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Posts Tagged ‘Guillermo Rosales’

Por Alberto Nannini

cuba_minha_revolucao_capaNa resenha anterior, comentei que havia lido duas obras sobre Cuba: “A casa dos náufragos”, de Guillermo Rosales, e “Cuba – Minha revolução”, de Inverna Lockpez e Dean Haspiel. Pretendia naquela ocasião utilizá-las para falar sobre o controverso regime cubano, mas, ante a riqueza do livro de Rosales, a resenha foi toda baseada nele, e falou sobre a loucura.

Agora, retomo a proposta original, resenhando a segunda obra e utilizando ambas para tocar no assunto bem espinhoso: o regime imposto por Fidel Castro.

Cuba – Minha revolução

A sinopse da obra, uma graphic novel, diz:

Quando Fidel Castro toma a cidade de Havana no despertar do ano de 1959, Sonya – então com 17 anos – acredita nas promessas da Revolução Cubana. Estudante de medicina que sonha em virar pintora, ela junta-se à milícia e acaba presa entre o idealismo e a ideologia. Como voluntária na Baía dos Porcos, ela se choca ao encontrar um antigo amor do outro lado do campo de batalha, e mais ainda quando é presa e torturada pelos seus próprios camaradas. Com cicatrizes físicas e emocionais, Sonya tenta encontrar satisfação na arte. Mas, quando se dá conta de que nenhuma de suas iniciativas – seja com uma arma ou um pincel na mão – se enquadra no novo regime, ela precisa fazer escolhas entre sua família, seu amor e seu amado país. Ilustrada pelo artista indicado ao prêmio Eisner, Dean Haspiel (The Alcoholic), esta história é baseada em fatos reais.”

Publicada pela Panini Books, é caprichada: capa dura, papel couchê, e colorida em quatro cores: branco, preto, e tons de vermelho e cinza. Os desenhos são excelentes, e comunicam muito além do texto, como toda boa obra de quadrinhos: enquanto a narradora divaga ou recorda, as ações desenhadas podem mostrar outras ações.

Aliás, um parênteses: imagino que leitores deste blog não tenham preconceito com quadrinhos – literatura da melhor qualidade vem nesta forma, como provam os livros Fun Home, Maus, Escalpo e diversos outros. Mas, caso haja em você alguma resistência, este livro é um ótimo remédio para quebrá-la: uma história fechada (em volume único), interessante, perfeitamente equilibrada e muito incrementada pelo meio escolhido para contá-la.

Voltando, leia e embarque na vida de Sonya: testemunhe o que é viver a gênese de uma revolução, passar por mudanças radicais e veja o quanto isso vai afeta-la e a todos que a cercam.

Engajada e prisioneira

Idealista, a personagem rememora seus 17 anos, quando Cuba ainda estava sob o jugo de Fulgêncio. A mãe dela, muito bonita, é fútil; o padrasto, um sujeito prático; e o pai, russo e mais distante, médico.

KONICA MINOLTA DIGITAL CAMERASonya não se conforma em apenas assistir a revolução iminente. Quando o carismático Fidel Castro sobe ao poder e profere seu 1º discurso em rede nacional, em 8 de janeiro de 1959, ela se decide: vai se alistar na revolução. Suas ambições em ser uma artista ficarão em segundo plano – se tornará médica, para melhor servir à causa.

Como voz de fundo, vão aparecendo as consequências do novo regime: o comércio do padrasto vai à falência, e depois, todos os outros comércios são fechados; os revolucionários passam por treinamento de guerrilha, e médicos, como ela, não podem atender prisioneiros; muitos fogem do país, e o estado de guerra prossegue.

Há também uma história de amor, perdida e reencontrada, como conta a sinopse. O inferno de Sonya está só começando. Acusada de ter amigos na agência americana CIA, é levada prisioneira, e torturada sistematicamente para confessar. Mas isso ainda não quebra sua confiança na revolução.

Quando é solta, sua irmã por parte de mãe nasceu, mas não há muita esperança. O novo governo vem se mostrando tão ruim ou pior que o anterior. Apesar de uma tintura de normalidade, que envolve um casamento, ela se divide entre continuar fiel à causa ou tentar se safar – este é o dilema que vai dar o tom da história.

Quase biografia

Embora a autora tenha utilizado uma personagem, ela conta que o roteiro foi baseado na sua vida – veja o agradecimento: “Queria agradecer ao Dean Haspiel por ter me encorajado a contar minha história”. Ainda que caiba interpretar a qual história ela se refere, esta frase, uma vez entendida dentro do contexto do livro e após algumas pesquisas, embasa essa premissa.

O mérito literário é significativo: trata-se de uma leitura fluida, apesar de contar um drama com passagens pesadas. A construção da narrativa com tintas autobiográficas tem o ritmo daqueles filmes em que o personagem mais velho conta sua história, e as passagens da sua juventude o retratam exatamente como era – no caso de Sonya, a voluntária que podia estapear alguém que contestasse o regime, ou que brigaria com quem mais ama pela revolução – e, conforme passa o tempo, retrata suas mudanças e amadurecimento.

Aliás, da mesma maneira que o livro de Guillermo Rosales, não vejo como contar uma história como esta sem muito conhecimento de causa. Ainda que não se possa determinar o quanto dela foi inventado, uma vez que a autora e a personagem são nativas de Cuba, exiladas, ex-revolucionárias, ex-médicas e artistas, parece suficiente para admitir como algo que vai além do “baseado em fatos reais”.

Talvez coubesse alguma precaução contra a amargura dos desiludidos, que, eventualmente, podem retratar seus algozes com piores tintas e características; contudo, a autora, por meio de sua personagem e alter ego, não perde tempo demonizando-os – ela foca mais sua vida e experiências, dentre as quais a revolução e seus agentes são ingredientes. De qualquer maneira, o retrato que ela dá daquele país é condizente com outras narrativas, inclusive a do já citado Guillermo Rosales, em “A casa dos Náufragos”.

Até aqui, já é possível recomendar a leitura como um drama digno de ser lido, e que ainda vai ensinar coisas sobre a ilha que só quem lá viveu saberia. Partindo disto, então, é possível aprofundar a discussão: o que há em Cuba?

Marcando posição pela liberdade

Humildemente, preciso ressaltar a falta de alcance desta resenha para retratar algo tão complexo como um dos regimes mais controversos da história recente. Mas, como todos, eu tinha alguma opinião pré-estabelecida sobre isso, e li livros (selecionados?) que a reforçou em alguns sentidos.

