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Posts Tagged ‘Harry Potter’

 

Por Rodrigo Casarin

Assassin`s Creed vol 2 Ð IrmandadeDurante muito tempo foi – e ainda é – bastante comum vermos livros virarem jogos, normalmente passando antes pelo cinema. Assim aconteceu com as séries Harry Potter e Senhor dos anéis, para ficarmos em apenas dois exemplos bastante conhecidos e recentes. Contudo, ultimamente temos visto o caminho contrário sendo percorrido. Jogos de franquias como Assassin’s Creed, God of War e Diablo ganharam primeiro as plataformas de videogames para depois serem transpostos para as páginas impressas e chegarem às prateleiras de livrarias.

No Brasil, esse fenômeno é bastante recente, começou nesta segunda década do século XXI, e acompanha um movimento que já vinha acontecendo há algum tempo nos Estados Unidos. Jogos estão virando livros porque “estão mais sofisticados, com roteiros bem amarrados e complexos”, diz Ana Lima, editora executiva do selo Galera, braço para títulos juvenis da editora Record e maior responsável pela publicação de versões de games para livros no Brasil. São deles títulos como World of Warcraft, Battlefield 3 e Assassin’s Creed (vejam mais detalhes das obras abaixo).

A publicação dessas obras, que normalmente fazem grande sucesso com o público, apenas segue o crescimento que o mercado de games vem tendo no país. São livros que permitem ao jogador ampliar a relação com seus jogos favoritos por meio de uma experiência diferente da proporcionada pelos videogames (a leitura, no caso). “Esses livros funcionam como parte do universo expandido do game. Por meio deles, o leitor poderá conhecer melhor um personagem ou evento específico dos jogos. Os livros não relatam exatamente o que acontece no jogo, por isso são interessantes”, explica Ana.

A declaração da editora executiva do selo Galera encontra eco na “Nota do Autor” de Battlefield 3 – o Russo, escrito por Peter Grimsdale em parceria com Andy McNab, que participou de toda a elaboração do jogo como consultor – era o responsável para que Battlefield3-br.inddo enredo e os detalhes do campo de batalha ficassem verossímeis. “O jogo é apenas uma das partes para toda a experiência que é BF3 – e este livro é outra. Pareceu uma sequência natural escrever um romance que complemente o jogo, já que ainda havia muita história para contar […]. Este livro dá ao leitor a oportunidade de ver as coisas do ponto de vista dele [Dmitri “Dima” Mayakovsky, protagonista da trama] e de talvez entender as decisões e atitudes de Dima quando ele se encontra nas situações mais improváveis”, escreve McNab na nota.

Apesar do autor e da editora defenderem a relevância do trabalho para que haja um maior aprofundamento na história do jogo, nem todos os leitores enxergam dessa maneira. O redator e analista de comunicação Eder Martins, de 31 anos, conta que esperava uma simples transposição do jogo para o livro quando resolveu ler Assassin’s Creed – Renascença. “Como me baseei nas terríveis adaptações de jogos para o cinema, criei uma expectativa bastante baixa”. Isso fez com que Martins se surpreendesse ao ler a obra, ainda que tenha uma visão bastante crítica sobre ela. “Para quem é fã do jogo, o livro é ótimo; para quem quer somente ler para passar o tempo, também; agora, para quem busca uma leitura mais séria, não vale a pena. Apesar da grande fidelidade ao jogo, não há complexidades nem retratos tão profundos de um período histórico, o que poderia ter sido trabalhado e deixaria a obra menos rasa”, argumenta.

Talvez sejam títulos realmente destinados àqueles que já são fãs dos respectivos games. Em uma leitura rápida de algumas obras, a impressão que fica é que os autores diversas vezes tentam transpôr para as letras a constante ação que muita gente espera de um jogo de videogame. Para continuarmos no exemplo da série Assassin’s Creed, é difícil encontrarmos nos livros algum trecho significativo que não esteja permeado por cenas de violência, o que pode ao mesmo tempo atrair quem quer algo bastante próximo ao game e afastar aqueles que esperam que um livro permita momentos de introspecção e reflexão, por exemplo. Contudo, o veredito final sobre a importância dessas obras sempre será, ao menos em um primeiro momento, sempre do leitor.

