofri uma espécie de “acidente biográfico” que me causou um colapso emocional. Escrevi sobre isso em três momentos, durante o tratamento de recuperação. Na verdade, ainda estou me tratando, com um psicanalista com quem eu já tinha feito análise uma vez. Como continuo sob impacto emocional, ainda que muito melhor, não quero falar sobre isso em um gênero diferente dos que já me manifestei.

CL: Este relato da Piauí daria um excelente roteiro para ser aproveitado em outras mídias, como filmes (de curta metragem, no caso) ou quadrinhos biográficos. Você aprecia estas mídias? É influenciado por algumas delas? Se sim, por quais autores e obras?

RL: Eu não costumo ler quadrinhos, apenas alguns casos muito especiais, como Art Spiegelman e Joe Sacco, mas mesmo assim sem muita constância. Sobre o cinema, ao contrário dos quadrinhos, tenho muito interesse. Não sei dizer em que medida o cinema poderia influenciar uma obra literária. Acho que não muito, se formos pensar na particularidade formal de cada gênero. Gosto bastante de documentários, de uma parte do cinema norte-americano e de alguns diretores específicos, como Antonioni, Buñuel e, entre outros, Lars von Trier.

CL: Ainda sobre o publicado na Piauí, a fragilidade e a sinceridade que você corajosamente demonstra se devem ao gênero do escrito, bem como à situação e tempo específicos, ou poderia se dizer que eles permeiam sua obra e estilo?

RL: Acho que tudo se intensificou por conta da violência enorme da situação. Mas como eu disse acima, sinto-me melhor me manifestando sobre o “incidente” em outro gênero que não a entrevista.

CL: Qual é o seu objetivo ao editar o jornal literário Silva? Como ele se mantém, já que você não o vende?

RL: Silva tem um pouco para mim a função de reafirmar a importância do papel. Ele só existe porque o papel permite o formato. Não tenho obviamente nada contra as mídias digitais, que na verdade me interessam muito, mas não gosto do discurso que diz que elas soterrarão o papel. Nesse sentido, o Silva é um objeto de resistência. Também gosto bastante de edições alternativas e fanzines. Por isso fiz uma.

Ele se mantém com meus recursos próprios, até aqui. No entanto, para ser justo, é preciso dividir a autoria com o artista gráfico Luciano Arnold, que faz um excelente trabalho por um valor quase que abaixo do custo.

CL: Quais conselhos que gostaria de ter ouvido quando começou a escrever e poderia dizer hoje aos iniciantes?

RL: Não sei se eu acredito em conselhos. Mas eu acredito na leitura dos bons livros (dos grandes livros) e na procura intensa por um caminho particular. Acredito também em consciência de trabalho, de forma e de ideologia. Por fim, acredito que é preciso se distanciar dos grupos, do glamour e da vida “chapa-branca”.

CL: Do que se trata O céu dos suicidas, livro seu que será lançado em breve? O que podemos esperar dele?

RL: Em 2008, um dos meus amigos mais próximos se matou, depois de uma situação muito complicada. Fui uma das últimas pessoas a estar com ele antes. O livro é sobre isso. Eu não queria adiantar mais, porém.

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