A virulência dos atacantes e dos defensores de Cuba sempre me impressionou. Os defensores apoiam o exemplo do regime, suas taxas de escolaridade, a resistência ao imperialismo americano, a excelência em ciência, esportes e medicina. Os detratores apontam os massacres de inocentes, a pobreza e falta de opções, o cerceamento de liberdade, o controle absoluto do Estado em tudo – dos bens de consumo aos itens básicos de sobrevivência.

Aqui, já posso marcar posição: acho a liberdade mais importante do que quaisquer eventuais benesses que o governo possa me oferecer. No regime onde fui criado, o Estado tem obrigação (nem sempre bem cumprida) de fornecer um mínimo operacional em estrutura, e de não cercear minha liberdade.

Ainda que caibam muitos senões – de diversos tamanhos – a estes reducionismos, e haja ataques mais ou menos ruidosos à liberdade mesmo nas melhores democracias, estas sempre vão me parecer melhores que as alternativas.

Uma vez que faltam opções melhores, cumpre tentar melhorar e aperfeiçoar o que se tem (que não é pouco), e aprender com os erros que os piores regimes ensinaram.

censura_das_tiraniasReis e mares de sangue

Uma lição aprendida é: tirania de qualquer espécie é ruim, não importa como ela tenha surgido. Relativizar não cabe: trocar um tirano péssimo por um “mais bonzinho” equivale a preferir ser sequestrado por bandidos corteses aos sanguinários – óbvio, mas duas péssimas alternativas de qualquer jeito. Ao se confiar em um só homem ou em um colegiado deles com poderes extremos, necessariamente se abre mão de muitas premissas: a individualidade, a liberdade, a própria vontade de se expressar e de inovar.

O tirano é um mal em si. Já disseram que os bem-intencionados são ainda mais perigosos, porque suas ações são difusas e confundem – eles oferecem algo, e tomam outro tanto, muitas vezes sem as pessoas se darem conta.

A tirania sempre assolou e continua assolando a humanidade, com várias roupagens: monarcas, caudilhos, militares e até dinastias. Pessoas que mandam nas vidas dos outros, e que, invariavelmente, acumulam o máximo de benesses para si. A lista é vasta, e inclui algumas das piores e mais danosas personalidades de todos os tempos: Pol Pot, Hitler, Mobuto, Kadafi, os Kim norte-coreanos, Mao Tse Tung, Stalin – a contagem de seus cadáveres passa da centena de milhões. E inclui Fidel, que mandou fuzilar inimigos, e que teria vastas posses, como uma ilha particular, num país onde a propriedade privada era proibida para todos os efeitos.

Mesmo assumindo um viés utilitarista, e aceitando que os governantes em geral precisam tomar decisões difíceis, que eventualmente traga sofrimento e até mortes, os erros e pecados dos tiranos não podem ser atenuados, porque eles pensam primeiramente em si mesmos e em seus apadrinhados, e porque não medem o custo de seus caprichos.

Esta é uma diferença significativa entre os regimes despóticos e as democracias, mesmo as mal estabelecidas. É verdade que há políticos tão ruins e gananciosos quanto qualquer tirano, mas a democracia não lhes dá plenos poderes, nem permite que eles os usurpem impunemente.

Esta argumentação é feita tendo em vista o defensor ferrenho do castrismo: aquele que acha que a democracia é ruim, o capitalismo é péssimo, Fidel é um grande herói e que é pena não haver algo assim por aqui. Aliás, este opositor é um tanto bizarro: ele acredita que conhece mais deste regime do que quem o viveu na pele, e até lutou por ele, como no caso de Inverna Lockpez.

Este tal defensor ferrenho acha ter maior autoridade que nativos como Yoani Sanchez, blogueira cubana que já foi presa e vivia sobre constantes ameaças, e a chama de “vendida” (segundo eles, ela teria um conluio com a CIA, agência americana). Ou seja, ele maximiza os (muitos) erros e falhas da democracia e do capitalismo, e costuma minimizar ou desconsiderar o custo da ditadura castrista e às vezes também de outras ditaduras, conforme sua orientação ideológica.

E é aí que ele erra.

males_do_socialismoMales do socialismo…

A construção do tipo “tal coisa é péssima, veja seu (pior) exemplo/ em compensação, tal coisa é ótima, veja meu (melhor) exemplo” é tão comum que se impregna em discursos bastante variados. Ufanismo vs. “complexo-de-vira-latas”, feminismo vs. misoginia, progressos vs. tradições, nacional vs. estrangeiro. O que há em comum entre estas cismas é que as posições extremas que qualquer um dos lados adotam não resistem a um exame mais apurado.

O radicalismo sempre tende a errar pelo excesso. A crítica absoluta do regime de Fidel é mais ideológica do que pensada; mas o inverso também é válido. A defesa exagerada deste chega a ser desrespeitosa, com o tanto de medo, de mortes, torturas e exílio que ele gerou.

No final das contas, tudo vai pender para simpatias pré-definidas, cismas e valores particulares. O fiel da balança vai ser aquilo que mais vale para o argumentador.

Críticos do capitalismo pregam um mundo imaginário onde todos recebam o mesmo, e tenham as mesmas oportunidades. É um dos melhores cenários – pena que a História demonstre cabalmente que ele não consegue ser posto em prática por nenhum método ou sistema inventado até hoje.

Contra o socialismo, de maneira bastante simplista, eu me questiono: ao se recompensar a todos de maneira igual pelo o que quer que façam, não parece óbvio que logo vai se perceber que não vale a pena trabalhar muito? Já que o que se obtém não está ligado ao trabalho duro, à vontade de inovar e de criar, nem há mérito em nada que se faça, tanto faz o empenho com que se trabalha.

Se a contestação é que quem pensar nisso é trapaceiro, então precisaria haver uma “solução final” para eliminá-los, porque todas as sociedades humanas (e até algumas de animais) têm os trapaceiros – aqueles que percebem que podem ficar à custa dos outros. O que me parece é que, numa sociedade comunista, a trapaça pode se tornar contagiosa.

Talvez se argumente que o socialismo ideal constrói uma sociedade onde o papel de cada um seja respeitado, e onde todos têm a mentalidade de que, dando seu melhor, todos ganham (o que, segundo alguns especialistas, resultaria no comunismo propriamente dito). Mas esta sociedade utópica não precisa ser necessariamente socialista. O capitalismo seria muito melhor assim, embora o que realmente aconteça esteja bem distante disso, como vamos ver mais adiante.