Assassin’s Creed

É a série com o maior número de adaptações para livros, seja em formato de narrativa convencional, seja por meio de quadrinhos. As narrativas em prosa são assinadas por Oliver Bowden, pseudônimo de um escritor e historiador do Renascimento, e, tais quais nos jogos, levam o leitor à Itália renascentista (em Renascimento), a Roma comandada pela família Bórgia (em Irmandade), ao DIABLOImpério Otomano (em Revelações), Constantinopla (em A cruzada secreta), à Era de ouro da pirataria (em Bandeira negra) e à Guerra de Independência dos Estados Unidos (em Renegado).

Diablo III

A antiga série Diablo virou livro quando o game chegou a sua terceira edição. Diablo III – a ordem traz a história de Deckard Cain em busca dos membros perdidos da ordem Horadrim, da qual faz parte e supostamente é o último sobrevivente. O grande objetivo é salvar o Santuário onde a história se passa, em uma época anterior à retratada no jogo, das forças demoníacas do Inferno Ardente. Já Diablo III – Livro de Cain é uma espécie de edição ampliada e de luxo do primeiro livro, que acrescenta à história elementos e segredos até então inéditos.

God of War

O livro homônimo à série traz a história que deu origem ao jogo, buscando detalhar o passado de Kratos, guerreiro que trabalha para os deuses do Olimpo e, após alguns entreveres, foca a sua vida em conseguir matar Ares, o deus da Guerra. Já no segundo livro, God of War 2, Kratos continua com suas vinganças. Dessa vez, o objetivo é aniquilar Zeus, o deus maior. Bem como o jogo, os livros são recheados de influências da mitologia grega.

APAGAAAAARWorld os Warcraft

A franquia World os Warcraft conta com três livros lançados no Brasil. Marés da guerra é protagonizado pela feiticeira Jaina Proudmore, que luta pela improvável paz entre a Aliança e a Horda e prepara o jogador para a expansão do jogo Mists of Pandaria. Em Sombras da Horda, o foco está sobre Vol’jin, que, refugiado em um monastério para se recuperar de ferimentos, não percebe que uma série de ataques estão sendo planejados pela tribo Zandalari em Pandária. Por fim, em Ruptura, Thrall, xamã e chefe guerreiro de Horda, precisa descobrir o que acontece de errado com os espíritos elementais e as forças sensíveis da terra para prevenir uma catástrofe que está por vir.

Uncharted

EmUncharted – o quarto labirinto, o corpo de um arqueólogo e especialista em labirintos mitológicos é encontrado esquartejado dentro de uma mala em Nova Iorque. Então, um de seus melhores amigos, Victor Sullivan, pede ajuda ao caçador de tesouros Nathan Drake e, junto de Jada, filha do arqueólogo morto, vão em busca de desvendar o assassinato e descobrem que o crime está profundamente ligado aos misteriosos labirintos da antiguidade.

Battlefield

Battlefield 3 – o russo se passa em uma União Soviética caída, dividida por oligarquias, máfias e políticos corruptos. Ogivas nucleares caem nas mãos de perigosos terroristas e cabe a Dima Mayakovsky detê-los e recuperá-las sem que informações sobre o que está acontecendo cheguem aos ouvidos dos estadunidenses.

Texto publicado originalmente na edição 150 da revista EGW.

 

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Por Alberto Nannini

oceano_fimAcho que o maior elogio que um escritor iniciante pode receber é quando outros leitores lhe contam que se lembraram dele e de seu estilo de escrita ao ler uma obra de autor consagrado.