A principal falha do socialismo cubano, o que fez virtualmente ruir o regime castrista e todas as tentativas similares, não é apenas a superioridade da economia de livre mercado, mas algo que pode fazer ruir a sociedade moderna: os gananciosos homens.

Nenhum sistema dispensa homens para dirigi-los. Até a anarquia acabaria elegendo seus “cabeças”. E é aqui que a coisa realmente fede: são muitos os carniceiros que assumem o título de soberanos. Ditadores, como o próprio Fidel, nem são o pior que existe: há déspotas mais sanguinários ainda, que não se preocupam em dar qualquer contrapartida à população, a não ser aquele mínimo que os perpetue no poder, e apenas porque reis precisam de súditos e servidores. Houve e há muitos destes na África, que apenas enriquecem roubando. E há ainda a bizarra dinastia de ditadores com poderes semi-divinos na Coreia do Norte (alvo de uma das minhas próximas resenhas).

Enfim, a ganancia dos socialistas que exercem o poder não fica nada a dever aos piores capitalistas, com o agravante que seus desvios e desmandos vitimam diretamente a população que governam. Está muito bem testemunhado no livro de Inverna Lockpes este proceder.

males_do_capitalismo…e males do capitalismo

Eu tinha uma opinião rasa de que o capitalismo e a democracia eram os dois melhores sistemas possíveis, apenas sendo necessários ajustes do tamanho ideal do Estado e de sua intervenção. Pesquisei mais, e ainda acho que, combinados, formam o melhor disponível; mas as mudanças precisam ser feitas imediatamente, ou tudo que conhecemos poderá desabar.

Indícios do caos vieram com a crise econômica mundial, que levou bancos e até países ao colapso, há seis anos. Isto demonstrou o quanto o mercado é vulnerável às suas próprias liberdades e excessos. Um cenário com a economia se liquefazendo e bancos quebrando geraria pânico, aonde populações inteiras veriam suas economias sumirem, e o resultado seria um Deus-nos-acuda. Os exemplos – como a Finlândia e a Argentina – são preocupantes. Em escala mundial, isso poderia gerar uma catástrofe sem precedentes.

Porém, este não é a única falha possível: há um “bug” no sistema capitalista, só recentemente detectado, até onde eu sei. Analistas respeitavam um cenário chamado “a curva de Kuznets”, de um economista bielorrusso, Simon Kuznets. Ela dizia, grosso modo, que num país em desenvolvimento, o gráfico da desigualdade imita a forma da letra “u” invertida (ou Curva de Gauss): de pouca desigualdade, já que todos começariam pobres, ela subiria bastante com os investimentos (cujas melhores recompensas vão para poucos); mas depois cairia de novo e se estabilizaria, conforme o progresso se instalasse.

Porém, o economista francês Thomas Piketty compilou seus estudos num livro de mais de 700 páginas, chamado “O capital no século XXI”, bastante polêmico, onde contesta a curva de Kuznets, com uma grande análise de dados estatísticos referentes às rendas de habitantes de alguns países ditos “de 1º mundo”.

Piketty percebeu que a desigualdade não se estabiliza depois da instalação do progresso, pelo simples fato que, no capitalismo como é hoje, tudo favorece que os mais ricos enriqueçam mais e num ritmo maior do que a camada mais pobre e muito mais numerosa progrida e ascenda nas classes sociais. Na verdade, a desigualdade aumenta, ainda que, na teoria, haja menos pobres – enquanto eles ascendem um pouquinho nas suas posses e independência, os ricos ficam milionários, e os multimilionários, bilionários.

Isso se dá porque o sistema econômico, como o concebemos hoje – globalizado, interligado e quase onipresente – está recompensando mais aqueles que invistam seu dinheiro fora da cadeia de produção. Especulação imobiliária, carteira de ações, heranças e ganhos de capital em cima de capital dão retorno maior que produzir e empreender, e traz menores custos.

Sem produção, o intricado modelo de mercado desanda – é como tirar uma engrenagem de uma máquina. Vão quebrando todos os sistemas interligados: empregos, capacitação, crédito. Aí, a ascensão das classes desfavorecidas fica cada vez mais difícil, e tudo recai nas costas do Estado. Se este for bem administrado, até pode suprir, por um tempo; mas, se for inchado e obsoleto – como o nosso – aí, complica.

O modelo atual não é sustentável independente da eficiência do Estado. O sistema capitalista está rumando ao colapso. A desigualdade é sentida na pele, e provoca um clima belicoso, gera exclusão e violência, que podem resultar em tragédia. Fora isso, as regras mudam para cada indivíduo, na medida em que haja mais dígitos em sua conta bancária. Ricos são imunes às leis, mandam suas fortunas para paraísos fiscais, não declaram ganhos, e enriquecem cada vez mais. Mas os cidadãos pobres e os médios – como eu e provavelmente você – pagam seu imposto até o último centavo, não tem a quem recorrer, e são esfolados de todos os lados.

Para piorar o cenário, as oportunidades não são nem nunca foram iguais. Por exemplo, o ingresso em universidades públicas. Se fosse uma corrida de 400 metros com barreiras, poderia se alegar que todos que ingressam na faculdade começarão do mesmo ponto. Mas se esquece que há os nascidos em berço de ouro que nada fizeram a não ser se preparar para esta corrida de cartas marcadas, e foram carregados até a linha de partida. Já outros, tiveram que “correr” a vida inteira, por quilômetros, entre empregos mal remunerados, educação de baixa qualidade e pouco acesso à cultura.

Se você fosse apostar nesta corrida imaginária, e visse um corredor que já vai começar a prova cansado, suado e arfando, com as mãos nos joelhos, enquanto outro está descansado, super equipado e bem preparado, apostaria em quem?

Pela falta de oportunidades, a maioria nem mesmo chega à linha de partida, para disputar a tal corrida. E o ingresso em faculdade pública é uma de muitas corridas, todas claramente desequilibradas.

O fato é que a desigualdade é um fato incontestável nas sociedades capitalistas. As sociedades socialistas parecem ter mais igualdade, mas apenas porque, fora os governantes privilegiadíssimos, todos os outros sofrem terrivelmente, de maneira parecida.

Justiça à meritocracia

Há uma particularidade nas sociedades democráticas capitalistas que sofre também com defesas e ataques extremos: a meritocracia.