O inglês Neil Gaiman é quem mais me inspira a escrever. Seu estilo lírico, supercriativo e de fino humor, aliado à precisão de suas sentenças, apuro nos diálogos e um tanto de poesia nas descrições e criações, o tornaram um dos mais prestigiados escritores da atualidade.

Autor de histórias em quadrinhos consagradas, como Sandman e Livros da magia (precursor de Harry Potter), de romances infanto-juvenis, como Coraline e Lobos atrás das paredes, com obras adaptadas para o cinema, como Stardust e Beowulf e, finalmente, de romances muito premiados e excelentes, como Deuses Americanos e Os filhos de Anansi, o inglês estava sem lançar para o público adulto desde 2005.

Este jejum foi quebrado com o livro O oceano no fim do caminho, publicado aqui pela editora Intrínseca. Toda a magia de Gaiman está presente, numa fábula que resgata alguns rituais de passagem da infância e os mescla com fantasia e alusões diversas às ciências, literatura e espiritualidade.

Um oceano em um balde

Um homem de meia idade retorna a casa onde passou sua infância, em uma pequena cidade da Inglaterra, para um funeral. Andando pela vizinhança, chega a uma fazenda, onde, num repente, se recorda de ter vivido uma aventura extraordinária quando tinha sete anos, em companhia de uma garota quatro anos mais velha, chamada Lettie Hempstock.

O recurso utilizado pelo autor foi narrar a história como se a lembrança retornasse completa e subitamente, o que explica a narração que se alterna entre a perspectiva de uma criança de sete anos e do adulto que ela se tornou.

O tal oceano no fim do caminho do título é um lago que existe na fazenda das Hempstock – Lettie, a garota de 11 anos, sua mãe e a avó, que são mais do que aparentam. O garoto vai encontra-las por acaso, por conta de duas mortes que vai testemunhar. Na tal fazenda, cabem um oceano e um mundo de coisas. Suas moradoras ensinarão sobre lealdade, escolhas e poderes primitivos.

Troca desvantajosa

Neil Gaiman consegue resgatar as impressões que só na infância, experimentamos. Descrever um copo de leite fresco, ou um pudim com geleia de amora como uma criança faria. E falar sobre refúgios secretos nos jardins, e monstros no varal. Ele brinca com a linguagem e as memórias, e consegue inverter a lógica do mundo normal: não largamos as coisas da infância como fantasias, em troca do real; largamos a realidade da fantasia, trocando-a por outras verdades, cinzas e sem graça, que inventamos.

Há uma chuva de referências no romance. Vão das ideias científicas, como o Buraco de Minhoca – espécie de túnel no espaço-tempo, transformado em algo mais literal – além do Big Bang e da matéria escura, a eventos e personagens reais, como Guy Fawkes, que inspirou os quadrinhos V de Vingança, de Alan Moore (que consagrou a máscara branca com bigode e cavanhaque estilizados, usada em protestos), passando, lógico, por gatos, espécie de fixação do autor.

Tecer tudo isso num romance mágico, que é uma fábula sobre a infância e sobre aquilo que perdemos, é só um dos méritos do livro. Ele serve também como um tíquete de viagem ao passado.

A criança interior

Ao ler O oceano no fim do caminho, recordei do quanto de magia existia na minha infância. Os meus lugares secretos. A casa de meu avô, enorme e com um jardim gigantesco, virava palco de aventuras. Com minha irmã, prima e vizinhos, íamos ao quintal resolver crimes, onde um muro manchado de água era uma prova de sangue, onde chuchus esquentados numa lata era ração de sobrevivência, e onde a abertura da tampa de concreto de uma galeria pluvial era a bocona, que às vezes, engolia crianças.

Não que eu acreditasse cegamente na história da bocona. Apenas a evitava, prudentemente, quando estava sozinho, dando uma volta bem maior pelo jardim. Afinal, minha irmã e as crianças mais velhas disseram que ela engolia garotos, e elas também confiavam nisso.  Quando crianças, acreditamos nas nossas próprias mentiras. (Risos) Desculpe o humor involuntário… Quando crianças, eu disse – como se não mentíssemos a nós mesmos dez vezes mais depois de crescidos. Não há nada mais mentiroso que um adulto.

Enfim, Neil Gaiman tem a capacidade fabulosa de transportar seus leitores a um mundo paralelo. Tal como grandes contadores de histórias, como R. J. Tolkien, C. S. Lewis e os irmãos Grimm.

Há um único senão no livro, em minha opinião: Gaiman, alternando as vozes do narrador como recordação vívida de quando criança, para a atualidade, como adulto, às vezes se perde um pouco. Detalha alguns eventos além do necessário, e com isso, perde o recurso do leitor imaginar, ante a descrição infantil dos fatos, o que a criança realmente viu. Não sei se fui claro, e não quero publicar spoilers, mas um garotinho, ao ver cenas que não tem condição de entender, vai adaptá-la a seu repertório, onde há monstros, vermes vindos de outras realidades e seres que pretendem arrancar seu coração, e onde babás são seres diabólicos. Embora ele pudesse utilizar o narrador adulto para dizer o que realmente aconteceu, como fez algumas vezes, não achei necessário.

De qualquer forma, a construção da história brinca com a imaginação e a realidade, como é típico do autor. Lembra um pouco o enredo de O labirinto do fauno, filme de Guillermo Del Toro, em que uma garota vive uma fantasia com princesas, monstros e o fauno, enquanto vive dias traumáticos durante a ditadura de Franco, na Espanha. O garoto do livro também vive eventos traumáticos, que guardam nítida correspondência com eventos reais, mas que, para ele, seriam causados por seres mágicos. O que aconteceu, o que foi inventado, o que a impressão de criança fantasiou? O livro não responde isso, e aí está a mágica de sua narrativa.

Isso me fez pensar nos dias passados da infância, quando nossas conclusões são tão diferentes, e também no que fazemos à nossa criança interior. Ontem mesmo eu andava por aí pensando em coisas importantes, como cavar um buraco enorme, subir em árvores, chutar qualquer coisa remotamente parecida com uma bola, que ia de latas a pedras. Responda, se souber, como aquele garotinho que eu fui, e aquele ou aquela que você foi, deu lugar a estes adultos tão empertigados como nós, que andam por aí?

Duas vozes, dois olhares

A música “City of blinding lights”, do U2 , minha banda favorita, brada:

Time, time / Tempo, tempo

Won’t leave me as I am / Não vai me deixar do jeito que eu sou

But time won’t take the boy out of this man / Mas o tempo não vai levar o garoto que esta dentro desse homem

Sim, é inevitável: crescemos e deixamos as coisas de criança. O tempo nos muda, inexoravelmente, tanto que já somos diferentes de um dia para o outro. Mas ouvir a criança interior, sufocada sob tantas obrigações e sob a crueza da tal realidade, é uma opção, e uma luta que tem que ser travada, e que talvez passe justamente por resgatar fantasias, em leituras, filmes ou brincadeiras, e, mais do que tudo, em atitudes.

Adultos estressados, contraídos, alquebrados e infelizes, muitas vezes, tem diagnóstico parecido, segundo algumas correntes de ajuda psicológica: sufocaram sua criança interior. Não a ouvem mais, nem prestam atenção ao que ela vê.

Tamanha é a diferença entre o mesmo fato visto pelos olhos de uma criança do que visto pelos olhos de um adulto que não admira que o olhar deste último se imponha de tal forma que esquecemos que já vimos monstros em varais e debaixo das camas, portais para outros mundos dentro de armários, magia em lugares secretos inocentes, oceanos em lagos, e universos paralelos dentro de quartos de brincar.