Em minha opinião, é uma grande invenção. Graças a ela, existe alguma justiça no sistema. Antes dela, e mesmo hoje, onde ela não vigora, imperam sistemas de castas. As pessoas ficam condenadas a ser aquilo para o que nascem/herdam. É o caso dos intocáveis da Índia.

Contudo, ela não pode ser colocada como a “solução mágica”, nem distorcida para controle e acusação dos desfavorecidos. Isso porque, ao apontá-la como solução, utilizando como exemplo pessoas que, fora da curva, conseguiram vencer na corrida por empregos e uma vida digna, mesmo saídos da base da pirâmide social, se endossa o discurso errado de que a culpa dos milhões e milhões que não ascendem é exclusivamente deles mesmos, que não teriam estudado e batalhado o suficiente. Absurdo. Nem todos partem nas corridas da mesma linha de largada.

Também que se apontar que os critérios de medição dos méritos nem sempre são claros ou justos. Mas tenho certeza que você preferirá trabalhar em qualquer lugar onde seu esforço seja reconhecido em algum momento, e não onde você esteja condenado a ficar submisso a outros que não tem suas competências, mas somente influências ou parentesco com os poderosos.

Veja, não estou dizendo que não haja isso por aí – há sim, e bastante. Pode ser que você seja vítima da meritocracia do QI – “Quem Indica”, ou do nepotismo, que pode favorecer incompetentes. Mas o desrespeito a ideia não a enfraquece, da mesma forma que o fato de haver quem queira levar vantagem em tudo não enfraquece a honestidade. Ao contrário, a torna mais necessária. A meritocracia é uma ideia tão poderosa que, nas sociedades competitivas, quando é ignorada, traz mais prejuízo que lucro.

O grande porém é que ela não basta para balancear a situação vigente de oportunidades tão díspares. Pode corrigir um pouco as injustiças, mas são necessárias ações afirmativas parta diminuir a desigualdade – como é o caso das cotas raciais, contra as quais eu mesmo me posicionava, antes de refletir melhor.

Enfim, para atacar mesmo a desigualdade, seriam necessárias ações mais drásticas. Piketty sugeriu taxar fortemente as grandes fortunas. Há muito barulho condenando isso, o que não é de se admirar – há muitos que condenam a provisão de cerca de 0,5% do PIB brasileiro para o programa de distribuição de renda Bolsa Família, exemplo mundial e comprovadamente efetivo.

piramide_insustentavelCríticas a todos

Isto posto, e tendo, como de costume, me alongado, resumo aqui a ópera: Cuba teve o valor de tentar um novo sistema, conseguiu progressos científicos, educacionais e esportivos. “Peitou” o maior império do planeta. Mas pagou preços altos, deixando sua população à míngua (conforme relatos dos próprios habitantes), e se tornando obsoleta em muitos dos avanços que tinha conseguido. O comunismo idealizado por Karl Marx apenas inspirou o regime de Cuba, que acabou distorcido.

O capitalismo, por sua vez, reina no mundo, mas traça uma rota insustentável de enriquecimento sem limites dos que já são ricos, falta de interesse em produção e falta de uma ética que recuse lucros a qualquer custo. Ou seja: qualquer indústria ou comércio que gere bilhões vai pesar se compensam os riscos; se os dividendos forem fartos, não há limites para o que possa virar comércio: tráfico de pessoas, mão de obra análoga à escravidão, entorpecentes, armas etc. Tudo em nome de Mammom – o deus-dinheiro.

Mas enfim, os dois autores dos livros mencionados, Inverna Lockpez e Guillermo Rosalez, mostram a derrocada de Cuba, perdendo seus artistas e intelectuais justamente para seu arqui-inimigo. Claro que eles são amostra pequena, mas, só por eles, arrisco afirmar que o regime castrista é um arcaísmo. Há que se registrar também que o maior libelo do capitalismo, os EUA, começam a experimentar decadência – um bom exemplo é a cidade de Detroit, que já foi uma das maiores e mais avançadas metrópoles do mundo, e hoje, agoniza, tentando sobreviver com medidas que estimulem a reocupação de seus bairros inteiros abandonados.

Em relação ao tópico “tiranos”, afirmo, categórico: eles são sempre desprezíveis. A tirania é causa de prejuízos incomensuráveis – de vidas, de recursos, de avanços. Tiranos como o próprio Fidel tinha o poder de mandar fuzilar quem dele discordasse. Qual pessoa permaneceria sana com um poder destes na mão? Estes seres nem sempre humanos desviam recursos para si e seus apadrinhados, sem se dar conta da culpa de sangue que existe nesta atitude: toda a pessoa que morra por falta de recursos desviados (de hospitais, digamos), recai sobre quem desvia. Isso vale, lógico, para políticos.

Ainda sobre os tiranos, registro que eles não são só governantes de países ou ditadores: há deles em todos os lugares. Há os chefes tiranos, que sentem prazer em humilhar os subalternos; há até os amigos tiranos, que não admitem serem contrariados e não aceitam brincadeiras, embora a todos contestem e tirem sarro; enfim, pode existir tirania onde quer que haja uma relação de poder.

O detalhe é que toda relação humana é uma relação de poder. Em casamentos, em família, até de pais com filhos, sendo que alguns defendem que as crianças e jovens (e nem tão jovens) de hoje tiranizam seus pais e responsáveis, que acabam reféns de seus caprichos e vontades, como um fardo eterno.

O que precisa ser feito

Voltando à política, ditaduras, que pressupõem tirania (de um ou vários), nunca são uma boa escolha. A democracia tem defeitos evidentes, inclusive abriga tiranos muito poderosos, sejam pessoas ou instituições, como políticos, a polícia e outros. Verdade. Mas há liberdades na democracia que simplesmente não existem em outros sistemas. Isso é um fato. Se há desrespeitos a estas liberdades, e por mais reprimidos que sejam alguns direitos, como o de livre manifestação, ainda é possível articular uma resistência e lutar por mudanças – algo bem difícil de fazer quando se está vendado num paredão de fuzilamento, ou escravizado num campo de trabalho forçado ou ainda, silenciado pelo medo ou mesmo “sumido” da face da terra.

Se foram apontados defeitos e criticados os principais macrorregimes econômicos, é porque, mesmo a um leigo, pareceram evidentes suas falhas. Contudo, prefiro tomar a posição e valorizar a democracia – o menos pior dos regimes – a apenas criticar sem nada propor. A desigualdade pode e precisa ser combatida, com ações afirmativas de inclusão, mesmo que pareçam paliativas ou até desproporcionais, como, por exemplo, cotas raciais e assistência do Estado para redistribuição de bens. Elas visam corrigir distorções e, de maneira secundária, mudar a mentalidade segregacionista em vários níveis. Estas medidas só parecem erradas porque há pouco interesse real em mudanças significativas, e porque a correção de erros radicais pode precisar ser radical, ao menos de início.