Não se trata de ficar iludido ou ignorar o conhecimento adquirido – o conhecimento é um fardo que, uma vez obtido, não pode ser devolvido. Trata-se de manter a criança interior viva e participante.

Quando as duas vozes e os dois olhares internos conversam, o mundo fica mais poético, criativo e é possível enxergar perspectivas invisíveis a apenas um dos olhares. E uma das maiores dádivas que podemos experimentar retorna: a capacidade de se maravilhar.

A fantasia como resgate e como lente

Acredito que a função deste olhar fantasioso é possibilitar os progressos mais sérios e manter vivas as tradições e a arte. Se não por meios de metáforas, alusões, fantasias e divagações, como se elaborariam as teorias científicas, e como se inovaria, se almejaria?

A ânsia que os adultos desenvolvem por controle, ou melhor, pela ilusão de controle, acaba atropelando o espaço da fantasia na vida. Mas como esta última é uma necessidade vital, são criadas válvulas de escape, que vão aparecer de alguma forma. Por exemplo, no consumo massivo de romances fantásticos, como o próprio caso da série Harry Potter. As duas necessidades duelam por espaço, e há vantagem para a primeira.

Mas perder a lente da fantasia torna tudo sem graça, e pode se revelar algo arrogante e inesperadamente cômico. Filósofos eminentes da antiguidade acreditavam que o mundo era plano e sustentado no casco de uma tartaruga, e que todas as coisas eram compostas pelos quatro elementos essenciais: fogo, ar, terra e água. A ciência se ri disso. Mas a fantasia ri de tudo, até de si mesma, brinca com estas e com outras ideias, cria em cima delas, inventa tradições, empresta significado.

Teorias sérias da ciência caíram por terra, enquanto projeções fantásticas dos escritores de ficção científica de ontem ganham a nossa realidade: chips minúsculos inseridos em qualquer coisa, nanorrobôs, teletransporte, rede mundial de computadores.

Ou seja, a fantasia nos guia antes da ciência. E, quando seus olhares se fundem, um lago é o oceano primordial, os mundos paralelos se comunicam conosco, e, no coração e na vontade de uma pessoa, há força para mudar o mundo inteiro.

brincando-com-o-filhoAutores que mesclam estes dois olhares em suas obras, dizendo muito fazendo de conta que estão apenas contando uma historinha, nos acompanham desde sempre. Seja com as fábulas consagradas, seja com as epopeias criadas, ou com as tradições orais dos milhares de povos que já caminharam sobre a terra, eles sempre chegam até nós, compartilhando sua curiosidade em relação ao mundo e perscrutando nosso papel na ordem das coisas. Pois estas indagações são algo que nos irmana, independente da época, raça e crença.

Há oceanos a serem desbravados, às vezes, dentro das páginas de um livro inocente. Acorde sua criança interior, e, se possível, faça esta leitura junto com ela. Talvez perceba algo muito além de um romance.

Ah, e não esqueça: divirta-se! 😛

*Originalmente publicado como “Dias passados de fabulosas infâncias – resenha de ‘O oceano no fim do caminho'”

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Por toda a equipe.

Autor de Jorge do Pântano e Meu pai sabe voar (em parceria com Daniela Pinotti, sua esposa) e organizador do livro de contos Era uma vez para sempre…, Marcelo Maluf dedica boa parte de seu tempo de escritor e professor tratando de assuntos do universo da literatura feita para jovens. Formado em Artes Visuais, tomou gosto pelas histórias ouvindo com tudo o que seu avô contava. É responsável pelos blogs Labirintos no Sótão – destinado à literatura – e Tu és isto – sobre espiritualidade. Nessa conversa, claro, falou muito sobre a relação da juventude com as letras, mas também mostrou seu ponto de vista sobre a relação entre a ciência e a religião.

Canto dos Livros: Como é escrever para jovens? Quais os cuidados a tomar?