Assim como os seres vivos, sistemas complexos visam a autopreservação. O capitalismo está em rota de catástrofe, e quando uma sociedade perde o balanço de estabilidade que a mantém, ou há uma correção, ou há a extinção. Os exemplos são inúmeros. Não se pode perder de vista que ele já foi uma correção a outros sistemas mais injustos ainda – e que possibilitou a criação de riqueza e progressos em vários níveis para centenas de milhões. Mas também não se pode perder de vista que hoje, muitos acham que o capitalismo é apenas servir a outro tirano – o lucro. Trocar “seis por meia dúzia” não vai funcionar.

O que deveria ser viável é que todos percebessem que o capitalismo predatório acabará com tudo – com todos os recursos ambientais e humanos, apenas para que poucos enriqueçam além da capacidade de gastar o dinheiro e muito, mas muito além da necessidade para uma vida confortável, produtiva e feliz.

Algumas iniciativas vêm surgindo, tímidas. Empresas preocupadas com os impactos ecológicos (além das obrigações por lei). Comprometidas em dar contrapartes sociais, revertidas á todos, e não apenas aos clientes. Gestão mais humana. Não buscando apenas mais lucro.

Então, um capitalismo mais responsável é possível. Sei que parece conversa de Nova Era. Utopia. Ingenuidade. E é mesmo. Mas é absolutamente necessário também. E urgente.

Claro que sempre haverá sujeitos gananciosos, que querem ser milionários. Ainda poderão sê-los, mas não a qualquer custo – especialmente de se manter miseráveis, ignorantes, dependentes e condenados a subsistência dois terços da população mundial, enquanto cerca de 1% concentra metade ou mais de todas as riquezas. Isso vai gerar revoluções sangrentas, que não ficarão restritas a uma ilha.

praca_tianamenTiranomaquia’

Titanomaquia, da mitologia grega, foi o embate dos titãs contra os deuses do Olimpo, que venceram e governavam tudo. A “tiranomaquia”, minha paráfrase, é o embate dos tiranos contra o resto do mundo. Tudo o que tiraniza o homem deve ser combatido, sob pena de se escravizar, disfarçadamente (ou não), a maioria das pessoas. Todos os sistemas ditatoriais, capitalistas ou não, estão inclusos; o que dirá então dos déspotas clássicos. Nós, o resto do mundo, precisamos ganhar. Não há mais lugar para Fidéis.

Há uma linha evolutiva – antigamente, a tirania era o governo comum, legitimado pelos regimes em voga, como a monarquia; hoje, eles são minoria, mas ainda resistentes em serem varridos para o lixo da história. Onde persistem, prejudicam os países que governam em todos os índices importantes, e são responsáveis por oceanos de sangue, sofrimento e morte. Sem contar que, onde há ditadura, não há liberdade – o pior cenário possível, em minha opinião.

E é por isso que uma má democracia é preferível a uma ótima ditadura.

Destituídos os tiranos de carne e osso, precisamos acabar com o tirano feito de cifrões. É bem mais difícil.

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Por Alberto Nannini

capa_a_casa_dos_naufragosCuba. A pequena ilha, emblemática resistência de um regime alternativo, está sempre nos noticiários, bem como seu governante, o ditador Fidel Castro, ultimamente afastado.

Li duas obras ligadas ao país: A casa dos náufragos, de Guillermo Rosales, e Cuba – minha revolução, de Inverna Lockpez e Dean Haspiel. Ambas são relatos de cubanos exilados, e são bastante politizadas, no sentido de passar impressões sobre o regime por gente que o viveu na pele.

Meu plano original era abordar algumas particularidades do regime castrista por um olhar leigo e desapaixonado, interpretando o discurso dos autores destas obras. Porém, tive que mudar a abordagem. A primeira obra era tão rica e suscitava tantos questionamentos e reflexões que seria um desperdício utilizá-la apenas para falar sobre Cuba.

Mergulhar na loucura

Comprei A casa dos náufragos sem qualquer indicação, e me surpreendi. Magnífico.

A orelha do livro diz:

Exilado em Miami, o escritor cubano William Figueras é internado pela família em um asilo destinado a inválidos e doentes mentais. Sofrendo de alucinações auditivas episódicas e comportamento paranoico não violento, o personagem está em posição privilegiada em relação aos outros pacientes. ‘Já te observei bastante’, diz o abjeto zelador da instituição, ‘e você não está louco’. O que a princípio poderia ser uma vantagem termina por aprofundar sua dor.

Capacitado a compreender o estado de miséria humana que o rodeia, desnutrido, perturbado e sem perspectivas, o escritor pressente a morte. Egresso de uma Cuba mergulhada na ideologia e na censura, ele se situa no presente como um náufrago que nem pertence ao território que habita nem sente falta do que abandonou.

A exemplo de sua ficção, Guillermo Rosales também deixou Havana e se mudou para Miami em 1979, onde permaneceu até a morte, em 1993. Membro do círculo intelectual cubano que se transferiu para os Estados Unidos, foi lido pela comunidade hispanófona de Miami, mas permaneceu desconhecido do grande público, já que A casa dos náufragos só foi traduzido para o inglês nos anos 2000.

Curto (apenas 122 páginas), mas poderoso. Uma história humana e pungente. Fica na memória, por seus muitos méritos. E faz pensar em muitas coisas.

Tons autobiográficos

Não é fácil separar personagens literários de autores, para não dizer impossível: a dimensão da literatura abarca, extrapola e reinventa os fatos, refletindo-os com uma lente difusa, mesmo quando a intenção é ter um tom autobiográfico. De qualquer forma, a polêmica sobre isto vai muito longe (a discussão sobre os livros de Ricardo Lísias abordam o tema com maestria; leia as resenhas aqui já publicadas, sobre o último romance, Divórcio, e sobre O céu dos Suicidas, aqui e aqui).

Mas algumas características do livro de Guillermo Rosales empurram para uma leitura de notas autobiográficas: segundo consta, o escritor tinha esquizofrenia, e frequentou diversas instituições psiquiátricas ao longo da vida.