Marcelo Maluf: Escrever para jovens, em essência, é como escrever para qualquer público, valorizando a qualidade do texto. Mas uma coisa primordial talvez seja a ênfase a uma boa história, um bom enredo. Posso estar falando besteira, mas não creio que muita experimentação de linguagem funcione para o público juvenil. O único cuidado a tomar é o de não ser chato.

CL: Quais as diferenças entre a literatura infantil, a infanto-juvenil e a juvenil?

MM: Para responder a essa pergunta, primeiro é preciso levar em conta o leitor. Vou utilizar aqui os critérios da pesquisadora Nelly Novaes Coelho. Ela faz a seguinte divisão: Pré-leitor (Infantil): primeira infância – dos 15/17 meses aos 3 anos; segunda infância – a partir dos 2/3 anos; Leitor iniciante – a partir dos 6/7 anos; Leitor-em-processo (Infanto-juvenil) – a partir dos 8/9 anos; Leitor fluente (Infanto-juvenil) – a partir dos 10/11 anos e Leitor crítico (Juvenil) – a partir dos 12/13 anos. Portanto, tendo consciência desses leitores diversos, é possível reconhecer as linguagens para os diversos públicos. Mas para além disso, eu diria que o escritor precisa primeiro escrever, depois entender se o seu texto pode se encaixar em alguma dessas divisões e não o contrário. E mais, cada leitor pode subverter essa divisão, pois a experiência de leitura é diferente para cada um. Enfim, como diria Tatiana Belinky: “a faixa etária é que me escolha”. Não há regras, é necessário bom-senso e boas histórias.

CL: Normalmente, histórias para crianças e jovens possuem teor fantástico. A literatura mais focada na realidade em que vivemos, aparentemente, desperta pouco interesse para esses públicos. Por que isso?

MM: Bem, na minha experiência não vejo desta maneira. Percebo que as boas histórias independem do gênero para conquistar esses leitores. É claro que quando um livro é adaptado para o cinema e faz sucesso acaba por conquistar mais leitores ainda, como no caso de Harry Potter. Mas até hoje, livros como o Gênio do Crime, do João Carlos Marinho, entre outros também estão na lista dos mais vendidos.

CL: Antigamente, a Literatura Infantil tinha a preocupação de ensinar valores e advertir contra erros, inclusive alterando os finais de lendas e fábulas para que contivessem “moral” implícita de maneira politicamente correta. Hoje em dia, ainda existe esta preocupação?

MM: A tradição das fábulas e lendas em muitas culturas sempre tiveram o caráter de passar uma “mensagem”, algum ensinamento, e isso em si não é nada ruim. A questão é quando a moral se transforma em veículo de moralismo. Aí a coisa vira uma grande baboseira. Hoje, ainda existem livros produzidos com esse fim moralista, principalmente quando ligados a algum dogma. Eu acredito nas boas histórias, elas contêm conflitos, relacionamentos, desafios, convivência, que implicam numa empatia do leitor com a história e os personagens. Em si, isso já é uma tarefa de reflexão incrível.

CL: Qual a sua opinião sobre a forma como a literatura vem sendo abordada na escola? Acha que acaba aproximando ou afastando os jovens dos livros?

MM: Em sua maioria, só vem afastando. Mas esse problema é da educação de modo geral, dos péssimos cursos de formação, e do desserviço do poder público quanto ao estímulo à leitura com foco no prazer e não na obrigatoriedade.  Mas existe por outro lado muita gente boa por aí. É o caso da professora. Daniela Neves que é orientadora de Sala de Leitura da EMEF Profa. Maria Berenice dos Santos, onde a leitura e os livros são encontros com o prazer de boas histórias e bons livros, mediados pela paixão de ler, que é fundamental para aproximar as crianças e jovens dos livros.

CL: É possível um livro fazer grande sucesso entre os jovens sem ele estar inserido na indústria pop?

MM: Sem dúvida que sim. Já citei o caso do Gênio do Crime, e posso citar outros tantos, como os livros do Pedro Bandeira, do Jostein Gaarder, do Eon Colfier, que hoje são referências de autores que atingiram grandes números de vendagem e tornaram-se bem populares, mas primeiro conquistaram por suas histórias e não por nenhum jogo marketeiro.

CL: Quais obras você indicaria para uma pessoa de 15 anos que nunca foi leitora, mas está interessada em começar a ler?

MM: Primeiro eu buscaria saber quais os temas e interesses desse jovem. Daí poderia ter uma percepção de seus gostos, para indicar uma história de fantasia, policial, realista, de mistério, ficção científica, etc…Bem, vou indicar cinco livros que gosto muito: Slam, do Nick Hornby, Artemis Fowl, do Eon Colfier, Coraline, do Neil Gaiman, O grande Mentecapto, do Fernando Sabino e O Hobbit, do Tolkien, entre muitos outros.

CL: Qual a importância dos cursos e oficinas literárias na formação de um escritor?

MM: Acho que as oficinas podem ajudar a trocar experiências de leitura crítica. Nas oficinas exercitamos e produzimos textos que serão lidos, compartilhados, criticados e, nesse sentido, é de suma importância que o escritor compartilhe, leia e critique. Para que não fique apenas com a opinião dos parentes, amigos e da namorada ou namorado, etc. Tenho grandes amigos que conheci nas oficinas em que participei, também pode ser uma oportunidade para conhecer nossos pares.

CL: Como foi escrever o livro Meu pai sabe voar em parceria com a Daniela Pinotti? Como fica a questão autoral em uma obra feita por dois autores?

MM: Escrever em parceria é um exercício que todos escritores deveriam experimentar. Ampliamos com essa experiência a nossa capacidade de ouvir novas possibilidades para as nossas idéias, exercita o desapego e pode ser muito prazeroso e enriquecedor todo o processo criativo. Com a Daniela, que é minha esposa, e com quem sempre dividi leituras e sonhos, foi uma experiência fantástica. Com certeza, vamos escrever outros. Quanto aos direitos autorais, a porcentagem é dividida.

CL: Como você começou a ler? Quais práticas acha que podem incentivar as crianças a tomarem gosto pela leitura?

MM: O meu gosto pela leitura começou primeiro com o meu fascínio pelo objeto-livro. As primeiras histórias que me encantaram foram as histórias que ouvia do meu avô Joaquim, que eram geralmente histórias sobre sacis, mulas-sem-cabeça, etc. Depois vieram as coletâneas da série “Para gostar de ler”. Daí descobri Fernando Sabino, Rubem Braga, Paulo Mendes Campos, etc. Acho que o incentivo a leitura deve vir acompanhado do gosto por ouvir histórias. O livro deve ser um objeto de afeto, de paixão e prazer. Se o adulto for alguém que tem esse contato com o livro, naturalmente poderá contaminar as crianças e jovens a tomarem esse gosto.

CL: Quanto você acredita que a leitura na infância e na adolescência influenciou o que você é hoje? Cite algumas obras que contribuíram na sua formação e que você julga indispensáveis aos jovens.

MM: Posso afirmar, no meu caso, que sou fruto, entre outras vivências, das leituras que fiz. Muitas das minhas idéias, desejos, vontades, sonhos, concepção de mundo, percepção estética vieram de minhas leituras e influenciam direta e indiretamente as minhas escolhas e caminhos. Entre minhas leituras de formação e que indico aos jovens estão: Encontro Marcado (Fernando Sabino), A Metamorfose (Franz Kafka), Histórias Extraordinárias (Edgar Allan Poe), As mil e uma Noites, as crônicas do Rubem Braga, do Fernando Sabino, do Paulo Mendes Campos. Os poemas do Drummond, do Murilo Mendes, do Manuel Bandeira. Os contos do Murilo Rubião, do Machado de Assis, entre outros. Mas gostaria de ressaltar que não foram só os textos de ficção e poesia que me formaram como leitor. Livros como a Autobiografia de um Iogue (Paramahansa Yogananda) e Minhas experiências com a verdade (Mahatma Gandhi) foram fundamentais na minha formação.