Além disso, o protagonista do livro, William, conta de sua relação com o regime cubano e das leituras que fez ao longo da vida, também muito semelhantes à história do próprio autor: “’Este é meu fim’, declara ‘eu, que li Proust completo quando tinha quinze anos, Joyce, Miller, Sartre, Hemingway, Scott Fitzgerald, Albee, Ionesco, Beckett. Que vivi vinte anos numa revolução, sendo carrasco, testemunha, vítima’”.

De qualquer maneira, a força do livro prescinde completamente de que se determine o quanto há de autobiografia nele. A história comove e arrasta, no abismo de desalento que sempre acompanha a loucura, mesmo quando alguma esperança vã teima em acender.

Por isso, o título A casa dos náufragos é muito apropriado, e até a edição do livro e a capa dele – uma pequena casa amarela flutuando num fundo preto e azul escuro, que evoca a imensidão do mar – remete ao tipo de leitura que vai se mergulhar, sem nunca deixar de ser uma metáfora mais abrangente do exílio, da solidão e da crueldade.

imagem_loucoNaufragando…

A trama começa com Willian sendo levado pela tia à “boarding home”, espécie de abrigo para desvalidos, ou um hospício disfarçado. Lá, ele vai perceber como serão as coisas, e verá que a lei do mais forte é a regra única, e entenderá mais sobre a miséria – sua e a dos outros – do que jamais imaginou.

Com o tempo, o protagonista vai se acomodando à situação, e passa a entender o posto que ocupa. Ele percebe que a desesperança ali é a regra, inclusive para os opressores, como o zelador ladrão e abusador, ou o dono, que acolhe “hóspedes” de olho nos cheques de pagamento que recebe do governo para cuidá-los. Um mero negócio, vil como qualquer outro.

Um dia, o já razoavelmente adaptado Willian vê a chegada de uma nova “hóspede”, que concorda com tudo o que dizem. Ele e todos os outros “testam” a novata, de maneiras terríveis. Mas ele começa a dedicar maior atenção a ela, e se permite ter alguma esperança. E a convida para um plano – fugir do asilo e recomeçar a vida, os dois se lançando ao mundo. E de novo a fuga de Cuba se repete aqui, metaforicamente: se lançam, de forma precária, contra outra imensidão de mar escuro – o mundo desconhecido da “normalidade”, longe de surtos e medicações, sendo um a boia do outro. Uma fuga em múltiplos níveis: exilados fugindo duas vezes da exploração, da loucura e da desesperança.

Pode dar certo, eles não são mais loucos que a média que se via do lado de fora. Qual será o desfecho desta tentativa desesperada? Da derradeira chance, do último suspiro de sanidade e de normalidade para dois excluídos? Vale a pena ler e conferir.

Historicamente crível

A história é relativamente simples, mas não sei se seria possível escrevê-la sem algum conhecimento de causa. Cabe relembrar que o autor esteve internado diversas vezes. Tudo isso vai se insinuando, após a leitura, quando se considera o quanto há de Guillermo em Willian.

Voltando à ficção, outro componente interessante na trajetória do protagonista é o quanto ele se mimetiza aos loucos, tornando-se tão brutal quanto for necessário. Presumo que este fato, num caso real, seja uma imposição, e não uma escolha.

Então, supondo que haja um determinado tanto de autobiografia: poucos discordariam que estas partes – as desabonadoras – são as historicamente mais críveis, porque todos “editam” suas facetas mais obscuras a seu bel prazer, quando relatam algo de si mesmos (Facebook, alguém?). Ou seja, haja o que houver de tons autobiográficos no livro, é brilhante que ele demonstre conhecer tão bem a loucura, e conte os deslizes que cometeu, ao invés de apenas retratar o sentimento de inadequação de estar ali. Ao contrário, em algum momento, ele passa a pertencer ao lugar, e sempre há uma luta (literalmente) insana, que acontece em diversas frentes.

O pequeno romance de Guillermo é notável pela amplitude de leituras que permite, e não se presta a uma só interpretação.

Análise prometida para breve…

Das várias maneiras que se poderia aprofundar esta obra, duas se insinuam: sobre a loucura em si e sobre a fuga.

Como já disse, o plano inicial era abordar, como leigo que sou, um pouco do rico material de discussão sobre o regime comunista de Cuba e sobre algumas polêmicas que sempre o cercaram. Com a manifestação dos autores das duas obras citadas, ambos exilados da ilha, eu pretendia analisar alguns pontos da ditadura castrista, o que ela trouxe e o que custou.

Porém, deixarei esta abordagem para uma próxima resenha. Nesta, terei que priorizar a abordagem sobre a loucura, por causa de uma obra lida anteriormente.

holocausto_brasileiro_capa… e pequeno parênteses sobre a loucura

A obra referida é o livro reportagem de Daniela Arbex: Holocausto brasileiro, já brilhantemente resenhado pelo Rodrigo Casarin aqui.

Ler Holocausto brasileiro é uma viagem a um mundo de terror pior que o pesadelo mais insistente. Saber que ele é uma reportagem, que foi escrito mediante a aferição de fatos, é estarrecedor. Se no livro de Guillermo sobra lirismo e beleza literária, no de Daniela a crueza dos fatos te atinge como um soco no estômago com luva de ferro. Se a verdade se obnubila no primeiro, e nos perguntamos o quanto daquela história magnífica e daqueles personagens foram reais, no de Daniela, ficamos sabendo do desfecho de alguns, e da tristeza que prevaleceu em suas vidas.

É impressionante como as obras se acrescentam. Ler A casa dos náufragos é como conseguir acessar a narrativa autoral, feita por um interno que fosse um romancista excelente, de uma das milhares de histórias que aconteceram em Colônia, o hospício retratado em Holocausto brasileiro. E ler Holocausto é entender profundamente a que tipo de situação Guillermo se referiu, em seus rudimentos – porque a vida dos desgraçados em Colônia era ainda bem pior que a ficção.

Pensar nisso dá vertigem.

O que é loucura, afinal?

A loucura não é um ponto pacífico. Eminentes psiquiatras e estudiosos buscam um consenso. Há bem pouco tempo, as perturbações mentais, por mais diversas que fossem, costumavam ser categorizadas do mesmo jeito. Conforme diz Charles Pépin, autor francês, sobre o louco, “Ontem percebido como mensageiro divino, hoje como doente mental, não há uma verdade acerca dele; a maneira como o consideramos varia segundo os sistemas de pensamento e poder”. Daniela Arbex endossa estes dizeres em seu livro, relatando que entre os internados, havia esquizofrênicos, dementes, mas também pessoas apenas tímidas ou caladas, e muitos sem qualquer anomalia digna de nota – apenas pessoas indesejadas (ou inconvenientes para alguns poderosos). Este estigma de loucura para aqueles que se quer excluir é muito importante.

Possivelmente, foi o questionamento deste estigma que levou o psiquiatra húngaro Thomas Szasz a abalar os alicerces da psicologia com sua obra “O mito da doença mental”. Na obra, grosso modo, ele defende que “doença mental” é uma metáfora. As mentes podem estar “doentes” apenas no sentido em que as brincadeiras estão doentes ou as economias estão doentes. Ou seja, o estigma de doente mental se baseia em uma teoria e não em um fato, semelhante a acusar alguém de estar possuído pelo demônio, por exemplo.

A razão da perpetuação deste rótulo que remanesce até hoje seriam interesses – excluir pessoas indesejadas, diferentes e fora dos padrões. Conforme o verbete sobre Szasz no Wikipédia diz, “os diagnósticos psiquiátricos estigmatizam rótulos, construídos à semelhança dos diagnósticos médicos e aplicados a pessoas cujo comportamento incomoda e ofende a outros”.

Para Szasz, a doença mental é um instrumento de controle e exclusão, e não tem sequer uma pequena parte da precisão que reivindica.

Mesmo porque, a normalidade também é um conceito difuso, e talvez nem mesmo muito desejável. Quase sempre, são os “fora-do-normal” que criam e questionam. Mas a normalidade se torna “desejável”, no sentido em que, uma vez estabelecido um comportamento normal, e contanto que as pessoas e suas reações estejam dentro dele, o status quo permanece: poder concentrado nas mãos de pouquíssimos, conformismo e impotência para a imensa maioria. Este ordenamento, tão antigo quanto as sociedades, se impõe em qualquer cultura. Os “fora da curva” serão categorizados: a doença mental, quando acomete a uma pessoa rica, a torna apenas “excêntrica”; se for pobre, a torna, além de maluca, perigosa, o que impõe que ela precisa ser contida, seja do jeito que for.

Como lidar com os loucos

O hospício de Colônia, de história tão recente, é mais apavorante que qualquer ficção. O “””consolo”””, bem entre aspas e bem ironicamente, é que o tratamento de doentes mentais e excluídos pior do que a animais não é exclusividade do Brasil (lugar onde sabemos bem o quanto o dinheiro, o poder e a influência fazem diferença); barbarizar os loucos era uma espécie de regra. O hospital Willowbrook State School, em Nova Iorque, nos anos 60, tinha mais de 6.000 internos que andavam nus, eram espancados e abusados pelos cuidadores.

Ou seja, assume-se que uma desordem mental tira a humanidade da pessoa. Mesmo que não haja uma maneira 100% segura de diagnosticar esta desordem, e, principalmente, que tanto o diagnóstico como o remédio proposto sejam radicalmente influenciados pela posição social que o doente ocupa. Se for um bilionário, talvez, no máximo, sofra processos de interdição dos herdeiros (será que, talvez, quem sabe, mais preocupados com a saúde do que com a dilapidação do patrimônio?); mas, se for um pobre, antigamente, seria deportado, para depósitos de pessoas. Hoje em dia, seria largado à própria sorte.

Loucas inconsistências

De qualquer forma, o assunto é muito amplo até para especialistas, mas algumas considerações podem ser feitas.

O psiquiatra escocês Ronald David Laing (1927 – 1989) pesquisou a esquizofrenia e, segundo ele, a doença é uma reação compreensível a situações impossíveis de serem vividas. Ele procurava padrões na fala dos esquizofrênicos, e questionava a validade do diagnóstico psiquiátrico para desordens mentais, já que estes são baseados no comportamento do “doente”.

Laing apontou o problema de se diagnosticar uma conduta mental a base de um comportamento, mas tratá-la de forma biológica, com remédios. A medicação interfere na capacidade de pensar, e por conseguinte, na cura.

É verdade que a precisão dos diagnósticos e o conhecimento sobre as desordens mentais cresceu, mas outro fator acompanhou também este crescimento: o comércio em cima das doenças, puxado pela indústria de medicamentos. E isto se liga a um outro problema bem complexo: a indústria do diagnóstico.

Interesses comerciais

Lou Marinoff, em seu livro Pergunte a Platão, falou sobre a indústria do diagnóstico: segundo ele, para que profissionais como psiquiatras e psicólogos sejam ressarcidos pelos planos de saúde, eles tem que diagnosticar algo. Assim, se construiu uma nação inteira de doentes – qualquer pessoa, qualquer uma mesmo, pode ter alguma disfunção mental diagnosticada. Basta que seja humana, e que se sinta triste ou angustiada de vez em quando, para ter sua CID (código internacional de doença) no seu atestado, e possivelmente, com uma receita prescrevendo alguma medicação acompanhando.

Daí que , embora os avanços médicos sejam evidentes, outros interesses continuam a tornar a loucura algo nebuloso.

Então, depois de todas estas considerações, há que se perguntar: apesar das inconsistências no diagnóstico da loucura, apesar do uso dela como desculpa para exclusão de indesejáveis, apesar do histórico pavoroso de massacre dos doentes mentais pobres, e apesar do comércio e dos interesses financeiros que existem em cima disso, será que, pelo menos, os médicos sabem diferenciar os realmente perturbados dos sãos?

cartun_loucoComo distinguir a loucura da sanidade?

Se qualquer um pode ser diagnosticado como vítima de alguma transtorno mental, como distinguir os loucos dos normais?

Bom, o psicólogo americano David Rosenhan fez um experimento clássico a respeito. Se os psiquiatras dizem que transtornos mentais podem ser diagnosticados de modo preciso com base em sintomas, e assim serem categorizados como doenças, eles deveriam saber diferenciar, por estes mesmos critérios, os loucos dos sãos.

Só que não. Não se consegue diferenciar os loucos dos sãos nos hospitais psiquiátricos. O estudo de Rosenhan reuniu oito pessoas sãs (ele próprio no meio), para tentar internação em instituições psiquiátricas. Orientados a dizer sobre vozes que ouviam, todos os pacientes foram internados, com diagnóstico de esquizofrenia, embora não apresentassem sintomas da doença.

Uma vez internados, eles se comportaram de maneira absolutamente normal. O que quer que fizessem era interpretado como sintoma da doença. Para um dia inteiro de internação, o contato com os médicos era de cerca de sete minutos diários. Os únicos a perceberem o embuste foram alguns dos outros internos – supostamente loucos.