CL:Mudando de assunto, você mantém um blog cuja descrição é: Caminhos de espiritualidade, mística, consciência e compaixão pelos seres e pela terra”. É fato que a atual liberdade de expressão iniciou um diálogo sem precedentes sobre estes mesmos caminhos e suas infindáveis vertentes, dentre os quais poderíamos citar como pólos opostos o ateísmo beligerante, de Richard Dawkins e Christopher Hitchens (dentre outros), de um lado, e o espiritualismo de auto-ajuda de Rondha Byrne e afins, de outro. Como você se posiciona nessa discussão? O que tem a dizer sobre a busca por espiritualidade?

MM: Primeiro, gostaria de agradecer por essa pergunta, considero-a fundamental para ampliarmos a reflexão tão necessária sobre a espiritualidade no mundo contemporâneo.

Estamos vivendo um momento de grandes transformações nos paradigmas humanos. É necessário que se diga que Rondha Byrne, até onde conheço, está muito distante das questões sobre espiritualidade que me interessam, assim como Dawkins, com seu delírio científico e seu marketing ateísta. No caso de Rondha, a busca centra-se na lógica do sistema de que o mais forte e convicto pode ganhar mais, na lei do desejo e da atração. E me parece que se mergulharmos nessa ideia, podemos inclusive aproximar Dawkins de Rondha, já que para ambos a seleção natural se faz pela lei do mais forte. O que inclusive é muito perigoso e pode justificar atrocidades, guerras, intolerâncias e preconceitos, se compreendermos a teoria da evolução do ponto de vista pragmático, rasteiro e não espiritual. Deus e a teoria da evolução não são excludentes. A ciência e a religião não são excludentes. O que não tem nada a ver com criacionismo.

Bem, o que eu busco são a compaixão, o cuidado, a compreensão e a colaboração entre os seres. Nesse sentido, sou um caminhante aprendiz. As grandes tradições espirituais da humanidade (Budismo, Cristianismo, Judaísmo, Islamismo, Taoísmo, Hinduísmo, entre outras) têm como princípio o amor e a busca do autoconhecimento. Ou seja, o cuidado de si, dos outros e do planeta. E na ciência interessa-me a visão da Física quântica (Fritjof Capra, Amit Goswami, etc), que está em profundo acordo com ideias budistas, por exemplo. Por esse mesmo motivo, também não compreendo o que chamamos de Deus como aquela figura estereotipada de barbas brancas, sentado em algum lugar no céu apontando os nossos erros.

Não há segredo algum, há mistério, presença, amor. Deus pode ser Aquele que não é. E pode ter mil faces. O Eu Maior. Grandes homens e avatares surgiram na história da humanidade e continuam por aí: Jesus Cristo, Sidarta Gautama, Lao-Tsé, Maomé, Francisco de Assis, Mahatma Gandhi, Martin Luther King, Dom Hélder Câmara, entre outros grandes. Atualmente temos Dalai Lama, Leonardo Boff, Frei Betto, Jean-Yves Leloup, Roberto Crema, Sogyal Rinpoche, entre muitos e muitos que propagam essa compreensão da vida, do autoconhecimento e de Deus. É uma jornada longa e bela, e esse é o motivo pelo qual todos nós estamos aqui, para cuidarmos da nossa casa comum e da teia de relações da vida em que todos ganham se formos compassivos e amorosos. Para isso é necessário entregar-se e confiar no mistério, não para explicá-lo, mas para experimentá-lo. Enfim, é preciso buscar…para não cairmos no delírio de Hawkins ou na cilada de Rondha.

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