O pesquisador divulgou o estudo e informou que enviaria, nos próximos meses, um ou mais pseudopacientes, como eles foram, para tentar novamente a internação. Após conhecerem o estudo e avisados, nos hospitais da época, de 193 novos internos autênticos, 41 foram identificados como suspeitos por pelo menos um membro da equipe da instituição, e 23 como possíveis pseudopacientes por pelo menos um psiquiatra.

O chato é que Rosenhan não enviou ninguém.

Distinções falhas

Ou seja, a loucura, em grande medida, é uma cisma – por uma normalidade e por uma padronização que muda ao sabor dos costumes e interesses. Houve, sim, progressos: há desordens mentais mais ou menos compreendidas. Desgraçadamente para alguns loucos antigos, ficava ao sabor da história e da cultura local se aquele atributo deles, por exemplo, de ouvir vozes, era um dom – o que poderia torná-lo um profeta – ou uma maldição – o que o tornaria um endemoniado. O matemático americano John Nash, autor da Teoria dos Jogos, era esquizofrênico, e poderia ter sido morto, há apenas… ia dizer algumas décadas, mas me lembrei que Colônia e Willowbrook são seus contemporâneos.

Ou seja, é bastante razoável supor que pessoas que poderiam contribuir para o progresso da humanidade foram empilhadas e sacrificadas, apenas porque não as entendiam, porque elas eram muito pobres, ou ainda, porque eram muito tímidas ou pouco articuladas. Ou qualquer combinação destes fatores.

Evidentemente, isto não significa que pessoas que não pudessem contribuir de qualquer forma tivessem que ser sacrificadas. Limitadas ou não, eram pessoas. E a vida delas, tão sagrada quanto a de qualquer “normal”.

Em grande medida, aliás, eles, que eram simples de coração e reduzidos em suas capacidades, precisavam ainda mais da ajuda dos outros. É o mesmo raciocínio que leva a absoluta maioria de pessoas a ter ojeriza a maus tratos com animais – seres meio dependentes, com limitações, puros, sem maldades ou interesses. Não sei precisar em porcentagens, mas deduzo que a maioria dos deficientes mentais sejam assim. Às vezes, pode nos enojar o quanto eles se reduzem aos instintos básicos/fisiológicos, e o quanto lhes falta pudores. Como comem, copulam e se sujam como animais; mas esquecemos que pudores são construções sociais mutáveis, e andar nu, por exemplo, é aceito em algumas comunidades. E pior, esquecemos que, ao amontoá-los como bichos, lhes tiramos qualquer dignidade que poderiam preservar, e só lhes restará mesmo o instinto de sobrevivência.

Ainda em defesa da inofensividade da maioria dos loucos, me parece que os perigosos e violentos da nossa sociedade gozam perfeitamente de suas capacidades mentais – lhes falta empatia e um tanto de humanidade, e lhes sobra egoísmo e ganância. Criminosos, de maneira geral, não são loucos. Claro, há aqueles que têm surtos psicóticos, que causam massacres. Mas o que há de loucura num sequestrador, que arquiteta um plano cuidadoso para levar sua vítima, ter seu resgate e não ser pego?

Loucura moderna

Recentemente, mais um garoto recalcado (Elliot Rodgers), perturbado num nível profundo, massacrou seis pessoas, nos EUA, por não ser reconhecido, e se sentir inferiorizado. Qual o nível de loucura disso? Internos são mais loucos e mais perigosos que alguém assim?

E sobre o norueguês Anders Behring Breivik, que planejou um atentado por anos, e rumou para uma ilha e massacrou perto de 70 inocentes? E sobre Columbine, e mesmo do brasileiro Wellington Menezes, que imitou a “moda” americana de massacres em escola e assassinou 12 (o massacre de Realengo)?

Como diagnosticar estes loucos modernos? O que fazer?

holocausto_Não sei, mas sei o que não fazer: não se pode colocá-los em nada que se assemelhe a um hospício antigo. Argumentos em contrário, por mais persuasivos que sejam, especialmente para quem perdeu alguém em qualquer um dos massacres, reabrem a exceção que criaram distorções como Colônia e Willowbrook (que aliás, à sua época, não eram exceções, mas a regra); ou legitimam asilos e abrigos como comércios vis que nada tem de humanos, e que visam apenas lucro, como o relatado por Guillermo Rosales em seu livro.

Retroceder e permitir a volta de colônias ou a legitimação de “boarding homes” (hospícios particulares) são caminhos terríveis, que já deveriam ter sido totalmente abolidos.

A sombra da loucura continuará a afetar as sociedades, mas precisamos progredir no tratamento dos doentes. Este é um problema de dimensões tão profundas e tão controverso que parece pacífico que não haja uma solução unânime e sem riscos. Desenvolver medicações para tratar doentes, além do problema do comércio de fármacos e da indústria de diagnósticos, tende a robotizar as pessoas. Interná-las, quase sempre, é apenas excluí-las do convívio – mesma alternativa que se pensa para outros indesejáveis, como viciados, mendigos e criminosos de menor potencial ofensivo.

Assumo que não consigo pensar, nem ingenuamente, em algo que pudesse funcionar, neste caso. Talvez uma série de ações conjuntas e ordenadas e também uma mudança social. Mas repito: hospícios devem ser peças de museu (de horrores, no caso).

A balada do louco

Concluindo para ligar todo o exposto à obra de Guillermo Rosales, muitos loucos tem visão mais sã e verdadeira da sociedade que muitos ditos normais. Muitos normais são apenas bovinamente conformados, e nunca utilizaram a capacidade oculta que carregam de questionar a ordem das coisas – ordem esta que prioriza outros deu$e$ em detrimento da compaixão pelos semelhantes.

A loucura pode ser uma face da genialidade, e nem todos que as cometem são necessariamente loucos – aliás, segundo o psicólogo americano Elliot Aronson, qualquer pessoa, em determinadas situações, pode fazer algo que seja considerado insensato.

O autor de A casa dos náufragos era considerado insano, por alguns parâmetros, mas entregou uma obra de rara sensibilidade. Seja para refletir sobre a loucura, seja para pensar sobre as fugas, ou para apreciar uma peça de literatura magnífica, a indico.

Acho que Rosales endossaria a clássica música “Balada do louco”, do grupo brasileiros Os Mutantes, que intitula esta resenha. Especialmente o verso:

Eu juro que é melhor

Não ser o normal

Se eu posso pensar que Deus sou eu.

 

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